abril 30, 2005

A FELICIDADE HUMANA COMO MECANISMO

Para segunda re-edição um excerto de conteúdo absolutamente pertinente. Autor: Gonçalo Tavares. Obra: "A máquina de Joseph Walser". Uma obra editada pela Caminho e integrada na série "Livros Pretos", que o autor tem vindo a completar. Desta série, o anterior "Um homem: Klaus Klump" e o há dias editado "Jerusalém". Livros de leitura, eu diria, imprescindível. Porquê? Não vos vou dizer. Atentem no excerto que se segue e, a partir dele, tirem as vossas próprias conclusões.

- As máquinas de guerra vêm aí, mas não tenha medo. O problema não são as máquinas que se aproximam da cidade, são as máquinas que já aqui estão.
As diferentes gerações mecânicas, a sua História, Walser: progridem. Tal como as nossas ideias. Mas as máquinas começam a ter autonomia, as ideias não.
As máquinas interferem já na História do país e também na nossa biografia individual. Elas não têm já apenas um percurso material ou de factos. Têm também uma História do espírito, um caminho já realizado no mundo do invisível, no mundo daquilo que se sente e se pensa. Acredita-se até que as máquinas levam o Homem para sítios mais próximos da Verdade.
E também pode ser reduzida a um sistema binário, a alegria. A um sim ou a um não, a 0 ou a 1: existe ou não existe. E essa eficácia, meu caro, essa eficácia fundamental, essa eficácia primeira, depende já, também, em grande parte, das máquinas, da rapidez com que elas transformam causas e necessidades em efeitos benéficos.
A felicidade foi já reduzida a um sistema que as máquinas entendem, e no qual podem participar e intervir. Já nenhuma felicidade individual é independente da tecnologia, amigo, Walser. Se quiser números, podemos brincar aos números: a felicidade individual de um dia depende, vá lá, 70% da eficácia material das máquinas. Que a felicidade invisível esteja submetida a uma felicidade concreta, a uma felicidade de materiais em diálogo, de peças metálicas que encaixam umas nas outras e resolvem problemas fazendo determinadas tarefas, como tal pode parecer estranho; mas é o século.
Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos à palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo.

(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER. Fotografia de Misha Gordin)

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APRENDER A VIVER

No Sábado passado a minha segunda re-edição foi o excerto de uma obra de Albert Camus. Pois bem, hoje, inicio com ele o dia aqui no Abismo. O mesmo autor, mas uma obra diferente. "A Queda", um trabalho que, incidindo sobre o percurso de vida de um homem nos pode, também, atingir significativamente. Quantos de nós não nos podemos rever nesta ou naquela vertente? Quanto de nós já vivemos semelhanças de existência? Quantos de nós já não pensaram tão parecidamente? Quantos de nós...
Fiquem com o excerto.

Nunca tive necessidade de aprender a viver. Nesse ponto, já tudo eu sabia ao nascer. Há pessoas cujo problema consiste em resguardarem-se dos homens, ou, pelo menos, acomodarem-se a eles. Quanto a mim, a acomodação estava feita. Familiar quando era preciso, silencioso se necessário, capaz de desenvoltura como de gravidade, estava sempre ao nível. Era por isso grande a minha popularidade, e os meus êxitos na sociedade nem se contavam. Tinha boa figura, revelava-me simultaneamente bailarino infatigável e discreto erudito, chegava a amar ao mesmo tempo, o que não é nada fácil, as mulheres e a justiça, dedicava-me aos desportos e às belas-artes, enfim, não digo mais, não vá suspeitar que me envaideço. Mas imagine, peço-lhe, um homem na força da idade, de perfeita saúde, generosamente dotado, hábil nos exercícios do corpo como nos do intelecto, nem pobre nem rico, de sono fácil, e profundamente satisfeito consigo mesmo, sem que o mostrasse, a não ser por uma feliz sociabilidade. (...) O meu acordo com a vida era total, eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões. Particularmente a carne, a matéria, o físico, numa palavra, que desaponta ou desanima tantos homens no amor ou na solidão, dava-me, sem me escravizar, alegrias iguais. Tinha sido feito para ter um corpo. Daí esta harmonia em mim próprio, este autodomínio sem esforço que as pessoas sentiam, e que, segundo confessavam por vezes, as ajudava a viver. Buscavam, pois, a minha companhia. Muitas vezes, por exemplo, julgavam ter-me já encontrado. A vida, os seus seres e os seus dons vinham ao meu encontro; eu aceitava estas homenagens como uma benévola altivez. Na verdade, à força de ser homem, com tanta plenitude e simplicidade, achava-me um pouco super-homem. (...) Não, à força de ser cumulado, sentia-me, hesito em confessá-lo, um eleito.

(Albert Camus- A QUEDA. Fotografia de Vanessa Braun)


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abril 29, 2005

O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ (4)

O que vale um homem só? Para que serve? Que inominável pecado cometeu para receber o castigo de continuar vivendo? Talvez Luís Maria não tivesse chegado a formular nenhuma destas interrogações enquanto permaneceu imóvel no banco da praça - não porque preferisse evitá-las, mas porque não se achava aparelhado para cogitações e metafísicas, habituado como estava a ir vivendo sem meditar no que fazia. O facto de não lhe ocorrerem tais ideias não significava, porém, que as não sentisse a medrar no peito como um bolbo gordo que fosse crescendo ao redor da garganta até ao ponto de quase o sufocar. Faltar-lhe-iam as palavras para expressar o chumbo que sentia na testa - e talvez fosse isso o que procurava com os olhos fixos na poeira do chão.
Percebera, com um único olhar em redor, a razão daquele rocambolesco despertar no meio da calçada e, enquanto caminhava os poucos passos que o separavam do banco onde se sentou, lamentou o facto de ter o caixão tosco caído da carroça, ressuscitando-o. Melhor teria sido que o enterassem de uma vez por todas, para sempre, abreviando-lhe a existência inútil, eternizando-lhe o silêncio na sepultura que não havia de ser mais do que uma elevação de terra seca assinalando o volume do seu corpo. Quando, enfim, ganhou ânimo para se erguer do banco e rumar a casa - onde mais? -, fê-lo ainda com os olhos baixos para não enfrentar a vergonha dos olhares que sentia colados às costas, nem sentir na carne as interrogações, o espanto, eventualmente o medo que neles haveria. Deteve-se apenas quando os três amigos lhe pousaram as mãos no ombro, mais por camaradagem do que para transmitir algum afecto, mas não foi sequer capaz de dizer
- Lamento.
Seguiu pelo caminho do costume, até à porta de casa, até à mesa da cozinha onde sempre se senta quando chega, com os pés junto e as palmas das mãos pousadas no tampo, olhando em frente para a parede enegrecida, dando voltas ao vazio de chumbo que usa por cima dos olhos até serem horas de dormir e esperar que um novo dia chegue.
Neste dia, porém, quando Luís Maria sentir a casa solidamente cercada pela noite, não é para a cama que dirigirá os seus passos. Virá à janela para olhar as estrelas, abrirá a porta - que ficará escancarada - depois de ter agarrado a corda que fica presa num prego pelo lado de dentro e sairá para a calçada, principiando a caminhar sem pressa entre as pequenas casas que empalidecerão ao luar. Terá esquecido o chapéu. Ao longe, haverá um cão uivando. Atravessará a vila na direcção do cemitério, ignorando o coreto, aconchegará o rolo de corda no ombro e respirará com força para sentir o cheiro da terra e o calor que dela se desprende nas noites de Verão. Sentirá os pés pesados, como se estivessem mais fortes as velhas raízes que sempre o tinham puxado para dentro da terra. Sentir-se-á cansado e parará para beber água numa fonte antes de alcançar o olival cujo muro construíra, um dia, com as próprias mãos. Forçará o portão de ferro, fundir-se-á com as sombras dos troncos retorcidos e lançará a corda sobre um ramo alto, junto à ruína de um lagar. Procedendo como se já se tivesse enforcado mil vezes, afivelará o nó numa ponta da corda, prenderá a outra cuidando para que o laço fique a uma altura fatal, subirá à oliveira, ajustará o garrote ao pescoço e deixar-se-á cair como se fosse voar, sem tristeza, sem angústia, e ficará a sentir a forca apertando-se na garganta, o estalar das vértebras, os pés baloiçando cada vez mais devagar - até que a árvore deixe de ranger com o seu peso e o mundo volte a ser só silêncio e estrelas.


(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)


Dou por terminada a edição do último conto do autor que me propus apresentar-vos, no âmbito do conjunto de três, desde logo delineado. Espero, sinceramente, que tenham gostado, na medida em que foram contos que me chamaram particularmente a atenção pelas temáticas e problemáticas que em si tinham como muito próprias, naquela que era a sua maior explicitez. Foram contos que me permitiram aprofundar reflexões e, por isso mesmo, também a minha vontade de os partilhar convosco. Missão cumprida, diria. Ou melhor: missão plenamente cumprida se o que me tocou vos tocou também.

