abril 30, 2005

A FELICIDADE HUMANA COMO MECANISMO

Para segunda re-edição um excerto de conteúdo absolutamente pertinente. Autor: Gonçalo Tavares. Obra: "A máquina de Joseph Walser". Uma obra editada pela Caminho e integrada na série "Livros Pretos", que o autor tem vindo a completar. Desta série, o anterior "Um homem: Klaus Klump" e o há dias editado "Jerusalém". Livros de leitura, eu diria, imprescindível. Porquê? Não vos vou dizer. Atentem no excerto que se segue e, a partir dele, tirem as vossas próprias conclusões.

- As máquinas de guerra vêm aí, mas não tenha medo. O problema não são as máquinas que se aproximam da cidade, são as máquinas que já aqui estão.
As diferentes gerações mecânicas, a sua História, Walser: progridem. Tal como as nossas ideias. Mas as máquinas começam a ter autonomia, as ideias não.
As máquinas interferem já na História do país e também na nossa biografia individual. Elas não têm já apenas um percurso material ou de factos. Têm também uma História do espírito, um caminho já realizado no mundo do invisível, no mundo daquilo que se sente e se pensa. Acredita-se até que as máquinas levam o Homem para sítios mais próximos da Verdade.
E também pode ser reduzida a um sistema binário, a alegria. A um sim ou a um não, a 0 ou a 1: existe ou não existe. E essa eficácia, meu caro, essa eficácia fundamental, essa eficácia primeira, depende já, também, em grande parte, das máquinas, da rapidez com que elas transformam causas e necessidades em efeitos benéficos.
A felicidade foi já reduzida a um sistema que as máquinas entendem, e no qual podem participar e intervir. Já nenhuma felicidade individual é independente da tecnologia, amigo, Walser. Se quiser números, podemos brincar aos números: a felicidade individual de um dia depende, vá lá, 70% da eficácia material das máquinas. Que a felicidade invisível esteja submetida a uma felicidade concreta, a uma felicidade de materiais em diálogo, de peças metálicas que encaixam umas nas outras e resolvem problemas fazendo determinadas tarefas, como tal pode parecer estranho; mas é o século.
Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos à palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo.

(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER. Fotografia de Misha Gordin)

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APRENDER A VIVER

No Sábado passado a minha segunda re-edição foi o excerto de uma obra de Albert Camus. Pois bem, hoje, inicio com ele o dia aqui no Abismo. O mesmo autor, mas uma obra diferente. "A Queda", um trabalho que, incidindo sobre o percurso de vida de um homem nos pode, também, atingir significativamente. Quantos de nós não nos podemos rever nesta ou naquela vertente? Quanto de nós já vivemos semelhanças de existência? Quantos de nós já não pensaram tão parecidamente? Quantos de nós...
Fiquem com o excerto.

Nunca tive necessidade de aprender a viver. Nesse ponto, já tudo eu sabia ao nascer. Há pessoas cujo problema consiste em resguardarem-se dos homens, ou, pelo menos, acomodarem-se a eles. Quanto a mim, a acomodação estava feita. Familiar quando era preciso, silencioso se necessário, capaz de desenvoltura como de gravidade, estava sempre ao nível. Era por isso grande a minha popularidade, e os meus êxitos na sociedade nem se contavam. Tinha boa figura, revelava-me simultaneamente bailarino infatigável e discreto erudito, chegava a amar ao mesmo tempo, o que não é nada fácil, as mulheres e a justiça, dedicava-me aos desportos e às belas-artes, enfim, não digo mais, não vá suspeitar que me envaideço. Mas imagine, peço-lhe, um homem na força da idade, de perfeita saúde, generosamente dotado, hábil nos exercícios do corpo como nos do intelecto, nem pobre nem rico, de sono fácil, e profundamente satisfeito consigo mesmo, sem que o mostrasse, a não ser por uma feliz sociabilidade. (...) O meu acordo com a vida era total, eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões. Particularmente a carne, a matéria, o físico, numa palavra, que desaponta ou desanima tantos homens no amor ou na solidão, dava-me, sem me escravizar, alegrias iguais. Tinha sido feito para ter um corpo. Daí esta harmonia em mim próprio, este autodomínio sem esforço que as pessoas sentiam, e que, segundo confessavam por vezes, as ajudava a viver. Buscavam, pois, a minha companhia. Muitas vezes, por exemplo, julgavam ter-me já encontrado. A vida, os seus seres e os seus dons vinham ao meu encontro; eu aceitava estas homenagens como uma benévola altivez. Na verdade, à força de ser homem, com tanta plenitude e simplicidade, achava-me um pouco super-homem. (...) Não, à força de ser cumulado, sentia-me, hesito em confessá-lo, um eleito.

(Albert Camus- A QUEDA. Fotografia de Vanessa Braun)


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abril 29, 2005

O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ (4)

O que vale um homem só? Para que serve? Que inominável pecado cometeu para receber o castigo de continuar vivendo? Talvez Luís Maria não tivesse chegado a formular nenhuma destas interrogações enquanto permaneceu imóvel no banco da praça - não porque preferisse evitá-las, mas porque não se achava aparelhado para cogitações e metafísicas, habituado como estava a ir vivendo sem meditar no que fazia. O facto de não lhe ocorrerem tais ideias não significava, porém, que as não sentisse a medrar no peito como um bolbo gordo que fosse crescendo ao redor da garganta até ao ponto de quase o sufocar. Faltar-lhe-iam as palavras para expressar o chumbo que sentia na testa - e talvez fosse isso o que procurava com os olhos fixos na poeira do chão.
Percebera, com um único olhar em redor, a razão daquele rocambolesco despertar no meio da calçada e, enquanto caminhava os poucos passos que o separavam do banco onde se sentou, lamentou o facto de ter o caixão tosco caído da carroça, ressuscitando-o. Melhor teria sido que o enterassem de uma vez por todas, para sempre, abreviando-lhe a existência inútil, eternizando-lhe o silêncio na sepultura que não havia de ser mais do que uma elevação de terra seca assinalando o volume do seu corpo. Quando, enfim, ganhou ânimo para se erguer do banco e rumar a casa - onde mais? -, fê-lo ainda com os olhos baixos para não enfrentar a vergonha dos olhares que sentia colados às costas, nem sentir na carne as interrogações, o espanto, eventualmente o medo que neles haveria. Deteve-se apenas quando os três amigos lhe pousaram as mãos no ombro, mais por camaradagem do que para transmitir algum afecto, mas não foi sequer capaz de dizer
- Lamento.
Seguiu pelo caminho do costume, até à porta de casa, até à mesa da cozinha onde sempre se senta quando chega, com os pés junto e as palmas das mãos pousadas no tampo, olhando em frente para a parede enegrecida, dando voltas ao vazio de chumbo que usa por cima dos olhos até serem horas de dormir e esperar que um novo dia chegue.
Neste dia, porém, quando Luís Maria sentir a casa solidamente cercada pela noite, não é para a cama que dirigirá os seus passos. Virá à janela para olhar as estrelas, abrirá a porta - que ficará escancarada - depois de ter agarrado a corda que fica presa num prego pelo lado de dentro e sairá para a calçada, principiando a caminhar sem pressa entre as pequenas casas que empalidecerão ao luar. Terá esquecido o chapéu. Ao longe, haverá um cão uivando. Atravessará a vila na direcção do cemitério, ignorando o coreto, aconchegará o rolo de corda no ombro e respirará com força para sentir o cheiro da terra e o calor que dela se desprende nas noites de Verão. Sentirá os pés pesados, como se estivessem mais fortes as velhas raízes que sempre o tinham puxado para dentro da terra. Sentir-se-á cansado e parará para beber água numa fonte antes de alcançar o olival cujo muro construíra, um dia, com as próprias mãos. Forçará o portão de ferro, fundir-se-á com as sombras dos troncos retorcidos e lançará a corda sobre um ramo alto, junto à ruína de um lagar. Procedendo como se já se tivesse enforcado mil vezes, afivelará o nó numa ponta da corda, prenderá a outra cuidando para que o laço fique a uma altura fatal, subirá à oliveira, ajustará o garrote ao pescoço e deixar-se-á cair como se fosse voar, sem tristeza, sem angústia, e ficará a sentir a forca apertando-se na garganta, o estalar das vértebras, os pés baloiçando cada vez mais devagar - até que a árvore deixe de ranger com o seu peso e o mundo volte a ser só silêncio e estrelas.


(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)


Dou por terminada a edição do último conto do autor que me propus apresentar-vos, no âmbito do conjunto de três, desde logo delineado. Espero, sinceramente, que tenham gostado, na medida em que foram contos que me chamaram particularmente a atenção pelas temáticas e problemáticas que em si tinham como muito próprias, naquela que era a sua maior explicitez. Foram contos que me permitiram aprofundar reflexões e, por isso mesmo, também a minha vontade de os partilhar convosco. Missão cumprida, diria. Ou melhor: missão plenamente cumprida se o que me tocou vos tocou também.

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O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ (3)

Luís Maria abandonava a mesa porque tinha chegado a sua hora e os outros três homens ficavam porque a deles era mais comprida, não havendo necessidade de irem para outra parte quando podiam perfeitamente continuar onde estavam e a fazerem o que lhes apetecia. E permanecia tacitamente acordado que assim devia ser, não lembrando a ninguém desafiar aquele que saía a ficar mais um pouco ou a beber mais um copo, nem aos que ainda jogavam a levantarem-se para acompanhar os passos do parceiro. Resumindo: não se faziam perguntas, quanto mais não fosse porque não se esperavam respostas. E talvez porque assim fosse, a ninguém ocorreu a proximidade da tragédia na tarde abafada em que, terminada a quinta partida de dominó e bebida a terceira rodada de ginjinhas, Luís Maria se manteve sentado no banco duro da taberna, desfazendo com o dedo médio os círculos líquidos desenhados no tampo da mesa pelas bases dos pequenos copos. A jogatina foi-se prolongando enquanto o sol, lá fora, empalidecia e o dia refrescava, pediram-se mais umas e outras ginjas, mas tudo isto sucedeu, porém, como se sempre assim tivesse sido.
Quando, enfim, chegou a hora de os homens regressarem às casas onde mulheres e jantas respectivas os aguardavam, Luís Maria ergueu-se também, pagou as ginjas e saudou com um gesto do chapéu na cabeça aqueles que ficavam, seguindo depois os três demais com o seu passo lento e abatido. Não o fez, todavia, por muito tempo, pois logo, e sem aviso, o seu corpo magro e ossudo tombou desamparado no chão, ali se quedando sem vida, porém com os olhos muito abertos de quem, no último instante, estivesse tentando ver tudo o que antes lhe escapara.
Não tendo familiares e conhecidos na vila, o corpo do velho foi depositado no hospital e ali enfiado à pressa num caixão de pinho ordinário, sem ninguém que o velasse, à excepção dos três parceiros do dominó, que nessa noite nem jantar haviam de ir, valendo-lhes à fraqueza do estômago duas garrafas de vinho e um prato de pastéis de bacalhau que um deles foi buscar à taberna enquanto os dois outros ficavam a tratar das formalidades do óbito. Quando a nova manhã despertou, luminosa e ameaçando já o calor que havia de se pôr, os três homens continuavam de roda da caixota mal amanhada, de pé e com os olhos vermelhos, segurando nas mãos os velhos chapéus de feltro negro, apenas abandonando o velório depois de o padre ter aparecido para lançar no ar os derradeiros sacramentos e encomendar apressadamente a alma de Luís Maria. E foram ainda os três que, com a ajuda do carroceiro chamado para transportar o féretro ao cemitério, carregaram o corpo de Luís Maria até ao carro, acompanhando depois a pé o trote das mulas pelo empedrado da vila.
Fosse pelo calor impiedoso do fim da manhã ou porque a notícia da morte não chegara a comocionar ninguém, não houve mais quem se incorporasse ao desfile, quase parecendo que o homem que seguia deitado no caixão já há muito estava morto na memória da gente do povoado. Quando muito, uma ou outra mulher assomaram às janelas para mirar o cortejo com as mãos postas em pala diante dos olhos, que àquela hora o sol batia nas pedras e no branco das casas de um modo que parecia capaz de cegar quem desafiasse a sua inclemente luminosidade. Se a quem olhava de longe pareceu espantoso que a passagem da carroça não fosse deixando um rastro de apodrecimento, por ser certo que, àquela hora e sob aquela brasa, Luís Maria havia já de estar sendo devorado pelos vermes que o seu corpo abrigasse, a surpresa deu lugar ao assombro quando, ao percorrer o pequeno declive da estrada que leva aos limites da vila e, imediatamente antes, ao cemitério municipal, o esquife escorregou da carroça e se partiu todo ao cair do chão, deixando o homem magro e morto estendido no pavimento. E logo a surpresa cedeu passo à paralisia do terror, pois Luís Maria, acordado pelo tombo, ergueu-se do chão, sacudiu as calças com as mãos, olhou em volta como que para perceber que raio estava fazendo deitado no meio da estrada e logo se foi sentar, caminhando devagar, no banco de ripas vermelhas do jardim que marginava a via pelo lado nascente.


(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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abril 28, 2005

O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ (2)

Luís Maria, diz quem o conheceu em vida, isto é, na vida antes da sua primeira morte, era um homem magro e nodoso como uma oliveira jovem, porém moreno e enrugado como todo o homem afeito a trabalhar sob aquele sol, varando azeitonas ou colhendo trigo, consertando cercas ou escorando vides. Não havia quem não lhe falasse e a ele recorresse sempre que fossem precisas duas mãos e força de homem para que algum trabalho aparecesse feito. Era honesto e respeitado como tal, bom, embora calado e pouco dado a conversas fiadas, característica que se acentuara há já uns anos, desde que se finara a tia Lurdes, sua mulher e única companheira de muitos anos, devotada e estéril, pequenina e mirrada, cerzideira como não havia outra na vila, não porque fossem extraordinários os seus dotes, mas, simplesmente, porque não havia mais quem praticasse a arte de abrir casas para botões e remendar calças velhas e gastas, coser bainhas ou substituir bolsos rotos. Ficava horas nisto, sentada numa minúscula cadeirinha de madeira pintada, com um assento de vime, curvando-se sobre os joelhos e afadigando-se com as agulhas e linhas. Apenas interrompia esta prática para tratar do jantar - que seria também o almoço de Luís Maria no dia seguinte, aquecido e acondicionado numa marmita velha e enegrecida - , pelo que ali mesmo morreu, dobrada e sentada na diminuta cadeira sem que o corpo tombasse sequer no chão. Enterraram-na num esquife que parecia última morada de criança pequena, apenas um pouco mais alto, para que lá coubessem os joelhos dobrados da mulher, que arrefeceu na posição de trabalho e não houve já quem fosse capaz de lhe esticar as canelas.
Luís Maria, que até aí fora reservado e pacato, tornou-se sombrio e foi-se sumindo aos poucos, falando cada vez menos, o essencial apenas para contratar a jorna e para manter o velho hábito de jogar cinco partidas de dominó ao fim da tarde - pretexto, afinal, para beber ginjas e estar um pedaço com os compadres. Se lhe cobravam o silêncio, dizia apenas que
- Mais vale estar calado do que dizer apenas asneiras para passar o tempo. O tempo passa para quem vive e acaba para quem morre. Não tem que saber. Não se pode fazê-lo passar mais depressa.
- Alguma coisa se há-de dizer, compadre! De outro modo, parecemos girassóis.
- Essa é boa, Ti Alberto! Muito boa. Girassóis que jogam dominó!
- E bebem ginjas!, completou o ti Mário. Por falar nisso: mais quatro? Mais quatro!
E com isto soltava-se a língua aos outros três velhos. Luís Maria, porém, já havia dito tudo o tinha para dizer e limitava-se a casar as peças do dominó quando chegava a sua vez e a olhar pela porta da taberna como se esperasse por alguma coisa ou por alguém, embora soubesse que não esperava ninguém nem coisa nenhuma e, por isso, não alimentava o mais ténue traço de ansiedade de cada vez que voltava os olhos para aquele pedaço luminoso do mundo que invadia a fresca obscuridade do estabelecimento.
Terminada a terceira ginja ou a quinta partida de dominó, conforme o que sucedesse primeiro, o velho levantava-se do banco corrido de madeira, enfiava na cabeça o chapéu de feltro preto e regressava a casa sem pressas, caminhando como se o tempo não existisse. Antes de sair, o hábito impunha que apenas dissesse
- Então até amanhã
sem mais explicações ou comentários, que o convívio prolongado entre os homens tem, ao menos, a vantagem de passar a dispensar explicações ou formalidades desnecessárias.


(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ (1)

Inicio com este post a edição do conto que dá o título à obra de Manuel Jorge Marmelo.
"O silêncio de um homem só" é, pois, uma estória cuja abordagem se volta para a solidão e para a relação que é estabelecida entre si, a morte e o suicídio (ou entre si e a morte/o suicídio).
Estamos, inequivocamente, perante um trabalho cujo conteúdo comove e interessa bastante, atendendo à forma como a vida ou as vidas são apresentadas, quer na relação dos indivíduos consigo próprios quer na relação destes com os outros e com o meio onde vivem.
Um conto que permite olharmos muito atentamente para aquela que é a sua personagem principal, assim como permite percebermos o quanto por vezes não estamos dela tão distantes, pelos imensos reflexos que imanam sobre nós. Claro, que, sempre podemos falar de uma vertente adaptativa. Mas o fundamental é o sumo e não tanto os gomos que a fruta (específica) possa ter.

Um homem sentado num banco de grossas ripas de madeira atarrachadas num suporte de ferro fundido.
Um banco de madeira numa praça com poucas árvores e quase nenhuma sombra, ao fim de uma manhã de Verão, quente, meio-dia quase e o sol vai alto e queima tudo e faz ressequir os ramos dos dois plátanos que montam guarda ao quadrilátero que, na Primavera, chega a ter florinhas nos canteiros relvados, então verdes, agora cor-de-palha seca; e um lago redondo de águas turvas, com peixes dourados e um repuxo fraco, no meio, lançando ao ar um esguincho cansado e lento.
Uma praça numa vila de casas brancas, impecavelmente caiadas, térreas, comprimidas umas contra as outras como se deste modo pudessem proteger-se do bafo quente e seco do Estio.
Uma vila no meio de uma planície de restolho, pontilhada de oliveiras retorcidas e mirradas, uma ou outra figueira, vacas pretas e magras arranhando a língua no pasto restante. E, depois, um país triste e pequeno desdobrando-se em pequenas ondulações de terrenos férteis mas incultos, primeiro, e logo em serras e vinhedos, bosques e pinhais, cidades envoltas em fumos tóxicos, paradas de famélicos eucaliptos alinhados como exércitos, rastejando a nação até ao mar e fundindo-se à espuma das diminutas ondas cálidas que rebentam na praia em pequenos e inofensivos rolos brancos.
Por cima, um céu azul e fosco.
E, debaixo deste, um homem sentado num banco de ripas vermelhas que parecem mais grossas do que realmente são por força das sucessivas camadas de tinta plástica, que o sol seca e enche de rachas finas, como rugas, que logo esfarelam e reclamam tinta nova.
Não está só, o homem. A uma distância prudente, sob a sombra minguada de um dos plátanos que montam guarda à praça, estão três velhos, olhando o homem e olhando-se entre si, como que procurando em cada um dos outros resposta para o mais paradoxal dos mistérios - que é aquele que decide sobre a vida e sobre a morte. A poucos passos há um carroção parado, os arreios das mulas seguros na mão direita de um quinto homem, velho também - e que, talvez por isso, agarra um cajado na mão livre. As duas bestas estão quietas e mansas, mexem os cascos apenas para manter o equilíbrio sobre o empedrado do chão enquanto sacodem as moscas com revolteios das caudas. Mais atráz jaz, no meio da rua suavemente inclinada, um caixão tosco, rebentado e aberto como uma melancia que se tivesse esborrachado no chão. Não há homem nenhum dentro da caixa fúnebre e desconjuntada; aquele que lá estava é o que agora se senta no banco vermelho da praça, levemente inclinado para a frente, as mãos sobre os joelhos e os olhos vendo para além do chão de poeira que tem adiante.
É um homem só, apesar dos três amigos que se dispuseram a acompanhá-lo na última viagem e que agora o vigiam. Não há nada de novo ou de extraordinário na sua solidão. Mas é nisso que pensa desde que percorreu, com passos lentos, o caminho curto entre o caixão esborrachado e o banco da praça. É essa a certeza que lhe remorde o peito enquanto outras pessoas se vão aproximando, sem ruído, da sombra dos plátanos, detendo-se a uma distância precavida e ficando a olhar o homem sentado; formando, aos poucos, um círculo de corpos parados, como uma muralha de espanto mudo: todos vieram para ver um homem que já estava morto, cujo corpo foi velado e sacramentado, que ia a caminho do cemitério da vila, mas que agora ali está, vivo e sentado, embora quieto, no banco da praça, sendo que ninguém parece ver nisto uma demonstração dos insondáveis desígnios do Senhor, mas antes um truque barato, um floreio atroz das artes do demónio.


(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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abril 27, 2005

CLUBE DA BOA MORTE (4)

Temos, pois, a longa lista que há-de servir de base ao tratamento dos irredutíveis: enforcamento, tiro na boca, remédio para os ratos, sufoco com saco de plástico enfiado na cabeça, tiro na têmpora, forca improvisada, salto de ponte, corrida rápida, ingestão de soda cáustica, envenenamento por gás butano do fogão da cozinha, caminhada lenta mar adentro, automóvel em ponto morto na garagem, dose excessiva de comprimidos, corte profundo dos pulsos dentro de uma banheira previamente abastecida de água tépida, pulo do alto de edifício de vários andares, condução em velocidade excessiva na contra-mão de auto-estrada com grande movimento de veículos pesados de mercadorias, envenenamento, introdução da cabeça no micro-ondas, eutanásia clinicamente assistida, asfixia com almofada, administração intravenosa de substâncias significativamente tóxicas... Frei Gil escreve e vai relendo, procurando lembrar-se de algum modo de suicídio que antes lhe tivesse escapado. Risca "asfixia com almofada", por lhe parecer agora ser este um método mais próprio ao assassinato, mas não deixa, ainda assim, de notar que são inúmeras as formas que o homem engendrou para pôr termo à própria vida, parecendo-lhe que não bastou à humanidade ser capaz de se matar por puro ditado do livre arbítrio, tendo perseverado também em fazê-lo de modo criativo, original e progressista, transformando a própria morte numa manifestação cultural, uma prerrogativa da espécie. E, pensando isto, dá por si a questionar-se sobre a real bondade da sua actividade. Escreve: "Meus Deus! Estarei realmente a salvar estas pessoas? Ou apenas impedindo que definitivamente se libertem do fardo que é viver?".
É esta dúvida que o corrói nos últimos dias. Com ela se deita e com ela desperta, habitando-o ainda durante o sono, figurada em sonhos terríveis, mais pavorosos a cada noite que passa. Acha-se, nestes pesadelos, transformado no próprio juiz ao qual cabe decidir que vai este para o Paraíso e aqueloutro para o Inferno; ou num barqueiro que impede a última travessia das almas penitentes; ou num homem alado que cruza os céus da cidade impedindo que tombem no chão aqueles que se lançam do alto dos edifícios, agarrando-os no ar, mas sendo arrastado com os corpos dos suicidas, ou então, permitindo que estes se lhe escapem, terminando por esborrachar-se no chão, entre gritos e dedos que o apontam a ele, frei Gil, como responsável por aquela morte. Acorda a berrar, com a boca seca e o leito revolto, transpirado. Ergue-se do sono e, uma e outra vez, repassa a lista das formas de suicídio: enforcamento, tiro na boca, remédio para os ratos, sufoco com saco de plástico enfiado na cabeça, tiro na têmpora, forca improvisada, salto de ponte, corrida rápida e mergulho diante de locomotiva que siga em boa velocidade, ingestão de soda cáustica... E, enfim, decide: doravante, a obra não se limitará a salvar os suicidas, prestando também assistência, como numa novela de Robert Louis Stevenson, a todos aqueles que tenham decidido suicidar-se e se achem sem coragem para realizar o intento. Volta a página e escreve: "Clube da boa morte (assunto de acesso restrito; o patriarca não pode saber disto)". E, parando um instante para pensar, inicia uma nova lista, desta vez dedicada a métodos de homicídio rápido e relativamente indolor:
Asfixia com almofada, envenenamento, corte da veia jugular, tiro na nuca, atropelamento com veículo pesado de mercadorias, refeição de peixe-balão, picada de cobra venenosa, decapitação, injecção letal...
Pára. Relê. E risca "refeição de peixe-bãlão" e "picada de cobra venenosa" por não estar certo de que, deste modo, o suicida morrerá sem dor. Relativamente.


(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)


Com este post dou por concluída a edição do conto. Espero que tenha despertado o vosso interesse, levando-vos, da mesma forma, a reflectir mais profunda e amplamente sobre a temática em questão: o suicídio.

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CLUBE DA BOA MORTE (3)

Metódico e modesto mesmo diante do ofuscamento do êxito, frei Gil não deixava jamais de fazer anotações e de cotejar estatísticas, estranhando, todavia, que ao exponencial aumento do número de atendidos não correspondesse equivalente redução do número de suicidas bem sucedidos. Esta cifra, teimosa, só muito a custo se ia reduzindo, e tão lentamente que era difícil, sem prejuízo da certeza, garantir que tal abrandamento se ficasse devia à intervenção da instituição e não a outro motivo qualquer. A este propósito, o padre escreveu no caderninho: "Apesar do crescimento dos casos em que passamos a ser procurados pelos potenciais suicidas, continuam a chegar em ritmo constante as informações dos fiéis e amigos espalhados pelo país, indicando-nos um sem número de pessoas que manifestam sinais de alarme suicida. O que actualmente mais nos traz preocupados é precisamente o facto de se registar entre estes que nos são indicados pela via original a maior taxa de insucesso da obra. Ou seja: aqueles que procuram a nossa ajuda, buscando uma última esperança, parecem vir já decididos a não morrer. Entre os outros, e malgrado a nossa acção preventiva, são muitos os casos em que os suicidas acabam mesmo por se matar".
Esta conclusão não fez, porém, esmorecer o ânimo de frei Gil, bem pelo contrário, pois parecia óbvio que a existência da instituição estava plenamente justificada pela obra já realizada, sendo igualmente importante essa função que ultimamente vinha adquirindo, servindo de último recurso aos não totalmente desesperados. Todavia, no caderninho constavam anotações que pareciam indicar que a principal dificuldade em lidar com os suicidas-suicidas (por oposição aos potenciais suicidas que procuravam a instituição de moto próprio) residia no facto de nem todos serem passíveis de uma abordagem tão esquemática como aquela que o padre tinha originalmente engendrado, pois muitos eram os casos em que não havia aconselhamento, acompanhamento médico, dinheiro e emprego que pudessem evitar o trágico desenlace, por estarem os suicidas já demasiado firmes nas suas decisões. Por isso, esclareço agora, frei Gil necessita de uma lista das várias formas viáveis de suicídio, tão exaustiva quanto possível, pretendendo o padre pôr à prova uma ideia que lhe ocorreu há alguns dias, segundo a qual, detectados os casos sem retrocesso, o tratamento deverá consistir em baralhar a opção tomada, sugerindo-se diferentes formas de colocar termo à vida. "Se, por exemplo, o suicida pretender matar-se à pistola, com um tiro na nuca, devemos tentar fazê-lo ver que, no seu caso, haveria vantagem em eleger uma fórmula alternativa, como o envenenamento ou a queda em altura. E, enfatizando veementemente os benefícios destas hipóteses, há-de ser possível semear na mente do suicida uma raiz de dúvida e indecisão, a partir da qual seja possível resgatá-lo", escreveu frei Gil no caderninho - que servirá, aliás, de base à escrita de um manual de salvamento de suicidas que permita generalizar o método e conceda a outros, depois de si e em cada um dos quatro cantos do mundo, a possibilidade de se dedicarem à tarefa de atender ao seu semelhante na hora em que ele mais necessitado está.


