maio 31, 2005

OS POEMAS DA MINHA VIDA- 2ª SÉRIE (2)

Deixo-vos com mais uma escolha de Diogo Freitas do Amaral. Desta vez só uma: o recordar de um poeta de referência do século XIX. Uma das vozes do Romantismo: Almeida Garrett.

AS MINHAS ASAS

Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

- Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
- Veio a ambição, coas grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voando ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi, entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
- Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena, me caíram...
Nunca mais voei ao céu.


[Almeida Garrett- Porto, 1799-1854]


[Diogo Freitas do Amaral (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol. 3. 2ª ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografia de José Marafona]

Publicado por void em 09:26 PM | Comentários (4)

maio 30, 2005

OS POEMAS DA MINHA VIDA- 2ª SÉRIE (1)

Inicio esta 2ª série de edições de poemas da colecção "Os poemas da minha vida", lançada pelo jornal "Público", com um conjunto de escolhas feitas por Diogo Freitas do Amaral, actual Ministro dos Negócios Estrangeiros. Do prefácio a esta edição (que é já a 2ª), extraio as seguintes palavras:

"Interpretando à letra o mote desta colecção- "os poemas da minha vida"-, não tive qualquer preocupação em seleccionar os melhores poemas, ou os mais representativos, ou os mais louvados pelos especialistas, antes me norteou o propósito, puramente subjectivo, de escolher simplesmente as poesias de que mais gosto. Quer dizer: as que me fazem pensar, as que me fazem sentir, as que me fazem vibrar."

Pois bem, vamos então familiarizar-nos com algumas destas escolhas. Para já, e para um primeiro post, os poemas...

SE

Se és capaz de manter o sangue-frio
enquanto outros à tua volta o estão perdendo
e deitando-se as culpas;

Se és capaz de fiar-te em ti próprio
quando todos duvidam de ti
- e no entanto perdoares que duvidem;

Se és capaz de esperar sem cansar a esperança,
e de não caluniar os que te caluniam,
e de não pagar ódio por ódio
- tudo isto sem dar-te ares de modelo dos bons;

Se és capaz de sonhar
sem que o sonho te domine,
e de pensar, sem reduzir o pensamento a vício;

Se és capaz de afrontar o Triunfo e o Desastre
sem fazer distinção entre estes dois impostores;

Se és capaz de sofrer que o ideal que sonhaste
o transformem canalhas em ratoeiras de tolos;
ou de ver destruído o ideal da vida inteira
e construí-lo outra vez com ferramentas gastas;

Se és capaz de fazer do que tens um montinho
e de tudo arriscar numa carta ou num dado,
e perder, e começar de novo o teu caminho,
sem que te oiça um suspiro quem seguir a teu lado;

Se és capaz de apelar para músculo e nervo
e fazê-los servir, se já quase não servem,
aguentando-te assim quando nada em ti resta,
a não ser a Vontade, que te diz: aguenta!

Se és capaz de aproximar-te do povo e ficar digno,
ou de passear com reis conservando-te humilde;

Se não pode abalar-te o amigo ou inimigo;
se todos contam contigo e não erram as contas;
se és capaz de preencher o minuto que foge
com sessenta segundos de tarefa acertada;

Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
será teu tudo o que nela existe,
e não receies que to tomem...

Mas (ainda melhor que tudo isto)
se assim fores, serás um homem!


[Rudyard Kipling- Bombaim, Índia, 1865-1936]

PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


[Sophia de Mello Breyner Andresen- Porto, 1919-2004]


[Diogo Freitas do Amaral (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol.. 3. 2ª Ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografias de Carlos Morales-Mengotti]


Publicado por void em 07:01 AM | Comentários (7)

maio 29, 2005

UMA HISTÓRIA

Quanto ao segundo texto, eis a minha escolha:

Uma história.
Nem sempre nos conseguimos lembrar daquilo que um dia nos deu um sorriso, e muito menos daquilo que o roubou do nosso rosto. A minha voz está rouca, sinto como um silêncio de ausência, não há vontade de falar. Cerro os dentes e os punhos e procuro o grito, mas fico em silêncio.
Apetece-me um cigarro, mas não adianta procurar nos bolsos do casaco ou nos bolsos das calças. Eu e o tabaco zangámo-nos e cortámos relações. No entanto não o consigo esquecer. Sabia-me bem entupir-me de fumo, sentir o tabaco abrasar-me por dentro, e brincar com o fumo branco, desvanecendo-me junto a ele, perder-me na fumaça como perdido ando em minha cabeça; no que quero; no que ouço; no que quero fazer; no que vejo fugir-me entre os dedos.
Sinto vontade de contar uma histórias sem final feliz; sem princesas nem reis; bruxas ou fadas; sem sonho; sem fantasia nem fábulas, apenas um fundo opaco indefinido, e uma voz rouca e apagada de um locutor de rádio esquecido no meio de sucessivos cigarros e jingles publicitários foleiros.
Uma história sem pés nem cabeça, ausente de nexo, fora das estruturas convencionais e qualquer porra de happy end!
Cerro os dentes e os punhos, fecho os olhos e exorcizo as dores na tua imagem no nosso almoço juntos. O teu sorriso; os teus dedos entrelaçados nos meus, a tua voz... cerro ainda mais os dentes e fecho os punhos ainda com mais força. Estás mais nítida. Procuro agarrar-te e tenho-te em meus braços alguns minutos, algumas horas tão curtas e escassas, que ainda mal te sinto junto a mim, já apenas sinto o teu beijo de despedida, e vejo como o teu carro se afasta em direcção oposta à vontade de ficarmos mais tempo abraçados.
A história baralha-se em si mesma, perde-se no seu sentido oposto e apaga-se num happy end inútil.


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)


Luís: muito obrigada por teres aceite tomar parte desta iniciativa "recheando" os domingos aqui no Abismo. Os teus textos foram muito enriquecedores pelo que possibilitaram de reflexão e, simultaneamente, de evasão para aqueles que por aqui passaram. Julgo que os comentários que foram deixados provaram isso mesmo. Certamente que o que não foi escrito por muitos que leram os teus trabalhos tem também o seu significado em termos de impacto positivo. Os teus textos não passam despercebidos. O que lhes consegues imprimir de muito próprio tornam-nos uma mais-valia incontornável. Um grande beijinho :)
Para a semana... uma convidada. Uma convidada com um outro estilo. O que vos posso dizer para já? ... Nada. Apareçam e revelem-se ;)

Publicado por void em 12:30 PM | Comentários (2)

PORTAS PARA OUTRO LADO...

Porque hoje é o dia de nos despedirmos do Luís, deixo-vos com mais dois textos da sua autoria. Este primeiro chamou-me de imediato a atenção assim que o li: pelo que é no seu conjunto e por cada particular (metafórico) que o vai enriquecendo e particularizando mais e mais. O impacto foi imediato. Leiam agora vocês:

Numas mãos ensanguentadas, um prazer quente de te ver morrer, de ver como os teus olhos ficam secos e suspensos no último rosto que irás ver, o meu. A tua morte entrelaçada nos meus dedos cheira a medo, mistura-se com o teu perfume a campo e príncipios de carne morta. O aroma delicia-me e abre-me o apetite de te matar uma e outra vez. Despedaçar o teu corpo e espalhá-lo pelos cantos da casa como ambientadores com cheiro a morte e pitadas de saudade. Com o teu sangue salpico as paredes dando lugar a um novo género de pintura, talvez um pós modernismo macabro, uma pintura feita de restos de ti. Amputo as mãos do teu cadáver e faço delas maçanetas para as portas da sala escura que tu detestas, aquela sala de paredes negras de humidade com apenas uma cadeira ao centro e uma mesa com um cinzeiro em repouso. Uma janela para o interior do meu próprio inferno pessoal. A tua carcaça irá servir de espanta espíritos...


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em 10:42 AM | Comentários (1)

maio 28, 2005

PENSATEMPOS

Caros colegas:

Este ser híbrido que faço por ser - biólogo e escritor - me tem trazido pouco rendimento em termos de currículo académico e científico (sou hoje, por desejo assumido, uma verdadeira desautoridade científica). Essa condição, porém me tem trazido outras gratificações. O ser de um continente que ainda escuta (África está disponível para conversar até com os mortos) me trouxe um estar mais atento a essas outras coisas que parecem estar para além da ciência. Não temos que acreditar nessas "outras coisas". Temos apenas que estar disponíveis.
E faço aqui, em família, uma confissão: me entristece o quanto fomos deixando de escutar. Deixámos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos. E deixámos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficámos surdos pelo excesso de palavras, ficámos autistas pelo excesso de informação. A natureza converteu-se em retórica, num emblema, num anúncio de televisão. Falamos dela, não a vivemos. A natureza, ela própria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana é não ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas. Falei dos pecados da Biologia. Mas eu não trocaria esta janela por nenhuma outra. A Biologia ensinou-me coisas fundamentais. Uma delas foi a humildade. Esta nossa ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com ela entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras mas em vidas.
A Biologia me alimentou a escrita literária como se fosse um desses velhos contadores não de histórias mas de sabedorias. E reconheci lições que já nos tinham sido passadas quando ainda não tínhamos sido dados à luz. No redondo do ventre materno, já ali aprendíamos o ritmo e os ciclos do tempo. Essa foi a nossa primeira lição de música. O coração - esse que a literatura elegeu como sede das paixões -, o coração é o primeiro órgão a formar-se em morfogénese. Ao vigésimo segundo dia da nossa existência esse músculo começa a bater. É o primeiro som que não escutamos - nós já escutávamos um outro coração, esse coração maior cuja presença reinventaremos durante toda a nossa existência -, mas é o primeiro som que produzimos. Antes da noção da Luz, o nosso corpo aprende a ideia do Tempo. Com vinte e dois dias, aprendemos que essa dança a que chamamos Vida se fará ao compasso de um tambor feito da nossa própria carne.


(Mia Couto- PENSATEMPOS. Edição: Editorial Caminho, 2005. Fotografia de Alberto Monteiro)

Publicado por void em 05:03 PM | Comentários (4)

maio 27, 2005

O GUARDADOR DE REBANHOS (5)

XXX

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.

O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.

Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição.


XXXI

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...

É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me
Porque não me aceito a sério,
Porque só sou essa cousa odiosa, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma...


XLIV

Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa

Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isso significa,
Mas estaco e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme,
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez.


XLVIII

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvores, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.


(Alberto Caeiro- POESIA. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona).


E com mais este conjunto de poemas dou por concluída aquela que é a edição global proposta. Espero que as minhas escolhas vos tenham agradado e estimulado o suficiente para lerem ou relerem Caeiro e... Pessoa. Ambos, num só, portanto. Fiquem bem! :)

Publicado por void em 09:31 PM | Comentários (4)

O GUARDADOR DE REBANHOS (4)

XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...


XXIV

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.


XXVI

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


(Alberto Caeiro- POESIA. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 10:03 AM | Comentários (3)

maio 26, 2005

O GUARDADOR DE REBANHOS (3)

VII

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver o universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


X

"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"

"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"

"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."

"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."


XI

Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.


XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhaninha cedo, pela estrada,
E que para de onde vem volta depois,
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelos brancos...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Ou então faziam de mim qualquer coisa diferente
E eu não sabia nada do que de mim faziam...
Mas eu não sou um carro, sou diferente,
Mas em que sou realmente diferente nunca me diriam.


XXVIII

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a àgua por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...


(Alberto Caeiro- POESIAS. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 08:20 AM | Comentários (1)

maio 25, 2005

O GUARDADOR DE REBANHOS (2)

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, é como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.


(Alberto Caeiro- POESIAS. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 10:34 PM | Comentários (3)

O GUARDADOR DE REBANHOS (1)

Inicio hoje a edição de alguns dos poemas que compõem a obra "O guardador de rebanhos" de Alberto Caeiro. Os poemas apresentados justificam-se pela preferência que tiveram da minha parte e pela vontade de a partilhar convosco. Claro que, independentemente da selecção por mim efectuada, tal não deve excluir a leitura da totalidade dos poemas, todos, de uma grande qualidade.
Inicio, então da seguinte forma:

I

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr so sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no seu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira prelitecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.


II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se faz para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...


(Alberto Caeiro- POESIA. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 09:33 PM | Comentários (2)

maio 24, 2005

A METADE PERDIDA DE NÓS PRÓPRIOS

Como segunda re-edição um outro excerto de "A insustentável leveza do ser" de Milan Kundera. Amar (determinado tipo de Amor) é o tema. Mas também, o reencontro connosco próprios, no âmbito de uma essência (naturalmente) rica e complexa.

[Tomas] Lembrou-se do célebre mito do Banquete de Platão: dantes, em tempos muito recuados, os humanos eram hermafroditas e Deus separou-os em duas metades, que, desde então, erram pelo mundo à procura uma da outra. Amar é desejar essa metade perdida de nós próprios.
Admitamos que assim seja; que cada um de nós tenha algures no mundo um par com o qual constituía em tempos um único corpo.

