maio 31, 2005

OS POEMAS DA MINHA VIDA- 2ª SÉRIE (2)

Deixo-vos com mais uma escolha de Diogo Freitas do Amaral. Desta vez só uma: o recordar de um poeta de referência do século XIX. Uma das vozes do Romantismo: Almeida Garrett.

AS MINHAS ASAS

Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

- Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
- Veio a ambição, coas grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voando ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi, entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
- Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena, me caíram...
Nunca mais voei ao céu.


[Almeida Garrett- Porto, 1799-1854]


[Diogo Freitas do Amaral (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol. 3. 2ª ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografia de José Marafona]

Publicado por void em 09:26 PM | Comentários (4)

maio 30, 2005

OS POEMAS DA MINHA VIDA- 2ª SÉRIE (1)

Inicio esta 2ª série de edições de poemas da colecção "Os poemas da minha vida", lançada pelo jornal "Público", com um conjunto de escolhas feitas por Diogo Freitas do Amaral, actual Ministro dos Negócios Estrangeiros. Do prefácio a esta edição (que é já a 2ª), extraio as seguintes palavras:

"Interpretando à letra o mote desta colecção- "os poemas da minha vida"-, não tive qualquer preocupação em seleccionar os melhores poemas, ou os mais representativos, ou os mais louvados pelos especialistas, antes me norteou o propósito, puramente subjectivo, de escolher simplesmente as poesias de que mais gosto. Quer dizer: as que me fazem pensar, as que me fazem sentir, as que me fazem vibrar."

Pois bem, vamos então familiarizar-nos com algumas destas escolhas. Para já, e para um primeiro post, os poemas...

SE

Se és capaz de manter o sangue-frio
enquanto outros à tua volta o estão perdendo
e deitando-se as culpas;

Se és capaz de fiar-te em ti próprio
quando todos duvidam de ti
- e no entanto perdoares que duvidem;

Se és capaz de esperar sem cansar a esperança,
e de não caluniar os que te caluniam,
e de não pagar ódio por ódio
- tudo isto sem dar-te ares de modelo dos bons;

Se és capaz de sonhar
sem que o sonho te domine,
e de pensar, sem reduzir o pensamento a vício;

Se és capaz de afrontar o Triunfo e o Desastre
sem fazer distinção entre estes dois impostores;

Se és capaz de sofrer que o ideal que sonhaste
o transformem canalhas em ratoeiras de tolos;
ou de ver destruído o ideal da vida inteira
e construí-lo outra vez com ferramentas gastas;

Se és capaz de fazer do que tens um montinho
e de tudo arriscar numa carta ou num dado,
e perder, e começar de novo o teu caminho,
sem que te oiça um suspiro quem seguir a teu lado;

Se és capaz de apelar para músculo e nervo
e fazê-los servir, se já quase não servem,
aguentando-te assim quando nada em ti resta,
a não ser a Vontade, que te diz: aguenta!

Se és capaz de aproximar-te do povo e ficar digno,
ou de passear com reis conservando-te humilde;

Se não pode abalar-te o amigo ou inimigo;
se todos contam contigo e não erram as contas;
se és capaz de preencher o minuto que foge
com sessenta segundos de tarefa acertada;

Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
será teu tudo o que nela existe,
e não receies que to tomem...

Mas (ainda melhor que tudo isto)
se assim fores, serás um homem!


[Rudyard Kipling- Bombaim, Índia, 1865-1936]

PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


[Sophia de Mello Breyner Andresen- Porto, 1919-2004]


[Diogo Freitas do Amaral (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol.. 3. 2ª Ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografias de Carlos Morales-Mengotti]


Publicado por void em 07:01 AM | Comentários (7)

maio 29, 2005

UMA HISTÓRIA

Quanto ao segundo texto, eis a minha escolha:

Uma história.
Nem sempre nos conseguimos lembrar daquilo que um dia nos deu um sorriso, e muito menos daquilo que o roubou do nosso rosto. A minha voz está rouca, sinto como um silêncio de ausência, não há vontade de falar. Cerro os dentes e os punhos e procuro o grito, mas fico em silêncio.
Apetece-me um cigarro, mas não adianta procurar nos bolsos do casaco ou nos bolsos das calças. Eu e o tabaco zangámo-nos e cortámos relações. No entanto não o consigo esquecer. Sabia-me bem entupir-me de fumo, sentir o tabaco abrasar-me por dentro, e brincar com o fumo branco, desvanecendo-me junto a ele, perder-me na fumaça como perdido ando em minha cabeça; no que quero; no que ouço; no que quero fazer; no que vejo fugir-me entre os dedos.
Sinto vontade de contar uma histórias sem final feliz; sem princesas nem reis; bruxas ou fadas; sem sonho; sem fantasia nem fábulas, apenas um fundo opaco indefinido, e uma voz rouca e apagada de um locutor de rádio esquecido no meio de sucessivos cigarros e jingles publicitários foleiros.
Uma história sem pés nem cabeça, ausente de nexo, fora das estruturas convencionais e qualquer porra de happy end!
Cerro os dentes e os punhos, fecho os olhos e exorcizo as dores na tua imagem no nosso almoço juntos. O teu sorriso; os teus dedos entrelaçados nos meus, a tua voz... cerro ainda mais os dentes e fecho os punhos ainda com mais força. Estás mais nítida. Procuro agarrar-te e tenho-te em meus braços alguns minutos, algumas horas tão curtas e escassas, que ainda mal te sinto junto a mim, já apenas sinto o teu beijo de despedida, e vejo como o teu carro se afasta em direcção oposta à vontade de ficarmos mais tempo abraçados.
A história baralha-se em si mesma, perde-se no seu sentido oposto e apaga-se num happy end inútil.


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)


Luís: muito obrigada por teres aceite tomar parte desta iniciativa "recheando" os domingos aqui no Abismo. Os teus textos foram muito enriquecedores pelo que possibilitaram de reflexão e, simultaneamente, de evasão para aqueles que por aqui passaram. Julgo que os comentários que foram deixados provaram isso mesmo. Certamente que o que não foi escrito por muitos que leram os teus trabalhos tem também o seu significado em termos de impacto positivo. Os teus textos não passam despercebidos. O que lhes consegues imprimir de muito próprio tornam-nos uma mais-valia incontornável. Um grande beijinho :)
Para a semana... uma convidada. Uma convidada com um outro estilo. O que vos posso dizer para já? ... Nada. Apareçam e revelem-se ;)

Publicado por void em 12:30 PM | Comentários (2)

PORTAS PARA OUTRO LADO...

Porque hoje é o dia de nos despedirmos do Luís, deixo-vos com mais dois textos da sua autoria. Este primeiro chamou-me de imediato a atenção assim que o li: pelo que é no seu conjunto e por cada particular (metafórico) que o vai enriquecendo e particularizando mais e mais. O impacto foi imediato. Leiam agora vocês:

Numas mãos ensanguentadas, um prazer quente de te ver morrer, de ver como os teus olhos ficam secos e suspensos no último rosto que irás ver, o meu. A tua morte entrelaçada nos meus dedos cheira a medo, mistura-se com o teu perfume a campo e príncipios de carne morta. O aroma delicia-me e abre-me o apetite de te matar uma e outra vez. Despedaçar o teu corpo e espalhá-lo pelos cantos da casa como ambientadores com cheiro a morte e pitadas de saudade. Com o teu sangue salpico as paredes dando lugar a um novo género de pintura, talvez um pós modernismo macabro, uma pintura feita de restos de ti. Amputo as mãos do teu cadáver e faço delas maçanetas para as portas da sala escura que tu detestas, aquela sala de paredes negras de humidade com apenas uma cadeira ao centro e uma mesa com um cinzeiro em repouso. Uma janela para o interior do meu próprio inferno pessoal. A tua carcaça irá servir de espanta espíritos...