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O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ (3)

Luís Maria abandonava a mesa porque tinha chegado a sua hora e os outros três homens ficavam porque a deles era mais comprida, não havendo necessidade de irem para outra parte quando podiam perfeitamente continuar onde estavam e a fazerem o que lhes apetecia. E permanecia tacitamente acordado que assim devia ser, não lembrando a ninguém desafiar aquele que saía a ficar mais um pouco ou a beber mais um copo, nem aos que ainda jogavam a levantarem-se para acompanhar os passos do parceiro. Resumindo: não se faziam perguntas, quanto mais não fosse porque não se esperavam respostas. E talvez porque assim fosse, a ninguém ocorreu a proximidade da tragédia na tarde abafada em que, terminada a quinta partida de dominó e bebida a terceira rodada de ginjinhas, Luís Maria se manteve sentado no banco duro da taberna, desfazendo com o dedo médio os círculos líquidos desenhados no tampo da mesa pelas bases dos pequenos copos. A jogatina foi-se prolongando enquanto o sol, lá fora, empalidecia e o dia refrescava, pediram-se mais umas e outras ginjas, mas tudo isto sucedeu, porém, como se sempre assim tivesse sido.
Quando, enfim, chegou a hora de os homens regressarem às casas onde mulheres e jantas respectivas os aguardavam, Luís Maria ergueu-se também, pagou as ginjas e saudou com um gesto do chapéu na cabeça aqueles que ficavam, seguindo depois os três demais com o seu passo lento e abatido. Não o fez, todavia, por muito tempo, pois logo, e sem aviso, o seu corpo magro e ossudo tombou desamparado no chão, ali se quedando sem vida, porém com os olhos muito abertos de quem, no último instante, estivesse tentando ver tudo o que antes lhe escapara.
Não tendo familiares e conhecidos na vila, o corpo do velho foi depositado no hospital e ali enfiado à pressa num caixão de pinho ordinário, sem ninguém que o velasse, à excepção dos três parceiros do dominó, que nessa noite nem jantar haviam de ir, valendo-lhes à fraqueza do estômago duas garrafas de vinho e um prato de pastéis de bacalhau que um deles foi buscar à taberna enquanto os dois outros ficavam a tratar das formalidades do óbito. Quando a nova manhã despertou, luminosa e ameaçando já o calor que havia de se pôr, os três homens continuavam de roda da caixota mal amanhada, de pé e com os olhos vermelhos, segurando nas mãos os velhos chapéus de feltro negro, apenas abandonando o velório depois de o padre ter aparecido para lançar no ar os derradeiros sacramentos e encomendar apressadamente a alma de Luís Maria. E foram ainda os três que, com a ajuda do carroceiro chamado para transportar o féretro ao cemitério, carregaram o corpo de Luís Maria até ao carro, acompanhando depois a pé o trote das mulas pelo empedrado da vila.
Fosse pelo calor impiedoso do fim da manhã ou porque a notícia da morte não chegara a comocionar ninguém, não houve mais quem se incorporasse ao desfile, quase parecendo que o homem que seguia deitado no caixão já há muito estava morto na memória da gente do povoado. Quando muito, uma ou outra mulher assomaram às janelas para mirar o cortejo com as mãos postas em pala diante dos olhos, que àquela hora o sol batia nas pedras e no branco das casas de um modo que parecia capaz de cegar quem desafiasse a sua inclemente luminosidade. Se a quem olhava de longe pareceu espantoso que a passagem da carroça não fosse deixando um rastro de apodrecimento, por ser certo que, àquela hora e sob aquela brasa, Luís Maria havia já de estar sendo devorado pelos vermes que o seu corpo abrigasse, a surpresa deu lugar ao assombro quando, ao percorrer o pequeno declive da estrada que leva aos limites da vila e, imediatamente antes, ao cemitério municipal, o esquife escorregou da carroça e se partiu todo ao cair do chão, deixando o homem magro e morto estendido no pavimento. E logo a surpresa cedeu passo à paralisia do terror, pois Luís Maria, acordado pelo tombo, ergueu-se do chão, sacudiu as calças com as mãos, olhou em volta como que para perceber que raio estava fazendo deitado no meio da estrada e logo se foi sentar, caminhando devagar, no banco de ripas vermelhas do jardim que marginava a via pelo lado nascente.


(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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abril 28, 2005

O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ (2)

Luís Maria, diz quem o conheceu em vida, isto é, na vida antes da sua primeira morte, era um homem magro e nodoso como uma oliveira jovem, porém moreno e enrugado como todo o homem afeito a trabalhar sob aquele sol, varando azeitonas ou colhendo trigo, consertando cercas ou escorando vides. Não havia quem não lhe falasse e a ele recorresse sempre que fossem precisas duas mãos e força de homem para que algum trabalho aparecesse feito. Era honesto e respeitado como tal, bom, embora calado e pouco dado a conversas fiadas, característica que se acentuara há já uns anos, desde que se finara a tia Lurdes, sua mulher e única companheira de muitos anos, devotada e estéril, pequenina e mirrada, cerzideira como não havia outra na vila, não porque fossem extraordinários os seus dotes, mas, simplesmente, porque não havia mais quem praticasse a arte de abrir casas para botões e remendar calças velhas e gastas, coser bainhas ou substituir bolsos rotos. Ficava horas nisto, sentada numa minúscula cadeirinha de madeira pintada, com um assento de vime, curvando-se sobre os joelhos e afadigando-se com as agulhas e linhas. Apenas interrompia esta prática para tratar do jantar - que seria também o almoço de Luís Maria no dia seguinte, aquecido e acondicionado numa marmita velha e enegrecida - , pelo que ali mesmo morreu, dobrada e sentada na diminuta cadeira sem que o corpo tombasse sequer no chão. Enterraram-na num esquife que parecia última morada de criança pequena, apenas um pouco mais alto, para que lá coubessem os joelhos dobrados da mulher, que arrefeceu na posição de trabalho e não houve já quem fosse capaz de lhe esticar as canelas.
Luís Maria, que até aí fora reservado e pacato, tornou-se sombrio e foi-se sumindo aos poucos, falando cada vez menos, o essencial apenas para contratar a jorna e para manter o velho hábito de jogar cinco partidas de dominó ao fim da tarde - pretexto, afinal, para beber ginjas e estar um pedaço com os compadres. Se lhe cobravam o silêncio, dizia apenas que
- Mais vale estar calado do que dizer apenas asneiras para passar o tempo. O tempo passa para quem vive e acaba para quem morre. Não tem que saber. Não se pode fazê-lo passar mais depressa.
- Alguma coisa se há-de dizer, compadre! De outro modo, parecemos girassóis.
- Essa é boa, Ti Alberto! Muito boa. Girassóis que jogam dominó!
- E bebem ginjas!, completou o ti Mário. Por falar nisso: mais quatro? Mais quatro!
E com isto soltava-se a língua aos outros três velhos. Luís Maria, porém, já havia dito tudo o tinha para dizer e limitava-se a casar as peças do dominó quando chegava a sua vez e a olhar pela porta da taberna como se esperasse por alguma coisa ou por alguém, embora soubesse que não esperava ninguém nem coisa nenhuma e, por isso, não alimentava o mais ténue traço de ansiedade de cada vez que voltava os olhos para aquele pedaço luminoso do mundo que invadia a fresca obscuridade do estabelecimento.
Terminada a terceira ginja ou a quinta partida de dominó, conforme o que sucedesse primeiro, o velho levantava-se do banco corrido de madeira, enfiava na cabeça o chapéu de feltro preto e regressava a casa sem pressas, caminhando como se o tempo não existisse. Antes de sair, o hábito impunha que apenas dissesse
- Então até amanhã
sem mais explicações ou comentários, que o convívio prolongado entre os homens tem, ao menos, a vantagem de passar a dispensar explicações ou formalidades desnecessárias.


(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ (1)

Inicio com este post a edição do conto que dá o título à obra de Manuel Jorge Marmelo.
"O silêncio de um homem só" é, pois, uma estória cuja abordagem se volta para a solidão e para a relação que é estabelecida entre si, a morte e o suicídio (ou entre si e a morte/o suicídio).
Estamos, inequivocamente, perante um trabalho cujo conteúdo comove e interessa bastante, atendendo à forma como a vida ou as vidas são apresentadas, quer na relação dos indivíduos consigo próprios quer na relação destes com os outros e com o meio onde vivem.
Um conto que permite olharmos muito atentamente para aquela que é a sua personagem principal, assim como permite percebermos o quanto por vezes não estamos dela tão distantes, pelos imensos reflexos que imanam sobre nós. Claro, que, sempre podemos falar de uma vertente adaptativa. Mas o fundamental é o sumo e não tanto os gomos que a fruta (específica) possa ter.

Um homem sentado num banco de grossas ripas de madeira atarrachadas num suporte de ferro fundido.
Um banco de madeira numa praça com poucas árvores e quase nenhuma sombra, ao fim de uma manhã de Verão, quente, meio-dia quase e o sol vai alto e queima tudo e faz ressequir os ramos dos dois plátanos que montam guarda ao quadrilátero que, na Primavera, chega a ter florinhas nos canteiros relvados, então verdes, agora cor-de-palha seca; e um lago redondo de águas turvas, com peixes dourados e um repuxo fraco, no meio, lançando ao ar um esguincho cansado e lento.
Uma praça numa vila de casas brancas, impecavelmente caiadas, térreas, comprimidas umas contra as outras como se deste modo pudessem proteger-se do bafo quente e seco do Estio.
Uma vila no meio de uma planície de restolho, pontilhada de oliveiras retorcidas e mirradas, uma ou outra figueira, vacas pretas e magras arranhando a língua no pasto restante. E, depois, um país triste e pequeno desdobrando-se em pequenas ondulações de terrenos férteis mas incultos, primeiro, e logo em serras e vinhedos, bosques e pinhais, cidades envoltas em fumos tóxicos, paradas de famélicos eucaliptos alinhados como exércitos, rastejando a nação até ao mar e fundindo-se à espuma das diminutas ondas cálidas que rebentam na praia em pequenos e inofensivos rolos brancos.
Por cima, um céu azul e fosco.
E, debaixo deste, um homem sentado num banco de ripas vermelhas que parecem mais grossas do que realmente são por força das sucessivas camadas de tinta plástica, que o sol seca e enche de rachas finas, como rugas, que logo esfarelam e reclamam tinta nova.
Não está só, o homem. A uma distância prudente, sob a sombra minguada de um dos plátanos que montam guarda à praça, estão três velhos, olhando o homem e olhando-se entre si, como que procurando em cada um dos outros resposta para o mais paradoxal dos mistérios - que é aquele que decide sobre a vida e sobre a morte. A poucos passos há um carroção parado, os arreios das mulas seguros na mão direita de um quinto homem, velho também - e que, talvez por isso, agarra um cajado na mão livre. As duas bestas estão quietas e mansas, mexem os cascos apenas para manter o equilíbrio sobre o empedrado do chão enquanto sacodem as moscas com revolteios das caudas. Mais atráz jaz, no meio da rua suavemente inclinada, um caixão tosco, rebentado e aberto como uma melancia que se tivesse esborrachado no chão. Não há homem nenhum dentro da caixa fúnebre e desconjuntada; aquele que lá estava é o que agora se senta no banco vermelho da praça, levemente inclinado para a frente, as mãos sobre os joelhos e os olhos vendo para além do chão de poeira que tem adiante.
É um homem só, apesar dos três amigos que se dispuseram a acompanhá-lo na última viagem e que agora o vigiam. Não há nada de novo ou de extraordinário na sua solidão. Mas é nisso que pensa desde que percorreu, com passos lentos, o caminho curto entre o caixão esborrachado e o banco da praça. É essa a certeza que lhe remorde o peito enquanto outras pessoas se vão aproximando, sem ruído, da sombra dos plátanos, detendo-se a uma distância precavida e ficando a olhar o homem sentado; formando, aos poucos, um círculo de corpos parados, como uma muralha de espanto mudo: todos vieram para ver um homem que já estava morto, cujo corpo foi velado e sacramentado, que ia a caminho do cemitério da vila, mas que agora ali está, vivo e sentado, embora quieto, no banco da praça, sendo que ninguém parece ver nisto uma demonstração dos insondáveis desígnios do Senhor, mas antes um truque barato, um floreio atroz das artes do demónio.