(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER. Fotografia de Misha Gordin)


Publicado por void em 09:02 PM | Comentários (2)

OS PLENOS QUE NÃO AJUDAM

Regresso com uma re-edição. Uma re-edição de um excerto de uma obra de Oscar Wilde. Um excerto que certamente espelhará muitos de nós, em particular, o que pensamos, testemunhamos ou mesmo vivemos. Mais ou menos, é certo. Mas espelhará. E porque assim é, vejamos:

A moral não me ajuda. Nasci antinomista. Sou dos que foram feitos para as excepções, não para as leis. Mas enquanto vejo que nada há de mal naquilo que se faz, vejo que há qualquer coisa de errado naquilo em que nos tornamos. Ainda bem que o aprendi.
A religião não me ajuda. A fé que outros têm no que é invisível tenho eu naquilo que se pode ver e tocar. Os meus deuses moram em templos feitos pelo homem e o meu credo torna-se perfeito e completo dentro do círculo dos conhecimentos actuais. Credo talvez demasiado completo, pois como muitos daqueles ou todos que colocaram o Céu nesta terra, eu encontrei nela não só a beleza do Céu mas também o horror do Inferno. Quando penso na religião sinto que gostava de fundar uma ordem para os que não podem crer. Designar-se-ia Confraria dos Órfãos. No altar, sem velas, um padre em cujo coração não morava a paz, celebraria com pão profano e com cálise sem vinho. (...)
A razão não me ajuda. Diz-me que as leis que me condenaram estão erradas e são injustas; e o sistema sob o qual tenho sofrido é errado e injusto. Mas, de qualquer forma, tenho de fazer que estas coisas se tornem justas e certas para mim. E, exactamente como na Arte, em que só nos importamos com uma determinada coisa num determinado momento, assim também acontece com a evolução moral do nosso carácter. Tenho de fazer que tudo o que aconteceu se torne num bem para mim. (...) Não há uma única degradação do meu corpo que eu não deva tentar transformar em espiritualização da alma.

(Oscar Wilde- DE PROFUNDIS. Fotografia de Misha Gordin)

Publicado por void em 08:35 PM | Comentários (4)

maio 20, 2005

OS POEMAS DA MINHA VIDA (3)

O poema de hoje é da autoria de David Mourão-Ferreira. O poema que escolhi para concluir esta primeira exposição de poemas relevantes na vida de outros (neste caso, de Mário Soares) e, de certa forma, também na minha. Apreciem-no pois a sua mensagem só mas só o justifica.

PRESÍDIO

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


(David Mourão-Ferreira, 1927-1996)


[Mário Soares (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol. 1. 2ª Ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografia de José Marafona]


Pela necessidade que tenho de me debruçar sobre outro tipo de leituras e de me concentrar redobradamente a outros níveis, vou tirar uns dias de férias aqui no Abismo. Mas volto. Volto, para continuar a edição de mais poesia (tal como ontem disse) e para dar corpo a outras ideias que tenho para este espaço. Até lá, fiquem bem :)

Publicado por void em 07:21 AM | Comentários (8)

maio 19, 2005

OS POEMAS DA MINHA VIDA (2)

Deixo-vos com mais três poetas/três poemas seleccionados por Mário Soares e que me agradaram particularmente:

A HISTÓRIA DA MORAL

Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.


(Alexandre O' Neill- 1924-1986)


LIVRO DE HORAS

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E o das ternuras lúcidas e mansas.
A de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem
De ser um anjo caído
Do tal céu que Deus governa.
De ser um monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!


(Miguel Torga, 1907-1995)


LIBERDADE

Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.


(Armindo Rodrigues, 1904-1993)


[Mário Soares (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol. 1. 2ª ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografia de José Marafona]


O poema de Armindo Rodrigues, dedico-o a alguém que amo muito. Para ti meu amor, este poema é como a(quela) rosa que reforça uma ideia que tenho de/para ti e que se concretiza/vai concretizar muito em nós e no futuro que queremos. Beijo grande :)

Publicado por void em 09:08 PM | Comentários (1)

OS POEMAS DA MINHA VIDA (1)

No Sábado passado o jornal "Público" fez-se acompanhar pelo 1º volume da colecção "Os poemas da minha vida" (2ª edição), correspondendo este a um conjunto de poemas compilados por Mário Soares. Evidentemente que, pela minha parte, a leitura dos mesmos não poderia deixar de ser feita, assim como o completar da colecção de acordo com as saídas a verificar.
Pela importância e qualidade do projecto editorial, pelas pessoas convidadas para darem o seu contributo e pela variedade de nomes de poetas (nacionais e estrangeiros) escolhidos, não tive dúvidas em convosco fazer tal partilha, trazendo aqui alguns desses poetas e suas produções.
Hoje e amanhã apresentar-vos-ei algumas das escolhas de Mário Soares e ao longo das próximas semanas, escolhas de outras personalidades da sociedade portuguesa.
Porque em tudo isto é também o meu gosto pessoal que está em causa, espero que gostem dos poemas que aqui são/serão editados. E começando já, eis os seguintes:

NOVA, NOVA, NOVA, NOVA

Não era a minha alma que queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma altura nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter...
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!


(Irene Lisboa, 1892-1958)


ESTA GENTE/ESSA GENTE

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente


(Ana Hatherly- 1929- )


NÃO POSSO ADIAR O CORAÇÃO


Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


(António Ramos Rosa, 1924- )


[Mário Soares (comp.)- Os poemas da minha vida. Vol. 1. 2ª ed. Lisboa: Público, 2005. (Col. "Os poemas da minha vida). Fotografia de José Marafona]

Publicado por void em 07:15 PM | Comentários (1)

maio 18, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (5)

Sei, sim, que te assusto, insinuas que faço da cama o princípio e o fim da vida, e que o teu corpo é o evangelho sobre o qual se constroem as palavras habitadas em mim pela primeira vez. Se é assim, toma-me como sou. Transige com a minha volúpia. Aceita viver com uma mulher perdida no pecado de amar. Ah, hás de dizer, até tu falas em pecado? Sim, falo, cometo, vivo, devoro, e quero. E que tens tu com isso? Pecado é a tua boca, o teu sexo, o teu peito, os teus pêlos, a testa franzida quando vais gritar de gozo. O que querias, que jamais tivesse exergado o teu rosto quando me amas, só porque, perdida de amor, devia estar ocupada com o próprio prazer?
Ingênuo, tolo, amante amado, que se perde em mim com a mesma inconsequência com que já se perdeu em outras. É tão fácil assim o teu prazer, e o compras assim tão leviano só porque ele te vem farto, sem outro sacrifício que a perda de certa energia? Te odeio e te condeno ao inferno. Não te quero mais ver, não me venhas mais à porta, ajoelhado e trazendo migalhas de pão entre os dedos.
E devolve-me os bilhetes que te enviei quando o meu corpo esvaiava-se pela tua ausência. Só não me devolvas, por favor, o amor que me tens ainda. Porque sei que me amas. Amas mais que sabes. E se não sabes, aqui estou para te recordar. Nunca mais hás de ser de outra mulher. Não ousarás ocupar-te com outra a ponto de não levantares da mesa a minha entrada, dá-me o braço e juntos sairmos logo que eu emita os meus sinais.
Lembras-te do que disse um dia? Hás de ser meu até não saberes mais amar, até que, envelhecido, teu corpo já não responda à memória do nosso amor, pois ainda assim sigo ao teu lado te amando, te fazendo recordar com minúcias o arrebato que ambos provamos, o sal jogado sobre os nossos corpos para exalarem aquela essência que nos volatizava mas também nos prendia à terra para vivermos com a carne um ritual iluminado, nossas peles cobertas de folhas, musgos e aranhas.
Ah, amado, volta depressa, antes que outras cartas te persigam, e fique a vida difícil para nós! Ou será que para gente da nossa raça a vida é sempre agreste, arcaica, perplexa, diante das premências do próprio amor? Amar é um dos rostos da nossa gente, tu me disseste e eu acreditei. Amar, sim, tem o gosto da maré, o tempo da maré, amar é estar onde a maré ainda não se encontra enquanto cumpre a sua agonia repartida entre as diferentes regiões do oceano.
Volta, porque te espero. E se voltares, que fiques sempre comigo. Não prometo comportar-me a ponto de que vivas o amor com suavidade. Não sou amena, mas estou viva, viva para enlaçar, ir tão fundo no teu corpo para que fechando os olhos suspiremos de modo a que não me ouças, de modo a que também eu, com a minha veracidade, não possa com um só golpe invadir o teu enigma. Amanhã te escreverei, de novo capítulo ante o meu amor.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)


E eis que dou por encerrado mais este período de Literatura Erótica. Com este excerto final do conto (muito intenso) de Nélida Piñon, assim é. Pessoalmente julgo que foi um bom conto para a conclusão deste bloco de edições. Quando o li pensei-o de imediato para este tipo de colocação. Espero que tenha sido do vosso agrado e que o percurso feito (iniciado com Maria Teresa Horta e concluído com Nélida Piñon) tenha sido suficientemente significativo para vos... atrair. Beijinhos para todos :)

Publicado por void em 07:51 PM | Comentários (1)

O REVÓLVER DA PAIXÃO (4)

Por favor, jura que voltarás, empenha a tua honra que serás meu e de mais ninguém. Se me negas o pedido, eu me vingo, abro minhas pernas para o teu inimigo, convidarei o desafeto a comer minhas carnes com garfo e faca e que divulgues entre amigos, e perto da tua consciência, o sabor de sal da minha pele e como o meu suor arrasta ainda o teu cheiro.
Não me julgues louca, julga-me apenas capaz de lutar pela tua volta. Empenho toda a terra nesta disputa, empenho o meu futuro, e o teu também. O que eu fizer, hás de fazer junto. Tenho ódio em mim bastante para nós dois, e se tenho amor bastante para nós dois, não quero que seja assim. O meu amor que é tanto e sufoca-me exige o teu para nutrir-se do próprio exagero. Eu te amarei até ao fim da minha vida. E a minha vida, amor, será curta se não voltares. Será tão curta que terás medo. Pois nunca saberás se me mato, se te mato, se aniquilo nós dois na mesma rodada de bebida.
E não adianta fugir, em algum lugar eu te alcanço. De nada serve ir para São Paulo. Simular uma ida a Petrópolis, enquanto te refugias na Bahia. Meus cães perdigueiros sempre te encontraram. Terminavas rindo mesmo com o coração cheio de pedregulhos e galhos ariscos. Me dizias: a tua loucura é a semente mais saudável do teu corpo. Ríamos juntos e riremos muito ainda, eu te prometo.
Escreve-me logo, mesmo que não estejas em casa ao chegar esta carta. Escreve-me de onde estiveres, porque onde quer que estejas a minha falta deve doer-te a ponto de já estares vindo ao meu encontro, ou de tomares da caneta e escreveres as palavras certas. Se não quiseres pensar muito, diz como da outra vez, tenho tuas palavras em fogo no meu coração: eu te amei com o fervor das grandes estações humanas, eu te amei com a contorção da morte, amei com o medo de perder-te, mas permite-me agora amar-te com o impulso da vida selvagem, desregrada, sem outro modelo que o do próprio amor.
O bilhete guardei grudado ao peito durante muito tempo. Tu protestavas, que ridículo, desfaz-te dele, ao menos esconde-lo em lugar que não padeça deste teu calor de loba faminta. Mas eu sou a tua loba, eu disse rindo para que não me levasses a sério. De nada servia enganar-te. Sempre temeste a minha fome. Uma fome que me levava a dar-te dentadas, a deslizar pelo teu corpo quente quando estavas morto, sem arrebato, e eu ainda te queria agonizante. Bastou-me, porém, suspeitar que me traías com um olhar destinado a outra, para arrancar do seio o bilhete e comê-lo à tua frente, diante dos teus amigos, só para te humilhar.
Tu trataste de distrair a todos. Pediste-me, por favor, não lutemos numa arena que não é nossa. Só aceito combate no quarto que consagrou o nosso amor. As palavras foram ao coração. Tu és sempre covarde quando me vês destemida. Me subornas para que eu me apazigue. E lances a corda com que te resgates dos vendavais, salvar-te para o destino da paixão.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em 07:05 AM | Comentários (6)

maio 17, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (3)

Ah, amor, errei ontem à noite! Mas de que serve confessar o arrependimento, se só me arrependo para te distrair e ter-te novamente? Se logo errarei outra vez, e um próximo dia me verás enlouquecida com a tua possível perda. E então não medirei palavras, não controlarei a violência do meu corpo quando ameaçado. A verdade é que a tua perda me ameaça. A tua perda é uma sentença de morte. Morte que não suporto, não permito. Teu dever é amar-me, é continuar na minha cama, na minha vida, na minha memória. Na memória que projeta teus mil retratos tirados ao longo da vida que nos atou com cordas e arame.
Sei que repeles estas confissões que cobram um calendário vencido, sem cais e âncora a que te agarrar. Mas hei de falar enquanto os meus soluços te proclamem. És meu prisioneiro como sou a masmora em que estou mergulhada pela força do bem-querer. Que digo, bem-querer? Ah, amado, eu já te quis na primeira noite! Não tens o direito de esquecer, ainda que não me queiras reproduzindo os arrebatos que talvez hoje já não sintas. Mas eu não sou apenas memória, também sou a dispersão. Pois sempre que relembro as noites sucedidas sem fim, desfaço-as de modo a crer que não existiram. Isto é, não existiram porque foram insuficientes, aqui estou a exigir outras noites que nos regalaremos, logo superada a amargura que nos separa agora.
Tu me beijaste no ouvido, lembras-te? Tua língua me falava sem som, cada palavra em silêncio era o trabalho da tua língua revelando a verdadeira linguagem do homem. Talvez o que eu relate agora só esteja inventariando a minha vida, e não a tua. Não queres mais saber do próprio corpo que se conheceu em mim até o amanhecer. Me proíbes dizer que a vida te chegou porque também a vida chegava em mim. Mas, porque não aceitas que me amas, que me queres perder por despeito, por conta da minha arrogância, só porque proclamo o teu amor sem medir as consequências, porque atraso a tua vida com explicações que te atormentam, porque antes mesmo que me digas o quanto me amas já estou aos teus pés dizendo primeiro que sou quem te ama melhor e mais forte.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em 06:57 AM | Comentários (10)

maio 16, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (2)