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em 10:42 AM | Comentários (1)

maio 28, 2005

PENSATEMPOS

Caros colegas:

Este ser híbrido que faço por ser - biólogo e escritor - me tem trazido pouco rendimento em termos de currículo académico e científico (sou hoje, por desejo assumido, uma verdadeira desautoridade científica). Essa condição, porém me tem trazido outras gratificações. O ser de um continente que ainda escuta (África está disponível para conversar até com os mortos) me trouxe um estar mais atento a essas outras coisas que parecem estar para além da ciência. Não temos que acreditar nessas "outras coisas". Temos apenas que estar disponíveis.
E faço aqui, em família, uma confissão: me entristece o quanto fomos deixando de escutar. Deixámos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos. E deixámos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficámos surdos pelo excesso de palavras, ficámos autistas pelo excesso de informação. A natureza converteu-se em retórica, num emblema, num anúncio de televisão. Falamos dela, não a vivemos. A natureza, ela própria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana é não ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas. Falei dos pecados da Biologia. Mas eu não trocaria esta janela por nenhuma outra. A Biologia ensinou-me coisas fundamentais. Uma delas foi a humildade. Esta nossa ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com ela entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras mas em vidas.
A Biologia me alimentou a escrita literária como se fosse um desses velhos contadores não de histórias mas de sabedorias. E reconheci lições que já nos tinham sido passadas quando ainda não tínhamos sido dados à luz. No redondo do ventre materno, já ali aprendíamos o ritmo e os ciclos do tempo. Essa foi a nossa primeira lição de música. O coração - esse que a literatura elegeu como sede das paixões -, o coração é o primeiro órgão a formar-se em morfogénese. Ao vigésimo segundo dia da nossa existência esse músculo começa a bater. É o primeiro som que não escutamos - nós já escutávamos um outro coração, esse coração maior cuja presença reinventaremos durante toda a nossa existência -, mas é o primeiro som que produzimos. Antes da noção da Luz, o nosso corpo aprende a ideia do Tempo. Com vinte e dois dias, aprendemos que essa dança a que chamamos Vida se fará ao compasso de um tambor feito da nossa própria carne.


(Mia Couto- PENSATEMPOS. Edição: Editorial Caminho, 2005. Fotografia de Alberto Monteiro)

Publicado por void em 05:03 PM | Comentários (4)

maio 27, 2005

O GUARDADOR DE REBANHOS (5)

XXX

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.

O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.

Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição.


XXXI

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...

É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me
Porque não me aceito a sério,
Porque só sou essa cousa odiosa, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma...


XLIV

Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa

Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isso significa,
Mas estaco e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme,
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez.


XLVIII

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvores, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.


(Alberto Caeiro- POESIA. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona).


E com mais este conjunto de poemas dou por concluída aquela que é a edição global proposta. Espero que as minhas escolhas vos tenham agradado e estimulado o suficiente para lerem ou relerem Caeiro e... Pessoa. Ambos, num só, portanto. Fiquem bem! :)

Publicado por void em 09:31 PM | Comentários (4)

O GUARDADOR DE REBANHOS (4)

XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...


XXIV

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.


XXVI

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


(Alberto Caeiro- POESIA. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 10:03 AM | Comentários (3)

maio 26, 2005

O GUARDADOR DE REBANHOS (3)

VII

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver o universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


X

"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"

"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"

"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."

"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."


XI

Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.


XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhaninha cedo, pela estrada,
E que para de onde vem volta depois,
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelos brancos...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Ou então faziam de mim qualquer coisa diferente
E eu não sabia nada do que de mim faziam...
Mas eu não sou um carro, sou diferente,
Mas em que sou realmente diferente nunca me diriam.


XXVIII

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a àgua por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...


(Alberto Caeiro- POESIAS. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 08:20 AM | Comentários (1)

maio 25, 2005

O GUARDADOR DE REBANHOS (2)

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, é como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.


(Alberto Caeiro- POESIAS. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 10:34 PM | Comentários (3)

O GUARDADOR DE REBANHOS (1)

Inicio hoje a edição de alguns dos poemas que compõem a obra "O guardador de rebanhos" de Alberto Caeiro. Os poemas apresentados justificam-se pela preferência que tiveram da minha parte e pela vontade de a partilhar convosco. Claro que, independentemente da selecção por mim efectuada, tal não deve excluir a leitura da totalidade dos poemas, todos, de uma grande qualidade.
Inicio, então da seguinte forma:

I

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr so sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no seu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira prelitecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.


II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se faz para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...


(Alberto Caeiro- POESIA. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 09:33 PM | Comentários (2)

maio 24, 2005

A METADE PERDIDA DE NÓS PRÓPRIOS

Como segunda re-edição um outro excerto de "A insustentável leveza do ser" de Milan Kundera. Amar (determinado tipo de Amor) é o tema. Mas também, o reencontro connosco próprios, no âmbito de uma essência (naturalmente) rica e complexa.

[Tomas] Lembrou-se do célebre mito do Banquete de Platão: dantes, em tempos muito recuados, os humanos eram hermafroditas e Deus separou-os em duas metades, que, desde então, erram pelo mundo à procura uma da outra. Amar é desejar essa metade perdida de nós próprios.
Admitamos que assim seja; que cada um de nós tenha algures no mundo um par com o qual constituía em tempos um único corpo.

(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER. Fotografia de Misha Gordin)


Publicado por void em 09:02 PM | Comentários (2)

OS PLENOS QUE NÃO AJUDAM

Regresso com uma re-edição. Uma re-edição de um excerto de uma obra de Oscar Wilde. Um excerto que certamente espelhará muitos de nós, em particular, o que pensamos, testemunhamos ou mesmo vivemos. Mais ou menos, é certo. Mas espelhará. E porque assim é, vejamos:

A moral não me ajuda. Nasci antinomista. Sou dos que foram feitos para as excepções, não para as leis. Mas enquanto vejo que nada há de mal naquilo que se faz, vejo que há qualquer coisa de errado naquilo em que nos tornamos. Ainda bem que o aprendi.
A religião não me ajuda. A fé que outros têm no que é invisível tenho eu naquilo que se pode ver e tocar. Os meus deuses moram em templos feitos pelo homem e o meu credo torna-se perfeito e completo dentro do círculo dos conhecimentos actuais. Credo talvez demasiado completo, pois como muitos daqueles ou todos que colocaram o Céu nesta terra, eu encontrei nela não só a beleza do Céu mas também o horror do Inferno. Quando penso na religião sinto que gostava de fundar uma ordem para os que não podem crer. Designar-se-ia Confraria dos Órfãos. No altar, sem velas, um padre em cujo coração não morava a paz, celebraria com pão profano e com cálise sem vinho. (...)
A razão não me ajuda. Diz-me que as leis que me condenaram estão erradas e são injustas; e o sistema sob o qual tenho sofrido é errado e injusto. Mas, de qualquer forma, tenho de fazer que estas coisas se tornem justas e certas para mim. E, exactamente como na Arte, em que só nos importamos com uma determinada coisa num determinado momento, assim também acontece com a evolução moral do nosso carácter. Tenho de fazer que tudo o que aconteceu se torne num bem para mim. (...) Não há uma única degradação do meu corpo que eu não deva tentar transformar em espiritualização da alma.