(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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abril 27, 2005

CLUBE DA BOA MORTE (4)

Temos, pois, a longa lista que há-de servir de base ao tratamento dos irredutíveis: enforcamento, tiro na boca, remédio para os ratos, sufoco com saco de plástico enfiado na cabeça, tiro na têmpora, forca improvisada, salto de ponte, corrida rápida, ingestão de soda cáustica, envenenamento por gás butano do fogão da cozinha, caminhada lenta mar adentro, automóvel em ponto morto na garagem, dose excessiva de comprimidos, corte profundo dos pulsos dentro de uma banheira previamente abastecida de água tépida, pulo do alto de edifício de vários andares, condução em velocidade excessiva na contra-mão de auto-estrada com grande movimento de veículos pesados de mercadorias, envenenamento, introdução da cabeça no micro-ondas, eutanásia clinicamente assistida, asfixia com almofada, administração intravenosa de substâncias significativamente tóxicas... Frei Gil escreve e vai relendo, procurando lembrar-se de algum modo de suicídio que antes lhe tivesse escapado. Risca "asfixia com almofada", por lhe parecer agora ser este um método mais próprio ao assassinato, mas não deixa, ainda assim, de notar que são inúmeras as formas que o homem engendrou para pôr termo à própria vida, parecendo-lhe que não bastou à humanidade ser capaz de se matar por puro ditado do livre arbítrio, tendo perseverado também em fazê-lo de modo criativo, original e progressista, transformando a própria morte numa manifestação cultural, uma prerrogativa da espécie. E, pensando isto, dá por si a questionar-se sobre a real bondade da sua actividade. Escreve: "Meus Deus! Estarei realmente a salvar estas pessoas? Ou apenas impedindo que definitivamente se libertem do fardo que é viver?".
É esta dúvida que o corrói nos últimos dias. Com ela se deita e com ela desperta, habitando-o ainda durante o sono, figurada em sonhos terríveis, mais pavorosos a cada noite que passa. Acha-se, nestes pesadelos, transformado no próprio juiz ao qual cabe decidir que vai este para o Paraíso e aqueloutro para o Inferno; ou num barqueiro que impede a última travessia das almas penitentes; ou num homem alado que cruza os céus da cidade impedindo que tombem no chão aqueles que se lançam do alto dos edifícios, agarrando-os no ar, mas sendo arrastado com os corpos dos suicidas, ou então, permitindo que estes se lhe escapem, terminando por esborrachar-se no chão, entre gritos e dedos que o apontam a ele, frei Gil, como responsável por aquela morte. Acorda a berrar, com a boca seca e o leito revolto, transpirado. Ergue-se do sono e, uma e outra vez, repassa a lista das formas de suicídio: enforcamento, tiro na boca, remédio para os ratos, sufoco com saco de plástico enfiado na cabeça, tiro na têmpora, forca improvisada, salto de ponte, corrida rápida e mergulho diante de locomotiva que siga em boa velocidade, ingestão de soda cáustica... E, enfim, decide: doravante, a obra não se limitará a salvar os suicidas, prestando também assistência, como numa novela de Robert Louis Stevenson, a todos aqueles que tenham decidido suicidar-se e se achem sem coragem para realizar o intento. Volta a página e escreve: "Clube da boa morte (assunto de acesso restrito; o patriarca não pode saber disto)". E, parando um instante para pensar, inicia uma nova lista, desta vez dedicada a métodos de homicídio rápido e relativamente indolor:
Asfixia com almofada, envenenamento, corte da veia jugular, tiro na nuca, atropelamento com veículo pesado de mercadorias, refeição de peixe-balão, picada de cobra venenosa, decapitação, injecção letal...
Pára. Relê. E risca "refeição de peixe-bãlão" e "picada de cobra venenosa" por não estar certo de que, deste modo, o suicida morrerá sem dor. Relativamente.


(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)


Com este post dou por concluída a edição do conto. Espero que tenha despertado o vosso interesse, levando-vos, da mesma forma, a reflectir mais profunda e amplamente sobre a temática em questão: o suicídio.

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CLUBE DA BOA MORTE (3)

Metódico e modesto mesmo diante do ofuscamento do êxito, frei Gil não deixava jamais de fazer anotações e de cotejar estatísticas, estranhando, todavia, que ao exponencial aumento do número de atendidos não correspondesse equivalente redução do número de suicidas bem sucedidos. Esta cifra, teimosa, só muito a custo se ia reduzindo, e tão lentamente que era difícil, sem prejuízo da certeza, garantir que tal abrandamento se ficasse devia à intervenção da instituição e não a outro motivo qualquer. A este propósito, o padre escreveu no caderninho: "Apesar do crescimento dos casos em que passamos a ser procurados pelos potenciais suicidas, continuam a chegar em ritmo constante as informações dos fiéis e amigos espalhados pelo país, indicando-nos um sem número de pessoas que manifestam sinais de alarme suicida. O que actualmente mais nos traz preocupados é precisamente o facto de se registar entre estes que nos são indicados pela via original a maior taxa de insucesso da obra. Ou seja: aqueles que procuram a nossa ajuda, buscando uma última esperança, parecem vir já decididos a não morrer. Entre os outros, e malgrado a nossa acção preventiva, são muitos os casos em que os suicidas acabam mesmo por se matar".
Esta conclusão não fez, porém, esmorecer o ânimo de frei Gil, bem pelo contrário, pois parecia óbvio que a existência da instituição estava plenamente justificada pela obra já realizada, sendo igualmente importante essa função que ultimamente vinha adquirindo, servindo de último recurso aos não totalmente desesperados. Todavia, no caderninho constavam anotações que pareciam indicar que a principal dificuldade em lidar com os suicidas-suicidas (por oposição aos potenciais suicidas que procuravam a instituição de moto próprio) residia no facto de nem todos serem passíveis de uma abordagem tão esquemática como aquela que o padre tinha originalmente engendrado, pois muitos eram os casos em que não havia aconselhamento, acompanhamento médico, dinheiro e emprego que pudessem evitar o trágico desenlace, por estarem os suicidas já demasiado firmes nas suas decisões. Por isso, esclareço agora, frei Gil necessita de uma lista das várias formas viáveis de suicídio, tão exaustiva quanto possível, pretendendo o padre pôr à prova uma ideia que lhe ocorreu há alguns dias, segundo a qual, detectados os casos sem retrocesso, o tratamento deverá consistir em baralhar a opção tomada, sugerindo-se diferentes formas de colocar termo à vida. "Se, por exemplo, o suicida pretender matar-se à pistola, com um tiro na nuca, devemos tentar fazê-lo ver que, no seu caso, haveria vantagem em eleger uma fórmula alternativa, como o envenenamento ou a queda em altura. E, enfatizando veementemente os benefícios destas hipóteses, há-de ser possível semear na mente do suicida uma raiz de dúvida e indecisão, a partir da qual seja possível resgatá-lo", escreveu frei Gil no caderninho - que servirá, aliás, de base à escrita de um manual de salvamento de suicidas que permita generalizar o método e conceda a outros, depois de si e em cada um dos quatro cantos do mundo, a possibilidade de se dedicarem à tarefa de atender ao seu semelhante na hora em que ele mais necessitado está.


(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras. Fotografia de José Marafona)

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abril 26, 2005

CLUBE DA BOA MORTE (2)

Para executar a tarefa, frei Gil alcançou erguer do nada, com a ajuda de antigos paroquianos e de padres amigos e respectivos rebanhos, uma rede de recolha de informação sobre aqueles que estivessem necessitados da ajuda da filantrópica agremiação de socorro vital, sendo que, reconhecidos e apoiando o objectivo da instituição, os informates serviam também de financiadores da piedosa operação, quotizando-se no sentido de garantir um fundo financeiro que permitisse enfrentar sem hesitações ou fatais demoras os casos mais desesperados. Assim se custeavam os gastos com consultas psiquiátricas e se providenciavam adiantamentos líquidos que evitassem casos de suicídio por motivos económicos, sendo que aqueles que viessem a ser salvos da tentação inescapável se comprometiam a ressarcir a obra do frei Gil dos custos da operação. Por outro lado, os amigos da instituição, não se limitando a descobrir aqueles que estivessem necessitados da intervenção da associação, tratavam ainda de criar uma rede de amizades que permitisse a existência de uma bolsa informal de empregos, nos quais os potenciais suicidas se poderiam manter ocupados no decurso da fase inicial da terapia.
Tudo corria bem, portanto, e, deste modo, frei Gil começou a salvar suicidas da morte quase certa, primeiro um, depois outro, depois dez, depois cem, até que o fenómeno passou a correr de boca em boca e se transformou em notícia dos jornais e reportagem na televisão. A hierarquia da Igreja, tocada por este exemplo cristão de abnegação, reagiu com cautela e desconfiança, a princípio, louvando, ainda assim, a atitude de frei Gil. O caso, porém, foi atingindo proporções tais que o cardeal acabou por convidar a imprensa para presenciar a recepção do salva-suicidas na sede do patriarcado, registando-se uma trovoada de flashes no momento em que os dois homens de Deus apertaram as mãos e selaram o reencontro com um sentido abraço, após o qual se retiraram para uma breve conferência, da qual saiu o anúncio solene de que a Igreja passaria, doravante, a apoiar informalmente o meritório trabalho de frei Gil, cedendo para o efeito instalações devolutas que pudessem servir de base à instituição. Enquanto o anúncio se produzia, frei Gil sorria, o cardeal sorria também, tendo este terminado a sua curta e ponderada intervenção com um rasgo de oratória que os jornais, no dia seguinte, reproduziram integralmente: "Tivesse frei Gil vivido alguns séculos antes e mesmo a alma de Judas poderia ter sido salva, devolvendo ao caminho justo um homem que dele se tinha perdido e deixado sem função funesta a árvore a que o discípulo, em má hora, lançou a corda com que se enforcou".
Foi tal o sucesso de frei Gil e tão retumbante o efeito da sua acção que muitos suicidas passaram a procurar a obra de livre vontade, abrigando-se sob os seus desígnios e procurando ajuda especializada mal a ideia da morte lhes atravessava o espírito à laia de possível escape para este ou aquele problema, uma ou outra aflição mais aguda. A todos o padre recebia com igual parcimónia, aconselhando e analisando os males que atormentavam os candidatos a suicidas, encaminhando-os de acordo com a natureza das suas maleitas e vigiando-os até certo que o bem estar se mantinha e que a fatal ideia os havia definitivamente abandonado.