(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras. Fotografia de José Marafona)

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abril 26, 2005

CLUBE DA BOA MORTE (2)

Para executar a tarefa, frei Gil alcançou erguer do nada, com a ajuda de antigos paroquianos e de padres amigos e respectivos rebanhos, uma rede de recolha de informação sobre aqueles que estivessem necessitados da ajuda da filantrópica agremiação de socorro vital, sendo que, reconhecidos e apoiando o objectivo da instituição, os informates serviam também de financiadores da piedosa operação, quotizando-se no sentido de garantir um fundo financeiro que permitisse enfrentar sem hesitações ou fatais demoras os casos mais desesperados. Assim se custeavam os gastos com consultas psiquiátricas e se providenciavam adiantamentos líquidos que evitassem casos de suicídio por motivos económicos, sendo que aqueles que viessem a ser salvos da tentação inescapável se comprometiam a ressarcir a obra do frei Gil dos custos da operação. Por outro lado, os amigos da instituição, não se limitando a descobrir aqueles que estivessem necessitados da intervenção da associação, tratavam ainda de criar uma rede de amizades que permitisse a existência de uma bolsa informal de empregos, nos quais os potenciais suicidas se poderiam manter ocupados no decurso da fase inicial da terapia.
Tudo corria bem, portanto, e, deste modo, frei Gil começou a salvar suicidas da morte quase certa, primeiro um, depois outro, depois dez, depois cem, até que o fenómeno passou a correr de boca em boca e se transformou em notícia dos jornais e reportagem na televisão. A hierarquia da Igreja, tocada por este exemplo cristão de abnegação, reagiu com cautela e desconfiança, a princípio, louvando, ainda assim, a atitude de frei Gil. O caso, porém, foi atingindo proporções tais que o cardeal acabou por convidar a imprensa para presenciar a recepção do salva-suicidas na sede do patriarcado, registando-se uma trovoada de flashes no momento em que os dois homens de Deus apertaram as mãos e selaram o reencontro com um sentido abraço, após o qual se retiraram para uma breve conferência, da qual saiu o anúncio solene de que a Igreja passaria, doravante, a apoiar informalmente o meritório trabalho de frei Gil, cedendo para o efeito instalações devolutas que pudessem servir de base à instituição. Enquanto o anúncio se produzia, frei Gil sorria, o cardeal sorria também, tendo este terminado a sua curta e ponderada intervenção com um rasgo de oratória que os jornais, no dia seguinte, reproduziram integralmente: "Tivesse frei Gil vivido alguns séculos antes e mesmo a alma de Judas poderia ter sido salva, devolvendo ao caminho justo um homem que dele se tinha perdido e deixado sem função funesta a árvore a que o discípulo, em má hora, lançou a corda com que se enforcou".
Foi tal o sucesso de frei Gil e tão retumbante o efeito da sua acção que muitos suicidas passaram a procurar a obra de livre vontade, abrigando-se sob os seus desígnios e procurando ajuda especializada mal a ideia da morte lhes atravessava o espírito à laia de possível escape para este ou aquele problema, uma ou outra aflição mais aguda. A todos o padre recebia com igual parcimónia, aconselhando e analisando os males que atormentavam os candidatos a suicidas, encaminhando-os de acordo com a natureza das suas maleitas e vigiando-os até certo que o bem estar se mantinha e que a fatal ideia os havia definitivamente abandonado.


(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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CLUBE DA BOA MORTE (1)

Pelo seu maior tamanho comparativamente ao texto editado ontem, começo por apresentar o primeiro post respeitante ao conto "Clube da boa morte", da autoria de Manuel Jorge Marmelo. Um conto que incide não só sobre a problemática do suicídio naquela que é/pode ser a sua abordagem mais ampla, mas também, sobre a do direito ao suicídio, em particular, na vertente da sua qualidade.
Pelo interesse e sempre pertinência do que está em causa, conto com a vossa especial companhia e acompanhamento. Ainda mais pela relevância das temáticas no âmbito das sociedades contemporâneas e dos/pelos debates já iniciados em seu torno e ainda não concluídos, nem em perspectivas de o serem.

Enforcamento, tiro na boca, remédio para os ratos, sufoco com saco de plástico enfiado na cabeça, tiro na têmpora, forca improvisada, salto de ponte, corrida rápida e mergulho diante de locomotiva que siga em boa velocidade, ingestão de soda cáustica, envenenamento por gás butano do fogão da cozinha, caminhada lenta mar adentro, automóvel em ponto morto na garagem, dose excessiva de comprimidos, corte profundo dos pulsos dentro de uma banheira previamente abastecida de água tépida, pulo do alto do edifício de vários andares, condução em velocidade excessiva na contra-mão de auto-estrada com grande movimento de veículos pesados de mercadorias, envenenamento, introdução da cabeça no micro-ondas, eutanásia clinicamente assistida, asfixia com almofada, administração intravenosa de substâncias significativamente tóxicas - são quase infindáveis as possibilidades à escolha de um suicida metódico, concluiu frei Gil, cansado já de anotar nas folhas do seu caderninho as alternativas que séculos de evolução da espécie tinham colocado à disposição do homem, parecendo quase que a cada nova etapa tecnológica da humanidade corresponde sempre pelo menos uma nova forma de autoliquidação. Como se ao ser humano não tivesse bastado ser o único animal de criação capaz de se matar por puro ditado do livre arbítrio, tendo ainda perseverado em fazê-lo de modo criativo, original e progressista, transformando a própria morte numa manifestação cultural, uma prerrogativa da espécie, algo tão corriqueiro como vestir-se desta ou daquela maneira, alimentar-se com um ou outro alimento, fumar ou não fumar, dar vida a um novo ser ou recusá-la com o recurso a métodos contraceptivos. De tal modo, anotou frei Gil, que "o tresloucado suicida (ou não) nega não só cabimento à penalização legal que a lei impõe ao que se mata - castigo que só se aplica, paradoxalmente, ao que falha e que jamais será cumprido por aquele que efectivamente leve avante a sua intenção -, como ainda rediculariza com algum escândalo uma das mais bem intencionadas ordens da religião católica, segundo a qual só Deus tem o poder de conceder a vida e de atribuir a morte. O suicida não se limita, portanto, a morrer - atreve-se a zombar de Deus".
Graves pensamentos ocorriam, portanto a frei Gil enquanto se entretinha na demorada (e algo penosa) tarefa de ponderar as inúmeras formas de morte por opção que o homem foi capaz de inventar para roubar ao acaso ou à doença o privilégio de impor o último suspiro a uma vida. É trabalho incómodo, já se vê, capaz de fazer estremecer os fundamentos em que assenta a vida de um homem de Deus, mas frei Gil necessita que este levantamento seja feito, e com urgência, pois disto depende o sucesso da tarefa a que entusiasticamente se entregou, largando a batina com o intuito de tentar salvar as carcaças humanas, depois de, sem grande sucesso, suspeita, se ter esforçado na cantilena que devia conduzir ao resgate das almas respectivas. Em poucos meses de trabalho, o ex-padre ficara na posse de todas as estatísticas relativas ao assunto: a evolução anual do número de mortes por suicídio, os períodos de maior concentração de ocorrências, a sua distribuição geográfica e a incidência por idades e sexo, concluindo ainda que as causas que conduzem o suicida à fatal decisão podem resumir-se a três grandes classes: patológica, sentimental e financeira. Deste modo, igualmente ocorreu a frei Gil que aquele que traz em vista pôr precipitadamente fim à vida pode ser tratado de acordo com a natureza da sua decisão, providenciando assistência médica a uns, conselhos sentimentais a outros e emprego e dinheiro aos demais. E, com isto, atirou-se à tarefa de salvar vidas, procurando nas ruas de cidades e vilas sinais que, nos olhos dos passantes ou na sua forma de caminhar, pudessem indicar que aquele homem ou esta mulher estão necessitados de ajuda urgente. Depressa se apercebeu, porém, da existência de uma quarta categoria da doença, provocada por uma espécie de aborrecimento absoluto e falta de perspectivas existenciais, sendo esta a de mais difícil tratamento - simplesmente porque, escreveu frei Gil no seu caderninho de anotações, "os padecentes desta variante não reconhecem sequer a pulsão que os atormenta, nem exibem sinais de alarme significativos, mortificando-se antes com bebedeiras e drogas, matando-se lenta mas seguramente; às vezes, sucede que, sem aviso prévio, decidem apressar o sim e se matam".

(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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abril 25, 2005

O MISTÉRIO DA SENHORA X

Edito hoje o primeiro de um total de três contos da autoria de Manuel Jorge Marmelo, a serem apresentados aqui no Abismo, ao longo desta semana.
Cada conto, aliás, com uma mensagem relevante inerente que objectivo seja por vós entendida e suficientemente estimulante para deixarem registada opinião. Seja como for, e mesmo que isso não aconteça, o principal é que os contos surjam aqui, que vocês os leiam e os compreendam/assimilem ao nível do mais explícito mas também ao nível de tudo aquilo que de implícito tiverem.
Relativamente ao escritor: nasceu em 1971 na cidade do Porto e é jornalista desde 1989. O seu primeiro livro publicado data de 1996, inaugurando a colecção "Campo de Estreia", da editora Campo das Letras. Desde essa data tem publicado textos e contos em diversas publicações e antologias quer em Portugal, quer no Brasil, quer em França.
Mas... passemos ao conto.

Josefina Aparicio Iglesias não era uma mulher particularmente bonita ou elegante - as fotografias mostram-na rechonchuda e com um rosto banal - , mas logrou, apesar da ausência de encantos visíveis, transformar-se na obsessão de dois homens: o seu marido e Eric Kessels, um publicitário holandês que dedicou três anos da sua vida a encontrar-lhe o rastro. Descobriu-o, afinal, em Barcelona, a mesma cidade onde comprou seiscentos diapositivos criteriosamente catalogados, com a data e o local, mostrando o rosto dela. Sempre o rosto dela, anafado e quase inexpressivo, posando como uma má actriz diante de montanhas e igrejas góticas, paisagens primaveris e suaves curvas de rios calmos. Foi também em Barcelona que Eric Kessels soube que Josefina está morta, irremediavelmente morta, e que, por isso, jamais conseguirá conhecê-la, saber quem foi e porque é o único motivo humano entre as inúmeras fotografias de que se achou proprietário.
Para que se desenganem aqueles que esperam ler a seguir uma história de contornos ao gosto do romance negro, diga-se já que esta é uma história povoada apenas por sentimentos nobres e corteses e outras banalidades fora de uso. Começou quando Kessels comprou, há três anos atrás, uma colecção de diapositivos numa feira catalã de artigos em segunda mão. Ali estavam quase seiscentas imagens, nas quais se repetia a aparição de uma mulher anónima, posando de fato de banho em Camp de Mar, na neve de Andorra ou enquadrada pelos picos rochosos de Monserrat - mas sempre em Espanha. A partir desse dia, o publicitário não mais descansou, perseverando quase desatinado na demanda daquela mulher misteriosa - a "senhora X", como passou a ser chamada assim que os jornais descobriram a fantasiosa história do holandês que corria Barcelona de uma ponta à outra perguntando a quem passasse se, por acaso, identificava a mulher das fotografias.

Como que tomado por uma febre benévola, que lhe estampava na cara um sorriso idiota, porém satisfeito, Kessels visitou no último Verão todos os locais mostrados pelas fotografias e, em Fevereiro, expôs parte das imagens numa galeria de Barcelona, lançando simultaneamente um livro dedicado a esta busca. Chamou a ambos "In Almost Every Picture" (literalmente "em quase todas as fotografias") e ficou à espera que a mulher aparecesse até ao último dia da mostra. Queria simplesmente conhecê-la e devolver-lhe os "slides".
- Pensei muito nesta mulher e em quanto o marido devia adorá-la para lhe ter tirado todas estas fotografias. Não tinham filhos, pois passam os anos e eles continuam a viajar sozinhos, aparecendo apenas ela nas imagens. Creio que a história deles deve ter sido muito triste - , disse Kessels ao diário espanhol "El País", no dia da inauguração da exposição. Mas a história pode ter sido igualmente feliz, apaixonada, intensa - a história de duas pessoas que se amaram sempre, até ao fim, sem necessitarem que um filho comum viesse confirmar aquilo que já sabiam: que eram um do outro até que a morte os separasse.
O holandês estava, porém, longe de imaginar até que ponto se achavam acertadas as conjecturas que elaborou a partir das imagens. Graças a uma reportagem exibida num canal catalão de televisão, Christina Julonch soube da demanda de Kessels e reconheceu a mulher das fotografias.
Era, afinal, uma antiga colega de trabalho da sua mãe, Carmen Lleal, de 82 anos, ex-funcionária, como Josefina, da Companhia Telefónica. Esta pôs-se em contacto com antigas colegas que também se recordavam de Josefina, foram todos ver a exposição e assim se soube que a "senhora X" nasceu em 1925, tendo falecido de cancro, como o marido, um médico com casa na Costa Brava. Não tinham, de facto, filhos e o único irmão de Josefina está também morto, igualmente vitimado pelo cancro.

Desfeito o mistério, uma agência de publicidade de Barcelona que colaborou no projecto de Kessels está agora a efectuar uma investigação aprofundada sobre as origens de Josefina. Afinal, o sonho do holandês continua por concretizar: não conheceu a "senhora X" e não encontrou ainda nenhum familiar que possa receber os "slides". A menos que se aceite que a busca de algo seja um fim em si mesmo, a obsessão que norteou os últimos anos do publicitário terá chegado ao fim sem que dela se extraia qualquer sentido, nenhuma utilidade. É apenas uma história triste, amoral e sem um final feliz. Ou sem final nenhum.


(Manuel Jorge Marmelo- "O mistério da senhora X", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografias de Urs Kahler)

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abril 24, 2005

A MÁSCARA (PERSONA)

De um dos meus realizadores preferidos- Ingmar Bergman - um filme, já disponível em DVD, que vos recomendo: "A Máscara" ou, no original sueco, "Persona", datado de 1965 com Bibi Andersson, Liv Ullmann, Gunnar Bjornstrand.
Quanto ao argumento:

"A actriz Elisabet Vogler deixou de falar e isolou-se completamente do resto do mundo. Por ordem dos médicos, é levada para uma remota casa de campo, na companhia de uma enfermeira, Alma. Esta está sempre a falar, para preencher o silêncio, e gradualmente começa a revelar por completo a sua identidade.... até descobrir que ela lhe tem sido progressivamente sugada. À medida que as mulheres vão batalhando pelo controle da situação e pela sua sanidade, a grande questão torna-se não em saber qual delas é a doente e quem está a cuidar de quem, mas sim se no fundo elas serão duas mulheres diferentes ou se serão uma e a mesma mulher."

Um filme com uma carga emotiva muito grande susceptivel de nos causar perturbação e onde determinadas cenas permitem perceber, de facto, os problemas colocados ao nível do argumento ou, visto ao contrário, que o justificam. A imagem que edito é retirada de uma dessas cenas e é representativa disso mesmo.

Mais um filme de Bergman que pelas características existencialistas inerentes é, inequivocamente, de não perder. Mais um reflexo da excelência da obra cinematográfica daquele que aqui está em causa.

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O TOQUE DE CAIXA

E porque hoje é Domingo deixo-vos com mais um trabalho da autoria do Luís Coutinho. Fiquem bem!

Procura-se sempre qualquer coisa que não se encontra, que não se sabe de onde ou para onde vai, mas que está no calendário dos dias que nos vão dando….
Um dia qualquer de memórias de alguém que já não consegue lembrar, de alguém ou de algo perdido entre ruas de nomes trocados, escondidas atrás de fachadas de casas em ruínas, num dia semelhante a todos os outros, um dia como aqueles dias que rapidamente esquecemos, nasce sem ninguém dar por isso e fica moribundo quando o sol se vai embora sem dizer adeus. Um daqueles dias que se espalha pelo corpo de todos, faz lágrimas e dá novos corpos, enquanto atira para o seio da terra mais uns tantos, um dia de duas metades de 12 horas, escassas para que todos falem, que se diluem entre intervalos publicitários, e previsões meteorológicas falhadas de uma felicidade com chuva ou de temporais solarengos, para os quais as máscaras felizes de Carnaval não chegam para todos e os fatos de homens tristes, são os mais procurados nos saldos, para as festas do tempo escasso.
Sem relógio o tempo atrasa-se a si mesmo ou antecipa-se à sua chegada, nós, os seus ponteiros, nunca chegamos a um consenso e arrastamo-nos para a frente e para trás ao sabor de uma única certeza, aquela onde se conclui não haver qualquer certeza, e sentimo-nos inúteis quando cai mais um ao chão e lá vai terra para cima dele, e nós mascarados, brincamos aos idiotas do está tudo bem. Alguém finge dar corda ao relógio e alguém começa a correr porta fora, como se soubesse do que foge e para onde vai. Somos felizes? Somos pouco felizes? Somos uns tristes, somos miseráveis?Se falássemos baixinho? Espera, deixa que apenas eu fale, empresta-me à força este teu último fôlego, deixa que o teu pescoço se quebre na delicadeza das minhas mãos ásperas e que o teu corpo desmaie para este dia e se vista igual ao dia de ontem que já é morto. Uns olhos esbugalhados de espanto, a condizer com uma boca rasgada por onde ainda corre um fiozinho de sangue, parece-me bem não achas? Poupavas o dinheiro do fato de homem triste para que eu conseguisse comprar uma máscara de idiota feliz, e sempre te apresentavas de forma original! Gostas da ideia? Depois? Depois, toque de caixa e lá vai terra, as últimas exéquias, até qualquer não dia, quero lá saber de ti e vou brincar ao Carnaval dos parvos, vestido de idiota, com uma máscara sorridente, talvez me convidem para um canal de meteorologia quando virem que detrás da máscara se escondem umas lágrimas que não secam e ameaçam tempestade para os dias felizes.


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

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abril 23, 2005

CULPABILIDADE RACIONAL

Uma segunda re-edição igualmente desafiante. Autor: Albert Camus. Obra: "O Homem Revoltado". Situemo-nos, agora, naquela que é a posição e a postura do Homem no Mundo. Naquelas que são as posições e as posturas dos homens entre si. Comecemos por aqui. Passemos para as pátrias. Passemos para o estados. Pensemos nas relações entre tudo ao longo da História. Perspectivemos o futuro. Ou um futuro. Ou futuros.

O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. Consiste a questão em saber se essa recusa o não pode conduzir a outra atitude que não seja a destruição dos outros e dele próprio, se toda a revolta deve terminar na justificação do morticínio universal ou se, pelo contrário, sem pretensões a uma inocência impossível, ela poderá descobrir o princípio de uma culpabilidade racional.

(Albert Camus- O HOMEM REVOLTADO. Ilustração de David Ho)


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META DE TRANQUILIDADE

Na minha primeira re-edição de hoje deixo-vos Inês Pedrosa com a obra "Fazes-me falta". Quanto ao excerto: mais um pretexto para pensarmos sobre nós, naquela que é a relação entre a existência e a tranquilidade que em si se pode genuinamente viver, ou... nem tanto. Proposta em termos de fotografia: uma possibilidade com um grande potencial para ser absolutamente alterada. Alterada em função daquilo que cada um julgar ou sentir como mais apropriado ou como mais consentâneo com esta ou aquela realidade existencial. E aqui os cenários podem ser muitos, também, em função de passados, presentes e futuros. Ou então, em função de uma simples opção estética.

Só vivendo sobre a mudança se podia evitar a dor, só contornando a monstruosa perfeição do tempo se podia vencê-lo. Assim pensava, e enganei-me, porque o tempo não é pensável. Concentrei-me em deixar de ser para poder ser tudo, em esquecer para dominar a existência. Eu sou o tempo; sou nada, o nada veloz e imóvel que molda o corpo do tempo. Deixar de ser é ainda acatar as regras implacáveis do ser. Estou esgotado do correr contra a dor, contra a memória, contra a infância, contra o amor e o ódio. Criei uma meta de tranquilidade que se afasta tanto mais quanto mais corro para ele. Não há paz no instante, e eu vivo de instante para instante. Começo a temer que a paz se alimente do sangue da paixão de que abjurei.

(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA. Fotografias de Philippe Pache)

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abril 22, 2005

MAIS INSTANTES DE POESIA: DANIEL FARIA

E nesta sexta-feira três poemas de Daniel Faria (1971-1999). Um poeta cuja morte antecipou, em muito, a continuação da sua capacidade criativa. Uma capacidade criativa que, contudo, pode ser mais do que provada a partir da/com a obra deixada. E o que ficou é por demais significativo para não ser divulgado, para não ser feito sentir, para não ser feito pensar, para não ser feito usufruir, naquele que é o resultado da produção poética. Para que isto aconteça vou, mais uma vez aqui no Abismo, deixar uns poemas. Três exemplares do muito que nos pode chegar dentro.


ENTREI NA SOMBRA COMO ALGUÉM QUE VIA

Entrei na sombra como alguém que via
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro

Entrei com a sombra pela cintura como algo conquistado
Com o sangue a escorrer-me para os pés. Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido.

Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre

Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha


CONSERTO A PALAVRA COM TODOS OS SENTIDOS EM SILÊNCIO

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a


FALO DAQUILO QUE VEJO, EMBORA POSSAS PENSAR QUE SOU CEGO

Falo daquilo que vejo, embora possas pensar que sou cego
seguindo as mãos - sim, toco as palavras nas suas superfícies
e utensílios.

A primeira palavra que os olhos viram, agora que a recordo,
parecia uma imagem - sim, um som desenhado como um fóssil
(falo de fóssil, mesmo
que ele demore muito a aparecer no que digo),
um som do tamanho de um azulejo: agora que me lembro que era uma palavra

que brilhava nos meus olhos ao vê-la
(ver uma palavra era uma planta muito diferente,
um oxigénio muito difícil de se respirar).

Sim, agora vejo que falo, embora possas pensar que sigo pelo tacto a escrita.

Sim, eu leio e decifro. E agora sei que oiço as coisas devagar.


(Daniel Faria- POESIA. Edição: Quasi Edições, 2003. Fotografias de Naushér Banaji)

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abril 21, 2005

INSTANTES DE POESIA: JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

Deixo-vos, aqui, três poemas de um autor que considero bastante: José Agostinho Baptista (n. 1948, Funchal). Um poeta que mexe muito com a minha sensibilidade pela forma como conjuga as palavras e os versos, naquela que é a construção total de cada poema. Um provável neo-romântico, num designar/identificar que o próprio questiona.


COMO PODERÁS ENTENDER?

lembro-me sobretudo desses dias.

depois do sol tu vinhas.

eram belas as túnicas de argel e as velhas botas espanholas
que te dera o último amante.

ele gritava
give me some truth give some truth
e tu rias rias como em noites de festas pagãs.

hoje
sentado neste bar quinhentista e fluvial de um país
sonâmbulo
vejo
os pequenos barcos do rio que se dirigem para oeste
enquanto os marinheiros do passado há muitas
horas bebem aguardente.

tu
perdida nas vertiginosas danças bárbaras como
antigamente
como poderás entender esses lugares de paixão
onde me sento e bebo
ouvindo as histórias da época prodigiosa?


DESTE LADO ONDE

outrora foi aqui uma casa,
neste lado onde, nos anos da destruição, as mulheres sós
cantaram com voz doce,
o pão das primaveres breves.

outrora aqui foi a casa e uma terra de paixão,
quando era a ceifa,
neste lado onde, num outubro de silêncio, regressámos
para morrer,
malditos e quase nus;

era um lugar de fascínio este, verde e terrível nos
invernos violentos,
quando os exércitos regressavam dos continentes
desolados, depois do extermínio.

quem canta agora, à volta da casa que havia,
quase na margem sem nome,
quem canta entre as árvores estéreis,
onde a vida se despede?

mais além começa a estrada,
a que se alonga através da poeira vermelha,
a estrada que vai para longe,
onde nunca chegaremos.

já partiram um dia as embarcações guerreiras, as mulheres do trigo em
setembro
os viajantes enlouquecidos.

há muito que o vento deixou de varrer a encosta,
inclinando as vinhas, as urzes, os frutos e a solidão do
caminhante do meio-dia;

era então o vento seco, nem sempre frio, o vento estrangeiro
que não vinha do norte, mas do sul,
algures na planície antiga.

outrora aqui foi a casa, o vale sereno de antes da destruição,
quando todos partiram para as incendiadas terras do mundo
enquanto, deste lado, numa estação de silêncio, os homens
que fomos,
vencidos e calmos,
regressamos para morrer.


E AS CASAS SÃO BRANCAS LOUCAMENTE BRANCAS

lembro-me das horas sobre o mar
do surdo rumor do casco dos navios
da tua boca colada à paixão dos mapas primitivos.

entretanto o teu corpo corre devagar para o litoral
e as casas por detrás dos cabelos são brancas
loucamente brancas.

no princípio eram as paredes
e havia o teu riso altíssimo encostado aos dias que
morriam nas paredes.

quem destruiu tudo isso?
quem matou as aves nos ramos da tua loucura?

oiço este rio que corre longe de mim longe de tudo
este corcel galopando pelos países -

quem canta esta noite?

entretanto tu atravessas a minha poesia com espadas de
neve
e falas de casas como quem fala do surdo rumor do casco
dos navios -

quem canta esta noite?

e o teu corpo vai correndo devagar para o litoral
e as casas por detrás dos teus cabelos são brancas
loucamente brancas.


(José Agostinho Baptista- BIOGRAFIA. Edição: Assírio & Alvim, 2000. Os poemas editados foram extraídos do livro "Deste lado onde", um daqueles que compõe a obra referenciada. Fotografias de José Marafona)

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abril 20, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (5)

O PAI DO NICOLA

(...)