(Oscar Wilde- DE PROFUNDIS. Fotografia de Misha Gordin)

Publicado por void em 08:35 PM | Comentários (4)

maio 20, 2005

OS POEMAS DA MINHA VIDA (3)

O poema de hoje é da autoria de David Mourão-Ferreira. O poema que escolhi para concluir esta primeira exposição de poemas relevantes na vida de outros (neste caso, de Mário Soares) e, de certa forma, também na minha. Apreciem-no pois a sua mensagem só mas só o justifica.

PRESÍDIO

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


(David Mourão-Ferreira, 1927-1996)


[Mário Soares (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol. 1. 2ª Ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografia de José Marafona]


Pela necessidade que tenho de me debruçar sobre outro tipo de leituras e de me concentrar redobradamente a outros níveis, vou tirar uns dias de férias aqui no Abismo. Mas volto. Volto, para continuar a edição de mais poesia (tal como ontem disse) e para dar corpo a outras ideias que tenho para este espaço. Até lá, fiquem bem :)

Publicado por void em 07:21 AM | Comentários (8)

maio 19, 2005

OS POEMAS DA MINHA VIDA (2)

Deixo-vos com mais três poetas/três poemas seleccionados por Mário Soares e que me agradaram particularmente:

A HISTÓRIA DA MORAL

Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.


(Alexandre O' Neill- 1924-1986)


LIVRO DE HORAS

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E o das ternuras lúcidas e mansas.
A de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem
De ser um anjo caído
Do tal céu que Deus governa.
De ser um monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!


(Miguel Torga, 1907-1995)


LIBERDADE

Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.


(Armindo Rodrigues, 1904-1993)


[Mário Soares (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol. 1. 2ª ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografia de José Marafona]


O poema de Armindo Rodrigues, dedico-o a alguém que amo muito. Para ti meu amor, este poema é como a(quela) rosa que reforça uma ideia que tenho de/para ti e que se concretiza/vai concretizar muito em nós e no futuro que queremos. Beijo grande :)

Publicado por void em 09:08 PM | Comentários (1)

OS POEMAS DA MINHA VIDA (1)

No Sábado passado o jornal "Público" fez-se acompanhar pelo 1º volume da colecção "Os poemas da minha vida" (2ª edição), correspondendo este a um conjunto de poemas compilados por Mário Soares. Evidentemente que, pela minha parte, a leitura dos mesmos não poderia deixar de ser feita, assim como o completar da colecção de acordo com as saídas a verificar.
Pela importância e qualidade do projecto editorial, pelas pessoas convidadas para darem o seu contributo e pela variedade de nomes de poetas (nacionais e estrangeiros) escolhidos, não tive dúvidas em convosco fazer tal partilha, trazendo aqui alguns desses poetas e suas produções.
Hoje e amanhã apresentar-vos-ei algumas das escolhas de Mário Soares e ao longo das próximas semanas, escolhas de outras personalidades da sociedade portuguesa.
Porque em tudo isto é também o meu gosto pessoal que está em causa, espero que gostem dos poemas que aqui são/serão editados. E começando já, eis os seguintes:

NOVA, NOVA, NOVA, NOVA

Não era a minha alma que queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma altura nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter...
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!


(Irene Lisboa, 1892-1958)


ESTA GENTE/ESSA GENTE

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente


(Ana Hatherly- 1929- )


NÃO POSSO ADIAR O CORAÇÃO


Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


(António Ramos Rosa, 1924- )


[Mário Soares (comp.)- Os poemas da minha vida. Vol. 1. 2ª ed. Lisboa: Público, 2005. (Col. "Os poemas da minha vida). Fotografia de José Marafona]

Publicado por void em 07:15 PM | Comentários (1)

maio 18, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (5)

Sei, sim, que te assusto, insinuas que faço da cama o princípio e o fim da vida, e que o teu corpo é o evangelho sobre o qual se constroem as palavras habitadas em mim pela primeira vez. Se é assim, toma-me como sou. Transige com a minha volúpia. Aceita viver com uma mulher perdida no pecado de amar. Ah, hás de dizer, até tu falas em pecado? Sim, falo, cometo, vivo, devoro, e quero. E que tens tu com isso? Pecado é a tua boca, o teu sexo, o teu peito, os teus pêlos, a testa franzida quando vais gritar de gozo. O que querias, que jamais tivesse exergado o teu rosto quando me amas, só porque, perdida de amor, devia estar ocupada com o próprio prazer?
Ingênuo, tolo, amante amado, que se perde em mim com a mesma inconsequência com que já se perdeu em outras. É tão fácil assim o teu prazer, e o compras assim tão leviano só porque ele te vem farto, sem outro sacrifício que a perda de certa energia? Te odeio e te condeno ao inferno. Não te quero mais ver, não me venhas mais à porta, ajoelhado e trazendo migalhas de pão entre os dedos.
E devolve-me os bilhetes que te enviei quando o meu corpo esvaiava-se pela tua ausência. Só não me devolvas, por favor, o amor que me tens ainda. Porque sei que me amas. Amas mais que sabes. E se não sabes, aqui estou para te recordar. Nunca mais hás de ser de outra mulher. Não ousarás ocupar-te com outra a ponto de não levantares da mesa a minha entrada, dá-me o braço e juntos sairmos logo que eu emita os meus sinais.
Lembras-te do que disse um dia? Hás de ser meu até não saberes mais amar, até que, envelhecido, teu corpo já não responda à memória do nosso amor, pois ainda assim sigo ao teu lado te amando, te fazendo recordar com minúcias o arrebato que ambos provamos, o sal jogado sobre os nossos corpos para exalarem aquela essência que nos volatizava mas também nos prendia à terra para vivermos com a carne um ritual iluminado, nossas peles cobertas de folhas, musgos e aranhas.
Ah, amado, volta depressa, antes que outras cartas te persigam, e fique a vida difícil para nós! Ou será que para gente da nossa raça a vida é sempre agreste, arcaica, perplexa, diante das premências do próprio amor? Amar é um dos rostos da nossa gente, tu me disseste e eu acreditei. Amar, sim, tem o gosto da maré, o tempo da maré, amar é estar onde a maré ainda não se encontra enquanto cumpre a sua agonia repartida entre as diferentes regiões do oceano.
Volta, porque te espero. E se voltares, que fiques sempre comigo. Não prometo comportar-me a ponto de que vivas o amor com suavidade. Não sou amena, mas estou viva, viva para enlaçar, ir tão fundo no teu corpo para que fechando os olhos suspiremos de modo a que não me ouças, de modo a que também eu, com a minha veracidade, não possa com um só golpe invadir o teu enigma. Amanhã te escreverei, de novo capítulo ante o meu amor.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)


E eis que dou por encerrado mais este período de Literatura Erótica. Com este excerto final do conto (muito intenso) de Nélida Piñon, assim é. Pessoalmente julgo que foi um bom conto para a conclusão deste bloco de edições. Quando o li pensei-o de imediato para este tipo de colocação. Espero que tenha sido do vosso agrado e que o percurso feito (iniciado com Maria Teresa Horta e concluído com Nélida Piñon) tenha sido suficientemente significativo para vos... atrair. Beijinhos para todos :)

Publicado por void em 07:51 PM | Comentários (1)

O REVÓLVER DA PAIXÃO (4)