(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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CLUBE DA BOA MORTE (1)

Pelo seu maior tamanho comparativamente ao texto editado ontem, começo por apresentar o primeiro post respeitante ao conto "Clube da boa morte", da autoria de Manuel Jorge Marmelo. Um conto que incide não só sobre a problemática do suicídio naquela que é/pode ser a sua abordagem mais ampla, mas também, sobre a do direito ao suicídio, em particular, na vertente da sua qualidade.
Pelo interesse e sempre pertinência do que está em causa, conto com a vossa especial companhia e acompanhamento. Ainda mais pela relevância das temáticas no âmbito das sociedades contemporâneas e dos/pelos debates já iniciados em seu torno e ainda não concluídos, nem em perspectivas de o serem.

Enforcamento, tiro na boca, remédio para os ratos, sufoco com saco de plástico enfiado na cabeça, tiro na têmpora, forca improvisada, salto de ponte, corrida rápida e mergulho diante de locomotiva que siga em boa velocidade, ingestão de soda cáustica, envenenamento por gás butano do fogão da cozinha, caminhada lenta mar adentro, automóvel em ponto morto na garagem, dose excessiva de comprimidos, corte profundo dos pulsos dentro de uma banheira previamente abastecida de água tépida, pulo do alto do edifício de vários andares, condução em velocidade excessiva na contra-mão de auto-estrada com grande movimento de veículos pesados de mercadorias, envenenamento, introdução da cabeça no micro-ondas, eutanásia clinicamente assistida, asfixia com almofada, administração intravenosa de substâncias significativamente tóxicas - são quase infindáveis as possibilidades à escolha de um suicida metódico, concluiu frei Gil, cansado já de anotar nas folhas do seu caderninho as alternativas que séculos de evolução da espécie tinham colocado à disposição do homem, parecendo quase que a cada nova etapa tecnológica da humanidade corresponde sempre pelo menos uma nova forma de autoliquidação. Como se ao ser humano não tivesse bastado ser o único animal de criação capaz de se matar por puro ditado do livre arbítrio, tendo ainda perseverado em fazê-lo de modo criativo, original e progressista, transformando a própria morte numa manifestação cultural, uma prerrogativa da espécie, algo tão corriqueiro como vestir-se desta ou daquela maneira, alimentar-se com um ou outro alimento, fumar ou não fumar, dar vida a um novo ser ou recusá-la com o recurso a métodos contraceptivos. De tal modo, anotou frei Gil, que "o tresloucado suicida (ou não) nega não só cabimento à penalização legal que a lei impõe ao que se mata - castigo que só se aplica, paradoxalmente, ao que falha e que jamais será cumprido por aquele que efectivamente leve avante a sua intenção -, como ainda rediculariza com algum escândalo uma das mais bem intencionadas ordens da religião católica, segundo a qual só Deus tem o poder de conceder a vida e de atribuir a morte. O suicida não se limita, portanto, a morrer - atreve-se a zombar de Deus".
Graves pensamentos ocorriam, portanto a frei Gil enquanto se entretinha na demorada (e algo penosa) tarefa de ponderar as inúmeras formas de morte por opção que o homem foi capaz de inventar para roubar ao acaso ou à doença o privilégio de impor o último suspiro a uma vida. É trabalho incómodo, já se vê, capaz de fazer estremecer os fundamentos em que assenta a vida de um homem de Deus, mas frei Gil necessita que este levantamento seja feito, e com urgência, pois disto depende o sucesso da tarefa a que entusiasticamente se entregou, largando a batina com o intuito de tentar salvar as carcaças humanas, depois de, sem grande sucesso, suspeita, se ter esforçado na cantilena que devia conduzir ao resgate das almas respectivas. Em poucos meses de trabalho, o ex-padre ficara na posse de todas as estatísticas relativas ao assunto: a evolução anual do número de mortes por suicídio, os períodos de maior concentração de ocorrências, a sua distribuição geográfica e a incidência por idades e sexo, concluindo ainda que as causas que conduzem o suicida à fatal decisão podem resumir-se a três grandes classes: patológica, sentimental e financeira. Deste modo, igualmente ocorreu a frei Gil que aquele que traz em vista pôr precipitadamente fim à vida pode ser tratado de acordo com a natureza da sua decisão, providenciando assistência médica a uns, conselhos sentimentais a outros e emprego e dinheiro aos demais. E, com isto, atirou-se à tarefa de salvar vidas, procurando nas ruas de cidades e vilas sinais que, nos olhos dos passantes ou na sua forma de caminhar, pudessem indicar que aquele homem ou esta mulher estão necessitados de ajuda urgente. Depressa se apercebeu, porém, da existência de uma quarta categoria da doença, provocada por uma espécie de aborrecimento absoluto e falta de perspectivas existenciais, sendo esta a de mais difícil tratamento - simplesmente porque, escreveu frei Gil no seu caderninho de anotações, "os padecentes desta variante não reconhecem sequer a pulsão que os atormenta, nem exibem sinais de alarme significativos, mortificando-se antes com bebedeiras e drogas, matando-se lenta mas seguramente; às vezes, sucede que, sem aviso prévio, decidem apressar o sim e se matam".

(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

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abril 25, 2005

O MISTÉRIO DA SENHORA X

Edito hoje o primeiro de um total de três contos da autoria de Manuel Jorge Marmelo, a serem apresentados aqui no Abismo, ao longo desta semana.
Cada conto, aliás, com uma mensagem relevante inerente que objectivo seja por vós entendida e suficientemente estimulante para deixarem registada opinião. Seja como for, e mesmo que isso não aconteça, o principal é que os contos surjam aqui, que vocês os leiam e os compreendam/assimilem ao nível do mais explícito mas também ao nível de tudo aquilo que de implícito tiverem.
Relativamente ao escritor: nasceu em 1971 na cidade do Porto e é jornalista desde 1989. O seu primeiro livro publicado data de 1996, inaugurando a colecção "Campo de Estreia", da editora Campo das Letras. Desde essa data tem publicado textos e contos em diversas publicações e antologias quer em Portugal, quer no Brasil, quer em França.
Mas... passemos ao conto.

Josefina Aparicio Iglesias não era uma mulher particularmente bonita ou elegante - as fotografias mostram-na rechonchuda e com um rosto banal - , mas logrou, apesar da ausência de encantos visíveis, transformar-se na obsessão de dois homens: o seu marido e Eric Kessels, um publicitário holandês que dedicou três anos da sua vida a encontrar-lhe o rastro. Descobriu-o, afinal, em Barcelona, a mesma cidade onde comprou seiscentos diapositivos criteriosamente catalogados, com a data e o local, mostrando o rosto dela. Sempre o rosto dela, anafado e quase inexpressivo, posando como uma má actriz diante de montanhas e igrejas góticas, paisagens primaveris e suaves curvas de rios calmos. Foi também em Barcelona que Eric Kessels soube que Josefina está morta, irremediavelmente morta, e que, por isso, jamais conseguirá conhecê-la, saber quem foi e porque é o único motivo humano entre as inúmeras fotografias de que se achou proprietário.
Para que se desenganem aqueles que esperam ler a seguir uma história de contornos ao gosto do romance negro, diga-se já que esta é uma história povoada apenas por sentimentos nobres e corteses e outras banalidades fora de uso. Começou quando Kessels comprou, há três anos atrás, uma colecção de diapositivos numa feira catalã de artigos em segunda mão. Ali estavam quase seiscentas imagens, nas quais se repetia a aparição de uma mulher anónima, posando de fato de banho em Camp de Mar, na neve de Andorra ou enquadrada pelos picos rochosos de Monserrat - mas sempre em Espanha. A partir desse dia, o publicitário não mais descansou, perseverando quase desatinado na demanda daquela mulher misteriosa - a "senhora X", como passou a ser chamada assim que os jornais descobriram a fantasiosa história do holandês que corria Barcelona de uma ponta à outra perguntando a quem passasse se, por acaso, identificava a mulher das fotografias.