Trinta anos mais tarde, disse um dia Nicola a seu filho Sérgio, a quem chamavam Simba pela sua beleza leonina:
"Simba, desobedeceste ao pai e o que é pior, puseste em perigo a vida do teu primo que ainda não fez cinco anos."
"Papá, a cancela estava aberta e a bola foi parar ao outro lado da rua, eu estava lançado na corrida e nem sei porque gritei corre! e ele veio atrás de mim, e aquele corre! estava a dizê-lo para mim mesmo, não queria que ele viesse atrás de mim, nem sequer dei por isso. Só o vi quando cheguei ao outro lado da rua."
"Podiam ser atropelados. Desiludiste-me muito, Simba."
"Papá, eu estava a correr, tinha que ganhar o jogo, queria agarrar a bola e marcar o golo da vitória. Nem sequer pensei na rua, queria apenas ser corajoso, como tu."
"Mas eu sou corajoso apenas quando o é necessário ser."
"Mas tu nunca tens medo, não é verdade, papá?"
"Medo eu tenho, como todos os mortais, e a verdade falando, hoje um medo ingente eu concebi."
"Tiveste? E tiveste medo de quê?
"Um medo horrível de para sempre te perder."
"Oh, papá querido, deixa-me abraçar-te. E agora que estamos abraçados, diz-me uma coisa. Porque é que te puseste a falar de uma forma tão estranha?"
"Porque esta é a linguagem da justitia, que deve ser antiquada e farfalhuda, e ao mesmo tempo seriíssima, autoritária, nunca modernizada e muito próxima de como se falava nos tempos antigos."
"O quê?"
"Não tenhas medo, meu pequenino, porque a minha justiça é a justitia daqueles que nunca batem nos filhos e apenas falam, e falam amorosamente, e só amam para se fazerem amar, e exigem respeito para darem respeito e tudo fazem por desejo de harmonia e ternura. Pensa bem em tudo o que te disse e tem sempre confiança em mim e nunca tenhas medo de mim, porque ter medo do próprio pai é uma coisa muito triste e não há motivos para isso. E agora, vai, meu filho, volta às tuas brincadeiras e à tua despreocupação."
"Amigos para sempre, não é, papá?"
"Amigos para sempre."
"E estaremos sempre juntos?"
"Simba, deixa que te diga uma coisa que um dia, quando tinha a tua idade, ouvi dizer enquanto jogava ao berlinde, sozinho, junto de um banco da Piazza Napoli. Um pai bondoso falava carinhosamente ao filho numa bela tarde de fim de Verão e eu, para suavizar a minha melancolia, pus-me a ouvi-lo como que encantado. Deixa que te repita as suas palavras: Simba, olha para as estrelas, os pais bondosos do passado olham-nos lá de cima para nos proteger, porque os seus filhos nunca se esquecerão deles e nunca deixarão de os amar. E assim, quando um dia te sentires sozinho, olha para as estrelas e podes ter a certeza de que também eu ali estarei."


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


E é com o olhar nas estrelas que me despeço na companhia desta obra. Despeço-me com um cenário de esperança, com um cenário de possibilidade da mudança e com um cenário de inequívoco Amor. Espero que os excertos editados tenham despertado o vosso interesse e vos tenham sensibilizado ainda mais para a(s) problemática(s) em questão. Mais uma vez: leiam o livro na íntegra. Vale muito, muito, muito a pena. Um grande abraço para todos :)

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abril 19, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (4)

O PAI DA FRANCESCA

O pai da Francesca desde rapaz que era um brutamontes, daqueles que vieram ao mundo só para deitar tudo abaixo.
Se tivesses passado por tudo o que eu passei, disse-me Francesca, um dia em que passeávamos à beira do rio, compreenderias por que motivo vivo sozinha. Ao vê-lo agora parece normal, e mais, agora que está velho quase provoca ternura, e é isso que revolta, não te parece? Ai está uma vantagem reservada apenas aos homens, quando envelhecem toda a gente diz, coitadinho, voltou a ser uma criança. Nunca se ouve dizer uma coisa assim para uma mulher, pelo contrário.
(...)
Sete anos feitos havia três dias, após umas febres que duraram duas semanas. Levanto-me da cama três centímetros mais alta, quase nem consigo aguentar-me em pé. Caminho ao longo do corredor com a boneca nova nos braços, cambaleando devido à fraqueza, e a boneca cai-me dos braços e fico imobilizada a olhar para ela, não sei o que me passou pela cabeça, não me recordo. Ele sai da casa de banho e encontra-me ali, especada, diz, Apanha-a. Mas eu era como se não ouvisse nada, continuo nos meus pensamentos sem recordação, e como não faço o que ele manda, dá-me um murro e caio ao chão, sentindo o calor do sangue que me escorre do nariz. O medo dentro de uma casa faz coisas estranhas, minha mãe nem sequer chamou o médico, percebes? Lava-a com água fria e mete-a na cama. Uma criança de sete anos com um murro daqueles pode até morrer.
E depois, bruscamente, ficava alegre, mudava de humor como a cobra muda de pele.
(...)
Não, não te dou tempo de dizeres nada, vou contar-te outra. Escolho uma do baralho, ao acaso. Doze anos, atraso-me um pouco em frente da escola com uma amiga. Ele sabia de cor o meu horário, o senhor arquitecto, quase engenheiro, tinha uma cabeça extraordinária para tudo o que fossem números. Vê-me na rua quando voltava para casa de automóvel, e grita-me, Com que então, já temos aqui uma putazinha? Guina o volante e sobe o passeio, como num filme americano e... começa a perseguir-me, estás a ver, persegue-me como se quisesse atropelar-me. A minha salvação foi enfiar por um portão, subo umas escadas. Ele sai do carro, vem atrás de mim. Não sei quantos andares, não os contei, sei que a dado momento sinto-me encurralada e começo a gritar. Uma mulher abre uma porta, parecia mesmo a rapariguinha perseguida pelo louco criminoso. Sou o pai dela, grita ele, é minha filha. Que devia eu dizer? Disse:- Mentira, nunca vi este homem na minha vida. A mulher deixa-me entrar, como se faz com os gatos, abrindo apenas uma nesga da porta. Assim que fechou a porta, declaro, Sim era meu pai, mas não é normal, não é bom da cabeça, as aranhas e os vermes comeram-lhe os miolos durante a noite. Então, a mulher disse, Se é mesmo teu pai, não me quero intrometer. E da mesma maneira que me tinha deixado entrar obrigou-me a sair, e eu desci as escadas devagarinho, cada degrau um perigo vencido, já imaginava vê-lo saltar das paredes, sob a forma de uma larva, de um insecto gigantesco que me ia engolir. Mas não aconteceu nada, cheguei à escuridão do vestíbulo, que estava em paz, só se ouvia o ruído da rua.
(...)
Voltei a casa, onde o encontrei sentado à mesa, a comer. Não se passou nada até à sobremesa, até ao descascar mecânico de uma laranja, como se fosse uma maçã, (...), até chegar ao âmago, até que o fruto pingava o sumo louro. Assim que acabou de comer, a laranja explodiu, transformou-se em polvo com mil tentáculos, e cada tentáculo uma boca, e cada boca me sugava o sangue e deu-me tanta pancada que eu, libertando um braço, abri a janela e comecei a gritar (...).


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


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OS PAIS DOS OUTROS (3)

O PAI DO GUALTIERO

O pai do Gualtiero era um indivíduo maldoso e rude. Chamava ao filho Diamantino, mas queria dizer dementino e, como o significado das palavras reside sempre na entoação, o truque servia apenas para se defender, porque o destinatário sempre o entendeu como ele o entendia. Por necessidade, o pequeno costumava chamar-lhe padre caro sabendo bem não poder acabar a frase, mas reservando-se o prazer de a terminar em pensamento acrescentando ao afectuoso adjectivo a terminação gna*.
Dementino e pai carogna eram verdadeiros inimigos, que se dedicavam um ódio eterno, e aquele ódio, como qualquer outro ódio da vida, teve o seu início numa data precisa e, para sermos absolutamente exactos, numa hora exacta.
Na noite de 28 de Maio de 1959, o pai de Gualtiero regressou de uma longa viagem, deviam ser duas ou talvez duas horas e meia da manhã, e como no dia seguinte tinha de voltar a partir para outra viagem ao fim do mundo, em vez de ir dormir deu-lhe na veneta de se pôr à procura de um certo par de sapatos que lhe seriam úteis no sítio para onde ia.
Havia já uma hora que andava à procura, quando a mulher disse, Deve ter sido o Gualtierozinho. Sabes, desde há algum tempo deve sentir muito a tua falta e como compensação enfia os pezinhos nos teus sapatorros e anda com eles pela casa fora, todo contente a fingir que és tu.
O pai grunhiu de fúria. Quer dizer, eu para ele sou objecto de escárnio. Sente a minha falta, uma ova! O que ele tem é falta de autoridade paterna.
E às três e um quarto um ponto irrompe pelo quarto do filho, que tinha acabado de fazer havia pouco os quatro anos, arranca-o do sono pelos pés e começa a fazê-lo voltear no ar, de tal maneira que a criança acordou sentindo o impacto do vento que as voltas produziam e o coração saltando-lhe pela boca. Se não morreu com a cabeça esfacelada contra qualquer aresta da mobília, foi talvez graças a algum santo que não o permitiu. Mas, se quisermos ter pena dos seus sofrimentos temos de dizer que teria sido melhor para ele ter morrido sem saber como na escuridão daquela noite levado por aquele vórtice desconhecido, porque ficando vivo acabou por perceber a razão e durante oito dias ficou de cama, com uma febre altíssima provocada pelo terror e por convulsões que fizeram dele uma coisa desgraçada e tremente.
Quando readquiriu o uso da fala, disse, Ele queria-me matar. E de nada valeram as palavras da mãe, que tentava explicar, Isso não é verdade, ele gosta de ti, sabes como ele é, é muito nervoso, farta-se de trabalhar e nunca descansa. Mas foram palavras lançadas ao vento e o vento levou-as consigo.
A partir daquele dia foi o terror, bastava ouvir o ruído das chaves da fechadura, o bater das portas do elevador e Gualtiero corria pelo corredor fora e ia fechar-se no seu quartinho. Sai, que é a tia Patrícia, gritava-lhe de longe a voz da mãe, e então Gualtiero punha de fora primeiro a cabeça de passarinho e depois as perninhas com os joelhos ainda a tremer. Mas outras vezes bem podia esperar, que a voz tranquilizadora não chegava da entrada, e Gualtiero começava a balbuciar em pensamento, dirigia-se aos seres espaciais de que tanto se falava, suplicava que o raptassem, de tal maneira que mais tarde quando já era um rapazinho a sua canção preferida era E.T, leva-me contigo.

* (pai asqueroso)

(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de William Ropp)

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abril 18, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (2)

O PAI DO SANDRO

O pai do Sandro disse, Temos de olhar de frente para a realidade, o rapazinho não é inteligente. Pusemos no mundo um filho estúpido. Não consigo mesmo perceber como foi que isso aconteceu, mas é assim mesmo. Assim dizendo, caminhava a passos lentos no seu escritório, aflorando com a ponta dos dedos os belos livros da sua biblioteca, parando entre uma lombada e outra para um pensamento mais ruminado. E a mulher não pensou sequer em contradizê-lo, porque, se ele o dizia, não podia deixar de ser verdade, e no fundo do coração quase assumia todas as culpas, porque as palavras são claras como uma conta de somar. Engoliu em seco um par de vezes e depois saiu da sala.
Sandro correu para a cozinha, para junto da avó, que estava a arranjar dois quilos de espinafres, debaixo de um esguincho de água fria. Aproximou-se dela, apoiando a cabeça no avental sobre a saliência de uma bela anca antiga. Avó, eu sou estúpido? Teve de fechar a torneira e mandou-lhe repetir a pergunta. Mas que raio de história vem a ser essa história? Quem é que te meteu isso na cabeça? Aqui ninguém é estúpido!
(...)
Ao menos, come! disse o pai. Pelo menos faz isso como uma pessoa normal. Ficas todo emporcalhado como quando eras bebé! E assim dizendo atirou-lhe o guardanapo à cara, mas a criança não o apanhou a tempo e deixou-o cair no prato. Mas que raio de história vem a ser esta história? disse a avó. Deixem a criança comer com os seus vagares, não se ponham a discutir sobre aquilo de que gosta e que lhe agrada. Come devagarinho, não faz mal nenhum. Fica todo lambuzado, disse o pai. Está a entornar a sopa toda. Em seguida levantou-se de chofre, apoiando os nós dos dedos na mesa com tanta força que as mãos ficaram brancas. Já perdi o apetite! disse irritado. E voltando-se para o filho disse, Vemo-nos de seguida, espero-te no escritório, tenho uma bela surpresa para ti.
(...)
Disse, Não notas nada? Claro, tu nunca notas nada, sempre distraído, sempre nas nuvens. Olha. Assim dizendo, alongou o braço esquerdo com o indicador apontado e com a mão direita agarrou-lhe a cabeça, como num torno. (...) E o pescoço girou, contraído, enquanto a força do empurrão o atirou para a frente, contra a parede.
Olha bem, disse ele. Mandei emoldurar esta maravilha de trabalho, a tua composição. Na tua idade, uma nota destas, quando todos os outros só têm dez e dez com louvor. Tu, a miséria de um suficiente. Outro dia, fui falar com a tua professora, disse-me que és lento, sem vontade, nunca prestas atenção, sempre pronto à conversa com os companheiros, e pior do que tudo disse que estás sempre, mas sempre, incontrolavelmente a rir. Chegou a altura de mudar as coisas. O teu trabalho emoldurado, e repara bem, não no teu quarto, mas no meu escritório, para teres a consciência de que eu estou sempre, mas sempre, a admirar a tua obra-prima. Que isto te sirva de contínua repreensão e de advertência. (...) Este trabalho será colocado noutro sítio no dia em que trouxeres outro melhor para tomar o lugar deste, e assim por diante, até ao dia em que haja um melhoramento de que duvido muito, mas em que tenho muita esperança. Pergunto o que terás tu herdado da minha inteligência. Nada.


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


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OS PAIS DOS OUTROS (1)

Até à próxima quarta-feira Romana Petri e o seu livro "Os pais dos outros" vão estar aqui, em destaque, com a apresentação de excertos de alguns dos 12 contos que compõem a obra. Contos que se debruçam sobre as relações entre pais e filhos, focalizando a violência das mesmas e as consequências que dai resultam para as famílias, em geral e para as crianças e jovens, em particular.
Uma obra que faz a dicotomia entre a cobardia, a violência, o desrespeito de uns e o sofrimento, o silêncio, os traumas, as angústias de outros sem, no entanto, fechar a porta que dá acesso à esperança para os descendentes dos filhos violentados nas vertentes física e psicológica.
Quanto à autora: Romana Petri nasceu e vive em Roma. É tradutora, crítica literária e escreve regularmente para os jornais "L'Unitá" e "Messaggero di Roma". Iniciou a sua carreira literária em 1990. "Os pais dos outros" acabou de chegar ao mercado nacional pela chancela da editora Cavalo de Ferro.
Inicio este conjunto de edições com a publicação integral do primeiro conto da obra. Porque é o seu arranque. Porque lhe dá um fio condutor. Porque...
Sublinho: as edições não dispensam, de todo, a leitura integral dos contos e do livro que integram. As razões são evidentes. A maior delas: por melhores que sejam as escolhas, não deixam de ser amputações e existem problemas/realidades do quotidiano cujo recuperar justifica, em pleno, conhecimento do que é o original. Neste caso e pelo que está em causa, isso é absolutamente fundamental.

O MEU PAI

O meu pai era grandioso, justo, e de uma corpuratura imensa. Um dia, uma mulher definiu-o um gigante eurítmico. Era bonito e corajoso como o herói de um romance de aventuras e a sua coragem era uma coragem verdadeira, a coragem de quem vence o medo pelo sentido de justiça e deseja endireitar o que de torto encontra na vida. Mas era também forte por natureza, cada murro seu era um atestado de óbito. Vi-o lutar contra sete e sair sem uma beliscadura.
Comigo foi de uma docura maternal, um pai-mãe que, por vezes, me parecia também um pouco meu filho. Era louro e tinha os olhos verdes, da mesma cor do lago Trasimeno nos dias de ligeira neblina. Era diferente de qualquer outro homem porque conhecia a profunda tristeza sem motivo, os longos suspiros melancólicos, a imprecisão de saber-se lá que destino.
Nas noites de Verão, gostava de olhar para as estrelas e de ouvir cantar os grilos e de imitar para mim, quando eu era menina, o seu lamento. As poucas vezes que me respondeu fê-lo apenas com a força das suas palavras. Pegava-me ao colo ou então sentava-me em cima de uma mesa e falava comigo com um tom de voz forte e persuasivo. Dizia-me coisas sensatas, às vezes também furibundas, porque aquela era a sua maneira de viver a vida: a sensatez dos males extremos e dos extremos remédios. Recordo-me de sempre o ter entendido muito bem e de ter sempre feito bom uso dos seus conselhos. Entendíamo-nos porque tínhamos o mesmo latejar da carne interior, a consciência recíproca de em alguma outra vida anterior ele ter estado no meu ventre e eu no dele. Éramos amigos e entre nós não havia segredos porque gostávamos de falar das súbitas alterações de humor, daquilo que pode deixar-nos tristes e logo a seguir alegres, da grandeza das inúmeras vozes que sentíamos dentro da alma. E assim, dizia-me, Podemos desejar ao mesmo tempo a morte e o renascimento. E eu respondia-lhe que tinha razão, que era assim a vida. Gostava de lhe beijar os olhos porque tinha as pálpebras mórbidas e sempre um pouco quentes. Em contrapartida, ele gostava de me ensinar algum golpe de luta livre dizendo que poderia vir a ter necessidade disso, um dia em que ele não estivesse presente para me defender; ou então, de me falar de Homero, porque gostava muito daquele verso que diz: "Os deuses tramam e executam a perdição dos mortais a fim de que as gerações que nascem tenham alguma coisa para cantar." E quando estava em paz consigo mesmo e não queria castigar o mundo, repetia sempre outro verso do mesmo poeta: "Ulisses trazia em si de todos os mortais o coração."
Era diferente de todos os outros homens porque conhecia a grande alegria, a súbita revolta do sofrimento, o optimismo despropositado. E então, enchia-se, todo ele era um projecto de futuro e fazia o verso longo e agudo do vento dos campos. Dizia, Sou um pedaço de terra, puro fermento. E eu pensava, Oxalá te nasçam flores no peito o mais tarde possível, meu adorado.
Este, porém, era o meu pai, não os pais dos outros.


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


Para quem gosta, tenha interesse em estar presente e o acesso não seja difícil, registo que a obra, com a presença da autora, vai ser lançada Quarta-feira, às 18.30h, na livraria Italiana de Lisboa (Rua do Salitre, 166 B), o mesmo se verificando no dia seguinte, em horário idêntico, na FNAC-Colombo (também na capital), com igual participação da escritora.

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abril 17, 2005

O QUE SENTIMOS COMO REALMENTE NOSSO?

Iniciada no dia de hoje a edição de textos da autoria do Luís Coutinho, responsável pelo blog "Escrevo enquanto chove lá fora", será uma garantia aqui no Abismo durante os próximos domingos. Textos de cariz muito intimista onde temáticas como o amor, o afastamento, o abandono, a saudade, as lembranças, os registos de vidas, têm um lugar de grande relevo e onde o autor procura imprimir a sua marca.
Quer eu quer o Luís contamos com a vossa presença ao longo destes domingos, por forma a que, em conjunto, entremos num universo onde o autor, nos bastidores da criação, inspirado por músicas e canções, vai dando largas ao que existe dentro de si, num exteriorizar de mensagens de fácil captação por todos nós, atendendo à normalidade do que está em causa e que serve de objecto para a produção textual.

O que sentimos como realmente nosso? O nosso nome? A comida do prato? A roupa que vestimos? Um carro? Uma casa?
Não será tudo isso apenas posse efémera consoante a importância que lhe atribuímos, que nos atribuí enquanto possuidores? Podemos possuir alguém? Podemos possuir as suas memórias, lembranças e sentimentos? Não sei, apenas sei que posso abraçar alguém que gosto se esse alguém fizer parte das minhas memórias.
Fui ver-te a casa, não estavas só mas tudo estava em silêncio, a multidão estava muda para sempre, e tu no meio de todos eles igualmente mudo e frio. A tua foto. Um sorriso perdido algures num dia que veio muito antes de ontem, um olhar esquecido entre tantos outros olhares igualmente esquecidos, igualmente mudos, igualmente frios. O vaso de flores artificiais sobre o mármore da tua lápide, cheia de folhas secas das árvores despidas que rodeiam a tua casa. Coloco o vaso direito, dou um jeito nas flores de plástico, foi a tia que as comprou no aniversário da tua morte, disse que eram muito mais práticas e sujavam menos, além disso duravam mais. Duravam mais, duravam o quanto podiam, submetidas ao sol, vento, chuva e tudo o mais, resistiam o quanto pudessem tal como tu resististe enquanto pudestes, enquanto quisestes...Quanto tempo passou? 12 anos? Não esqueço...
Quarta-Feira à tarde. Toque de saída, hora de almoço, fim de aulas, alguém, algumas palavras, o meu nome, o teu nome.... morreu.
Algo me perturba nesta tua casa, não me perturba o silêncio, não me perturba o cheiro das flores das outra campas a apodrecer, perturbam-me sim os olhares vazios das fotos, imersos em esquecimento e quietude, numa decomposição progressiva de matéria.
Casa, avó, mãe, ar pesado. Custa-me respirar, o carro do meu pai está à porta, não tinha ido ele trabalhar de madrugada?
- O que aconteceu ao avô? -um abraço, lágrimas-iamos vê-lo hoje ao hospital...
Sinto frio. A tua campa está fria, tu já não és. Como será a morte? Fria?
Nunca foste de muitas palavras, nem de muitos gestos de afecto. Tinhas uma forma peculiar de ser, imerso em ti mesmo, na tua rotina de tascas e amigos de copos, porém sempre foste a chave mestra da família.
O Natal. A mesa corrida, cheia de coisas boas. O cheiro dos assados, os pequenos petiscos, as filhozes, o manjar o arroz doçe, os meus tios, os meus primos, os meus pais, sorrisos pela noite fora, momentos felizes em calor das braseiras debaixo da mesa. Tudo me parece longe, tudo ficou longe, tudo se desvaneceu, quando te foste embora.
Quero lembrar-me, quero esquecer-me, esquecer-me da última vez que te vi, num quarto de paredes nuas, esquecido no meio de outros tantos, entre garrafas de oxigénio e balões de soro. O teu olhar pesado, como censurando os nossos olhares de preocupação. Estavas agressivo, como se os teus olhos nos falassem dizendo:
- Não tenham pena de mim porra!- não chegámos a despedir-nos.
As gasosas, e as mãos que me enchias de amendoins, a tua Vespa e nós dois à cata de figos em figueiras alheias, o teu canivete suíço que ainda hoje guardo na gaveta do meu quarto.
É estranho, lembrar-me de ti, e sentir como se estivesses aqui a meu lado enquanto escrevo, como se me tocasses no ombro e me fizesses recordar mais qualquer do nosso tempo juntos, como se ainda andasses por aqui com a tua boina e o teu passo mudo, que ninguém adivinhava.
Nunca falámos muito pois não? Eu era muito pequeno, tu falavas pouco, fazias das palavras tesouros preciosos que mal gastavas. Nunca dissémos o que pensávamos um ao outro, o que queriamos um do outro.
Chove agora, a tua campa fria em mármore branco lavada a gotas de água, lágrimas de um céu fechado, como foi sempre o eu silêncio. Sorrio enquanto tento encontrar os teus olhos vivos, que diziam as palavras que teimavas em esconder, que talvez fosse tua vontade dizê-las mas nunca soubeste como. Teimam os meus olhos em humedecer-se, foge-me uma lágrima mais teimosa que eu, não queria que me visses chorar...não queria chorar agora, não enquanto falo de ti, não enquanto me lembro de ti, não quero chorar-te.
Vejo o meu pai, os meus tios, a minha avó, todos em soluços e choros. O meu pai. Nunca te tinha visto chorar, nunca te tinha visto fraco, de olhos inchados a fumar compulsivamente, o teu pai a teu lado, frio, sem voz, mudo, quieto no momento e para sempre. Família e amigos, despedidas, lágrimas e tu já longe em qualquer parte que não ali, em qualquer canto que não aquele, em qualquer corpo que não aquele, frio e mudo, quieto....longe, onde?
A tua última casa. Será que é mesmo a tua última casa? Os meus tios e os meus pais abraçados,não vejo a minha avó... será que o que pomos nesta casa és tu? Não apenas um corpo que se irá decompor, apodrecer, misturar-se na terra e água, esquecer-se de si mesmo?....
Sei o que gostava de te ter dito na nossa despedida se ela tivesse existido, no entanto não to disse e guardo para mim como tu guardavas as tuas palavras como um bem tão precioso. Talvez to diga ainda se um dia nos encontrarmos por ai, quando nos cruzarmos onde quer que estejas, quando ambos formos memórias em alguém que gostou de nós e teima em não querer esquecer os nossos sorrisos.


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)


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abril 16, 2005

VERTIGENS

E para segunda re-edição recorri a Milan Kundera com o seu clássico "A insustentável leveza do ser". E porque é realmente sobre existência ou tipo de existência(s) que importa reflectir, deixo-vos o excerto que se segue. As questões (que podem ser, por sua vez, ainda mais desdobradas) que me ocorrem, para já levantar, são: qual o (real) peso da vida? Será este decidido por nós? Será essa pesagem da nossa inteira responsabilidades ou outros factores são, para si, absolutamente determinantes? Qual a melhor opção: uma existência levemente suportável ou uma exitência mais pesada? Uma existência com o facilitismo da leveza ou uma existência com um peso responsabilizador? Que existência? Qual a sua efectiva definição? Poderá haver uma definição?

É natural que quem quer "elevar-se" sempre mais, um dia, acabe por ter vertigens. O que são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor. (...)
Poderia dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra.


(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER. Fotografias de Misha Gordin)


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CRIATURA COMPLEXAMENTE MULTIFORME

A minha primeira re-edição, hoje, provém de uma obra que gostei particularmente: "O retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde. Recordo que quando a li era sempre mais a vontade de continuar. E era-o porque me vi confrontada com um texto imensamente profundo no que respeita à forma como o Homem pode ir construindo aquela que é a sua condição. Dorian Gray foi um tipo exemplar para dar esta ideia naquilo que de mais ou muitíssimo negativo pode haver. Um elogio à aparência em detrimento do valor do carácter e de uma personalidade aceitável em termos (mínimos) de existência e convivenciais, foi o que o autor tão bem nos soube trazer, com tão particular personagem.
Quanto ao fim da mesma: uma tragédia irremediável? Um fim que sublinha ainda mais a mensagem inerente à obra? Um fim conveniente?
Julgo que caberá a cada um daqueles que lê tomar a sua posição e, inclusive, face aos seus próprios valores, decidir.

Os cânones da boa sociedade são, ou deveriam ser, os mesmos que da arte. A forma é-lhe absolutamente essencial. Deveria ter a dignidade duma cerimónia, bem como a sua irrealidade, e deveria combinar o carácter insincero duma peça romântica com o engenho e a beleza que tornam essas peças deliciosas para nós. A insinceridade é assim uma coisa terrível? Penso que não. É simplesmente um método pelo qual nós podemos multiplicar as nossas personalidades.
Era essa, de certo modo, a opinião de Dorian Gray. Admirava-se da superficialidade da psicologia daqueles que concebem o Eu no homem como uma coisa simples, permanente, duma só essência, e em que se pode confiar. Para ele, pelo contrário, o homem era um ser com miríades de vidas e miríades de sensações, uma criatura complexamente multiforme, que trazia dentro de si estranhos legados de pensamento e paixão, cuja própria carne estava infeccionada das monstruosas doenças dos mortos.