Por favor, jura que voltarás, empenha a tua honra que serás meu e de mais ninguém. Se me negas o pedido, eu me vingo, abro minhas pernas para o teu inimigo, convidarei o desafeto a comer minhas carnes com garfo e faca e que divulgues entre amigos, e perto da tua consciência, o sabor de sal da minha pele e como o meu suor arrasta ainda o teu cheiro.
Não me julgues louca, julga-me apenas capaz de lutar pela tua volta. Empenho toda a terra nesta disputa, empenho o meu futuro, e o teu também. O que eu fizer, hás de fazer junto. Tenho ódio em mim bastante para nós dois, e se tenho amor bastante para nós dois, não quero que seja assim. O meu amor que é tanto e sufoca-me exige o teu para nutrir-se do próprio exagero. Eu te amarei até ao fim da minha vida. E a minha vida, amor, será curta se não voltares. Será tão curta que terás medo. Pois nunca saberás se me mato, se te mato, se aniquilo nós dois na mesma rodada de bebida.
E não adianta fugir, em algum lugar eu te alcanço. De nada serve ir para São Paulo. Simular uma ida a Petrópolis, enquanto te refugias na Bahia. Meus cães perdigueiros sempre te encontraram. Terminavas rindo mesmo com o coração cheio de pedregulhos e galhos ariscos. Me dizias: a tua loucura é a semente mais saudável do teu corpo. Ríamos juntos e riremos muito ainda, eu te prometo.
Escreve-me logo, mesmo que não estejas em casa ao chegar esta carta. Escreve-me de onde estiveres, porque onde quer que estejas a minha falta deve doer-te a ponto de já estares vindo ao meu encontro, ou de tomares da caneta e escreveres as palavras certas. Se não quiseres pensar muito, diz como da outra vez, tenho tuas palavras em fogo no meu coração: eu te amei com o fervor das grandes estações humanas, eu te amei com a contorção da morte, amei com o medo de perder-te, mas permite-me agora amar-te com o impulso da vida selvagem, desregrada, sem outro modelo que o do próprio amor.
O bilhete guardei grudado ao peito durante muito tempo. Tu protestavas, que ridículo, desfaz-te dele, ao menos esconde-lo em lugar que não padeça deste teu calor de loba faminta. Mas eu sou a tua loba, eu disse rindo para que não me levasses a sério. De nada servia enganar-te. Sempre temeste a minha fome. Uma fome que me levava a dar-te dentadas, a deslizar pelo teu corpo quente quando estavas morto, sem arrebato, e eu ainda te queria agonizante. Bastou-me, porém, suspeitar que me traías com um olhar destinado a outra, para arrancar do seio o bilhete e comê-lo à tua frente, diante dos teus amigos, só para te humilhar.
Tu trataste de distrair a todos. Pediste-me, por favor, não lutemos numa arena que não é nossa. Só aceito combate no quarto que consagrou o nosso amor. As palavras foram ao coração. Tu és sempre covarde quando me vês destemida. Me subornas para que eu me apazigue. E lances a corda com que te resgates dos vendavais, salvar-te para o destino da paixão.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em 07:05 AM | Comentários (6)

maio 17, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (3)

Ah, amor, errei ontem à noite! Mas de que serve confessar o arrependimento, se só me arrependo para te distrair e ter-te novamente? Se logo errarei outra vez, e um próximo dia me verás enlouquecida com a tua possível perda. E então não medirei palavras, não controlarei a violência do meu corpo quando ameaçado. A verdade é que a tua perda me ameaça. A tua perda é uma sentença de morte. Morte que não suporto, não permito. Teu dever é amar-me, é continuar na minha cama, na minha vida, na minha memória. Na memória que projeta teus mil retratos tirados ao longo da vida que nos atou com cordas e arame.
Sei que repeles estas confissões que cobram um calendário vencido, sem cais e âncora a que te agarrar. Mas hei de falar enquanto os meus soluços te proclamem. És meu prisioneiro como sou a masmora em que estou mergulhada pela força do bem-querer. Que digo, bem-querer? Ah, amado, eu já te quis na primeira noite! Não tens o direito de esquecer, ainda que não me queiras reproduzindo os arrebatos que talvez hoje já não sintas. Mas eu não sou apenas memória, também sou a dispersão. Pois sempre que relembro as noites sucedidas sem fim, desfaço-as de modo a crer que não existiram. Isto é, não existiram porque foram insuficientes, aqui estou a exigir outras noites que nos regalaremos, logo superada a amargura que nos separa agora.
Tu me beijaste no ouvido, lembras-te? Tua língua me falava sem som, cada palavra em silêncio era o trabalho da tua língua revelando a verdadeira linguagem do homem. Talvez o que eu relate agora só esteja inventariando a minha vida, e não a tua. Não queres mais saber do próprio corpo que se conheceu em mim até o amanhecer. Me proíbes dizer que a vida te chegou porque também a vida chegava em mim. Mas, porque não aceitas que me amas, que me queres perder por despeito, por conta da minha arrogância, só porque proclamo o teu amor sem medir as consequências, porque atraso a tua vida com explicações que te atormentam, porque antes mesmo que me digas o quanto me amas já estou aos teus pés dizendo primeiro que sou quem te ama melhor e mais forte.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em 06:57 AM | Comentários (10)

maio 16, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (2)

Vamos, covarde, volta depressa. Não quero mais perder o espectáculo desse amor que diariamente me derruba, porque é desse jeito que mastigo da tua comida. E se agora te escrevo, é para que me escutes, e não penses livre. Porque onde venhas a estar, irei atrás. Meu corpo identifica o teu cheiro acre-doce pela manhã. Quantas vezes te lavei o sexo e tu te deixaste acariciar como se fosse meu dever rejuvenescer-te a cada dia, quem melhor que as minhas sagradas mãos conhecem o teu segredo, as palpitações da tua carne, o modo firme e cego como que te ergues e vens a mim. Não te creias livre, a vida não é tua. A tua vida é minha porque me perdi em ti, em cada palavra que disseste e me conquistaste.
De nada serve que me poupes agora verdades cruas, só porque me pensas incapaz de abrigá-las. Se queres proclamar que não me amas mais, eu ouvirei. Ouvirei aos gritos, de tal modo gritarei que cada palavra destinada a mim crerás dita por mim a ti. Te sentirás perdido, abandonado, sem o meu amor. Experimentarás na própria carne a perda do amor único, único porque é único no único instante em que se está vivendo. E te jogarás sobre o leito, e nu, explêndido, me atrairás dizendo não quereres novamente ser meu, acaso sobreviverás sem o gozo que é a única viagem atlântica que se vive e nos naufraga? Esquecido, porém, de que tu, sim, és o barco carecendo das águas, e que sou a água em que mergulharás sem rota, sem mapa, pois não há mapa para o amor, amor.
Não sabes então que me amas, amas muito mais que podes saber? Amas mesmo sem o socorro da tua consciência. E, se não me amas com a paixão do meu amor, te ensinarei novamente a amar-me. Não te peço tempo, dias, horas. Sou mulher das longas estações. Serei verão quando exigires calor. Não, não rias. Não venhas cobrar-me teorias feministas. Tenho-as prontas para a vida, recém-começo a dominar um vocabulário que antes era só de tua lavra. E que mais pode oferecer-me uma ideologia senão o direito de perder-me no desvario a cobrar o amor que sei meu.
Por favor, cede-me o teu tempo. Cede-me o teu corpo novamente. No leito, ou na natureza crua. Ou no bar em que estiveres agora. Onde eu chegando logo faríamos amor com o meu olhar de espinho. Amor se faz na esquina com a multidão dispersa em torno. Eu não te amo só com o ímpeto da carne. Também te quero com a minha boca distante, falando, te enunciando, pronunciando o teu nome. Teu nome é meu ato de amor. Teu nome é o espasmo de que padece o meu sexo.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em 08:25 PM | Comentários (2)

O REVÓLVER DA PAIXÃO (1)