Como que tomado por uma febre benévola, que lhe estampava na cara um sorriso idiota, porém satisfeito, Kessels visitou no último Verão todos os locais mostrados pelas fotografias e, em Fevereiro, expôs parte das imagens numa galeria de Barcelona, lançando simultaneamente um livro dedicado a esta busca. Chamou a ambos "In Almost Every Picture" (literalmente "em quase todas as fotografias") e ficou à espera que a mulher aparecesse até ao último dia da mostra. Queria simplesmente conhecê-la e devolver-lhe os "slides".
- Pensei muito nesta mulher e em quanto o marido devia adorá-la para lhe ter tirado todas estas fotografias. Não tinham filhos, pois passam os anos e eles continuam a viajar sozinhos, aparecendo apenas ela nas imagens. Creio que a história deles deve ter sido muito triste - , disse Kessels ao diário espanhol "El País", no dia da inauguração da exposição. Mas a história pode ter sido igualmente feliz, apaixonada, intensa - a história de duas pessoas que se amaram sempre, até ao fim, sem necessitarem que um filho comum viesse confirmar aquilo que já sabiam: que eram um do outro até que a morte os separasse.
O holandês estava, porém, longe de imaginar até que ponto se achavam acertadas as conjecturas que elaborou a partir das imagens. Graças a uma reportagem exibida num canal catalão de televisão, Christina Julonch soube da demanda de Kessels e reconheceu a mulher das fotografias.
Era, afinal, uma antiga colega de trabalho da sua mãe, Carmen Lleal, de 82 anos, ex-funcionária, como Josefina, da Companhia Telefónica. Esta pôs-se em contacto com antigas colegas que também se recordavam de Josefina, foram todos ver a exposição e assim se soube que a "senhora X" nasceu em 1925, tendo falecido de cancro, como o marido, um médico com casa na Costa Brava. Não tinham, de facto, filhos e o único irmão de Josefina está também morto, igualmente vitimado pelo cancro.

Desfeito o mistério, uma agência de publicidade de Barcelona que colaborou no projecto de Kessels está agora a efectuar uma investigação aprofundada sobre as origens de Josefina. Afinal, o sonho do holandês continua por concretizar: não conheceu a "senhora X" e não encontrou ainda nenhum familiar que possa receber os "slides". A menos que se aceite que a busca de algo seja um fim em si mesmo, a obsessão que norteou os últimos anos do publicitário terá chegado ao fim sem que dela se extraia qualquer sentido, nenhuma utilidade. É apenas uma história triste, amoral e sem um final feliz. Ou sem final nenhum.


(Manuel Jorge Marmelo- "O mistério da senhora X", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografias de Urs Kahler)

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abril 24, 2005

A MÁSCARA (PERSONA)

De um dos meus realizadores preferidos- Ingmar Bergman - um filme, já disponível em DVD, que vos recomendo: "A Máscara" ou, no original sueco, "Persona", datado de 1965 com Bibi Andersson, Liv Ullmann, Gunnar Bjornstrand.
Quanto ao argumento:

"A actriz Elisabet Vogler deixou de falar e isolou-se completamente do resto do mundo. Por ordem dos médicos, é levada para uma remota casa de campo, na companhia de uma enfermeira, Alma. Esta está sempre a falar, para preencher o silêncio, e gradualmente começa a revelar por completo a sua identidade.... até descobrir que ela lhe tem sido progressivamente sugada. À medida que as mulheres vão batalhando pelo controle da situação e pela sua sanidade, a grande questão torna-se não em saber qual delas é a doente e quem está a cuidar de quem, mas sim se no fundo elas serão duas mulheres diferentes ou se serão uma e a mesma mulher."

Um filme com uma carga emotiva muito grande susceptivel de nos causar perturbação e onde determinadas cenas permitem perceber, de facto, os problemas colocados ao nível do argumento ou, visto ao contrário, que o justificam. A imagem que edito é retirada de uma dessas cenas e é representativa disso mesmo.

Mais um filme de Bergman que pelas características existencialistas inerentes é, inequivocamente, de não perder. Mais um reflexo da excelência da obra cinematográfica daquele que aqui está em causa.

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O TOQUE DE CAIXA

E porque hoje é Domingo deixo-vos com mais um trabalho da autoria do Luís Coutinho. Fiquem bem!

Procura-se sempre qualquer coisa que não se encontra, que não se sabe de onde ou para onde vai, mas que está no calendário dos dias que nos vão dando….
Um dia qualquer de memórias de alguém que já não consegue lembrar, de alguém ou de algo perdido entre ruas de nomes trocados, escondidas atrás de fachadas de casas em ruínas, num dia semelhante a todos os outros, um dia como aqueles dias que rapidamente esquecemos, nasce sem ninguém dar por isso e fica moribundo quando o sol se vai embora sem dizer adeus. Um daqueles dias que se espalha pelo corpo de todos, faz lágrimas e dá novos corpos, enquanto atira para o seio da terra mais uns tantos, um dia de duas metades de 12 horas, escassas para que todos falem, que se diluem entre intervalos publicitários, e previsões meteorológicas falhadas de uma felicidade com chuva ou de temporais solarengos, para os quais as máscaras felizes de Carnaval não chegam para todos e os fatos de homens tristes, são os mais procurados nos saldos, para as festas do tempo escasso.
Sem relógio o tempo atrasa-se a si mesmo ou antecipa-se à sua chegada, nós, os seus ponteiros, nunca chegamos a um consenso e arrastamo-nos para a frente e para trás ao sabor de uma única certeza, aquela onde se conclui não haver qualquer certeza, e sentimo-nos inúteis quando cai mais um ao chão e lá vai terra para cima dele, e nós mascarados, brincamos aos idiotas do está tudo bem. Alguém finge dar corda ao relógio e alguém começa a correr porta fora, como se soubesse do que foge e para onde vai. Somos felizes? Somos pouco felizes? Somos uns tristes, somos miseráveis?Se falássemos baixinho? Espera, deixa que apenas eu fale, empresta-me à força este teu último fôlego, deixa que o teu pescoço se quebre na delicadeza das minhas mãos ásperas e que o teu corpo desmaie para este dia e se vista igual ao dia de ontem que já é morto. Uns olhos esbugalhados de espanto, a condizer com uma boca rasgada por onde ainda corre um fiozinho de sangue, parece-me bem não achas? Poupavas o dinheiro do fato de homem triste para que eu conseguisse comprar uma máscara de idiota feliz, e sempre te apresentavas de forma original! Gostas da ideia? Depois? Depois, toque de caixa e lá vai terra, as últimas exéquias, até qualquer não dia, quero lá saber de ti e vou brincar ao Carnaval dos parvos, vestido de idiota, com uma máscara sorridente, talvez me convidem para um canal de meteorologia quando virem que detrás da máscara se escondem umas lágrimas que não secam e ameaçam tempestade para os dias felizes.


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

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abril 23, 2005

CULPABILIDADE RACIONAL

Uma segunda re-edição igualmente desafiante. Autor: Albert Camus. Obra: "O Homem Revoltado". Situemo-nos, agora, naquela que é a posição e a postura do Homem no Mundo. Naquelas que são as posições e as posturas dos homens entre si. Comecemos por aqui. Passemos para as pátrias. Passemos para o estados. Pensemos nas relações entre tudo ao longo da História. Perspectivemos o futuro. Ou um futuro. Ou futuros.

O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. Consiste a questão em saber se essa recusa o não pode conduzir a outra atitude que não seja a destruição dos outros e dele próprio, se toda a revolta deve terminar na justificação do morticínio universal ou se, pelo contrário, sem pretensões a uma inocência impossível, ela poderá descobrir o princípio de uma culpabilidade racional.

(Albert Camus- O HOMEM REVOLTADO. Ilustração de David Ho)


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META DE TRANQUILIDADE

Na minha primeira re-edição de hoje deixo-vos Inês Pedrosa com a obra "Fazes-me falta". Quanto ao excerto: mais um pretexto para pensarmos sobre nós, naquela que é a relação entre a existência e a tranquilidade que em si se pode genuinamente viver, ou... nem tanto. Proposta em termos de fotografia: uma possibilidade com um grande potencial para ser absolutamente alterada. Alterada em função daquilo que cada um julgar ou sentir como mais apropriado ou como mais consentâneo com esta ou aquela realidade existencial. E aqui os cenários podem ser muitos, também, em função de passados, presentes e futuros. Ou então, em função de uma simples opção estética.

Só vivendo sobre a mudança se podia evitar a dor, só contornando a monstruosa perfeição do tempo se podia vencê-lo. Assim pensava, e enganei-me, porque o tempo não é pensável. Concentrei-me em deixar de ser para poder ser tudo, em esquecer para dominar a existência. Eu sou o tempo; sou nada, o nada veloz e imóvel que molda o corpo do tempo. Deixar de ser é ainda acatar as regras implacáveis do ser. Estou esgotado do correr contra a dor, contra a memória, contra a infância, contra o amor e o ódio. Criei uma meta de tranquilidade que se afasta tanto mais quanto mais corro para ele. Não há paz no instante, e eu vivo de instante para instante. Começo a temer que a paz se alimente do sangue da paixão de que abjurei.

(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA. Fotografias de Philippe Pache)

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abril 22, 2005

MAIS INSTANTES DE POESIA: DANIEL FARIA

E nesta sexta-feira três poemas de Daniel Faria (1971-1999). Um poeta cuja morte antecipou, em muito, a continuação da sua capacidade criativa. Uma capacidade criativa que, contudo, pode ser mais do que provada a partir da/com a obra deixada. E o que ficou é por demais significativo para não ser divulgado, para não ser feito sentir, para não ser feito pensar, para não ser feito usufruir, naquele que é o resultado da produção poética. Para que isto aconteça vou, mais uma vez aqui no Abismo, deixar uns poemas. Três exemplares do muito que nos pode chegar dentro.


ENTREI NA SOMBRA COMO ALGUÉM QUE VIA

Entrei na sombra como alguém que via
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro

Entrei com a sombra pela cintura como algo conquistado
Com o sangue a escorrer-me para os pés. Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido.

Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre

Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha


CONSERTO A PALAVRA COM TODOS OS SENTIDOS EM SILÊNCIO

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a


FALO DAQUILO QUE VEJO, EMBORA POSSAS PENSAR QUE SOU CEGO

Falo daquilo que vejo, embora possas pensar que sou cego
seguindo as mãos - sim, toco as palavras nas suas superfícies
e utensílios.

A primeira palavra que os olhos viram, agora que a recordo,
parecia uma imagem - sim, um som desenhado como um fóssil
(falo de fóssil, mesmo
que ele demore muito a aparecer no que digo),
um som do tamanho de um azulejo: agora que me lembro que era uma palavra

que brilhava nos meus olhos ao vê-la
(ver uma palavra era uma planta muito diferente,
um oxigénio muito difícil de se respirar).

Sim, agora vejo que falo, embora possas pensar que sigo pelo tacto a escrita.

