março 31, 2005

O ADULTÉRIO

A mulher hesita entre o adultério e uma conversa.
Percebo: na mesa fala baixo e sorri muito
para um homem que não é o seu marido.
Mas ainda há tempo. Por enquanto nada foi feito.
Os pensamentos, felizmente, são reversíveis.
A mulher ao sair do café
poderá ser atropelada: um embate violento, vamos supor.
Poderá, então, quem sabe, permanecer seis meses no hospital,
com o marido ao lado, e revistas;
todos os dias no horário permitido.
E, se tal acontecer, esta mulher não será adúltera.
O homem que não é o seu marido tem um fato escuro,
uma gravata cinzenta atravessada por uma subtil linha branca.
Está contente consigo próprio, é evidente, e com a gravata.
Vejo-os sair do café. Despedem-se. Faço uma pausa,
suspendo os meus projectos, e observo-a a
atravessar a rua para o outro lado.
Um carro passa a grande velocidade,
mas ela já se encontra no passeio, protegida.
Do outro lado diz adeus ao homem de fato escuro,
sorri muito, abana a mão com um movimento excitado.
Ela desaparece por um lado, ele pelo outro.
Encontrar-se-ão de novo: isso é certo. Num outro dia.
Num sítio menos óbvio.
De regresso a mim penso no que é o destino,
e no que é o tempo,
e sei, tenho uma certeza clara: aquela mulher vai sofrer.


(Gonçalo M. Tavares- "1". Edição: Relógio D'Água. Fotografia de Philippe Pache)

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março 30, 2005

DA ESTÉTICA DA DESCONSOLAÇÃO

Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora? Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza!
Quanto mais medito na capacidade, que temos, de nos enganar, mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas. E todo o mundo me surge, em momentos em que a meditação se me torna um sentimento, e com isso a mente se me obnubila, como uma névoa feita de sombra, um crepúsculo dos ângulos e das arestas, uma ficção do interlúdio, uma demora da antemanhã. Tudo se me transforma em um absoluto morto de ele mesmo, numa estagnação de pormenores. E os mesmos sentidos, com que transfiro a meditação para esquecê-la, são uma espécie de sono, qualquer coisa de remoto e de sequaz, interstício, diferença, acaso das sombras e da confusão.
Nesses momentos, em que compreenderia os ascetas e os retirados, se houvesse em mim poder de compreender os que se empenham em qualquer esforço com fins absolutos, ou em qualquer crença capaz de produzir um esforço, eu criaria, se pudesse, toda uma estética da desconsolação, uma rítmica íntima de balada de berço, coada pelas ternuras da noite em grandes afastamentos de outros lares.
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se tinham passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão.
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.


(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO. Fotografia de Alberto Monteiro)

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INSTANTES DE ... "A ESTRADA BRANCA"

Dando cumprimento ao que foi ontem anunciado edito, com este post, alguns poemas de José Tolentino Mendonça, constantes na sua mais recente obra de poesia chegada ao mercado: "A estrada branca". Um livro... um conjunto de poemas que sublinham as preocupações espirituais/de interioridade do autor. Que se debruçam sobre percursos a fazer, sobre interrogações constantes que são necessárias, sobre buscas. Que apontam para recomeços, reiniciações, para experiências importantes ou mesmo imprescindíveis.
No primeiro poema que apresento -"O poema"- o autor faz bastante bem uma espécie de síntese do que é para si a Poesia, sendo que esta permite perceber o que se segue depois em termos de conteúdos, quer aqui quer na totalidade da sua obra poetica. Não vou, pois, fazer mais aprofundamentos teóricos. Opto por vos deixar entrar nos poemas e senti-los à vossa maneira. Neste caso, julgo mesmo ser o melhor, ainda mais depois do que já apresentei no post de ontem.

O POEMA

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visíveis, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.


A ESTRADA BRANCA

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

O PASSO DO ANJO

Pelas escarpas, nos atalhos de areia e erva
em matas sombrias onde as faias se renovam
os animais já não vigiam
já ninguém os persegue

a chuva desenha círculos perfeitos
nos poços dos aldeões
como nos charcos

o restolhar de prata da folhagem
previne do passo do anjo, na escuridão


PLUMAS

Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas velocidades enormes

O amor vive na ponta dos cabelos

O amor, ditam os frios do coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a imprecisa inquietação que nos toma

Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite

Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas
num chapéu de passeio

VIA DEL GOVERNO VECCHIO

Se me trouxeres uma outra luz te explicarei
como se torna um amor imoderado
tão parecido ao anjo que nem nos é dado vislumbrar
a verdadeira passividade não é a do esquecimento
mas a mortal velocidade do desejo
que ninguém suporia a hora alguma

há um segredo comum àqueles desconhecidos
que esbarram um no outro por puro acaso
um olhar branco, um rosto que se volta
e depois no mundo nunca mais se encontram

Eu por mim nunca sei
se estou irremiavelmente longe ou demasiado perto de Deus
às vezes pergunto-me quantas vezes o corvo deverá
bater as suas asas negras
entre o meu corpo e o seu


(José Tolentino Mendonça- A ESTRADA BRANCA. Edição: Assírio e Alvim. Fotografias de José Marafona)

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março 29, 2005

EM CENA: PERDOAR HELENA

Ofereço-vos, hoje, o primeiro texto para Teatro de um... Poeta, que é também Teólogo, Padre, Professor... Trago-vos um texto para Teatro que se encontra desde o passado dia 24- e até 24 de Abril- em cena no Teatro Taborda (Lisboa), com as representações de Alhelí Guerrero, Pedro Martinez, John Romão e encenação de Marcos Barbosa. Trago-vos "Perdoar Helena" de José Tolentino Mendonça.
Originário da Madeira o autor tem, no presente, 39 anos e viu publicada muito recentemente, pela editora Assírio e Alvim, a sua tese de Doutoramento "A construção de Jesus".
No campo da Poesia, José Tolentino Mendonça vê os seus trabalhos editados desde 1990 com o livro "Os dias contados", seguindo-se "Longe não sabia" (1997), "A que distância deixaste o coração" (1998) "Baldios" (1999) e "De igual para igual" (2001). Saído há poucos dias para o mercado, também ao nível da Poesia, "A estrada branca" cujos alguns poemas serão editados aqui no Abismo já no dia de amanhã.
"Perdoar Helena" é, como já disse, o primeito texto para Teatro do autor, sendo a actuação em cena resultante da dramaturgia de Jacinto Lucas Pires, autor do qual já apresentei excerto de uma peça. A representação foi fruto de uma produção conjunta da Companhia O. lilástico e dos Artistas Unidos.
Em termos de conteúdo, é um trabalho que nos fala e/ou faz reflectir, no âmbito de uma viagem pela produção grega antiga/clássica e pelo mundo da própria produção dramática, sobre o Perdão, a Culpa (ou, inversamente, a Culpa e o Perdão), a Responsabilidade, o Destino pessoal, sendo que por isto mesmo, aborda problemáticas relacionadas com o Homem e com o Mundo onde se insere. Por motivos evidentes, e de forma muito particular, é uma peça cujo conteúdo é muito voltado para o Interior. Para o nosso interior. Para o interior do ser humano. Um interior e uma voltagem, evidentemente, imensamento relacionados com a acção, com posturas e posicionamentos, com formas de ser e de estar.
Um texto (e uma peça) que no dizer de José Tolentino Mendonça:

1. É/foi um risco- "Porque é um modo diverso de lidar com a palavra. É passar da solidão em sentido estrito, a que obriga a poesia, para a ideia de companhia, de outras presenças, e pensar que aquelas palavras partirão à procura de uma voz, de um rosto, de um corpo. Os poemas também partem, mas não sabemos à procura de quê."

2. Tem imanente a vertente do ensaio, construindo-se sob a forma de diálogo-"Para mim, a ideia de diálogo é sempre de um caminho comum. A palavra nunca é um fim em si própria. É uma busca, um endereço, uma pergunta, uma seta atirada mais longe. O que procurei no teatro foi que se pudesse pressentir que as palavras servem para fazer um caminho e que determinadas palavras e silêncios nos levam para mais longe, dentro de um certo pensamento. A escrita nunca é, para mim, um exercício de auto-contemplação. As palavras servem para fazer coisas e para tornar outras mais misteriosas, ou mais lúcidas, ou mais obscuras. As palavras têm sempre uma dimensão de transformação. E, no teatro, mais do que a exploração dos pequenos incidentes de uma cena ou de um encontro, tem que haver, como em toda a arte, uma iniciação à vida do espírito. Ou seja, partindo do que é visível, imanente, vivenciado, o teatro pode levar-nos às grandes questões: o que fazemos aqui? para onde caminhamos? chegamos a alguma parte? São esses meios mais fundos da alma humana que me interessa explorar na escrita."

[Citações extraídas da entrevista dada por José Tolentino Mendonça ao "JL" (Jornal de Letras) e publicada no número de 16-29 de Março de 2005, p. 16-17]

Quanto ao excerto da peça:

1. Aqui estamos, escolhidos, ao que parece, pela tecedeira.

2. Pela tecedeira?

1. É assim que surge nomeada na Ilíada. Helena tece as batalhas de Gregos e Troianos... batalhas que ela teria provocado... (enfático) e como é desmedida sua tapeçaria!

2. Helena... Helena...

1. "Para que nos dias futuros/ - explica ela a Heitor- os homens que vão nascer nos tomem em seus cantos".

2. "... surgiu, vinda do seu quarto perfumado e de altos tectos, /Helena, semelhante a Artémis, a deusa da roca dourada/ Pôs-lhe Adastra uma cadeira finamente trabalhada, /Trouxe Alcipe uma alfombra da mais macia lã..."

1. Fios pálidos, fios febris, invisíveis... atraindo a criação para o seu fundo mais fundo. Helena ainda não deixou de tecer.

2. A sua beleza soltava imprevisíveis desastres... assemelhava-se ela à inocente borboleta subindo a sebe dos loureiros, deslumbrante... mas a janela em que ela tocar ruirá, irremediável... a casa que ela atravessar será em breve ocupada pelas chamas, o ombro em que ela docemente pousar será, sem piedade, sacrificado.

1. Não foi ela.

2. As cidades são hoje arrasadas pelos desígnios do petróleo... que aspecto de beleza tem o crude? uma mancha venal, oleosa... Mas a desgraça que o belo ateia, essa desgraça não é mais desculpável...

1. Não... repito que não foi ela.

2. Não foi ela? (irónico) Então era alguém muito parecido. Gente tão diversa na tradição a identifica!

1. Mas é que tens razão... era alguém muito parecido... mesmo... Era um clone.

2. Um clone? Não zombe de mim.

1. Pronto, um eidolon, um simulacro, se quiseres.

2. Que bizarro! E isso é... Eurípedes?!

1. Sim, é o que ele defende justamente em Helena. E já antes dele Estesícoro tratara essa versão do mito. A Helena verdadeira nunca esteve em Tróia. Paris arrastou para lá um fantasma, um ser nuvoloso que se dissiparia no ar, deixando, porém, atrás de si um lastro da mais espessa desventura... Helena é a fidelíssima esposa que Menelau vai resgatar aos intentos do Senhor do Egipto... Toda a perturbação aconteceu por causa de um artifício... um simulacro que os deuses criaram. Pobre filha de Leda.

2. Quase uma década durou a guerra de Tróia... tudo por um engano... pode lá ser!

1. Mas o mundo já conheceu alguma guerra que não fosse fundada no engano? Os soldados desconhecidos cujos túmulos nós veneramos, os vencidos de todas as quarelas, os cortejos dos heróis-mortos...

(...)

2. É que não entendo... E à medida que fala, mais obscuro se torna, mais escondido. Eu esforço-me... digo a mim mesmo isto e aquilo... Mas não entendo...

1. Mas que coisa não entendes?

2. Aquela noite... aquela noite em que cancelou a representação de Helena... aquela noite em que abandonou o teatro... aquela noite em que teve medo...

1. Mas quem te disse que eu tive medo?

2. Porque fugiu... sei que teve medo porque fugiu... a arfar... acossado... Viu que tudo é uma ilusão e ficou paralisado.

1. (gritando) Que sabes tu do medo, que queres dizer? De que me acusas?

2. É tudo um amontoado... a mesma torrente: o sublime, o banal, o grotesco... Nenhuma palavra, nenhuma pedra é inatingível. Desde que nascemos estão as condições reunidas para se levantar o medo... um pânico terrífico... Por isso há um momento qualquer em que se sai a correr com as mãos acima do peito... a nossa voz já não é voz... o nosso olhar são dois poços minúsculos... o incomensurável é apenas um murmúrio, o respirar da escuridão...

(...)

2. (recobrando) É estranho. O que eu sinto agora é que estamos sempre a um passo, quer nos dirijamos para um lado ou para outro... quer se trate da vida ou da morte. E a isso não se pode fugir... Por mais branda que sopre a brisa, por mais branda... a noite penteia as glicínias com o seu ponte aguçado.

1. (pausa) Sabes o povo berbere... os nómadas...

2. Sim...

1. Estão demasiado ligados à ideia da viagem... sair pelo mundo e tornar à mesma casa, na mesma rua, no mesmo bairro de Ítaca, de Nova Iorque... O nomadismo não é uma viagem assim...

1. O nomadismo é uma viagem sem fim...

2. E...

(...)

1. Há um meridiano que todas as vidas cruzam, quer se pense a sua rotação como mortal ou infinita...

2. Também não sei se ouvi falar.

1. Ouviste... digo-te que ouviste... Há um momento em que o coração parece que estanca perante o espaço em branco. Não aconteceu nada, nada parece ter mudado, mas a página branca, a parede branca, a estrada branca assomam como um obstáculo maior que todas as nossas possibilidades...

2. Penso que sigo...

1. Os que viajam, voltam para trás... regressam à sua rua, aos seus tectos amados, aos olhos de Penépole... Os nómadas...

2. E os nómadas?

1. Os berberes dizem que os nómadas desposam o vazio... falam das núpcias com o vazio...

2. Não compreendo.

1. Mas queres compreender?

2. Juro que quero... Mas...

1. Mas... o quê?

2. Quando a verdade se revela, não é para que seja gritada? Não são os grous, de que tanto fala, gritadores dos céus? O seu canto implantado de modo febril na abóbada celeste, tão tempestuoso que quase corta a respiração, não atesta o seu canto a persistência grandiosa da vida?

1. A verdade revela-se para que entres nela. Isto unicamente.

(...)

1. Nem te dás bem conta, não sabes explicar, mas há um dia em que começas. Vais caminhando dentro da tua casa, às voltas, até te perderes. Há um dia, há uma hora exacta em que te deslocas dentro desse mundo que construíste e és um estranho. Por que está isto aqui? Donde terá chegado aquilo?; Quem são estes que se repetem nas fotografias?; Quem juntou tantos livros em meu redor?- perguntas muitas vezes. Mas não tens segurança sobre coisa alguma. Os outros procuram-te, mas não te vêem. Marcam o teu número, com insistência, mas o telefone não toca. Ou se te chamam do princípio da alameda, se uma multidão inteira grita o teu nome já não ouves. Terás medo? Dizes para ti próprio: "Esta incrível paz será o medo?" Vais percebendo, meditando no teu caso, que aquele pouco que hoje ainda te habita estará também a ponto de abandonar-te. És tomado, então, de uma pressa inumana, de um afã... tentas resistir, encontrar um atalho entre o cerco que te fazem as árvores, as trepadeiras, as magras flores do padro, as lianas... Procuras fixar, escrever esse escasso conhecimento que resta. A minúcia, se ainda for capaz da minúcia, pensas, isso será, talvez, uma saída. Marcas então com etiquetas os objectos, um por um, como quem se entrega a um criterioso e interminável inventário, desenhas a carvão setas enormes ao longo de todas as paredes, gravas um mapa de emergência em cada porta, estás já extenuado, vacilante, passou sobre o mundo muito tempo, quando, por fim, apontas o teu próprio nome e o costuras no casaco, para o que der e vier... E sentas-te à espera. Tu não podes saber, mas aquilo que escreveste já não faz parte de nenhuma língua. Em nenhuma língua dos homens aqueles teus traços, todos juntos, poderão algum dia ser reconhecidos como uma palavra sequer. O silêncio conserva em ti os lábios bem fechados. E, no meio desse, como um clarão. Caçador, sê a tua própria presa... isto recordas.

(...)


(José Tolentino Mendonça- PERDOAR HELENA. Edição: Assírio e Alvim. Fotografia: resultante da representação dos actores supra-referenciados)


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março 28, 2005

A MORTE ANUNCIADA DE UM PALHAÇO POBRE

Atendendo à edição de "Satanás" até ao dia de ontem, transita para hoje a apresentação de mais um texto da Paula. E ei-lo que se segue! Tão brilhante como aqueles até agora aqui trazidos. E mais uma vez: um pretexto para a reflexão. Sobre nós. Sobre o Homem. Sobre o que andamos por aqui a fazer. Sobre o que queremos, preferimos ou não queremos. Sobre as nossas opções. As opções de vida conscientes ou inconscientes. Mas sobre as opções. Sobre os enganos. Sobre o que poderá ser mais fácil. Sobre o que, para nós, pode ser enganadoramente mais fácil. Porque queremos assim. Porque sim.

Meninos e meninas, senhores e senhoras, admirável público: O maior espectáculo do mundo vai começar...

Hoje há circo, pintam-se as grades (se há dinheiro para a tinta, então mãos à obra), ergue-se a tenda oval com uma lona cuidada, pois é ela que dá vida ao espectáculo (uma lona nova e bonita, atrai com certeza mais público). A gente do circo levanta-se bem cedo. Como tudo na vida, é preciso saber fazer de tudo um pouco. Como o dinheiro não abunda, não é possível pagar aos pintores, aos electricistas e aos serralheiros. Ao invés, utiliza-se a matéria de que são feitas as verdades: a improvisação.

Já é quase noite, e já se varrem as bancadas, já se limpam as cadeiras e já se recolhe o lixo de outros circos que por ali passaram. Arreia-se o pano da roda, alimentam-se os leões, escovam-se as crinas dos cavalos, e enterram-se as fezes dos animais para evitar as moscas e as doenças. A noite aproxima-se, e o cheiro do algodão doce já encanta as crianças. “Boa noite, senhoras e senhores! Boa noite, meninos e meninas! É com uma grande alegria que este Circo apresenta um grande espectáculo. E começando a sua apresentação, os irmãos Pompidu, num verdadeiro jogo de malabarismos!”

Os ilusionistas, trapezistas, acrobatas, equilibristas, contorcionistas, domadores, elefantes, ursos, cobras, tigres, cavalos, estão prontos à entrada da tenda. Mas, por agora, aí vem ele...a alma do circo! Um circo que não tem um bom palhaço, não pode ser um bom circo. Gritem e batam palmas, acompanhem os pagodes, os tambores, as trombetas, que aqui vem o Palhaço Pobre...


O Palhaço Pobre entra em cena, sorriso fixo, pensamento algures. A sua caracterização pesada e grotesca, por ele construída na perfeição, impressiona sempre os espectadores, como seja o cúmulo do contra-senso. Ele entra num dos anéis da pista e senta-se à espera da carícia da crina do cavalo, mas é um coice que o atira ao chão. A primeira gargalhada da noite é-lhe devida, pois começa para este palhaço a reprodução de um drama de iniciação e de martírio. As pessoas observam-no curiosas e temidas, sobrepostas em filas e filas de rostos, aos quais o projector lambe ávido, um a um, como uma língua em busca de um dente perdido. Sob o rufar surdo do tambor e sobre a fanfarra das trombetas, o palhaço sobe o escadote em direcção ao nada, como se procurasse a saída celestial de qualquer tragédia monumental. O público ri ainda, porque sabe, ao contrário do palhaço, que a escada conduz ao nada, ao abismo, ao precipício. Lá em cima, este sorri ao público, desequilibra-se, e cai sobre a rede que atravessa todas as pistas do circo. Nova gargalhada surte entre os espectadores. Quando desce ao chão de areia, um silvo agudo de um violino acompanha o seu triste pesar de ter querido ir a todo o lado, e não ter chegado a lado nenhum. Após o sinal da primeira tristeza, voltam a soar as rufadas do tambor, e volta o cabriolar das suas palhaçadas. Mas chegado o momento de cair em transe, os músicos, subitamente inspirados, perseguem-no entre as suas expirais de êxtase como corcéis grudados à plataforma de um carrocel tomado de loucura. Porém, nesta noite, o riso dos espectadores parece-lhe afoito, torpe e miserável. Não são risos cristalinos que este ouve, mas um riso camuflado de mofas e assobios, detritos e outros projécteis de maior solidez. A face do palhaço, tão bem apagada dentro da maquilhagem, torna-se sorumbática. O riso surge-lhe cada vez mais irritante aos ouvidos, até que se torna insuportável. O Palhaço Pobre sai de cena. O público, todavia, espera impacientemente que este regresse, envolto numa áurea impaciente, desconfiada, azeda, aplaudindo sicromáticamente a música numa irada explosão de escárnio. O palhaço não regressa pela primeira vez.

Na sua caravana, o palhaço retira a máscara e ganha a forma de homem. É bonito, mas velho, com rugas que lhe sugam os olhos e a boca. Tem uma cara melodiosa, triste e sonâmbula. Aquela cara não tem vida. O palhaço pensa, enquanto lava a face, que as focas, independentemente do que sejam obrigadas a fazer, são sempre focas; o cavalo, um cavalo; a mesa, uma mesa. No entanto, ele, embora permanecendo um homem, é obrigado a tornar-se em algo mais: tem de assumir os poderes de um ser excepcional, dotado de um excepcional talento, tem de fazer rir as pessoas. Porquê? Sem a máscara, sem o nariz postiço, sem os sapatos, sem a roupa larga e desmedida, ele resume-se a um vagabundo, desconhecido. Ninguém o reconhece, flutua anonimamente entre os milhares a quem ensina a rir por cada cidade que passa. Lágrimas percorrem a sua face, uma face lavada, suja e limpa ao mesmo tempo. O palhaço, enquanto palhaço ri, mas enquanto homem, chora. “És por acaso um palhaço?”, pergunta-se a si próprio, e observa-se no espelho. “Sim, és um palhaço, e ages como te deves comportar. O público paga e quer rir. É apenas isso que ele sabe fazer.” É então que ele percebe que o mundo sem palhaços nunca ri, nunca agita os braços. O público ri com o palhaço, numa luta permanente para conseguir suster as lágrimas. A sua actuação nada mais é, diz para consigo, do que uma alegria criada pela súbita interrupção da rotina de uma vida inteira. E assim, o palhaço percebe finalmente, que o público ri porque há muito, muito tempo, que não conhece a felicidade. A descoberta deixa-o tão agitado que arde de impaciência por voltar à pista e agradecer ao público por este os fazer feliz. Um palhaço nunca chora, apenas ri.

Enquanto o palhaço veste a camisa de flanela para se deitar e dormir, ouve uma vendedora ambulante, fatigada do negócio, que canta:


É n´alegria do Circo
Que se descobre a alegria da Vida
Pois o mundo vive sob uma tenda de linho
Sem saber que o Circo é Vida,
E que a Vida é um Circo.

Pouco depois já dorme. É um sono pesado, no qual se abre o pano de um sonho de um humilde cenário de teatro. Uma trupe de saltimbancos percorre uma estrada, onde a relva é de plástico, e os arbustos de cartão pintado. A lentidão e o ranger das rodas empoleiradas de uma carroça trazem os prisioneiros de um circo decadente e sem vida. Os palhaços choram, sentados naquele pedaço de madeira ambulante, como envoltos numa armadilha do destino, enquanto as rodas de madeira da carroça chapinham as poças d’água. O povo que os espera, zomba e humilha a trupe de saltimbancos, atira-lhes pedras, ovos e lama. A estes mendigos travestidos de palhaços só lhes resta a sua peregrinação eterna. Esta é a miséria da alma, a limitação da condição humana. Um dos palhaços é ridicularizado pelo povo zombeteiro por carregar sobre si, o peso das desgraças humanas. Ele traz sobre o seu torso, o escárnio dos que abusam, dos que matam, dos que fazem sofrer, e isso faz dele um palhaço sem alma. Tal facto provoca risos a partir da sua própria decomposição espiritual.

Os palhaços entram na pista. A maquilhagem que pesa sobre eles funciona como uma espécie de máscara que, com as suas cores e formas artificiais, insurge-se como um escudo do mundo, uma forma de esquecer os antigos traumas, transformando o público (seres reais) em autênticas personagens. O mundo esconde-se de si mesmo na cara desta trupe. Tudo permanece na mesma, apenas porque já nada ali se passa. A cúpula desapareceu, os andaimes da tenda caíram. Em vez das habituais bancadas circulares, erguem-se ali, em declive, suave e direitas ao céu, autênticas paredes de pessoas. Não se ouvem gargalhadas, apenas simples murmúrios. Estão ali dependuradas, suspensas num espaço insondável, estas enormes multidões de espectros, cada um e todos crucificados. Os palhaços tentam fugir da arena, mas qualquer que seja a direcção da fuga, as saídas aparecem-lhes bloqueadas. Em desespero de causa, um dos palhaços lança-se sobre um escadote, começa a subi-lo febrilmente, e sobe, sobe até lhe faltar o fôlego. Ao ver os gemidos e os soluços da incontável multidão que os abafa, este desmaia e cai para trás no vazio. O público começa a rir, um riso reprimido de início, crescendo depois gradualmente para um riso oceânico. O palhaço caído recupera a consciência, e, é nesse momento exacto em que reconhece a existência de milhares de espelhos à sua volta, que este se apercebe que os espectadores não se riem da sua queda, mas de si mesmos. Estes palhaços não estão na pista para criar ilusões de felicidade no público de olhar triste, mas para soltar a raiva cega da sua própria humilhação. O público ri-se do mal infligido e sofrido por ele mesmo. O palhaço raciona com tal rapidez que na breve e última fracção do seu sonho, vê reconstruir-se em si todo o espectáculo da sua vida. É a própria revelação que se afunda com ele, pois sabe agora ter havido um instante em que tudo lhe é esclarecido. É altura de acordar.