A escritora que vai encerrar mais esta iniciativa de divulgação de Literatura Erótica é Nélida Piñon. Nélida, nasceu no Rio de Janeiro e o seu primeiro romance data de 1961. É catedrática da Universidade de Miami desde 1990, tendo sido escritora-visitante da Universidade de Harvard, de Columbia, de Georgetown e Johns Hopkins. Tem colaborado em diversas publicações quer do Brasil quer de outros países. Tem sido igualmente premiada em vários países. Em 1996 tornou-se a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e recebeu já o título de "doctor honoris causa" das Universidades de Poitiers, Santiago de Compostela, Rutgers e Florida Atlantic.
Quanto ao seu contributo para a antologia em destaque, eis o primeiro excerto de "O revólver da paixão":

Eu sei que errei, mas não me deixes agora. Eu protestei contra o que me parecia tua culpa. Tu me olhaste afiando os olhos no meu rosto. Me senti retalhada, diferente das vezes em que me cortaste e não sofri. Bem ao contrário, a carne me sorria, eu deixava que tu me tivesses, porque a carne era a minha alma.
Por favor, compreende o meu ciúme, é ele, voraz e nervoso, que me proíbe liberar o teu corpo para os corpos inimigos. E aconselhas-me a matar-te. Mas matar com cuidado de ourives traçando mil desenhos em tua carne para que mesmo morto deixes o mundo enfeitado com o meu estigma.
Meu Deus, sei que prometi controlar-me. Não te seguir mais. Deixar-te livre para a vida. Mas que vida é esta que tu reclamas onde eu não ocupo a maior porção? Como podes pensar que aguento ver-te tragando vida sem que eu passe pela tua boca, te beije, te lamba, e tu sorrias ligado à terra, porque sou o teu húmus, o teu esperma, eu sou o teu membro, eu sou tu.
Não, não reclames, tu me queres assim mesmo, ainda que selvagem eu te cause medo, ameace a tua liberdade. Ou me querias selvagem só na cama? E no espaço da vida me exijas atada por tuas próprias mãos? Mas eu me rebelo. Ou serás só meu, ou te mato. Não, eu não quero te matar, como haveria de viver sem a tua alegria, o modo como despertas jovem e jubilado. Eu te tomo nos braços, sou tão ansiosa, tão perdida na própria paixão. Tu brincas comigo, dizes que não tomo jeito, mas tu estás povoado de orgulho do mesmo modo como te povôo de lendas. Eu te enfeito com histórias que ninguém, senão eu, li em ti. Tu sabes o poema que farei amanhã, a palavra que perderei no futuro se me escapas agora. Não te autorizo a deixar-me. Ouviste o que eu disse? Não te dou licença de passear pela terra, de ter um futuro em que eu não esteja inteira.
Ah, meu corpo amado, eu te desejo! E te desejo mais do que nos perdermos no leito que vem sendo nosso há dois anos. Uma agonia que recolho com a minha boca e mastigo com os meus dentes. Eu te mastigo, eu te como, eu te rasgo como tu me rasgas, me gritas, me amas. Às vezes, penso que tu me amas fraco, que o teu corpo é menos vigoroso que o meu. O meu se aprimora pelo próprio amor. É o amor que me faz vencer as madrugadas, te cobrar mais amor que já não queres dar, estás exausto, derrubado, fraco, senil. Não, ergue-te, amor, e me cobre toda, te quero me soçobrando, eu sou uma mina africana, há que ir ao fundo, apalpar no escuro a tua riqueza, coçar a tua aflição, sentir medo. Medo das minhas trevas, pavor dos meus pêlos, temor do meu suor e da minha fragrância.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em 07:07 AM | Comentários (1)

maio 15, 2005

FALA-SE DE QUÊ?

Quanto ao segundo texto do Luís... eis a minha escolha para hoje:

Fala-se do quê?
Às vezes quando se procura contar uma história fala-se do quê? Falamos de nós, falamos de outros, falamos de algo que conhecemos, algo que nos toca, algo que vimos, algo que por nós passou, algo que nos tocou.
Por vezes limitamo-nos a falar e a falar como se falássemos apenas por falar, apenas porque nada mais há a fazer do que perder-nos em monólogos, em blá blá blá que apenas nós entendemos, já que estamos a falar apenas connosco.
Para-se um pouco a coisa, respira-se fundo e começa algo a roer cá dentro, um bichano qualquer que se vai transformando em ideias, e começa a botar discurso por si mesmo. E furiosamente transforma-se um teclado em artefacto de guerra. Bombardeiam-se palavras em rajadas, sendo nós por vezes os únicos feridos das nossas próprias palavras....
Pausa para tabaquear o assunto. Inspira-se lentamente o fumo, e expira-se mais lentamente ainda, fazendo circulos por onde atiramos as frases, as nossas histórias, onde contamos o que somos, quem somos, o que queremos, o que querem daquilo que pensam que somos.
Soltam-se os dias onde somos personagens, actores principais ou de circunstância, por vezes apenas fantasia, por vezes apenas aquela coisa que nos toca ao de leve e nós nem sabemos bem o que é, mas que não conseguimos esquecer que é importante, que faz falta.
Do que falamos então? Fala-se tanto e por vezes nem se diz nada, apenas se fala, joga-se conversa fora, gasta-se latim ( viva a frase cliché!) Falamos de tudo, nós fazemos parte de algo e esse algo tranforma-nos também em histórias. E o que somos nós então? Somos algo do qual alguém um dia falou, somos parte de uma história, somos e fazemos partes do real, do que não é real , e do que se transforma aos poucos em real e irreal.
Somos a nossa própria história por vezes na boca de outros...


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em 07:44 AM | Comentários (4)

A CAIXINHA DE SEGREDOS

Vou editar, hoje, dois textos do Luís Coutinho. Hoje, vai ser um Domingo diferente por isso. Estamos a meio do mês. O autor merece um destaque maior. Um trampolim reforçado para o que ainda por ai vem.
Segue-se o primeiro texto:

Numa caixinha pequena, numa caixinha de madeira comprada na loja dos chineses, guardam-se todos os segredos. Os meus, os teus, os de todos, e também os de aqueles que se esqueceram deles por ai…
Espalho todos eles pelo chão do quarto, entre migalhas que se perderam, entre sombras de pó e vejo tudo o que nunca te contei; aquilo que nunca me disseste; aquilo que os outros já não querem, mas que lhes pertence. Os segredos como brinquedos espalhados trocando-se entre si nas roupas dos seus donos, emprestados num sussurro ao ouvido, numa qualquer pedaço de papel amachucado e amarelecido pelo tempo, escondidos como segredos de bolso, desencontrados entre as suas verdades e menos verdades.
Juras de amor que nunca o foram; medos confessados; a raiz da árvore dos sorrisos, areia da praia dos medos; o bilhete de comboio só de ida para um qualquer amor, rasgado em pedacinhos com manchas de lágrima.
Os seus donos? Eles próprios senhores de si a descoberto, por aquilo que deixaram espalhado por qualquer parte desta pequena caixa aberta no chão de pó e migalhas. Em cada segredo o meu nome e o teu com assinaturas de punho ou letras de forma; nomes deles e delas com letras de chuva; as datas dos seus começos, rastos de vento do dia que se perderam; mapas de caminhos entrecruzados procurando um qualquer lugar com respostas para todas as perguntas. Perfume com aroma a vários tempos, com cheiros que se misturam já quase apagados.
Na caixinha, o rosto de todas as mãos, o selo quebrado com nome de partilha e as marcas de vários dias e noites em todos os lugares daqui e dali e qualquer parte.
Os segredos órfãos sem o serem, filhos de mãe e pai incógnitos procurando-se semelhanças e chorando ou rindo por apenas serem o que são e quem são.
Na caixinha aberta todos eles a espalharam-se com as migalhas e o pó do chão.
Tens segredos para troca?