(Oscar Wilde- O RETRATO DE DORIAN GRAY. Fotografias de Misha Gordin)


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abril 15, 2005

REFLEXÕES EM TORNO (DA IDEIA DE) DO SOFRIMENTO

Somos os únicos responsáveis por qualquer desgraça que nos aconteça.
Sofrer de nada serve.
Sofrer limita a eficácia espiritual.
Sofrer é sempre culpa nossa.
Sofrer é uma fraqueza.
Há pelo menos uma objecção: se não tivesse sofrido, não teria escrito estas belas frases.

Os caracteres que se deixam abater por um nada são os mais aptos para suportar grandes golpes. Estão mais à vontade numa atmosfera de tragédia do que os enérgicos. Esgotam rapidamente a reserva de sofrimento e continuam o caminho.
Habituar-se a considerar cada arranhadela como uma desgraça, tira força ao golpe de uma grande e verdadeira desventura.
Sucede uma desgraça:
"o optimista valentão" sofre atrozmente,
"o tipo a quem tudo corre mal" sofre assim-assim,
"o pessimista integral" alegra-se com a confirmação.
Para não sofrer, é preciso convencermo-nos de que tudo é sofrimento. (...)
Para não sofrer, é preciso sofrer. Quer dizer: é preciso aceitar o sofrimento.
Mas "aceitar o sofrimento" significa conhecer uma alquimia por meio da qual a lama se transforma em ouro. Não é possível "aceitá-lo" e basta. Os pretextos serão (I) que nos tornamos melhores, (II) que conquistamos Deus, (III) que d'Ele extrairemos poesia (o mais difícil), (IV) que temos de pagar um imposto como toda a gente paga.
Mas quando se trata do sofrimento supremo, a morte, os pretextos I e III caem: restam a conquista de Deus ou o destino comum.

A ofensa mais atroz que se pode fazer a um homem é negar-lhe que sofra.


(Cesare Pavese- O OFÍCIO DE VIVER. Edição: Relógio D'Água, 2004. Fotografias de Misha Gordin)

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abril 14, 2005

ENERGIA E ÉTICA

Sei isto: a minha energia está canalizada
Para a palavra fazer, gosto da ideia da construção
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sítio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas de que gosto, nunca às de que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela):
- e é talvez uma moral -
mover-me apenas em direcção ao que gosto.
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar abaixo:
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço de onde possa receber aquilo que
quero. Se chegar lá de noite, montarei acampamento.


(Gonçalo M. Tavares- 1. Edição: Relógio D'Água, 2004. Fotografia de Misha Gordin)

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abril 13, 2005

A BODA MEXICANA (6)

Se bem que as festas natalícias significassem paz e reconciliação, na nossa família mantinham-se as discussões e as agressões físicas. Como naquele dia em que Consuelo chegou tarde a casa.
Com dezasseis anos começou a trabalhar como empregada de balcão na loja da povoação. Na véspera de Natal, o dia estava escuro, e o anoitecer ocorreu muito cedo. Consuelo devia regressar a casa às oito e meia da noite, mas os donos da loja organizaram uma festa para celebrar as boas vendas e entregar os salários aos empregados. Sem pensar muito, Consuelo aceitou ficar.
Era o seu primeiro ordenado e a sua primeira festa. Estava tão emocionada e entretida que se esqueceu do tempo e do nosso severo pai.
A noite estava de um breu quase fantasmagórico, sem o mais pequeno reflexo da Lua. Parecia que as estrelas, estarrecidas de medo, se tinham escondido nas profundezas do céu. Em casa prevalecia a calma tensa e murmurante, que se afigurava o preâmbulo de uma tempestada. (...) Ao notar o atraso da Consuelo, a minha mãe começou a rezar com ar temeroso, enquanto, sentada frente ao fogão e com uma manta branca sobre as pernas, ia moldando as filhós de farinha de trigo. As suas mãos hábeis estendiam a massa de forma maquinal, até a converterem num enorme disco fino e transparente que depois deitava no óleo a ferver. De minuto a minuto dizia-nos:
- Espreitem lá, pode ser que a vossa irmã já aí venha.
Ao ver que Consuelo não dava sinais de vida, as suas orações foram-se tornando mais intensas, e nelas suplicava a Deus que lha trouxesse sã e salva e, sobretudo, antes que o meu pai chegasse.
Umas fortes pancadas na porta da rua e a voz do meu pai despertaram-na daquele ensimesmamento. Francisco entrou e foi direito à cozinha. Olhou em redor. O nosso nervosismo fê-lo pressentir que alguma coisa se passava.
- Onde está a Consuelo?
- Ainda não chegou. Com isto do Natal deve ter muito trabalho - murmurou a minha mãe.
- Cala-te, alcoviteira, é por isso que estas mulas fazem o que bem lhes apetece: não te respeitam!
Estava furioso. Às voltas na cozinha como uma fera enjaulada, começou a gritar insultos e ameaças, que se iam tornando piores à medida que o tempo passava.
Por fim, às dez e meia da noite, Consuelo apareceu. Estava feliz. Ao entrar, levantou os braços com orgulho. Numa mão tinha um saco com doces e na outra um envelope com o salário. O meu pai, sem esperar pela explicação, deu-lhe uma bofetada tão violenta que a derrubou, ao mesmo tempo que gritava à minha mãe:
- Tens de te saber impor. És uma frouxa, que se contenta em dizer: "Ai, não faças isso, por favor." Frouxa! Falta-te energia. Não serves para nada.
Depois atirou o alguidar das filhós ao chão e começou a bater com o cinto à esquerda e à direita. Escondida atrás da mesa, consegui escapar da sua fúria durante uns instantes, mas quando me descobriu agarrou-me pelo cabelo, fez-me girar como um pião e atirou-me ao chão. Tudo em meu redor se converteu num torvelinho; diante dos meus olhos surgiu uma infinidade de luzes e o zumbido de mil abelhas invadiu-me os ouvidos. Senti a vertigem da queda num poço profundo. Não sei quanto tempo passou nem o que ocorreu depois. Quando abri os olhos vi Guadalupe e Consuelo agarradas ao cinto do meu pai, o que o enfureceu ainda mais. Os golpes tornaram-se mais fortes e deixaram-lhes a pele cheia de vergões. Quando se preparava para fustigar Consuelo mais uma vez, foi detido por um ruído seco. A minha mãe, soçobrando ao seu próprio medo, pusera-se de pé, mas acabara por cair de novo, desmaiada. (...)
Eu sentia-me humilhada, tratada como um cão vadio que alguém agride sem motivo, deleitando-se com os seus ganidos, para depois lhe acariciar a cabeça e esperar o seu agradecimento. (...)
Entretanto, a minha mãe, que recuperara os sentidos, com o rosto de cera e o corpo a tremer voltados para o fogão, ocultou a sua aflição. Retirou a frigideira do meio das cinzas e, removendo as brasas com um pau, começou a reavivar o lume. O azeite enegrecido fumegava, propagando um penetrante odor a queimado. As filhós estavam caídas no chão e quase todas pisadas. Apanhou as que não tinham sido esmagadas e dividiu-as por nós.
- Comam filhos.
- Perdi a fome. Filhós misturadas com lágrimas sabem a trapos - respondi.
(...)
Fez-se silêncio e a casa voltou à sua habitual calma sombria, quebrada apenas pelos suspiros da minha mãe (...). Lá fora, o toque dos sinos da igreja e o barulho das vozes enchiam o ambiente de festa. Los Remedios celebrava com sidra e aguardente. A explosão do fogo-de-artifício anunciou o nascimento do Menino Jesus.


(Sandra Sabanero- A BODA MEXICANA. Edição: Dífel, 2005. Fotografia de José Marafona)


E assim dou por terminada a edição de excertos do livro destacado. Que as mensagens inerentes tenham passado e sido entendidas é o que desejo. Por outro lado que o estímulo para a leitura integral seja uma realidade. Obrigada pelo vosso acompanhamento :)

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A BODA MEXICANA (5)

Sempre que a minha mãe se apercebia de que estava grávida, chorava até se lhe esgotarem as lágrimas. Mais dificuldades, trabalhos e aflições, menos possibilidades de sair daquele abismo de onde ninguém a resgatava. As suas relações maritais não variaram com o tempo. Ela aceitava-as por considerar serem um dever e uma necessidade para manter a estabilidade matrimonial. No entanto, enchiam-na de terror, pois sabia que a consequência daquelas noites eram as suas contínuas gravidezes e abortos. Quando estes últimos ocorriam, a comadre Fina vinha sempre auxiliá-la. Era Francisco quem lhe ia pedir ajuda.
- A minha mulher está mal. Precisa de si.
Saía e ficava à espera, em casa. Fina chegava, armada de frases alegres e uma maleta cheia de ervas, tesouras, desinfectantes e panos. Quando a parteira entrava, ele deixava a casa. Sabia que a mulher estava em boas mãos. A comadre acabava de limpar os restos da gravidez falhada, friccionava o ventre da parturiente com álcool, colocava-lhe emplastros de ervas e envolvia-a com panos. Dizia-lhe para descansar, para se pôr nas mãos de Deus e esquecer as suas penas, pois tinha a saúde e a vontade debilitadas. Contudo, o descanso era-lhe negado, visto Francisco não manifestar qualquer consideração por ela. Estivesse grávida, doente ou esgotada, as tarefas domésticas eram sempre as mesmas, e continuava a ter de satisfazer os desejos e necessidades do marido a cada momento.
Uma manhã, o ruído ininterrupto de pancadas bruscas na porta da rua, combinadas com o bater furioso da aldraba, sobressaltaram a minha mãe. Tinha seis meses de gravidez, esperava gémeos e, nesse momento, descia a custo a escada para ir despejar o bacio. Tentando chegar mais rapidamente, deixou-o à entrada da sala. Ao abrir a porta, cessaram as pancadas, mas começaram os gritos de Francisco:
- Afinal, onde é que andas metida para levares tanto tempo a abrir?
- Estava a fazer as camas. Devias ter mais paciência, tenho muito que fazer. Não posso estar atrás da porta à espera que chegues.
- E tu devias ir um dia à oficina e fazer qualquer coisa debaixo daquele calor para saberes o que é trabalho.
A minha mãe estava consciente de que, se respondesse, aquela conversa podia acabar em discussão. Por isso apertou os lábios e dirigiu-se à cozinha. Pôs as tortilhas a fazer, aqueceu a comida e serviu-a. Só se ouvia o ruído que o meu pai fazia a comer. Entretanto, ela olhava-o de relance, temendo as suas palavras de reprovação, que não tardaram. As tortilhas estavam quase frias, os feijões duros e o molho tinha falta de cebola. A minha mãe concordou e ele pareceu tranquilizar-se.
Devido ao nervosismo, a minha mãe esqueceu o bacio. Quando ele estava já de saída, descobriu-o.
- Mas o que é que temos aqui? - gritou enquanto abria a porta de par em par e deitava o conteúdo para o meio da rua.- É para ver se da próxima vez não te esqueces de levar esta porcaria para o lugar próprio.
A língua da minha mãe fez-se num nó, tremeu de impotência e os soluços subiram-lhe à garganta. Sem dizer palavra, saiu e começou a limpar a rua com água e uma escova. Como podia fazer-lhe aquilo? Como de costume, engoliu toda a sua impotência e raiva e continuou o seu trabalho, bebendo as lágrimas.
Ao fim da tarde, sentiu uma dor forte cravar-se-lhe no ventre, fazendo-a gritar. Consuelo, que estivera sempre no pátio a brincar comigo, correu para casa ao ouvir os seus queixumes. Encontrou-a sentada numa cadeira, dobrada com dores.
- Mãe, mãe! O que tem?
- Corre! Diz à Dona Benita que venha depressa.
Consuelo saiu à procura da vizinha, que, depois de tentar reanimar a minha mãe, molhando-lhe o rosto com água fria, foi à oficina chamar o meu pai.
Quando ele chegou com Fina, ela jazia no chão no meio de um charco de sangue. Sem dizer palavra, Benita tirou Consuelo da cozinha, enquanto Fina e o meu pai corriam de um lado para o outro com vasilhas cheias de água, trapos e medicamentos.
Horas mais tarde, a porta da cozinha abriu-se. O sangue que manchava o chão desaparecera e a minha mãe, embora pálida, recuperara a consciência e estava a tomar uma infusão. Parecia que nada havia mudado desde manhã. Só cheiro a éter e a álcool que impregnava o ar denunciava que algo de estranho ocorrera.
Os meus pais nunca fizeram qualquer alusão ao sucedido naquela manhã. Só anos mais tarde soube que ela perdera duas gémeas, porque aquela recordação deixou uma marca indelével na mente da minha mãe.


(Sandra Sabanero- A BODA MEXICANA. Edição: Dífel, 2005. Fotografia de José Marafona)

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abril 12, 2005

A BODA MEXICANA (4)

- Vocês alguma vez se deram bem? Chegou a sentir que ele a amava? Eu vi-os sempre a discutir.
- Não, não, ao princípio não foi tanto. Houve alguns dias em que as coisas corriam bem, mas a família dele estava sempre a envenená-lo, sobretudo a Chona, que não parava de inventar histórias sobre mim; metia-lhe aquelas ideias na cabeça e, quando eu menos esperava, era o bom e o bonito. A tua tia Eulália, em vez de me defender, punha-se a fazer julgamentos e, sem saber nada do assunto, acabava por concordar sempre com o teu pai. Eu vivia aterrorizada, esperando sempre o pior.


Não era só ela que vivia com o coração nas mãos. Consuelo e eu também esperávamos com angústia a chegada da noite e o regresso do meu pai da oficina; a cara e os olhos avermelhados e o nariz ligeiramente inchado pressagiavam um escândalo, sempre iniciado por injúrias e gritos que enchiam a casa, rasgando o silêncio da noite. Nós tentávamos defender a minha mãe, mas isso não evitava os pontapés nas portas, os pratos partidos, os empurrões, as ameaças e, por vezes, algumas agressões físicas. Quando tudo terminava, ficavam os roncos secos e murmurantes do meu pai e a nossa desolação profunda. Foi assim desde que me lembro, teria então uns quatro ou cinco anos. Aquelas discussões pareciam eternas. Quando a calma voltava, eu chorava sem parar e Consuelo, com uma angústia mal disfarçada, secava-me as lágrimas e, sem proferir uma palavra, limpava os destroços. (...)
Sempre que isto acontecia, interrogava-me sobre a razão de os meus pais se terem casado, já que se davam tão mal. Não entendia que o seu amor pudesse ter-se transformado naquele pesadelo. Agora que volto a pensar nisso, percebo que a minha mãe era muito bonita, mas possuía particularidades que o enervavam: era frágil, puritana, falava sussurando, movia-se com passos tão sigilosos como os de um gato e o seu olhar temeroso estava coberto por um véu de silêncio impenetrável, que o tornava inacessível aos olhos dele.
O meu pai repetia sempre o mesmo:
- A tua mãe era uma mulher muito elegante e distinta. Quando a conheci quase a confundi com a imagem da Virgem, muito bonita, mas autoritária, orgulhosa, cheia de manias e pudores, e sempre com modos afectados.


- Por que se casou com ele? Nunca pensou em separar-se?
A minha mãe foi dando sorvos no café frio enquanto olhava para o vazio.
- Casei-me com ele porque parecia bom e trabalhador. Não me importou deixar a comodidade da casa da tua bisavó e conformar-me com a pobreza e a simplicidade. - Depois, inclinando a cabeça, irrompeu num choro comovente.
- Se estivesse preparada de outra forma ou se o teu avô Heliodoro me tivesse apoiado, tudo teria sido diferente. Uma vez tentei separar-me do teu pai, quando ainda só a Consuelo e tu eram nascidas. O Francisco não abriu a boca, mas, quando já estava tudo na carroça, disse que eu podia ir-me embora, mas que vocês ficavam com a Chona. Respondi que sem vocês não saía dali. Acabei por tirar as coisas da carroça e ficar.
Depois daquela explicação, os seus soluços aumentaram. Não podia ajudá-la. Ninguém podia.
- Está na hora de tomar o remédio, mãe. Vou buscar-lho e já continuamos.
Levantei-me, fui à cozinha, abri o velho armário branco, tirei uma caixa de plástico repleta de pequenos frascos, agarrei num que continha cápsulas verdes, enchi um copo de água e voltei para o quarto.
- Com tantos medicamentos estou mais atarantada do que era costume. Às vezes já nem sei para que são, mas pouco importa, porque, de qualquer forma, estas dores nas pernas não me deixam nem de dia nem de noite. O problema é que me cansei de viver. Só me consola pensar que não há mal que sempre dure. Estava convencida de que teria de conviver com a família do Francisco para sempre e, afinal, os teus avós já morreram e à Eulália pouco lhe falta. Mais tarde ou mais cedo, chega o dia de todos nós. Só nos resta esperar que Deus o determine e se, entretanto, Ele quer que as coisas continuem assim, que hei-de eu fazer?


(Sandra Sabanero- A BODA MEXICANA. Edição: Dífel, 2005. Fotografia de José Marafona)

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A BODA MEXICANA (3)

No dia seguinte, Francisco despertou de excelente humor e tomou banho assobiando Luna de octubre. Aspirou o odor a sumo de laranja e chilaquiles picantes. Sorridente, entrou na cozinha, saboreando de antemão o almoço, e quis beijá-la, mas ela esquivou-se.
- O que se passa agora? - perguntou, enquanto se sentava e começava a comer uma tortilha. Parecia não se lembrar do que ocorrera na noite anterior.
Em contrapartida, María Dolores, pálida e séria, deu rédea solta à dor e à frustração, que se transformaram em palavras críticas:
- Embebedas-te, chegas de madrugada, insultas-me, trazes manchas de batom na camisa, bates-me e ainda tens o cinismo de me perguntar o que se passa - disse com voz dorida e depois começou a chorar com desespero.
- O quê? Estou a ver que bebi de mais, não me lembro de nada. Tu és a rainha da minha vida, a minha esposa legítima. Como é que eu podia fazer-te uma coisa dessas? Vá, deixa de chorar e vem comer. Esquece isso, por favor - disse beijando-lhe o cabelo.
Ao princípio continuou receosa e repetiu as queixas, mas depois de mais algumas palavras meigas agarrou-se-lhe ao peito e a reconciliação não se fez esperar. Infelizmente, aquele tipo de situação passou a repetir-se com frequência, e com o passar do tempo, María Dolores acabou por se resignar a viver em silêncio o seu mundo secreto de dor e frustração.
Nos primeiros tempos tinha vergonha de admitir os seus problemas conjugais perante a família do marido, mas as marcas das pancadas no rosto denunciavam-nos. Acabou por lhes contar a verdade.
Ao escutar as queixas, o meu avô Francisco olhou-a com frieza.
- Ah! - exclamou, e em seguida acrescentou: - Se não está bem, volte para casa, que mulheres é coisa que não falta neste mundo.
Aquelas palavras desdenhosas, reforçadas pelo tom glacial em que foram ditas, fizeram-na estremecer e tomar a decisão de não voltar a queixar-se.
Desesperada, procurou a ajuda e os conselhos do pai, mas também não teve sucesso. O pai escutou-a com atenção e quando ela concluiu o relato encolheu os ombros e semicerrou os olhos.
- As coisas nem sempre são o que nós queremos - comentou. É assim a vontade de Deus. Quem podia adivinhar uma coisa dessas! Parecia um bom rapaz, mas sendo filho de Dom Francisco, o que se havia de esperar? Quem sai aos seus não degenera... Bem dizia a comadre Fina que essa gente não prestava. Mas nós, acreditando na boa-fé do teu marido, com o coração nas mãos, abrimos-lhe a porta de casa. Agora só te resta aguentar e fazer os possíveis por não o aborrecer. Molda-te a ele e obedece-lhe. Tenta conquistá-lo de algum modo! Lembra-te de que o casamento é uma cruz, e é nossa obrigação carregá-la - concluiu.


- Que terei feito para pagar tão caro? - perguntou-me a minha mãe.
Permaneci em silêncio. Não tinha resposta. Observei-a cuidadosamente e descobri-lhe no rosto as marcas de uma vida cheia de dor. A sua tez de porcelana de outros tempos assemelhavam-se agora a marfim envelhecido, os seus olhos tinham perdido o brilho e as suas mãos estavam cobertas por uma apertada rede de rugas. A sua cintura esbelta deformara-se com o passar dos anos e na sequência das inúmeras gravidezes e abortos. Não havia quase nenhuma parte do seu corpo por estragar. Apesar disso, ainda conservava um certo ar de elegância discreta, oculta pela máscara da velhice.
Tentei evitar que as suas recordações amargas me contagiassem, mas ao agarrar aquele lenço da minha mãe, onde estavam embrulhados o terço e o livro de orações da minha avó Loreto, foi impossível. Aquele lenço, testemunho mudo de uma longa existência de lágrimas, risos, dissabores e impulsos reprimidos, estava impregnado das nossas vidas e era de uma familiaridade sufocante, como o próprio odor do meu corpo. A nostalgia abateu-se sobre mim em torrentes, provocando-me uma tristeza indescritível, que não consegui deter.


(Sandra Sabanero- A BODA MEXICANA. Edição: Dífel, 2005. Fotografia de José Marafona)

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abril 11, 2005

A BODA MEXICANA (2)

Apesar da sua susceptibilidade, tentou ignorar a forma grosseira como a família do marido a recebera, e em cujo seio o destina a lançara. Arrumou a casa o melhor que pôde, cozinhou qualquer coisa para o jantar e, no fim, arranjou-se com esmero para receber Francisco.
No entanto, as horas iam passando e ele não aparecia. Angustiada, temendo que tivesse ocorrido algum acidente, começou a dar voltas na cozinha, nervosa, retorcendo as mãos e invocando nas suas rezas toda a corte celestial para que lhe trouxessem o marido de regresso, são e salvo. Apesar da aflição que sentia, não se atreveu a perguntar aos sogros se, por acaso, tinham notícias dele.
Para Francisco, o dia de trabalho custou a passar. Ao anoitecer, saiu da oficina, atravessou a praça com passo decidido e entrou na cantina com portas de vaivém, em cuja atmosfera pairavam fortes eflúvios alcoólicos e uma nuvem de fumo que envolvia os seus ocupantes; acordes de guitarra arrastavam-se no ambiente. Vários dos seus companheiros de pândega dirigiram-se a ele, lançando piadas sobre o seu recente casamento. Ruñida cumprimentou-o com um efusivo beijo na boca, enquanto arranjava, com sensualidade, o provocante decote da blusa, que deixava a descoberto boa parte dos seus generosos seios. A expressão de Francisco tornou-se mais intensa e os seus olhos brilharam ao contemplar aquele corpo endiabrado que se lhe oferecia. (...)
Depois de ter bebido a garrafa de aguardente num abrir e fechar de olhos, agarrou Ruñida pela cintura e foi com ela até ao quarto contíguo. Acariciaram-se com mãos ansiosas, morderam-se, despiram-se à pressa, lançando a roupa para um canto; aspirando o odor a tequila e a desejo, caíram no chão como duas feras no cio, enlaçados numa luta de paixão. Amaram-se tão desenfreadamente que os seus gritos atravessaram as paredes do quarto e chegaram aos ouvidos dos que estavam por perto. Possuíram-se várias vezes, com o desejo acumulado de tantas horas e dias de vigília, até à exaustão dos corpos.
De madrugada, quando na cantina se foram apagando os gritos e as canções dos bêbados, Francisco, ébrio de álcool e de prazer, pôs-se a caminho de casa, avançando aos tombos pelo meio da rua. As pancadas sobre a porta da entrada acordaram María Dolores, que decidira esperá-lo sentada na cozinha. Ao ouvir o barulho, levantou-se precipitadamente e abriu a porta. Diante de si viu um Francisco que até então desconhecera: um homem que não se aguentava em pé, com a camisa desabotoada, o olhar vidrado, um hálito pesado e uma garrafa de aguardente na mão. Ao aperceber-se do seu estado, a preocupação de María Dolores transformou-se em ira e perguntou, com uma voz enfurecida:
- Isto são horas de chegar?
Sem responder, deixou-se cair numa cadeira da cozinha.
- Não tens consideração nenhuma por mim! Como foi possível não pensares na angústia que me fizeste sofrer? Passei a noite a rezar, a espreitar a rua e a imaginar que, de um momento para o outro, chegaria alguém com a notícia de que te acontecera qualquer coisa grave, enquanto tu gastavas o pouco dinheiro que ganhas numa bebedeira.
Os olhos de Francisco semicerraram-se, incendiados pela fúria. Os seus lábios converteram-se num só traço, levantou-se da cadeira e lançou a garrafa contra os vidros da janela. Depois, precipitou-se para ela, sacudiu-a com violência e, erguendo a mão acima do seu rosto, deu-lhe uma bofetada. Uma vertigem momentânea cegou María Dolores, fazendo-a cair ao chão, e nesse momento o sabor adocicado do sangue encheu-lhe a boca. (...)
A voz de Francisco ressoou como um relâmpago:
- Eu não dou explicações a mulher nenhuma sobre os sítios onde vou e as horas a que volto. Se gasto dinheiro, gasto do meu, e faço o que bem me apetecer. Serve-me o jantar!
María Dolores teve de silenciar o resto da peroração. Levantou-se atordoada e a tremer e dirigiu-se ao fogão. Aqueceu a comida e colocou-a sobre a mesa, limitando-se a ver com incredulidade e por entre um véu de lágrimas as manchas de baton no colarinho da camisa do marido. Enquanto isso, Francisco ia comendo entre cuspidelas e arrotos ruidosos, limpando a boca à toalha imaculada ou convertendo os braços em guardanapo improvisado. Depois, sem dizer palavra, foi para o quarto e lançou-se vestido para cima da cama. María Dolores, deitou-se a seu lado e deixou cair os seus pensamentos petrificados no refúgio das pregas dos lençois. De repente, a realidade apresentava-se com uma clareza excessiva: o encanto de tantas ilusões desaparecera, desvanecera-se como o fumo do fogão, e a promessa de amor feita diante do altar caía desfeita no fundo do abismo da realidade. Francisco fora o único homem da sua vida. Cinco anos de romance não tinham bastado para conhecer o seu verdadeiro carácter, escondido por detrás de um sorriso cativante, de palavras doces e ramos de gardénias. (...)
Chegara ao casamento sem conhecer o seu significado. A minha bisavó manteve-a numa espécie de balão de vidro, afastada de qualquer contacto com a realidade. Tornou-se uma excelente cozinheira e uma especialista em trabalhos domésticos, mas ignorava tudo o que se referia a relações sexuais, gravidez e violência conjugal. Além disso, como não tinha ninguém a quem pedir orientação, imaginara, com toda a ingenuidade, que o casamento era a continuação de um namoro romântico.
Perdida e exausta, caiu no torpor de um sonho cheio de sobressaltos, onde via Francisco avançar de mão erguida para lhe bater. Os seus olhos incendiavam a toalha, e as chamas alcançavam-na e começavam a consumi-la, enquanto ele ria às gargalhadas. Um grito agudo, como um lamento, rompeu o silêncio do amanhecer.