No dia seguinte, emocionalmente exausto pelas devastações do sonho, decide ficar na caravana. Senta-se diante do espelho, estudando o rosto. Tem por hábito, antes de aplicar a tinta, contemplar-se durante um longo espaço de tempo. É a maneira de se preparar para a representação. O sonho, embora já esquecido pela luz da manhã, deixou nele um gosto azedo sobre a natureza humana. Se sempre se apoiara na ideia de que o ideal da felicidade é ser ela mesma contagiante, a possibilidade de que a torpeza do espírito pudesse estar ela mesma aliada ao riso desafogado, causava-lhe náuseas. Para ele o mundo é triste, mas real, feio, mas belo. Um mundo louco, cheio de contradições, como uma criança mimada. A sua função no mundo reside em emprestar-lhe a ele, o que a vida teima em retirar-lhe - a alegria. O mundo não pode ele próprio fazer parte do espectáculo. Pesa-lhe demasiado sobre a alma, saber que a humanidade seja feita de malabarismos, de trapézios. Ao mesmo tempo, que reflecte, senta-se a olhar para o seu rosto amargurado e de repente põe-se a apagar a imagem e a impor uma nova, aquela que ninguém conhece, mas que em toda a parte é tomada como sua: O Palhaço Pobre enquanto Homem. Mas, o verdadeiro de si, ninguém conhece, nem mesmo os amigos, pois as constantes representações fizeram dele um homem só. Assim, ali sentado, invadido pelas recordações de milhares de outras noites diante do espelho, começa a compreender que a sua vida separada de tudo, esta vida que egoísticamente defende como sua propriedade exclusiva, é a vida de todos. Um Palhaço só se serve a si mesmo como espelho do mundo. A boca larga e disforme, a lágrima presa no canto do olho, a distinção entre o pobre e o rico, é exactamente o quadro pintado de forma grotesca do que é na verdade a humanidade: - um riso, um coice e uma escada dirigida ao nada, apenas isso. “Por isso, é preciso demonstrar ao mundo que esta secreta existência que supostamente preserva a sua identidade, de forma alguma é vida, nada é de facto, nem mesmo a sombra de uma vida. O público precisa de se aperceber que no outro lado do seu espelho, não vive um palhaço, mas um homem, como eles mesmos, fazendo as mesmas coisas absurdas, insignificantes, necessárias que tantos outros fazem. Só assim, o mundo poderá encontrar a esperança, a felicidade e a plenitude dos dias. Esta noite não vai aparecer como Palhaço Pobre, mas como o homem que nunca ninguém ouviu falar. Estranho como todos vêm ao circo à procura de si próprios, mas basta um pouco de tinta gordurosa, um nariz falso, uns trapos carnavalescos para uma pessoa se transformar em ninguém. É o que nós somos – ninguém. E, ao mesmo tempo, toda a gente. “Não é a mim que eles aplaudem, mas a eles próprios. Aprendo agora, que, sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos, aquele último número mais perigoso que exige o rufar absurdo do tambor – deixarmos de ser o que não somos, para aprendermos a ser o que não queremos ser. “ O palhaço pensa então, em encarnar, não a pele do Palhaço Pobre, mas o próprio público. Levanta-se e, ao sair, olha-se no espelho, capta um débil simulacro de sorriso deslizando nos seus lábios. Fecha a porta sem ruído e, em bicos de pés, dirige-se para a tenda do Circo.

Enquanto caminha a passos largos em direcção do enorme recinto de lona, cantarolando baixinho, a ideia que momentos antes se apoderou dele, começa a tomar forma, cada vez mais distintamente. “Em vez de risos e aplausos receberás sorrisos. Pequenos sorrisos de satisfação – e é tudo. Mas é justamente o próprio tudo...mais do que alguém pode pedir. Ao colocares um espelho em frente do público, aliviarás as pessoas dos seus fardos. Isso torná-las-á felizes, mas a ti tornar-te-á ainda mais feliz.” Mal pode esperar pela entrada em cena, tão desejoso está de pôr o seu plano em execução. “Esta noite, darei um espectáculo como nunca se viu. Morrerá o Palhaço Pobre, para nascer um novo ser...um ser humano.”

E agora, senhoras e senhores; meninos e meninas! Para o vosso prazer e entretenimento, este Circo tem a honra de apresentar...o Palhaço Pobre!

Alguém envolto numa capa, entra com uma furiosa impaciência sob o foco do projector, acompanhado pelos guinchos do violino. A partir do momento em que os seus pés afloram a areia e a serradura da pista, deixa cair a capa (não premeditara qualquer acto, muito menos o ensaiara). Naquela pista, encontra-se um homem, nu, indefeso, velho, enrugado nas faces, peles descaídas, calvo, simples, erguendo sobre si um ar sonâmbulo. O público, porém, não ri e nem sequer sorri. A pouco e pouco, murmúrios vão quedando-se sobre as bancadas até formarem um grito selvagem uniforme. O público não gosta. Gritos, lama, pedras, urgem em direcção do palhaço transformado em homem. Bem pequena é a compreensão do público! Bem pequena é a compreensão de qualquer um quando o nosso destino está em jogo. É nesta raiva que o homem, se apercebe que ser palhaço é ser o peão no xadrez do destino. Na pista, a vida não passa de um mudo espectáculo feito de cambalhotas, bofetadas, pontapés – um nunca acabar de fintas e contra-ataques. O idolatrado palhaço! O bem-amado palhaço cujo privilégio especial consiste em reviver os erros, as loucuras, as idiotices, todas as incompreensões que afligem a espécie humana. Ele cometeu o erro de avançar para dentro do espelho, em vez de torneá-lo. “Meu Deus, e pensar que um homem pode armar tais ratoeiras a si próprio! Hoje muito feliz, amanhã miserável! Que idiota”. Porém, o público não para de querer agredir o homem, como se quisesse partir o espelho de si próprio. O palhaço convertido em homem, tenta sair da pista, mas por todo o lado vê o povo enraivecido. Ao ver o escadote, lança-se sobre ele, subindo freneticamente, e sem fôlego. Não demora muito a que este seja tomado por um estado de cansaço. Vê um anjo caminhar para ele – é o anjo da libertação. Vai lançar-se-lhe nos braços, quando uma nuvem escura o desequilibra e o derruba. Sem rede, e sem um gemido sequer, o homem e o palhaço caem, ambos, no chão de areia e serradura. Ouve-se uma prolongada explosão de risos. Os espectadores berram, batem os pés, assobiando. Ao ver o público a rir e a aplaudir, o mestre-de-cerimónias grita:

Senhoras e senhores! Meninos e meninas! Como é tradição neste Circo, o espectáculo tem de continuar! Que venham agora os ilusionistas...


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografia de José Marafona)

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março 27, 2005

SATANÁS- 5

O padre Ernesto, que esteve a rezar cerca de meia hora, levanta-se, benze-se e abre a porta do quarto para se dirigir ao escritório da casa sacerdotal. Irene, a jovem encarregada da limpeza e da cozinha, diz-lhe no corredor:
- A dona Esther já está à sua espera no escritório.
- Obrigado, Irene - responde o padre, apressando o passo e, por alguns instantes, os seus olhos detêm-se no corpo esbelto e voluptuoso da jovem.
Efectivamente, na salinha que faz as vezes de escritório, está uma mulher volumosa, de uns quarenta anos, vestida de preto e com os olhos injectados de sangue. Levanta-se para o cumprimentar.
- Boa tarde, padre.
- Boa tarde, filha, senta-te.
O sacerdote instala-se numa confortável poltrona diante dela, abre os braços e diz numa voz afectuosa e amigável:
- Bom, diz-me em que te posso ajudar.
A voz da mulher é apagada, ténue, muito fraca, revelando uma enorme fadiga e longas noites de insónia.
(...)
- Estou desesperada, padre, já não aguento mais.
- O que se passa?
Ela abre a carteira, tira um lenço creme e limpa as lágrimas.
- Aviso-o de que não quero que ninguém fique a saber disto, padre, não quero um escândalo, nem que a minha casa se transforme num foco de bisbilhotices e mexericos.
- O que me contares não sairá destas quatro paredes.
- Não quero andar por aí nas bocas do mundo.
- Bem, que se passa?
- Comigo nada, padre, é com a minha filha.
- Quantos anos tem ela?
- Acabou de fazer quinze. É uma beleza.
- Tem irmãos?
- Não, padre, é filha única.
- Tem uma boa relação convosco?
- Vivemos as duas sozinhas, padre. O senhor sabe como são os homens, vão semeando filhos e depois abandonam-nos sem que ninguém os condene.
- É uma rapariga ajuizada, sossegada?
- É um anjo, padre, se o senhor a visse... As freiras do colégio não se cansam de a elogiar.
- Então qual é o problema?
A expressão da cara da mulher transforma-se, ela abre os olhos, cora, franze a testa de uma maneira quase cómica, burlesca, e diz:
- As vozes, padre, as vozes...
- Que vozes?
- A minha menina está possuída por vozes que falam de coisas horríveis.
- Como?
- Pessoas malignas, espíritos do mal, padre, que falam através dos lábios da minha menina.
- Não a compreendo - diz o sacerdote, franzindo o sobrolho.
- É quase sempre à noite, quando se vai deitar. As pessoas entram dentro dela e começam a dizer obscenidades, a insultar, a prever factos terríveis.
- A senhora está a dizer-me que a sua filha está possessa?
- Por demónios, padre, por espíritos que vêm do inferno.
- Como é possível?- pergunta o padre Ernesto, agitando os braços e a cabeça negativamente.
- Sim, padre, tem de a ver com os seus próprios olhos.
- Já não existem possessões neste século, senhora. Tem de a levar a um hospital para que lhe façam exames neurológicos e psiquiátricos.

Chegam diante de uma casa colonial localizada no centro de uma ruela mal iluminada. Uma trepadeira cobre uma grande parte da fachada principal.
- É aqui - diz a mulher, metendo uma chave na fechadura de uma porta de madeira.
Assim que atravessa o umbral, o padre Ernesto sente o aroma delicioso de um conjunto de flores vistosas que brilham com a pouca luz que chega até ao jardim interior da residência. A seguir descobre o cheiro exalado pelas paredes, pelos tectos e pela madeira das portas e dos móveis que decoram o local. Reconhece esse odor porque é o mesmo que se respira em mosteiros e conventos, em museus, nas câmaras municipais rurais, nas velhas herdades esquecidas e em certos recantos da sua própria igreja quando desaparece o efeito dos detergentes e dos desinfectantes. Finalmente, quando vai subido as escadas que levam ao primeiro andar, o seu olfacto regista um cheiro nauseabundo e desagradável: o cheiro das canalizações subterrâneas, o das águas negras que viajam pelos esgotos interiores da cidade, um cheiro a fedores corporais acumulados, urina, excrementos, vómitos, sémen e fluxos menstruais. São tão intensas aquelas emanações que vêm de cima que o padre Ernesto sente um ardor no interior dos olhos. E é nesse momento que tem um pressentimento, um palpite, a suspeita de que uma presença anormal está com eles dentro de casa.
(...)
Dona Esther pára diante da porta de um dos quartos do primeiro andar, respira profundamente e diz:
- Vou deixá-lo sozinho com ela, padre. A esta hora já está deitada.

Ela volta-se e desce as escadas sem olhar para trás. O padre Ernesto abre a porta e respira um ar pestilento, húmido, como se estivesse a entrar de repente num buraco de imundícies, numa cloaca imunda ou num dos mais sujos recantos do inferno. Sente vontade de vomitar mas consegue controlar o seu corpo pouco a pouco, inspirando devagar com a boca semiaberta, descontraindo o corpo, acostumando-se às rajadas fétidas e pestilentas. Fecha a porta e senta-se na única cadeira que há no quarto. Na cama, deitada de barriga para cima, está a rapariga com uma camisa da noite branca que a cobre até aos tornozelos.
(...)
- Agrado-lhe, padre? - diz de repente uma voz aflautada, felina, e a jovem ergue as pálpebras deixando a nu uns cintilantes olhos azuis.
- A tua mãe quer que conversemos.
- Não respondeu à minha pergunta.
- És muito bonita - garante o padre com calma, sem grande convicção, tirando importância ao que está a dizer.
- Deseja-me?
- Não vim ofender-te, filha.
- Sei que lhe agrado, padre, que quer tocar-me, acariciar-me.
- Estás enganada.
- Aproveite padre, toque-me onde quiser.
- Não me insultes dessa forma. Lembra-te que sou um sacerdote.
Ela sorri com uma careta perversa e a voz que o padre Ernesto ouve a seguir é grossa, varonil, como se um homem adulto tivesse acabado de entrar no quarto e estivesse também na cama, junto dela.
- Qual sacerdote qual carapuça, cão lascivo, verme asqueroso.
Um arrepio percorre as costas do padre Ernesto de cima a baixo.
- Pensas que não sei quem és? Achas que me vais enganar com os teus sermões piedosos? Olha o que vou fazer para ti, porco.
A rapariga levanta a camisa da noite até ao umbigo, mete a mão numas cuecas pequenas e insinuantes e acaricia o sexo com os dedos da mão direita.
- Preciso de um homem, padre - a voz torna a ser a de uma jovenzinha delicada.
- Já chega - diz o sacerdote com a voz agitada.
Ela tira a mão e explode numa gargalhada grotesca.
- Eu sei quem és, porco - continua a dizer a mesma voz.
- Não sei de que estás a falar - afirma o sacerdote transtornado, enjoado, com o estômago agitado.
- O pedacito de carne que tens entre as pernas dá-te trabalho, hã?
- Cala-te!
- Por aí ofendes a tua fá, hã?... Cabrãozinho libidinoso...
(...)
A voz grossa volta a surgir e termina dizendo:
- Filho da puta, criminoso, és um cachorro cheio de pecados.
O padre Ernesto não aguenta mais, levanta-se e, com um salto, chega até à porta, abre-a e sai do quarto com falta de ar, chorando. O pior é que, ao fechar a porta, repara numa forte erecção que lhe levanta as calças e que as avoluma de uma forma vergonhosa, contra a sua vontade.


(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas de Debates. Fotografias: William Ropp)


Com este post concluo a apresentação de excertos de "Satanás". Espero que tenham gostado e que as minhas escolhas tenham sido suficientemente significativas para vos atrair para a leitura integral da obra. Um abraço a todos :)

Publicado por void em 04:21 PM | Comentários (2) | TrackBack

SATANÁS- 4

A campainha do telefone arranca Andrés das suas reflexões. Deixa a gravura em cima da secretária e levanta o auscultador:
- Está?
- Andrés?
- Sim, sou eu.
- É a Angélica.
- Olá, tudo bem?
- Preciso de te ver - diz ela com a voz num sussuro.
- Agora?
- Podemos conversar esta tarde?
- Não pode ser amanhã?
- É urgente.
- Aconteceu-te alguma coisa?
- Preciso de falar contigo.
- E tem de ser hoje?
- É muito importante, Andrés.
- Okay, diz-me onde.
- Na bilheteira do teleférico que sobe até Monserrate.
- Monserrate hoje?
- É um sítio tranquilo, sem gente, sem carros. Tenho de te contar uma coisa muito importante.
- A que horas?
- Achas bem às três?
- Combinado, às três na bilheteira.
- Não faltes, Andrés.
- Oiço-te como se fosse uma chamada de longa distância. O que te aconteceu?
- Prefiro dizê-lo pessoalmente.
- É grave?
Entre gemidos e suspiros ouve-se a voz longínqua dela:
- Muito.
(...)
Uma chuvinha começa a cair sobre a cidade às duas e meia da tarde. Andrés vai num táxi pela Avenida Circunvalar, contornando as montanhas, e observa as gotas de água batendo contra os vidros do carro. Interroga-se sobre que diacho terá acontecido a Angélica e deseja intimamente que não seja uma situação irremediável, mas antes um sofrimento passageiro, uma prova que depois de superada não deixa marcas indeléveis nem sequelas destrutivas. Às duas e cinquenta paga o que indica o taxímetro e desce diante da bilheteira do teleférico de Monserrate.
Angélica está à espera dele sentada nas escadas da antiga estação. Assim que o vê, atira-se a ele e abraça-o sem o largar, como se fossem enviá-los para países diferentes e estivessem a despedir-se nas partidas internacionais do aeroporto. Ele afasta-a um pouco para lhe dar um beijo e é nessa altura que descobre os pontos violáceos na cara dela. São manchas pequenas, minúsculas mas bastante visíveis, como se a pele manifestasse os rigores de uma varicela ou de um sarampo.
- O que te aconteceu? - pergunta-lhe sem a beijar.
- É disso que te quero falar.
(...)
Um longo silêncio augura uma mudança no rumo da conversa. Angélica pergunta de chofre:
- Porque me pintaste daquela maneira?
- Referes-te ao retrato?
- Sim.
- Não sei.
- Mas porque me pintaste como Proserpina nos infernos?
- Não sei, Angélica, pareceu-me ver em ti algumas parecenças com o quadro de Rossetti e quis prestar-lhe uma homenagem.
- Não estás a ser sincero comigo. Isto é muito importante para mim, não me evites. Diz-me por que apareço no Hades com as faces picadas e carcomidas.
- Não sei, juro-te...
- Tu não querias pintar-me.
- Não.
- Porquê?
Andrés apercebe-se da angústia que aflige Angélica, da necessidade que tem de uma resposta sincera e transparente. Não se pode furtar a isso e responde:
- Há algumas semanas fiz um retrato do meu tio Manuel. Pintei-o com algumas malformações na garganta. Telefonou-me passados alguns dias dizendo-me que tinha um tumor cancerígeno muito avançado precisamente nessa zona. Está em tratamento mas não melhora. O mais certo é morrer rapidamente.
- E porque o pintaste assim?
- Não sei, Angélica, sinto-me como se estivesse num pesadelo, é uma força irracional que de repente se apodera de mim, como se estivesse em transe, possesso, invadido por imagens que se impõem na tela. Tive tanto medo que nunca mais quis voltar a fazer retratos.
- Por isso não querias pintar-me.
- Sim.
- E por isso ficas com febre e adoeces.
- O desgaste deixa-me prostrado.
Angélica passa as mãos pelo cabelo, observa-o de soslaio e pergunta-lhe:
- O que sentiste quando estavas a pintar-me?
- A mesma coisa, vi-te com olheiras, cheia de chagas e o pincel encarregou-se de dar forma, na tela, a essas visões.

(...)

- Tenho de contar-te uma coisa muito grave - diz-lhe Angélica. Ele observa-lhe a pele da cara manchada pelos pequenos pontos que a desfiguram.
- Diz.
- As borbulhas que tenho são uma doença que se chama Molusco Contagioso.
- O que é isso?
- É uma doença de pele.
- Mas tem cura, imagino.
- Não é essa a questão.
- Não compreendo.
(...)
- Explica-me por que razão não é importante curar-se - insiste Andrés baixando a chávena e colocando-a na mesa.
- Porque o Molusco Contagioso é apenas uma manifestação de uma doença muito mais grave.
- Como assim?
Ela deixa de lado o café e diz em voz baixa:
- Fiz alguns exames e tenho sida, Andrés.
Angélica baixa a cabeça e limpa as lágrimas com a mão. Andrés continua a sentir que não está na realidade, mas num pesadelo do qual desajaria acordar quanto antes.
- Tens a certeza?
- Fiz um segundo exame e também deu positivo.
- E sabes desde quando és seropositiva?
- Não.
- Isso significa que também posso estar contagiado.
- Nós usámos sempre preservativo, lembras-te? - diz ela, deixando de chorar e assoando o nariz com os guardanapos da mesa.
- Então?
- Creio que foi depois, Andrés.
- Com quem estiveste durante este tempo?
- Esse é o problema - Angélica continua a falar num tom de voz muito baixo, quase em segredo.- Quando acabámos a nossa relação senti que ia morrer, não queria fazer nada, nem sequer levantar-me da cama. Mas depois odiei-te, senti que me tinhas ferido injustamente.
- Não foi isso, Angélica.
- Eu sei, eu sei, mas foi o que senti nessa altura. Quis vingar-me. Então comecei a ir para a cama com um e com outro. Ia a todas as festas e acabava na cama com o primeiro que mo propusesse. Como estava a tomar anticoncepcionais era-me indiferente que o tipo usasse preservativo ou não. A maior parte das vezes estava bêbada ou drogada. Cheguei a estar com dois ou três homens no mesmo dia.
Andrés suspira sem dizer nada. Ela conclui:
- Fui também para a cama com vários estrangeiros. Julgo que foi um deles que me contagiou.
Soam os sinos da igreja. Andrés ouve aquele ruído metálico atravessar o ar invernoso da tarde e sente, num instante revelador, que é novamente dono de si próprio, que chegou finalmente à realidade.


(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas de Debates. Fotografia de William Ropp)

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março 26, 2005

SATANÁS- 3

Maria chega à rua e percorre alguns quarteirões até à avenida principal. Estica o braço e um taxi pára junto dela para a recolher. Abre a porta traseira e senta-se com os joelhos unidos e com a carteira no colo.
- Para a Carrera Quince com a Calle Setenta y Seis, por favor.
- Claro, boneca - diz uma voz amável e juvenil.
Fecha a porta do taxi e observa pela primeia vez o aspecto do taxista. É um homem de uns vinte e quatro anos, com uns jeans e uma camisola de algodão desportiva, que a observa de vez em quando através do espelho retrovisor. Maria apercebe-se de que a cadeira do co-piloto está inclinada para a frente, permitindo ao passageiro esticar as pernas à vontade.
O taxi roda pela Avenida Diecinueve em direcção ao Sul. No semáforo da Calle Cien, em vez de voltar à esquerda para se dirigir à Carrera Once, o condutor volta à direita, na direcção da Auto-Estrada Norte.
Maria repara no engano:
- Para onde vai?
- Vou pela auto-estrada.
- E porque não vai pela Carrera Once?
- Por aqui é mais rápido.
(...)
O taxi passa a Calle Noventa y Dos e segue em frente. O homem conduz a uma velocidade média, sem pressa, como se gozasse da tensão crescente que se sente dentro do automóvel.
- És muito pouco conversadora, boneca.
- Tenho pressa.
- São assim as meninas ricas, não gostam de falar com os pobres.
- Eu não sou nenhuma menina rica.
- Deixe-se de tontices, lourinha - a voz é agora agressiva, dura, intimidativa. - Se fosse pobre não andaria na farra na Zona Norte, nem viveria onde vive, nem usaria a roupa que usa.
- Engana-se...
- Cale a boca, lourinha, que estou a ficar com mau génio.
- Faça o favor de parar. Vou sair.
- Ah sim?
- Pare aqui, por favor.
- Você julga que pode dar ordens. Não maninha, enganou-se. Aqui quem dá as ordens sou eu.
A determinada altura, o banco do passageiro levanta-se e, da parte dianteira do carro, um homem que estava agachado e bem escondido aparece como por magia e por artes de prestidigitação. É da mesma idade do condutor e tem uma navalha na mão direita.
- O que é isto? - pergunta Maria com o coração a bater aceleradamente.
- Surpresa - diz o homem com uma voz esganiçada - , eu sou o coelho que estava dentro da cartola.
(...)
O carro atravessa a Carrera Treinta, a Avenida Sesenta y Ocho e a Avenida Boyacá e pára num descampado, nos arredores de Bogotá. O condutor desliga o motor. O silêncio da noite é total. Um ou dois carros ocasionais ouvem-se de vez em quando ao longe. O co-piloto ordena:
- Vamos para baixo, loirinha.
Maria sente que as pernas não lhe respondem muito bem. O medo mantém-na paralisada, com os músculos imóveis e entorpecidos.
- Não ouviu, loirinha? Acorde.
Acaba por conseguir abrir a porta e sair do carro desajeitadamente. Em pânico, observa os números da matrícula pintados num dos lados do taxi. Os dois homens saem sorridentes e aproximam-se esfregando as mãos. O que vinha a conduzir tira uma moeda e pergunta ao outro:
- Cara ou coroa?
- Coroa - responde o da navalha.
A moeda dá voltas no ar e cai na palma da mão do condutor.
- Cara - diz este. - Calha-me a mim primeiro.
Aproxima-se de Maria e ordena-lhe:
- Vamos, meu amor.
- Por favor, não me façam mal.
- Vamos - torna a dizer o homem, empurrando-a até a deixar reclinada no banco traseiro do carro. Senta-se ao lado dela e fecha a porta.- Vamos, tiro-lhe a blusinha para agarrar nessas tetas.
- Peço-lhe.
(...)
Tira o casaco com brusquidão, dá um puxão, rasga-lhe a blusa e atira-a para o chão do carro, puxa o soutien para cima e começa a beijar-lhe e a acariciar-lhe os seios, respirando como um animal.
- Que par de tetas tão boas, bonequinha.
Maria não consegue mexer-se nem dizer nada. Vê o homem beijá-la e apalpá-la mas não sente nada, é como se o seu corpo pertencesse a outra mulher e ela estivesse a presenciar a sua violação.
(...)
Despe-se rapidamente e, com o membro erecto, inclina-se sobre o corpo de Maria.
- Abre as pernas, bonequinha.
Separa-lhe as pernas à força e penetra-a violentamente, com a respiração entrecortada, como se estivesse a afogar-se. Repete como um autómato enquanto mexe as ancas de cima para baixo:
- Puta, puta, puta...
Maria não sente nada. Olha para o tecto do carro com o olhar perdido, alheado, desligado da realidade. O homem emite um longo gemido, fica imóvel um instante e senta-se de novo junto ao corpo da rapariga. Nessa altura repara nas manchas de sangue nas pernas dela, no banco, no seu pénis - agora flácido - e nos testículos.
- Meu amor, não me disseste que eras virgem.
Veste-se e abre a porta do carro. O homem da navalha está encostado à mala, passando a navalha de uma mão para a outra.
- Mano, a bonequinha era virgem.
- Sim?
- Tirei-lhe os três, imagina a delícia.
- Deixa passar, mano, que agora é a minha vez - diz o co-piloto, entrando no carro de sopetão.
Fecha a porta, pousa a navalha no chão e tira a roupa sem dizer uma palavra. Agarra Maria pelos ombros e dá-lhe a volta, pondo-a de barriga para baixo.
- Vou tirar-lhe a outra tampa, boneca, a do cuzinho.
Afasta as nádegas avantajadas de Maria com a mão esquerda, agarra no membro com a direita e mete-o pouco a pouco pelo ânus dela até o sentir bem aberto e dilatado. Não chega a durar cinco segundos e ejacula com os olhos fechados. É um acto rápido, prematuro. Maria chora com a cara afundada no banco. O tipo levanta-se, veste-se, agarra na navalha, dá uma palmada no traseiro de Maria e diz-lhe:
- Obrigado por esse rabo, boneca.
Sai do carro e dirige-se ao seu companheiro:
- Despachado, mestre.
- Que tal? - pergunta-lhe o condutor, aproximando-se.
- Bom, fui-lhe ao cu.
- Outra que perdeu a virgindade.
- Sim, mano, ficou a sangrar pela frente e por trás.
- Missão cumprida, vamos.
Fazem sair a sua vítima e deixam-na jogada no prado com a roupa junto dela. O táxi desaparece na escuridão.
Um vento frio e gelado obriga Maria a voltar a si. Veste-se com as mãos rígidas devido à baixa temperatura e calça os sapatos. Uma dor aguda, tenaz, percorre-lhe o corpo todo. Andando com dificuldade, aproxima-se da avenida para pedir ajuda. Lá em cima, no céu, uma lua cheia ilumina a noite como se fosse um refractor gigantesco rompendo as trevas.