Vamos, covarde, volta depressa. Não quero mais perder o espectáculo desse amor que diariamente me derruba, porque é desse jeito que mastigo da tua comida. E se agora te escrevo, é para que me escutes, e não penses livre. Porque onde venhas a estar, irei atrás. Meu corpo identifica o teu cheiro acre-doce pela manhã. Quantas vezes te lavei o sexo e tu te deixaste acariciar como se fosse meu dever rejuvenescer-te a cada dia, quem melhor que as minhas sagradas mãos conhecem o teu segredo, as palpitações da tua carne, o modo firme e cego como que te ergues e vens a mim. Não te creias livre, a vida não é tua. A tua vida é minha porque me perdi em ti, em cada palavra que disseste e me conquistaste.
De nada serve que me poupes agora verdades cruas, só porque me pensas incapaz de abrigá-las. Se queres proclamar que não me amas mais, eu ouvirei. Ouvirei aos gritos, de tal modo gritarei que cada palavra destinada a mim crerás dita por mim a ti. Te sentirás perdido, abandonado, sem o meu amor. Experimentarás na própria carne a perda do amor único, único porque é único no único instante em que se está vivendo. E te jogarás sobre o leito, e nu, explêndido, me atrairás dizendo não quereres novamente ser meu, acaso sobreviverás sem o gozo que é a única viagem atlântica que se vive e nos naufraga? Esquecido, porém, de que tu, sim, és o barco carecendo das águas, e que sou a água em que mergulharás sem rota, sem mapa, pois não há mapa para o amor, amor.
Não sabes então que me amas, amas muito mais que podes saber? Amas mesmo sem o socorro da tua consciência. E, se não me amas com a paixão do meu amor, te ensinarei novamente a amar-me. Não te peço tempo, dias, horas. Sou mulher das longas estações. Serei verão quando exigires calor. Não, não rias. Não venhas cobrar-me teorias feministas. Tenho-as prontas para a vida, recém-começo a dominar um vocabulário que antes era só de tua lavra. E que mais pode oferecer-me uma ideologia senão o direito de perder-me no desvario a cobrar o amor que sei meu.
Por favor, cede-me o teu tempo. Cede-me o teu corpo novamente. No leito, ou na natureza crua. Ou no bar em que estiveres agora. Onde eu chegando logo faríamos amor com o meu olhar de espinho. Amor se faz na esquina com a multidão dispersa em torno. Eu não te amo só com o ímpeto da carne. Também te quero com a minha boca distante, falando, te enunciando, pronunciando o teu nome. Teu nome é meu ato de amor. Teu nome é o espasmo de que padece o meu sexo.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em 08:25 PM | Comentários (2)

O REVÓLVER DA PAIXÃO (1)

A escritora que vai encerrar mais esta iniciativa de divulgação de Literatura Erótica é Nélida Piñon. Nélida, nasceu no Rio de Janeiro e o seu primeiro romance data de 1961. É catedrática da Universidade de Miami desde 1990, tendo sido escritora-visitante da Universidade de Harvard, de Columbia, de Georgetown e Johns Hopkins. Tem colaborado em diversas publicações quer do Brasil quer de outros países. Tem sido igualmente premiada em vários países. Em 1996 tornou-se a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e recebeu já o título de "doctor honoris causa" das Universidades de Poitiers, Santiago de Compostela, Rutgers e Florida Atlantic.
Quanto ao seu contributo para a antologia em destaque, eis o primeiro excerto de "O revólver da paixão":

Eu sei que errei, mas não me deixes agora. Eu protestei contra o que me parecia tua culpa. Tu me olhaste afiando os olhos no meu rosto. Me senti retalhada, diferente das vezes em que me cortaste e não sofri. Bem ao contrário, a carne me sorria, eu deixava que tu me tivesses, porque a carne era a minha alma.
Por favor, compreende o meu ciúme, é ele, voraz e nervoso, que me proíbe liberar o teu corpo para os corpos inimigos. E aconselhas-me a matar-te. Mas matar com cuidado de ourives traçando mil desenhos em tua carne para que mesmo morto deixes o mundo enfeitado com o meu estigma.
Meu Deus, sei que prometi controlar-me. Não te seguir mais. Deixar-te livre para a vida. Mas que vida é esta que tu reclamas onde eu não ocupo a maior porção? Como podes pensar que aguento ver-te tragando vida sem que eu passe pela tua boca, te beije, te lamba, e tu sorrias ligado à terra, porque sou o teu húmus, o teu esperma, eu sou o teu membro, eu sou tu.
Não, não reclames, tu me queres assim mesmo, ainda que selvagem eu te cause medo, ameace a tua liberdade. Ou me querias selvagem só na cama? E no espaço da vida me exijas atada por tuas próprias mãos? Mas eu me rebelo. Ou serás só meu, ou te mato. Não, eu não quero te matar, como haveria de viver sem a tua alegria, o modo como despertas jovem e jubilado. Eu te tomo nos braços, sou tão ansiosa, tão perdida na própria paixão. Tu brincas comigo, dizes que não tomo jeito, mas tu estás povoado de orgulho do mesmo modo como te povôo de lendas. Eu te enfeito com histórias que ninguém, senão eu, li em ti. Tu sabes o poema que farei amanhã, a palavra que perderei no futuro se me escapas agora. Não te autorizo a deixar-me. Ouviste o que eu disse? Não te dou licença de passear pela terra, de ter um futuro em que eu não esteja inteira.
Ah, meu corpo amado, eu te desejo! E te desejo mais do que nos perdermos no leito que vem sendo nosso há dois anos. Uma agonia que recolho com a minha boca e mastigo com os meus dentes. Eu te mastigo, eu te como, eu te rasgo como tu me rasgas, me gritas, me amas. Às vezes, penso que tu me amas fraco, que o teu corpo é menos vigoroso que o meu. O meu se aprimora pelo próprio amor. É o amor que me faz vencer as madrugadas, te cobrar mais amor que já não queres dar, estás exausto, derrubado, fraco, senil. Não, ergue-te, amor, e me cobre toda, te quero me soçobrando, eu sou uma mina africana, há que ir ao fundo, apalpar no escuro a tua riqueza, coçar a tua aflição, sentir medo. Medo das minhas trevas, pavor dos meus pêlos, temor do meu suor e da minha fragrância.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em 07:07 AM | Comentários (1)

maio 15, 2005

FALA-SE DE QUÊ?

Quanto ao segundo texto do Luís... eis a minha escolha para hoje:

Fala-se do quê?
Às vezes quando se procura contar uma história fala-se do quê? Falamos de nós, falamos de outros, falamos de algo que conhecemos, algo que nos toca, algo que vimos, algo que por nós passou, algo que nos tocou.
Por vezes limitamo-nos a falar e a falar como se falássemos apenas por falar, apenas porque nada mais há a fazer do que perder-nos em monólogos, em blá blá blá que apenas nós entendemos, já que estamos a falar apenas connosco.
Para-se um pouco a coisa, respira-se fundo e começa algo a roer cá dentro, um bichano qualquer que se vai transformando em ideias, e começa a botar discurso por si mesmo. E furiosamente transforma-se um teclado em artefacto de guerra. Bombardeiam-se palavras em rajadas, sendo nós por vezes os únicos feridos das nossas próprias palavras....
Pausa para tabaquear o assunto. Inspira-se lentamente o fumo, e expira-se mais lentamente ainda, fazendo circulos por onde atiramos as frases, as nossas histórias, onde contamos o que somos, quem somos, o que queremos, o que querem daquilo que pensam que somos.
Soltam-se os dias onde somos personagens, actores principais ou de circunstância, por vezes apenas fantasia, por vezes apenas aquela coisa que nos toca ao de leve e nós nem sabemos bem o que é, mas que não conseguimos esquecer que é importante, que faz falta.
Do que falamos então? Fala-se tanto e por vezes nem se diz nada, apenas se fala, joga-se conversa fora, gasta-se latim ( viva a frase cliché!) Falamos de tudo, nós fazemos parte de algo e esse algo tranforma-nos também em histórias. E o que somos nós então? Somos algo do qual alguém um dia falou, somos parte de uma história, somos e fazemos partes do real, do que não é real , e do que se transforma aos poucos em real e irreal.
Somos a nossa própria história por vezes na boca de outros...


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em 07:44 AM | Comentários (4)

A CAIXINHA DE SEGREDOS

Vou editar, hoje, dois textos do Luís Coutinho. Hoje, vai ser um Domingo diferente por isso. Estamos a meio do mês. O autor merece um destaque maior. Um trampolim reforçado para o que ainda por ai vem.
Segue-se o primeiro texto:

Numa caixinha pequena, numa caixinha de madeira comprada na loja dos chineses, guardam-se todos os segredos. Os meus, os teus, os de todos, e também os de aqueles que se esqueceram deles por ai…
Espalho todos eles pelo chão do quarto, entre migalhas que se perderam, entre sombras de pó e vejo tudo o que nunca te contei; aquilo que nunca me disseste; aquilo que os outros já não querem, mas que lhes pertence. Os segredos como brinquedos espalhados trocando-se entre si nas roupas dos seus donos, emprestados num sussurro ao ouvido, numa qualquer pedaço de papel amachucado e amarelecido pelo tempo, escondidos como segredos de bolso, desencontrados entre as suas verdades e menos verdades.
Juras de amor que nunca o foram; medos confessados; a raiz da árvore dos sorrisos, areia da praia dos medos; o bilhete de comboio só de ida para um qualquer amor, rasgado em pedacinhos com manchas de lágrima.
Os seus donos? Eles próprios senhores de si a descoberto, por aquilo que deixaram espalhado por qualquer parte desta pequena caixa aberta no chão de pó e migalhas. Em cada segredo o meu nome e o teu com assinaturas de punho ou letras de forma; nomes deles e delas com letras de chuva; as datas dos seus começos, rastos de vento do dia que se perderam; mapas de caminhos entrecruzados procurando um qualquer lugar com respostas para todas as perguntas. Perfume com aroma a vários tempos, com cheiros que se misturam já quase apagados.
Na caixinha, o rosto de todas as mãos, o selo quebrado com nome de partilha e as marcas de vários dias e noites em todos os lugares daqui e dali e qualquer parte.
Os segredos órfãos sem o serem, filhos de mãe e pai incógnitos procurando-se semelhanças e chorando ou rindo por apenas serem o que são e quem são.
Na caixinha aberta todos eles a espalharam-se com as migalhas e o pó do chão.
Tens segredos para troca?


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em 07:25 AM | Comentários (5)

maio 14, 2005

SÓ SEXO (3)

Saí do consultório e pensei que tinha de te encontrar. Não sabia como. Há pelo menos vinte anos que não tenho o teu telefone. Um dia desisti de ti. Tive medo de deixar de fazer parte do mundo, de continuar sozinha contigo, só sexo. Conheci um homem que seria indigno trair, um homem que me seduziu porque era o oposto de ti. E decidi ser feliz. Sei vagamente onde moras, ou onde moravas, há cerca de cinco anos cruzei-me com a tua mulher numa festa e percebi que ela dizia: "desde o meu divórcio". Claro que podia estar a falar do seu primeiro casamento. Mas como mudou de assunto assim que me viu, pareceu-me que só podia estar a falar de ti. Nunca fomos apresentadas, eu e a tua mulher, ou ex-mulher. Mas eu sei que ela sabe muito de mim. Os olhos da mulher de um homem que nos ama são indiscretos. Também nos olhos dela encontrei o teu amor por mim. Amor não é a palavra exacta. Amor é o que eu sinto pelos meus netos, pelos meus filhos, pelo pai deles, até pelo meu cão. Pobre cão. Se calhar vai deixar de comer quando eu morrer. Vai ficar sentado à porta, esperando por mim até à morte. Os cães não conhecem a morte, por isso podem morrer de amor. Ficam à espera até ao fim, não se deixam consolar.
Tu tens alma de cão vadio, sabes amar sem desconsolo. Se fosses morrer daqui a um mês ou dois, como eu, saberias fazer-te encontrado comigo? Talvez soubesses. Da última vez que te vi - há nove anos, no cinema - aproximei-me para te pedir um cigarro e disse-te, mesmo antes de ti: "Que disparate. Deixaste de fumar há uma semana, bem sei, desculpa". Como é que sabes?" - perguntaste-me, atónito. Sorri, encolhi os ombros, não cheguei a responder-te. Como é que eu sabia? - Ora, como sei tudo de ti. Através dos sonhos. Agora sento-me no café em frente do Ministério, à espera que tu saias e venhas ter comigo. O Ministério mudou de nome, mas de certeza que tu ainda lá trabalhas. Sempre foste um homem de hábitos e nunca cultivaste grandes ambições. Peço uma bica e começo a fazer contas. Oxalá a tua ambição tenha sido pelo menos suficiente para te afastar da pré-reforma. Também não te imagino em casa, a fazer palavras cruzadas o dia inteiro. Do Partido desististe muito antes da moda da renovação.
Cinco e trinta e cinco. Lá vens tu, de pasta na mão, com o mesmo andar sorrateiro, falsamente tímido, de rapaz antigo. Entras no café. Levanto-me. Os teus olhos crescem e iluminam-se para me ver. Acaricias-me o cabelo, e dizes: "Tens outra vez o cabelo muito comprido". Isto é um elogio. Nem tu sabes ainda como me vai ser útil esse teu elogio, nos meses que faltam. Comprarei um cabelo igual para tu veres. Neste, ainda o meu, quero que mexas. Prendo-te a mão ao meu cabelo. Falamos de coisas soltas, bebes uma cerveja, prometes uma vez mais que um dia me ensinarás a gostar de cerveja. Depois pegas na pasta e perguntas se por acaso não quero ir até lá a casa ver umas fotografias dos tempos antigos. Fechas a porta e começas a beijar-me, primeiro os olhos, depois o lóbulo da orelha, depois o pescoço, enquanto os teus dedos me abrem a camisa e me procuram os seios. Beijamo-nos de olhos abertos, como sempre, e é de olhos abertos que procuro cada uma das novidades do teu corpo, os sítios onde a tua pele se dobra, o cheiro agora mais adocicado do teu sexo. Entramos um no outro de olhos abertos, como se mergulhássemos num mar de silêncio e fogo escuro. A meio da noite peço-te que me deixes ficar contigo um mês - "só um mês, prometo. Posso?" Não me respondes, claro. A não ser que os beijos sejam uma resposta, e eu preciso de acreditar que sim. Preciso dessa vida verdadeira que escondi debaixo da tua pele, antes que o cabelo me caia, antes que comecem os enjoos e as dores, antes que o meu corpo seja tomado pelo cheiro miserável da doença. Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só preciso de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo.