(Sandra Sabanero- A BODA MEXICANA. Edição: Dífel, 2005. Fotografia de José Marafona)

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A BODA MEXICANA (1)

México, sensivelmente até finais do século XX (para além do que resta para depois): sociedade fortemente patriarcal, onde os homens são "senhores", onde as mulheres devem ser submissas, resignadas e infelizes se preciso for, para se fazer cumprir a ordem e a tradição. Uma sociedade onde o homem expressar sentimentos é sinal de fraqueza, do não assumir de um papel que é o seu. Uma sociedade onde uns mandam e outros obedecem, onde o estipulado já está e onde não se ousa mudar.
"A boda mexicana" de Sandra Sabanero (n. 1954) é um romance que nos mostra este tipo de sociedade através da vida de famílias e da sua evolução ao longo dos anos. Esperanza, a heroina do romance, é aquela que recorda e nos dá a conhecer a vida dos seus familiares quer do lado paterno quer do lado materno. Recua até aos bisavós. É a personagem que faz isto no dia do seu casamento. É a personagem que vai estabelecer o corte, porque quer ser e viver diferente. Porque deseja um outro tipo de vida.
No excerto que se segue é-nos apresentada aquela que foi a experiência da mãe de Esperanza na sua Lua-de-mel. Uma experiência que demonstra o quanto as mulheres ignoravam a (sua) sexualidade, sendo isso causa de profunda infelicidade, casamentos sem sentido e destruídos, mas também, e independentemente disso, mantidos. Uma experiência que alguém, aqui, não queria para si.
Mais um excelente livro cuja leitura recomendo.

Fez-se um longo silêncio. Recostei-me na cama e continuei a observar as fotografias. Enquanto via aqueles retratos envelhecidos, pensava no que provocara o fracasso do casamento dos meus pais.
- Como foi a sua lua-de-mel, mãe?
Ao evocar essas recordações, a minha mãe corou e tentou fugir ao meu olhar, como se temesse que eu as adivinhasse. Levantou-se e começou a folhear um livro de orações. Uma gardénia seca escorregou de entre as suas páginas, enquanto uma ténue fragrância dos anos passados invadia o ambiente.

A pé, e carregando a volumosa bagagem de María Dolores, puseram-se a caminho da estação de caminho-de-ferro. Partiram rumo a Comanja no comboio das onze da noite, muito juntos, de mão dada e rindo como duas crianças. Ela começou por fazer-lhe perguntas de pouca relevância, só para evitar o silêncio, que a assustava, mas instantes depois ficaram calados. (...) Dentro de poucas horas chegariam ao seu destino. Interrogou-se sobre o que se passaria então e como deveria comportar-se. (...)
A mente do noivo ia ocupada com a mesma questão, pois toda a sua paixão e pensamentos se concentravam em María Dolores. Depois de tantos anos de espera, em que se conformara com carícias furtivas e inocentes, poderia, por fim, gozar, dia a dia, e a cada instante, aquele amor e aquela paixão enormes, que com dificuldade conseguia conter. Era capaz de qualquer proeza para desfrutar do amor.
Na primeira noite, Francisco teve de fazer um esforço para reprimir o riso, ao vê-la metida naquela camisa de noite de avozinha, que a cobria do pescoço à ponta dos pés. Graças à sua grande experiência com mulheres, percebeu que necessitaria de muita paciência para vencer a timidez de María Dolores que, a tremer como gelatina, se metera debaixo dos lençóis, deixando apenas a descoberto o rosto e as mãos. Francisco deitou-se a seu lado com suavidade. Aqueles olhos enormes e assustados provocaram-lhe uma enorme excitação. Com os dedos, desenhou o contorno dos seus carnudos lábios virginais, beijou-lhe ternamente os cabelos sedosos, as faces e a boca, deslizando devagar até ao pescoço. Agarrou-lhe nas mãos, frias e húmidas, e entrelaçou-as nas suas. Passados uns momentos, deslizou as mãos por debaixo do lençol e, através do tecido grosso da camisa de noite, sentiu aquele corpo de formas escassas e delicadas. Segredou-lhe ao ouvido frases ternas, que nunca pronunciara. Contudo, apesar da sabedoria das suas carícias, o corpo assustado e passivo de María Dolores não reagiu.
Aquela frieza cortou-lhe momentaneamente o desejo, mas, sem desanimar, abordou-a da mesma forma nas noites seguintes. Porém, o resultado foi sempre o mesmo. Ao quarto dia, incapaz de esperar mais, arrancou-lhe a camisa de noite à força e pôde, por fim, tocar na sua pele suave como a seda e branca como as nuvens. Pressionado pela paixão que o consumia, introduziu-se naquela estátua dura e fria como porcelana, possuiu-a com movimentos rápidos e selvagens, que a ele produziram insatisfação e a ela dor e vergonha.
María Dolores nunca imaginara que no casamento tivesse que acontecer uma coisa assim. Agora sabia que aquilo fazia parte dos seus deveres de mulher casada. (...)
A sua mente atormentava-se com imagens angustiantes e os seus pensamentos não davam trégua àquelas severas reflexões. A proximidade do esposo inspirava-lhe um desejo insuportável de se refugiar no seu peito, aspirar o seu cheiro a limão e suor, contemplar e acariciar todo aquele corpo firme que também lhe pertencia, mas, ao mesmo tempo, aquela necessidade fazia-a sentir uma vergonha imensa. Tais pensamentos iam contra os seus princípios morais que, no entanto, também não lhe indicavam que caminho seguir. Quando perguntou à bisavó como deveria comportar-se enquanto mulher casada, ela respondeu-lhe:
- Deves obedecer ao teu esposo e servi-lo. Nada de andar na conversa de casa em casa nem pelas ruas. E, acima de tudo, deves ser sempre uma mulher honesta, trabalhadora e recatada.
O que significava ser recatada e decente? Para a minha bisavó, os limites entre a decência e a indecência eram muito vagos.
- No mundo existem dois tipos de mulheres: as que vivem para o lar, obedecem ao marido, têm os filhos que Deus achar por bem mandar-lhes e tratam bem deles, e as "mulheres da rua", que se exibem descaradamente para provocar os maus instintos e fazer todo o tipo de porcarias com os homens só por dinheiro. São mulheres que não temem a Deus.
Nessa definição de mulher não estavam incluídas as palavras "desejo" e "prazer". Por isso, o facto de os sentir provocava-lhe uma vergonha e um sentimento de culpa avassaladores. (...)
Quando Francisco a possuiu pela segunda vez, María Dolores sentiu, por uns instantes, que a sua pele se eriçava, que os seus seios endureciam e que o sangue lhe corria nas veia com ardor, invadida por uma excitação desconhecida que a fez agonizar de prazer; mas, de imediato, sentiu asco, ao escutar a respiração ofegante de Francisco, semelhante à de um animal. "Isto é sujo! É um pecado!", pensou. Quis escapar, sair a correr do quarto, mas o corpo dele esmagava-a. O marido continuava a suspirar e a deslizar os lábios pelos seus seios diminutos. Com um movimento brusco da mão empurrou-lhe a cara. Ele ergueu o olhar e o que viu nos olhos da mulher penetrou como um relâmpago pela sua mente entorpecida, fazendo-o saltar da cama. Aproveitando aquele momento, María Dolores fugiu para a casa de banho. Encheu a bacia de água fria e mergulhou a cara, como se desejasse apagar as marcas daquele instante vergonhoso. Pouco depois regressou à cama, com o corpo escondido por uma bata e, sem pronunciar palavra, deitou-se, de rosto virado para a parede.


(Sandra Sabanero- A BODA MEXICANA. Edição: Difel, 2005)


A imagem/a ideia daquele que foi o tipo de vida de María Dolores depois do casamento continuará(ão) a ser aprofundada(s) amanhã e quarta-feira. Uma edição possibilitadora de um quadro mais completo e mais consciencializante de uma realidade que a autora do romance teve especial empenho em mostrar e da qual ela própria fugiu, dado a obra ter o seu cunho autobiográfico (apesar de não ser uma autobiografia).
Continuo, pois, a contar convosco no acompanhamento deste sublinhar de conhecimento.


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abril 10, 2005

LLOVIZNA

Simplesmente porque sim, deixo-vos aqui a letra de uma das canções da Mafalda Veiga que mais gosto. Uma das letras que mais me toca. Uma das letras que mais sinto. Uma das letras que me faz olhar muito para o interior de mim. Enfim. Ei-la aqui. Porque sim. É suficiente.

Yo quisiera poder ser feliz como un pájaro
Una flor que ha nacido en el campo y no espera
Más que la lluvia o el sol

Yo quisiera nacer cada nueva mañana
En la luz de un rayo de sol que desnuda
La más alta montaña

Y bajar en la suave llovizna
Que cae despertando la tierra
Con el frescor, la claridad del alba

Yo quisiera sentir libertad como un águila
cuando abre sus alas y suelta en el valle
Una sombra fugaz

Y sentirme raíz del mayor de los árboles
El que roza en las nubes sus ramas desnudas
Y las hace llorar

Su tristeza en la suave llovizna
Que cae despertando la tierra
Con el frescor, la claridad del alba

Yo quisiera arrasar todas estas murallas
Las que callan mi voz en un hueco de sombra
Y de piedra mortal

Y decodificar el sentir de la gente
Que no sabe o no puede aprender que vivir
Es mejor que soñar

Es igual que la suave llovizna
Que cae despertando la tierra
Con el frescor, la claridad del alba

Yo quisiera morir en un día de invierno
Para sentir la lluvia mojarme la cara
Una última vez
Como sentir tu boca tocando la mia
Y aunque solo un instante pensar que no es ese
Mi último adiós

Que morir es como esa llovizna
Que cae despertando la tierra
Con el frescor, la claridad del alba


(Mafalda Veiga- Do álbum "Cantar." Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 01:36 PM | Comentários (3) | TrackBack

AMANHÃ, TALVEZ PARIS!

Com o texto da Paula que se segue, concluo aquelas que são as edições, ao Domingo, de escritos da sua autoria. Outros autores virão com o objectivo de continuar a divulgação, ainda mais alargada, de trabalhos de amigos que à blogosfera apresentam as suas criações. Neste sentido, outras formas de entender, sentir e expôr a realidade, sentimentos, situações apresentar-se-ão aqui no Abismo com uma certeza e com uma duração temporal que permitirão perceber ou reforçar o conhecimento/interiorização de estilos, de percursos seguidos, de propostas feitas. É nisso que aposto. É isso que procurarei fazer. O próximo Domingo abrirá, portanto, um outro ciclo.
Quanto a hoje, ainda, um texto bem ao género da autora com o(s) impacto(s) já tão conhecido(s).

Encontrei este texto numa mala de viagem verde que guardo dentro de um armário. Não me lembrava de o ter escrito. Agora, neste preciso momento, sei que o fiz, fui eu que escrevi, volto a ver o local, aquele café, as pessoas, a criança, mas não me vejo a viver ou a escrever este conjunto de palavras. Lembro-me apenas que tinha a intenção de o transformar num livro, sendo este o primeiro capítulo. Porém, não me parece pensável – e isso é certo, evidente – que este livro alguma vez pudesse vir a ser escrito, ou pudesse mesmo ter sido pensado.
A Observadora sou eu. Aquela que pensa, que sofre, que lê, que escreve, sou eu. Eu. De resto, nestes escritos, encontro apenas uma desordem de pensamentos – e face a eles, o momento que os antecede envergonha-me.

- Chama-se Dez, é caixeiro-viajante, só sabe contar até cinco. De resto, inventa alguns números.
- E que número tem ele agora?
A criança não sabe ao certo. Olha para o livro e para a mãe e sorri. A palavra está escrita, ilustrada, construída, imanente no universo das palavras. Olha para o livro e para a mãe, mas já não sorri. Adivinha.
- Cinco.
- E amanhã?
- Amanhã? Amanhã, talvez quatro!
A mãe acena com a cabeça. Entristece. A luz pálida da sua cara mistura-se ao céu cinzento esbatido do céu que morre. Escurece já no café. O aguaceiro começa como já havia parado, brutalmente. A Observadora está sentada obliquamente. Na mesa, tem espalhadas folhas secas e amareladas. Fuma. Um livro poisa a seu lado. “Les Fleures du Mal”. Não observa ninguém...
O café não dá directamente para a avenida, mas sim para uma rua comprida, dividida, fendida por pequenos becos. Está cheio. Fala-se de política. Todos estão de acordo quanto ao assunto, mas não quanto à forma deste. Lá fora, o vento faz dobrar as árvores reunidas no meio da rua. Entre elas, há flores esmagadas. A criança, que estava à porta do café, corre para a mesa, encosta-se à mãe. Está com medo. Os relâmpagos sucedem-se a um ritmo tão rápido que parecem encadeados. No céu troveja sem parar. A criança enche-se de coragem, deixa a mãe, e vai ver a chuva de perto. E as árvores que dançam nos sulcos da chuva.
A Observadora não compreende. Não compreende a alegria e o susto da criança. Como pode ter medo, sem que este lhe carregue a face, sem que esta o suporte? Como pode a criança ter medo e ser feliz? Feliz? Ninguém tem nada em comum com ela. Chove. Naquele momento, no café, há pessoas que riem, principalmente pessoas jovens. Chove. O Observador está sentado perto dela. Ela olha para um ponto fixo para lá da janela. O Observador enquadra-a. Sorri-lhe, mas não é verdade. A Observadora está ali, apoia a testa no rebordo da mesa, fecha os olhos. Como pode uma criança ter medo e ser feliz? A evidência faz com que se abata sobre ela, de uma vez só, a inconformidade. As mãos do Observador estão abertas. Gritos. Passos muito lentos no café. O empregado dirige-se-lhe.
- Apetecia-me um carioca de limão em chávena grande.
O Observador também pede o mesmo. Ele também bebe o carioca. A Observadora não se sente capaz de nada. O aguaceiro pára, brutalmente. Um minuto de ar respirável. Quase se podia acreditar que o céu, a vida, o mundo, iria melhorar. A Observadora pensa nisto, mas, imediatamente volta a vontade de vomitar. Ela escreve. Escreve lentamente para ganhar tempo, para não agitar as coisas dentro da sua cabeça. Apetece-lhe um café forte. Não pode beber. Se não tiver cuidado, não dorme. E se não dorme nada, no dia a seguir é muito pior. Como pode uma criança ter medo e ser feliz?
O céu escurece novamente. A tempestade vai voltar. Aquela massa oceânica da tarde, de um cinzento escuro, instala-se lentamente sobre a rua. Vem de leste. Ao fundo, numa outra avenida, numa outra rua, ele deve estar a dizer “Tens uma cor absolutamente linda, que empalidece com a negritude do céu. Os teus olhos brilham, como tu. Amo-te”.
Eis o aguaceiro. O mar lança-se sobre a rua. O chão desaparece. No café, as pessoas têm de falar mais alto para se fazerem ouvir. Por vezes, gritam. Ela também. Ela lança um olhar breve sobre o livro. Lê.

*Quoique tes sourcils méchants
Te donnent un air étrange
Qui n`est pas celui d`un ange,
Sorcière aux yeux alléchants,

A Observadora pergunta-se, se as vertigens alguma vez irão acabar, bem como a sua vontade de vomitar. Irá ficar melhor? Ela está no auge de um combate sem nome, sem armas, sem sangue derramado, sem glória, no auge da espera. Lutou tanto, e perdeu. Perdeu tudo, e por isso, desespera. Na sua cabeça, o que acontece são perturbações sem objecto, separações não se sabe do quê, esmagamentos também, distâncias que se criam como se fosse em direcção a uma saída e que depois se suprimem, se reduzem até quase morrer, apenas sofrimentos em toda a parte, sangue a correr e gritos, é por isso que o pensamento não consegue formar-se, não participa do caos mas é constantemente suplantado por este caos, e está, face a ele, desamparado. Por isso, ela permanece ali, imóvel, intacta, de forma perene na sua solidão e desejo. O medo entrou nela, apoderou-se de tudo.
Ela tem medo. Medo de tudo. De repente levanta a cabeça e o café parece ter mudado, a claridade da rua também, pálida de repente. E de repente a certeza, a certeza em rajada: Está só. Só. Só. Não é o latejar das têmporas. Já não é isso. O medo está em todo o lado. A sua cara desfaz-se, muda. Desfaz-se, desdobra-se, muda. Não está ninguém naquele café. Já não sente o coração. O horror sobe lentamente numa inundação, afoga-a. Ela sente tanto medo que já não desespera. Acabou, acabou? Onde é que ele está? Como saber?
Não sabe onde ele está. Ela também já não sabe onde está. Sabe apenas, que ele não está sózinho. Começa então a compreender que já não há nada entre esse homem e ela. Pode esperar por outro, tanto faz. Já não existe. E se já não existe, para quê esperar? Esperar o quê? O que é que ela espera, na verdade? E ele, o que faz? O que faz esse homem? O que faz com que ele espere e seja esperado, ele, e não ela? Tem de o encontrar novamente porque algo de novo aconteceu. Ela tem medo, mas já não sente. Não sente nada. Observa apenas.
A tempestade continua. A chuva cai com tal estrondo sobre a vidraça que cobre toda a sala do café. Os clientes têm de gritar para pedir. A criança já não brinca, chora. A Observadora hesita. Mas não chora. A criança dirige-se para junto da janela, afasta ligeiramente as cortinas e olha para a rua. A chuva parou subitamente. A criança deixa a janela e põe-se a entoar um canto estranho numa língua que não entende. Os seus olhos são de um azul muito sombrio. A criança não sabe. Além disso também não sabe que sempre conheceu a canção. Não se lembra de a ter aprendido. Novo relâmpago, novo estrondo. Corre para os braços da mãe. A mãe agarra-a com força. Toma conta dela. Afaga-lhe os cabelos, pede um bolo ao empregado. Ama-a. A criança sorri novamente. Tem medo, mas é feliz.
A criança corre agora pelo café. Desde que o Observador se sentou, ela encurtou o percurso, passa mais vezes em frente dele. O seu cabelo liso está todo despenteado, há madeixas que ficaram presas entre as pálpebras fechadas. De vez em quando, a Observadora roda o olhar, pára, e examina furtivamente o Observador, com uma curiosidade muito aguda e vazia. A criança come o bolo e cantarola baixinho. É uma criança magra, de lábios inchados, cabelo baço e emaranhado, claro, muito claro. Traz vestida uma camisola azul, largamente aberta na parte da frente. A cabeça é pequena e estreita, o olhar é límpido ainda, profundo. Quando surgem faíscas lá fora, o seu rosto fecha-se, assusta-se. Tem medo. Mas muito depressa retoma o vaivém da sua alegria infantil.
Há vinte minutos que o Observador e a Observadora ali estão, sentados, quando aparece um homem no caminho. Também se senta numa mesa, não muito longe do Observador. É um homem que está habituado a ir ali. Deve ter perto dos quarenta anos. Puxa as calças para cima para se sentar, as pernas são magras, peludas. A criança pára em frente do homem. O rosto dela anima-se ainda mais, miraculosamente, ri. Dão as boas-tardes um ao outro.
Tal como o homem e a criança, a Observadora olha furtivamente o Observador, mas não se comove com isso. Ele é bonito, tem olhos azuis, pequenos e vivos, e bons. As faces são duras, mas rosadas. Subitamente, o Observador pega na sacola e põe-na à sua frente. Tira um livro e um bloco de papel. Dir-se-ia que a Observadora evita olhá-lo. Não devia ignorar que está a ser observada por ele, que pergunta a si própria porque é que está hoje ali, naquele café do cabo do mundo, uma mulher só àquele ponto.
O Observador abre o livro, levantando o dedo indicador, para evitar o mínimo contacto, e estragar a encadernação. A criança segue os gestos do Observador. Parece ter-se esquecido momentaneamente da tempestade.
- Ainda tens medo? – Pergunta a mãe à criança.
- Já não é nada. Já nem dou por isso.
Os gestos do Observador são lentos. A criança segue-os. O rosto descontrai-se cada vez mais. Há uma avidez estranha nesta criança, quer que o Observador fale. O outro homem é servido. Come. Mastiga. Come. Engole. Tudo se passa na lentidão irregular de um espectáculo, ou de uma leitura insidiosa, e vã. Atrás deles, atrás do Observador, do homem e da criança, a mesma massa compacta do café, à frente da Observadora, o medo. As pessoas acabam onde o medo começa. O medo deixou-a ali. Acabou-se. Do outro lado do café, perto da janela, uma rapariga ri. Ao som da máquina do café a sua beleza é ainda mais evidente. Ter-lhe-ão dito que é amada? Ei-la sorridente, preparada para uma noite que não haverá certamente para a Observadora. Nem os seus lábios, nem os seus olhos, nem o seu cabelo, em desalinho, naquele café, nem as suas mãos afastadas, abertas, soltas, pendentes sobre o livro, nada nela prova que a noite seguinte poderá ser a promessa silenciosa de uma felicidade próxima.
Já não chove, mas a tempestade mantêm-se próxima, ameaçadora. Quando a Observadora os viu pela última vez, estavam na sala. Conversavam, os dois perto um do outro. Ela parou, cheia de esperança. Eles não se aperceberam da sua presença. Foi então que ela viu as mãos deles unidas, timidamente unidas, ao longo dos seus corpos próximos. Ela achava que tinha tempo – tempo – de ir a um café, até àquele café onde permanece agora, ter medo.
O aguaceiro recomeçou. Em momentos de silêncio imprevisível, ouve-se a água da chuva que corre, alegre, sobre a vidraça. Alguém fala de cidades, cidades românticas. Ela começa a beber o carioca. Faz uma careta. O sabor da casca do limão começa a deixá-la nauseada novamente. “Como é que eles estarão agora?” Pergunta-se.
O Observador abeira-se dela. Ela sente o odor penetrante, a maçã, dos seus cabelos. Os lábios brilham, são de uma beleza evidente. Pega na cadeira vazia a seu lado.
- Posso sentar-me? – Pergunta.
- Porque não?
Trocam um sorriso. Ele senta-se. Ela sente ainda o calor da sua voz no seu ombro. Ele tem necessidade de falar. Ela teme o silêncio. Não o olha nos olhos. Nunca olhou ninguém. Sempre teve medo de descobrir-se a si própria no olhar dos outros.
- Esta tempestade parece continuar – diz. – É pena. Poderia ser uma tarde linda.
- Assim é melhor. Ninguém ousa ir-se embora.
O Observador promete-lhe que não se vão embora. Ela olha-o novamente. Tem um rosto impreciso, na luz cinzenta da tarde. Ele tira os cigarros do bolso. Dá-lhe um. Ela atira-se ao cigarro. Quando lho acende, ela apercebe-se que o Observador treme de medo. Fuma o cigarro com as mãos juntas. Ele tem medo, mas é grande e robusto. Terá talvez vinte e quatro anos. Continua a fumar. Mas para onde é que ela olha? Para o cigarro, é para o cigarro que olha. Não há dúvida, que nunca conseguiu ver ninguém. É ele o primeiro a falar.
- Resolvi fazer-te companhia porque parecias-me triste. Muito triste. Uma tristeza vazia, longa e profunda ao mesmo tempo.
- É o não ter pensamentos. Pensar em tudo, e não pensar em nada. Ser tudo e nada ao mesmo tempo. Estou esquecida de mim, do que fui e do que serei. Apenas sei que tenho medo.
Não diz mais nada. Ele também não. Viram-se para a frente um do outro. Fumam os dois, agora. É ele que acaba primeiro. Ela dá-lhe outro cigarro. Ele continua a tremer. À luz do isqueiro, a expressão dele é nula, reduzida à luta que trava para não tremer.
- Porque quiseste mesmo fazer-me companhia? – Pergunta a Observadora.
Ele não responde logo. Olha para ela, sem dúvida, de muito perto, com todo o interesse. A Observadora não vê os seus olhos, mas sente o seu olhar, tão nitidamente como se houvesse luz. Vira-se para a janela, mas não suporta deixar de vê-lo. É intenso o desejo que tem de olhar para ele. Tem medo, mas tem força, e uma vontade periclitantemente infantil de o olhar de novo. Desapareceu já a expressão desvairada do seu desespero. Porque estará ele sentado ali, em frente dela? Por uma amabilidade, por uma atenção derradeira?
Olha-o novamente. Ele devora-a com o olhar, devora com o olhar aquele prodígio tangível, aquela flor negra alimentada naquele café pela desordem do amor. A voz dele volta.
- Que horas são? – Pergunta o Observador.
A Observadora mostra-lhe o relógio. Ele não olha.
- Faltam dez minutos para as cinco da tarde.
Os olhos dela examinam-no de novo. Encosta-se à cadeira. No meio deste pequeno silêncio, a Observadora crê ouvir um suspiro da criança. E depois, de novo o silêncio absoluto. E também de novo, a eterna passagem do tempo.
- Já é tarde. Amanhã já não estou cá. Sou um solitário, e gosto de viajar sózinho. Vou para Paris. Mas ainda nos podemos encontrar á noite?
Ela olha-o calmamente. Aliás, ela quer vê-lo assim, inteiro, descoberto, e para sempre. Os olhos dela fixam-no. É sereno o seu medo, agora. Sereno e bom. A sua alegria ganha proporções óbvias, evidentes. Ela tem de novo um nome. Ocorre-lhe uma memória de criança. Agarra-a para si. Responde-lhe.
- Hoje não posso, porque tenho que tratar da minha mala. Também vou viajar amanhã.
- Amanhã? Para onde?
- Não sei. Talvez Paris!


* Les Fleures du Mal. Chanson D´Aprés-Midi. Baudelaire, Charles


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografia de Misha Gordin)

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abril 09, 2005

DA VAIDADE E DA MODÉSTIA

Para a minha segunda re-edição de hoje recorri a um escritor incontornável e a uma obra que gostei muitíssimo pela imensa riqueza de conteúdo existêncial a si inerente: Ernesto Sabato (Argentina, Buenos Aires, n. 1911) com "O Túnel". Como proposta de conjunto segue-se:

Da vaidade não digo nada: creio que ninguém está privado deste notável motor do Progresso Humano. Fazem-me rir esses senhores que acenam com a modéstia de Einstein ou de gente dessa resposta: é fácil ser modesto quando se é célebre; quero dizer, parecer modesto. Mesmo quando se pensa que aquele não existe de uma maneira geral, descobre-se logo na sua forma mais subtil: a vaidade da modéstia. Quantas vezes tropeçamos com essa classe de indivíduos! (...) A vaidade encontra-se nos lugares mais inesperados: ao lado da bondade, da abnegação, da generosidade.


(Ernesto Sabato- O TÚNEL. Fotografias de Carlos Morales-Mengotti)


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A LOUCURA QUE O CONHECIMENTO DA VIDA PODE TRAZER

Continuando, aos Sábados, com re-edições de textos apresentados neste blog em tempos já muito idos, é hoje a vez de recuperar um da autoria de Herberto Helder. Não tendo sido na altura feita edição conjunta com fotografia(s), hoje assim não é, sendo que a minha proposta é a seguinte, numa tentativa de reforço e alargamento da força/significado das palavras do autor (aposta numa possibilidade de Metalinguagem):

- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois no meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo.