(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas e Debates. Fotografia de William Ropp)

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SATANÁS- 2

- Tenho medo, padre.
- Porquê?
- Estou a enlouquecer.
- Que se passa?
- Tenho pensamentos atrozes.
- Conta-me.
- Não tenho perdão.
- Deus é infinitamente misericordioso, filho, o seu perdão não tem limites.
A igreja está vazia, sem o ruído de passos e de murmúrios provocado pelos paroquianos ao longo da nave central. Uma luz ténue entra pelos vitrais do tecto e espalha-se em brilhos multicolores que dão ao lugar um ar de irrealidade, como se se tratasse de uma imagem onírica, sonhada, e não de objectos e de lugares palpáveis e reais. O padre Ernesto está sentado no confessionário e a voz que lhe chega revela angústia e desespero, noites de insónia, medo de si próprio, uns nervos prestes a explodir e uma mente que roça o delírio e a demência de forma perigosa. (...)
- Confia em Deus, filho.
Ouve-se do outro lado uma respiração entrecortada, afogada, difícil. Finalmente, o homem decide falar:
- Não sei o que me passa pela cabeça, padre, não me reconheço, este não sou eu.
- Conta-me pouco a pouco.
(...)
- Tudo começou com a perda do meu trabalho, padre. Fiquei sem emprego e foi-me impossível encontrar outro, os meses passam e nada, não havia uma vaga em lado nenhum, algumas horas de trabalho, uma colocação temporária, nada. Perdemos o apartamento onde vivíamos e penhoraram-nos os móveis, a roupa, os electrodoméstivos, tudo. Fomos viver para casa dos pais da minha mulher com as duas meninas. Pode imaginar o que foi aquele pesadelo, as brigas, as discussões, as lutas de manhã à noite.
- Sim, filho, compreendo.
- O meu sogro morreu e toda a família dizia que tinha sido por nossa culpa, que o venho tinha morrido porque já não aguentava. Passado um mês, morreu a minha sogra de tanto desgosto. A minha mulher disse-me no dia do funeral: "Tu mataste-os, deixaste-me órfã."
- Frases que se dizem por impotência, filho, com zanga e irritação.
- Depois veio a fome, padre, a fome física, as dores de estômago das minhas duas filhas, a anemia, a desnutrição, as constipações recorrentes, a falta de sono. A minha mulher disse que não pensava deixar morrer as filhas de fome e foi para a praça do mercado mendigar, apanhar do chão frutos podres, verduras esmagadas, pedaços de pão esquecidos.
- Sinto muito, filho.
- E agora cheguei ao limite, padre. Tenho sonhos que me visitam até de dia, assim que fecho os olhos. Quero libertar a minha mulher e as minhas filhas do sofrimento, não desejo mais dor para elas.
- Acalma-te.
- Quero matá-las, padre. Vejo-as a toda a hora manchadas de sangue, esfaqueadas pela minha mão. Cheguei a passear pela casa durante a noite, tremendo, febril, invadido pela vontade de matar. Entende-me, padre?
- Não te assustes, filho. Deus não permitirá uma coisa dessas.
- Quero assassiná-las, padre, mas por amor, porque não quero que continuem a sofrer desta maneira. Tenho de as ajudar, de as libertar deste horror.
- Vamos rezar juntos, filhos, vamos pedir por ti e pela tua família. Deus ouvir-nos-á.
O padre Ernesto entoa uma prece e depois repete um Pai-Nosso e uma Ave-Maria acompanhada pela voz do homem. Depois pergunta:
- Estás arrependido, filho?
- Não sei, padre, não sei se estou arrependido. Já lhe disse que tudo o que me vem à cabeça é por amor.
- Para que Deus te perdoe, tens de estar arrependido.
- Pois...

(...)

O que precisa fazer é arranjar quanto antes um trabalho àquele homem, seja no que for, e, entretanto, recorrer aos fundos de emergência da igreja e da caridade alheia para arranjar um sustento que permita às suas duas filhas, à mulher e a ele próprio, alimentar-se e recuperar da inanição e da doença. Depois será muito mais fácil derrotar aquela força maligna que se apoderou do seu espírito, aqueles instintos criminosos disfarçados de bondade e benevolência.
Uma mulher obesa que vem a subir pela mesma rua levanta a mão direita pedindo-lhe para parar e diz-lhe com a voz alarmada e inquieta:
- Que sorte encontrá-lo, padre.
A expressão faz o padre Ernesto sorrir.
- A mim?
- Sim, padre.
- E pode saber-se porquê?
A mulher recupera o fôlego e diz-lhe:
- Estão à sua procura por toda a parte Acaba de me dizer a minha filha.
- E quem precisa de mim com tanta urgência?
- As pessoas estão reunidas na igreja.
- A missa é só às sete - diz o padre Ernesto, perplexo.
- Estão à sua espera há uma hora.
- Mas o que aconteceu?
- É melhor ir depressa, padre.
(...)
O padre Ernesto passa por entre o povo sem cumprimentar ninguém e entra na igreja com a suspeita de saber quem o espera dentro do recinto sagrado. Ajoelhado diante do altar com a cabeça inclinada sobre o peito e com uma faca ensaguentada no chão a poucos centímetros dele, um homem magro e encurvado parece estar a afogar-se na torrente do seu próprio pranto.


(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas de Debates. Fotografia de William Ropp)

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março 25, 2005

SATANÁS- 1

Com um espírito avesso à época do ano em que nos encontramos (ou, provavelmente, até não, dependendo do ponto de vista) trago-vos hoje, e até Domingo (inclusive), excertos de um livro muito recentemente saído no mercado: "Satanás", da autoria do colombiano Mario Mendoza (n. 1964, Bogotá), com edição da responsabilidade da Temas e Debates. Um livro que inaugura a colecção "Radiografias", cujo objectivo é divulgar obras que, através da ficção, apresentem os grandes problemas da sociedade contemporânea.
Tendo como cenário a cidade de Bogotá (capital da Colombia), "Satanás" debruça-se sobre a presença do Bem e do Mal na passagem dos dias, que nada mais é do que a sua concretização na passagem dos tempos e, directamente, na vida dos indivíduos. Nesta dupla vertente, o Mal impõe-se de forma brutal, engolindo tudo e todos, mesmo quando parece haver algum raio de esperança ou o acreditar que o melhor é possível. Uma existência/presença que envolve... que vai envolvendo até ao sufocar e carcomir dos seres humanos. Uma presença (que é "a" presença) que transtorna psiquicamente, que manipula, que vira do avesso, que desracionaliza na senda constante do enegrecimento individual e paralela/consequentemente colectivo.
Ao longo da estória, que se pode desdobrar em várias estórias confluentes para um final comum, temos um olhar sobre quatro personagens (principais): Maria, Andrés, padre Ernesto e Campo Elias.
Convém referir que Campo Elias (46 anos, na altura), um antigo colega de faculdade do autor (22/23 anos, tb na altura), foi o móbil para a elaboração desta obra. E quem foi? Um indivíduo que a 4 de Dezembro de 1986, assassinou 29 pessoas em vários pontos de Bogotá. O que aconteceu marcou profundamente Mendoza, sendo que durante vários anos amadureceu a ideia de construção de um romance, o qual, só viria a ser concluído já neste novo século.
"Satanás" foi galardoado com o Prémio Biblioteca Breve 2002.

Os excertos que se seguem procuram, pois, dar a ideia global do grande tema ou da grande preocupação subjacentes ao livro através, sobretudo, de reflexões desenvolvidas. Aqueles que se seguirão no Sábado e no Domingo, incidirão sobre situações concretas onde o tal Mal está presente quer através de vontades, quer através de práticas, ou seja, em contextos envolventes aos indivíduos ou já no seu interior, conduzindo-os irremediavelmente.
Já li o livro na totalidade. É extremamente forte, vertiginoso, hipersensorial. Violento. É devorável. Aconselho vivamente a sua leitura integral. Acreditem: absolutamente a não perder.

DIÁRIO DE UM FUTURO ASSASSINO

20 DE OUTUBRO: Esta manhã, a minha aluna particular de Inglês surpreendeu-me com um comentário engenhoso. É uma jovem de catorze anos. Estou a ensinar-lhe o idioma recorrendo ao romance de Robert Louis Stevenson, O Estranho Caso do Doutor Jekill e Mister Hyde. Com o livro nos joelhos disse-me:
- O senhor gosta muito deste livro.
- Sim - reconheci.
- Não mo deu para ler apenas para me ensinar inglês, não é verdade?
- Não entendo.
- Há mais qualquer coisa. - Sorri para comigo. Ela continuou: - A história de Jekill é a de qualquer homem.
- Achas?
- A sua, a minha, a de qualquer pessoa.
- Como?
- Somos anjos e demónios ao mesmo tempo. Não somos uma única pessoa, mas uma contradição, uma complexidade de forças que lutam dentro de nós.
- Talvez sim.
- Somos cobardes e heróis, santos e pecadores, bons e maus. Tudo depende dessa luta, não acha?
- Sim, se calhar - disse, espantado por ouvir uma opinião tão inteligente numa rapariga daquela idade.
- Eu acho. O bem e o mal não existem separados, cada um por seu lado, mas unidos, colados. E às vezes confundem-se.

CÍRCULOS INFERNAIS

Sentado no escritório à mesa de trabalho, o padre Ernesto folheia os recortes de imprensa que guarda numa pasta de estudante, arquivados durante anos numa sequência maldita e nefasta que cobre o último decénio. Trata-se de uma série de artigos, de pequenas notas de jornal ou de fotografias que lhe chamaram a atenção e que mostram a decomposição gradual do mundo. Com a mão direita levanta uma das folhas e detém-se na fotografia de um rapaz de uns dezassete anos que olha para a máquina com uma cara de miúdo assustado enquanto três polícias altos e corpulentos tentam algemá-lo. A legenda da fotografia diz: "Três revólveres, cinco caixas de munições, um lança-foguetes e sete obuses de morteiro foram encontrados na casa de César Padilha, um estudante do sexto ano do secundário. Face às perguntas dos investigadores, o jovem Padilha afirmou: "Só queria estar preparado para qualquer eventualidade."
(...)
O padre Ernesto passou mais algumas páginas e detém-se na fotografia de uma rapariga loura de dezoito ou dezanove anos que é levada com os pulsos algemados por uma patrulha da Polícia. O rosto da jovem está calmo, repousado, em paz. Ao lado da fotografia, a redacção do jornal explica: "A adolescente Carmen Romero manteve os pais amarrados e a pão e água durante catorze dias na cave da casa onde viviam os três. No último minuto, quando ouviu a chegada de vários agentes da Polícia, Carmen estrangulou os progenitores com as próprias mãos. Os cadáveres mostravam contusões, queimaduras e fracturas quer nas extremidades superiores quer nas inferiores, o que comprova que o casal foi brutalmente torturado pela sua própria filha no decurso das duas semanas de detenção. Ao ouvir um dos polícias, impressionado com a cena, comentar "isto é uma loucura", Carmen Romero rompeu o silêncio e afirmou: "Loucos eram eles, não eu. O meu pai começou a violar-me desde criança com a cumplicidade da minha mãe, que o permitiu sem dizer nada. Muitas vezes ele sujeitou-me à força de pancada e de pontapés e ela nunca me protegeu, nunca impediu as agressões. Eles sofreram duas semanas. Eu sofri por mais de dez anos."
Noutro recorte, em letras de imprensa, aparece a seguinte notícia: "A enfermeira Conchita Rubio foi detida no lar de terceira idade El Abuelo Feliz por ter envenenado mais de catorze idosos. Ao ser interrogada por este jornal, a enfermeira defendeu-se argumentando que o fizera por compaixão, comovida pela triste situação dos pacientes. "A maior parte deles passa o tempo a chorar, sentindo saudades dos filhos e dos netos. Achei que a morte era uma saída decente para eles", disse a senhora Rubio."
Na última folha o sacerdote reconhece a sua própria letra. É uma citação de Louis J. Halle copiada à mão com o pulso trémulo: "Prevejo a extensão de uma desordem contínua, com o seu cortejo de desumanidade e a sua tendência para uma bestialidade crescente. Prevejo a barbárie."
O padre Ernesto aproxima-se da biblioteca e tira dois livros de uma das estantes: El enigma de las brujas, de Frei Leopoldo Santos e Las huestes de Satán, de Ezequiel Bautista. Leva-os até à secretária e procura no primeiro os processos de feitiçaria correspondentes à zona de Carcassonne, Toulouse, entre 1330 e 1340. Se bem se recorda o sacerdote, várias das feiticeiras capturadas expõem ali nas suas declarações o triunfo certo de Satanás e o seu reinado definitivo sobre o planeta. Com efeito, no capítulo IV, Frei Leopoldo Santos transcreve páginas inteiras dos documentos originais. Examinando as linhas com uma atenção exagerada, o padre Ernesto encontra finalmente um dos parágrafos desejados:

Ana Maria de Georgel manifestou em seguida que, durante o longo decurso dos anos passados desde a sua possessão até ao seu encarceramento, nunca deixou de praticar o mal e de se entregar a práticas abomináveis, sem que o temor a Nosso Senhor a detivesse. Assim, cozia caldeirões, sobre um fogo maldito, ervas envenenadas, substâncias extraídas quer dos animais, quer de corpos humanos que, numa horrível profanação, ia arrancar ao repouso da terra santa dos cemitérios, para se servir deles nos seus feitiços; vadiava durante a noite em volta das forcas patibulares, quer fosse para tirar tiras das vestes dos enforcados, quer fosse para roubar a corda onde estavam pendurados, quer para se apoderar dos seus cabelos, unhas ou gordura.
Interrogada acerca do símbolo dos Apóstolos e acerca da crença que os fiéis devem à nossa Santa Religião, respondeu, como verdadeira filha de Satanás, que existia uma completa igualdade entre Deus e o Diabo, que o primeiro era rei do Céu e o segundo da Terra; que todas as almas que este acabava por seduzir estavam perdidas para o Altíssimo e que viviam eternamente na Terra, passando de um corpo para outro através dos séculos, danificando, maltratando, corrompendo e fazendo sofrer as outras almas atormentadas. Ao perguntarem onde ficava, nesse caso, o Inferno, a bruxa respondeu que a Terra e o Inferno eram uma e a mesma coisa, local de padecimento e de dor, recanto de desdita, paragem de infortúnio, recinto de desgraça e miséria.

O padre Ernesto sente as frases como navalhas, como vidros cortantes que lhe abrem o pensamento. As palavras da mulher ajustam-se na perfeição às sensações que o vêm invadindo há semanas e que o impedem de viver com tranquilidade e de desempenhar satisfatoriamente as suas funções de sacerdote. O triunfo do mal. Porque não? Não bastava uma caminhada pela cidade para nos darmos conta de que estamos a deambular entre círculos infernais? Não eram os rostos dos mendigos, dos loucos, dos solitários, dos prisioneiros, dos suicidas, dos assassinos, dos terroristas, dos esfomeados, testemunhos claros do reino das sombras? Recinto de desgraça e de miséria. Sim, era assim, sem dúvida.
(...)
Dirige-se para o centro da cidade com a cabeça a transbordar de ideias, pensativo, sem se aperceber das pessoas e dos carros que se misturam à sua volta numa desordem inexplicável. O triunfo do mal. Porque não? A destruição do planeta, o capitalismo selvagem, a xenofobia acelerada... Mesmo pensando nos próprios dignitários da Igreja que tentaram extirpar os sabat e os vínculos demoníacos de uma sociedade sufocada e em crise permanente, a hipótese de uma maldade crescente confirmava-se. Porque a Inquisição e o Santo Ofício o que foram, senão organizações criminosas e assassinas? Potros de tortura, ferragens, cordas, facas e máquinas abomináveis eram as provas irrefutáveis de uma Igreja doente e delirante que continuava a promover e acrueldade e a violência no interesse de uma moralidade inexistente. Uma Igreja cuja misoginia saltava à vista quando decretava que "por um homem, dez mil mulheres", referindo-se ao facto de, por cada varão que tiveram de sacrificar ou torturar, assassinariam ou maltratariam dez mil mulheres. Porquê? Porque elas representavam a luxúria e a concuspiscência, eram elas que procuravam o sexo e a satisfação do corpo a todo o custo. A velha história do punhado de celibatários que têm pânico do clítoris e sonham extirpá-lo e fazê-lo desaparecer. Não havia dois bandos opostos, os bons e os maus, mas um grupo apenas cerrando fileiras em redor do ódio, da sevícia e da monstruosidade. O triunfo total e pleno da maldade. Não era uma suposição tão absurda.

(Mário Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas e Debates. Fotografias de William Ropp)

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março 24, 2005

O LADO DA MORTE (OU NELA... OU COM ELA...)

[deste lado da morte ninguém responde]

fazia nós no outono. o eco genital de Deus a abrir avessos. um sangue muito branco falava na água da pele. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondia.
árvores todas caiam os braços. o deserto escorria no lugar da pele. um lençol cheio de silêncio respondia pelo mundo. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondeu.
o dia não sabia se existia. uma canção de barco abria feridas no tempo. as janelas diziam dezembro, dezembro, e a primavera tinha sido ontem por fora. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém responde.

morte que tens o nome dos meus dias: saberás ler em sangue ou em sânscrito? que desespero corpo precisas para te abrir os ouvidos de tempo? que perguntas batem na tua pele de silêncio, mais altas que as línguas que cantavam os que tens no seio?
morte que tens o nome dos meus dias: é tarde demais para mim; não tenho sonhos para tu levares, nem água nenhuma me pesa os ossos mais do que sede. o que pode vencer-te, guardas nos teus braços - o que guardei nos meus braços, e partiu porque nunca me pertencia.
morte que tens o nome dos meus dias: apenas o teu eco responde pelo visível. as escarpas do mistério, demasiado luz, não têm palavras para me rasgar. tudo o que tenho está na tua língua, e à porta do século que abriste, o batimento das sombras ensurdece o mar onde respiro.
morte que tens a forma dos meus dias, o nome por onde sigo: ouves o corpo que contigo se deita, lua depois de lua, e grita branco o teu sono? a bordo deste texto segue uma mentira, de carne rebentada de silêncio. ouve-me antes que seja tempo demais para que eu não te ame.
do outro lado dos meus dias, vejo-te: somos só um, atravessando palavras enquanto nascem Deus e o seu tempo; dos meus ossos uma música traz os minutos todos como um fogo. arde comigo, antes que o esquecimento, que tu ignoras, nos separe.
morte, minha materna morte: faz-me o poema onde aprenda a morrer. e, num texto corpo de silêncio, cria comigo o amor.


(Pedro Sena-Lino- DESTE LADO DA MORTE NINGUÉM RESPONDE. Quasi Edições. Fotografias de José Marafona)

Publicado por void em 06:58 AM | Comentários (3) | TrackBack

março 23, 2005

INSTANTES DE... "CARAS BARATAS" (2)

No passado dia 16 editei o primeiro conjunto de poemas de Adília Lopes, com a garantia de não ficar por ai. E eis-me aqui com ela de novo. Apenas alguns dias depois. Não muitos, só alguns. Relativamente à autora, nada mais vou acrescentar à introdução já feita nesse mesmo post. Hoje, tão só, remeto-vos para a leitura dos poemas que se seguem. E mais uma vez o faço entusiasticamente, na medida em que a poesia de Adília, pelas particularidades inerentes, a isso (me) leva.

Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo


À medida que a paixão
acabava
o cabelo dela ia ficando
por lavar
usou um chapéu
mas a partir de certa altura
meu amor
não foi suficiente um chapéu.


BODY ART?

Com os remédios
engordo 30 Kg
o carteiro pergunta-me
para quando
é o menino
nos transportes públicos
as pessoas levantam-se
para me dar o lugar
sento-me sempre

Emagreço 21 Kg
as colegas
da Faculdade de Letras
perguntam-me
se é menino
ou menina

No metro
um rapaz
e um velho
discutem
se eu estou grávida
o rapaz quer-me
dar o lugar

Detesto
o sofrimento


Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa


É preciso pensar
em tudo
dos preservativos
às panelas
e há mesmo quem
nos preservativos
veja já as panelas
pensa-se de mais
e não se pensa
de facto


(Adília Lopes- Caras Baratas. Antologia. Edição: Relógio D'Água. Fotografia de Urs Kahler)

Publicado por void em 06:43 AM | Comentários (4) | TrackBack

março 22, 2005

EM CENA: AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT (2)

Segue-se o segundo excerto da peça "As lágrimas amargas de Petra von Kant", da autoria de Rainer Werner Fassbinder, ontem anunciado. Um excerto que é aquele por mim escolhido para vos mostrar as grandes linhas orientadoras da relação entre Petra e Karin. Uma relação onde uma suposta "dominadora", afinal, não o é. Uma relação onde, pensando em termos de "domínio" e "submissão", há uma clara inversão de papéis. Petra fica emocionalmente dependente. Petra não se consegue libertar de pensamentos de põem em causa o fluir inquestionável da relação. Petra quer saber mais. Petra quer mais cumplicidade. Petra quer maior fusão. Petra deseja uma fusão real. Uma fusão efectiva. E por isso sofre. Sofre porque sente que algo (que é, afinal, muito) lhe escapa. Sofre porque não tem garantias. Sofre porque não consegue suportar a "anarquia" (?) emocional "imposta" por Karin. Sofre por aquela que é a liberdade vivida por Kartin. Pela inexistência de magnetismo vindo dela. E desmorona. E desmorona-se como pessoa. Fica presa. Enclausurada no interior de si numa luta tremenda com os seus sentimentos.
Estamos, de facto, perante uma relação que pode constranger quem lê (que somos nós). Estamos, de facto, perante uma relação que pode fazer sufocar: pela angústia e sofrimento que vemos pela parte de um ser humano. Um ser humano que pode ser/espelhar qualquer um de nós, num momento ou fase (inesperada) da nossa vida.

(A luz está acesa. É de noite. Petra corre no palco como uma galinha assustada enquanto se arranja. Marlène ajuda-a a abotoar a roupa, etc., e depois senta-se à máquina de escrever. Tocam à porta.)

PETRA
Marlène! Tocaram à porta, Marlène. Estou atrasadíssima. Abre, que eu vou já.

(Saem ambas. Passado um momento Marlène entra com Karin, indica-lhe um lugar, senta-se de novo à máquina. Karin levanta-se, vai a um espelho, fica a olhar-se demoradamente. Petra entra.)

PETRA
Karin! Que amável.

KARIN (volta-se devagar)
Boa noite, Frau von Kant.

(Petra aproxima-se dela como se fosse para a abraçar, mas detém-se antes de o fazer.)

PETRA
Sentemo-nos. Preparei umas coisas para comer. Marlène, podes servir! (Marlène sai.) Sim senhor. Ei-la aqui.

KARIN
Sim, eis-me. (Riem ambas.)

(...)

PETRA
(...) Onde vives agora?

KARIN
No hotel Rheingold.

PETRA
No hotel? Não é muito caro?

KARIN
Vinte e sete marcos com pequeno-almoço.

PETRA
Pois é. Não se pode aguentar muito tempo. Vens aqui para minha casa. É mais barato e... além disso é confortável.

KARIN
Sim? Eu...

PETRA
Não queres?

KARIN
Quero, quero. Receio é poder vir a aborrecê... a aborrecer-te.

PETRA
Conheço-me, Karin. Não me aborrecerás. Conheço-me. Sinto-me muitas vezes sozinha. Juntas estaremos bem.

KARIN
Se é assim que queres... muito bem. Realmente, eu...

PETRA
Amo-te. Amo-te, Karin. Amo-te. As duas juntas vamos conquistar o mundo. Não sei o que se passa comigo, apetece-me fazer-te festas, beijar-te... Eu (Abraça-a.)

KARIN
Eu também gosto de ti, Petra, gosto muito, mas tens de me dar tempo.

PETRA
Dou-te tempo, Karin. Tempo é o que não nos falta. Temos imenso tempo. Tempo para nos conhecer uma à outra. Havemos de amar-nos, Marlène, traz mais uma garrafa de champagne. (Marlène sai.) Ainda nunca, nunca, senti amor por uma mulher. Sou louca, Karin, louca! Mas é belo ser louco. É loucamente belo ser louco.

(...)

(É de manhã cedo, Karin ainda está na cama, Petra está a vestir-se. Marlène leva embora a loiça do pequeno-almoço que ficou junto da cama. Karin lê uma revista.)

(...)

(Marlène entra.)

PETRA
Os meus sapatos, depressa!

KARIN
Começo a achar que ela realmente tem pancada.

PETRA
Ela não tem "pancada", ela ama-me.

KARIN
Divirtam-se. (Marlène traz os sapatos.)

PETRA
Obrigada. (Marlène vai trabalhar.) Isso de deixar a escola é definitivo?

KARIN
O que é isso de definitivo? Já não aprendo mais nada.

PETRA
Aprende-se sempre qualquer coisa. Nunca se pára.

KARIN
Tu e as tuas sábias sentenças.

PETRA
Não é sabedoria, é experiência. Olha, eu telefono e peço desculpa por ti, e assim já podes lá voltar. Acho que é melhor para ti fazeres alguma coisa até ao fim. Acredita que vale sempre a pena.

KARIN
Se achas que sim.

PETRA
Sim, acho.

KARIN
Então está bem.

PETRA
Óptimo.

KARIN
Arranja-me um Gin-Tonic.

PETRA (prepara o Gin-Tonic.)
Bebes demais. Tem cuidado porque engorda.

KARIN
Vai-te lamber o cu.

PETRA
Olha que a tua figura é o teu capital, além disso não tens mais nada.

KARIN
Achas que sim?

PETRA
Não acho, sei. À nossa.

KARIN
À nossa.

PETRA (senta-se na cama ao lado de Karin e abraça-a.)
Amo-te.

KARIN
Eu também.

PETRA
Merda. Eu também, eu também!... Ora diz eu amo-te.

KARIN
Sim, sim.

PETRA
Vamos.

KARIN
Okey. Gosto de ti. Amo-te.

PETRA
Tens a pele mais bonita do mundo.

KARIN
Sim?

PETRA
Sim. E o mais bonito cabelo. E os mais bonitos ombros. E... e os mais bonitos olhos. Amo-te, amo-te, amo-te. Amo-te.

KARIN
Deixa-me, por favor.

PETRA
Porquê?

KARIN
Ainda não lavei os dentes.

PETRA
Não faz mal.