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em 07:25 AM | Comentários (5)

maio 14, 2005

SÓ SEXO (3)

Saí do consultório e pensei que tinha de te encontrar. Não sabia como. Há pelo menos vinte anos que não tenho o teu telefone. Um dia desisti de ti. Tive medo de deixar de fazer parte do mundo, de continuar sozinha contigo, só sexo. Conheci um homem que seria indigno trair, um homem que me seduziu porque era o oposto de ti. E decidi ser feliz. Sei vagamente onde moras, ou onde moravas, há cerca de cinco anos cruzei-me com a tua mulher numa festa e percebi que ela dizia: "desde o meu divórcio". Claro que podia estar a falar do seu primeiro casamento. Mas como mudou de assunto assim que me viu, pareceu-me que só podia estar a falar de ti. Nunca fomos apresentadas, eu e a tua mulher, ou ex-mulher. Mas eu sei que ela sabe muito de mim. Os olhos da mulher de um homem que nos ama são indiscretos. Também nos olhos dela encontrei o teu amor por mim. Amor não é a palavra exacta. Amor é o que eu sinto pelos meus netos, pelos meus filhos, pelo pai deles, até pelo meu cão. Pobre cão. Se calhar vai deixar de comer quando eu morrer. Vai ficar sentado à porta, esperando por mim até à morte. Os cães não conhecem a morte, por isso podem morrer de amor. Ficam à espera até ao fim, não se deixam consolar.
Tu tens alma de cão vadio, sabes amar sem desconsolo. Se fosses morrer daqui a um mês ou dois, como eu, saberias fazer-te encontrado comigo? Talvez soubesses. Da última vez que te vi - há nove anos, no cinema - aproximei-me para te pedir um cigarro e disse-te, mesmo antes de ti: "Que disparate. Deixaste de fumar há uma semana, bem sei, desculpa". Como é que sabes?" - perguntaste-me, atónito. Sorri, encolhi os ombros, não cheguei a responder-te. Como é que eu sabia? - Ora, como sei tudo de ti. Através dos sonhos. Agora sento-me no café em frente do Ministério, à espera que tu saias e venhas ter comigo. O Ministério mudou de nome, mas de certeza que tu ainda lá trabalhas. Sempre foste um homem de hábitos e nunca cultivaste grandes ambições. Peço uma bica e começo a fazer contas. Oxalá a tua ambição tenha sido pelo menos suficiente para te afastar da pré-reforma. Também não te imagino em casa, a fazer palavras cruzadas o dia inteiro. Do Partido desististe muito antes da moda da renovação.
Cinco e trinta e cinco. Lá vens tu, de pasta na mão, com o mesmo andar sorrateiro, falsamente tímido, de rapaz antigo. Entras no café. Levanto-me. Os teus olhos crescem e iluminam-se para me ver. Acaricias-me o cabelo, e dizes: "Tens outra vez o cabelo muito comprido". Isto é um elogio. Nem tu sabes ainda como me vai ser útil esse teu elogio, nos meses que faltam. Comprarei um cabelo igual para tu veres. Neste, ainda o meu, quero que mexas. Prendo-te a mão ao meu cabelo. Falamos de coisas soltas, bebes uma cerveja, prometes uma vez mais que um dia me ensinarás a gostar de cerveja. Depois pegas na pasta e perguntas se por acaso não quero ir até lá a casa ver umas fotografias dos tempos antigos. Fechas a porta e começas a beijar-me, primeiro os olhos, depois o lóbulo da orelha, depois o pescoço, enquanto os teus dedos me abrem a camisa e me procuram os seios. Beijamo-nos de olhos abertos, como sempre, e é de olhos abertos que procuro cada uma das novidades do teu corpo, os sítios onde a tua pele se dobra, o cheiro agora mais adocicado do teu sexo. Entramos um no outro de olhos abertos, como se mergulhássemos num mar de silêncio e fogo escuro. A meio da noite peço-te que me deixes ficar contigo um mês - "só um mês, prometo. Posso?" Não me respondes, claro. A não ser que os beijos sejam uma resposta, e eu preciso de acreditar que sim. Preciso dessa vida verdadeira que escondi debaixo da tua pele, antes que o cabelo me caia, antes que comecem os enjoos e as dores, antes que o meu corpo seja tomado pelo cheiro miserável da doença. Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só preciso de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo.


(Inês Pedrosa- "Só sexo", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote. Fotografia de Naushér Banaji)


Com este post dou por concluída a edição do conto de Inês Pedrosa. A partir de Segunda-feira um outro será aqui trazido. Mais um, de uma escritora do Brasil. E consigo, o encerrar... ou o ir encerrando de mais este palco de desfile do Erotismo. Do Erotismo, note-se, não estático ou absolutamente definido entre estes e aqueles parâmetros, mas naquela que é/pode ser a sua riqueza/diversidade, como os contos publicados permitiram perceber. E que o último, a sê-lo ainda, contribuirá para sublinhar.

Publicado por void em 08:58 AM | Comentários (5)

SÓ SEXO (2)

Tantas vezes te pedi: "Diz-me que me amas, diz só uma vez. Mesmo que seja mentira. Diz-me. Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essa palavra". Tinha vinte e três anos, e tu tinhas vinte e nove. Depois dos trinta, deixei de te fazer declarações de amor. Julgava-me madura, ardilosa - pensava que bastava prescindir das palavras para não te perder. Mas não eram as minhas palavras que te perdiam. Tu eras um pintor e já não ias ser pintor. Só com o tempo foste lendo o resto, o resto dos restos que era tudo: que eu sabia que tu eras pintor. O artista do meu corpo secreto, uivante, um tecido de fios de luz que só os teus dedos acendiam, e rios, rochas, relvados amaciados pela tua lingua, uma asa à medida do teu voo, uma casa em que tu moravas de todas as maneiras. Falavas pouco, quase nada, por isso me lembro tanto das tuas palavras todas: "Este apartamento já conheço, podemos passar ao outro?", perguntaste. Se eu contasse às minhas amigas que as tuas palavras eram estas, apenas estas, sussuradas com um sorriso trocista de timidez, elas fariam troça de mim. De nós. Por isso contei apenas o essencial: que tu me fazias sentir bela. Que conseguiste que eu me sentisse bela a vida inteira. De cada vez que o espelho me anunciava mais uma marca do tempo, mais uma prega na carne, eu acariciava-a com os teus dedos, sentindo o prazer que tu sentirias, ao descobrires novas rotas no mapa do meu corpo. No início, dizias-me também às vezes: "És tão nova". Não era um elogio; havia um tom de decepção ou desencontro nesse teu comentário. E eu tinha pressa de encarquilhar, de envelhecer até ficar parecida com as mulheres que amaras antes de mim. Nunca me elogiaste. Encontrávamo-nos por causa do Partido, levavas-me para tua casa, com os pretextos mais nevoentos - um debate político na televisão, o ofício que ias entregar ao Ministério -, e quando fechavas a porta começavas a beijar-me. As pálpebras, o lóbulo da orelha, a curva do pescoço ou o espaço entre os dedos. Só sexo. Nunca começavas como nos filmes. Também nunca perguntaste essas patetices deprimentes que as pessoas copiam dos filmes: "Foi bom?".