(Inês Pedrosa- "Só sexo", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote. Fotografia de Naushér Banaji)


Com este post dou por concluída a edição do conto de Inês Pedrosa. A partir de Segunda-feira um outro será aqui trazido. Mais um, de uma escritora do Brasil. E consigo, o encerrar... ou o ir encerrando de mais este palco de desfile do Erotismo. Do Erotismo, note-se, não estático ou absolutamente definido entre estes e aqueles parâmetros, mas naquela que é/pode ser a sua riqueza/diversidade, como os contos publicados permitiram perceber. E que o último, a sê-lo ainda, contribuirá para sublinhar.

Publicado por void em 08:58 AM | Comentários (5)

SÓ SEXO (2)

Tantas vezes te pedi: "Diz-me que me amas, diz só uma vez. Mesmo que seja mentira. Diz-me. Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essa palavra". Tinha vinte e três anos, e tu tinhas vinte e nove. Depois dos trinta, deixei de te fazer declarações de amor. Julgava-me madura, ardilosa - pensava que bastava prescindir das palavras para não te perder. Mas não eram as minhas palavras que te perdiam. Tu eras um pintor e já não ias ser pintor. Só com o tempo foste lendo o resto, o resto dos restos que era tudo: que eu sabia que tu eras pintor. O artista do meu corpo secreto, uivante, um tecido de fios de luz que só os teus dedos acendiam, e rios, rochas, relvados amaciados pela tua lingua, uma asa à medida do teu voo, uma casa em que tu moravas de todas as maneiras. Falavas pouco, quase nada, por isso me lembro tanto das tuas palavras todas: "Este apartamento já conheço, podemos passar ao outro?", perguntaste. Se eu contasse às minhas amigas que as tuas palavras eram estas, apenas estas, sussuradas com um sorriso trocista de timidez, elas fariam troça de mim. De nós. Por isso contei apenas o essencial: que tu me fazias sentir bela. Que conseguiste que eu me sentisse bela a vida inteira. De cada vez que o espelho me anunciava mais uma marca do tempo, mais uma prega na carne, eu acariciava-a com os teus dedos, sentindo o prazer que tu sentirias, ao descobrires novas rotas no mapa do meu corpo. No início, dizias-me também às vezes: "És tão nova". Não era um elogio; havia um tom de decepção ou desencontro nesse teu comentário. E eu tinha pressa de encarquilhar, de envelhecer até ficar parecida com as mulheres que amaras antes de mim. Nunca me elogiaste. Encontrávamo-nos por causa do Partido, levavas-me para tua casa, com os pretextos mais nevoentos - um debate político na televisão, o ofício que ias entregar ao Ministério -, e quando fechavas a porta começavas a beijar-me. As pálpebras, o lóbulo da orelha, a curva do pescoço ou o espaço entre os dedos. Só sexo. Nunca começavas como nos filmes. Também nunca perguntaste essas patetices deprimentes que as pessoas copiam dos filmes: "Foi bom?".


(Inês Pedrosa- "Só sexo", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 08:14 AM | Comentários (0)

maio 13, 2005

SÓ SEXO (1)

Hoje deixo-vos com Inês Pedrosa. Deixo-vos com a autora de "A instrução dos amantes" (1992), "Nas tuas mãos" (1997), "Fazes-me falta" (2002) e "Fica comigo esta noite" (2003), entre outros trabalhos.
Segue-se "Só sexo", um conto com uma dimensão temporal relativamente alargada (ou mais alargada comparativamente aos contos anteriores). Eis o seu primeiro excerto:

Enquanto os nossos camaradas celebravam nas ruas, nós fabricávamos o amor a partir do zero, no deslumbramento silencioso de um deus que subitamente descobrisse as coisas de que era capaz. Amávamo-nos como se o amor fosse apenas um suplente íntimo dessa revolução que nunca mais chegava. A revolução já tinha chegado, mas nós não sabíamos. Só em Junho de 1974 se lembraram de nós, fechados naquela casa clandestina. Muitas vezes, ao longo da minha vida, desejei que nos tivessem esquecido ali para sempre. Desejo ingrato, infantil. Tive uma vida boa. Consegui ser a advogada que queria ser, cobrar bem aos ricos para defender melhor os pobres. Encontrei um homem que entende o amor como partilha absoluta - nunca senti o peso do trabalho doméstico ou da educação dos filhos. Tive dois filhos que só me trouxeram alegria e serenidade, e tenho já um neto que parece um reclame sobre o brilho da vida. E tive-te, atrás do espelho, todas as manhãs da minha vida. Porque foi sempre para ti que me quis bonita, mesmo nos dias escuros. É em ti que penso, quando escolho a roupa ou escovo o cabelo, todos os dias. Na possibilidade de te encontrar, no acaso de uma esquina. Lisboa é tão grande e tão pequena - porque não havia de te encontrar? Queria ser a mesma, nesse encontro. A mesma, com a luz das rugas que me faltavam no tempo em que nos metíamos por dentro do corpo um do outro como se sozinhos fôssemos apenas pedaços de um corpo mutilado.
Adormeci todas as noites da minha vida nos teus ombros estreitos de adolescente eterno. Nunca foste bonito, mas possuías um não-sei-quê de juventude ancorada que te tornava imediatamente comovente. Usavas e abusavas desse não-sei-quê. Não acreditavas em nada, vivias num aquário de sonhos impossíveis que fazia de ti um anjo negro, abismo de lágrimas congeladas. Eras ardiloso, sorrateiro e impaciente como as crianças; cruzaste-te comigo duas vezes em reuniões de célula e pouco depois fechavam-nos juntos naquela casa clandestina. Nem sob tortura confessarias que tinhas movido os teus cordelinhos para ires viver comigo. Entre o segundo encontro e a nossa definitiva "coincidência no mesmo espaço", como diria a Madalena, perita em justificações espaciais, o teu íntimo amigo António descaíra-se, numa noite de copos. Ralhou-me por causa do meu namorado imberbe e pequeno-burguês e revelou-me que tu me achavas linda e lastimavas que eu nem sequer olhasse para ti. Esta curta e embriagada confissão em diferido mudou a minha vida. Provavelmente encomendaste-a, nunca o cheguei a saber. Quando, há meia dúzia de anos, fui ver o António ao hospital, encontrei-o tão próximo da morte que já não tive coragem de esclarecer os bastidores desta frase minúscula que mudou a minha vida inteira. Não quis que o António percebesse que era ainda para o ouvir falar de ti que precisava dele.
Depois de sairmos de casa, deixaste de me procurar. Creio que te fazias encontrado comigo, mas como eu também me fazia encontrada contigo, nunca cheguei a ter a certeza de que, de facto, me procuravas. Repetir-me-ias muitas e muitas vezes que não eras talhado para a vida conjugal. "Mas nós já vivemos juntos", disse-te eu, uma vez, desesperada. Sorriste, e era um sorriso tão meigo quando sarcástico - ou pelo menos assim me lembro dele: "Só por necessidades imperiosas da revolução". De outra vez disseste-me que, na vida real, eu não aguentaria uma semana contigo. Ou talvez eu tenha inventado que tu me disseste isto. Pouco importa. Posso ter inventado tudo, menos o fulgor perfeito dos nossos corpos juntos. Uma vida inteira não basta para apagar da pele o peso magnífico desse folgor. Só sexo, disseram-me as amigas íntimas, quando eu ainda chorava com elas a saudade do êxtase. Só sexo, fogo e palha, talvez tenham razão. Mas é disso que trata a vida, a minha vida: só sexo. Contigo. O prazer que o meu corpo conhece é o que aprendeu no teu, e foi esse que o meu corpo ensinou aos outros homens, aos vários em que tentou enganar a tua ausência, ao único que soube contornar a tua ausência para permanecer em mim.

Todas as noites me acaricio com os teus dedos, fecho os olhos e sugo os teus dedos sob o contorno dos meus e conduzo-te pelo meu corpo como tu me conduzias. Todas as noites rebolamos da cama para o chão e do chão para cima da cómoda do teu quarto e para a mesa da sala e para as lajes frias da cozinha, todas as noites percorremos abraçados a casa velha onde já não moras, a casa velha que se calhar já se desmoronou sem a nossa ajuda. Todas as noites tu entras em mim por todas as portas, a tua língua silenciosa desperta vertigens desconhecidas nas partes secretas das minhas orelhas e das minhas pernas e dos meus pés. Todas as noites sinto o castanho dos teus olhos grandes dissolvendo-se nos meus com uma felicidade quente, imensa, vejo os teus quadris estreitos de rapaz dançando sobre o redondo do meu ventre, das minhas nádegas, todas as noites os teus dentes mordem o meu pescoço no sítio exacto em que o meu corpo guardava a última fechadura, todas as noites volto a subir a esse monte dos vendavais só nosso. Só sexo, seja.


(Inês Pedrosa- "Só sexo", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Steve Weiss)

Publicado por void em 07:04 AM | Comentários (2)

maio 12, 2005

ANIMAL

A escritora de hoje é originária do Brasil, mais concretamente Fortaleza, no Ceará. Ana Miranda nasceu em 1951 e é autora de vários livros de Poesia, Romance e Contos. Tem recebido vários prémios e a sua obra está traduzida em línguas diversas.
O conto que aqui edito na íntegra- "Animal" é um exemplo do seu trabalho, neste caso, ao nível da expressão do Erotismo.

Ele me ama como se eu fosse um animal de estimação, quer que eu seja pálida e tenha olheiras, não ia se importar nada, uma mulher frágil e macia como se fosse feita de pelúcia, quer as minhas veias aparecendo debaixo da pele branca para ver o avesso do corpo, para ter a sensação de que lhe pertenço, para ser mais fácil me matar, desenha com uma caneta imaginária as veias do meu pulso, como se planejasse um corte diz, Aqui você morreria em apenas três minutos e toca na veia do meu pescoço, Aqui em três segundos, encosta um revólver imaginário em meu seio e diz, Aqui morte instantânea sem dor nem sofrimento e dispara enquanto faz o som do tiro em minha boca, seu corpo dentro do meu, Teu corpo é meu brinquedo, Tenho ciúmes desta tua veia que escreve a letra S, digo, Vou ler o que as tuas veias escrevem, ele diz, escreve na minha coxa com uma caneta imaginária e beija a pele onde é mais branca nas partes de dentro das coxas e nas partes de baixo dos braços. Teu corpo é meu diário, Se algum dia eu te deixar quero que me mates, digo, Eu te quero pálida, obedeço, fico branca, ele faz um corte desde a garganta até o púbis, Eu te amo por dentro, quero ver o teu coração, beijar os teus pulmões, arrancar o teu útero, acariciar as tuas finas e longas clavículas, e passa a medir meu corpo, aos palmos as coxas os braços os quadris, cinco dedos de joelhos oito dedos de altura do pescoço, pede que eu mostre os dentes lá no fundo da boca, a língua, as partes mais vivas, as subterrâneas os fossos os torreões, As tuas jóias, passa a unha na minha pele, segue as veias, formas que nascem do movimento, acompanha as variações do meu rosto e a arquitectura dos pensamentos, desce pelo ombro, nenhuma linha reta, as curvaturas da carne e os drapeados dos cabelos, as sombras azuladas dos domos, as ossaturas suspensas, Teu corpo é minha igreja, o corpo é pleno de revelações religiosas, a imagem de Deus, mas há tantos milhões de enigmas no corpo, ele diz quando estou lânguida e toda lhe pertenço, Olhar é amar, olhando continuamente sabemos o quanto se modifica tua geometria, teu corpo é a minha casa, onde finalmente posso me sentir só.