KARIN
Mas a mim incomoda-me. Vá lá. E ainda quero ler. Por favor.

PETRA
Okey. Deixo-te em paz. Se tens nojo.

KARIN
Não tenho nojo. Mas não se pode passar as vinte e quatro horas do dia a fazer marmelada.

PETRA
Pode.

KARIN
Ah, Petra.

PETRA
Poderia ficar eternamente abraçada a ti. Não sei por que és tão bruta comigo. Como se eu te tivesse feito algum mal, quando não há nada que eu não faça por ti.

KARIN
Não sou bruta.

PETRA
Para ti é simples. Limitas-te a dizer não sou bruta. Mas quando preciso de ti das-me com os pés. Karin?

KARIN
Sim?

PETRA
Posso... Quero ficar mais um bocadinho ao teu lado.

(Karin não reage. Petra senta-se na borda da cama. Passado um momento começa a fazer festas a Karin.)

PETRA
Onde é que foste ontem à noite? (Karin não responde.) Karin?

KARIN
Sim?

PETRA
Perguntei onde é que foste ontem à noite.

KARIN
Fui dançar.

PETRA
Até às seis da manhã?

KARIN
E que mal tem?

PETRA
Não há nenhum sítio que esteja aberto até tão tarde.

KARIN
Não?

PETRA
Não. Com quem foste "dançar"?

KARIN
O quê?

PETRA
Perguntei com quem foste dançar?

KARIN
Com um homem!

PETRA
Ah sim?

KARIN
Sim.

PETRA
Que homem?

KARIN
Um preto muito grande, com uma grande picha preta.

(...)

PETRA
Como era o homem?

KARIN
Na cama?

PETRA
Por exemplo.

KARIN
Insaciável.

PETRA
Sim?

KARIN
Completamente. Podes imaginar as grandes mãos pretas na minha pele branca e macia. E... aqueles lábios! Bem sabes como os negros têm lábios grossos e quentes. (Petra leva a mão ao peito.) Vais desmaiar, caríssima? (Ri à gargalhada.)

(...)

KARIN
(...). Tínhamos prometido dizer sempre a verdade uma à outra. Mas tu não aguentas. Queres que te mintam.

PETRA
Sim, mente-me. Por favor, mente-me.

KARIN
Está bem. Então não é verdade. Levei a noite toda a passear sozinha e a pensar em nós.

PETRA
Sim? (Esperançosa.) É verdade?

KARIN
Claro que não. Fui mesmo para a cama com um homem. Mas não tem importância, ou tem?

PETRA (a chorar)
Não. Não - claro que não. Mas não percebo, realmente, não percebo. Porquê... porquê...

KARIN
Pára de chorar, Petra, por favor. Olha, eu gosto de ti, a sério, amo-te... mas... (Encolhe os ombros. Petra chora descontroladamente.) Era evidente que eu de vez em quando dormiria com um homem. Sou assim. Mas não nos prejudica em nada. Eu só me sirvo dos homens, não lhes dou mais valor do que isso. É só um divertimento. Palavra. Falaste sempre em liberdade e assim. Disseste sempre que entre nós não havia compromissos, ... Não chores! Olha, já sabes que eu volto para ti.

PETRA
Doi-me tanto o coração. Como se me tivessem enterrado uma faca no peito.

KARIN
Não faz falta doer, o coração. Nem eu nem tu precisas disso.

PETRA
Nem eu nem tu precisamos disso. Sujeitos no singular ligados por nem, obrigam ao verbo no plural se a acção pertence a ambos os sujeitos.

KARIN
Ah Petra. Claro que não sou tão inteligente como tu, nem tão educada. Sei isso muito bem.

PETRA
És bela. Gosto muito de ti. Doi-me tudo, de tanto gostar de ti. Meu Deus, meu Deus. (Vai arranjar uma bebida.) Queres outra?

KARIN
Não, tenho que ter cuidado com a linha.

(...)

PETRA
Era mesmo negro?

KARIN
Sim. Porquê?

PETRA
Só para saber.

KARIN
Ele era mesmo giro, também terias gostado dele. Não era bem preto, era mulato, e com um rosto mesmo inteligente. Há negros assim, com um rosto mesmo europeu, não há?

PETRA
Sim? Não sei.

KARIN
Há, há. Este era um deles. Contou coisas muito giras, da América e assim.

PETRA
Por favor, Karin. (Desata a chorar novamente.)

KARIN
Pronto, eu calo-me. Pensei que já tínhamos arrumado o assunto.

PETRA
Escusas de ficar a sonhar com ele. (Arranja nova bebida.)

KARIN
Tu também bebes que te fartas.

PETRA
É só o que me resta.

KARIN
Não exageres, caramba. Estás mesmo histérica.

PETRA
Não estou histérica. Sofro.

KARIN
Ora, se sofres é porque te faz bem.

(...)

PETRA
Eu preferia ser feliz, Karin, acredita. Preferia mil vezes ser feliz. Tudo isto dá cabo de mim.

KARIN
O que é que dá cabo de ti?

(...)

PETRA
Tu. Tu dás cabo de mim. Porque nunca sei por que razão estás realmente comigo, se é porque tenho dinheiro, porque te dou uma chance ou porque... porque me amas.

KARIN
Claro que é porque te amo. Merda.

PETRA
Ah, pára com isso. Ninguém aguenta tanta incerteza.

KARIN
Se não me acreditas...

PETRA
O que é isso de acreditar. Não tem nada a ver com acreditar... É claro que acredito que me amas. Claro. Mas não sei nada. Não sei de verdade. E é isso que dá cabo de mim. É só isso.

(...)

PETRA (vai e abraça Karin.)
Amo-te, não posso fazer nada contra isso. Não posso. Preciso de ti Karin. Preciso tanto de ti. (Ajoelha-se, abraça as pernas de Karin.) Farei tudo por ti. Só quero estar neste mundo por tua causa, Karin. Só te tenho a ti. Eu... eu... fico tão sozinha sem ti, fico tão sozinha, Karin.

(...)

(Petra está sozinha no palco, tropeça num tapete, etc, já está bêbada. O pick-up toca "The great pretender" dos Platters. Ela canta, dança, ao som do disco. Prepara uma bebida. O telefone toca. Petra corre a atender.)

PETRA (ansiosa)
Está? Não, não é von Kant. (Atira com o auscultador, senta-se numa poltrona, bebe. O telefone volta a tocar, ela atende, rápida. Esperançada.) - Sim? Não, não, não, não. (Desliga.) Oh, odeio, odeio, odeio-te. Odeio-te. Odeio-te Quem me dera morrer. Desaparecer. Estas dores. Não aguento. Eu... eu... não posso mais. Oh, meu Deus, porca de merda. Porca de merda nojenta. Hás-de me pagar. Dou cabo de ti. Acabo contigo. Hás-de rastejar a meus pés, filha da puta. Hás-de beijar-me os pés. Ah, que merda. Meu Deus, que fiz eu para merecer isto? Que fiz eu. (O telefone toca.) Karin? (Desliga.) Amo-te. Não sejas tão má, Karin! Merda, merda. Preciso tanto de ti. Telefona, ao menos telefona. Quero ouvir a tua voz. (Chora, vai até ao bar, prepara uma bebida.) Não te custava nada telefonar. Só telefonar. Não custava nada. Mas a porca nem sequer pensa nisso. (...)

(...)


(Rainer Werner Fassbinder- AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT. Peça editada pelas Edições Cotovia. Fotografia de China Hamilton)

Publicado por void em 06:40 AM | Comentários (3) | TrackBack

março 21, 2005

EM CENA: AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT (1)

Rainer Werner Fassbinder (1946-1982) é o dramaturgo que vos trago hoje. Dramaturgo mas também actor, encenador e realizador. Um impulsionador do Cinema e Teatro na/da Alemanha.
A peça que seguidamente apresento o primeiro excerto é a prova do importantíssimo trabalho desenvolvido pelo autor ao nível da dramaturgia. Uma peça datada dos inícios do anos 70 do Século XX (1972) que aborda a relação entre duas mulheres. Mas uma peça que aborda a realidade (ou determinada realidade) da burguesia, da classe média do mundo Ocidental. Em concreto, e neste caso, com as devidas adaptações às personagens e ao seu meio: problemas relacionados com o casamento, com o papel do homem e da mulher na sociedade, com o trabalho e com as relações entre as pessoas que nesse mundo vivem e nesse mundo se cruzam.
"As lágrimas amargas de Petra von Kant", peça adaptada ao Cinema, incide sobre uma relação lésbica. Mas incide, da mesma forma, naquele que é o percurso de vida, forma de pensar, ser e estar da sua personagem principal: Petra. É uma peça que no relacionamento, sobretudo, entre três mulheres (Petra, Marlène e Karin- três da totalidade das personagens femininas) regista modelos de submissão, poder e anarquia. De sublinhar que o que parece uma garantia à partida, nem sempre assim se mantém. E é esse evoluir que dá um toque tão especial ao enredo.
Portanto, estamos perante uma peça que recomendo vivamente a leitura integral. Como disse: hoje edito um primeiro excerto, que versa num diálogo entre Petra e a sua amiga Sidónia sobre o casamento e divórcio da primeira (casamento este que é já o segundo). Amanhã, far-vos-ei chegar o excerto onde a abordagem da relação de Petra com Karin se dá.
Espero que gostem e desfrutem de toda a riqueza inerente.

Personagens:

Petra von Kant
Valéria von Kant, sua mãe
Gabriela von Kant, sua filha
Sidónia von Grasenabb, sua amiga
Karin Thimm, sua amante
Marlène, sua empregada

(...)

(Marlène entra com Sidónia de Grasenabb.)

SIDÓNIA
Queridíssima!

PETRA
Sidónia, querida!

SIDÓNIA
Petra! (Abraçam-se.)

PETRA
Meu Deus, há quanto tempo...

SIDÓNIA
Três anos, caríssima. Três anos. Como o tempo passa. Tu estás óptima. Tremendamente bem. Como é que consegues?

PETRA
Não me ficas atrás em nada, minha querida, em juventude, em beleza, em nada, mesmo.

SIDÓNIA
E o Frank? (Petra faz-lhe sinal para mudar de assunto.) Li as notícias. Na Austrália, imagina! E disse ao Lester, coitada, olha a sorte que teve. Nós tínhamos-te prevenido acerca desse homem.

PETRA
A experiência, Sidónia, tem de ser acumulada pelo próprio. Acredita, sinto-me feliz por ter vivido o que vivi. O que nós aprendemos ninguém mais nos pode tirar. Pelo contrário. A experiência amadurece-nos.

SIDÓNIA
Não sei, Petra, quando o fim já se está a ver desde o princípio será que a experiência vale a pena?

PETRA
Faz um café, Marlène. Ou preferes chá?

SIDÓNIA
Café está bem.

PETRA
Já tomaste o pequeno-almoço?

SIDÓNIA
Já, obrigada. Apanhei o avião cedinho de Frankfurt para cá. Estava morta por saber como é que te aguentavas. Se sofrias, ou...

PETRA
Ora, Sidónia, as pessoas evoluem. Antes... sim antes era diferente, é verdade. Não saberia o que fazer. Passar uma tal vergonha... Acreditei tanto no que ele tinha de bom. Mas no casamento os pontos fracos é que surgem ao de cima.

SIDÓNIA
Não sei, com o Lester...

PETRA
Desculpa. Mas vocês viajam tanto que não chegam a ter tempo para se conhecerem de verdade. Agora o Frank e eu estávamos dia e noite um com o outro, sempre, ininterruptamente, e eu sempre a recear pela minha existência. Assim fica-se mesmo a saber de que matéria é feito o outro... Desculpa, não queria ser amarga, mas esse homem e eu podíamos ter tido algumas possibilidades. Boas possibilidades. A sorte não permitiu.

SIDÓNIA
Ainda pensas nisso?

PETRA
Não, Sidónia, penso nas possibilidades que realmente houve, mais nada. Acredita que é triste reconhecer que os defeitos de alguém têm mais peso do que as suas qualidades.

SIDÓNIA
Vocês discutiram, ou quê?

PETRA
Discutir? Não propriamente. O que havia era um frio, sabes, a pessoa sente-o e... Olha, tu estás com alguém no carro, ou no quarto, e apetece-te dizer qualquer coisa, mas tens medo. Apetece-te ser meiga, mas tens medo. Tens medo de perder um ponto, de te tornar mais fraca. É terrível quando alguém já não pode fazer marcha atrás consigo mesmo.

SIDÓNIA
Creio que percebo. Confusamente, mas...

PETRA
Sei o que vais dizer agora. Que o mais inteligente deve ceder, por exemplo. Ou... Não, Sidónia, em matéria de relações humanas, quando a carroça se atola em merda ninguém é capaz de a tirar de lá.

SIDÓNIA
Não pode ter sido assim durante três anos.

PETRA
Claro que não. Houve momentos tão belos que... momentos em que se esquece tudo, tudo, como se se pudessem resolver todas as dificuldades, como se se pudesse encontrar uma base de entendimento, que... ora, a carroça estava atolada em merda.

SIDÓNIA
Pobre de ti! Coitada!

PETRA
As coisas são fáceis de lamentar, Sidónia, mas mais difíceis de compreender. Quando compreendo não devo lamentar, pois posso mudar o que compreendo. Só devo lamentar a sério o que não compreendo.

SIDÓNIA
Já vejo que essa coisa toda fez de ti uma mulher dura. É pena, as mulheres duras sempre me desagradaram.

PETRA
Pareço dura porque uso a cabeça. Não estás habituada a que as mulheres pensem. Pobre coelhinha.

SIDÓNIA
Petra! Por favor!

PETRA
Desculpa, não te quis ofender. Quero só que oiças realmente o que te estou a dizer e que não aprecies com um juízo já feito o que acabei de contar.

SIDÓNIA
Certo. Entendo a tua amargura. Foi ele... que pediu o divórcio?

PETRA
Não, fui eu.

SIDÓNIA
Não foi ele? Foste tu... meu Deus.

PETRA
Espanta-te, não é? A coitada da Petra, a desgraçada que não queria deixar o marido, que parecia desesperadamente apaixonada, quase escravizada, foi ela que pediu o divórcio, que horror não é?

SIDÓNIA
Ele...

PETRA
Não, ele não me enganou. De resto para mim o adultério nunca teria sido motivo de separação. Pela parte que me tocava a relação era saudável. Nós dávamos muita importância ao prazer e nenhuma à fidelidade: quer dizer à fidelidade forçada. Intelectualmente éramos verdadeiramente fiéis um ao outro. Não, as coisas correram mal por outras razões. Claro, quando a relação se estraga vem o nojo, ou o ódio. Mas isso não deve ter nada a ver com o que se passava à nossa volta, com as outras pessoas, ou... (Marlène entra, serve o café.) Obrigada.

SIDÓNIA
Obrigada.

PETRA
Agora põe-te a desenhar, por favor. É urgente.

(Marlène continua a desenhar.)

SIDÓNIA
Podemos...?

PETRA
Marlène? A Marlène está comigo há três anos. A Marlène ouve tudo, vê tudo, sabe tudo. Com a Marlène não é preciso ter cuidado.

SIDÓNIA
Óptimo. Continuemos. O que foi então que vos fez tão opostos, tão doentes?

(...)

PETRA
Nós queríamos ser felizes um com o outro. Percebes? Um com o outro. Para isso não havia nenhum exemplo anterior que já tivesse resultado, que eu pudesse seguir.

SIDÓNIA
Mas então o que foi que aconteceu que levou à repugnância? Com tanta clareza, tanta compreensão?

PETRA
O sucesso, por exemplo. O sucesso que fui eu que tive, e que o Frank esperava para ele, de que ele precisava, de facto. Foi assim que começou. É tão simples como isso. Sim.

SIDÓNIA
Sim. Desculpa! O sucesso não é razão para...

PETRA
Os homens! E a sua vaidade! Ah, Sidónia. Ele queria encher-me de mimo, tomar conta de mim. Sustentar-me. Sim, ele levava o seu papel a sério. É verdade que respeitava a minha opinião, mas no entanto queria sustentar-me. É por este desvio que a opressão se instala. E o que acontece é o seguinte: oiço o que tu dizes, percebo-te, mas... quem é que ganha o dinheiro, quem é que anda a foçar? Aí tens, há duas medidas! Ah, minha cara. Ao princípio era assim: o que tu ganhas, minha linda, põe-se numa conta especial, servirá mais tarde para comprar uma casinha, ou um carro mais rápido ou coisa do género. Concordei, disse que sim, porque... ele era tão meigo, Sidónia, e quantas vezes o amor que se desprendia dele me arrebatou até ao êxtase, me deixou sem respiração, tal era a felicidade... Depois, quando ficou sem trabalho... De início era quase cómico ver o seu ridículo orgulho ferido, e para ser franca eu até gozei com isso, pensando que ele próprio sabia que o seu comportamento era ridículo. Mas não sabia. E quando mais tarde eu tentei esclarecer as coisas, dizer-lhe que para mim não fazia diferença um homem estar ou não estar no topo, já era tarde demais. Mal surgia este tema ele ficava de pedra, Sidónia, uma muralha. E então, pouco a pouco, começou a morrer a dignidade. Vi que me tinha enganado com ele, e comigo, e decidi acabar. Acabar com o meu amor por ele. Os últimos seis meses foram horríveis, acredita, horríveis! É claro que ele reparou que tudo tinha acabado, ou pelo menos desconfiou. Mas não levou a bem. E não procedeu com muita inteligência. Já que não conseguia prender a mulher em tudo, tentou ao menos na cama. Então surgiu o nojo. Ele foi usando a técnica, a força. Deixei-o, fui aguentando, mas a verdade é que o achava um porco.

SIDÓNIA
Petra!

PETRA
Cheirava mal! Cheirava a homem. Tal e qual como os homens cheiram. O que antes era para mim tão atraente... agora enjoava-me, dava-me vontade de chorar. E a maneira como ele me possuía...

SIDÓNIA
Não, Petra! Por favor.

PETRA
Agora ouves a história até ao fim. Ele montava-me como o touro monta a vaca. Sem a menor atenção, sem se preocupar com o meu prazer de mulher. As dores, Sidónia, as dores, nem podes imaginar. E quando eu, mesmo assim, às vezes... que vergonha! Que vergonha. Tive tanta vergonha. Ele a julgar que eu gritava de amor, de gratidão. Era mesmo estúpido, estúpido. Os homens são muito estúpidos.

SIDÓNIA
Coitada, coitada de ti! Como sofreste.

PETRA
Não preciso da tua compaixão. Ele... ele teria precisado da minha. Compreensão, bondade, compaixão, quando já nada mais é possível. Eu não tinha mais nada a oferecer-lhe. As coisas iam de mal a pior. Quando comíamos juntos, o seu mastigar parecia-me o barulho duma explosão, o engolir - não consegui aguentar mais. Nem a maneira como ele cortava a carne, nem a maneira como comia a salada, segurava o cigarro, ou o copo de whisky. Parecia-me tudo tão ridículo, tão... afectado. Sentia vergonha por ele, porque me parecia que todos os que o viam reagiam como eu. É claro que isso tinha o seu quê de histeria, de pânico. Já não havia nada a fazer, Sidónia. Era o fim. Estava tudo acabado. (Silêncio.) Sinto-me envergonhada.

SIDÓNIA
Não tens nada que sentir. Procuraste aprender. Procuraste compreender o que se passava. Eu...

PETRA
Acho que o homem é feito de tal maneira que precisa dos outros, mas ainda não aprendeu como se vive com os outros. (Tocam à porta.)
Marlène!

(Marlène levanta-se, vai abrir.)

SIDÓNIA
Deve ser a Karin.

PETRA
Karin?

SIDÓNIA
É uma jovem encantadora. Conhecia-a numa viagem de barco, de Sidney para Southampton. Quer arranjar trabalho na Alemanha.

(Marlène entra com Karin.)

SIDÓNIA
Karin?

KARIN
Olá.

SIDÓNIA
Esta é a Petra, Petra von Kant, de quem eu lhe tinha falado tanto.

KARIN
Bom dia.

(...)


(Rainer Werner Fassbinder- AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT. Peça editada pelas Edições Cotovia. Fotografia de China Hamilton)

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março 20, 2005

MULHERES

Uma mulher. Duas mulheres. Três mulheres. Sim, três. Mas na realidade, uma. Uma com conseguidos desdobramentos. Uma com papéis diferenciados. Uma que faz a síntese. As outras que a levam para outros mundos. Mulheres-vidas-mundos. Necessidades. Constatações. Conclusões (?). Percurso em percursos que se faz e fazem. Experiências.
Mais um excelente texto da Paula para mais uma inevitável reflexão (profunda) para nós. Mais um trabalho perturbador, com grande capacidade de/para penetrar no que é importante ter em conta. Cada ponto abordado, cada imagem criada, é/são um manancial de possibilidades e aprofundamentos reflexivos. E, claro, para discussão, debate, crítica.
Um mundo imenso é o que a autora novamente nos oferece. Um mundo ou mundos. O sub-mundo ou sub-mundos. E nele(s) a(s) mulher(es). E nele(s) aquela(s) mulher(es). Que alcances? Que limites? Que fronteiras entre o uno e o triplo? Que limites entre ela e as outras? Onde e quando se encontram? Onde e quando se afastam?