(Inês Pedrosa- "Só sexo", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 08:14 AM | Comentários (0)

maio 13, 2005

SÓ SEXO (1)

Hoje deixo-vos com Inês Pedrosa. Deixo-vos com a autora de "A instrução dos amantes" (1992), "Nas tuas mãos" (1997), "Fazes-me falta" (2002) e "Fica comigo esta noite" (2003), entre outros trabalhos.
Segue-se "Só sexo", um conto com uma dimensão temporal relativamente alargada (ou mais alargada comparativamente aos contos anteriores). Eis o seu primeiro excerto:

Enquanto os nossos camaradas celebravam nas ruas, nós fabricávamos o amor a partir do zero, no deslumbramento silencioso de um deus que subitamente descobrisse as coisas de que era capaz. Amávamo-nos como se o amor fosse apenas um suplente íntimo dessa revolução que nunca mais chegava. A revolução já tinha chegado, mas nós não sabíamos. Só em Junho de 1974 se lembraram de nós, fechados naquela casa clandestina. Muitas vezes, ao longo da minha vida, desejei que nos tivessem esquecido ali para sempre. Desejo ingrato, infantil. Tive uma vida boa. Consegui ser a advogada que queria ser, cobrar bem aos ricos para defender melhor os pobres. Encontrei um homem que entende o amor como partilha absoluta - nunca senti o peso do trabalho doméstico ou da educação dos filhos. Tive dois filhos que só me trouxeram alegria e serenidade, e tenho já um neto que parece um reclame sobre o brilho da vida. E tive-te, atrás do espelho, todas as manhãs da minha vida. Porque foi sempre para ti que me quis bonita, mesmo nos dias escuros. É em ti que penso, quando escolho a roupa ou escovo o cabelo, todos os dias. Na possibilidade de te encontrar, no acaso de uma esquina. Lisboa é tão grande e tão pequena - porque não havia de te encontrar? Queria ser a mesma, nesse encontro. A mesma, com a luz das rugas que me faltavam no tempo em que nos metíamos por dentro do corpo um do outro como se sozinhos fôssemos apenas pedaços de um corpo mutilado.
Adormeci todas as noites da minha vida nos teus ombros estreitos de adolescente eterno. Nunca foste bonito, mas possuías um não-sei-quê de juventude ancorada que te tornava imediatamente comovente. Usavas e abusavas desse não-sei-quê. Não acreditavas em nada, vivias num aquário de sonhos impossíveis que fazia de ti um anjo negro, abismo de lágrimas congeladas. Eras ardiloso, sorrateiro e impaciente como as crianças; cruzaste-te comigo duas vezes em reuniões de célula e pouco depois fechavam-nos juntos naquela casa clandestina. Nem sob tortura confessarias que tinhas movido os teus cordelinhos para ires viver comigo. Entre o segundo encontro e a nossa definitiva "coincidência no mesmo espaço", como diria a Madalena, perita em justificações espaciais, o teu íntimo amigo António descaíra-se, numa noite de copos. Ralhou-me por causa do meu namorado imberbe e pequeno-burguês e revelou-me que tu me achavas linda e lastimavas que eu nem sequer olhasse para ti. Esta curta e embriagada confissão em diferido mudou a minha vida. Provavelmente encomendaste-a, nunca o cheguei a saber. Quando, há meia dúzia de anos, fui ver o António ao hospital, encontrei-o tão próximo da morte que já não tive coragem de esclarecer os bastidores desta frase minúscula que mudou a minha vida inteira. Não quis que o António percebesse que era ainda para o ouvir falar de ti que precisava dele.
Depois de sairmos de casa, deixaste de me procurar. Creio que te fazias encontrado comigo, mas como eu também me fazia encontrada contigo, nunca cheguei a ter a certeza de que, de facto, me procuravas. Repetir-me-ias muitas e muitas vezes que não eras talhado para a vida conjugal. "Mas nós já vivemos juntos", disse-te eu, uma vez, desesperada. Sorriste, e era um sorriso tão meigo quando sarcástico - ou pelo menos assim me lembro dele: "Só por necessidades imperiosas da revolução". De outra vez disseste-me que, na vida real, eu não aguentaria uma semana contigo. Ou talvez eu tenha inventado que tu me disseste isto. Pouco importa. Posso ter inventado tudo, menos o fulgor perfeito dos nossos corpos juntos. Uma vida inteira não basta para apagar da pele o peso magnífico desse folgor. Só sexo, disseram-me as amigas íntimas, quando eu ainda chorava com elas a saudade do êxtase. Só sexo, fogo e palha, talvez tenham razão. Mas é disso que trata a vida, a minha vida: só sexo. Contigo. O prazer que o meu corpo conhece é o que aprendeu no teu, e foi esse que o meu corpo ensinou aos outros homens, aos vários em que tentou enganar a tua ausência, ao único que soube contornar a tua ausência para permanecer em mim.

Todas as noites me acaricio com os teus dedos, fecho os olhos e sugo os teus dedos sob o contorno dos meus e conduzo-te pelo meu corpo como tu me conduzias. Todas as noites rebolamos da cama para o chão e do chão para cima da cómoda do teu quarto e para a mesa da sala e para as lajes frias da cozinha, todas as noites percorremos abraçados a casa velha onde já não moras, a casa velha que se calhar já se desmoronou sem a nossa ajuda. Todas as noites tu entras em mim por todas as portas, a tua língua silenciosa desperta vertigens desconhecidas nas partes secretas das minhas orelhas e das minhas pernas e dos meus pés. Todas as noites sinto o castanho dos teus olhos grandes dissolvendo-se nos meus com uma felicidade quente, imensa, vejo os teus quadris estreitos de rapaz dançando sobre o redondo do meu ventre, das minhas nádegas, todas as noites os teus dentes mordem o meu pescoço no sítio exacto em que o meu corpo guardava a última fechadura, todas as noites volto a subir a esse monte dos vendavais só nosso. Só sexo, seja.


(Inês Pedrosa- "Só sexo", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Steve Weiss)

Publicado por void em 07:04 AM | Comentários (2)

maio 12, 2005

ANIMAL

A escritora de hoje é originária do Brasil, mais concretamente Fortaleza, no Ceará. Ana Miranda nasceu em 1951 e é autora de vários livros de Poesia, Romance e Contos. Tem recebido vários prémios e a sua obra está traduzida em línguas diversas.
O conto que aqui edito na íntegra- "Animal" é um exemplo do seu trabalho, neste caso, ao nível da expressão do Erotismo.

Ele me ama como se eu fosse um animal de estimação, quer que eu seja pálida e tenha olheiras, não ia se importar nada, uma mulher frágil e macia como se fosse feita de pelúcia, quer as minhas veias aparecendo debaixo da pele branca para ver o avesso do corpo, para ter a sensação de que lhe pertenço, para ser mais fácil me matar, desenha com uma caneta imaginária as veias do meu pulso, como se planejasse um corte diz, Aqui você morreria em apenas três minutos e toca na veia do meu pescoço, Aqui em três segundos, encosta um revólver imaginário em meu seio e diz, Aqui morte instantânea sem dor nem sofrimento e dispara enquanto faz o som do tiro em minha boca, seu corpo dentro do meu, Teu corpo é meu brinquedo, Tenho ciúmes desta tua veia que escreve a letra S, digo, Vou ler o que as tuas veias escrevem, ele diz, escreve na minha coxa com uma caneta imaginária e beija a pele onde é mais branca nas partes de dentro das coxas e nas partes de baixo dos braços. Teu corpo é meu diário, Se algum dia eu te deixar quero que me mates, digo, Eu te quero pálida, obedeço, fico branca, ele faz um corte desde a garganta até o púbis, Eu te amo por dentro, quero ver o teu coração, beijar os teus pulmões, arrancar o teu útero, acariciar as tuas finas e longas clavículas, e passa a medir meu corpo, aos palmos as coxas os braços os quadris, cinco dedos de joelhos oito dedos de altura do pescoço, pede que eu mostre os dentes lá no fundo da boca, a língua, as partes mais vivas, as subterrâneas os fossos os torreões, As tuas jóias, passa a unha na minha pele, segue as veias, formas que nascem do movimento, acompanha as variações do meu rosto e a arquitectura dos pensamentos, desce pelo ombro, nenhuma linha reta, as curvaturas da carne e os drapeados dos cabelos, as sombras azuladas dos domos, as ossaturas suspensas, Teu corpo é minha igreja, o corpo é pleno de revelações religiosas, a imagem de Deus, mas há tantos milhões de enigmas no corpo, ele diz quando estou lânguida e toda lhe pertenço, Olhar é amar, olhando continuamente sabemos o quanto se modifica tua geometria, teu corpo é a minha casa, onde finalmente posso me sentir só.