(Ana Miranda- "Animal", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 07:15 AM | Comentários (4)

maio 11, 2005

MÓNICA (5)

V

Mordeu-o no pescoço a primeira vez que o teve, que o possuiu, como uma vampira delicada e viciosa. Adorou ouvi-lo gemer quando o sangue dele se misturou à sua saliva e o engoliu, com uma sede de rubi.
Uma noite olhou para o espelho onde os corpos de ambos se misturavam, como se não lhes pertencessem e deparou com as asas abertas nas suas próprias costas: pernas translúcidas, de um tom nacarado de pérola; asas subidas sobre os ombros, com um ligeiríssimo brilho, semeadas de secretos diamantes, meio encobertos por uma penugem discreta e dourada. Não parou de se mover em cima dele, quase voando no orgasmo veloz que se construía solto, no centro obscuro do gozo, rasgando resistências, iludindo medos, recusas de fusionamentos destruidores.
Aniquilamento último.
Depois, tombou exausta, como se desmaiasse, cega e sem ouvir, olhos de azul-cobalto, abertos no incêndio que apenas ela distinguia. Assustado, Pedro conseguiu segurá-la antes de Mónica resvalar para o chão, mas de imediato sentiu-lhe de novo os lábios insistentes, a procurá-lo, amordaçando-lhe as perguntas, calando-lhe as dúvidas, derrotando as suspeitas inquietantes.
Fora assim desde o primeiro dia: o total atropelamento das emoções e dos sentidos, o esquecimento dos sentimentos, mas igualmente o fim do terrível fantasma da impotência que até a conhecer tanto o humilhava. - "Vem!", ouviu-a pedir. - "Vem outra vez!" E mais outra e outra vez, numa voragem raivosa.

Os lençóis enrodilhados ficavam no chão quando saíam para o corredor sujo e escuro a cheirar a gordura fria, entranhada, de cozinha mal lavada. Mas os dois sentiam somente o odor a orgasmo que levavam na pele, enquanto a contragosto desciam as escadas, tropeçando na boca um do outro.


(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Vanessa Braun)


E com mais esta parte do Conto apresento a sua conclusão. A sua parte final. O clímax. A explosão dos corpos após o acumular de cargas e cargas e cargas de energia. O fim dos jogos. O explícito e brutalmente sentido. E isto é/foi hoje. Com Maria Teresa Horta, a primeira escritora escolhida e editada. Amanhã há mais. Amanhã o Erotismo continua. E amanhã será a vez de uma escritora brasileira. Aguardem. Garanto-vos desde já: o que por ai vem vai ser igualmente muito forte. Aguardem...


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maio 10, 2005

MÓNICA (4)

IV

Procurou Pedro à porta do hospital onde sabia que ele trabalhava. E isso fê-la recordar as batas brancas, o microscópio, o sangue, as pequenas lamelas rectangulares, e os frascos de boca larga com rolha de cortiça que chegara a encontrar no frigorífico, frascos onde pedaços de órgãos de pessoas nadavam em formol, à espera que a madrasta os dissecasse, os analisasse. Memória antiga que a nauseou, mas evitando o súbito vómito que se formara na garganta endurecida, a revolver-lhe o estômago.
Afastou-se, espavorida, daquele sítio que recordava, revendo-se criança com tanta precisão que se admirou. Sentia medo só com a ideia de encontrar o pai ou até algum dos seus assistentes, das suas preparadoras de que ainda sabia o nome. - "Na realidade não quero esquecer nada, nem ninguém!" -, pensou. E forçou-se a regressar, ficando à espera que Pedro saísse à hora que lhe havia dito: a bata branca enrolada debaixo do braço, a maleta escura e pesada pendendo da mão direita.
Chamou-o e viu-o fitá-la, furtivo, desagradado de a encontrar ali. Certa de que se dependesse dele a arrancava da sua vida, querendo-a no entanto perto. Desejo ambíguo mas evidente na pressa com que a empurrou para dentro do carro dizendo: - "Vamos!" Voz afogada de ansiedade ao perguntar: "Hoje podes?" Mónica podia sempre, estava sempre disponível para o desejo de ambos, mas respondeu tocando-lhe ao de leve no ombro ossudo que lhe apetecia beijar, descendo a língua até ao lóbulo da orelha, bebendo-lhe o cheiro a suor, aí intenso. E enquanto se encaminhavam para a pensão, mexeu-lhe ao acaso, somente com a ponta dos dedos, demorando-se-lhe nos joelhos, ao longo das costas, na barriga côncava. Na brandura morna da nuca.
Uma das coisas que mais a excitava em Pedro era ser todo liso, escuro e macio, sem um pêlo; apenas o púbis denso formava uma espécie de bosque a entranhar-se, a perder-se fértil e negro entre as coxas alongadas. Gostava de esfregar nele os lábios, molhando-o com saliva, enquanto se debruçava mansamente ouvindo-o gritar baixo, rouco, de olhos fechados, as pestanas compridas e densas a acentuarem as suas fundas olheiras acetinadas.

(Quando ouvia Mahler, revia a indiferença, o afastamento, um soberano desamor a saber a vazio, um total deserto, com um acidulado travo a goivo. Quando ouvia Mahler, encolhida no isolamento de uma sala, na última cadeira da última fila, sem nunca olhar a orquestra, era o que a atingia: o abandono. Esse hábito, esse vício do nada absoluto, a esconder a plenitude.)


(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Vanessa Braun)

Publicado por void em 09:10 PM | Comentários (2)

MÓNICA (3)

III

No dia seguinte procurou-o.
Falou-lhe de Mahler, de Marguerite Duras, de Sylvia Plath, de Anais Nin.
Da loucura feminina.
Da paixão.
De como quando era pequena convivia com os anjos, que lhe apareciam em casa, roçando as paredes, ou perto dos muros, que lambia.
Pedro era médico, céptico, introvertido. Gostava de Mozart, lia Carlos de Oliveira, Alberto Lacerda, Manuel Laranjeira, Camus.
Mónica retornava axaltada a "O Monte dos Vendavais", a "Ariel", a "Orlando", sabendo de cor páginas de "Le Ravissement de Lol. V. Stein". Em certas madrugadas de desespero, revia cenas de "A Dama de Xangai", até desentender a próxima imagem que ali encontrava reflectida, assustada consigo.
Em nada os dois eram parecidos. Quando se entusiasmava a defender uma ideia, uma teoria, uma posição de princípio, ele sorria trocista e ela então teimava em fechá-lo nos seus braços envolventes, nervosos.
Durante semanas foi esse o jogo: Mónica queria levá-lo para a cama, sem palavras, Pedro escapava-lhe, demorando-se, fingindo ignorá-la, distraído da sua sedução, jamais no entanto a perdendo de vista.
Um dia Mónica fez parar o elevador onde iam sozinhos, ao entreabrir a porta entre dois andares. Empurrou-o em seguida para o tapete, montou-o, e quando Pedro tentou beijá-la, esquivou-se; sentiu-o ceder e riu enquanto lhe afagava o pénis erecto, que primeiro acariciou sem pressa debaixo do tecido das calças, tirando-o só depois para fora, escuro e comprido, tal como o imaginara. Ouviu-o arfar debaixo de si quando lhe fez deslizar o sexo entre as cuecas que puxara para o lado, e o meteu um segundo dentro de si, sem ser até ao fundo.
Depois largou-o, e de um salto fechou a grade do elevador, carregou de novo no botão para continuarem a descer, mal tendo tempo de alisar o cabelo e a saia, e ele de se levantar, aturdido, antes de ela correr para a rua e deixá-lo para trás, parado, respiração cortada.
No dia seguinte Pedro telefonou-lhe para dizer que tudo aquilo era loucura, histeria, perigo, que seria melhor não se tornarem a ver. Nunca mais. Mónica não respondeu e desligou. Era quase noite quando o descobriu sentado numa esplanada da Alameda, o jornal dobrado ao lado da chávena de café por beber. Sentou-se à sua frente e ficaram quietos no final da tarde, escuridade que se ia adensando, agreste. Reparou no seu ar abandonado, a cara estreita de malares salientes, os lábios tão negros que pareciam azulados. Descalçou um dos sapatos e procurou com o pé o calor das suas coxas, apercebendo-se logo do seu recuo, tímido, olhar atento a querer sondar se alguém estaria a dar por aquilo que se passava debaixo da mesa: pé ágil, insistente, descendo e subindo entre as suas pernas.
Sem se importar, Mónica continuou a mover o pé, lentamente: para baixo e para cima, doce, a sentir a aspereza do tecido das calças, a erecção enorme, escaldante. Um arrepio percorreu-a, sabendo-se à beira da perda, da queda.
Encolheu-se.
Desceu a perna e, sem dar explicação alguma, levantou-se. Deixando-o a vê-la afastar-se tão lentamente que dir-se-ia quase sonolenta, podendo parar a cada instante.
Cair.
Pedro ficou à espera que ela resvalasse, tombasse como um pássaro atingido por um tiro. Lembrou-se, então, dos anjos de que a ouvira falar, como se fossem da sua companhia, e surpreendeu-se com isso. Afinal, Mónica nunca parecia levantar voo e sim cair. Como naquele momento, antes de dobrar a esquina, andar inseguro, resvalante, em desequilíbrio.

(Alguns fins de tarde, sozinha em casa, Mónica ouvia Purcell: vozes subindo pelas arcadas do sonho, roçando na pedra das catedrais, ressoando pelas escadarias, no claustro do convento, onde Santa Cecília se unia, num transporte, ao êxtase fantasiado.
Mas acabava por voltar sempre e sempre a Mahler, buscando o cume da sua fulgurante sombra, da sua penumbrosa chama, como se bebesse de um poço profundíssimo, onde o desespero se deixava tocar pelo som harmonioso que se oferecia, relutante. Pelo olhar pleno de lucidez, contendo todas as suspeitas. Todos os equívocos.)


(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Vanessa Braun)

Publicado por void em 06:56 AM | Comentários (1)

maio 09, 2005

MÓNICA (2)

II

Fora Mónica que conquistara Pedro, que o levara para a cama; que o desejara logo, mal o descobrira junto da janela, a olhar o crepúsculo de uma primavera tardia e ventosa, em casa de uns amigos comuns perto da Fonte Luminosa.
Fascinara-a a cor escura da sua pele, o olhar enlanguescido, fugidio, a extrema magreza do corpo alto, a tremura acentuada das mãos longas, o cabelo sedoso, caído sobre a testa.
Primeiro desejou impaciente tocar-lhe o peito, depois imaginou-lhe as nádegas ásperas, os ossos salientes das ancas, o sexo grande. E o seu corpo enrijeceu: os bicos dos seios, a língua, o clítoris, um sumo grosso a formar-se já no interior da vagina. E uma curtíssima vertigem fê-la vacilar um tudo nada, acabando por se encostar no vão da janela onde os dois permaneceram imóveis, sentindo apenas a aproximação um do outro.
Os fluídos um do outro.
Mónica avançou os dedos até ao seu braço apoiado no peitoril estreito e procurou-lhe o calor debaixo da camisa branca que ele usava, indo através do punho lasso sob o qual a mão trepou depois sem custo, vistoriando, a tomar conhecimento da sua temperatura. E ficaram a olhar-se, enquanto o ar parecia tornar-se pastoso e espesso, num tempo que entretanto tinha parado. Viu-o estremecer e afastar-se, esquivo, admirado; como se fugisse, como se não quisesse continuar a ser tocado, tomado, à vista de todos.
Inclinou-se então para a frente, prendendo-o por instantes, puxando-o para si, e curvando-se passou-lhe os lábios pelas pálpebras: uma e depois a outra. Sentindo-lhe pela primeira vez o cheiro a madeira ainda verde e a goivo, tendo no seu crivo um travo mesclado, matizado pela canela.
Sabia que isso a iria enlouquecer.
Pressentindo a vertigem que se aproximava, apoiou-se ao parapeito de mármore, muito pálida, encobertos os dois pelo cortinado espesso, pesado, corrido até meio.

(Mahler. Mónica tentava isolar-se, quando ouvia Mahler: o rosto escondido pelos punhos cerrados, a testa apoiada nas palmas das mãos. Quase gemia, mas ainda calava a suspeita daquilo que no seu coração se acoitava. Mahler.
Os arcanjos sobrevoavam, perto: escutava-lhes o ruído impreciso das asas, a misturar-se, breve, leve, cumprindo destinos. O de Mahler e o seu próprio, ligados apenas por instantes.)


(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Vanessa Braun)

Publicado por void em 08:05 PM | Comentários (8)

MÓNICA (1)

Dou hoje início, e até Quarta-feira, à edição do conto "Mónica", da autoria de Maria Teresa Horta, constante em INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Uma obra cuja 1ª edição saiu para o mercado no passado mês de Março e que reúne dez contos eróticos de escritoras portuguesas e brasileiras, a saber: Ana Miranda (Brasil), Branca Maria de Paula (Brasil), Guiomar de Grammont (Brasil), Inês Pedrosa (Portugal), Lídia Jorge (Portugal), Lygia Fagundes Telles (Brasil), Maria Teresa Horta(Portugal), Nélida Piñon (Brasil), Rita Ferro (Portugal) e Teolinda Gersão (Portugal).
Começando a edição com Maria Teresa Horta, outros contos se seguirão até final da próxima semana. Duas semanas, portanto, de Erotismo com propostas de escritoras do lado de cá e do lado de lá do Atlântico.
Espero que as minhas escolhas sejam/venham a ser do vosso agrado. É evidente que o que eu aqui apresento/apresentarei não se substitui à leitura de toda a antologia, por isso que tudo seja entendido, também, como um despertar para a aquisição da mesma.
Segue então o primeiro conto seleccionado.