A gaita de beiços do amolador anuncia a chuva.
Já amanhece. Os lençóis estão quentes, o corpo ainda fraqueja do resultado da noite. A rapariga acorda; está na hora de acordar. Nem mais um minuto para deixar vencer o sono. O quarto está precisamente envolto na sua paz nocturna quando acorda. A rapariga vomita na cama com a ideia de julgar ir para a escola. Levanta-se, e senta-se na cama. Pensa em rezar. Agora ainda se implora um pouco a Deus nesta terra católica, apostólica, romana, para que todos vejam que lavamos das mãos o sangue da inocência, que Deus, num acto de cansaço, transformou em si próprio: O Homem, precisamente, eis a sua obra.
A rapariga já preparou a roupa e já toma banho. Lava-se bem com o sabonete do supermercado, ampara bem os cabelos com o champõ. Deixa a água quente escorrer pelo corpo, passando e tocando, com o cobertor molhado, o seu ventre. Sente desejo. Ouve o rádio, algumas músicas, discursos fúnebres. O Papa está prestes a ser eleito. Não se diz nada contra o Papa, que pertence à Virgem Maria. É ele que define as funções dela. É ele que define a sua humildade. De onde é que ele sabe todavia, a que ponto esta mulher é humilde, se o próprio sempre foi ávido por almas? O que sabe ele dessa mulher? O que sabe ele da secretária, sentada no chão, no qual, de joelhos, recebe o membro do empregador? Dentro em pouco, enquanto as fotocópias são tiradas, graças sejam dadas a Deus, esse homem vai pegar-lhe de novo no centro entre as pernas para despejar as côdeas dos seus vários Deuses (desporto, política e economia).
A rapariga está pronta. O cão já passeou pela rua, já deixou dejectos que outros cães cheirarão, para que os vermes possam comer. O pássaro já tem água. O gás está desligado, e as chaves e a mala na mão. Já podemos sair. A porta fechada, os pés sobre o tapete de entrada (só nos lugares mais pobres é que não há tapete debaixo dos pés), a rapariga sai de casa com a cara e as unhas besuntadas de cor. Durante o caminho para a estação de comboios, o tempo refresca ligeiramente. A rapariga sente ligeiros arrepios, mas traz vestido o casaco de camurça verde escuro, e o cachecol com pompons. A rapariga vê no chão um papel.
Debruça-se e apanha-o. “ Procure este novo hipermercado, onde todas as donas de casa vêm, enquanto os maridos conversam sobre futebol. Aqui encontra tudo, mesmo que tenham e mantenham medidas e pesos diferentes.” A rapariga rasga o papel. O relógio, oito e meia, tem de apressar-se. Numa casa, a mulher espera que o marido saia como deve ser para o escritório. A vida deve correr bem a esta mulher desde o dia em que ocupou a casa de um homem que paga bem quando está contente. Essa mulher, gostaria, logo que fosse possível, que o marido a deixasse de carro num centro comercial, para poder passear, comprar e ficar com um aspecto agradável. Para o Homem, que a leva, que a ordenha, que a conduz, a mulher não pensa em nada, a não ser no que deve vestir, nem mesmo nos sentimentos que se orgulha de ter perante o sexo masculino. Mas é ele que a tem de sustentar. Ela não sabe fazer nada. Ele é responsável pela sua felicidade, por ser um marido justo.
A estação está apinhada de gente. A rapariga é alta e magra, mas consegue passar despercebida. Caminha matreiramente, por entre a multidão. Compra o jornal. Enquanto desce as escadas da estação, lê as gordas. “Líder Palestiniano morto na Faixa de Gaza”. Um homem também tem um jornal em punho. Também lê as gordas. “Líder do campeonato derrotado na Super Liga”. Os olhos de ambos não se cruzam, nem mesmo querem cruzar-se. O homem não concorda com a venda de jornais às mulheres. Não se deve ensinar mais do que elas queiram aprender. É por isso que na sociedade existem os protectores e os protegidos. Se não, porque foi inventado o cavalheirismo? O que é um cavalheiro? Um homem que abre as portas às mulheres, que cede a vez e o lugar? Um homem de sentimentos e acções nobres? Um homem com quem a senhora forma par numa dança? O homem levanta-se e a mulher senta-se. É a Filosofia da Vontade, o estratagema do engano. Deixar sentar, para colocar a mão por cima.
O comboio chega. As pessoas empurram-se. Entra gente aos magotes. O corpo ainda fraqueja. Há poucos lugares sentados, mas ainda há. A rapariga tem sorte e astúcia, foi das primeiras a entrar. Sobe as escadas do comboio. Procura um lugar vago. Os olhos circundam por toda a carruagem. Ainda há lugares vagos. Há mulheres que já se sentam. Avista um lugar. Tem de “ir de costas”, mas o lugar permanece vazio junto da janela. Pede licença, é bem educada. Um homem tem um telemóvel sobre o ouvido. Ela pede-lhe licença. O espaço é pouco. Ela senta-se, mas permanece desconfortável. As pernas não estão à vontade. O homem, que está sentado á sua frente, abre as pernas. É ele quem manda. Abre as pernas, e a rapariga estica as suas até ao centro das calças do homem. Foi o homem quem abriu as pernas...
É noite. Está frio, mas a cidade ainda tem gente. A fêmea entra no estabelecimento por uma rua muito estranha. À frente, na porta principal, formam-se carros. Os homens são apresentados ao porteiro do Bar. A fêmea dirige-se a uma sala. Cumprimenta a “menina dos varões”, como outros lhe chamam. É à menina que cabe a dança dos varões. A casa de alterne é gerida pelo filho de um empresário. A fêmea nunca o viu, mas agora não tem tempo para formular juízos hipotéticos, nem abreviar especulações. O “patrão”, que é raia miúda, entra no “camarim” das meninas, e grita-lhes que se vistam/dispam rapidamente. Já estão a chegar clientes. Dizem que a gerência mudou, mas já se fazem misturas no bar, já se testam as luzes do palco, já se experimentam os varões do strip-tease. Os clientes começam a entrar. “Esta noite há Show Erótico”. Os clientes cumprimentam o empregado que está atrás do balcão, e sentam-se. Até perto da uma da madrugada irão chegar clientes de todos os feitios e nacionalidades. Um deles, entra cansado e senta-se. Ajeita a gravata tornando-a desajeitada. Onde esteve ele hoje, durante a tarde? Tem fome, ainda não jantou. “Escolha o que vem no preçário do menu”. Conjugue um strip-tease com uma tosta mista. O cliente pousa o menu e lê os escritos da mesa: “Não Toque, Não Grite, Não Faça Propostas. Se o fizer, seremos obrigados a convidá-lo a sair”. O cliente pergunta-se se terá deixado tudo encaminhado em casa e no escritório. A Sociedade já tem quotas, já tem sócios, já tem capital social, e uma conta bancária. Em breve terá gerente, como todas as sociedades, como todos os bares de alterne, como todas as casas de família. O cliente está descansado.
Em casa, a mulher permanece dentro da cobertura da sua condição social. De mau humor, deverá estar sentada no sofá da sala de jantar, apertando a si o roupão. Nas outras mesas, outros clientes discutem futebol. Falam de desporto, essa fortaleza de gente pequena, onde até os pobres tomam alento. Em outra mesa, ainda, um grupo de jovens festeja uma despedida de solteiro. O animador começa a fazer jogos de som, brincando com as palavras, brincando com a vida dos clientes. É preciso fazer dinheiro hoje. “Como hoje há clientes, há espectáculo sexy”.
A “menina dos varões” está preocupada. Agita as mãos. A fêmea também está preocupada. Ela tem de ganhar o seu sustento, não é sustentada por um marido. A “menina dos varões” calça os sapatos de salto alto. O frio rasteja para dentro dos seus pés. Não vale a pena falar dos pés dela, do que já pisaram, com o que já foram pisados, mas ela também não fala muitas vezes. Estes saltos já não a separam do gelo do mundo. Levanta-se e anda com dificuldade. Tem de prestar atenção, ver onde põe os pés, em vez de ser acossada pelos outros. A fêmea também se levanta. Esteve a beber este tempo todo. Só assim ela aguenta estas noites. Agarra-se bem ao corrimão, mas avança bastante bem. Tem de ganhar a vida.
Luzes vermelhas iluminam a sala, quadros oleados de figuras eróticas tecem comentários sobre os clientes. Eles estão à espera do produto. Alguns são enganados pelo dono do Bar que lhes diz quais são as mercadorias em promoção. Estes homens são escolhidos de acordo com os seus bens. Elas não, elas são sempre apresentadas com um rótulo na virilha contendo a epígrafe “Artigo de Promoção Especial”. E já começam elas a entrar por um cortinado negro atrás de um dos múltiplos espelhos que circundam o bar. Vão sentar-se à mesa dos homens, beber cerveja e jogar o jogo da humanidade: nem sequer um cão seria capaz de ter tanta paciência. No entanto, o ambiente torna-se alegre. Ouve-se “Breakfast In America” dos Supertramp. A « menina dos varões” engole o varão, despe o que já está despido, e lambe a gorjeta do cliente. Agarra a nota que lhe descai sobre o peito. Quentes mãos apalpam as notas. Para onde vai o nosso dinheiro, quando nos separamos dele? É certo que não há nada que se perca, e estas mulheres bem o sabem. Foi assim que a natureza as fez. Elas comem os produtos dos homens, para que, em troca, sejam comidas por eles. O dinheiro delas cheira mal e sua por causa do seu trabalho. Outras mulheres, que não estas, enfiam as cabeças nos sacos das compras e esperam que os homens as coloquem nas suas contas bancárias, a fim de deixar crescer as suas necessidades de uma maneira bastante suculenta.
A fêmea está sentada ao lado de um mediador de seguros. A cara não lhe parece estranha. Já o viu uma vez no mundo dos vivos. Este homem, no entanto, conhece bem as regras do bar. Domina os códigos como se fosse um homem do alterne. Conta-lhe histórias, queixa-se das incompreensões mundanas, toca-lhe ao de leve no pulso. Este homem já viu tudo: “casas com sobe e desce”, “casas de strip”, “casas de alterne”, “meninas livres”, “prisões de luxo”, “bungalows no jardim”, “jacuzzi”, “sauna”, “prisões miseráveis”. Aqui paga vinte e cinco euros de entrada. A fêmea ficará com dois euros e meio, e a casa descontará quinhentos euros de impostos sobre o valor acrescentado para as pessoas colectivas. Depois de conversarem, o homem sugere o andar de cima. Tem quartos para alugar. A fêmea concorda. Já são onze da noite, é preciso angariar clientela. Tem uma percentagem por isso.
A fêmea está estendida, escancarada na cama, recoberta de líquidos viscosos e escorregadios, espalhados uns sobre os outros, que a tornam mais valiosa, que a valorizam em vários pontos. Ela foi por muitos homens completamente cagada e completamente mijada. Precisava de se levantar e descer ao salão do bar para engatar mais um. No quarto ao lado, ouve a “menina dos varões” gritar, enquanto lhe enfiam o indicador direito, profundamente, pelo cu acima. Estão vários homens naquele quarto. São os rapazes da despedida de solteiro. Uns apenas querem ver, outros apenas querem saborear, mas todos a querem usar. A fêmea tem de levantar-se, deixar cair para o chão os últimos cartuchos da virilidade masculina e ir buscar uma esponja de limpeza para se limpar. Depois tem de descer as escadas, mas já é tarde de mais, está um novo tubarão assassino em frente dela. Ela já sabe o que fazer. A fêmea, que está deitada à frente do homem, abre as pernas. É ela quem manda. Abre as pernas, e o homem estica o seu membro até o centro dela. Foi a fêmea quem abriu as pernas...
O entardecer ofusca a mente da escritora. Ela coloca um Cd no computador. Ouve “Falling in Love Again” na voz de Nina Simone. Deixa o Cd correr. Tem de escrever, o livro tem de estar pronto até o final do mês. O objectivo da sua pesquisa de dois anos – com interrupções, escrita e reescrita, invenção de personagens, conversas – é a construção de uma simples e singela história, cheia de mulheres, só com mulheres. Mulheres escravas, mulheres carnívoras, mulheres tristes, mulheres enfeitiçadas, mulheres possessivas. Trata-se da construção “verdadeira” de uma casa de mulheres, com vida própria, com rituais, com “tiques de linguagem”. Quer arranjar uma história para três mulheres diferentes, descobrir as pessoas certas e os lugares certos para estas mulheres viverem. Onde é que a tragédia pode ser mais fascinante senão numa casa de mulheres, onde o vício do dinheiro alterna com o vício do charme?
A escritora começa a escrever. Esta, no seu atordoamento por não encontrar a saída de emergência das suas recordações, treina-se a escrever repetidamente a palavra “Mulher”. Enquanto escreve a história, as suas palavras correm livremente, sem trela. Ela não distorce a linguagem, não invoca figuras de estilo para atenuar as emoções de quem futuramente a quiser ler. Para quê tornar doce, o que deve ser amargo? Para quê curar uma ferida que respira melhor se estiver aberta? Ninguém a vai aceitar, ninguém a vai querer ler. Mas ela prefere abandonar a alegre companhia de certas expressões, alegres e esperançadas, com as quais podia de facto contar e continuar a cegar, sem se importar com as chamas que a golpeiam por dentro, do que ficar eternamente presa aos anacronismos de quem sabe escrever. Não, ela tem que escrever. Ela sabe que, nas suas celas, as mulheres sangram do cérebro e do sexo a que pertencem. Aquilo que elas próprias criaram, têm agora também de tratar e manter com vida. No entanto, ela não consegue conceber a vida sem os Homens. Pensa nisso, e assusta-se. Quer apagar o que já está escrito, mas não consegue. O cursor do rato não se mexe. A luz extorque-lhe a força nas mãos. Explode-lhe dos pulmões um grito involuntário, não muito selvagem, um som mudo. A escritora bate com o punho disparatadamente contra a mesa do computador. Tem de incluir um Homem na sua história. Rapidamente, caso não o fizesse, todo o seu objectivo ver-se-ia gorado. Um Homem tem de descer dos céus e tornar-se ele mesmo numa personagem.
A escritora começa a escrever a história. Só por minutos entra na arena em que os consumidores leitores aprendem a ler. Dizem os críticos que a escrita dela é amarrotada, tem de ser limpa, arranjada e passada a ferro. No entanto, ela não vê razão alguma para se conter para se dever conter por detrás das barreiras da literatura. No final do livro ela escreverá em prólogo “Muito obrigado, por ter lido os meus insultos”. Por agora, ela só pensa nas suas personagens. Preocupa-se com o destino delas. Uma das personagens, que está em frente da outra, abrirá as pernas. Será ela quem irá mandar. Abrirá as pernas e a outra personagem esticará algo para a poder tocar. Será essa personagem quem irá abrir as pernas...
Amanhece. Um novo dia para a rapariga. Senta-se na cama, ainda atordoada pelo sono. Novamente a náusea, novamente a vontade de vomitar. Veste-se, perfuma-se, besunta-se. Sai de casa. No caminho volta a olhar as mesmas pessoas, e sente algo apoderar-se dela. Ela já não é a rapariga que todos os dias acorda, que todos os dias pensa em vomitar, que todos os dias amontoa-se com as centenas de pessoas em volta da centopeia de carris. Também já não é a escritora que todos os dias, depois de voltar do emprego senta-se à beira do computador e escreve sobre a raça do seu sexo, que pesquisa sobre o feminino apenas porque a editora lhe pede, que inventa personagens desgarradas sem nexo, com forma e pouco conteúdo. Por fim, já não é a fêmea que todas as noites sai à rua para trabalhar naquele Bar de alterne na vagina da cidade, que todas as noites ouve as mesmas histórias dos mesmos homens, que todos as noites recebe os mesmos membros frouxos e encouraçados, que todas as noites é banhada pelos mais nauseabundos licores. Não, já não é nenhuma delas. Descobre-se a si como Mulher. Quer ser Mulher. Mas este desejo que a anima não é ditado pela amabilidade. Ela está cheia do seu passado mais jovem: o futuro pertence-lhe a si, e os pais ensinaram-na a lançar-se contra os outros na feira dos animais. Ela está precisamente aberta a um amor sem esperança, suave, como os porcos no dia anterior à matança. Não nos corre bem a vida quando nós, mulheres, não gostamos de mais nada a não ser limpar as nossas casas e esperarmos por outros que cheguem a casa e nos pisem. Mas nada de medos, ficaremos sempre as mesmas.
Ela, agora Mulher, corre para o comboio. Está atrasada. Consegue entrar porque o revisor esperou por ela. O comboio está cheio. Duas mulheres conversam entre si. Trazem revistas de decoração na mão, e conversam sobre o baptismo dos filhos. A Mulher pede delicadamente licença. As mulheres não gostam dela, e observam-na com desdém. Os piores inimigos não são os que vêm de fora, mas os que provêm da própria raça. Ao fundo está um lugar vago. Ela caminha para o lugar. Senta-se defronte de um homem. No comboio ouve-se “Breakfast In America” dos Supertramp. O espaço entre os dois lugares é muito curto. Alguém terá que abrir as pernas. É o homem que as abre. A rapariga, a fêmea e a escritora sorriem...


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografia de Philippe Pache)

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março 19, 2005

NA COMPANHIA DE FERREIRA GULLAR

Na sequência do post anterior, em particular, no que respeita à sua temática, edito hoje dois poemas do poeta brasileiro Ferreira Gullar (n. 1930, São Luís do Maranhão). Dois poemas, ou melhor, um poema e parte de um outro (Porque "Carta do morto pobre" é parte de um poema incluído em Um programa de homicídio), extraídos da obra "A luta corporal", publicada em 1954, com poemas escritos entre 1950-1953. Poemas contidos num livro, por sua vez incluído na "Obra poética", editada o ano passado pelas Edições Quasi.
Quanto aos conteúdos aqui constantes (e na obra que enquadra os poemas): o homem e a reflexão/constatação de si (ou proposta disto mesmo): do que é, seus alcances e limites. A existência: o seu lado sujo, visceral e mais problemático. As angústias. As contradições. O que deve ou importa ser considerado inversamente. Visões do mundo. Visões que se reflectem. Efeitos boomerang. Espelhares.
O que se segue não é, pois, nada de "leve" de/para ser lido. Impõe-nos uma postura. Impõe-nos uma ou várias reacções. Não a indiferença, certamente. Sendo que, propositadamente, o sucedi ao editado ontem, julgo ter conseguido criar um conjunto onde a globalidade das ideias são suficientemente perturbadoras para não nos deixar ficar passivos, em particular, em termos de práxis futura. Mas se constatarmos que deixa, então, será já de concluir que estamos num estado de coma tal, que exige um tratamento de choque sério. Muito sério.
Ora leiam e... fiquem... (bem?) Enfim...

UM PROGRAMA DE HOMICÍDIO
Carta do morto pobre

Bem. Agora que já não me resta qualquer possibilidade de trabalhar-me (oh trabalhar-se! não se concluir nunca!), posso dizer com simpleza a cor da minha morte. Fui sempre o que mastigou a sua língua e a engoliu. O que apagou as manhãs e, à noite, os anúncios luminosos e, no verso, a música, para que apenas a sua carne, sangrenta pisada suja - a sua pobre carne o impusesse ao orgulho dos homens. Fui aquele que preferiu a piedade ao amor, preferiu o ódio ao amor, o amor ao amor. O que se disse: se não é da carne brilhar, qualquer cintilação sua seria fátua; dela é só o apodrecimento e o cansaço. Oh não ultrajes a tua carne, que é tudo! Que ela, polida, não deixará de ser pobre e efêmera. Oh não ridicularizes a tua carne, a nossa imunda carne! A sua música seria a sua humilhação, pois ela, ao ouvir esse falso cantar, saberia compreender: "sou tão abjecta que dessa abjeção sou digna". Sim, é no disfarçar que nos banalizamos porque ao brilhar, todas as cousas são iguais - aniquiladas. Vê o diamante: o brilho é banal, ele é eterno. O eterno é vil! é vil! é vil!
Porque estou morto é que digo: o apodrecer é sublime e terrível. Há porém os que não apodrecem. Os que traem o único acontecimento maravilhoso de sua existência. Os que, de súbito, ao se buscarem, não estão... Esses são os assassinos da beleza, os fracos. Os anjos frustrados, papa-bostas! oh como são pálidos!
Ouçam: a arte é uma traição. Artistas, ah os artistas! Animaizinhos viciados, vermes dos resíduos, caprichosos e pueris. Eu vos odeio! Como sois ridículos na vossa seriedade cosmética!
Olhemos os pés do homem. As orelhas e os pêlos a crescer nas virilhas. Os jardins do mundo são algo estranho e mortal. O homem é grave. E não canta, senão para morrer.

O MAR INTACTO
P.M.S.L

Impossível é não odiar
estas manhãs sem teto
e as valsas
que banalizam a morte.

Tudo que fácil se
dá quer negar-nos. Teme
o ludíbrio das corolas.
Na orquídea busca a orquídea
que não é apenas o fátuo
cintilar das pétalas: busca a móvel
orquídea: ela caminha em si, é
contínuo negar-se no seu fogo, seu
arder é deslizar.

Vê o céu. Mais
que azul, ele é o nosso
sucessivo morrer. Ácido
céu.
Tudo se retrai, e a teu amor
oferta um disfarce de si. Tudo
odeia se dar. Conheces a água?
ou apenas o som do que ela
finge?

Não te aconselho o amor. O amor
é fácil e triste. Não se ama
no amor, senão
o seu próximo findar.
Eis o que somos: o nosso
tédio de ser.

Despreza o mar acessível
que nas praias se entrega, e
o das galeras de susto; despreza o mar
que amas, e só assim terás
o exato inviolável
mar autêntico!

O girassol
vê com assombro
que só a sua precaridade
floresce. Mas esse
assombro é que é ele, em verdade.

Saber-se
fonte única de si
alucina.

Sublime, pois, seria
suicidar-nos:
trairmos a nossa morte
para num sol que jamais somos
nos consumirmos.


(Ferreira Gullar- A LUTA CORPORAL. Obra incluída em OBRA POÉTICA, trazida para o mercado pelas Edições Quasi. Fotografias de William Ropp)

Publicado por void em 08:33 AM | Comentários (1)

março 18, 2005

PARA ONDE VAI O HOMEM?

Mas o homem é uma criatura leviana e pouco escrupulosa e, talvez, à semelhança do xadrezista, apenas goste do processo de ir para determinado objectivo e não do objectivo em si. E quem sabe (não há a certeza) se, talvez, todo o objectivo a que a humanidade aspira na terra consista exclusivamente nesta ininterrupção do processo de ir para um objectivo, por outras palavras, na própria vida e não no objectivo em si, quem sem dúvida outra coisa não é do que os dois e dois serem quatro, ou seja, uma fórmula, mas dois mais dois são quatro não é a vida, meus senhores, e sim o início da morte. Pelo menos, o homem sempre teve certo medo desse dois mais dois são quatro, e eu ainda agora lhe tenho medo. Pois é, o homem não faz outra coisa senão procurar esses dois mais dois são quatro, atravessa oceanos, sacrifica a vida nessa procura, mas, na realidade, tem medo de encontrá-lo, juro. Porque sente que, quando o encontrar, não haverá mais nada para procurar.

Os operários, depois de terminarem um trabalho, pelo menos recebem a paga, vão com esse dinheiro à taberna, depois vão parar à esquadra - e têm ocupação para uma semana. E o nosso homem, para onde vai? Transparece-lhe sempre, pelo menos, um qualquer embaraço quando alcança os objectivos. Gosta de consecusão, mas não gosta de conseguir - é, sem dúvida, muito engraçado. Numa palavra, o homem é feito de maneira cómica; em tudo isto haverá, pelos vistos, uma espécie de trocadilho. Mas o dois mais dois são quatro é uma coisa insuportável. O dois mais dois são quatro é, na minha opinião, um atrevimento. O dois mais dois são quatro é arrogante, espeta-se-nos no caminho com as mãos nas ancas e cospe. Estou de acordo que o dois mais dois são quatro é uma coisa excelente; mas, já que estamos na louvaminha, então o dois mais dois são cinco também é, às vezes, uma coisinha simpática.


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO. Fotografia de Carlos Morales Mengotti)

Publicado por void em 06:44 AM | Comentários (4)

março 17, 2005

EM CENA: ANTES CEGO

Edito, hoje, a quase totalidade de uma outra peça curta do escocês Duncan McLean. "Antes cego" vem, pois, na sequência de "Uma coisa é certa", apresentada na passada Segunda-feira. Mais um trabalho do mesmo dramaturgo, para aprofundarem aquele que é o conhecimento relativamente ao que cria e temáticas abordadas.
Datada de 1999 "Antes cego" debruça-se sobre a relação entre um casal jovem, o envolvimento de um dos pais de ambos nessa mesma relação, em particular no que respeita às opiniões dadas/posicionamentos tomados, assim como nos cruzamentos que acabam por ser aflorados (na sequência de um determinado passado) entre a vida de uns e de outros.
Tudo isto é apresentado de forma muito directa, crua e dura. Uma linguagem e um estilo muito próprios de McLean.


Colin, vinte e tais
Sally, vinte e tais
Alec, o pai da Sally, quarentas
Rene, a mãe de Colin, quarentas

Escuro. Música muito alto: "Hideaway" por Freddy King. Depois do primeiro refrão, e à medida que as luzes sobem, Colin e Sally entram no palco por lados opostos, sentam-se em cadeiras. Durante o segundo refrão estão apenas sentados, a olhar em frente. Depois de cerca de quarenta segundos, à medida que o terceiro refrão (a linha de baixo) começa a desaparecer, Sally, fala.

Sally- UMA MERDA!

Colin- Por acaso até acho que a nossa relação é bastante boa. Muito boa.

Sally- Achas.

Colin- Nunca tive queixas.

Sally- Que tivesses ouvido.

Colin- Nem uma única queixa.

Sally- É impressionante o que tu não ouves quando simplesmente não queres ouvir.

Colin- Claro que às vezes ela, pronto, irrita-me, mas não é assim uma grande coisa.

Sally- Não é grande para ti.

Colin- Fecho os olhos.

Sally- Fechas-me no quarto.

Colin- O casamento é assim mesmo - fecha-se os olhos à má conduta da esposa.

Sally- Longe da vista, longe do coração - fecha-me no raio do quarto durante horas sem fim.

Colin ri-se muito alto do que ela acabou de dizer.

Sally- Ele fecha os olhos ao meu olho negro.

Colin- Não sei do que é que ela está a falar, nunca lhe dei uma merda de um estalo..

Sally olha ameaçadora para ele: o primeiro olhar entre eles.

Colin- Desculpa! A linguagem. Nunca lhe dei uma m-da dum estalo. (Olha para ela.) Contente?

Sally- Não devias dizer isso.

Colin- Já pedi desculpa!

Sally- Não é a merda! Mentir!

Colin- Quem é que está a mentir, caralho?

Sally- Tu!

Colin- Oh, pó caralho!

Sally- Estás a mentir comó caralho!

Colin- Não comeces!

Sally- Começo com o quê? Tu é que estás a começar a mentir comó caralho! Começo com o quê?

Colin- Com o caralho das acusações, não comeces.

Sally- Não são acusações, é verdade.

Colin- É sempre a mesma merda a sair da tua boca.

Sally- Pois, pois, e querias a boca de quem?

Pausa.

Colin- Puta.

Sally- Cabrão.

Colin- Frígida do caralho.

Sally (gritando.) Vou chamar o meu pai para ter uma conversinha contigo!

Entra Alec como um furacão do lado do palco de Sally, a face contorcida pela raiva, coloca-se de imediato ao pé de Colin. Colin levanta-se assustado, pega na cadeira e segura-a à sua frente, usando-a como barreira entre si e Alex. Alec agarra nas pernas da cadeira, e os dois lutam por um bocado, cada um tentando dominar o outro. Enquanto o fazem grita-se qualquer coisa como:

Alec- Cabrão, mentiroso dum cabrão, seu gatuno.

Colin- Alec, sente-se, vá lá, sente-se.

Sally levanta-se, aproxima-se deles, agarra a cadeira.

Sally- Parem lá os dois.

Alec e Colin empurram-na. Sally volta a aproximar-se, agarra o pai pelos ombros, afasta-o. Colin larga a cadeira e Alec tira-lha.

Sally (enquanto agarra no pai)- Vá lá, pai, senta-te, senta-te.

Alec olha para Colin mas pousa a cadeira que ganhou junto a Sally. Sally senta-se na cadeira mais próxima de Colin e arrasta Alec para a outra cadeira. Entretanto, Colin sai pelo seu lado do palco e volta com uma outra cadeira, onde se senta, como antes.

Alec- Estás feito comigo, miúdo.

Colin- Vai-te foder velho.

Sally- Colin! Pai! Vá lá! Estamos aqui para conversar sobre isto.

Colin- Diz isso a ele!

Sally- Estou a dizer-lhe.

Colin- Passado dos cornos!

Sally- Estou a dizer aos dois. Estamos aqui para conversar.

Alec- Pois. Para conversar.

Sally- Então?

Alec (respira fundo e começa a falar.)- Fiquei contente pela pequena quando ela nos disse à gente que se ia casar. Que pai não ficava contente pela sua filha? Depois ela disse-me com quem ia casar e Jesus, Colin Grant? O filho do Gerry Grant? Nem pensar! Essa família é tudo veteranos, uns veteranos de merda.

Sally- Veteranos de guerra?

Alex- Não, pequena, veteranos de merda. As histórias que se contam deles já têm barbas. Toda a gente conhece os Grants! Uns sacanas duns ladrões! Meu Deus!, e a minha filha vai casar com um deles!

Colin- Pois, e casou, e agora é uma Grant, portanto veja lá o que é que diz.

Alec- O nome dela pode ser Grant mas ela não é uma dessas. As mulheres Grant já toda a gente sabe como são: umas porcas, é isso mesmo. Entravam no jogo mas ninguém lhes pagava. Largavam-nas por meia imperial. De joelhos nas traseiras do café. Essas é que são as verdadeiras Grant.

Colin- Ó parvalhão. Olha que estás a falar da minha mãe. (Levanta-se.)

Alec (desviando o olhar.)- Não tou não.

Colin- Da minha mãe.

Alec- Não tou não. Ela é uma Geddes não é uma Grant. De Grant só tem o nome, do casamento, não de nascença. Uma boa mulher a tua mãe.

Colin (senta-se.)- Bom. É isso mesmo, caralho. E não te esqueças disso.

Alec- Não me vou esquecer. Rene Geddes. Uma boa mulher.

Sally- Por favor, pai, és capaz de parar de falar na mãe dele?

Alec- Hã?

Sally- Estamos aqui para falar sobre nós. Sobre mim e sobre o Colin. Sobre ele fechar-me no quarto e não me deixar sair com as minhas amigas.

Colin- Umas putas.

Sally- Sobre este olho negro e o resto.

Colin- Estavas bêbada! Tropeçaste no cão!

Sally- Não tropecei nada.

Colin- Pergunta ao cão.

(...)

Alec- Vejo a minha filha triste, quase a chorar. E detesto. Qualquer pai ia detestar. Digo-vos uma coisa, meus caros, antes cego que ver a minha filha triste. Mas ao longo dos anos já vi isso acontecer muitas muitas vezes. Vi-a chorar quando não conseguia arranjar namorado, e depois vi-a chorar quando conseguiu - ah pois foi. (...)

Sally (avançando, ao lado do pai.)- É isto que custa. Não é o que o Colin me faz. Mas o que o-que-ele-me-faz faz ao meu pai. Eu adoro o meu pai. Foi ele que me educou, e ainda sou a menina dele, acho eu. A princesa. Às vezes até chateia a maneira como ele me trata, aquela protecção toda, mas faz isso por amor, né? E eu detesto vê-lo triste. (Mudança:) O que é que hei-de fazer? Casar com ele? Não é possível. Não posso continuar na casa dele, ficar lá para sempre, ser a pequenina dele para sempre. Tenho de sair, ver o mundo, encontrar o meu... o meu homem.