(Ana Miranda- "Animal", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 07:15 AM | Comentários (4)

maio 11, 2005

MÓNICA (5)

V

Mordeu-o no pescoço a primeira vez que o teve, que o possuiu, como uma vampira delicada e viciosa. Adorou ouvi-lo gemer quando o sangue dele se misturou à sua saliva e o engoliu, com uma sede de rubi.
Uma noite olhou para o espelho onde os corpos de ambos se misturavam, como se não lhes pertencessem e deparou com as asas abertas nas suas próprias costas: pernas translúcidas, de um tom nacarado de pérola; asas subidas sobre os ombros, com um ligeiríssimo brilho, semeadas de secretos diamantes, meio encobertos por uma penugem discreta e dourada. Não parou de se mover em cima dele, quase voando no orgasmo veloz que se construía solto, no centro obscuro do gozo, rasgando resistências, iludindo medos, recusas de fusionamentos destruidores.
Aniquilamento último.
Depois, tombou exausta, como se desmaiasse, cega e sem ouvir, olhos de azul-cobalto, abertos no incêndio que apenas ela distinguia. Assustado, Pedro conseguiu segurá-la antes de Mónica resvalar para o chão, mas de imediato sentiu-lhe de novo os lábios insistentes, a procurá-lo, amordaçando-lhe as perguntas, calando-lhe as dúvidas, derrotando as suspeitas inquietantes.
Fora assim desde o primeiro dia: o total atropelamento das emoções e dos sentidos, o esquecimento dos sentimentos, mas igualmente o fim do terrível fantasma da impotência que até a conhecer tanto o humilhava. - "Vem!", ouviu-a pedir. - "Vem outra vez!" E mais outra e outra vez, numa voragem raivosa.

Os lençóis enrodilhados ficavam no chão quando saíam para o corredor sujo e escuro a cheirar a gordura fria, entranhada, de cozinha mal lavada. Mas os dois sentiam somente o odor a orgasmo que levavam na pele, enquanto a contragosto desciam as escadas, tropeçando na boca um do outro.


(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Vanessa Braun)


E com mais esta parte do Conto apresento a sua conclusão. A sua parte final. O clímax. A explosão dos corpos após o acumular de cargas e cargas e cargas de energia. O fim dos jogos. O explícito e brutalmente sentido. E isto é/foi hoje. Com Maria Teresa Horta, a primeira escritora escolhida e editada. Amanhã há mais. Amanhã o Erotismo continua. E amanhã será a vez de uma escritora brasileira. Aguardem. Garanto-vos desde já: o que por ai vem vai ser igualmente muito forte. Aguardem...


Publicado por void em 07:00 AM | Comentários (6)

maio 10, 2005

MÓNICA (4)

IV

Procurou Pedro à porta do hospital onde sabia que ele trabalhava. E isso fê-la recordar as batas brancas, o microscópio, o sangue, as pequenas lamelas rectangulares, e os frascos de boca larga com rolha de cortiça que chegara a encontrar no frigorífico, frascos onde pedaços de órgãos de pessoas nadavam em formol, à espera que a madrasta os dissecasse, os analisasse. Memória antiga que a nauseou, mas evitando o súbito vómito que se formara na garganta endurecida, a revolver-lhe o estômago.
Afastou-se, espavorida, daquele sítio que recordava, revendo-se criança com tanta precisão que se admirou. Sentia medo só com a ideia de encontrar o pai ou até algum dos seus assistentes, das suas preparadoras de que ainda sabia o nome. - "Na realidade não quero esquecer nada, nem ninguém!" -, pensou. E forçou-se a regressar, ficando à espera que Pedro saísse à hora que lhe havia dito: a bata branca enrolada debaixo do braço, a maleta escura e pesada pendendo da mão direita.
Chamou-o e viu-o fitá-la, furtivo, desagradado de a encontrar ali. Certa de que se dependesse dele a arrancava da sua vida, querendo-a no entanto perto. Desejo ambíguo mas evidente na pressa com que a empurrou para dentro do carro dizendo: - "Vamos!" Voz afogada de ansiedade ao perguntar: "Hoje podes?" Mónica podia sempre, estava sempre disponível para o desejo de ambos, mas respondeu tocando-lhe ao de leve no ombro ossudo que lhe apetecia beijar, descendo a língua até ao lóbulo da orelha, bebendo-lhe o cheiro a suor, aí intenso. E enquanto se encaminhavam para a pensão, mexeu-lhe ao acaso, somente com a ponta dos dedos, demorando-se-lhe nos joelhos, ao longo das costas, na barriga côncava. Na brandura morna da nuca.
Uma das coisas que mais a excitava em Pedro era ser todo liso, escuro e macio, sem um pêlo; apenas o púbis denso formava uma espécie de bosque a entranhar-se, a perder-se fértil e negro entre as coxas alongadas. Gostava de esfregar nele os lábios, molhando-o com saliva, enquanto se debruçava mansamente ouvindo-o gritar baixo, rouco, de olhos fechados, as pestanas compridas e densas a acentuarem as suas fundas olheiras acetinadas.

(Quando ouvia Mahler, revia a indiferença, o afastamento, um soberano desamor a saber a vazio, um total deserto, com um acidulado travo a goivo. Quando ouvia Mahler, encolhida no isolamento de uma sala, na última cadeira da última fila, sem nunca olhar a orquestra, era o que a atingia: o abandono. Esse hábito, esse vício do nada absoluto, a esconder a plenitude.)


(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Vanessa Braun)

Publicado por void em 09:10 PM | Comentários (2)

MÓNICA (3)

III

No dia seguinte procurou-o.
Falou-lhe de Mahler, de Marguerite Duras, de Sylvia Plath, de Anais Nin.
Da loucura feminina.
Da paixão.
De como quando era pequena convivia com os anjos, que lhe apareciam em casa, roçando as paredes, ou perto dos muros, que lambia.
Pedro era médico, céptico, introvertido. Gostava de Mozart, lia Carlos de Oliveira, Alberto Lacerda, Manuel Laranjeira, Camus.
Mónica retornava axaltada a "O Monte dos Vendavais", a "Ariel", a "Orlando", sabendo de cor páginas de "Le Ravissement de Lol. V. Stein". Em certas madrugadas de desespero, revia cenas de "A Dama de Xangai", até desentender a próxima imagem que ali encontrava reflectida, assustada consigo.
Em nada os dois eram parecidos. Quando se entusiasmava a defender uma ideia, uma teoria, uma posição de princípio, ele sorria trocista e ela então teimava em fechá-lo nos seus braços