Sim, eu leio e decifro. E agora sei que oiço as coisas devagar.


(Daniel Faria- POESIA. Edição: Quasi Edições, 2003. Fotografias de Naushér Banaji)

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abril 21, 2005

INSTANTES DE POESIA: JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

Deixo-vos, aqui, três poemas de um autor que considero bastante: José Agostinho Baptista (n. 1948, Funchal). Um poeta que mexe muito com a minha sensibilidade pela forma como conjuga as palavras e os versos, naquela que é a construção total de cada poema. Um provável neo-romântico, num designar/identificar que o próprio questiona.


COMO PODERÁS ENTENDER?

lembro-me sobretudo desses dias.

depois do sol tu vinhas.

eram belas as túnicas de argel e as velhas botas espanholas
que te dera o último amante.

ele gritava
give me some truth give some truth
e tu rias rias como em noites de festas pagãs.

hoje
sentado neste bar quinhentista e fluvial de um país
sonâmbulo
vejo
os pequenos barcos do rio que se dirigem para oeste
enquanto os marinheiros do passado há muitas
horas bebem aguardente.

tu
perdida nas vertiginosas danças bárbaras como
antigamente
como poderás entender esses lugares de paixão
onde me sento e bebo
ouvindo as histórias da época prodigiosa?


DESTE LADO ONDE

outrora foi aqui uma casa,
neste lado onde, nos anos da destruição, as mulheres sós
cantaram com voz doce,
o pão das primaveres breves.

outrora aqui foi a casa e uma terra de paixão,
quando era a ceifa,
neste lado onde, num outubro de silêncio, regressámos
para morrer,
malditos e quase nus;

era um lugar de fascínio este, verde e terrível nos
invernos violentos,
quando os exércitos regressavam dos continentes
desolados, depois do extermínio.

quem canta agora, à volta da casa que havia,
quase na margem sem nome,
quem canta entre as árvores estéreis,
onde a vida se despede?

mais além começa a estrada,
a que se alonga através da poeira vermelha,
a estrada que vai para longe,
onde nunca chegaremos.

já partiram um dia as embarcações guerreiras, as mulheres do trigo em
setembro
os viajantes enlouquecidos.

há muito que o vento deixou de varrer a encosta,
inclinando as vinhas, as urzes, os frutos e a solidão do
caminhante do meio-dia;

era então o vento seco, nem sempre frio, o vento estrangeiro
que não vinha do norte, mas do sul,
algures na planície antiga.

outrora aqui foi a casa, o vale sereno de antes da destruição,
quando todos partiram para as incendiadas terras do mundo
enquanto, deste lado, numa estação de silêncio, os homens
que fomos,
vencidos e calmos,
regressamos para morrer.


E AS CASAS SÃO BRANCAS LOUCAMENTE BRANCAS

lembro-me das horas sobre o mar
do surdo rumor do casco dos navios
da tua boca colada à paixão dos mapas primitivos.

entretanto o teu corpo corre devagar para o litoral
e as casas por detrás dos cabelos são brancas
loucamente brancas.

no princípio eram as paredes
e havia o teu riso altíssimo encostado aos dias que
morriam nas paredes.

quem destruiu tudo isso?
quem matou as aves nos ramos da tua loucura?

oiço este rio que corre longe de mim longe de tudo
este corcel galopando pelos países -

quem canta esta noite?

entretanto tu atravessas a minha poesia com espadas de
neve
e falas de casas como quem fala do surdo rumor do casco
dos navios -

quem canta esta noite?

e o teu corpo vai correndo devagar para o litoral
e as casas por detrás dos teus cabelos são brancas
loucamente brancas.


(José Agostinho Baptista- BIOGRAFIA. Edição: Assírio & Alvim, 2000. Os poemas editados foram extraídos do livro "Deste lado onde", um daqueles que compõe a obra referenciada. Fotografias de José Marafona)

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abril 20, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (5)

O PAI DO NICOLA

(...)

Trinta anos mais tarde, disse um dia Nicola a seu filho Sérgio, a quem chamavam Simba pela sua beleza leonina:
"Simba, desobedeceste ao pai e o que é pior, puseste em perigo a vida do teu primo que ainda não fez cinco anos."
"Papá, a cancela estava aberta e a bola foi parar ao outro lado da rua, eu estava lançado na corrida e nem sei porque gritei corre! e ele veio atrás de mim, e aquele corre! estava a dizê-lo para mim mesmo, não queria que ele viesse atrás de mim, nem sequer dei por isso. Só o vi quando cheguei ao outro lado da rua."
"Podiam ser atropelados. Desiludiste-me muito, Simba."
"Papá, eu estava a correr, tinha que ganhar o jogo, queria agarrar a bola e marcar o golo da vitória. Nem sequer pensei na rua, queria apenas ser corajoso, como tu."
"Mas eu sou corajoso apenas quando o é necessário ser."
"Mas tu nunca tens medo, não é verdade, papá?"
"Medo eu tenho, como todos os mortais, e a verdade falando, hoje um medo ingente eu concebi."
"Tiveste? E tiveste medo de quê?
"Um medo horrível de para sempre te perder."
"Oh, papá querido, deixa-me abraçar-te. E agora que estamos abraçados, diz-me uma coisa. Porque é que te puseste a falar de uma forma tão estranha?"
"Porque esta é a linguagem da justitia, que deve ser antiquada e farfalhuda, e ao mesmo tempo seriíssima, autoritária, nunca modernizada e muito próxima de como se falava nos tempos antigos."
"O quê?"
"Não tenhas medo, meu pequenino, porque a minha justiça é a justitia daqueles que nunca batem nos filhos e apenas falam, e falam amorosamente, e só amam para se fazerem amar, e exigem respeito para darem respeito e tudo fazem por desejo de harmonia e ternura. Pensa bem em tudo o que te disse e tem sempre confiança em mim e nunca tenhas medo de mim, porque ter medo do próprio pai é uma coisa muito triste e não há motivos para isso. E agora, vai, meu filho, volta às tuas brincadeiras e à tua despreocupação."
"Amigos para sempre, não é, papá?"
"Amigos para sempre."
"E estaremos sempre juntos?"
"Simba, deixa que te diga uma coisa que um dia, quando tinha a tua idade, ouvi dizer enquanto jogava ao berlinde, sozinho, junto de um banco da Piazza Napoli. Um pai bondoso falava carinhosamente ao filho numa bela tarde de fim de Verão e eu, para suavizar a minha melancolia, pus-me a ouvi-lo como que encantado. Deixa que te repita as suas palavras: Simba, olha para as estrelas, os pais bondosos do passado olham-nos lá de cima para nos proteger, porque os seus filhos nunca se esquecerão deles e nunca deixarão de os amar. E assim, quando um dia te sentires sozinho, olha para as estrelas e podes ter a certeza de que também eu ali estarei."


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


E é com o olhar nas estrelas que me despeço na companhia desta obra. Despeço-me com um cenário de esperança, com um cenário de possibilidade da mudança e com um cenário de inequívoco Amor. Espero que os excertos editados tenham despertado o vosso interesse e vos tenham sensibilizado ainda mais para a(s) problemática(s) em questão. Mais uma vez: leiam o livro na íntegra. Vale muito, muito, muito a pena. Um grande abraço para todos :)

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abril 19, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (4)

O PAI DA FRANCESCA

O pai da Francesca desde rapaz que era um brutamontes, daqueles que vieram ao mundo só para deitar tudo abaixo.
Se tivesses passado por tudo o que eu passei, disse-me Francesca, um dia em que passeávamos à beira do rio, compreenderias por que motivo vivo sozinha. Ao vê-lo agora parece normal, e mais, agora que está velho quase provoca ternura, e é isso que revolta, não te parece? Ai está uma vantagem reservada apenas aos homens, quando envelhecem toda a gente diz, coitadinho, voltou a ser uma criança. Nunca se ouve dizer uma coisa assim para uma mulher, pelo contrário.
(...)
Sete anos feitos havia três dias, após umas febres que duraram duas semanas. Levanto-me da cama três centímetros mais alta, quase nem consigo aguentar-me em pé. Caminho ao longo do corredor com a boneca nova nos braços, cambaleando devido à fraqueza, e a boneca cai-me dos braços e fico imobilizada a olhar para ela, não sei o que me passou pela cabeça, não me recordo. Ele sai da casa de banho e encontra-me ali, especada, diz, Apanha-a. Mas eu era como se não ouvisse nada, continuo nos meus pensamentos sem recordação, e como não faço o que ele manda, dá-me um murro e caio ao chão, sentindo o calor do sangue que me escorre do nariz. O medo dentro de uma casa faz coisas estranhas, minha mãe nem sequer chamou o médico, percebes? Lava-a com água fria e mete-a na cama. Uma criança de sete anos com um murro daqueles pode até morrer.
E depois, bruscamente, ficava alegre, mudava de humor como a cobra muda de pele.
(...)
Não, não te dou tempo de dizeres nada, vou contar-te outra. Escolho uma do baralho, ao acaso. Doze anos, atraso-me um pouco em frente da escola com uma amiga. Ele sabia de cor o meu horário, o senhor arquitecto, quase engenheiro, tinha uma cabeça extraordinária para tudo o que fossem números. Vê-me na rua quando voltava para casa de automóvel, e grita-me, Com que então, já temos aqui uma putazinha? Guina o volante e sobe o passeio, como num filme americano e... começa a perseguir-me, estás a ver, persegue-me como se quisesse atropelar-me. A minha salvação foi enfiar por um portão, subo umas escadas. Ele sai do carro, vem atrás de mim. Não sei quantos andares, não os contei, sei que a dado momento sinto-me encurralada e começo a gritar. Uma mulher abre uma porta, parecia mesmo a rapariguinha perseguida pelo louco criminoso. Sou o pai dela, grita ele, é minha filha. Que devia eu dizer? Disse:- Mentira, nunca vi este homem na minha vida. A mulher deixa-me entrar, como se faz com os gatos, abrindo apenas uma nesga da porta. Assim que fechou a porta, declaro, Sim era meu pai, mas não é normal, não é bom da cabeça, as aranhas e os vermes comeram-lhe os miolos durante a noite. Então, a mulher disse, Se é mesmo teu pai, não me quero intrometer. E da mesma maneira que me tinha deixado entrar obrigou-me a sair, e eu desci as escadas devagarinho, cada degrau um perigo vencido, já imaginava vê-lo saltar das paredes, sob a forma de uma larva, de um insecto gigantesco que me ia engolir. Mas não aconteceu nada, cheguei à escuridão do vestíbulo, que estava em paz, só se ouvia o ruído da rua.
(...)
Voltei a casa, onde o encontrei sentado à mesa, a comer. Não se passou nada até à sobremesa, até ao descascar mecânico de uma laranja, como se fosse uma maçã, (...), até chegar ao âmago, até que o fruto pingava o sumo louro. Assim que acabou de comer, a laranja explodiu, transformou-se em polvo com mil tentáculos, e cada tentáculo uma boca, e cada boca me sugava o sangue e deu-me tanta pancada que eu, libertando um braço, abri a janela e comecei a gritar (...).