Colin (avançando)- Ninguém é perfeito. Eu sei disso. Percebo que ela acha que eu não sou perfeito. Tudo bem. Mas eu, parece-me, eu amo-a, acho eu. Seja lá o que isso for. E acho que ela também me ama a mim. Sei lá. É só a maneira dela mostrar: como o pai dela; ciumenta, possessiva, sempre a meter a merda do nariz onde não é chamada. E depois admira-se de ver coisas que não gosta. Digo-lhe a ele: não metas o nariz na nossa vida e não vês a tua pequena a chorar, nunca hás-de ver. E digo-lhe a ela, olha bem para a minha mãe, aprende com ela: fechou os olhos aos erros de meu pai e olha o que aconteceu: vinte e cinco anos de um casamento feliz. Uma boa relação.

Rene (avança...)- UMA MERDA. O pai dele tratou-me como lixo durante vinte e cinco anos. De um lado para o outro, a beber o dinheiro todo, a humilhar-me. Ha. Era o que ele pensava. Enquanto andava à pesca, também eu me andava a divertir, não é verdade Alec?

(...)


(Duncan McLean- ANTES CEGO. Peça editada na revista Artistas Unidos. Número Especial. Ano 3. Novembro. Número 6. Fotografia do próprio dramaturgo)

Publicado por void em 10:55 AM | Comentários (1)

março 16, 2005

INSTANTES DE... "CARAS BARATAS"

Pois é efectivamente com elas que vos deixo. Com as caras baratas. Mas...! Sim, é verdade. Bem... deixo-vos mais com as "Caras baratas". A muito recente antologia de poesia de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, mais conhecida como Adília Lopes.
Uma poetisa, na minha opinião, bastante diferente. Uma poetisa que usa e "abusa" da ironia de uma forma extremamente interessante. Ironia que é especial: de uma grande acutilância e que pode incomodar os mais sensíveis. Será? Devido a quê? Enfim... Uma poetisa que desafia. Que agarra muito do que poderíamos considerar invulgar, transformando-o em ideias de grande relevância. Uma poetisa que dá brilho ao que é "comezinho". Uma poetisa que observa, que aponta, que critica, que ataca. Mas uma poetisa que também brinca com tudo isto. Que brinca com as palavras. Que brinca, no âmbito de uma grande dose de seriedade. Que brinca com o que é sério... ou pode sê-lo... ou tê-lo-á já sido. Ou seja... bem, vão descobrindo vocês.
Aqui ficam alguns poemas (o 1º conjunto. Prometo editar mais):


ARTE POÉTICA

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer


Preciso que
me reconheçam
que me digam Olá
e Bom dia
mais que de espelhos
preciso dos outros
para saber
que eu sou eu


Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação
de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bebé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste


FARISEIAS

Gostam de ser cumprimentadas
nas praças
e de ter o primeiro lugar
à mesa dos banquetes
são calculistas
formigas carreiristas
cheias de sucesso
e tudo usam e tudo gastam
indistintamente
porque são altas as suas entropias
e depois não sabem dar
os bons-dias às mulheres-a-dias


Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim


(Adília Lopes- Caras Baratas. Antologia. Edição: Relógio D'Água. Fotografia da própria poetisa)

Publicado por void em 06:50 AM | Comentários (1)

março 15, 2005

INSTANTES DO QUE (VOCÊS)... PREFERIREM

Continuando a apresentação de "escritos" de Gonçalo Tavares, cuja edição mais próxima foi na passada Sexta-feira no post "Instantes de Poesia", ofereço-vos hoje dois outros trabalhos constantes na obra "1". Mais uma insistência minha. Mais um reforço público do quanto aprecio este autor.

Acabou o jardim: pela terra, por cima das sementes, entra o exército da Força.
Dançar para conquistar o alimento: outros tempos. Agora: matar para roubar o alimento.
Querem frutos: passam por cima das sementes; desperdício.
A Força.
O agricultor começa de novo, pela manhã.
A paciência do espírito. A inocência: começar de novo.
Devorar o coração. Entra pelas vísceras, a Força, e devora o coração.
O corpo é monstruoso, igual ao universo. Violento. A lua só não cai porque não pode. Lei das coisas altas.
Os animais quase vermelhos abandonam os homens.
Atrás o que sobrou dos habitantes da cidade: ossos, um ou outro filho; e a alma quente, viscosa: um alimento estragado.

Jejuar dos humanos: voltar às árvores.
O deus perdeu-se nas cidades: voltar ao campo: as vacas são mais espirituais que os banqueiros. Ou não.
Roubar tempo aos modernos: mostrar-lhes o eterno.
Dentro da terra o tambor do milagre: noite, manhã, noite. Outra manhã.


(Gonçalo M. Tavares- 1 Primeira e segunda fotografias: Thomas Dworzak. Terceira e quarta fotografias: Henri Cartier-Bresson)

Publicado por void em 06:50 AM | Comentários (1)

março 14, 2005

EM CENA: UMA COISA É CERTA

Dando continuidade à apresentação/divulgação de dramaturgos provenientes da Escócia iniciada em Janeiro, com a edição do excerto de uma peça de Anthony Neilson, trago-vos hoje, praticamente na íntegra, uma peça curta de Duncan McLean. Uma peça que aborda de forma muito particular a Morte. A Morte e o medo de si. A Morte e o que esta pode ser para além das certezas que são dadas. A Morte e o que está para além do visível e do imediatamente constatável. Uma peça incómoda, precisamente, pela imensa angústia vivida por Keith. Uma peça onde a inquietude, o questionamento e a dúvida são permanentes. Uma peça onde se fala da Morte, naquilo que esta poderá ter de Vida. Ou a Vida ainda existente no estado de Morte.
Quanto ao dramaturgo que é também guionista, contista, romancista e editor, nasceu no ano de 1964. Iniciou a sua actividade artística como cantor e actor numa companhia de teatro de rua de Edimburgo. Começa a escrever para Teatro em 1985, o que se mantém até à actualidade.
"Uma coisa é certa", a peça que se segue, é datada de 1994.

Keith, vinte e muitos anos.

Keith está deitado no palco no escuro. Ouve-se música: Hank Williams a cantar "I'll never get out of this world alive". Depois das três primeiras estrofes e ponte, durante a parte instrumental, a música vai ficando mais baixa até quase deixar de se ouvir. Simultaneamente, as luzes incidem sobre o actor. Ele fala.

A primeira coisa que me vem à cabeça quando acordo é: "Graças a Deus, estou vivo! Podia ter morrido durante a noite mas não morri, estou vivo." (Senta-se.) É aí que os meus problemas começam: é aí que penso: "Não morri durante a noite, logo isso pode acontecer hoje, a qualquer momento, a qualquer momento a partir de agora." (Faz uma pausa, como se estivesse à espera de ser fulminado.) Não há saída. Quem está morto, está morto, quem está vivo, vai estar morto. Quem não se vai durante a noite, há-de ir durante o dia. Um dia, qualquer dia.

Hank Williams começa a ouvir-se novamente, para a ponte e estrofe depois do segmento instrumental. Ele levanta-se e anda um bocado. A música deixa de se ouvir antes de a canção acabar.

Uma noite estava sentado no sofá a ver televisão, os meus dois putos a brincar com os legos no tapete atrás de mim. E então aquilo aconteceu. Não sei se dá para perceber, ou se é uma coisa minha. Percebem? O que aconteceu foi que me apercebi de que não fazia a mínima ideia do que é que tinha estado a ver na televisão. Não foi só um minuto, foram horas, a noite inteira. A minha cabeça tinha estado noutro sítio qualquer aquele tempo todo, eu tinha estado numa merda dum limbo, a olhar para a televisão. E depois o que aconteceu foi que (estala os dedos) parece que voltei. Vi onde é que estava sentado, olhei à minha volta, e... precisava de ver os miúdos.
"Gordon, Darren, venham cá!"
"Tou aqui, pai."
"Eu também"
"Sim, mas venham para aqui, para vos poder ver."
"Oh..."
"Venham cá!"
Vieram por detrás do sofá e puseram-se à minha frente. Lembro-me de que estavam de pijama. Prontos para... (levanta a cabeça bruscamente.) Peguei-lhes nas mãos.
"Estão bem?" perguntei.
"Sim."
"Óptimo. Têm a certeza?"
"Estamos a fazer um castelo."
"Óptimo, óptimo. Mas olhem para mim." Olharam para os meus olhos. "Qual é a única coisa que é certa?" perguntei. Não diziam nada. Olhei para cada um deles à vez, para lhes tentar mostrar como isto era importante. Depois pensei: "Meu Deus, será que eu acabei de lhes fazer a pergunta ou será que apenas pensei que a tinha feito? Será que estive outra vez na porra da zona do limbo? É por isso que eles não respondem?" Então abanei-os um bocado aos dois e perguntei-lhes outra vez: (Mais alto.) "Qual é a única coisa que é certa nesta vida?"
"Ir à escola", disse o Gordon, um segundo depois. É o mais velho. Segunda classe. "As pessoas têm de ir à escola", diz ele.
Olhei para ele e fiz que não com a cabeça. "Não", disse eu. "Podes estar doente ou podes baldar-te. Estás enganado, a escola não é uma coisa certa." Virei-me para o miúdo mais novo, aproximei-me dele: Disse, "Então e tu, Darren? Diz-me lá, meu homenzinho, qual é a única coisa que todos nós sabemos que é certa?"
Franziu a testa, depois desfranziu, encolheu os cotovelos.
"Digo eu?" perguntei.
"Sim."
"A única coisa que é certa é: vamos todos morrer."
O Darren recuou e olhou para cima do meu ombro na direcção da porta da cozinha. Os olhos dele estavam a começar a ficar pequeninos e cheios de lágrimas. "Mamã!" diz ele. "Cala-te, cala-te", dogo eu, largo-lhe a mão e a do Gordon também, mas a porta da cozinha já se está a abrir e a Lesley a entrar em acção.
"O que foi, meu querido?" diz ela.
"Nada", responde o Gordon. É mais velho. É um bom miúdo.
"É o pai", começa o Darren, "tá-me a fazer perguntas..."
"Então filho, vá lá..." Estiquei-me para lhe dar uma festinha na cabeça, mas ele fugiu e foi-se esconder atrás da mãe.
"Keith", disse ela, "o que é que andaste a dizer-lhes?"
"Nada! Não disse nada." Precisava do comando da televisão. Olhei à volta, não o via em lado nenhum.
"Keith, o que é que lhes disseste que os assustou?"
"Nada! Tirando que, bom..." Olhei para ela, fiz-lhe uma espécie de sorriso. "Nada."
"Ele disse que íamos morrer", respondeu o Gordon, traidor. "Disse que era a única coisa que era verdade."
"Ó Keith..."
"Só queria pô-los a pensar, só isso. (Ri-se, apesar de fazer um riso forçado.) É bom encarar... as coisas.
"Mas não aos seis e aos quatro anos!"
"Bom... mais cedo ou mais tarde terá de ser." Lá estava o comando, no braço do sofá. Tinha estado à minha frente o tempo todo. Pus mais alto. Estava a dar um daqueles programas da vida selvagem. Animais grandes a esfacelar animais pequenos, ou seja, o costume.
Ela ficou a olhar para mim durante alguns segundos, sentia-se ali, a fixar-me. Por isso não desviei o olhar. Depois ela disse, "Vamos lá meninos, está na hora de ir para a cama." Pela primeira vez pareciam contentes por se irem deitar.

(...)

Depois de os miúdos acalmarem, a Lesley passou pela sala e foi direita à cozinha. Voltou cinco minutos depois, duas chávenas de café e um pratp com umas tostas com queijo.
"Toma lá", disse ela.
Eu, eu estava a tentar concentrar-me no programa.
"Keith."
"Mmm."
"Gostava que não falasses assim com os miúdos. Muito menos antes de eles irem para a cama. (Pausa.) Keith, estás a ouvir?"
"O quê? Sim, sim."
"Olha que estou a falar a sério. Vais fazer com que tenham pesadelos."
Senti que uma onda de uma coisa qualquer se apoderava de mim: escuridão. Virei-me para ela. "Pesadelos?" disse.
"Quem me dera que fosse só uma merda duns pesadelos, Lesley!"
Ela olhou para mim. "Andas outra vez a pensar que eles se podem enganar? E tu seres enterrado e depois acordares?
"Mas não é só ser enterrado, o que já é bastante mau... Imagina acordares e achares-te a ser criada. Quer dizer, cremada: imagina-te a seres queimada até à morte! As chamas a lamber as paredes do caixão, tu a bateres e a gritares enquanto o ar fica cada vez mais quente, e os teus gritos a serem abafados pelo rugir da fornalha! Valha-me Deus todo poderoso, isso gela-me o sangue..."
E aqui estou eu a falar de ficar gelado, mas com suor a espirrar-me por todos os lados. Parecia que tinha um crematoriozinho dentro de mim, a queimar-me todo por dentro.
"Keith" - diz a Lesley - "tu simplesmente não estás a ser razoável. Tenho a certeza de que fazem montes de testes e tudo o resto. É claro que eles se asseguram de que tu estás mesmo, enfim, morto."
"A autópsia! (Grita.) Isso é quase pior: ficar ali estendido numa placa fria de pedra, com um tipo qualquer de bata branca a abrir-te e a cortar-te às postas - a abrir-te ali mesmo no meio! - e depois a tirar-te para fora as vísceras todas, os pulmões e o coração! (Finge que todos os seus órgãos estão a ser arrancados, olhando para tudo aquilo, horrorizado.) E às vezes até serram a parte de cima da cabeça e andam a vasculhar o teu cérebro! (Neste momento, quase que espuma da boca, de tão agitado que está. Limpa os lábios com as costas da mão.) Imagina o que é estares ali deitada a sentires tudo isto!"
"Agora estás simplesmente a ser estúpido", disse a Lesley, a abanar a cabeça. "Vais estar morto: não vais sentir nada."
"Se calhar sinto."
"Não, não sentes: isso é que é estar morto. Por favor Keith, às vezes és tão... Meu Deus!"
Deu uma dentada na tosta com queijo. Quando a voltou a pôr no prato, um fio de queijo derretido ficou pendurado entre a boca dela e o bocado de pão. Depois estalou e colou-se-lhe ao queixo. Meu Deus, deu-me vontade de chorar.
"Tenho andado a pensar bastante no assunto e arranjei uma teoria: é exactamente como agora, só que se está morto. A minha teoria é: (dá um estalo na sua própria cara) sente-se tudo depois de morrer, tudo.
Tentei levantar-me e aproximar-me dela, apoiado no braço do sofá com medo de cair e ser arrastado para baixo, para baixo, para baixo.
"Depois de eu morrer", disse eu (devagar) "vou sentir cada coisa que eles me fizerem, por mais pequena que seja. Isso assusta-me: o medo de morrer e ficar vivo. Morrer e ficar vivo. (Já não apenas para ela, mas para a frente, para todos:) Morrer. E ficar vivo. Ficar vivo."

Entra o refrão final de "Weary blues". Ele continua a falar por cima da música, repetindo a frase, "Ficar vivo". Provavelmente vai dizê-la doze ou treze vezes. A última vez que a diz deve coincidir exactamente com o fim da música; as palavras "Ficar vivo" devem ser a última coisa a ser ouvida pelo público.


(Duncan MacLean- UMA COISA É CERTA. Peça editada na revista Artistas Unidos. Ano 3. Novembro. Nº 6. Fotografia de William Ropp)

Publicado por void em 06:50 AM | Comentários (2)

março 13, 2005

A ESTRATÉGIA DA ARANHA

Tango, Desejo, Amor.
Eis o que vos trago, hoje, com mais um texto da Paula. Texto que, absolutamente, fala por si. Leiam-no!

Dizem que o Tango é apenas um pensamento triste que dança pelo sombreado dos homens. Dizem que o enlaçamento dos corpos sobre as luzes não é movido por alegrias, nem por tristezas, mas sim por apertos heterogéneos e marginais, por mulheres pérfidas e amigos travosos, pelas sombras malditas da sarjeta, salpicadas de cueiros de pólvora e sangue seco.
Nesta Milonga, neste salão escuro e fétido, olho para ti ao som dos primeiros acordes do bandolim. A melodia parece-me chorosa, e a letra já se ouve ecoar pela sala, em lunfardo. O mestre de cerimónias grita “Dancemos um Tango”.
Os homens levantam-se e puxam as mulheres, belas, com cabelos presos e saias justíssimas para o meio da sala. Formam-se filas de corpos, filas de massas incandescentes de carne, forma-se o amor. De facto, não é apenas o paralelismo destas filas de homens e mulheres, tão iguais quanto desiguais, que me leva a caminhar para ti, mas a sensação de descobrir em todos estes rostos, um só e único rosto: o último dos rostos amados. Estes seres amados, têm como componentes, um certo e determinado numero de defeitos específicos mais sedutores do que as qualidades universalmente amadas. Pois é no meio desta dança, aqui neste lugar paradoxal, que a fusão de dois seres que se escolhem um ao outro, representa a mais total e inabalada solidão.
O que nesta dança mais me seduz é o facto de ela ser uma infinita criadora de desejo. Como renunciar, no Tango, ao poder de fazer surgir, sempre que se queira, o animal de olhar repleto de enganos, como suportar a ideia de, ao mesmo tempo que os corpos se movem, ver correr o tempo e não o querer acossar, deixando-o mover-se?
Caminho agora para ti, de braços em fogo, ansiando, devorando o espaço que ainda nos separa. A nossa dança terá que ser erótico-velada, explodente-fixa, mágico-circunstancial, ou não será uma dança. Porém, independentemente do que possa ou não acontecer, a espera, o receio que não aceites dançar, o medo da rejeição, é que é, na realidade magnífico. Jogo-te olhares e passos matreiros, sorrisos felinos, nem tu imaginas quem eu sou. Anuncio-te um acontecimento quase metafísico. A sedução é a melhor arma para um mundo canalha e ressentido.

Podemos dançar?

A sala urge ao ritmo de fundo do bandolim soluçante, de um violino e de um piano. Executamos os dois, o mais lascivo dos momentos que o tempo deixa percorrer. Esta é a lírica das nossas vidas, destroçadas por traições e falsidades, por desilusões e crimes. Esta é a lírica dos últimos poemas dos suicidas, da última garrafa dos bêbados, do último rasgo de amor dos amantes. Esta é a minha e tua lírica.

Continuemos a dança.

Olho para ti, para esse teu medo trocista. Isto não é amor, mas o que o substituí. Dancemos neste mundo de bastardos, onde todos os pais são ilegítimos. Porém, o teu ar tão suave, tão calvo de ódios, atrai-me mais que a perna do homem que enlaça a mulher. O teu sorriso ignorante e ingénuo, delicado na tua cara de oiro, surpreende os meus poros há muito fechados. Hesito, devo confessá-lo, em executar estes passos, temendo cair no ilimitado do desconhecido. À minha volta, toda a espécie de vultos se apressam a reter-me, a opor-me altos muros que muita dificuldade tenho em reduzir a nada. Bem gostaria de acreditar que esses vultos não pensam em imiscuir-se em nós e fazer-nos cair no mais inútil dos esquecimentos – a verdade. Mas eles sabem tanto como eu. Também sabem que a maior fraqueza do amor reside na extravagante sobrestimação do que se julga conhecer dele, em confronto com tudo o que ainda existe por conhecer.
Mas tu, és escandalosamente belo. Ao ver-te sentado, apossou-se de mim uma tal certeza que corria o grave risco de me deixar obcecada por ti, no intervalo das luzes deste salão, se nada fizesse, mesmo sabendo que o teu destino poderia vir a entrar nesta dança, ainda que ao de leve, em conjunção com o meu. E olhar para ti, enquanto me seguras a anca que descai para o chão, faz-me acreditar que, de entre todos os estados pelos quais o homem é susceptível de passar, é o amor o principal fulcro de soluções dos corpos, assim como é também o ponto ideal de junção, de fusão, desses mesmos corpos.
Os homens desesperam estupidamente do amor – eu própria agora desespero – passam a vida escravizados pela ideia de que este se encontra sempre para trás, e nunca à sua frente. Suportam e, sobretudo, esforçam-se por admitir que o amor, com todo o seu cortejo de luzes, não é exactamente para eles mesmos, mas sim para um mundo de olhares adivinhos. No entanto, é nesse amor, neste que agora sinto por ti, que se esconde o segredo da vida, segredo que pode, ocasionalmente vir a revelar o próprio ser. E quão perto sinto esse momento.
Deixemo-nos ceder à tentação das nossas bocas sujas, e mergulhar tão profundamente no abismo da paixão, dos traços ledos dos enredos dos corpos. Bebamos a água deste poço escuro onde os sábios se deixam seduzir pelas paixões vadias que as trasbordantes ninfas lançam nos seus lábios. Deixa-me cruzar o meu destino, tão desesperado quanto nu, com o teu, deixa-me deitar no leito dos teus prazeres.

Posso beijar-te?

Tango, a dança do subúrbio violento, da faca e da traição. Tango, tão cheio de curiosos sincretismos, desde a milonga nativa, ao sepulcro argentino, desde as cantorias napolitanas, aos gritos sicilianos. A minha língua sibila pela tua boca, enrola-se como uma serpente, aquece e humedece o teu rosto. Os meus dentes cravam-se na tua boca, mordo com força. Afastas-me e gritas assustado. Passo a mão pelos teus cabelos, tão negros, tão sedosos. O beijo não tem culpa. O beijo nunca sabe o que a boca fará depois.

Continuemos a dança.

Entreguemo-nos nesta dança por amor, e não por medo. Esta não é uma dança que fale aos nossos sentidos, que explore a nossa alegria, o nosso entusiasmo. É uma dança sem expressão, monótona, com um ritmo meramente estilizado, entre caras e apatias. Mas, ao mesmo tempo que cruzo os meus passos com os teus, vejo o mal e o bem em estado bruto, embora o mal esteja ligeiramente avante, mercê do nosso sofrimento. E o mal é o único criador do bem, pois a vida é lenta e o homem ignora-lhe o jogo. E tu, que danças comigo, acompanhas-me e danças sem pensar, sem reflectir sobre a natureza de quem te acompanha. Para ti, o amanhã continua a ser feito de determinações, todas elas aceites. Ainda estamos a tempo de retroceder.
Giras à minha volta, desta tua bela vagabunda, em trejeitos fáceis, em verdades inocentes, em mentiras incoerentes. Trazes um vento belo sobre a minha cara quando te moves que não irá decerto amainar, pois que doravante se acha carregado de perfumes, como se, acima de ti, se erguessem múltiplos terraços de jardins. É a ingenuidade que te faz rodar assim.
Este baile de culpados está no auge. O desespero rola pelas mesas sobrepostas à pista de dança. Este é um baile sem alma, para autómatos, para as pessoas que renunciaram à vida, e apenas dançam com a morte. É o baile das raças esgotadas, subjugadas, que percorrem a vida sem um fim, sem um destino, apenas levadas por credos e bruxedos. Todavia, agrada-me sentir aqui tão fruste forma de desejo. Ao penetrar nas profundidades de ti, como a tal me incitam estes bruscos movimentos do violino, fácil se nos torna viver, neste lugar, neste salão, a ilusão de poder de súbito reconstruir o mundo. Em nenhum outro lugar nos é dado aproximar tanto os dois braços um do outro, de tal modo, que nos permita tocar simultaneamente em tudo quanto é susceptível de ser conquistado e em tudo quanto é susceptível de nos ser oferecido. Aquilo que desesperadamente tende a faltar-nos é compensado por tudo quanto esta Milonga tem, por tudo quanto esta dança nos rodeia. Lamento só tão tarde ter descoberto este lugar mais que sensível do inferno.
Voltas a beijar-me, mais profundamente, mais languidamente, e dizes sentir na minha boca um estranho gosto a veneno. É pura ilusão esse teu gosto. Não me temas, pois começa a ser tarde para aprenderes a ter medo. Sinto falta do calor que de em vez em quando transmites quando me viras o corpo. Ter-te em meus braços é a mais bela, a mais extirpável forma de desejo que ainda falta manifestar-se em mim. Tomar-te e ter-te em mim, ainda que brevemente, é a mais deliciosa chaga que se abre e fecha sobre uma secular e fosforescente sequência de perigos e tentações. Pesadas serpentes desenroscam-se de mim e vêm cair em volta do teu corpo. Saboreemos o mais doce sabor do profundo crepúsculo.

Posso abraçar-te?

Os corpos continuam a dançar sem alma, nauseados pelo sexo mercenário, pelo proxenetismo descarado que os cerca. Como é bom ter-te em meus braços, como é bom poder acompanhar com o teu corpo estes arabescos eróticos que o Tango nos proporciona. Dos meus braços sai um venenoso perfume que se insinua pelo entrançado da tua viscosa pele e que, sem se desprender do meu corpo, mergulha no teu peito para irromper, no teu coração, em terríveis arcos.
A morfina que da minha boca saiu aquando te beijei, produz já o seu efeito, já nem sequer sentes dor ou tristeza. Os sonâmbulos são os mais felizes porque se distanciam o suficiente do ácido que a vida deixa cair sobre nós. Agora que encontraste a mais lenta das drogas, agora que me amas, agora que o prazer obscurece a tua face transformando-o no mais mórbido dos lugares, posso revelar-te quem sou, pois a lua já vai alta e obscura.
Estás a viver a utopia do Tango – encontrar um amor genuíno. E este salão demonstra-te tal caminho impossível. O que de luz ainda se vislumbra parece apenas fruto das longínquas e alvíssimas lâmpadas da rua. Julgas ver, na tua radiosa palidez, vestidos de noite suspensos no ar. Não te surpreendas, pois, como é possível ficar surpreso ao tentar amar desta maneira, em plena dança macabra?
Amor, o único amor que existe é um amor carnal, envolto numa sombra venenosa, num calor mortal. Um dia virá em que o homem saberá reconhecê-lo como seu único senhor e prestar-lhe-á honras até mesmo nas misteriosas perversões em que ele o envolve. Entre nós, entre passos que agora se submetem ao meu comando, reina uma suficiência total, um mundo insólito. Aliás, o insólito é inseparável do amor, preside à sua revelação. O sexo do homem e o sexo da mulher atraem-se um ao outro como um íman a partir do momento em que entre eles se insinua toda uma trama de incertezas que a passo e passo se renovam. O amor entre nós avolumou-se desde o início da dança.