I

Mónica gostava que ele lhe metesse as mãos entre as pernas enquanto ainda estava vestida: os dedos a afastarem a seda das meias, a tentarem alargar o cinto de ligas, a deslizarem na pele macia das coxas, a insinuarem-se já pelo caminho dos pêlos até à humidade quente dos lábios grossos, salientes e largos da vagina, onde sentia pulsar um perturbante coração afastado.
Ou uma boca cheia de sede.
Deixava que as pernas subissem, os pés roçando os ombros, mas primeiro como se hesitassem, numa espécie de abraço em torno do pescoço; depois, desciam de novo até aos ombros, abertas. Oferecendo-se, enquanto Pedro começava a lamber-lhe, ao de leve, as virilhas com o seu cheiro a fruto; um pequeno suor salgado a insinuar-se por dentro da saliva, dissolvendo-se na língua. E o sussuro, o gemido, eram tão baixos que ninguém saberia determinar de qual dos dois partiam.
Assim, vestidos.
Desde o princípio, como gostava, logo depois de chegarem ao quarto da pensão pobre por onde ele a arrastava, ambos de respiração suspensa, subindo depressa os degraus da escada nauseabunda, penumbrosa, madeira lascada, gasta pelo tempo. Pedro, excitado, parava a meio para se esfregar nela, e Mónica quase gritava de gozo, prazer que isso despertava nela, curvada sobre o intenso cheiro almiscarado que o pescoço dele guardava, odor a cortar-lhe a respiração, entontecida e sôfrega.
"Não me quero vir já..." murmurava ele a morder-lhe os pulsos febris, breves, algemados pelos seus dedos à parede esburacada. E continuavam subindo a escada, sem fôlego, até ao último andar, patamar onde aparecia uma mulher gorda e pintada, que nas primeiras vezes lhe perguntou a idade - "por causa da polícia...", explicou; mas que nos meses seguintes se limitava a conduzi-los, sem palavras, até ao quarto que lhes alugava, quase vazio. Uma cama, uma cadeira, um candeeiro e um espelho chegavam-lhes durante as horas que ali passavam, nas quais só queriam beber-se, devorar-se um ao outro, misturando os sucos, o cuspo, o prazer, partilhando a posse.
Às vezes Mónica gritava.
Pedro punha-lhe então sobre a boca a palma da mão, que ela mordia, e explodia dentro dela, o corpo muito magro erguendo-se, febril, enquanto a via continuar ainda e ainda revolvendo-se, os dedos excitando-os dentro de si, enquanto se ia masturbando ao mesmo tempo.

(Escutava Mahler quando anoitecia.
Enovelada, curvada sobre si mesma, o crepúsculo a misturar-se com o mágico lado interior das sinfonias.
Algumas tardes chorava.
Em surdina.
E tudo o resto apagava-se à rua roda: só ela e os anjos de armadura negra.)


(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Vanessa Braun)

Publicado por void em 06:45 AM | Comentários (2)

maio 08, 2005

FALANDO COM TODOS OU NENHUNS...

Eis que chegados a mais um Domingo. E, por isso, mas não só por isso, mais um texto do Luís Coutinho. Apreciem-no!

Um dia talvez deixe o corpo a dormir mais uns minutos e vá passear o recheio por qualquer lado…
Um banco vazio, sento-me, encho as mãos com coisa nenhuma, passa alguém, depois um outro alguém, um alguém depois do outro e enfim só.
O banco de madeira gasta, sem costas assente na sua rigidez muda de objecto, eu sentado na companhia de um lugar vazio e uma árvore sem pudores, nua a estender-me os seus ramos como braços carentes, querendo abraçar-me, talvez sentar-se ao meu lado, fumando um cigarro pós-coito depois desse abraço.
Uma matilha de ratos com asas, fazem-me o favor de rasgar o silêncio com arrulhos idiotas, decorando o coreto como uma filarmónica em desafinação metódica e precisa. Porque não emigram os pombos e já agora aproveitam para se perder pelo caminho?
No jornal de hoje abundam as notícias de todos os dias, dinheiro mal gasto para saber que ontem estávamos mal, hoje não estamos lá muito bem e se calhar amanhã podemos ter uma sensação de déja vu ao constatar-mos que quinta-feira nada tem de diferente de terça-feira.
Mais um alguém com o mesmo rosto que o alguém anterior, todos vestem a mesma cara e gestos, até a voz parece a mesma independentemente do sexo ou cor, parece que todos fizeram compras na mesma loja de pronto-a-vestir em liquidação total (compre o mesmo que todos usam e oferecemos a oportunidade de ser como todos os demais! Temos tamanhos grandes e pequenos! válido até ao fim do stock).
O banco pouco ou nada conversador, de uma frieza muito própria tolera a minha presença mas o lugar vazio a meu lado não gosta de companhia e responde com evasivas silenciosas às minhas tentativas de diálogo sobre o estado do tempo e da nação; a árvore em pleno cio, começa a tornar-se desinteressante, incómoda; o concerto pombalino é um atentado à moral e bons costumes do sossego. Entediado abandono o jornal "sempre do mesmo" e resolvo ir dar uma vista de olhos às montras das lojas, talvez encontre um fato de um alguém que me fique bem a um preço simpático.

(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografias de Michael McCarthy)

Publicado por void em 08:34 AM | Comentários (1)

maio 07, 2005

CAPACIDADE DE AMAR COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ

Para segunda re-edição um pensamento de uma das personagens constantes na obra "Eu barra tu barra mim", de Ana Vicente. Abordagem: o Amor, no geral. Mas também o desamor, o esfriamento emocional. A presença do acreditar limitado ou do não acreditar. O dar-se, mas simultaneamente, o resguardar-se. O consciente e o não consciente. Ser a dois ou ser, simplesmente, um mais um. Ou o ser a dois equivocado. A complexidade que envolve o Amor. O Amor?

Augusto

Os teus olhos fixados nos meus, com a força que reconheço em ti. És uma mulher maravilhosa, penso. Sorrio. E tento ignorar a voz na minha cabeça que me alerta para o que está a acontecer. Seduzo-te cada vez mais. Como se a minha paixão fosse demolidora, forte e teimosa como os teus olhos. Não vislumbras a ameaça pendendo sobre ti. Não reconheces o perigo. Apetece-me alertar-te, mas sei que não é possível. Que inevitavelmente pensarias que estava a proteger-me. Todos nos salvamos mutuamente, não é o que pensas? Mas, olha, não é verdade. Ou, pelo menos, não é verdade para mim. Nada mais se recuperará deste lugar. A minha história contada é um disparate. Já, outras vezes, tentei avisar. Mas nem eu próprio acreditava, sabes? Ainda pensava que iria recuperar a inocência, essa capacidade de amar como se fosse a primeira vez. Mas a primeira vez também foi um equívoco. E, a esse, outros se seguiram. Ponho os pés no chão uma vez por dia e gozo a minha felicidade. Essa felicidade de ser amado e de amar. Dura só um instante e depois volto para aqui. Para este lugar de conformação, de não mudança, de impossibilidade. Tu sabes-me bem, entendes? Não tem nada a ver contigo. Nunca quis magoar ninguém. Talvez seja mais forte do que eu. Mais forte do que a minha vontade de ser feliz. Antes, via filmes com personagens que tinham um final feliz e acreditava num desses para mim. E tive muitos, muitos finais felizes. Mas o filme não acabava ali. Nunca acabou ali, nesse final feliz aguardado. Se estou contigo, deveria acreditar. Mas não acredito. Em nada acredito. Estou apenas a salvaguardar o meu lugar nesta linha encadeada de causas e efeitos incontroláveis e tremendamente banais. Não me queixo do mundo. Da brisa com cheiro a mar, dessas imagens bonitas que colecciono sem qualquer pudor e, ao mesmo tempo, com toda a culpa. Sem pudor, só culpa. Desculpa ter-te feito apaixonares-te por mim. Mas és tão doce, era inevitável. Como não querer estar perto de ti e beijar-te? Dar-te um pouco de luz, um pouco de negro. Um pouco de vida. Desculpa.


(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


Publicado por void em 09:18 AM | Comentários (2)

A MINHA VIDA

Como primeira re-edição de hoje o excerto de um texto de Pedro Paixão. A obra: "A noiva judia". Relativamente à abordagem feita: uma opção de e para a vida que, tenho a certeza, não é só muito própria do personagem masculino em questão, mas de muitas mais pessoas. Se tal opção, em termos reais, será a melhor ou a pior, caberá a cada um avaliar, mas... consideremos, já agora, a possibilidade da "avaliação cómoda" e não só da "avaliação real". Sim, porque não? Mas claro que é importante compararmos ambas e adaptá-las ao maior número de especificidades existenciais naquela que é a positividade maior ou menor de resultados.

Quase gosto da vida que tenho. Não foi fácil habituar-me a mim. Tive de me desfazer das coisas mais preciosas, entre elas de ti. Sim, meu amor, tive de escolher um caminho mais fácil. O dinheiro também tem a sua poesia. E tenho tido sorte.
Deixei para trás a obrigação de mudar o mundo. Já cometi corrupções. Só ainda sinto dificuldades em mentir, mas também aqui vejo melhoras. Trata-se só de deformar ligeiramente o que vai acontecendo, não de inventar tudo de novo. Tenho mais alguns anos diante de mim e depois quero acabar de repente. Não sei se valeu a pena mas também não me pergunto se valeu a pena. Há muitas coisas assim.
Não é desistir, é só dar demasiada importância a coisas que não a têm. A vida é uma delas. Ganha um valor particular quando deixamos de a encarar como o centro de tudo. É só por acaso que gostamos das flores e do mar. E, claro, que é um bom acaso. Mas mais do que isso não.
Quase gosto da vida que tenho. Quando a quis toda não gostava de mim. Agora há dias em que aceito que o tempo passe por mim e me leve para onde só ele sabe.
...
Vivo sozinho. Passam pessoas, mas nunca ficam por muito tempo. A partir de certa altura intrometem-se tédios por entre as frases e não sabemos continuar. Não insisto. Há muitas pessoas. Não vale ter medo. Há muito que o amor mostrou ser um fracasso. No dia seguinte, no escritório, esperam-me problemas por resolver e decisões que valem dinheiro. Não posso sofrer.
Claro que por vezes me sinto triste como toda a gente. Mas é uma tristeza doce, como um descanso. E como não espero nada, não faço nada. De uma maneira ou de outra também acabarei por adormecer esta noite.


(Pedro Paixão- A NOIVA JUDIA. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


Publicado por void em 08:36 AM | Comentários (1)

maio 06, 2005

O SENTIMENTO DO PECADO

Se uma vida absolutamente livre do sentimento do pecado fosse realizável, seria de um vazio de fazer medo.
Pode dizer-se que este sentimento ("a coisa não permitida") é, na vida, o que a dificuldade da matéria é na arte. Que aborreceria toda a gente, e, acima de tudo, os artistas, se não fosse difícil.
Naturalmente, o que há de vivo na vida é a luta, os expedientes, os compromissos perante aquele sentimento. Mais vale tê-lo e violá-lo, do que não o ter. Saber que não podemos, ou não devemos, fazer certas coisas, lisonjeia-nos.


(Cesare Pavese- O OFÍCIO DE VIVER. Edição: Relógio D' Água, 2004. Fotografia de Steve Weiss)

Publicado por void em 07:00 AM | Comentários (6)

maio 05, 2005

(SEM TÍTULO)

Podemos morrer se apenas amámos.

(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO. Edição: Assírio & Alvim, 2003. Fotografia de Steve Weiss)

Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (4)

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?


(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA. Edição: Quasi Edições, 2003. Fotografia de Christian Coigny)


Já editei este poema aqui no Abismo há bastante tempo atrás. No entanto, como o considero belíssimo e muito, muito significativo, trouxe-o novamente para junto de vós. Que a re-leitura não seja "desagradável" ou que a primeira leitura seja do máximo agrado.

Publicado por void em 06:47 AM | Comentários (2)

maio 04, 2005

RESISTIR (5)

O pior é a vertigem.
Na vertigem não se frutifica nem se floresce. A característica da vertigem é o medo, o homem adquire um comportamento de autómato, deixa de ser responsável, deixa de ser livre, já nem reconhece os outros.
Encolhe-se-me a alma ao ver a humanidade neste comboio vertiginoso em que nos deslocamos, ignorantes atemorizados sem conhecermos a bandeira desta luta, sem a termos escolhido.
O clima de Buenos Aires mudou. Nas ruas, homens e mulheres apressados avançam sem se olharem, dependentes do cumprimento de horários que põem em perigo a sua humanidade. Já não há lugar para aquelas conversas de café que foram um traço distintivo desta cidade, quando a ferocidade e a violência ainda não a tinham convertido numa megalópole enlouquecida. Quando as mães ainda podiam levar os filhos às praças ou a visitar os mais velhos. Será que se pode florescer a esta velocidade? Uma das metas desta corrida parece ser a produtividade, mas serão estes produtos verdadeiros frutos?

O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autómato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças.
Estamos no caminho mas não a caminhar, estamos num veículo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades satélites que dizem que haverá. E ninguém anda a passo de homem, por acaso algum de nós caminha devagar? Mas a vertigem não está só no exterior, assimilá-mo-la na nossa mente que não pára de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar para fora? Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito.

Na vertigem tudo é temível e desaparece o diálogo entre as pessoas. O que nos dizemos são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo afoga o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo que o vença e que lhes outorgue uma maior liberdade. Mas o grave problema é que nesta civilização doente não há só exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, teme-a. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente sem que um sim ou um não tenha precedido os actos. A maioria da humanidade é empregada de um poder abstracto. Há empregados que ganham mais e outros que ganham menos. Mas quem é o homem livre que toma as decisões? Esta é uma pergunta radical que todos temos de nos fazer até ouvirmos, na alma, a responsabilidade a que somos chamados.