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


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OS PAIS DOS OUTROS (3)

O PAI DO GUALTIERO

O pai do Gualtiero era um indivíduo maldoso e rude. Chamava ao filho Diamantino, mas queria dizer dementino e, como o significado das palavras reside sempre na entoação, o truque servia apenas para se defender, porque o destinatário sempre o entendeu como ele o entendia. Por necessidade, o pequeno costumava chamar-lhe padre caro sabendo bem não poder acabar a frase, mas reservando-se o prazer de a terminar em pensamento acrescentando ao afectuoso adjectivo a terminação gna*.
Dementino e pai carogna eram verdadeiros inimigos, que se dedicavam um ódio eterno, e aquele ódio, como qualquer outro ódio da vida, teve o seu início numa data precisa e, para sermos absolutamente exactos, numa hora exacta.
Na noite de 28 de Maio de 1959, o pai de Gualtiero regressou de uma longa viagem, deviam ser duas ou talvez duas horas e meia da manhã, e como no dia seguinte tinha de voltar a partir para outra viagem ao fim do mundo, em vez de ir dormir deu-lhe na veneta de se pôr à procura de um certo par de sapatos que lhe seriam úteis no sítio para onde ia.
Havia já uma hora que andava à procura, quando a mulher disse, Deve ter sido o Gualtierozinho. Sabes, desde há algum tempo deve sentir muito a tua falta e como compensação enfia os pezinhos nos teus sapatorros e anda com eles pela casa fora, todo contente a fingir que és tu.
O pai grunhiu de fúria. Quer dizer, eu para ele sou objecto de escárnio. Sente a minha falta, uma ova! O que ele tem é falta de autoridade paterna.
E às três e um quarto um ponto irrompe pelo quarto do filho, que tinha acabado de fazer havia pouco os quatro anos, arranca-o do sono pelos pés e começa a fazê-lo voltear no ar, de tal maneira que a criança acordou sentindo o impacto do vento que as voltas produziam e o coração saltando-lhe pela boca. Se não morreu com a cabeça esfacelada contra qualquer aresta da mobília, foi talvez graças a algum santo que não o permitiu. Mas, se quisermos ter pena dos seus sofrimentos temos de dizer que teria sido melhor para ele ter morrido sem saber como na escuridão daquela noite levado por aquele vórtice desconhecido, porque ficando vivo acabou por perceber a razão e durante oito dias ficou de cama, com uma febre altíssima provocada pelo terror e por convulsões que fizeram dele uma coisa desgraçada e tremente.
Quando readquiriu o uso da fala, disse, Ele queria-me matar. E de nada valeram as palavras da mãe, que tentava explicar, Isso não é verdade, ele gosta de ti, sabes como ele é, é muito nervoso, farta-se de trabalhar e nunca descansa. Mas foram palavras lançadas ao vento e o vento levou-as consigo.
A partir daquele dia foi o terror, bastava ouvir o ruído das chaves da fechadura, o bater das portas do elevador e Gualtiero corria pelo corredor fora e ia fechar-se no seu quartinho. Sai, que é a tia Patrícia, gritava-lhe de longe a voz da mãe, e então Gualtiero punha de fora primeiro a cabeça de passarinho e depois as perninhas com os joelhos ainda a tremer. Mas outras vezes bem podia esperar, que a voz tranquilizadora não chegava da entrada, e Gualtiero começava a balbuciar em pensamento, dirigia-se aos seres espaciais de que tanto se falava, suplicava que o raptassem, de tal maneira que mais tarde quando já era um rapazinho a sua canção preferida era E.T, leva-me contigo.

* (pai asqueroso)

(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de William Ropp)

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abril 18, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (2)

O PAI DO SANDRO

O pai do Sandro disse, Temos de olhar de frente para a realidade, o rapazinho não é inteligente. Pusemos no mundo um filho estúpido. Não consigo mesmo perceber como foi que isso aconteceu, mas é assim mesmo. Assim dizendo, caminhava a passos lentos no seu escritório, aflorando com a ponta dos dedos os belos livros da sua biblioteca, parando entre uma lombada e outra para um pensamento mais ruminado. E a mulher não pensou sequer em contradizê-lo, porque, se ele o dizia, não podia deixar de ser verdade, e no fundo do coração quase assumia todas as culpas, porque as palavras são claras como uma conta de somar. Engoliu em seco um par de vezes e depois saiu da sala.
Sandro correu para a cozinha, para junto da avó, que estava a arranjar dois quilos de espinafres, debaixo de um esguincho de água fria. Aproximou-se dela, apoiando a cabeça no avental sobre a saliência de uma bela anca antiga. Avó, eu sou estúpido? Teve de fechar a torneira e mandou-lhe repetir a pergunta. Mas que raio de história vem a ser essa história? Quem é que te meteu isso na cabeça? Aqui ninguém é estúpido!
(...)
Ao menos, come! disse o pai. Pelo menos faz isso como uma pessoa normal. Ficas todo emporcalhado como quando eras bebé! E assim dizendo atirou-lhe o guardanapo à cara, mas a criança não o apanhou a tempo e deixou-o cair no prato. Mas que raio de história vem a ser esta história? disse a avó. Deixem a criança comer com os seus vagares, não se ponham a discutir sobre aquilo de que gosta e que lhe agrada. Come devagarinho, não faz mal nenhum. Fica todo lambuzado, disse o pai. Está a entornar a sopa toda. Em seguida levantou-se de chofre, apoiando os nós dos dedos na mesa com tanta força que as mãos ficaram brancas. Já perdi o apetite! disse irritado. E voltando-se para o filho disse, Vemo-nos de seguida, espero-te no escritório, tenho uma bela surpresa para ti.
(...)
Disse, Não notas nada? Claro, tu nunca notas nada, sempre distraído, sempre nas nuvens. Olha. Assim dizendo, alongou o braço esquerdo com o indicador apontado e com a mão direita agarrou-lhe a cabeça, como num torno. (...) E o pescoço girou, contraído, enquanto a força do empurrão o atirou para a frente, contra a parede.
Olha bem, disse ele. Mandei emoldurar esta maravilha de trabalho, a tua composição. Na tua idade, uma nota destas, quando todos os outros só têm dez e dez com louvor. Tu, a miséria de um suficiente. Outro dia, fui falar com a tua professora, disse-me que és lento, sem vontade, nunca prestas atenção, sempre pronto à conversa com os companheiros, e pior do que tudo disse que estás sempre, mas sempre, incontrolavelmente a rir. Chegou a altura de mudar as coisas. O teu trabalho emoldurado, e repara bem, não no teu quarto, mas no meu escritório, para teres a consciência de que eu estou sempre, mas sempre, a admirar a tua obra-prima. Que isto te sirva de contínua repreensão e de advertência. (...) Este trabalho será colocado noutro sítio no dia em que trouxeres outro melhor para tomar o lugar deste, e assim por diante, até ao dia em que haja um melhoramento de que duvido muito, mas em que tenho muita esperança. Pergunto o que terás tu herdado da minha inteligência. Nada.


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


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OS PAIS DOS OUTROS (1)

Até à próxima quarta-feira Romana Petri e o seu livro "Os pais dos outros" vão estar aqui, em destaque, com a apresentação de excertos de alguns dos 12 contos que compõem a obra. Contos que se debruçam sobre as relações entre pais e filhos, focalizando a violência das mesmas e as consequências que dai resultam para as famílias, em geral e para as crianças e jovens, em particular.
Uma obra que faz a dicotomia entre a cobardia, a violência, o desrespeito de uns e o sofrimento, o silêncio, os traumas, as angústias de outros sem, no entanto, fechar a porta que dá acesso à esperança para os descendentes dos filhos violentados nas vertentes física e psicológica.
Quanto à autora: Romana Petri nasceu e vive em Roma. É tradutora, crítica literária e escreve regularmente para os jornais "L'Unitá" e "Messaggero di Roma". Iniciou a sua carreira literária em 1990. "Os pais dos outros" acabou de chegar ao mercado nacional pela chancela da editora Cavalo de Ferro.
Inicio este conjunto de edições com a publicação integral do primeiro conto da obra. Porque é o seu arranque. Porque lhe dá um fio condutor. Porque...
Sublinho: as edições não dispensam, de todo, a leitura integral dos contos e do livro que integram. As razões são evidentes. A maior delas: por melhores que sejam as escolhas, não deixam de ser amputações e existem problemas/realidades do quotidiano cujo recuperar justifica, em pleno, conhecimento do que é o original. Neste caso e pelo que está em causa, isso é absolutamente fundamental.