Desejo-te. Só a ti desejo. Ninguém terá jamais acesso a ti. Mesmo que fujas acabarei por te encontrar, porque te amo, porque te prendo com uma seda envolta num circuito de iluminações. Só pretendo unir-te a mim, seres uno com a minha carne.
Enrolo-te, estás preso na minha teia. Pois foi à aranha que lhe deram forma de mulher. O meu corpo negro, as minhas patas já te circundam. Já sinto o teu coração a pulsar nas minhas invioláveis profundezas, na capa negra de veludo que cubro sobre ti e onde se incuba o meu poder. As tuas forças desvanecem-se, o meu veneno é rápido e insidioso. Procuras mexer-te, procuras desembaraçar-te, mas estás preso na teia. Podes tentar fugir, podes até gritar, podes até esconder-te, mas não podes decerto escapar-me. Estás emaranhado na teia que te construí, e a picada que te infligi com o meu beijo é suficientemente dolorosa para te paralisar o corpo e os teus ossos. Por isso, só agora começas a sentir dor, só agora começas a contorcer-te de sofrimento.
Gritas, esbracejas, danças ainda, acusas-me de enganos, de ter o diabo escondido em mim, mas esqueces-te que a palavra amor faz parte da estratégia da aranha. Porém, não te preocupes. O ritmo frenético do violino, o estilhaçar de sons do piano faz antever o fim deste tango, o fim deste ritual. Em breve estarás livre. As pernas já se cruzam firmemente, a esquerda por cima da direita, no “cinco”, o torso já está virado para a frente e as pernas retesadas, os corpos já deslizam. A música irá acabar ao sexto tempo. O violino não se cala, o acordeão arrebata em arrepios. Parvos aqueles que sempre julgaram que é o homem que comanda a mulher, conduzindo-a, enquanto desliza pela pista. Os aplausos já se fazem ouvir. Em breve estarás livre. Os acordes preparam o compasso do fim. Ao sexto tempo tudo terminará, ao sexto tempo tudo terminará, ao sexto...um...dois...três...quatro...cinco...seis.

Posso matar-te?


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografias de Naushér Banaji)


Publicado por void em 08:20 AM | Comentários (6)

março 12, 2005

A ORIGEM DE TODAS AS VIOLÊNCIAS

A origem de todas as violências entre os homens, e, por conseguinte, entre o homem e a mulher, está em que rarissimamente as pessoas se encontram de acordo acerca do valor de um facto, de um pensamento, de um estado de alma: o que para um é tragédia, é jogo para outro. E mesmo se, inicialmente, ambos estão dispostos a considerar como séria uma situação, acontece - pois há sempre uma leve diferença de intensidade - que o mais sisudo é levado a exagerar a gravidade da coisa, e, o mais leviano, a transformar o trágico em jogo, por causa do amor da euritmia, da coerência, do absoluto que existe em todos nós.

Poderia fugir a este destino quem soubesse estar só - esperar todas as suas exigências no círculo fechado da sua pessoa. Mas somos feitos de tal maneira que mesmo os nossos movimentos mais íntimos procuram apoio num consenso social. E até os que vivem mais solitários são levados, quando encontram uma resposta no próximo, a lançarem-se-lhe nos braços com mais entusiasmo e exclusivismo, tendendo a criar uma múltipla solidão de almas. É por isso que nunca se aconselhará demasiado, a quem está convicto da essencial solidão de cada um, que se perca em inúmeros e, por conseguinte, pouco profundos liames sociais.

A verdadeira solidão, isto é, aquela que faz sofrer, traz consigo o desejo de matar.


(Cesare Pavese- O OFÍCIO DE VIVER. Fotografia de Alberto Monteiro)

Publicado por void em 08:16 AM | Comentários (8)

março 11, 2005

INSTANTES DE POESIA

Em vésperas de fim-de-semana deixo-vos com dois significativos poemas de Gonçalo Tavares, constantes na sua obra "1". Uma obra que, em si, como que reúne oito livros. Oito livros, uma obra, que permitem reflectir sobre imensas coisas. Os dois poemas seguintes: fundamentais para pensarmos em nós e nas relações que estabelecemos com os outros.
Nós- Connosco.
Nós- Com os outros.
Nós e o Mundo.


CONSELHOS ÚTEIS

Não é um roubo retirares da paisagem
uma andorinha ou uma cadeira, mas não é simpático.
Daí a considerares o que digo um convite à imobilidade,
parece-me exagero.
Move-te, sim, mas acrescentando
coisas e assuntos à paisagem onde entras. Eis só.


ESCONDERIJO

Do teu esconderijo vê, e no teu esconderijo constrói,
sai dele apenas quando puderes dar algo aos outros.
Antes, é cedo demais, muito depois, é excessivo egoísmo.
Mas mesmo esta convicção não ajuda, não sei
Como viver, não sei o que é mais moral, mais ético,
Onde intervir, para onde olhar, ouvir o quê?
Há tantas coisas que falam ao mesmo tempo.


(Gonçalo M. Tavares- 1. Fotografias de William Ropp)


Publicado por void em 07:10 AM | Comentários (3)

março 10, 2005

EM CENA: INVERNO

Levando às últimas consequências a concretização do que referi/sublinhei no post anterior relativamente à linguagem minimalista de Jon Fosse, deixo-vos hoje com excerto de "Inverno". Datada de 2000 é uma peça cuja estória tem a ver com o encontro entre um homem e uma mulher. Um homem e uma mulher que nunca se viram. Nunca se viram, mas cuja atracção parecia estar destinada. Ela avança em primeiro lugar. Ele, casado e com dois filhos, hesita, recua. Depois, verifica-se o contrário e ele decide abdicar do seu passado e partir. Partir com ela. Ela não crê que seja possível. Tem receio. Não acredita. Mas...
Uma estória de duas pessoas que se poderiam ter amado desde determinado momento do passado. Duas pessoas que poderiam... Duas pessoas que...
Registo que esta peça está em cena no Teatro Taborda (Lisboa) até 20 deste mês. As interpretações são da responsabilidade de Pedro Lima e Sylvie Rocha. Encenação de Jorge Silva Melo.

I

Negro. A luz aumenta. Um banco de jardim. Vindo da direita entra um homem de sobretudo, que se senta na extremidade esquerda do banco. Logo de seguida entra uma mulher, vestida de um modo ligeiro, sem casaco comprido, e senta-se também no banco, mas na extremidade do outro lado. O homem levanta-se quase de imediato, dirige-se para a esquerda.

A MULHER
Dirigindo-se ao homem
Ei
Ei tu
Ei
Ei
O homem continua a andar
Ei
Tu aí
Ei
O homem pára, vira-se para a mulher
Sim tu
Que merda é que tu julgas
Ires-te assim embora
sim
sim estou a falar contigo
pois
não percebes
Estou a falar contigo
Pois estou
Não estou a falar contigo
Merda claro que estou a falar contigo
mas tu
pois que é que tu fazes
pois tu
Levanta-se e quase cai
pois
tu porra pões-te é a andar
como se eu não estivesse a falar contigo
mas eu estou a falar contigo
Tu bem me ouviste
Ou foi outra pessoa qualquer
Olha à sua volta
Está aqui mais alguém
Talvez tenhas pensado que
outra pessoa
sim que eu
Interrompe-se
Percebes
Ou não não percebes
Não percebes nada
ou quê
Nada
Bastante alto
Falo contigo
E tu pões-te a andar
que porra
é que
tu
Bastante baixo
sim
que estás tu a fazer aqui
Sincera
porque é que estás aqui
há alguma razão
Ri-se para si mesma
sim claro
pois claro
Interrompe-se
claro
sim é evidente
Claro que tens uma razão
Eu bem percebo isso
sim
é evidente
Eu isso bem percebo
Eu percebo bem que tens uma razão
Eu percebo tudo
tudo percebo eu
eu percebo
eu percebo
tudo percebo eu
Abruptamente bastante alto
Ei tu
Sim tu
Ele vira-se, pronto a ir-se embora
Sim tu
Ei
Ei
Ei
Ei
estou a falar contigo
não estás a ouvir
Sim
Acentuando as sílabas todas
estou a falar contigo
Quase suplicante
Estás a ouvir
Zangada
Estou a falar contigo
Pois então ouve-me
que diabo
por que diabo não me ouves
Estou a falar
Pausa curta
contigo
Contigo

O HOMEM
Olha para ela
Sim

A MULHER
Eu falo contigo
E tu que dizes
Só dizes sim
sim
sim
sim
sim porra
O homem vira-se, apresta-se a partir
Não não vás embora
Fala um bocadinho comigo
não vás
não podes ir assim
Olha para ele, aproxima-se um pouco
Não vês
Não vês nada
Não enxergas
Bom
alguma coisa tens de perceber
Não é verdade
Ou não percebes nada
Zangada
Nada
Nada de nada
Nada

O HOMEM
Não, não

A MULHER
Fala um bocadinho comigo
Aponta para o banco, aproxima-se dele
Não queres falar comigo
Eu estou aqui
Posso falar contigo
Tu queres falar um bocadinho comigo
não queres

O HOMEM
Claro que quero

A MULHER
Diz alguma coisa
então
diz alguma coisa

O HOMEM
Digo alguma coisa

A MULHER
Sim
Pausa
Olha para ele
Não podes dizer qualquer coisa
Pausa curta
ou talvez
talvez
Bruscamente
Vamos a qualquer sítio

O HOMEM
Tu e eu
Ela faz que sim com a cabeça
Pausa
Que queres dizer

A MULHER
Ir a qualquer sítio
tu e eu
é o que eu digo pois
não podemos ir a um sítio qualquer
Aproxima-se dele, inclina-se para ele, que fica muito direito, sem se mexer, ela encosta-se a ele e depois recua, olha para ele
Eu
a tua mulher
tu sabes
não é
Estende-lhe uma mão e ele aflora-lhe a ponta dos dedos, olham um para o outro
É verdade não é
É verdade que sou a tua mulher
Largam-se as mãos
Pausa
Ou então
Pausa curta
Pois não sou nada a tua mulher
pois se nem sequer te conheço
Sim
Sim eu conheço-te
Sempre te conheci
Eu sei
Eu vejo
Eu percebo
Eu vejo
bem como é
eu bem vejo
E tu também sabes
Tu bem sabes que sou a tua mulher
não é verdade
tu sabes
não é verdade
Sou a tua mulher
eu
não é verdade

O HOMEM
Parecendo não entender
És a minha mulher

(...)

IV

Escuro. A luz aumenta. A cama de casal. A mulher e o homem entram pela esquerda, desprendem as mãos, ficam de pé a olhar um para o outro.

O HOMEM
Um pouco animado
Pois então
cá estamos

A MULHER
Sim
Pausa

(...)

O HOMEM
Queres beber alguma coisa

A MULHER
Ainda não
não
Pausa
Quando é que partes

O HOMEM
Não sei

A MULHER
Não sabes

O HOMEM
Não por que é que
Interrompe-se

A MULHER
Que é que queres dizer

O HOMEM
Não
eu
pois
pois talvez não vá
Ri-se um pouco

A MULHER
Não vais

O HOMEM
Não
eu
pois
Ri-se um pouco
talvez
pois talvez fique aqui
não aqui não
claro que não posso ficar aqui
quer dizer
mas

A MULHER
Ficas
Não não podes ficar

O HOMEM
Porque não

A MULHER
Não
Não pode ser

O HOMEM
Mas
Eu não vou

A MULHER
Não tens de ir
tu vais ser
sim
Pega-lhe na mão
tu vais ser tão infeliz
a tua casa
os teus filhos
Ligeiramente interrogativa
Dois filhos não é verdade
Ele acena com a cabeça
Mulher e filhos

O HOMEM
Sim

A MULHER
Um lar e uma família
Pausa curta
Tu é que tens sorte
tens família
trabalho
tudo
Larga-lhe a mão

(...)

O HOMEM
Podemos ir embora
para outro sítio

(...)

A MULHER
Partir
tu e eu
vamos não é
daqui para fora
Para outro sítio
Não é
Ele faz que sim com a cabeça
E depois
só tu e eu
é que vamos estar

não é
Ele faz que sim com a cabeça
E ninguém vai saber de nós

O HOMEM
Não ninguém

(...)

A MULHER
Não
tens mesmo de perceber
Não é assim

O HOMEM
É assim

A MULHER
É assim

O HOMEM
É assim

A MULHER
Vamos partir

O HOMEM
Pois vamos

A MULHER
Para outra cidade

O HOMEM
Sim
Para um sítio completamente diferente

A MULHER
Tu gostas de mim

O HOMEM
Sim gosto

A MULHER
Gostas mesmo de mim

O HOMEM
Sim gosto

A MULHER
Não é possível

O HOMEM
Sim é possível

A MULHER
Não é assim

O HOMEM
E então

A MULHER
Sim talvez

O HOMEM
Vamos

A MULHER
Um sítio completamente diferente

O HOMEM
Sim
Ela deita-se ao lado dele e ele abraça-a, ela abraça-o também

A MULHER
Não é assim

O HOMEM
É tudo assim
A luz diminui. Escuro.


(Jon Fosse- INVERNO. Peça editada nos Livrinhos de Teatro. Artistas Unidos. Livros Cotovia. Fotografias resultantes das representações levadas a cabo pelos actores referidos, no âmbito dos Artistas Unidos.)

Publicado por void em 07:28 PM | Comentários (2)

março 08, 2005

EM CENA: VAI VIR ALGUÉM

No passado dia 19 de Janeiro, no âmbito de "Uma semana no Teatro"- 1, editei excerto da peça "A noite canta os seus cantos" (1998), da autoria do dramaturgo norueguês Jon Fosse. Uma vez que nesse mesmo post faço uma breve apresentação do autor e do seu trabalho, hoje não me vou repetir no que a esses aspectos respeita. Vou sim deixar escritas umas palavras relativas à peça cujo excerto apresento aqui, hoje.
Escrita em 1996 "Vai vir alguém" estreou em Portugal pela mão dos Artistas Unidos no Espaço A Capital/Teatro Paulo Claro, a 4 de Fevereiro de 2000, tendo sido a representação levada a cabo por Isabel Muñoz Cardoso, Diogo Dória e Paulo Claro. A encenação foi da responsabilidade de Solveig Nordlung. Aborda a peça, a relação entre um homem e uma mulher que acabam de comprar uma casa para poderem desfrutar de uma vida a dois. A sós, sem mais ninguém. Longe de tudo e de todos. Essa casa situa-se junto ao mar, não é nova mas serve, à partida, para concretizar a vontade de ambos. No entanto, o problema do aparecer ou vir alguém, instala-se. E não causa bom estar. A mulher interroga-se. O homem nega. Depois o contrário. E... acaba mesmo por vir alguém. Isso acontece. E esse alguém é...
O homem tem receios. A mulher tranquiliza-o. Tranquiliza-o relativamente a si. Ao seu amor. À sua vontade/desejo de estar com ele. Só. Sem mais ninguém. Mas... e... pois... enfim...
Deixo-vos, então, com esta peça que permite que continuem a perceber e a amadurecer a vossa consciência relativamente ao estilo minimalista de Jon Fosse. Um estilo que percorre toda o enredo, numa imensidão de palavras e expressões repetitivas, curtas, repetitivas, curtas, repetitivas, curtas e onde a pontuação (praticamente) não existe mas que desembocam brilhantemente num final determinado, envolvendo imensamente os espectadores.
O tempo. O espaço. Um homem. Uma mulher. O Amor. As emoções. Tudo. Simples e complexo. De uma grande simplicidade, mas simultaneamente, de uma grande complexidade. E assim também, o texto dramático e a sua representação.
Ora leiam:

I

Um quintal em frente a uma velha casa muito degradada, pintura a cair e vidros partidos. Apesar de deteriorada a casa possui uma certa beleza rude por estar isolada numa falésia com vista sobre o mar. Um homem e uma mulher entram no quintal vindos da esquina direita da casa. Ele tem cerca de 50 anos, é forte, tem cabelos grisalhos compridos, um olhar fugidio e movimenta-se com lentidão. Ela tem cerca de 30 anos, é alta e forte, com cabelos pelos ombros, grandes olhos e gestos um pouco infantis. O homem e a mulher rondam a casa de mãos dadas, não tiram os olhos da casa.

ELA
Alegre
Agora estamos quase na nossa casa

ELE
A nossa casa

ELA
Uma casa velha e bonita
Longe das outras casas
E das outras pessoas

ELE
Sós tu e eu

ELA
Sós e juntos
Ela levanta os olhos para a cara dele.
A nossa casa
Vamos ficar juntos nesta casa
tu e eu
sós juntos

ELE
E não vai vir ninguém
Param e ficam a olhar para a casa.

ELA
Agora chegámos à nossa casa

ELE
E é bonita a casa

ELA
Agora chegámos à nossa casa
À nossa casa
onde vamos ficar juntos
Sós tu e eu
à casa
onde tu e eu vamos ficar
sós juntos
Longe dos outros todos
A casa onde vamos ficar juntos
sós
tu eu num só

ELE
A nossa casa

ELA
A casa que é nossa

ELE
A casa que é nossa
A casa onde não vai vir ninguém
Agora chegámos à nossa casa
A casa onde vamos ficar juntos
sós
tu eu num só
Voltam a andar ao longo da casa.

ELA
Um pouco preocupada.
Mas é um bocado diferente
não era assim
que eu a imaginava
De repente, assustada
Porque vai vir alguém
isto aqui é tão isolado
que alguém há-de vir
Ele continua a olhar para a casa como que perdido nos seus pensamentos.
Que longo caminho até aqui chegar
sem termos visto uma única pessoa
que longa viagem
sem termos visto uma única pessoa
apenas a estrada
E agora aqui estamos em frente a esta casa e
Com maior intensidade,
imagina quando ficar escuro
Imagina quando vier um temporal
quando o vento
atravessar as paredes
quando tu ouvires bater o mar
quando as ondas crescerem fortes
quando o mar for branco e preto
e imagina o frio que fará na casa
quando o vento atravessar as paredes
e imagina como estamos longe das pessoas
o escuro que será
e silencioso
e imagina como o vento vai soprar
e as ondas vão bater
imagina como será no outono
na escuridão
com a chuva e a escuridão
Um mar que cresce branco e preto
e só tu e eu
aqui nesta casa
Tão lonbge das pessoas

ELE
Tão longe das pessoas
Pausa.
Agora estamos finalmente sós.

ELA
Um pouco preocupada.
Mas nós não queremos afastar-nos de todos
Não era de todos
Só de alguns
não era
Ele pára e olha para ela.

ELE
Afastámo-nos de todos os outros
Afastámo-nos dos outros todos
Ela pára e olha para ele.

ELA
Perguntando.
Dos outros todos
Afastámo-nos dos outros todos

ELE
Afastámo-nos dos outros todos

ELA
Mas é possível
Os outros
não estão lá na mesma
Podemos mesmo afastar-nos dos outros todos
Não é perigoso

ELE
Nós só queríamos estar sós
São os outros
os outros todos
que nos separam um do outro
Os outros todos
Mais alto.
Só queríamos estar juntos
um com o outro
sós
num sítio qualquer
só queríamos
estar sós num sítio qualquer
onde pudéssemos viver
Onde tu e eu pudéssemos estar sós juntos
Sós
tu e eu num só
Era isso que queríamos
Só queríamos estar
sós um com o outro
Sós
tu e eu num só

ELA
Mas será que nos vão deixar estar sós
É como se aqui estivesse alguém
Desesperada.
Está aqui alguém
Vai vir alguém

(...)


VI

Ela volta para a sala. Ele continua deitado no sofá com a cara virada para a parede e os joelhos levantados num triângulo contra a parede. Ela senta-se na borda do sofá. Ele mantém o olhar na parede. Longa pausa.

ELA
Calma.
Já se foi embora
Pausa. Um pouco mais alto.
Estás a ouvir
Já se foi embora.
Pausa. Em voz baixa.
Estás a dormir
Ela põe a mão no ombro dele, sacode-o.
Foi-se embora
Já se foi embora
Ele olha para ela com olhos negros. Assustado.
O que é que tens
Ele volta a olhar para a parede.
O que é que tens
Já se foi embora
Agora
estamos sós tu e eu
Ela volta a sacudir-lhe o ombro.
Diz qualquer coisa
O que é que se passa
Ela debruça-se por cima dele, põe os braços à volta dele.
O que é que tens
Então meu querido
o que é que tens

ELE
Para a parede.
Estás contente
Agora
Estás contente

ELA
Desesperada.
O que é que tu queres dizer com isso
Estás a assustar-me

ELE
Agora
conseguiste o que querias
Pausa. Ela levanta-se, vai até meio da sala. Ele olha para ela. Irónico.
És jeitosa
És mesmo jeitosa
É claro isto aqui fica muito isolado
Estou mesmo a ver
Estou a ver

ELA
Não sejas assim
Estás a assustar-me

ELE
Estou a ver
Estou a ver muito bem

ELA
O quê

ELE
Tinhas que

ELA
Um pouco zangada.
O quê

ELE
Quando é que lhe vais telefonar

ELA
Não vou telefonar

ELE
Então porque é que aceitaste
o número de telefone dele

ELA
Tinha que ser
Senão era estranho
Ele deu-mo

ELE
Claro
E tu aceitaste
Estou mesmo a ver

(...)


VII

Ele sai pela porta da entrada, e dirige-se à esquina direita da casa e procura-a. Vai até à esquina esquerda da casa e procura-a. Depois vai até ao meio do quintal.

ELE
Não ela não vai telefonar
Ela deve estar a voltar
E então vamos ficar sós
vamos ficar sempre
sós juntos
vamos ficar
sós
tu e eu num só
Ele aproxima-se do banco e senta-se. Poisa os cotovelos nos joelhos e apoia a cabeça nas mãos. Olha fixamente em frente.
Sós juntos
tu e eu num só
Riso azedo. Longa pausa. Ela aparece atrás da esquina esquerda da casa, olha para ele carinhosamente. Ele olha para ela e depois para o chão. Ela senta-se ao lado dele no banco. Pausa longa. Cortina.


(Jon Fosse- VAI VIR ALGUÉM. Peça editada na revista Artistas Unidos. Ano 2. Setembro. Nº 2. Fotografias da representação levada a cabo pelos Artistas Unidos)


Publicado por void em 07:18 AM | Comentários (3)

março 07, 2005

EM CENA: OS DIAS DE HOJE

Trago hoje para cena uma peça de Jacinto Lucas Pires, autor pertencente à nova geração de dramaturgos portugueses.
Jacinto Lucas Pires nasceu no Porto em 1974. Estudou Direito na Universidade Católica e frequentou a New York Film Academy.
Escreveu/Tem escrito argumentos para curtas-metragens, destacando-se nesta área a escrita e realização do seu Cinemaamor (1999).
Tem vários livros publicados encontrando-se no seu âmbito textos para Teatro. A este nível temos: "Universos e frigoríficos", "Arranha-Céus", "Escrever, Falar", "Figurantes", "Coimbra B" e "Os dias de hoje", três últimas peças estas compiladas numa mesma obra.
Apresento-vos excerto da peça "Os dias de hoje" que estreou no Estúdio Zero, no Porto a 8 de Junho de 2003. Quanto ao seu conteúdo: um olhar pela sociedade contemporânea, onde o consumo, a tecnologia e as diferentes línguas, o seu conhecimento e aplicar estão presentes por toda a parte. Um registo dos nossos quotidianos, dos nossos ritmos, do que nos rodeia, do que nos envolve e condiciona. Situações. E personagens nas situações. E um linguajar reflexo das evoluções, das preocupações, das necessidades, do cada vez maior convívio global. Duas personagens escolhidas. Dois exemplos. Um conjunto que ilustra a sociedade, hoje.


Pessoas que dormem em automóveis
Pessoas que vão ao cinema à tarde, à primeira sessão, na pausa do emprego, para dormirem
Pessoas que dormem nos gabinetes quando os colegas já foram para casa e há silêncio, mulheres e homens debruçados sobre as mesas, os teclados dos computadores, os relatórios, os despachos, as emendas, objectos quotidianos castanhos e beges, tipo sofisticado-incaracterístico
Pessoas que fingem dormir quando os seus amores chegam ao quarto cheios de ideias
Pessoas que dormem para sonhar, propositadamente para sonhar
Pessoas que dormem o domingo inteiro
Pessoas para quem o sono é um cansaço
Pessoas que dormem na paragem à espera do autocarro porque se dormirem o autocarro vem mais depressa e as outras pessoas não chateiam no entretanto
Pessoas exactas que dormem exactamente até faltar só um minuto, um segundo, para o despertador tocar.

(...)

Perder tempo com:
Computadores que encravam
Compras que apitam à saída das lojas
Embrulhos de cê-dês ou tinteiros ou bolachas
Ecrãs de informações cheios de sub-hipóteses, alternativas,
ex... ex... excepções
Telefonemas para máquinas em que se tem de responder (com voz clara e boa dicção) sim ou não, um ou dois ou três, ou então nada e ficar a aguentar as quatro estações de Vivaldi à espera da telefonista, tradicionalmente uma mulher.
Mensagens indesejadas de anedotas, avisos, publicidade, pornografia - perder um tempo de morte a apagá-las:
Zip.

(...)

Música de elevadores, aeroportos, parques de estacionamento, salas-de-espera de hospitais, dentistas, clínicas de cirurgia plástica, empresas
Música de centro comercial chocando com a música individual de cada loja
Música de joguinhos, música de telemóvel, música de ficar à espera que o operador atenda
Música municipal nos altifalantes da praça
Música subterrânea no metro
Música no automóvel, hits kitsh dos anos oitenta que nos alegram e nos fazem cantar (surpreendentemente sabemos bocados enormes das letras)
Música clássica no clichê de uma noite de solidão e chuva
Música con... con... contemporânea
Música de acaso, música à venda, música de dança, música do mundo
Música sacada da net
Música só escrita, parada na pauta como matéria, objecto ambíguo, de uma voz que nos mata
Música rep
Érre é pê: ritmo e poesia.

(...)


1

Numa rua, dois caixotes de lixo.
Fernando Travoso, mendigo, abre um com muito cuidado e põe o braço dentro. Mas não olha para lá; olha para o alto, concentrado só no tacto, à procura de alguma coisa.
Mas não encontra o que procura, e tenta no segundo caixote. Faz o mesmo, abre com cuidado, põe o braço, tacteia sem olhar. A certa altura parece que encontra alguma coisa (o rosto alegra-se por um instante), mas afinal não era nada, falso alarme.
Senta-se no chão, desiludido - e nessa altura repara, ao fundo, numa coisa qualquer. Primeiro, não acredita, finge que não viu coisa nenhuma. Depois, olha outra vez, com mais atenção. Olha em frente, faz de conta. De repente levanta-se e corre para lá, em direcção à tal coisa. Pega nela: é um bocado grande, mesmo grande, de papelão. Fernando sorri.
Leva o papelão para o lugar onde estava sentado; sacode-o, coloca-o no chão, arranja-o, endireita-o, tenta ver como é que fica melhor. Depois tira os sapatos e vai para cima do papelão, deita-se. Está feliz; vai dormir, finalmente. Mas nesse momento aparece um grupo de úliganes.
Ele levanta-se, olha-os. Eles (sempre meio no escuro) nem dão conta que ele está ali.