As dificuldades da vida moderna, o desemprego e a sobrepopulação levaram o homem a uma preocupação dramática com o económico. Do mesmo modo que na guerra a vida se debate entre ser soldado ou estar ferido num hospital, nos nossos países, para uma infinidade de pessoas, a vida limita-se a ser trabalhador a tempo inteiro ou ser excluído. É grande a orfandade que se propaga nas cidades; a grande solidão da pessoa original é uma das tragédias da vertigem e da eficiência.
A primeira tragédia que deve ser urgentemente reparada é a desvalorização de si próprio que o homem sente e que constitui o passo prévio à submissão e à massificação. Hoje o homem não se sente um pecador, crê que é uma engrenagem, o que é tragicamente pior. E esta profanação só pode ser curada pelo olhar que cada um dirige aos outros, não para avaliar os méritos da sua realização pessoal, ou para analisar qualquer dos seus actos. É um abraço que nos pode dar o gozo de pertencer a uma obra grande que nos inclua a todos.

Do nosso compromisso perante a orfandade pode surgir outra maneira de viver, em que o fechar-se sobre si mesmo seja um escândalo, em que o homem possa descobrir e criar uma existência diferente. A história é o maior conjunto de aberrações, guerras, perseguições, torturas e injustiças, mas, ao mesmo tempo, ou por isso mesmo, milhões de homens e mulheres sacrificam-se para cuidarem dos mais desventurados. São estes que encarnam a resistência.
Trata-se agora de saber, como disse Camus, se o seu sacrifício é estéril ou fecundo, e esta é uma interrogação que tem de estar presente em cada coração, com a gravidade dos momentos decisivos. Nesta decisão reconheceremos o lugar onde cada um de nós é chamado a opor resistência; então, criar-se-ão espaços de liberdade que podem abrir horizontes até agora inesperados.
É uma ponte que teremos de atravessar, uma passagem. Não podemos ficar parados nem sequer deleitar-nos com a visão do abismo. Neste caminho sem saída que hoje enfrentamos, a recriação do homem e do seu mundo aparece-nos não como uma escolha entre outras mas como um gesto tão inadiável como o nascimento de uma criança quando chegou a sua hora.
É nas próprias crises que os homens encontram a força para as superarem. Assim o demonstraram tantos homens e mulheres que, tendo como único recurso a tenacidade e a coragem, lutaram e venceram as sangrentas tiranias do nosso continente. O ser humano sabe fazer dos obstáculos novos caminhos porque, para a vida, basta o espaço de uma fenda para renascer. Nesta tarefa, o primordial é negarmo-nos a asfixiar o que possamos iluminar de vida. Defender, como o fizeram heroicamente os povos ocupados, a tradição que nos diz o que o homem tem de sagrado. Não permitir que seja desperdiçada a graça dos pequenos momentos de liberdade de que podemos gozar: uma refeição partilhada com as pessoas que amamos, as criaturas a que damos amparo, uma caminhada entre as árvores, a gratidão de um abraço. Actos de coragem como saltar de uma casa em chamas. Estes não são actos racionais, nem é importante que o sejam, salvar-nos-emos pelos afectos.

O mundo nada pode contra um homem que canta na miséria.


(Ernesto Sabato- RESISTIR. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Misha Gordin)


Mais uma vez Ernesto Sabato está/esteve neste blog. Mais uma vez tive um tremendo gosto em editar posts com excertos de obras suas. "Resistir" é uma obra especial que me suscitou grande interesse. Trazê-la aqui foi muito estimulante, reforçado aliás, pelos comentários que possibilitou, mas também pelo número de visitas feitas ao Abismo durante os dias da sua apresentação. Ora isto significa algo. Julgo que é esse algo que deve ser preservado atendendo, em particular, ao que objectivei/desejei na introdução do post de arranque das edições. Mais uma vez vos agradeço a todos. Fiquem bem!

Publicado por void em 06:44 AM | Comentários (6)

maio 03, 2005

RESISTIR (4)

Assistimos a uma quebra total da cultura ocidental. O mundo range e ameaça derrocar, esse mundo que, para maior ironia, é o resultado da vontade do homem, do seu prometeico desejo de dominação.
Guerras que unem a tradicional ferocidade à inumana mecanização, ditaduras totalitárias, alienação do homem, destruição catastrófica da natureza, neurose colectiva e histeria generalizada, abriram-nos por fim os olhos para nos revelar o tipo de monstro que tínhamos gerado e criado orgulhosamente.
Aquela ciência que ia dar solução a todos os problemas físicos e metafísicos do homem contribuiu para facilitar a concentração dos estados gigantescos, para multiplicar a destruição e a morte com os seus cogumelos atómicos e as suas nuvens apocalípticas.

Hora a hora o poder do mundo está a concentrar-se e a globalizar-se. Vinte ou trinta empresas, como um selvagem animal totalitário, têm-no nas garras. Continentes na miséria ao lado de altos níveis tecnológicos, possibilidades de vida espantosas a par de milhões de homens desempregados, sem lar, sem assistência médica, sem educação. A massificação causou estragos, já é difícil encontrar originalidade nas pessoas e realiza-se um processo idêntico em todos os povos, é a chamada globalização. Que horror! Será que não percebemos que a perda das características nos vai tornando aptos para a clonagem? Por tomarem decisões que tornem a sua vida mais humana, as pessoas temem perder o trabalho, ser expulsas, passar a pertencer a essas multidões que correm angustiadas em busca de um emprego que lhes impeça de cair na miséria, que as salve. A total assimetria no acesso aos bens produzidos socialmente está a acabar com a classe média e o sofrimento de milhões de seres humanos que vivem na miséria está permanentemente diante dos olhos de todos os homens, por maior que seja o esforço que façamos para fechar as pálpebras. Em breve já não poderemos desfrutar de estudos ou de concertos, porque serão mais prementes as interrogações que a vida nos imporá em relação aos nossos valores supremos. Pela responsabilidade de sermos homens.

Quantas vezes aconselhei aqueles que me pedem ajuda, na sua angústia e no seu desalento, que se dedicassem à arte e se deixassem invadir pelas forças invisíveis que operam em nós. Todas as crianças são artistas que cantam, bailam, pintam, contam histórias e constroem castelos. Os grandes artistas são pessoas estranhas que conseguiram preservar no fundo da sua alma a sagrada candura da infância e dos homens que chamamos primitivos, e por isso provocam o riso dos estúpidos. A capacidade criativa está presente em todos os homens, em diferentes graus, não necessariamente como uma actividade superior ou exclusiva. Quanto nos podem ensinar os povos antigos onde todos, para além das desditas ou dos infortúnios, se reuniam para cantar e dançar! A arte é um dom que cura a alma dos fracassos e dos dissabores. Anima-nos a cumprir a utopia a que fomos destinados.
A arte de cada tempo condensa uma visão do mundo, a visão do mundo que têm os homens dessa época e, em particular, o conceito da realidade. Neste novo milénio sob o grande supermercado da arte, como os rebentos que germinam após um longo inverno, percebem-se, aqui e acolá, os testemunhos de outra maneira de olhar. Nomeadamente no cinema, em filmes de muito baixo orçamento que nos chegam de pequenos países, não contaminados pela globalização, expressa-se o desejo de um mundo humano que se perdeu, mas ao qual não renunciámos. São filmes que nos trazem o alívio ao vermos que a vida simples, humana, ainda está viva. O homem é feito não só de morte, mas também de ânsias de vida; não só de solidão, mas também de comunhão e de amor.


(Ernesto Sabato- RESISTIR. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Misha Gordin)

Publicado por void em 06:50 PM | Comentários (8)

RESISTIR (3)

Temos de reaprender o que é gozar. Estamos tão desorientados que acreditamos que gozar é ir às compras. Um luxo verdadeiro é um encontro humano, um momento de silêncio perante a criação, o gozo de uma obra de arte ou de um trabalho bem feito. Gozos verdadeiros são aqueles que embargam a alma de gratidão e nos predispõem ao amor. A sabedoria que os muitos anos me trouxeram e a proximidade da morte ensinaram-me a reconhecer a maior das alegrias na vida que nos inunda, ainda que a sabedoria não seja possível se a humanidade suporta sofrimentos atrozes e passa fome.

A história traz novidades. O homem, cego pelo presente, quase nunca prevê o que vai suceder. Se chega a ver um futuro diferente, vê-o como agravamento da situação ou como o surgimento do contrário, quando as mudanças costumam vir por factos nesse momento irreconhecíveis ou, pelo menos, não valorizados na sua dimensão. Hoje, perante a proximidade do supremo momento, intuo que um novo tempo espiritualmente muito rico está às portas da humanidade, se compreendermos que cada um de nós possui mais poder sobre o mal no mundo do que julgamos. E tomarmos uma decisão.

O homem, a alma do homem, está suspensa entre o anseio do Bem, essa eterna nostalgia que temos do amor, e a inclinação para o Mal, que nos seduz e possui, muitas vezes sem que tenhamos sequer compreendido o sofrimento que os nossos actos podem ter provocado nos outros. O poder do mal no mundo levou-me a defender durante anos um tipo de maniqueísmo: se Deus existe e é infinitamente bondoso e omnipotente, deve estar preso, porque ninguém sabe dele; em contrapartida, o mal é uma evidência que não precisa de ser demonstrada. Bastam alguns exemplos: Hitler, as torturas que se cometeram na América Latina. É nesses momentos que repito e torno a repetir: como são melhores os animais! No entanto, que grandiosa e comovedora é a presença da bondade no meio da ferocidade e da violência.

"Persona" significa mácara, e cada um de nós tem muitas. Haverá realmente uma verdadeira que possa expressar a complexa, ambígua e contraditória condição humana?
Lembro-me de uma coisa que Bruno tinha dito: é sempre terrível ver um homem que se julga absoluta e seguramente só, porque há nele algo de trágico, talvez mesmo de sagrado, e ao mesmo tempo horrendo e vergonhoso. Usamos sempre uma máscara, dizia Bruno, mas nunca é a mesma, porque varia em cada um dos lugares que ocupamos na vida: a do professor, a do amante, a do intelectual, a do herói, a do irmão carinhoso. Mas que máscara pomos ou que máscara resta quando estamos na solidão, quando cremos que ninguém, ninguém, nos observa, nos controla, nos escuta, nos exige, nos suplica, nos intima, nos ataca? Talvez o carácter sagrado desse instante se deva a que o homem se encontra então diante da Divindade ou, pelo menos, diante da sua própria e implacável consciência.

Quantas lágrimas existem por trás das máscaras! Quanto mais poderia o homem chegar ao encontro com o outro homem se nos aproximássemos uns dos outros como necessitados que somos, em vez de fazermos figura de fortes! Se deixássemos de nos mostrar auto-suficientes e nos atrevêssemos a reconhecer a grande necessidade que temos do outro para continuarmos a viver, como mortos de sede que na verdade estamos! Quanto mal poderia ser evitado!

Os tempos modernos foram séculos assinalados pelo menosprezo aos essenciais atributos e valores do inconsciente. Os filósofos do Iluminismo puseram a inconsciência na rua a pontapé. Mas ela voltou a entrar pela janela. Pelo menos desde os Gregos, sabe-se que não podemos menosprezar as deusas da noite e muito menos excluí-las, porque então reagem vingando-se de maneiras fatídicas.
Os seres humanos oscilam entre a santidade e o pecado, entre a carne e o espírito, entre o bem e o mal. O grave, o estúpido, é que desde Sócrates que se quis proscrever o seu lado obscuro. Esses poderes são invencíveis. Quando se quis destruí-los, agacharam-se e, por fim, acabaram por se rebelar com maior violência e perversidade.
Temos de reconhecê-los mas também de lutar incansavelmente pelo bem. As grandes religiões não só preconizam o bem como mandam que seja praticado, o que prova a constante presença do mal. A vida é um equilíbrio tremendo entre o anjo e a besta. Não podemos falar do homem como se fosse um anjo, nem devemos fazê-lo. Nem sequer como se fosse uma besta, porque o homem é capaz das piores atrocidades mas também dos maiores e mais puros heroísmos.


(Ernesto Sabato- RESISTIR. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Misha Gordin)

Publicado por void em 06:39 AM | Comentários (3)

maio 02, 2005

RESISTIR (2)

Poderemos viver sem que a vida tenha um sentido perdurável? Camus, compreendendo a magnitude do que se perdeu, diz que o grande dilema do homem é saber se é possível ou não sermos santos sem Deus. Mas, como já antes tinha sido genialmente proclamado por Kirilov, "se Deus não existe, tudo é permitido". Sartre deduz desta frase célebre a total responsabilidade do homem, embora, como disse, a vida seja um absurdo. Este ponto alto do comportamento humano manifesta-se na solidariedade, mas quando se sente a vida como um caos, quando já não há um Pai através do qual possamos sentir-nos irmãos, o sacrifício perde o fogo de que se alimenta.

Se tudo é relativo, tem o homem coragem para o sacrifício? E será que se pode viver sem sacrifício? Os filhos são um sacrifício para os pais, cuidar dos mais velhos ou dos doentes também. Como a renúncia ao individual pelo bem comum, como o amor. Sacrificam-se os que envelhecem a trabalhar pelos outros, os que morrem para salvar o próximo. Poderá haver sacrifício quando a vida perdeu o sentido para o homem ou quando ele só o encontra na comodidade individual, na realização do êxito pessoal?