(Herberto Helder- OS PASSOS EM VOLTA. Fotografias de Carlos Morales-Mengotti)

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abril 08, 2005

UMA MULHER NUA- 10

Graças aos meus guarda-costas, para mim a vida mudou de rumo, porque se converteram no oásis de todas as minhas noites, na companhia perfeita para o meu espírito atormentado. (...) Além disso, foram eles quem me serviu de refúgio desesperado quando soube que Damián estava de novo em Madrid.
Vi-o num debate televisivo, a discutir um tanto acaloradamente sobre aspectos controversos da medicina. Vê-lo de repente no ecrã, depois de décadas de ausência, bloqueou-me até a necessidade de respirar. Senti inclusive que corava, mesmo sozinha diante da televisão. E, convertida numa espécie de balão hermético, mantive-me atarraxada ao sofá, com os olhos tão abertos que doíam.
Segundo os meus cálculos Damián tinha 68 anos, mas não parecia. Estava apelativamente bronzeado, e o seu corpo não tinha perdido a agilidade e a firmeza de que tão bem me recordava. O que não batia certo era o aspecto elegante, quase aristocrático, do seu porte. Teria sido mais coerente que a cor da sua pele morena não parecesse a de um milionário desocupado e as suas roupas não se destacassem pelo refinamento. No entanto logo a seguir lembrei-me que Damián tinha a distinção gravada no corpo. E tudo o que agora verificava é que não tinha perdido esse selo com os anos.
Defendendo a eutanásia ou as experiências genéticas como forma de avançar na cura de doenças, a liberalização das patentes de determinados medicamentos de primeira necessidade, ali estava o meu Damián, aquele médico que tinha sido, no passado, o defensor da minha infância. O homem que habitou os meus sonhos adolescentes e cujas mãos procurei em todos e cada um dos homens por quem me deixei tocar, desde então até à presente data.

Como foi estranho vê-lo daquela maneira repentina, passados dois mil anos. Vê-lo como mulher, não como criança, tendo perdido a minha virgindade há seculos e experimentado o sexo até às suas últimas consequências. Que dissera eu de Damián durante todo esse tempo? Deu-se-me um nó no entendimento e não soube responder. Mas tinha a sensação de que a resposta a essa pergunta era crucial.
Durante cerca de dois anos evitei a tentação de pôr-me em contacto com ele, sabendo perfeitamente que vivíamos os dois na mesma cidade e que poderíamos ter-nos encontrado nalgum acto público, uma vez que Damián frequentava o mundo da política a partir de uma posição de comentador independente do poder. De facto, várias vezes declinei convites com medo de me encontrar com ele.
Embora morresse de vontade de o ver, não me atrevia a confrontar-me com a sua visão. E se não se lembrava de mim? A pequena Martina podia muito bem ter-se perdido por entre as sombras desgastadas da memória de Damián. (...)
Imagino a perturbação desse primeiro encontro, e como Damián o resolveria. (...) Agora Damián podia expressar-me o seu amor sem reservas. Agora que eu era uma mulher, adulta, inteira. (...) O seu beijo de desejo comover-me-ia. E também o seu odor, alojado durante tantos anos nos meus neurónios e num segundo ressuscitado como por magia. (...)
E Damián e eu beijar-nos-íamos interminavelmente, recuperando o tempo perdido e atirando o passado para o lixo. Despir-nos-íamos um ao outro, estreando a igualdade, estreando o meu tamanho de mulher com o seu tamanho de homem.


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição: Editorial Teorema. Fotografias de Philippe Pache)


E com este post dou por concluída a apresentação de excertos do livro referenciado. As escolhas feitas foram altamente cirúrgicas para vos proporcionar uma sequência temporal lógica, no âmbito da riqueza do conteúdo da obra. Muito, mas muito mais poderia ter sido editado, contudo, optei também por ocultações específicas, sendo que a principal dessas ocultações é o próprio final da estória. Tendo em conta que alguns de vós poderão estar a ler o livro ou mesmo o desejem ainda fazer, entendi ser melhor manter a suspensão da vossa curiosidade. Cortei, portanto, a possibilidade de um conhecimento mais alargado e determinante.
Espero que tenham gostado do que aqui editei. Que os excertos apresentados tenham sido suficientemente abrangentes para reflexão em torno das temáticas/problemáticas por mim anunciadas no primeiro post deste conjunto de edições.
Que tudo, mas tudo, vos tenha motivado para o acompanhamente de outros momentos/fases de erotismo a destacar neste blog, no âmbito daquele que é o aprofundamento da Literatura Erótica.

Publicado por void em 06:37 AM | Comentários (4) | TrackBack

abril 07, 2005

UMA MULHER NUA- 9

Ser ministra é como ser rainha num campo minado. É-se tratada e servida de bandeja, levam-nos a pasta e nem precisamos de nos baixar para apanhar uma folha de papel do chão. Em contrapartida, não nos podemos mexer, porque cada passo que dermos pode levar-nos à destruição pessoal ou à quebra política, senão ao ridículo pelo caminho mais curto. Os movimentos devem ser medidos exaustivamente. Centenas de olhos observam o terreno por nós e para nós, em nosso nome, ao mesmo tempo que nos olham constantemente pelo canto do olho. É-se como uma chinesa a quem atrofiam os pés desde criança com a finalidade de nunca ir demasiado longe nem demasiado depressa. É tão complicado inovar ou ser criativo como foder no meio de um estádio de futebol repleto de gente sem que o árbitro nos apite. (...)
Toda a azáfama ministerial provocou-me logo de início uma náusea encoberta que pouco a pouco transformou-se numa sangrenta úlcera interior. E não digo que fosse mau, porque cada contratempo tem a sua leitura positiva. No meu caso, actuou como catalisador de toda a rebeldia que albergava desde a infância e que fora reprimindo ao longo dos anos para não me perder no exílio do ostracismo. A mesma rebeldia que hoje me faz escrever estas memórias particulares para as trazer à luz pública. (...)
Para cúmulo, a vigilância a que me encontrava submetida era um suplício. Era tudo blindado e eram só homens de fato e óculos escuros, microfones nas orelhas e pistolas nos sovacos, enfiando-me e tirando-me de carros e edifícios. Porque homens, o que se chama homens, havia-os às centenas no meu ministério. Imaginava-me como a favorita de um sultão, sempre encerrada entre quatro luxuosas paredes, rodeada de eunucos e de machos proibidos e a guardar a minha entreperna para um amo que tinha partido para a guerra deixando-me a ver navios.

Se não fosse o ministro dos Assuntos Exteriores, com quem de vez em quando me aliviava, teria apresentado a minha demissão. O tipo não era nada mau, e tinha o atractivo acrescido de as nossas fodas ligarem o interior com o exterior, brincando ao mete-e-tira com os nossos respectivos cargos. (...)
Em todo o caso, as fodas exteriores - como eu lhes chamava - eram escassas e difíceis. Inventávamos reuniões privadas de cooperação mútua, mas não eram suficientes, porque, procurando evitar dar nas vistas e passar despercebidos, a imagem dos nossos encontros sujeitava-se religiosamente a uma agenda do estrito controlo protocolar. Ainda por cima, um belo dia o affaire acabou-se abruptamente. O meu querido colega sofria do coração, e uma tarde em que fomos ultrapassados pela luxúria, o tipo acusou o estrago, ficou alterado dos nervos e saiu do meu ministério com um ataque de cagunfa que o levou a recusar mais cambalhotas comigo. Confessou-me que preferia a serenidade de uma vida sexual plana, sem paixão, ao risco de morrer com o caralho enfiado entre as minhas pernas. E assim voltei à forçada abstinência, condenada às galeras de um sinistro celibato não livremente eleito.
A solução para os meus problemas chegou um dia de improviso, como uma prenda celeste. Ia no carro oficial por uma estrada secundária, no regresso da inauguração de uma prisão de máxima segurança, com o coração amarfanhado e uma lágrima de fracasso estampada na retina. Estávamos em finais de Julho, e o sol da meia-tarde brilhava nos vidros fumados como se viajássemos pela rua que conduz directamente ao inferno. De repente começou a chover com uma força descontrolada, como dias antes tinha sucedido. Os campos, alagados, pareciam soltar a voz de alarme gritando que já não aguentavam mais, enquanto continuavam a naufragar entre as águas empenhadas em cair sem mágoa. Ao passar uma lomba, o carro que nos precedia não conseguiu evitar uma poça que inundava metade da estrada e ficou lá. O nosso parou e os meus guarda-costas saíram. Depois de verificar que os ocupantes do outro veículo estavam bem, vieram informar-me e ordenei-lhes que seguíssemos viagem. (...) Mas ao fazer uma curva fechada, o carro derrapou e despistou-se, indo aterrar num descampado próximo. (...) Eu fui a primeira a sair e, ao pôr o pé no chão, o salto altíssimo da sandália que levava calçada cedeu, enterrado numa espessa capa de finíssima lama. Inconscientemente meti o outro pé e aconteceu o mesmo. Ao tentar libertar-me, ainda fiquei mais atolada naquelas areias movediças, e caí desajeitadamente na lama. Nessa altura os meus guarda-costas já estavam a sair do veículo e a tentar chegar ao pé de mim fazendo piruetas semelhantes sobre a lama. (...) O primeiro guarda-costas a chegar a princípio ficou estupefacto, e depois acompanhou as minhas gargalhadas com as dele, descontraindo o momento de nervosismo vivido. Agachou-se ao pé de mim, rodeou-me a cintura com os seus braços de gorila, a armar-se em ausente, e levantou-me o corpo uns centímetros, ao mesmo tempo que eu me agarrava aos seus ombros para colaborar no resgate. Naquela posição vi-me de repente nos braços de um macho encantador, de um viril e cavalheiresco indivíduo que me levava pelo ar. Para cúmulo, o meu rosto estava a um milímetro do dele, os dois a sorrir e a olharmo-nos, movidos por um instinto físico sem apelo, para a boca e os olhos alternadamente. (...) Beijámo-nos como se a terra nos fugisse debaixo dos nossos corpos e só nos restassem uns segundos de derradeiro prazer. (...) E a seguir começámos a rebolar-nos, feitos num novelo abraçado, pela lama. Depois abriu-me o casaco fazendo saltar os botões, e com as suas mãos de besta apaixonada rasgou-me o sutiã ao meio. (...) Logo a seguir voltou-me, ajoelhou-se e tirou-me o casaco para trás (...) finalmente agarrou-me a saia pela costura, rasgando o tecido ao meio. Então a minha tanga assomou ao céu e ele esticou-a para cima com força para que a tira se me cravasse entre as nádegas. Eu gemia enlouquecida, pedindo mais. Gritava-lhe para que me matasse, depois de me possuir. (...)
O meu garda-costas (...) [d]espiu-se, abriu-me imediatamente as pernas sem contemplações e empalou-me por trás, lubrificando-me com aquele morno leite castanho apanhado no chão. Julguei levitar quando senti o seu caralho todo dentro de mim. Estilizado, roçagante e dúctil, adaptava-se cem por cento ao meu cu. (...)

Agora sei o que se passou ali, embora então não conseguisse tomar consciência e me tenha esforçado para continuar a representação, encaminhando-a para o espaço manipulável e conhecido que eu dominava. Mas um sopro subtil de estranheza embargava-me os sentidos à medida que me entregava àquele homem. Era algo semelhante à gratidão, não só por ajudar-me a fugir de mim mesma com um indivíduo anónimo, como talvez, pelo contrário, gratidão por ser ele mesmo, e não outro qualquer, quem estava ali comigo a fazer amor.
Aquele guarda-costas e o seu companheiro tinham-se convertido numa parte da minha paisagem quotidiana.


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição: Editorial Teorema. Fotografias de Philippe Pache)

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UMA MULHER NUA- 8

Após dois anos de noivado, durante os quais eu continuava a visitar assiduamente o território da minha identidade proscrita, casei-me com aquele pato-bravo, entregue ao fatalismo de uma vida sem felicidade. Precisava de fazer algo para preencher os dias, todos os dias dos anos todos que ainda me faltavam viver. O nosso casamento durou menos que zero, sentimentalmente falando. Mas como eu não esperava delírios de paixão, nem do meu parceiro lhes teria sentido a falta, acoplámo-nos um ao outro a partir da mais marcada e negociada distância. Se alguma coisa posso dizer a favor da nossa relação é que jamais nos defraudámos. Era tão plana, vazia, carente de excitação, previsível, convencional, civilizada e serena que dormir com Gonzalo afigurava-se-me como partilhar o meu leito com uma avozinha senil. Gonzalo era tão vazio que me entristecia, e até me fazia inveja. Os seus esquemas mentais eram sulcos bem arados nas terras do sem-substância e do correcto. Tinha a cabeça mobilada com todos os princípios, regras, ideias de um mundo prefabricado que, recebido uma bela manhã numa encomenda por correio, tivesse engolido sem mastigar. Nunca descobri nele o menor assomo de dúvida, ou algum sinal de necessidade de desmame. E esse pormenor não só me horrorizava, como por vezes me obrigava a fugir de casa em busca de ares mais viciados.
Fodia-me religiosamente às terças e sábados. Eu sentia um certo prazer doentio naqueles encontros sexuais, porque Gonzalo despia-se do seu fato e gravata e descobria em toda a sua plenitude o animalzinho que na realidade era. Farejava-me e dava-me lambidelas como um cachorro. Então o nosso quarto convertia-se numa planície africana. Ele era um leão que passara o dia ocupado com as suas tarefas e de repente a pichota alertava-o para a sua condição de macho, pondo-se automaticamente grossa e tesa. Logo a seguir procurava a fêmea mais à mão, imobilizava-a e enfiava-lha dentro, direito ao assunto e sem preliminares. Eu era essa fêmea, a que passava por ali todas as terças e todos os sábados. Essa desconhecida que fazia sua e cobria alegremente. Vinha-se logo a seguir ruidosamente e desmoronava-se em cima de mim. Passados vinte minutos ressuscitava, amassava-me as mamas, mordia-mas e voltava outra vez a montar-me para chegar pela segunda vez ao orgasmo rugindo de prazer.
Embora com ele me tenha vindo poucas vezes, não me desgostava que me fodesse. Eram momentos de uma estranha intimidade nos quais eu roçava longinquamente a harmonia total com o mundo diáfano e estabelecido. Não havia entrega sublime nem paixão louca, mas aquelas fodas podiam ter sido mostradas às nossas amizades, como quem mostra mais uma parte da casa. (...) Não tivemos filhos. Gonzalo queria dilatar o mais possível a liberdade do nosso casamento, apesar de ele mesmo se dar conta de que teriam acrescentado um ponto de coerência ideológica à nossa carreira política. Eu pela minha parte não tinha o menor interesse em dar à luz um filho do meu marido. (...)
Quando passados anos Gonzalo morreu no acidente aéreo do Prat, a sua posição era tão sólida e influente que pensaram em mim como sua sucessora natural. A princípio recusei-me, porque isso acorrentar-me-ia mais fortemente com o férreo controlo do partido e colocava-me sob o ponto de mira dos meios de comunicação como dos meus colegas. Mas depois não pude - e não quis - recusar-me. Não era a magnética vertigem do poder, mas sim a minha curiosidade por experimentar tudo, acrescida da tentação que exercia sobre mim o demonstrar até onde podia chegar uma mulher nesse território de lobos masculinos. Desejava franquear a entrada desse espaço machista que sabia a mofo e a carne requentada, a braguilhas lassas e a cérebros pouco imaginativos, que cheirava a costume e a puritanismo nauseabundo.
Porque não? Porque não tentar mudar o mundo, nem que fosse a partir da mentira da minha dupla personalidade?


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição: Editorial Teorema. Fotografia de Christian Coigny)


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UMA MULHER NUA- 7

Hernán apareceu na minha vida quando estive prestes a lançar-me no vazio, ébria de álcool e enjoada de esconder-me a verdade, confrontada com o meu próprio desamparo. Eu não o vi chegar. Só senti uns braços fortes e seguros, umas mãos firmes que me elevavam ao céu, pondo-me asas nos pés. Já não podia cair, voar contra o chão, contra o asfalto mortal. Já não podia apontar para o alvo de nenhuma passadeira que servisse de caixão acidental para os meus desvarios. Agora subia em direcção contrária ao meu destino previsto; voava para onde se tem de voar pela lógica. Para as estrelas.
Um anjo ou um demónio, Hernán fez o milagre naquela tarde. Salvou o meu corpo de se estatelar mais tarde ou mais cedo na rua. Nu e frágil, silvestre e montês. O corpo de uma menina tão cansada de se atirar para a turba que, em vez disso, prefere lançar-se à deriva da morte. Uma menina que para ser resgatada precisa de tentar a destruição absoluta.
Alugou um apartamento para nos encontrarmos. Eu saía do colégio, chegava a casa e dizia que ia estudar com Carlota. Então o chofer de Hernán apanhava-me ao voltar da esquina e levava-me ao picadeiro clandestino do meu amante. Era um grande risco, mas nunca se passou nada. Os meus pais nunca ligaram para casa da minha amiga para verificar se, com efeito, passava ali as tardes a preparar os deveres. Devo reconhecer que a falta de interesse dos meus progenitores pelo que eu fazia me veio a calhar naquelas circunstâncias. Apenas lhes importava que trouxesse boas notas e que não saísse do redil do estabelecido. A sua única preocupação era a possibilidade de me converter no que mais os atormentava, uma "adolescente problemática". Mas, aparentemente, a minha vida transparecia rectidão e serenidade, uma balsa tranquila de maturação gradual. Além disso, eu não precisava de estudar, porque o meu QI permitia-me ler a correr as lições, uma só vez, para as memorizar completamente. Assim a minha vida secreta estava a salvo.
Hernán converteu os meus últimos meses de colégio numa festa orgíaca, fazendo do aborrecimento das aulas uma espera jubilosa todas as manhãs. Às vezes tinha de esperar por ele no apartamento, porque se acumulavam os compromissos de trabalho. Terminava os almoços de negócios nos meus braços, um tanto bebido e eufórico. Não sei dizer quanto fodemos, pois aqueles meses agora parecem-me o cenário de um rapto alucinogénio. Tudo o que sei é que Hernán me fodeu e fodeu até rebentar. Só pensava em montar-me e, quando ia chegar atrasado, ligava-me para o picadeiro unicamente para me recordar que, em breve, eu ia ser sua. Converti-me numa obsessão para ele, e comecei a tomar a pílula para que pudesse descarregar todo o seu desejo dentro de mim sem intermediários. O meu amante odiava tudo o que se interpusesse entre ele e o meu corpo. (...)
Hernán dizia que a melhor maneira de nos rirmos do mundo era virmo-nos aos gritos, desafiando a terra inteira através da vizinhança transformada em trombeta, e que talvez assim a paixão se contagiasse ao bairro todo, do bairro à cidade, da cidade ao país e do país aos cinco continentes, de maneira que um belo dia o cosmos acordasse regado de sémen com uma ejaculação global, todos a foderem ao mesmo tempo, homens e animais. Dizia que a vida não faz sentido sem esses instantes de prazer mágico em que nos unimos a outro corpo para fundar um órgão de amor libertado de toda a imundice, de toda a dor, de toda a raiva. Dizia que...
Tudo o que Hernán dizia um belo dia deixou de o dizer. Não porque deixasse de o sentir, mas porque se foi embora, e como única herança ficaram-me as suas teorias. A prática terminou uma tarde à última da hora. As suas carícias, os seus beijos, a sua terna verga, os seus empurrões, as suas cavalgadelas, os seus dedos húmidos. Esfumou-se tudo como no final de uma emissão televisiva. Fundido em preto.
Era bom profissional, tanto que a Administração decidiu mandá-lo para a sucursal de Nova Iorque, para que, como abelha-mestra, fecundasse um enxame de agências pelo país fora. E ele não recusou. (...)
Dois abandonos. Já lá iam dois abandonos. Primeiro Damián, e depois Hernán, fazendo rimar os seus nomes no verso implacável do meu destino. Quando Damián partiu, mergulhei no poço mais sinistro, onde as águas me cobriam por completo e onde vivi aguentando a respiração precisamente até chegar Hernán. Mas quando Hernán se foi embora todos os mares se secaram. Não ficou manancial, lagoa, poça ou uma miserável gota. Não ficou um átomo de água no meu mundo. Aquelas ondas cálidas do seu amor foram substituídas por dunas quilométricas de uma aridez sem nome. (...)
Passei os anos anestesiada, sem rumo existencial, com a programação de um andróide. O possível regresso de Hernán era uma utopia. E, a ter-se verificado, teria sido ainda mais insuportável. Dediquei-me à pilhagem de beijos e rapidinhas, sem rosto. Eu não queria olhar para as caras que me metiam a língua na garganta. Porque já não tinha estômago para aguentar as ligações de hipotéticos laços afectivos. Mas continuava a necessitar desse momento de calor cruelmente doce das peles de uns e outros a tapar os buracos das minhas.


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição: Editorial Teorema. Fotografia de Philippe Pache)

Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (4) | TrackBack

abril 06, 2005

UMA MULHER NUA- 6

Naturalmente que, embora tivesse entrado pela porta grande do sexo, não me privei da iniciação sexual clássica. Entrei nos circulos eróticos mais convencionais e próprios da minha idade, pois eram os únicos que estavam ao meu alcance. Assim, brinquei aos médicos com os meus companheiros de colégio. Olhei e toquei montes de entrepernas e deixei tocar e olhar a minha. Mas os pénis dos meninos da minha turma eram minhocas brincalhonas e flácidas, como dedos mendinhos sem osso, que não reagiam às minhas mensagens, que não se inchavam e que nunca cresciam ou se endureciam como o de Damián ou o do meu pai. Como explicar-lhes que eu tinha brincado aos médicos com um cirurgião a sério, que não só exercia medicina como tinha um diploma de especialista naquele jogo? (...)
À parte os frustrantes encontros com aqueles aprendizes de médico, e a contemplação das rachitas das minhas amigas, que eram como a minha, mais ou menos, aos doze anos assisti à revelação máxima, ao último degrau da escala do sexo. Finalmente vim a saber que o brinquedo de Damián tinha outras vias de exploração que eu não descobrira naquela tarde.
Nicolás, filho de um espanhol e de uma norueguesa, um dia trouxe de casa uma revista estrangeira cheia de imagens. Mostrou-nos no recreio, escondidos atrás de um monte de terra onde um enorme tubo de esgoto morria à intempérie. Na realidade, era uma historieta sem palavras e todos os protagonistas tinham o cabelo tão louro que parecia branco. Na primeira página, um fulano vestido de cardeal encontrava-se rodeado de mulheres vestidas de freiras com hábitos vermelhos, todos em posição de orar. Na seguinte, as mulheres desabotoavam a interminável sotaina e punham ao léu a nudez do homem, que não vestia nada por baixo e tinha a pichota tesa. Na outra a seguir, despiam-se elas. Depois chupavam-lhe o caralho várias ao mesmo tempo e ele agarrava-lhes as mamas apertando-as com força. Depois ele aparecia com o caralho dentro da cona de uma delas, em vários planos. Mais adiante, um plano do caralho a entrar dentro de outro buraco de uma freira, que deduzimos que era um cu porque se via a cona aberta ao lado. E finalmente podia-se ver o famoso jorro branco a sair do caralho, petrificado na foto e a cair em cima da cara de uma das freiras, que tinha uma expressão muito alegre, surpreendida e faminta, enquanto abria a boca como uma caixa de correio e esticava uma língua de serpente.
Aquela visão foi forte de mais para nós e voltámos para a aula cabisbaixos quando o recreio acabou, com o cérebro cheio de sémen e vergas e conas e mamas e cus, incapazes de assimilar o autêntico significado do conteúdo da revista.

Mas Damián não voltou, e eu cresci e desenvolvi-me. Cresceram-me as mamas, veio-me o período, cresceram-me os pêlos no púbis, rebentaram-me borbulhas na cara e a sensualidade chegou-me às golfadas. Os beijos, até então autómatos, converteram-se na antessala de um desejo que não se extinguia com a mera exploração de centenas de bocas. O meu corpo ansiava por mais. Ansiava tudo o que um homem pode dar a uma mulher. E prestes a fazer catorze anos eu era uma fogueira que nunca se apagava, que ardia inutilmente vinte e quatro horas por dia. (...)
Aos dezasseis anos eu já tinha experimentado todas as possibilidades que uma discoteca oferece, a marmelada nos cinemas, lugar este, por exemplo, onde fui aperfeiçoando a técnica da masturbação masculina. (...) Naquele momento, eu com a lascívia de uma cortesã, vestida de piloto de corridas prestes a atingir a meta, agarrava a embraiagem de carne, desorbitada e pisada até à morte, e dava ao dono o que merecia, malhando-lha como uma deusa. Era o que me diziam, malhas-me como uma deusa, Martina. Na verdade era uma verdadeira artista punheteira. E a razão é simples. Agradava-me. Desfrutava agarrando naquele berbequim e submetendo-o às minhas ordens. Fazia-os sofrer subindo e descendo a pele congestionada com a habilidade de uma especialista em amassar pão caseiro. Punha-os à beira do orgasmo à base de uma cuidada e excitante combinação de extrema suavidade e apertões selvagens, retardava a ejaculação e voltava a estimular o membro até que finalmente explodia a transbordar de leite contido, entre estertores e espasmos que pareciam nunca mais acabar, tanta loucura investiam na esporradela, tanta energia musculosa e alegre, desinibida, adolescente e travessa. Depois vinha a parte difícil da limpeza, mas, antes, um imperioso instinto levava-os a beijar-me os lábios com doçura enjoativa, com o agradecimento de um animal malferido a quem se tira a farpa espetada na pata. E esse beijo, sincero, sabia-me a sémen apaixonado. Era a minha recompensa. Um novo beijo para a minha arca do tesouro, para guardar com avareza no tambor do meu coração transformado em revolver.