O MEU PAI

O meu pai era grandioso, justo, e de uma corpuratura imensa. Um dia, uma mulher definiu-o um gigante eurítmico. Era bonito e corajoso como o herói de um romance de aventuras e a sua coragem era uma coragem verdadeira, a coragem de quem vence o medo pelo sentido de justiça e deseja endireitar o que de torto encontra na vida. Mas era também forte por natureza, cada murro seu era um atestado de óbito. Vi-o lutar contra sete e sair sem uma beliscadura.
Comigo foi de uma docura maternal, um pai-mãe que, por vezes, me parecia também um pouco meu filho. Era louro e tinha os olhos verdes, da mesma cor do lago Trasimeno nos dias de ligeira neblina. Era diferente de qualquer outro homem porque conhecia a profunda tristeza sem motivo, os longos suspiros melancólicos, a imprecisão de saber-se lá que destino.
Nas noites de Verão, gostava de olhar para as estrelas e de ouvir cantar os grilos e de imitar para mim, quando eu era menina, o seu lamento. As poucas vezes que me respondeu fê-lo apenas com a força das suas palavras. Pegava-me ao colo ou então sentava-me em cima de uma mesa e falava comigo com um tom de voz forte e persuasivo. Dizia-me coisas sensatas, às vezes também furibundas, porque aquela era a sua maneira de viver a vida: a sensatez dos males extremos e dos extremos remédios. Recordo-me de sempre o ter entendido muito bem e de ter sempre feito bom uso dos seus conselhos. Entendíamo-nos porque tínhamos o mesmo latejar da carne interior, a consciência recíproca de em alguma outra vida anterior ele ter estado no meu ventre e eu no dele. Éramos amigos e entre nós não havia segredos porque gostávamos de falar das súbitas alterações de humor, daquilo que pode deixar-nos tristes e logo a seguir alegres, da grandeza das inúmeras vozes que sentíamos dentro da alma. E assim, dizia-me, Podemos desejar ao mesmo tempo a morte e o renascimento. E eu respondia-lhe que tinha razão, que era assim a vida. Gostava de lhe beijar os olhos porque tinha as pálpebras mórbidas e sempre um pouco quentes. Em contrapartida, ele gostava de me ensinar algum golpe de luta livre dizendo que poderia vir a ter necessidade disso, um dia em que ele não estivesse presente para me defender; ou então, de me falar de Homero, porque gostava muito daquele verso que diz: "Os deuses tramam e executam a perdição dos mortais a fim de que as gerações que nascem tenham alguma coisa para cantar." E quando estava em paz consigo mesmo e não queria castigar o mundo, repetia sempre outro verso do mesmo poeta: "Ulisses trazia em si de todos os mortais o coração."
Era diferente de todos os outros homens porque conhecia a grande alegria, a súbita revolta do sofrimento, o optimismo despropositado. E então, enchia-se, todo ele era um projecto de futuro e fazia o verso longo e agudo do vento dos campos. Dizia, Sou um pedaço de terra, puro fermento. E eu pensava, Oxalá te nasçam flores no peito o mais tarde possível, meu adorado.
Este, porém, era o meu pai, não os pais dos outros.


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


Para quem gosta, tenha interesse em estar presente e o acesso não seja difícil, registo que a obra, com a presença da autora, vai ser lançada Quarta-feira, às 18.30h, na livraria Italiana de Lisboa (Rua do Salitre, 166 B), o mesmo se verificando no dia seguinte, em horário idêntico, na FNAC-Colombo (também na capital), com igual participação da escritora.

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abril 17, 2005

O QUE SENTIMOS COMO REALMENTE NOSSO?

Iniciada no dia de hoje a edição de textos da autoria do Luís Coutinho, responsável pelo blog "Escrevo enquanto chove lá fora", será uma garantia aqui no Abismo durante os próximos domingos. Textos de cariz muito intimista onde temáticas como o amor, o afastamento, o abandono, a saudade, as lembranças, os registos de vidas, têm um lugar de grande relevo e onde o autor procura imprimir a sua marca.
Quer eu quer o Luís contamos com a vossa presença ao longo destes domingos, por forma a que, em conjunto, entremos num universo onde o autor, nos bastidores da criação, inspirado por músicas e canções, vai dando largas ao que existe dentro de si, num exteriorizar de mensagens de fácil captação por todos nós, atendendo à normalidade do que está em causa e que serve de objecto para a produção textual.

O que sentimos como realmente nosso? O nosso nome? A comida do prato? A roupa que vestimos? Um carro? Uma casa?
Não será tudo isso apenas posse efémera consoante a importância que lhe atribuímos, que nos atribuí enquanto possuidores? Podemos possuir alguém? Podemos possuir as suas memórias, lembranças e sentimentos? Não sei, apenas sei que posso abraçar alguém que gosto se esse alguém fizer parte das minhas memórias.
Fui ver-te a casa, não estavas só mas tudo estava em silêncio, a multidão estava muda para sempre, e tu no meio de todos eles igualmente mudo e frio. A tua foto. Um sorriso perdido algures num dia que veio muito antes de ontem, um olhar esquecido entre tantos outros olhares igualmente esquecidos, igualmente mudos, igualmente frios. O vaso de flores artificiais sobre o mármore da tua lápide, cheia de folhas secas das árvores despidas que rodeiam a tua casa. Coloco o vaso direito, dou um jeito nas flores de plástico, foi a tia que as comprou no aniversário da tua morte, disse que eram muito mais práticas e sujavam menos, além disso duravam mais. Duravam mais, duravam o quanto podiam, submetidas ao sol, vento, chuva e tudo o mais, resistiam o quanto pudessem tal como tu resististe enquanto pudestes, enquanto quisestes...Quanto tempo passou? 12 anos? Não esqueço...
Quarta-Feira à tarde. Toque de saída, hora de almoço, fim de aulas, alguém, algumas palavras, o meu nome, o teu nome.... morreu.
Algo me perturba nesta tua casa, não me perturba o silêncio, não me perturba o cheiro das flores das outra campas a apodrecer, perturbam-me sim os olhares vazios das fotos, imersos em esquecimento e quietude, numa decomposição progressiva de matéria.
Casa, avó, mãe, ar pesado. Custa-me respirar, o carro do meu pai está à porta, não tinha ido ele trabalhar de madrugada?
- O que aconteceu ao avô? -um abraço, lágrimas-iamos vê-lo hoje ao hospital...
Sinto frio. A tua campa está fria, tu já não és. Como será a morte? Fria?
Nunca foste de muitas palavras, nem de muitos gestos de afecto. Tinhas uma forma peculiar de ser, imerso em ti mesmo, na tua rotina de tascas e amigos de copos, porém sempre foste a chave mestra da família.
O Natal. A mesa corrida, cheia de coisas boas. O cheiro dos assados, os pequenos petiscos, as filhozes, o manjar o arroz doçe, os meus tios, os meus primos, os meus pais, sorrisos pela noite fora, momentos felizes em calor das braseiras debaixo da mesa. Tudo me parece longe, tudo ficou longe, tudo se desvaneceu, quando te foste embora.
Quero lembrar-me, quero esquecer-me, esquecer-me da última vez que te vi, num quarto de paredes nuas, esquecido no meio de outros tantos, entre garrafas de oxigénio e balões de soro. O teu olhar pesado, como censurando os nossos olhares de preocupação. Estavas agressivo, como se os teus olhos nos falassem dizendo:
- Não tenham pena de mim porra!- não chegámos a despedir-nos.
As gasosas, e as mãos que me enchias de amendoins, a tua Vespa e nós dois à cata de figos em figueiras alheias, o teu canivete suíço que ainda hoje guardo na gaveta do meu quarto.
É estranho, lembrar-me de ti, e sentir como se estivesses aqui a meu lado enquanto escrevo, como se me tocasses no ombro e me fizesses recordar mais qualquer do nosso tempo juntos, como se ainda andasses por aqui com a tua boina e o teu passo mudo, que ninguém adivinhava.
Nunca falámos muito pois não? Eu era muito pequeno, tu falavas pouco, fazias das palavras tesouros preciosos que mal gastavas. Nunca dissémos o que pensávamos um ao outro, o que queriamos um do outro.
Chove agora, a tua campa fria em mármore branco lavada a gotas de água, lágrimas de um céu fechado, como foi sempre o eu silêncio. Sorrio enquanto tento encontrar os teus olhos vivos, que diziam as palavras que teimavas em esconder, que talvez fosse tua vontade dizê-las mas nunca soubeste como. Teimam os meus olhos em humedecer-se, foge-me uma lágrima mais teimosa que eu, não queria que me visses chorar...não queria chorar agora, não enquanto falo de ti, não enquanto me lembro de ti, não quero chorar-te.
Vejo o meu pai, os meus tios, a minha avó, todos em soluços e choros. O meu pai. Nunca te tinha visto chorar, nunca te tinha visto fraco, de olhos inchados a fumar compulsivamente, o teu pai a teu lado, frio, sem voz, mudo, quieto no momento e para sempre. Família e amigos, despedidas, lágrimas e tu já longe em qualquer parte que não ali, em qualquer canto que não aquele, em qualquer corpo que não aquele, frio e mudo, quieto....longe, onde?
A tua última casa. Será que é mesmo a tua última casa? Os meus tios e os meus pais abraçados,não vejo a minha avó... será que o que pomos nesta casa és tu? Não apenas um corpo que se irá decompor, apodrecer, misturar-se na terra e água, esquecer-se de si mesmo?....
Sei o que gostava de te ter dito na nossa despedida se ela tivesse existido, no entanto não to disse e guardo para mim como tu guardavas as tuas palavras como um bem tão precioso. Talvez to diga ainda se um dia nos encontrarmos por ai, quando nos cruzarmos onde quer que estejas, quando ambos formos memórias em alguém que gostou de nós e teima em não querer esquecer os nossos sorrisos.


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)


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abril 16, 2005

VERTIGENS

E para segunda re-edição recorri a Milan Kundera com o seu clássico "A insustentável leveza do ser". E porque é realmente sobre existência ou tipo de existência(s) que importa reflectir, deixo-vos o excerto que se segue. As questões (que podem ser, por sua vez, ainda mais desdobradas) que me ocorrem, para já levantar, são: qual o (real) peso da vida? Será este decidido por nós? Será essa pesagem da nossa inteira responsabilidades ou outros factores são, para si, absolutamente determinantes? Qual a melhor opção: uma existência levemente suportável ou uma exitência mais pesada? Uma existência com o facilitismo da leveza ou uma existência com um peso responsabilizador? Que existência? Qual a sua efectiva definição? Poderá haver uma definição?

É natural que quem quer "elevar-se" sempre mais, um dia, acabe por ter vertigens. O que são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor. (...)
Poderia dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra.


(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER. Fotografias de Misha Gordin)


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