Neste empobrecimento atrofiam-se capacidades profundas da alma, tão íntimas da vida humana como os afectos, a imaginação, o instinto, a intuição para desenvolver e, no extremo, a inteligência operativa e as capacidades práticas e utilitárias.
Face a questões inefáveis é infrutuoso procurar uma aproximação por meio de definições. A incapacidade dos discursos filosóficos, teológicos ou matemáticos para responder a estas grandes interrogações revela que a condição última do homem é transcendente e, por isso, misteriosa, inatingível.
Quando, em 1945, em Hombres y engranajes, expressava este ponto de vista, os intelectuais viraram-se contra o meu livro com ferocidade e ironia. Mas agora, face à vulnerabilidade, ou ao fracasso, da Razão, da Política e da Ciência, o ser humano oscila no vazio sem encontrar onde lançar raízes, no céu ou na terra, enquanto fica engasgado por uma avalanche de informação que não pode digerir e da qual não recebe qualquer alimento.
"Será possível que, apesar das invenções e progressos, apesar da cultura, da religião e do conhecimento do universo, se tenha ficado na superfície da vida?" Tristemente, com a nostalgia dos projectos irrealizados, só nos resta responder afirmativamente à pergunta de Rilke, porque a sabedoria é fidelidade à condição humana. O que terá o homem colocado no lugar de Deus? Não se libertou de cultos e altares. O altar continua, já não como lugar de sacrifício e da abnegação, mas do bem-estar, do culto de si mesmo, da reverência aos grandes deuses do pequeno ecrã.

O sentimento de orfandade tão presente neste tempo deve-se à queda dos valores partilhados e sagrados. Se os valores são relativos e se aderimos a eles como ao regulamento de um clube desportivo, como poderão salvar-nos face à desgraça ou ao infortúnio? É por este motivo que há tantas pessoas desesperadas ou à beira do suicídio. Por isso a solidão se torna tão terrível e angustiante. Em cidades monstruosas como Buenos Aires há milhões de seres angustiados. As praças estão cheias de homens solitários e, o que é ainda mais triste, de jovens abatidos que frequentemente se encontram para beber álcool ou para se drogarem, pensando que a vida não tem sentido até que, finalmente, se dizem com horror que não há absoluto. Recordo a solidão do campo, tão diferente! Era essa solidão da planura infinita que conferia ao homem uma tendência natural para a religiosidade e para a metafísica. Não é por acaso que as três grandes religiões do Ocidente nasceram na solidão do deserto, nessa espécie de metáfora do nada na qual o infinito se conjuga com a finitude do homem. As nossas modernas maneiras de pensar crêem que aqueles eram povos atrasados, sendo que para eles a verdade era uma descoberta, algo face ao qual se esperava o assombro. Na modernidade, o homem procurou nas suas construções lógicas a resposta às grandes incógnitas, acreditando assim que, ao fazê-lo, era muito superior àqueles que esperavam pela Providência. Mas, hoje em dia, o intelecto humano recebeu tantos golpes que estamos em condições de virar os olhos para crenças impensáveis há alguns anos.


(Ernesto Sabato- RESISTIR. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Misha Gordin)

Publicado por void em 06:36 PM | Comentários (0)

RESISTIR (1)

Não é novidade, aqui no Abismo, a presença do escritor argentino Ernesto Sabato (n. Buenos Aires, 1911). O que é novidade é a edição de excertos da sua última obra- "Resistir"-, que hoje se inicia. Uma obra que a editora Dom Quixote trouxe no passado mês de Abril para o mercado nacional e que, digo-vos, vale muitíssimo a pena ler. E porquê? Porque é uma obra em que o autor se debruça sobre os problemas que mais caracterizam as sociedades contemporâneas, em particular: a incomunicação, o culto do "eu", a reverência a ídolos ou heróis construídos pelos meios de comunicação social, nomeadamente, pela televisão, o trabalho desumanizado, o crescendo da maquinização/o império da tecnologia sobre o ser, a submissão e a massificação, a competição, o desenraizamento, entre outros.
Face a tudo isto, Sabato propõe o "Resistir". O resistir para que o Homem trave/vá diluindo o esmagamento da sua humanidade, para que ouse ser, fazer e sentir diferente, para que seja muito mais espiritualmente e em comunhão do que mecanica e egoisticamente. Uma necessidade, portanto, para que caminhos sejam recuperados ou para que outros se abram, na senda de uma existência mais rica e valorizada.
Os excertos que se seguem permitem já perceber o estilo da obra e, claro, a apresentação de alguns dos problemas. Até Quarta-feira desta semana o aprofundamento será uma realidade com o alargar da divulgação do conteúdo do livro.
Tal como todas as outras vezes, espero-vos aqui, solidaria e empenhadamente, naquele que é o encarar de frente de uma série de questões e no reflectir do espelhar, em cada um de nós, dos excertos constantes e a constar, objectivando, acima de tudo, um exercitar continuado da resistência que o autor apresenta como uma necessidade inequívoca.

Há dias em que me levanto com uma esperança demencial, momentos em que sinto que as possibilidades de uma vida mais humana estão ao alcance das nossas mãos. Hoje é um desses dias.
Então, pus-me a escrever quase às cegas, de madrugada, com urgência, como quem sai à rua a pedir ajuda perante uma ameaça de incêndio, ou como um barco que, prestes a desaparecer, lançasse um último e fervoroso sinal a um porto que sabe próximo mas ensurdecido pelo ruído da cidade e pela quantidade de letreiros que lhe turvam o olhar.
Peço-vos que nos detenhamos a pensar na grandeza a que ainda podemos aspirar se nos atrevermos a valorizar a vida de outra forma. Peço-nos essa coragem que nos situa na verdadeira dimensão do homem. Todos, mais do que uma vez, nos vergamos. Mas há algo que não falha, é a convicção de que unicamente os valores espirituais nos podem salvar deste terramoto que ameaça a condição humana.

Enquanto vos escrevo, tenho-me detido a tocar numa escultura rústica, de madeira, que me ofereceram os tobas, que me trouxe à memória, como um raio, uma exposição "virtual" que me mostraram ontem num computador e que tenho de reconhecer que me pareceu coisa de Mandinga. Porque à medida que nos relacionamos de forma abstracta mais nos afastamos do cerne das coisas e apodera-se de nós uma indiferença metafísica enquanto o poder é tomado por entidades sem sangue nem nomes próprios. Tragicamente, o homem está a perder o diálogo com os outros e o reconhecimento do mundo que o rodeia, sendo que é aí que ocorrem o encontro, a possibilidade de amor, os gestos supremos da vida. As conversas à mesa, até as discussões e as zangas, parecem já substituídas pela visão hipnótica. A televisão tentaliza-nos, ficamos como que presos a ela. Este efeito, entre mágico e maléfico, é resultado, creio, do excesso de luz que nos prende com a sua intensidade. (...)

É premente reconhecer os espaços de encontro que nos tirem da condição de multidão massificada que vê televisão solitariamente. O paradoxo é que parecemos estar ligados ao mundo inteiro através desse ecrã, quando na verdade nos retira a possibilidade de conviver humanamente e, tão grave como isso, nos predispõe à abulia. Ironicamente, eu disse em muitas entrevistas que "a televisão é o ópio do povo", modificando a famosa frase de Marx. Mas, segundo creio, vai-se caindo em letargia diante do pequeno ecrã e mesmo que não se encontre nada do que se procura fica-se ali, incapaz de se levantar ou de fazer alguma coisa de útil. Tira-nos a vontade de fazer trabalho manual, de ler um livro, de arranjar alguma coisa em casa enquanto ouvimos música ou fazemos jardinagem. Ou de ir a um bar com um amigo, ou de conversar com a família. É um tédio, um aborrecimento a que nos habituamos, "à falta de melhor". Estar monotonamente sentado em frente da televisão anestesia a sensibilidade, estupidifica a mente, prejudica a alma.
Estão a embotar-se os sentidos ao ser humano, cada vez requer mais intensidade, como os surdos. Não vemos o que não tem a iluminação do ecrã, não ouvimos o que não nos chega carregado de decibéis, não sentimos os perfumes. Já nem as flores os têm.

O nosso tempo conta com telefones para suicidas. Sim, é provável que se possa dizer alguma coisa a um homem para quem a vida deixou de ser o bem supremo. Eu próprio recebo muitas vezes gente à beira do abismo. Mas é muito significativo que se tenha de procurar um gesto amigo pelo telefone ou pelo computador, em vez de o encontrar em casa, ou no trabalho, ou na rua, como se estivéssemos internados nalguma clínica com grades a separarem-nos das pessoas ao nosso lado. Assim, tendo sido privados da proximidade de um abraço ou de companhia à mesa, ficaram-nos os "meios de comunicação".
Da mesma maneira, quão melhor é morrer na própria cama, rodeado de afecto, acompanhado pelas vozes, pelos rostos e pelos objectos familiares, do que nessas ambulâncias que atravessam as ruas como bólides para fazer entrar o moribundo numa sala esterilizada, em vez de o deixar em paz.
Recordo com admiração o nome de alguns velhos médicos cuja entrada era o bastante para curar o doente. Quantos sorrisos irónicos mereceu esta deslumbrante verdade!

Mas não creio no destino como fatalidade, como na tradição grega ou no nosso tango: "ninguém pode ir contra o seu destino." Se assim fosse, para que estaria eu a escrever-vos? Acredito que a liberdade nos foi destinada para cumprir uma missão na vida; e sem liberdade, nada vale a pena. Mais, creio que a liberdade que está ao nosso alcance é maior do que aquela que nos atrevemos a viver. (...)

Se a mentalidade do homem muda, o perigo em que vivemos é paradoxalmente uma esperança. Poderemos recuperar esta casa que nos foi miticamente entregue. A História traz sempre novidades. Por isso, apesar das desilusões e frustrações acumuladas, não há motivo para descrer do valor das gestas quotidianas. Embora simples e modestas, são estas que estão a gerar uma nova narração da história, a abrir um novo curso à torrente da vida.


(Ernesto Sabato- RESISTIR. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Misha Gordin)

Publicado por void em 06:46 AM | Comentários (2)

maio 01, 2005

VOZ EMPRESTADA

Do amigo Luís Coutinho mais um texto com os ingredientes necessários para nos fazer... ora deixa cá ver... sentir... ou recordar, eventualmente, determinados momentos ou fases de nós. Ou, não o sendo (completamente), pelo menos fases ou momentos de um ou outro amigo que é, que foi ou que, com alguma probabilidade, ainda o venha a ser.

Sabemos o que queremos realmente? Temos a certeza da coerência das nossas vontades e desejos? Somos conscientes do tamanho do que por vezes dizemos? Onde se esconde o sentido do que nos toca o rosto e foge?
Desde criança que ele se perdia. Perdia-se nos seus medos, na sua falta de coragem, na sua ansiedade, nos seus choros compulsivos e na sua solidão de menino frágil. Ele não estava sozinho, mas era como se estivesse. Não jogava à bola, nem ao pião, não corria com os outros miúdos, não andava de bicicleta. A sua saúde era frágil, os seus pais excessivamente protectores -porque não posso ir lá para fora brincar com o João e a Maria? Mãe vá lá!- a mãe nunca deixava, enquanto o pai sofria em silêncio com a dor do seu filho, mas mantinha-se estupidamente calado.
Os anos passavam, como passaram os tempos de criança que ele nunca teve, que a saúde não lhe deu, e que os pais absorvidos num estado de apatia hipócrita e de protecção aniquiladora lhe negaram. Cresceu, chegou a puberdade. Durante a noite, sonhos estranhos, o corpo era estranho, a ansiedade era estranha, o medo de falar, sabia que nunca iria conhecer uma mulher a quem amar, que o pudesse amar a ele, como ele era, mas porquê? O tempo passava, os dias passavam, os amigos onde estavam?
Não sabia o que era um amigo. O que era um amigo? Eram aqueles meninos que quando ele era pequeno a mãe convidava para as suas festas de aniversário, com os quais ele não brincava pois ninguém queria brincar com alguém como ele, isso eram amigos? Ou eram aqueles que passavam lá por casa com um olhar de pena e lhes diziam coisas amáveis por mera cortesia. Que vontade de expulsá-los a todos e ficar sozinho, sem ninguém!
- Deixem-me em paz foda-se! Deixem-me só como sempre estive e sempre me quiseram todos! Como tu mãe quiseste, por não me deixares estar com outros meninos enquanto criança, como tu pai ao saberes como sofria e te escondias atrás do jornal e dos copos de whisky sempre em silêncio. Deixem-me de uma vez por todas.... - e ele chorou, como tantas vezes chorou sozinho, sem que ninguém o ouvisse, sem que ninguém reparasse nele.
Os teus pais morreram e ficas-te só, mas tu sempre estiveste só. A tua avó morreu anos antes, e o verdadeiro carinho que conheceste desapareceu com aqueles braços que tantas vezes receberam as tuas lágrimas e lamentos.O amor dos teus pais sufocava-te e tu não conseguias entender...
Não te podias valer só por ti e foste para um sítio vazio de sentidos, onde senhoras de bata branca se cruzavam todos os dias contigo e te ajudavam sempre com um sorriso. Estavas só, só como sempre estiveste, tu e outros tantos como tu, cruzando-se constantemente como se não se vissem uns aos outros, ignorando-se mutuamente entre os sorrisos das senhoras de bata branca e uma solidão imensa.
Infelizmente não podes falar. Gostava que falasses e me contasses aquilo que sentes. Não sei se disse tudo aquilo que gostarias de gritar aos outros. Queria que isto fosse o teu punho a bater na mesa e o teu dizer basta, olhem para mim eu existo! Gostava de ter sido a voz que nunca tiveste, nem que fosse apenas por um instante meu amigo.


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em 08:23 AM | Comentários (8)