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição: Editorial Teorema. Fotografias de Philippe Pache)

Publicado por void em 06:41 PM | Comentários (5) | TrackBack

UMA MULHER NUA- 5

Nunca esqueci Damián. A sua recordação acompanhou-me durante anos. Embora nessa altura não soubesse, e embora tenha demorado muito tempo a aperceber-me, ele tinha posto uma semente em mim que mais tarde acabaria por amadurecer e dar fruto. Mas, entretanto, o sentimento de abandono era a ferida constante que atormentava os meus dias. Acabei por assumir que estava condenada à solidão, e que ninguém permaneceria junto de mim para além de uns quantos encontros. Aprendi que a vida com os outros era um toque efémero, e quanto mais intensidade conseguisse retirar dessas esporádicas e brevíssimas chispas de intimidade, mais sentiria que fazia sentido estar viva. A minha existência converteu-se então numa busca ansiosa e frenética de momentos sublimes, para logo a seguir suportar os intermináveis dias de vigília afectiva rememorando aqueles intercâmbios fugazes que me permitiam entrar em contacto com a paixão que me consumia por dentro. Sentia-me assim suspensa no vazio, sobre o frágil arame das emoções, contabilizando riscos contínuos, dando como certo que as descargas de paixões me eram necessárias para dar sentido à existência, mas ao mesmo tempo não eram a vida em si, mas apenas instantes roubados que não me pertenciam nem sequer no momento exacto da sua execução.
E também aprendi que a felicidade é um dilema entre dois mundos. Um exterior, onde procuramos a aprovação dos outros, e outro interior, onde os instintos se manifestam, onde lateja o autêntico desejo. Aos meus olhos, ambos os mundos encontravam-se irremediavelmente em conflito e deviam viver-se separadamente. Incapaz de os juntar, saltava de um para o outro rodando como uma pitorra desengonçada, e dissociava-os cada vez mais, aceitando tacitamente a sua cisão maldita. Durante anos vivi iludindo o atormentado frenesi da minha retaguarda afectiva, desafogando-o sob o manto da ocultação, ao mesmo tempo que à superficie interpretava a mais perfeita pantomima - isso julgava eu- do meu próprio papel de mulher exemplarmente integrada na sociedade.
Porque tinha crescido realmente convencida de que o que sentia por dentro era obscuro, doentio, infame, digno de ser repudiado. E que a minha necessidade de perdurar no coração de alguém, de ser amada e compreendida e recordada para toda a eternidade, era um lastro indigno que carregava irremediavelmente, sem conseguir extirpá-lo das minhas entranhas. Porque eu não tinha direito a esse prémio, face a outros que o tinham. E por não ter direito a ele, era absurdo que sonhasse com ele; era incongruente não aceitar essa realidade incontestável. Mas algo dentro de mim me impedia de renunciar de uma vez por todas a essa miragem. No fundo da minha alma latejava a sombra da esperança. Havia algo para mim, num lugar qualquer desconhecido, talvez noutra vida. Estar consciente disto fazia-me sofrer e ao mesmo tempo dava-me forças para continuar a existir. E devia-o a Damián, que, quando desapareceu para fugir de mim, me deixou a sua marca gravada no coração.

E se o amor não me estava destinado, porque ninguém me ensinou a conquistá-lo, porque ninguém me ensinou a pedi-lo ou a merecê-lo, porque só me foi oferecido durante um momento para se evaporar logo a seguir tal como tinha surgido, se o amor não me estava destinado, restava-me o sexo. Através do sexo conseguia pelo menos a aproximação de outros corpos; esse momento de intimidade que proporciona o contacto erótico era para mim o que mais se assemelhava a possuir alguém afectivamente, nem que fosse só por uns minutos ou até por umas horas. (...) E assim como eu me tinha esforçado por ser uma hábil bailarina ou uma manhosa retratista, ou uma boa estudante, iria depois especializar-me em bater boas punhetas ou fazer bons linguados, ou a foder magistralmente. Para ganhar o sustento dos meus instantes de eternidade roubada, para possuir, durante um mísero mas bendito lapso de tempo, quem estivesse comigo. Para parar o relógio com a força da minha mão agarrada a um caralho. Dando prazer físico em troca da imortalidade construída à base de esporádicos encontros íntimos. Um simulacro de vida afectiva, a representação teatral do amor, baseada na mais bela das mentiras.


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição: Editorial Teorema. Fotografias de William Ropp e Christian Coigny, respectivamente)

Publicado por void em 06:54 AM | Comentários (6) | TrackBack

abril 05, 2005

UMA MULHER NUA- 4

Decorridos três dias o meu pai levou-me à consulta de Damián. Esperámos meia hora na sala de espera, sem falarmos, e depois uma enfermeira conduziu-me a uma sala onde havia uma cama e vários instrumentos metálicos dispostos em bandejas reluzentes. (...)
De repente Damián entrou em cena, vestido com uma bata branca, como um anjo acabado de aterrar no planeta. (...)
Antes que Damián pudesse reagir, corri para
o abraçar. Era a primeira vez que eu, espontaneamente, desejava aproximar-me de alguém daquela maneira. Nunca antes tinha querido ou necessitado expressar os meus sentimentos, mas com ele foi diferente. Porque Damián tratava-me de maneira diferente. (...) Falava-me de igual para igual, não como a um ser inferior de quem se deveria pressupor, por sistema, uma inteligência pequena e limitada. (...)
Posto isto, perante a primeira oportunidade que tinha para lhe poder demonstrar a minha admiração e carinho, não hesitei um segundo e agarrei-me à sua bata, metendo a cabeça entre as suas pernas - ficava à altura-, da mesma maneira que um pintainho se refugia debaixo da asa da mãe. O seu cheiro hipnotizou-me. Era a fusão de todos os sentidos, um aroma de intensidade suave mas tocando o fundo de uma nota grave e sustenida, debaixo de árvores centenárias no coração de uma selva agridoce. Tentou afastar-me, depois de uma breve pausa, mas eu agarrei-me às suas costas com a força de uma ventosa, de tal forma que a minha cara se apertava ainda mais contra os seus genitais. Sentir aquele volume que Damián tinha entre as pernas provocou-me uma sensação curiosa. Não me queria separar do meu herói, nem me queria separar daquilo que ele tinha debaixo das calças. Porque era dele. Porque de repente era o que o definia, para além do meu conhecimento racional de que Damián era um homem, ou de que o seu sexo era diferente do meu. E ter o meu rosto enfiado no meio daquela excelsa e mórbida carne era como tocar a brandura de um deus, o seu ponto mais íntimo, o reservado a poucas e privilegiadas criaturas. Sentia-me senhora, por uns instantes, de todo o seu ser.
Ao fim de um minuto de resistência de Damián comecei a sentir que o volume ia crescendo, como por artes mágicas, e esse processo de metamorfose deixou-me fascinada. Não havia dúvida de que ele era um deus capaz de tudo.
(...) Pelo que impelida pela confiança que Damián me concedia, de quem nunca esperei uma reprimenda ou uma ameaça por nada que tivesse feito, estendi a mão e coloquei-a entre as pernas, primeiro com sobressalto e pudor, mas depois com a ousadia de uma inocência curiosa. Como se encontrava agachado e com os joelhos abertos, a proeminência era maior do que antes, e mais acessível. A princípio apertei-a timidamente, e depois fechei mais a mão, para conseguir apreciar mais intensamente como a sua carne macia se afundava debaixo da pressão das pontas dos meus dedos. (...)
(...) Damián passou-me a mão pela cara e senti o seu tacto como mel derretido pelas minhas faces e o meu pescoço. (...) Aquela mão de Damián a acariciar-me foi para mim como que o baptismo dos meus afectos. Deixou-me a marca em vermelho-vivo da ganadaria do amor. Eu já era, sem remédio, uma novilha recém-estreada pelo macho da sua espécie, iniciada na sexualidade partilhada. (...) Mas fora apenas atracção erótica ou carinho puro, ou as duas hipóteses juntas, ali estávamos ele e eu, parados no meio da consulta embrelhados no silêncio da proximidade manifesta. (...)
"E agora, Martina, tenho de te observar o morango, porque foi para isso que cá vieste, não é verdade?", disse Damián de repente quebrando o clima que nos envolvia. "Está bem", respondi, apanhada de surpresa e arrancada do cerne dos meus sonhos.
Então o médico levantou-me o vestido e baixou-me as cuecas com florinhas e lacinhos que tinha vestido especialmente para ele. Levantei primeiro um pé e depois o outro para que Damián me tirasse a roupa.


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição: Editorial Teorema. Fotografia de Christian Coigny)

Publicado por void em 08:07 PM | Comentários (2) | TrackBack

UMA MULHER NUA- 3

O meu primeiro beijo na boca foi Damián quem mo deu. (...) Bom, não foi um beijo à séria, com língua, mas para mim foi o meu primeiro beijo de mulher. Aos sete anos. Provavelmente muitos de vocês, pensarão que exagero na análise que faço e questionarão até que ponto a precocidade que me atribuo corresponde à realidade, mas a consciência de ser fêmea não só está inscrita nos genes, como se vai formando em banho-maria, desde o berço. E Damián orientou-me nesse aspecto. (...) Creio que me apaixonei por Damián perdidamente, como só uma criança de sete anos consegue estar. A partir da confusão, do desejo de saber, do instinto mais ancestral e, sobretudo, a partir da necessidade de me sentir alguém, e não um objecto programado para fazer bem as coisas. A minha curiosidade iniciou então uma escalada num crescendo de loucura, e eu procurava como uma cadelinha ansiosa o colo de um amo que me mostrasse o caminho do essencial, as respostas para todas as perguntas.
Como Damián era um rio subterrâneo, presente mas não visível, e não o tinha ao meu lado, procurei outros caminhos, enquanto esperava que voltasse a ser convidado para nossa casa. Os dias tornaram-se num vaivém do mundo, irrequieto e palpitante, à procura do saber, à espera do meu desejo. Se não podia dispor de Damián, confortaria a minha alma tornando-me cada vez mais inteligente, com o intuito de poder oferecer um cérebro bem lubrificado ao dono do meu coração para quando ele voltasse a aparecer.

Nesses momentos, associei a inteligência ao corpo. Era a minha única base de conhecimento. Pelo menos, a única que era realmente minha. Porque a acumulação de conhecimentos intelectuais, mais o desenvolvimento das minhas habilidades práticas, configuravam as principais expectativas dos meus pais em relação a mim. E como eu tinha decidido afastar-me deles para me colocar ao lado de Damián, não queria insistir nesse plano. Sim, fazia isso, é verdade. Não o vou negar. Entregava-me à penosa tarefa de me tornar útil para ser capaz de continuar a viver com eles e ganhar assim o sustento, mas sob a forma de remédio de mau sabor que engolia o mais depressa possível, para depois me refugiar rapidamente na gruta da minha necessidade real, que só eu podia satisfazer. Por fora, continuava a alimentar a imagem de boa menina, o que se esperava de mim, e quanto melhor tinha de ser, pior gostava de ser, como contrapartida. Aquilo que os meus pais abominavam era o sustento da minha vida oculta, o que me estimulava. E alimentava isso em silêncio, às cegas, sem companhia. A minha personalidade dividiu-se então em duas partes inimigas que deviam conviver dentro do mesmo corpo. Tinha necessidade de ambas. A primeira, para continuar a receber as bênçãos dos meus progenitores e evitar assim que um belo dia quisessem desfazer-se de mim atirando-me para um caixote de lixo durante a noite. A segunda, para me divertir a brincar à minha maneira. Mais adiante claudiquei e vendi-me, fazendo do meu tesouro secreto uma nova arma para ser útil e correcta, e finalmente fundi essas duas partes numa só. Por isso, e porque as carícias de Damián se contaram pelos dedos de uma mão, e porque fui sua sem o ser, ficou-me como presente envenenado uma sequela de ansiedade, de tal maneira que uma desmedida necessidade de carícias, juntamente com a minha adequada programação para ser útil, aliada à minha rapidez para compreender o que se esperava de mim, com o tempo, acabaram por fazer de mim um objecto sexual perfeito.


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição: Editorial Teorema. Fotografias de Christian Coigny)

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abril 04, 2005

UMA MULHER NUA- 2

Em casa não se prodigalizavam as carícias. Não me lembro de ter sido acariciada, a não ser na presença das visitas, quando respondia rápida e correctamente a qualquer pedido dos meus pais. O normal era pedirem-me para fazer alguma macacada em frente dos amigos ou dos parentes. Tinham tentado que aprendesse ballet, e na verdade tinha-me esforçado por lhes agradar, aproveitando ao máximo o curso onde me tinham inscrito. Depois aprendi a dar aqueles saltinhos ridículos e a fazer poses e carinhas alegres. Chamavam-me e mandavam-me vestir o tutu e no momento indicado anunciavam-me aos convidados, com os primeiros compassos do Lago dos Cisnes a tocar no gira-discos. Todos aplaudiam quando eu surgia entre os dois sofás da sala, cumprimentando delicadamente, inclinando a perna direita para trás e abrindo os braços em forma de asas. Depois dançava um pouco e, quando queriam que acabasse, iam baixando o volume aos poucos de tal forma que na verdade parecia que a peça tinha chegado ao fim. Eu conhecia bem esse sinal, e então morria automaticamente, como se desmaiasse languidamente em cima da carpete. Depois levantava-me, cumprimentava outra vez, impondo uma expressão exageradamente dramática, e de repente punha-me muito direita, erguendo o queixo e sorrindo num esgar. Depois vinham as palmadinhas nas costas, as leves carícias na cabeça e as frases de sempre, já dirigidas aos convidados. "Viram? A Martina todos os dias melhora. É fascinante como aprende depressa, e a graça que tem. É uma superdotada." Nesse momento deixavam de olhar para mim e já se encontravam todos embrelhados numa conversa acalorada e alegre sobre as minhas habilidades, enquanto eu começava a fazer parte dos móveis da sala, mais uma peça - sem mais significado ou interesse que as outras - do conjunto dos objectos decorativos que acompanhavam mudos aqueles serões encantadores. Deixava de existir, como antes de aparecer em cena, e deixava-me ficar num canto, sem saber o que fazer, de cabeça baixa.
Numa dessas tardes de ballet calhou-me actuar para um convidado dos meus pais que eu não conhecia. Era um amigo recente, casado com uma mulher vistosa e faladora. O homem era especialmente educado, a sua voz era suave e profunda, e, quando falava, mexia as mãos com harmonia, de maneira que eu não podia deixar de o observar, hipnotizada com o movimento de batuta que imprimia aos braços. Aproveitando uns segundos de confusão e excitação na conversa, o senhor dirigiu-se a mim e eu aproximei-me dele como um autómato. Pegou-me na mão e acariciou-me o rosto tão docemente que ainda hoje, passados tantos anos, consigo lembrar-me como se estivesse a acontecer agora mesmo. Aproximou a cara da minha face e deu-me um beijo com a boca entreaberta. Recordo-me bem, porque nunca ninguém me tinha beijado assim antes, com tanta força e tanto empenho, deixando-me quase o sulco da sua marca na bochecha. Não era um beijo como os outros, quase sem me tocar, olá linda, mas que gira que tu estás, como tu cresceste, chuac chuac. Não, não era um beijo de dever; não era um adulto a beijar uma criança sem se aperceber realmente da sua presença. Era o beijo de um senhor a uma menina que tinha um nome, Martina. Um beijo personalizado. Ninguém, digo bem, ninguém, nem sequer os meus pais, me tinha beijado assim antes. E fiquei paralisada, com os olhos fixos nos seus, tentando descobrir de que estranha raça seria. Depois, agarrou-me pela cintura, puxou-me para si e disse-me com aquela voz de veludo que tinha, sussurando-me ao ouvido, que era uma menina especial, que ele tinha-se apercebido, que eu era es-pe-ci-al. Chamava-se Damián, e nessa tarde, com sete anos, apaixonei-me pela primeira vez.


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição:Editorial Teorema. Fotografia de William Ropp)

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UMA MULHER NUA- 1

Esta noite sinto-me excitada. Não no sentido que normalmente se dá à palavra excitação. Não. Não estou excitada sob o ponto de vista sexual. Na realidade sinto uma energia que, se não a deito cá para fora, vai-me apodrecer por dentro. Quantas vezes me senti assim sem saber o que fazer com o que me minava por dentro, tornando-me então, segundo as circunstâncias, um cão raivoso ou uma frígida cariátide! É curioso o lugar-comum de que quando uma mulher reage intempestivamente ou de maneira seca diante dos outros isso significa que "anda mal fodida". Embora seja um comentário geralmente masculino, eu costumava identificar-me com essa opinião. Parecia-me fundamental sentir-me bem fodida, e não parava de indagar acerca de outros motivos que pudesse gerar tanto azedume ou mau humor como a falta de uma vida sexual em condições. Já não penso assim. Há muitos tipos de energia, e para cada uma delas, um tipo de frustração diferente, caso não puxemos por ela, não a empreguemos naquilo para que surgiu dentro de nós.
Pois bem, esta noite a minha energia surge de uma necessidade imperiosa de contar a minha história tal como é e não como alguns abutres gulosos amanhã a irão dissecar no quirófano dos pasquins. Ou talvez seja melhor dizer que quero contar a minha história, não tal como ela é, mas sim tal qual eu a vejo, como a sinto, como a vivi. (...) Não pretendo afirmar que andam mal fodidos. Mas talvez andem. Andam. Andamos todos. Mal fodidos e pior seduzidos. Se por foder entendemos o acto sexual, é possível que muitos de vocês possam protestar. Eu não sei o que se passa em cada cama, ou no banco de trás de todos os carros do mundo, ou debaixo de cada ponte com o orgasmo; desconheço os pormenores concretos da vida sexual de cada um, mas sei da minha experiência, e a minha experiência não é única. Não andamos mal fodidos só da cintura para baixo, andamos mal fodidos de corpo inteiro, porque o desejo humano não é só sexual, e o desejo sexual que não se satisfaz pode provocar a mesma cara azeda que a falta de uma boa foda. Nesse aspecto faz-nos falta uma boa abanadela a todos, não haja dúvida.
Disponho de muito pouco tempo. Somente esta noite para escrever umas breves memórias, a minha história. Porque amanhã se ficará a saber que Martina Iranco, ministra do Interior deste país, cometeu o que para muitos parece ser o mais horrendo dos crimes. Amanhã, bem cedo, os quiosques vão-se esganiçar a gritar que Martina Iranco é uma mulher extremamente viciosa, uma cadela saída, uma porca sem apelo nem agravo.


E é Lola Beccaria (n. 1963) que nos vai dar a conhecer esta mulher. A autora, nascida em Espanha, trabalha actualmente na Real Academia Espanhola como linguista. Já publicou dois romances e é também autora de contos. Colabora na imprensa e faz crítica literária. Tem ainda trabalho desenvolvido ao nível cinematográfico e no da investigação.
"Uma mulher nua" é o seu mais recente romance editado em Portugal pela Editorial Teorema. Uma obra que se situa, sem dúvida, no âmbito da denominada Literatura Erótica. Uma obra onde uma personagem (uma mulher: Martina Iranco), numa fase muito específica, decide "passar revista" à sua vida por forma a que esta possa ser por todos conhecida, de acordo com o seu ponto de vista. E são excertos desse texto que aqui editarei ao longo desta semana. Excertos que acompanharão parte do percurso existencial da personagem (da infância até ao momento presente do tempo constante do relato), objectivando dar sentido a algo que, por motivos evidentes, terá que ser resultado de cuidada selecção.
Estamos, de facto, perante algo de original: uma personagem feminina do mundo da política, com um cargo governativo, que se expõe e que expõe problemáticas tão importantes como aquelas relacionadas com a sexualidade infantil, a afirmação do prazer feminino, a prática do sexo como forma iniciática, o sexo como substituto ou complemento do amor, o sexo como resultado de frustrações, a virgindade e a pederastia, por exemplo.
Um livro que li num fôlego pelo grande interesse que para mim teve. Espero, junto de vós, causar impacto suficiente para suscitar idêntico interesse. Evidentemente que aconselho a leitura integral do livro.
Mas... agora "calo-me" e deixo-vos com a continuação da estória:

Quando era pequena, uma das coisas que mais me chamava a atenção, de que mais nitidamente me apercebia, era a impaciência dos meus pais. Queriam tudo já, rápido e bem. Havia muito pouco tempo para fazer as coisas. Se assim não acontecia irritavam-se. Se eu não comia depressa, um bocado atrás do outro, como o soldado que monta a arma numa acção sincronizada sob o férreo controlo de um cronómetro suíço, se eu não fazia cocó assim que me sentava na sanita, a toque de corneta, se eu não me deixava vestir sem opor resistência, como um boneco de elástico e bem domado, então as mãos dos meus progenitores crispavam-se, e agarravam-me com desespero, transmitiam-me um enorme desassossego, e o mundo parecia cambalear. De toda esta montagem da pressa torna-se-me claro - desde tenra idade - que para não irritar os meus pais devia responder a toque de caixa a todas as suas ordens. Porque não havia nada mais desolador e aterrorizador do que a sua reacção violenta cada vez que eu demorava mais do que a conta a realizar os actos quotidianos. Sacudiam-me sem piedade, como se fosse uma máquina que funcionava mal, a tentar ver se com a abanadela conseguiam ajustar os meus fios e se fazia a ligação correcta. Cada reacção desabrida desta natureza para mim era como meter os dedos numa tomada, transformada em aguilhão eléctrico das minhas torturadas carnes. E como o que eu mais ansiava era a paz, um ambiente calmo, sossegado, por isso esforcei-me sempre para ser "a mais rápida". Claro que, com tanta rapidez, nunca me dava tempo para pensar as coisas. Fazia-as. Fazia-as simplesmente. E é isso que eu tenho feito sempre. Fazer, fazer, fazer, sem conseguir parar para pensar, ou parar para sentir o que eu verdadeiramente queria. (...)
À parte a pressa, não me recordo de grande coisa da minha infância. É como se se tivesse apagado a parte da gravação da vida desses anos. Pensei sempre que a minha infância devia ter sido muito pouco original e aborrecida até à medula, de maneira que a apaguei da minha memória por uma questão de amor-próprio. Nunca suportei a vulgaridade, de modo que, anulando a parte mais medíocre da minha exstência, livrava-me para sempre dessa presença indigna no meu currículo. Mas desde há pouco tempo que esse argumento deixou de me servir. Há outro motivo que frequenta os meus actuais argumentos. É possível que nem sequer tenha tido necessidade de a apagar. Talvez porque não tive infância. E o que conservo é a sequela de um imenso vazio. De todas as formas, essa lacuna por preencher é um abismo impenetrável de onde emanam fragmentos de vivências muito concretas. E todas elas têm a ver com o corpo; mais tarde com o sexo. De repente, se tiver de destacar as imagens que conservo com mais nitidez da minha vida passada, são as que estão relacionadas com a sexualidade. São as que revivo com mais exaltação, com maior deleite, como se fossem as minhas únicas ligações com a realidade, as experiências que demonstram que vivi. E nem os meus fracassos no campo profissional, ou os amores passados, chegaram a deixar uma marca tão forte e palpável como a que o sexo me imprimiu na pele e no olhar.
É curioso que alguém como eu, acostumada desde pequena a iludir as minhas necessidades físicas a favor das intelectuais, se apague com uma força tal a essas imagens que compõem o mapa dos anos vividos. Essa colecção de beijos, carícias, orgasmos e penetrações na minha pele e na dos outros, essa transfega da carne, esse esfregar-me com os outros, fazem todos parte de um catálogo estranho, mas tão meu como o meu próprio nome ou a minha data de nascimento. Fazem parte do álbum do que fui. Não sou mais do que um pedaço de peles partilhadas, de momentos de gozo efémeros, de suavidade e luxúria, de fogo passional. Um saco de cinzas eternamente quentes vestido com pedaços de carne emagrecida. Juntamente com a vergonha, a sensação de ser inadequada, pecaminosa, impura, indecente, perdida, porca, puta, viciosa.
E se isso é aquilo que sou, aqui o exponho. O meu catálogo de nudezes, unidas pelo fio de uma história universal.


(Lola Beccaria- UMA MULHER NUA. Edição: Editorial Teorema. Fotografias de Christian Coigny e William Ropp, respectivamente)

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abril 03, 2005

O OPTIMISTA OU CONVERSAS ENTRE O MARQUÊS DE SADE E JEAN BAPTISTE L'OPTIMISTE

Deixo-vos com o primeiro texto para Teatro da Paula, aqui editado. Genial! Genial! Não vou escrever nem mais uma palavra sobre o mesmo. Leiam-no e descubram o porquê da minha opinião.

DRAMA NUM SÓ ACTO

Esta obra, após ter sido lida, deverá ser rapidamente esquecida ou queimada.


PERSONAGENS

Marquês de Sade

Jean Baptiste L´Optimiste

Os Loucos

Guarda/Bobo


A Obra decorre no dia 29 de Novembro de 1785 no Asilo de Charenton.

Os espectadores deverão estar confortavelmente sentados. Após soarem as pancadas de Moliére, as luzes apagam-se, o Pano sobe. Em primeiro plano surge-nos o Marquês de Sade, sentado, com uma pena de tinta na mão direita, rodeado de tiras de papel. Do lado oposto do palco encontra-se uma mulher enforcada, toda ela coberta de sangue. Ao fundo, no centro do palco, está disposta uma cela. A cela encontra-se toda ela, repleta de loucos, rotos e esfomeados. Gritam e agarram-se às grades. Entra em cena o guarda, trajando a pele de um Bobo.

Guarda/Bobo – Como guarda desta sala, e deste palco, dou-vos as boas vindas de todo o meu coração. Aqui iremos apresentar uma peça de teatro repleta de diversão, mas esperemos que, também, com alguma edificação. Peço-vos sobretudo, que tenham alguma indulgência e compreensão, pois existem actos e expressões que fugirão certamente a certos princípios sagrados que vós tão bem conhecereis...
Que, embora não descobertos neste tempo, darão lugar aos Direitos Humanos que vós hoje tendes na vossa cabeça decorados.
Comecemos então...

Dirige-se a Sade.

Este que aqui vedes chama-se Donatien Alphonse François, conde de Sade, que aqui escreve a sua obra prima...cento e vinte dias da nossa vida. Oiçamos.

Sade escrevendo nas tiras de papel e soletrando – Pintai sempre Curval e o Duque como dois celerados fogosos e impetuosos, foi assim que os pintastes na primeira parte e no plano; e ao Bispo descrevei-o como celerado frio, sabido e duro. Quanto a Durcet, tem de ser travesso, falso, traidor e pérfido. Posto isto, ponde-os a fazer aquilo que esteja de acordo com tal carácter...

Guarda/Bobo afastando-se de Sade e dirigindo-se para a mulher enforcada – Esta que aqui vedes, chama-se... (interrompe-se e sorri) ou melhor, chamava-se Anne Marie. Parece que um dos loucos deste Asilo a violou. A coitada não aguentou as dores e enforcou-se. Esse louco não se acusou e nem tão pouco foi acusado. Então, o nosso majestoso Director (ao ouvir o nome Director, todos, inclusive a mulher enforcada, fazem uma vénia profunda) resolveu usar aquela famosa frase, paga o justo pelo pecador, e fechou-os a todos naquela cela durante um mês sem comida e água. Três deles já morreram. (Pensativo) Estranho que nunca lhes vi os corpos...

Entra um jovem rapaz, com a roupa suja e rasgada e corre pelo palco a gritar.

Este que aqui vedes chama-se Jean Baptiste L´Optimiste. Foi revolucionário numa outra ocasião, agora sofre de otite crónica e alguma depressão. Diz-nos que vai haver uma grande revolução. Está louco, claro...

Sade (irónico) – Sentai-vos um pouco Jean Baptiste. Assim não ireis a lado nenhum. Descansai um pouco meu caro amigo, que, assim, tamanha força não vos servirá para essa tal revolução.

Jean Baptiste – Não acreditais em mim, pois não? Todos vós julgais-me louco. Não temam por mim, tenham medo por vós. Vós é que estais loucos.

Sade – Julgais-me louco? Pois bem, sou um louco. Mas, o que sois vós? A Verdade? A Virtude? Vou-vos dizer o que é, na verdade, a Virtude. Vedes aqueles ali na cela? Oiçamos os gritos deles...

Loucos a gritar - Temos fome. Dai-nos de comer! Não merecemos tamanha crueldade. Temos fome.

Sade – Muitos daqueles que vedes ali, viveram a Virtude a golpe de chicote. Tornaram-se virtuosos. E olhai para eles agora! Com mau aspecto e um cheiro a mofo. Olhai a virtude deles! Porque um matou aquela ali que vedes pendurada, todos os outros, foram considerados culpados. E, o verdadeiro culpado, aquele que merecia o castigo, está calado como um rato. Os outros, estão ali a passar fome. Têm medo de o acusar. Olha bem aquele ali (aponta para um dos loucos), tem tanta fome que se cortou todo para poder, ao menos, beber o sangue. Quanta virtude vive ali, e de que nos serve ela?

Jean Baptiste – Mas a virtude torna-nos gente honesta, que se ajuda, que não rouba, que não mata, que não destroi. Se o preço da Virtude é este, então que seja. Prefiro afundar-me, não ter sopa para comer do que perder a Virtude.

Sade – Dizeis isso porque tendes a barriga cheia.

Jean Baptiste – Porque acredito na bondade humana. Hoje há fome, mas o povo amanhã irá protestar e irá ser recordado. É por isso que luto. Pode-vos parecer absurdo...mas luto para escrever uma página na história, para que possa nascer uma nova era, uma nova maneira de pensar, uma nova civilização, uma nova história. Em suma... (inspira profundamente) para que haja uma supremacia da força de espírito sobre a matéria bruta, para que esta revolução, que me proponho organizar, possa ser vista muitos séculos depois com admiração e com gratidão... (inspira novamente) como de uma coisa lendária, mítica e fatídica. É por isso que tenho fé nos destinos do homem e da humanidade contra todas as forças obscuras que querem mantê-lo no embrutecimento e na barbárie. É assim que se faz a História, em actos como estes...por caminhos como estes...com caras como as minhas...

Sade (sarcástico) – Bravo, meu caro amigo! Vós sois um agitador, um revolucionário. Isso agrada-me.

Jean Baptiste – Fazeis pouco de mim, mas sabeis bem que estas palavras visam aniquilar a vitória dos grandes. Porque em todas as Guerras, só os grandes vencem. E nós, os pequenos, somos os únicos vencidos.

Sade – Mas quem são os vencidos? As vitórias e as derrotas dos grandes nem sempre coincidem com as dos pequenos. Já se têm visto derrotas que acabam por beneficiar os de baixo. Não se perde nada a não ser a honra. Olhai aquele louco ali (aponta para um dos loucos da cela). Contou-me que, em Paris, no meio de uma revolta de comerciantes, levou tanta tareia de um dos guardas do rei que, no meio da confusão, um bom saco de trigo lhe veio parar às mãos. Durante sete meses andou a comer pão desse trigo. Então, quando as coisas amenizaram entre os guardas e os comerciantes, fizeram um inventário e descobriram que ele tinha roubado trigo. Foi preso por ter roubado. Quem foram os vencidos e os vencedores nesta história? A verdade, meu caro amigo, é que tanto a vitória como a derrota nos custam caras. Para nós, o melhor é que a política se mantenha mais ou menos na mesma. E falais de protestos do povo, falais de revolta do povo pelo bem da humanidade. Bah! Fala-se muito de justiça e de igualdade. Mas o que vejo é fome. Não me parece que esses dois conceitos sejam tão necessários, pois nunca nenhum deles salvou qualquer ser humano de ter fome, e da preocupação de viver melhor. Acima de tudo, precisamos de viver e acreditar em alguma coisa que nos faça viver.

Jean Baptiste – Falais como se fosseis o único ser neste mundo. Eu também já fui um indivíduo isolado, indizivelmente só, perdido, atormentado, impotente, cheio de rancores e confusão, absolutamente incapaz de ajuizar-me a mim próprio e ás coisas do mundo. Faltava-me uma pedra de toque com que aderir às realidades, um guia que me indicasse o caminho. Sentia sobretudo que o egoísmo não bastava, que não bastava ser aquilo que geralmente se denomina por homem de bem, ou seja, uma pessoa contente consigo e com os outros, indiferente a tudo o resto que estivesse fora dos seus interesses, que não se podia viver só para si, sem outra justificação além da sua conveniência pessoal. Mas descobri que é preciso ter fé em qualquer coisa que transcenda o miserável e estéril indivíduo, obedecer a um ditame vindo do alto. Idealismo é que é preciso e não as reflexões mesquinhas de quem não ambiciona mais do que descarregar o fel em palavras embrutecidas tais como a que vós colocais nessas tiras.

Loucos a gritar - Temos fome. Dai-nos de comer! Não merecemos tamanha crueldade. Temos fome.

Sade – Porque criticais assim tanto a minha escrita? Hoje em dia prostitui-se a ideia de literatura. Escreve-se ao serviço do amor. (Ri-se sarcasticamente) Não gosto de românticos, nem suporto as suas mentiras. Escrevem para não se ouvirem. Se se ouvissem, saberiam que não são nada e então, nunca mais escreveriam. A literatura hoje só é válida se tiver uma ligação mágica, atroz, com a realidade e o perigo. Em vez de voltarmos à definitividade e à ilusão do amor, importa antes de tudo romper a sua podridão camuflada e encontrar uma linguagem única, a meio caminho entre o pensamento e a acção.

Jean Baptiste – Vós transformais a vossa filosofia em cadáveres. É uma filosofia sem objecções.

Sade – É a única filosofia virtuosa. Ouso dizer que sou o único virtuoso que França conheceu, o único, pois faço corresponder o meu pensamento às minhas acções, mesmo que não passem de meras palavras escritas nestas tiras de papel. Tal como toda a humanidade, procuro apenas atingir o limite da dor, a criação de um desprezo universal. Vivo e escrevo, exerço o meu poder delirante de destruidor, superiorizo-me a esse Deus que todos defendem. É isso que defendo para cada homem. Que cada um seja só por si próprio. Um homem significa criação, dois homens significam destruição.

Jean Baptiste – Eu não preciso de uma obra: eu luto para que ela seja feita. É esse o princípio da vida.

Sade – Que ingenuidade meu caro Optimiste. O princípio da vida está na morte. E essa morte só existe na nossa imaginação, a verdadeira morte é a que é criada por nós, porque ultrapassa e engana a Natureza. Ah, como odeio a Natureza com as suas falsas catástrofes e as suas falsas mortes. Só a morte criada e perpetrada por nós é que nos inspira a viver. Ainda me lembro de um pobre revolucionário como vós que foi apanhado a conspirar contra o rei. Antes de ser guilhotinado, foi primeiramente torturado. Feriram-lhe o peito e deitaram-lhe azeite a ferver sobre as feridas. Depois assaram-lhe uma das mãos sobre o fogo e ataram-lhe os quatro membros a quatro cavalos. No entanto, os cavalos, mais assustados do que o homem, nem se moveram. Por fim serraram-lhe os braços e as pernas. Primeiro um braço, depois o outro, e quando lhe arrancaram a perna esquerda, ainda tinha voz para gritar. Durante toda esta execução, a cara do povo parecia límpida de todos os males, e todos ansiavam pela vida. Porque a morte requer a mesma paixão que a vida. Ela alivia e liberta. É universal, fortificante e justa. Hoje em dia, condena-se sem paixão, já não existem mortes individuais, espectáculos de carnificina. Hoje a morte relembra a da Natureza – Anónima, fria e estúpida.

Jean Baptiste – A morte só deve ter importância se usada para um fim único e colectivo, para impor princípios subjacentes à vida. O caso dessa execução que me contastes, é uma morte ao serviço da vida. Essa sim deve ser glorificada. Um homem morreu por uma causa, pelo combate. Não o caso da morte desta mulher que levou estes loucos para aquela cela.

Sade – Ambas as mortes têm a mesma importância, ou melhor, não têm importância nenhuma. Aliás, são tão culpados os guardas que matam revolucionários, como os revolucionários que matam guardas. Notai que não é mais imoral matar aquela rapariga ali, do que lançar o terror sobre os cidadãos ao serviço de uma liberdade, da qual eles não se possam privar. Governar e Matar são duas faces da mesma moeda, toda a gente o sabe. A diferença entre ambos reside nas maneiras. Há maneiras e maneiras.

Loucos a gritar - Temos fome. Dai-nos de comer! Não merecemos tamanha crueldade. Temos fome.

Jean Baptiste – Mas, vós não vos dais conta de que...

Sade – De que o Governo tem importância e a vida humana não? Mas isto é claro. Todos devem admitir este raciocínio e contar a sua vida por nada, visto que o Governo nos toma por tudo.

Jean Baptiste – Admitir isso, será admitir um Governo sem limites, a diversão de um louco.

Sade – A diversão de alguém que tem poder. E o poder é a maior virtude de um Governo, a possibilidade de atribuir as suas oportunidades ao impossível. Tornar possível o que não é. E haverá maior amigo da liberdade do que o poder? É esse poder que sinto quando escrevo, a minha liberdade. É que, apesar de tudo, não tenho muitas maneiras de provar que sou livre. É-se sempre livre à custa de alguém. E isso aborrece-me deveras. Prefiro a minha liberdade que não tem fronteiras, à dos outros que é tão igual quanto débil.

Jean Baptiste – Assim morrerás sózinho.

Sade – Mas ainda estou vivo.

Um dos loucos na cela começa a rezar.

Louco – Satanás que estais nos infernos, venha a nós o Teu reino, seja feita a Tua vontade, assim na terra como no inferno. Perdoai-nos a nossa inocência, livrai-nos do bem, e deixai-nos cair em tentação... Amen.

O Guarda/Bobo levanta-se da sua cadeira, abre a porta da cela, e agarra no Louco. Estende-o contra uma parede e chicoteia-o dez vezes. Depois volta-se para o público e diz...

Guarda/Bobo – Perdoai-me senhores espectadores por esta cena de indubitável violência. Se alguém no público se escandalizou, rogamos para que não se ofenda, ou considere que este espectáculo trata de uma situação bem distinta da realidade e muito diferente dos dias de hoje, pois hoje vivemos todos debaixo das asas do nosso bondoso Deus. Tenho a certeza que todos aqui têm dentro de si as maiores virtudes...

O Guarda/Bobo é interrompido por um dos Loucos que grita...

1º Louco gritando – Todas as virtudes são perigosas neste mundo. É melhor não ter virtude nenhuma e em vez disso ter uma vida boa, comer ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar. Eu, por exemplo, gostaria muito de comer agora uma sopa e não a tenho. Fui soldado, mas como perdi uma perna, fecharam-me neste asilo. De que valeu a bravura em todas as batalhas? De nada. Morro de fome. Mais valia ter sido cobarde e ter ficado em casa. E porquê?

O Guarda/Bobo dirige-se novamente à cela, mas outro louco começa a gritar...

2º Louco gritando - Meus senhores que estão aí sentados. A valentia nunca alimentou ninguém, tentem a vossa sorte com a honestidade! Talvez ela vos encha a barriga, ou, pelo menos, não vos deixe morrer de fome. Porque não experimentam?

Outro louco começa a gritar.

3º Louco gritando – Comigo passa-se o mesmo. Sou uma pessoa honesta e por isso tenho a barriga vazia. Se fosse ladrão ou assassino, talvez tivesse a barriga cheia. Porque as virtudes não dão proveito a ninguém, só a maldade, o mundo é assim e não devia ser assim!

Guarda/Bobo desesperado – Mas o que é isto? Um Motim? Calados, imediatamente. Acham que os espectadores querem saber da vossa fome?

Subitamente os Loucos começam todos a cantar...

Nós somos gente tão vulgar
Sempre fieis a Deus.
De nada isso nos serviu.
Todos agora junto dos seus
E nós aqui com fome e frio.
Tão bons e simples fomos nós!
Mas quando o sol se escondeu
Já todos viam que por fim
Foi o temor a Deus que nos perdeu.
Feliz quem não viver assim!

O Guarda/Bobo desesperado, senta-se.

Sade – Vede como o teu povo protesta!

Jean Baptiste – Se estão assim é porque algo fizeram. Este asilo não tem fama de maltratar os seus pacientes.

Sade – O vosso problema, meu caro Optimiste, é a vossa falta de clareza em separar a verdade, da aparência, o órgão, do tecido. Pensais que foram eles que mataram aquela mulher? Que tolo sois. Foi o Guarda que, como não teve permissão do Director para sair e ir...(Sade aproxima-se do ouvido de Jean Baptiste e segreda-lhe)... resolveu pegar numa das pacientes e violá-la. O problema é que ela era jovem e pura. A sua única doença era a depressão que assolava a sua juventude. Pegou numa corda e enforcou-se. Depois, o Guarda, com medo, inventou ao Director que tinha sido um dos Loucos, mas não sabia qual. Mas antes, ameaçou os Loucos de morte, caso contassem alguma coisa ao Director. Como vedes, todos os vossos princípios se desmoronam perante a insuficiência da sua existência. Honestidade, respeitabilidade, sabedoria, tudo perde significado perante o medo. O medo, sim, é um sentimento belo e puro, desinteressado, um dos raros que tira de nós a sua nobreza.

Jean Baptiste – Que coração ignóbil e ensanguentado tendes vós. Como tanta raiva e tanto mal vos devem torturar. Que grande desprezo reside dentro de vós. Como deve ser imunda a vossa solidão...

Sade (irritado) – O que sabes tu de solidão? O que sabes tu de desprezo? Tu que ainda vives preso a dentes de leite, que nunca sangraste do lábio, tu que nunca gritaste em silêncio. Mal sabes o que te mantém vivo. Mal conheces o teu gosto pela vida.

Jean Baptiste – Pelo que vejo, vós também não. Ou melhor, vós não tendes aliás, gosto algum na vida.

Sade (mais calmo) – Enganai-vos. Todos os homens têm um gosto na vida. Algo que os ajuda a continuar. É para ela que se voltam quando perdem todas as esperanças.

Jean Baptiste – E para onde vos voltais vós quando perdeis as esperanças?

Sade (sorridente) – Para a morte. Este mundo não tem importância, e quem reconhece isto conquista a sua liberdade. Odeio tudo o que não é livre, e nesta França pútrida, sou eu o único ser livre.

Jean Baptiste – Vejo que em vós não existe nada de que se possa gostar.

Sade – Odiais-me então?

Jean Baptiste – Não, na verdade não. Apenas vos julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso.

Sade – Será crueldade, um homem definir-se como o seu próprio deus? Pensais que Anjos lá em cima nos protegem? Que se fodam esses Anjos e todos os que acreditam na bondade deles...

Loucos a gritar - Temos fome. Dai-nos de comer! Não merecemos tamanha crueldade. Temos fome.

Jean Baptiste – Sujais o Céu, depois de defecares a terra...

Sade ri-se de forma grosseira.

Sade – Ah, cá está ela...a moral religiosa. E eu que já vos via um verdadeiro pagão.

Jean Baptiste – Não vejo porque me deixais de ver assim. Não acredito em Deus.

Sade – Não acreditais em Deus? Então não compreendo.

Jean Baptiste – Posso negar uma coisa sem me julgar obrigado a sujá-la ou a retirar aos outros o direito de acreditarem nela.

Sade – Mas que falsa modéstia! Porque achais que Deus criou o homem à sua imagem? Para torná-lo um tirano. E o que é Deus, ou melhor, desculpai-me, um tirano? Vamos, responde-me.

Jean Baptiste – Um ser que oprime o seu povo, que lhes retira o direito de acreditarem na fraternidade e na igualdade entre seres humanos.

Sade – Não, enganai-vos redondamente. Um tirano, é um ser que sacrifica povos inteiros às suas ideias, sejam elas de terror ou de fraternidade. E é isso que esse Deus que tanto respeitas, nos faz.

Jean Baptiste – Já vos disse que não acredito em Deus.

Sade – Ora aí está a nossa diferença! Vós não acreditais nele, e eu apenas acredito no ódio que Lhe tenho, porque ele, acima de todos, sabe como estabelecer um equilíbrio no mundo.

Jean Baptiste – Como?

Sade – Usando a pobreza e a fome.

Loucos a gritar - Temos fome. Dai-nos de comer! Não merecemos tamanha crueldade. Temos fome.

Jean Baptiste – Mas não vedes então, que o combate a essa tirania passa por uma revolução astuta para com essa maldade desinteressada? Não vedes que o único desejo desta revolução, é encontrar a paz num mundo de novo coerente, em que cada ser humano deixe de ser carne para matadouro? Hoje a confusão, a tirania, amanhã a ordem e a fraternidade.

Sade ri-se com gargalhadas fortes e agudas.

Não acreditais então na revolução? Na igualdade entre os seres humanos?

Sade – Não, verdadeiramente não.

Jean Baptiste (desiludido) – Dizeis isso porque te estais nas tintas para a vida humana.

Sade – Muito pelo contrário. Digo isto porque respeito a vida humana, ou pelo menos, respeito-a mais do que qualquer ideal.

Jean Baptiste – Um dos meus principais ideais é a própria vida.

Loucos a gritar - Temos fome. Dai-nos de comer! Não merecemos tamanha crueldade. Temos fome.

Sade – Dizeis isso porque não a tendes ao vosso alcance, porque ela não está sujeita ainda à vossa decisão. Vedes a vida como um fim, e não como um meio.

Jean Baptiste – Vejo a vida como um princípio e não como um direito a alcançar. É esta a diferença entre os tiranos e os revolucionários. Os direitos adquirem-se, tal como a tirania, mas os princípios vivem em nós. São precisos dez anos para fazer um revolucionário e vinte anos para fazer um tirano.

Sade – Mas apenas é necessário um dia para transformar um revolucionário num tirano.

Jean Baptiste – Falas como se de um elemento do povo, após a revolução, pudesse sair um novo tirano, um Imperador!

Sade – Falo apenas do que vejo e não do que penso.

Jean Baptiste – Eu acredito no povo. Acredito na sociedade. Os oprimidos nunca podem tornar-se opressores. Isto é-lhes inerente à sua natureza. O povo sabe ser irmão, sabe amar-se. A diferença é que, por vezes tem de lutar para conquistar o amor, pois não existe amor sem luta...

Sade – Nem paixão sem crueldade...

Jean Baptiste – Não é entre os pequenos que existe a opressão, mas entre os grandes e os pequenos. É contra eles que deve ser a guerra.

Sade – Tonto! Nem vedes que a sociedade consome-vos vivo lentamente, para que sintais a vossa liberdade desvanecer-se. De facto o que mais admiro nela é a sua insensibilidade. Mas compreendo a vossa posição. Vós sois jovem, optimista. E falso como qualquer homem honesto.

Jean Baptiste (visivelmente irritado) – Eu honro a minha luta pelos meus irmãos. Eu honro a minha luta pelo povo e pela sociedade. Vós apenas acreditais em vós. Eu acredito na união entre os povos, eu acredito numa vida social. Eu luto por isso.

Loucos a gritar - Temos fome. Dai-nos de comer! Não merecemos tamanha crueldade. Temos fome.

Sade (sorrindo e batendo palmas) – Bravo! Que belo, então! Um homem honrado é um animal tão raro neste mundo que preciso de saborear este momento. Acreditais assim tanto na sociedade, não é? Pois vinde comigo...

Sade levanta-se e é acompanhado por Jean Baptiste que também se levanta. Juntos caminham para junto da cela. Enquanto Jean Baptiste observa com compaixão os Loucos, Sade abre lentamente a porta da cela.

Jean Baptiste observando os Loucos – Pobres coitados. Esfomeados, oprimidos, julgados sem terem cometido nenhum crime, um exemplo de tantos povos neste mundo.

Loucos a gritar - Temos fome. Dai-nos de comer! Não merecemos tamanha crueldade. Temos fome.

Sade – Como é bela a tua inocência Jean Baptiste L´Optimiste. Que pureza com que observas aqueles que amas. Vede então, como eles te amam...

Rapidamente Sade abre a porta da cela e empurra Jean Baptiste para o seu interior, fechando-a rapidamente. Jean Baptiste olha Sade estuporado.

Jean Baptiste – Que fazeis comigo? Tirai-me daqui.

Sade – Entrego-te à sociedade. Ao povo que tanto amas.

Jean Baptiste tenta esboçar um gesto, não parece compreender, abre a boca e tenta gritar, mas é surpreendido pelos restantes Loucos que o rodeiam e o atiram ao chão. Jean Baptiste começa a gritar à medida que os Loucos lhe vão rasgando as roupas.
Sade, caminha até junto da plateia e, sarcasticamente, grita ao público...

Sade – Vede o que a sociedade faz ao pobre do Optimiste. Devoram-no vivo!

Sangue começa a escorrer pelo palco à medida que os risos agudos de Sade se misturam com os gritos de Jean Baptiste. A luz do palco apaga-se lentamente até este permanecer envolto nas trevas e na escuridão.

A luz acende-se novamente. Em palco apenas permanece o Guarda/Bobo...

Guarda/Bobo – Terminou esta Obra, desejamos que não vos tenha feito sentir mal. Apenas quisemos mostrar aqui coisas reais, sucedidas nesta e noutras capitais. Desaprovamos no entanto estas actuações, e por isso as apresentámos aqui com calma e sem contemplações. Nos dias de hoje já nada disto acontece. Agora estamos mais lúcidos e mais bem informados, do que estivemos outrora, em tempos passados.


PANO


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 08:29 AM | Comentários (2) | TrackBack

abril 02, 2005

DONDE SOU?

Mais uma (re)edição de um texto/de um pensamento perdido no tempo neste/deste blog. Perdido num/em um tempo já muito recuado. Novidade: interpretação. Interpretação conjunta com as imagens. É esta, agora, a minha proposta:

Donde sou? Sou do meu tempo, bem o sei, ou bem o quero saber, porque não é fácil assumirmo-nos com o tempo que nos aconteceu. Mas de vez em quando, a um aceno invisível e perceptível apenas no modo de haver uma perturbação no ar, sinto que sou de outro tempo, de outro destino, de outro signo de outra pessoa. Que outro tempo? Não sei. Não deve ser mesmo tempo nenhum. Deve ser apenas localizável onde não esteja bem e me pergunte donde sou. Donde sou?


(Vergílio Ferreira- PENSAR. Fotografias de William Ropp)

Publicado por void em 04:45 PM | Comentários (1) | TrackBack

SERÁ ISTO O DESESPERO?

Pelo que permite pensar... pelo que nos permite reflectir... pelo que nos permite olhar para o interior de nós, até numa retrospectiva possível e/ou mais insistente ou cuidada, deixo-vos com um excerto de um conto de Urbano Tavares Rodrigues, já há muito editado neste blog. Uma reposição que julgo valer a pena.

Será isto o desespero? Esta vontade de fugir de todos e chorar a sós, sem nada esperar já, nem esse vago consolo que as lágrimas trazem quando, para lá das lágrimas, a alma molhada tem um cheiro a renovo?...
Esta vontade permanente de adormecer, sem o conseguir? Este olhar fixo e triste que denuncia a minha desatenção ao que os outros dizem? A raiva que às vezes me domina, vontade de quebrar, destruir, desde o bocal irritante, mudo, deste telefone maldito, aos copos de vidro azul que vou levando aos lábios, sem beber, à pequena que se aproxima furtivamente, se me vê quase a arrancar os cabelos ou a rasgar a face com as unhas, diante do espelho, e que diz: "Quer alguma coisa, minha senhora?" E que parece implorar o favor de fazer por mim o que quer que seja que o meu capricho, ou a minha angústia, lhe dite?...
Sim, deve ser isto o desespero.


(Urbano Tavares Rodrigues- CONTOS DA SOLIDÃO. Fotografia de Bruno Espadana)

Publicado por void em 06:27 AM | Comentários (0) | TrackBack

abril 01, 2005

O ESTRANGEIRO EM SUA CASA

Lera tanto sobre a importância que tinha para o escritor viver fora da sua pátria, que resolveu partir fosse para onde fosse. Ainda que soubesse que na outra margem o esperava uma vida cheia de pesares e noites sem dormir, uma vida cheia de trabalhos forçados e longas esperas, a paixão por abandonar-se à sorte noutro país mantinha-se intacta. No entanto, as mil e uma tentativas foram frustradas precisamente quando ia entrar no avião ou autocarro, ou quando saía de sua casa para apanhar o táxi, ou quando lhe telefonava alguma amiga a implorar-lhe que não o fizesse, que por favor pensasse duas vezes. Por isso, e por outras razões que não vem ao caso explicar, aqui, ficou finalmente, mas jurou que doravante seria um estrangeiro mais em sua casa, e tudo o que visse veria com estranheza, e tudo o que tocasse tocaria com assombro, e tudo o que sentisse sentiria com acendrada nostalgia, porque doutra maneira sabia que não iriam conseguir sobreviver nem ele nem, desde logo, esses livros que nunca escreveria.


(Microconto de Rogelio Guedea editado na revista Periférica, Inverno 2005, p. 47. Fotografia de Philippe Pache)

Publicado por void em 04:00 PM | Comentários (4) | TrackBack

VIÚVA

Viúva. A palavra consome-se a si própria.
Corpo, uma folha de jornal no fogo
que levita por um instante entorpecido no ar quente
sobre a tipografia vermelha e escaldante
que exibirá o seu coração como um único olho.

Viúva. A sílaba morta, com a sua sombra
de um eco, vem mostrar o painel na parede
por detrás do qual fica a passagem secreta - ar viciado,
recordações bafientas, escada em espiral
que no cimo abre para o nada...

Viúva. A amargurada aranha senta-se,
e senta-se no centro dos seus degraus sem amor.
A morte é o vestido que ela usa, o seu chapéu e
gargantilha.
O rosto de insecto de seu marido, pálido como a lua e doente,
envolve-a como uma presa que gostaria de matar

uma segunda vez, para de novo o ter próximo.
Uma imagem de papel para colocar sobre o coração
como fazia com as suas cartas, até ficarem quentes
e parecerem dar-lhe calor, como uma pele com vida.
Mas agora é ela que é papel, aquecida por ninguém.

Viúva, esse grande e abandonado património!
A voz de Deus está cheia de correntes de ar,
prometendo apenas as estrelas fixas, o espaço
da desolação imortal entre as estrelas
e sem corpo, cantando como flechas erguidas para o céu.

Viúva, as árvores compassivas inclinam-se,
as árvores da solidão, as árvores de luto.
Erguem-se como sombras pela paisagem verde...
Ou até como buracos negros nela recortados.
Uma viúva assemelha-se a eles, um objecto-sombra.

Duas mãos que se entrelaçam, e nada entre elas.
Uma alma sem corpo poderia cruzar-se com outra alma
neste ar límpido e sem disso se aperceber...
Uma alma atravessa a outra, efémera como fumo
e totalmente ignorante do caminho que seguia.

Esse é o medo que ela tem - o medo
que a alma dele bata e continue a bater nos seus sentidos entorpecidos
como o anjo azul de Maria, como uma pomba contra a vidraça,
para tudo cega, excepto para o quarto cinzento e sem vida
que contempla e para sempre há-de contemplar.


(Sylvia Plath- PELA ÁGUA. Edição: Assírio & Alvim. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 03:04 PM | Comentários (0) | TrackBack