FERNANDO- Perdom por la demanda mas... A quantos quedou le jogo?

Eles param e viram-se. (O rosto dele alegra-se por um instante.) Vão ter com ele e batem-lhe, batem-lhe, batem-lhe, muros, pontapés. Fernando grita. Espancam-no até ele ficar, a sangrar, no chão.


3

No camarim de um estúdio de televisão Gina, modelo internacional, tira a maquilhagem. Enquanto limpa o rosto, olha-se ao espelho e repete frases do apresentador do programa.

GINA- "Ça is le jaquepote piú fantastiquíssimo que djá foi!" "Bi... bi... bilions de notas, dinheiro, euros ao vivo-e-tão-laife, bilions em digital-directo, em chance-sâraúnde!" "Qui será le sortido telespectador?" "Com nós-outros, Gina, modelo internacional, pra pronunciar los nâmbars!"

No fim aplaude (faz o barulho de uma multidão a aplaudir) e sorri o seu sorriso programado de profissional. Vai até à janela, olha lá para fora por um momento. Tira três comprimidos coloridos de uma caixinha; olha-os na palma da mão.

GINA- Uno. Dois. Tris. Catre. Six. Sete. Eit. Nof. Diz.

Toma os comprimidos. Faz o barulho da multidão que aplaude.


4

Na rua. Fernando Travoso está no chão, ensaguentado. Passos, vem aí alguém: um homem novo, de facto e gravata. Com grande esforço, Fernando arrasta-se um pouco para a frente, levanta a cabeça e estende uma mão a pedir-lhe ajuda.

FERNANDO- Ahh...

Sem parar, o homem tira uma moeda do bolso e atira-a para perto do mendigo. Fernando fica sozinho, a sofrer. Canta.

FERNANDO -

Não regardem mio corpo caído
reparem-não nesta face sangrante
oh plize não luzem tempo comigo
desdignem-se crassos a me tocar

is veri fixe tudo brincadê
le resto is cousa desimportante
só releva la massa flamejante
le resto is mas qual resto cadê

mientras me morro me morro
quanto me morro aqui

Não stopem votras vidas a minuto
regardem-não cete olhar si pazo
is a rosto puro e duro, bruto
carece-não votro feliz parar

nunca-never lessem que mio som
penetre dã da vossa quase-alma
carece-não esbalhar cete calma
de devagareza nel coraçom

mientras me morro me morro
quanto me morro aqui.


10

Gina está no consultório do psiquiatra; este (sempre meio no escuro) ouve-a com um ar sério.

GINA- Há sido terrisível, vilioso, horriplimplante.

PSIQUIATRA- Pronuncie com sereneza, conte tudo-quanto.

GINA- Je manjava dã a ristorante com mio agente e derrepentemente - flop.

PSIQUIATRA- Parle com rectícia, plize.

GINA- Mios lábios - flop - explodiram-me.

PSIQUIATRA- Devagarando cada sola palavra.

GINA- Cê le silicone que hei metido qualque tempo agô.

PSIQUIATRA- "Flop"?

GINA- Dã le ristorante, com todo o mundo lá, mia boca - flop. Há sido... como hei-de dizir?

PSIQUIATRA- Soletre los factos, justo los factos, is tudo.

(...)

Gina levanta-se e sai do consultório - à porta, mesmo antes de sair, de costas para o psiquiatra, tira os comprimidos da caixinha e mete-os na boca.


(Jacinto Lucas Pires- FIGURANTES E OUTRAS PEÇAS. Edições Cotovia, 2004. Fotografia de Bruno Espadana)


Publicado por void em 06:45 AM | Comentários (1)

março 06, 2005

NAZARÉ

Mar. Morte. Sofrimento. Destino.
Mar. Esperança. Destino.
Mar. Esperança. Sofrimento. Desesperança. Morte. Destino.
Mar. Destino. Incapacidades. Fraquezas. Homens.
Luta. Incapacidades. Destino.
Força. Luta. Amor. Mar. Sofrimento. Destino. Homens.
Choro. Gritos. Amor. Dor. Resignação. Fome.
Mar... Destino... Pobreza.
Destino...
Destino... Homens. Homens.
Destino? Homens?

Fica aqui um outro texto da Paula. "Nazaré". Mais um texto que se abraça desde o início pelo imenso poder de atracção que tem. Um texto muito forte. Muito emotivo. Muito de nos fazer confrontar com aquilo que somos e a forma como nos envolvemos e vivemos com o que nos rodeia. E com quem está connosco ou próximo de nós. E como lutamos... ou não. E como respondemos... ou não. Um texto que não pode, de forma alguma, deixar-nos indiferentes. Pois vejam porquê.

Aos oito dias do mês de Julho do ano de mil quatrocentos e noventa e sete, partiu para Belém o Almirante Vasco da Gama com destino á Índia. Não muitos momentos contados antes de partir nessa grande e misteriosa viagem, veio o navegador pedir protecção a Nossa Senhora da Nazaré, trocando-lhe a prece por uma valiosa e grossa corrente de ouro. Sabe-se pelos historiadores e pelos bisbilhoteiros do reino que, durante a viagem, as embarcações de Vasco da Gama foram assoladas por uma tremenda tempestade. Vendo-se num momento de grande aflição, o navegador lançou ao mar algumas contas que havia tirado, com a permissão de El-Rei, do colar de Nossa Senhora, e com este acto a tempestade amainou e o céu acabou mesmo por clarear. Para sempre ficou então, a Santa do mar, enleada pelas tempestades e pelos mares que banham a nossa saudosa Nazaré.
Levar o peixe à boca é gesto fácil, engoli-lo, melhor ainda, e, perfeito gesto se a fome o reclama. E se é alimento do corpo, é benefício de quem o vende, provavelmente melhor do que quem o pesca, que ganha dinheiro para saúde de quem o compra, e saúde para quem o vende, e esta é a regra. Porém, para haver saúde e dinheiro é preciso que haja quem a não tenha, para que o valor não se perca, e a gula não as desentranhe. E quem as não tem, são mesmo os pescadores que vivem perto da praia da Nazaré, gente que mora onde o riso é tão perto da lágrima, o desafogo tão cerco da ânsia e o alívio tão vizinho do susto. É Inverno e é preciso colocar safios, robalos, sargos, raias, choco, lula, sardinhas, furachões, cavalas e bogas em terra, pois o mar é bravo todo o ano, o que é bom, pois faz os peixes chegarem musculosos à lota.
Perto do Largo Bastião Fernandes, aquele que nos mostra o Pelourinho, e, antes de se chegar à Igreja Matriz da Nossa Senhora das Areias, vivem Nazaré, a mulher, e José Maria, o homem. Nazaré não está só, pois já lhe vem chegando o tempo em que a barriga não aguenta crescer mais, por muito que a pele estique. E ela que até há bem pouco tempo ainda tinha no ventre uma geleia deixada por José Maria, que mais tarde se transformou em gelatina, que mais tarde se transformou em girino, que agora é um tronco cabeçudo e que depois de amanhã será gente. Estranhas as metas de Nosso Senhor e os destinos por Ele designados, pois, dentro do ovo não há diferença. O pobre ainda não sabe que vai ser pobre, o rico ainda não sabe que vai ser rico, o assassino ainda não tem ninguém para matar. Porém, acautelando esta indiferença em resultado de uma futura diferença, disse Nosso Senhor, que podemos fugir de tudo, mas nunca de nós próprios, o que obriga o pobre a ser pobre, porque é de pobreza que ele tem de saber, e pergunta ao rico se quer ser rico, pois é riqueza que ele quererá ter. E, Nosso Senhor é muito activo, mas pouco falador, e por isso Nazaré, que ainda não sabe o que é a riqueza, embora pouco lhe falte para ensinar pobreza, deleita-se a acariciar a barriga, pois ela, rainha do seu ventre, e quantas mulheres o desejariam ser, traz uma menina dentro dela, que depois será mulher, e que depois será o que for, pois esse é o mistério da vida. Lançamo-la ao ar com uma intenção que é nossa, mas ela escolhe sempre o seu caminho, dentro dos caminhos que lhe são impostos. No entanto, agora tanto Nazaré quanto José Maria, tanto o rei e a rainha, tanto o presidente e a presidenta, tanto o ministro e a ministra, tanto o grande como o pequeno, estão iguais, deitados e virados um para o outro. José Maria dorme com a mão sobre a barriga de Nazaré, pois tem medo que, Nosso Senhor, que nunca dorme, esteja com a mão em alguém de apuros, e possa esquecer-se de guardar uma mão para eles.
José Maria acorda sempre à mesma hora, muito antes de nascer o sol, hábito inquieto de pescador. À medida que lava a cara e as partes, vê retirar-se bem devagar a escuridão de cima das coisas e das pessoas para depois sentir o suspiro e o alívio do dia. Porém, hoje, sente a escuridão sair de cima de tudo, menos de si. Nem mesmo Nazaré, que dorme agarrada ao seu ovo, tem retirada de si, uma escuridão mais escura que a gente de África.
Nazaré acorda, e quando abre os olhos é assaltada por uma ideia de despedida. Um peso pesa-lhe sobre o coração, maior do que aquele que lhe pesa sobre a alma, de tanto já ter sofrido nesta vida. Não vás para o mar, que vejo uma cruz mesmo atrás de ti. Não posso, grita ele, e bruscamente veste a camisola de malha onde se aconchegam os piolhos enquanto o cabelo ainda dorme. Não posso deixar o que aí nos vem sem comida. É Inverno e, sem peixe, ninguém nos compra e nem empresta nada. Aquela gente só quer ver peixe para que alguém lhe dê dinheiro, pois, a final das contas, o que toda a gente quer é ver dinheiro. Quem não o tem que se contente em ver a gente que o dinheiro quer ver. Pois, aqui entre nós, o dinheiro há muito que é cego e só pisca o olho a quem se aperalta para o ter. Nazaré torna a gritar. Não vás, que vejo agora pelo espelho duas novas cruzes, uma grande e uma pequena mesmo atrás de mim. Com isto torna a gritar novamente, espavorida agarrando-se a José Maria. Mas, o homem, incompreendido e incompreensível, empurra-a. Não me faças isso, e é tal a força que Nazaré o larga, assustada, quase arrependida do medo que lhe demonstrou. José, Maria de nome, fecha a porta e deixa a mulher, embalada no seu choro e a rezar a quem mais tarde o marido e os homens rezarão também.
Sabemos que no juízo há loucura, mas desconhecemos se na loucura haverá juízo. Enquanto isso, a gente velha vai-nos ensinando que de louco todos tempos um pouco. O dia, esse que não é mais louco que os loucos, ainda teima em nascer. Duras nuvens carregam o céu. São cinco horas da manhã na praia, e ainda há tanto trabalho a fazer que não se pode perder um minuto. Ainda é preciso pregar as tábuas de madeira ao barco, erguer a vela para que a luz do sol não caia tarde de mais sobre o barco, agarrar bem todas as cordas do barco, não vá puxar umas mais que outras com o perigo de dar o navio uma cambalhota nas ondas. Se tiver de dá-la que o seja por razões que não podemos prever.
Tanto trabalho ainda e tão pouco tempo. Pouco tempo para quem obedece, que, quem manda tem sempre todo o tempo para mandar trabalho. E agora, quem manda ainda dorme. Não o fazem os pescadores da Nazaré que já mandam três rezas a Nossa Senhora. E agora que farás tu Nazaré, a Santa não a mulher, pois nunca tão necessária foste desde que o navegador que teimava em chegar á Índia por capricho mais seu que de El-Rei, te nomeou para este lugar. Aqui tens 9 homens que não tarda se lançarão aos mares, lá aonde nunca foram homens e precisam de quem os proteja, eles por eles já fizeram o que podiam.
Tudo o que é homem vai neste barco, tudo quanto é vida também, sobretudo se miserável. Já que não poderemos falar mais delas, ao menos relembremos os nomes: - António, José, Fernando, Pedro, Matoso, Luís, Manuel, João e Xavier.
Pelas dez horas da manhã começam a tocar os sinos da Igreja da Misericordiosa. As velhas já se encaminhavam para a praia, não tanto para ver o que está feito para ver, mas relembrar o que tanto teimam em nunca ter visto. Nazaré já está levantada, quando Vanessa d`Óbidos lhe vai bater à porta. Anda rápido mulher que os nossos homens não conseguem passar a rebentação. Anda rápido antes que o barco se vire.
Na praia, já lá estão todos. As mulheres, já vestidas de preto porque já sabem o que saberão depois, os xailes em contraste com a areia branca, os terços, as velhas que, já sabemos ao que vêm, os homens que choram em terra porque não podem vir ao mar, e Nazaré e a sua barriga. Pois no mar temos ondas como doutras não há memória, porém sem surto de tempestade, antes fosse, talvez quebrassem a força dos remoinhos da ondulação que teima em não deixar o barco passar. As ondas jogam com o barco como cascas de noz, repuxando, esticando e rebentando-o, arrancando do fundo os homens que se agarram com força às cordas, e logo os arrastando para baterem uns contra os outros, arrombando-lhes as costelas.
Os homens clamam, só eles saberão a quem pedem socorro, mas quanto mais gritam mais o barco se encalha, e mais se enrola no remoinho onde a força das águas derradeiramente os despedaça. Que inimigo é este que fere sem ferro e fogo? Na praia, na presunção de que seja o demónio o autor do distúrbio, tudo quanto é mulher dos homens que estão em mar, está de joelhos na areia em oratório. Os sinos ainda tocam para as mulheres que ainda não tenham ouvido que os maridos estão em mar a rebentar e a rebentar-se nas ondas.
Jesus, Virgem Mãe, ai o meu homem! O mar mata-os, o mar mata os nossos homens, Nosso senhor tenha piedade e não nos deixe ver os nossos homens morrer mesmo à nossa frente. Que desgraça esta, ai que grande desgraça. Que Deus Nosso Senhor separe os homens do mar, que os separe, que ele os mata. Pai nosso que estais nos Céus, ai que grande desgraça, e logo hoje, logo hoje, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém. Ai, Virgem Santíssima que já vejo sangue no peito do meu João. Ai que até oiço os gritos dele.
As mulheres bem rezam aos Santos, mas os Santos, se auréola têm, também têm corpo de gente, e tal como os homens também se cansam, também estimam o seu repouso, pois só eles sabem quanto trabalho dá segurar estas ondas, sejam elas forças de Deus, sejam elas forças do Diabo.
Nazaré, ao contrário das outras, não traz o terço nem o xaile negro, traz a semente que tem dentro de si. Pois ela chora, e chora com mais força que o mar que a impede de a levar a José Maria, pois ela vê com os olhos dela que o mesmo já deita os bofes pela boca e as pernas já fraquejam. Paraíso haverá se justiça houver para estes homens, pois nem pode haver inferno depois do que sofrem estes. Mas haverá mesmo justiça?
Dizem que o país anda mal governado, que nele o que há de menos é justiça. A verdade é que ela está como deve estar, sentada de balança e espada. O problema é que alguém lhe destapou a venda do lado direito, tornando-a zarolha, e, agora, ela só vê com o olho direito. E, para todo o lado que a justiça anda, esquece-se sempre do olho esquerdo. É certo que ela deveria esquecer os dois olhos e mantê-los bem fechados. Porém, se tivesse os dois olhos bem abertos mal maior não haveria do que ter um deles fechado. Por isso, castiguem-se lá os vilões e os assassinos, gente de mau porte, e de fama de sarjeta, queimem-nos bem à frente do povo inocente para que este feche também os dois olhos, não tivéssemos nós também a espada e a balança, e também chamar-nos-iamos justiça. Porém honre-se a gente de bens que a essa não se pode exigir que pague as dívidas contraídas, pois essa gente é gente de bem, inimiga da trapaça e bem vista ao olho direito da justiça. Para o olho esquerdo, cego e desastrado, fica o naufrágio deste barco, onde pesca a gente seus bens, mas que embora de bem, não alcançam a pupila do olho da justiça.
Por isso, Nazaré mais não sabe fazer do que chorar, enquanto José Maria trava combates, mesmo na sua frente, com as ondas. Contudo, estas batem com tal força no barco que este, coitado, lá se acaba por virar, e os homens, levantados e levados pelo vento, vão cair de chapa, como chuveiros, contra o remoinho que não deixa as ondas rebentar.
Se Noé e seus filhos viajassem agora com dois pares de cada animal, iriam desta vez ao fundo, pois, nem o dilúvio universal os pouparia, assim como à pomba. Os homens tentam nadar, mas, com o perdão da confiança, só os peixes nadam e Moisés, quando atravessou o mar negro para lançar sobre a gente a lei natural. Os homens só nadam quando sonham, mas em sonhos não há firmeza nem certeza. Se o homem anda, se até tropeça, é possível que um dia nade, mas não ontem, não hoje, e decerto não amanhã.
Na praia, porém, já se fazem chegar alguns destroços que são recolhidos por aqueles que, mesmo assim, ainda se atrevem a ir ao mar salvar o que já não pode ser salvo. Entre eles está Nazaré e a menina que traz consigo. O mar puxa-lhe os pés, mas deles só lhes leva a areia, que Nazaré é forte e sabe manter firme o pé. A ela vieram ter as madeiras quebradas do barco, madeiras que pelo seu peso nunca iriam ao fundo. Antes fosse assim com os homens, pois bastar-lhes ia deitar o papo para o ar, e deixar levar o que a corrente quisesse levar. Mas não é este o historial da praia, e as velhas bem sabem, pois assim já viram morrer outros homens, entre os quais os seus.
De pescadores mortos na Nazaré nem vale a pena falar, não têm conto os barcos perdidos, sabe-se lá quantos cadáveres a maré levou praia fora, o que se sabe, é que na praia estão a chorar nove viúvas, mesmo sabendo que depois de mortos, todos são ricos. No entanto, enquanto elas choram e os homens lutam com o mar, o presidente e o ministro, deitam-se tarde dos decretos que ainda têm para promulgar, pois que se sentem afogados naquele mar de papeis. Porém aquele mar não tem correntes nem ondas, apenas tem remoinhos para quem os terá que respeitar. Enquanto isso, os homens, os que ainda não morreram já de tanta água na boca, lutam por tudo, mas já têm o corpo feito numa papa de vísceras. Aquele, o Fernando foi dos primeiros a ir, e a mulher bem viu tudo. A proa do barco passou-lhe sobre o ventre e só por pouco não lhe separou as pernas do tronco. Não chegou porém, para o deixar vivo, e nem o terço que a mulher atirou à água o salvou. Talvez se salve, depois de morto, talvez não, é assim que ditam os cânones do que outrora se chamou Santo Ofício e agora se chama de Igreja. O mar já leva o corpo e já diz à mulher, Trago aqui o seu homem, leve-o para casa e diga aos seus filhos que esta noite ele dorme em casa. José Maria é o último a morrer. E nem as ondas o conseguem impedir de lutar pela mulher e pela filha. Ao fundo acena a Nazaré, não sabemos se à mulher, se à terra, e nem sabemos se acena mesmo ou se pede ajuda aos céus. Se não pede, pergunta-se a ele próprio como é possível morrer um homem de tão violenta morte, se lá em cima na lota discute-se o preço do safio e berra-se o troco, para em casa, sem pesadelos, e só com orações, os pais presentearem o almoço aos filhos que torcem o nariz à caldeirada. Mas é assim que Deus nos fez.
Uns têm de morrer, outros têm de lutar, outros têm que aceitar, outros têm que mandar, e outros ainda têm que franzir o nariz. Nazaré tenta chegar bem perto dele, mas uma onda rebenta-lhe na cara, e quando se levanta, já nem vê José Maria. Ele lutou tanto, mas não valeu a pena, já morreu, em breve virá dar à costa, o mar já promete acalmar, afinal para que vem um homem a este mundo?
As velhas retiram-se da praia, já não têm rugas para segurar tanta lágrima. As novas, essas sim, ainda têm muita água para deitar fora pelas agruras que sofreram. Nazaré terá a filha, e andará a pão e tremoço para arranjar algo para meter na boca da menina. Esta morrerá de anemia, seis anos depois, de fome. Outras terão que improvisar alimentos para os filhos e esconder no fundo dos aventais e dos lenços na cabeça a bravura de terem visto os maridos morrer, mesmo em frente dos seus olhos. Como já se disse, o rico nascerá rico, o pobre nascerá pobre e o assassino, cedo encontrará alguém para matar.
Os homens, que morreram, esses tiveram bravura a mais para lutar com o mar, pois o povo só luta contra o que não deve. Não foi ao acaso que Deus fez o povo cego, pois se estes tivessem olhos e virassem a cabeça para cima, saberiam então contra quem teriam de lutar, porque enquanto Deus mija, o povo chora.


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING!Fotografia de José Marafona)

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março 05, 2005

PROSA DE RUA, SUJA, DESCURADA DE AMOR...

Deixei registado na semana anterior que todos os domingos (pelo menos nos próximos) teriamos a edição de textos da Paula, responsável pelo blog "Divine Decadence Darling!".
Excepcionalmente, num contexto de reajustes em curso neste blog, um texto da mesma autora é editado hoje. Um texto, sublinho, com muita qualidade. Um texto que é ficção, mas que é também memória. Um texto para fora, mas também um texto muito pessoal. Um bom texto!

Hoje surpreendi-me por me sentir lânguida, melancólica, como tenha saído de uma longa doença. Sou de carácter alegre, e como em mim a alegria vem da saúde e da robustez do corpo, ela foi sempre mais forte que todas as adversidades, se bem que me tenha acontecido por vezes sentir-me alegre sem que o queira em circunstâncias em que me deveria sentir triste.
Conversas tuas, ensinamentos teus, prosas tuas, voltaram. E voltaram bem cedo. Acordei descendo a Mouraria, ouvindo pedaços de fado gingão, observando olhares meticulosos de proxenetas, ataques de fúrias de outras putas, que, tal como tu, apenas querem viver do amor. Mas, sabem elas, que para se viver do amor, tem que se apanhar dele? Sabem elas, que, para viver do amor, é necessário esquecê-lo? Saberão? Saberás tu, certamente. Tu, que muitas vezes amaste, sem amar, sem prazer. Foram poucas, e tu bem o sabias, mas foram. Mas o que tinha o teu amor que outros não tinham? Nada. Bem sei, que, acima de tudo, trata-se de amor cronometrado, amor de despertador, amor de funcionário. Mas, acima de tudo, dizias-me tu, é amor. E é amor, aquele que sentiste, pelo primeiro homem, aquele que te conduziu directamente para um quarto em bicos dos pés. Ainda me lembro de todas as palavras que usaste, tão delicadas, tão densas, tão claras. Contavas-me que, quando a porta do quarto se fechou, o Louro, como lhe chamavas, porque, tal como tantos, nem nome tinha, sentou-se na beira da cama e começou tranquilamente a despir-se, sem te ligar a mínima importância. Não se calava, nem deixava de rir, falando de quartos de hotel e de quartos particulares, tentando interessar-te por uma aventura que tivera recentemente. Disseste-lhe que eras uma rapariga honesta, mas, lembraste-me agora que, aquelas ruas também estavam apinhadas de mulheres honestas. No entanto, lembras-te que te ajoelhaste, e pondo o pé dele no teu regaço, como fazem os sapateiros, tiraste-lhe os sapatos e as meias e beijaste-lhes os pés? Quanto amor perfeito, limpo e inocente, escondias dentro de ti?
Sim, eu sei, mas, mesmo tão nova, mesmo com fome, sabias que amor honesto, é amor falso. Amor puro, é amor insidioso. Mesmo assim, com este primeiro homem, agiste com método e sem pressa, mas á medida que lhe tiravas a roupa que ainda lhe restava no corpo, um delírio de humildade e de adoração apoderava-se de ti. Talvez o mesmo sentimento que por vezes me assalta quando penso em ti. Era a primeira vez que te sentias mulher. Era a primeira vez que o sentias por um homem, e isso tornava-te feliz, porque sabias que era esse o verdadeiro amor, cheio de toda a sensualidade e de todo o vício. Trabalhavas o amor, para dele ganhares o teu salário. Mas tal como qualquer trabalhador, que serve quem lhe manda, é preciso sangrar e suar, para ter pão na mesa. Ah, mas quando ele ficou nu, apertaste-o de encontro ás tuas faces e aos teus cabelos, com força, fechando os olhos. Ele deixava-te fazê-lo com uma expressão admirada, que te agradava. Depois levantaste-te e despiste-te à pressa, deixando cair a roupa no chão. Aproximaste-te por trás dele e, animada por uma violência alegre e cruel, puxaste-o e deitaste-o de costas com a cabeça sobre a almofada. O Louro, ainda jovem, tão jovem quanto eu, tinha um corpo longo, magro e branco; os corpos têm a sua expressão como os rostos: o seu tinha uma expressão casta e juvenil. Estendeste-te a seu lado, o teu corpo contra o dele, e, ao pé da sua magreza, da sua graciosidade, da sua frieza, da sua brancura, tiveste a impressão de seres muito ardente, muito morena, muito carnuda e muito forte. Apertaste-te com violência contra ele, comprimiste o teu ventre contra os ossos das suas ancas, estendeste os braços ao longo do seu peito, o teu rosto contra o dele, e esmagaste os teus lábios contra a sua orelha.
Parecia-te que desejavas não tanto amá-lo como envolvê-lo no teu corpo como se fosse um cobertor.
Quando acabaste, sentiste-te perdida e envergonhada. O teu ardor apagara-se; lentamente afastaste-te e deitaste-te de costas, longe dele. Tinhas feito um grande esforço de amor; tinhas posto neste esforço todo o entusiasmo de um inocente, de um velho desespero. Porém, parecias-te ter enganado, que nem o podias amar, nem ser amada por ele. E pensavas ainda mais, que ele te via e te julgava sem ilusões, tal como eras na realidade, uma puta.
Ele saiu da cama e vestiu-se. Uma dor aguda trespassou-te a alma como se te tivessem ferido profundamente com uma lâmina fina e cortante. Sofrias por ouvi-lo vestir-se; sofrias com a ideia de que daí a um momento ele ir-se-ia embora para sempre, e nunca mais o voltarias a ver. Sonhavas então com o amor dado e recebido, sem tréguas, sem encargos. Ah, que bela ilusão do amor! É pena que, como qualquer ilusão, ela acabe por despedaçar-se e quebrar-se. O amor que sonhaste, o amor que idealizavas para ti, esse, já eu provei, já o senti no meu gosto, no âmago da minha alma, ele intoxica-nos como um veneno medonho que lentamente segue o seu caminho nefasto por entre o sangue das nossas veias. Não vês que o amor é uma palavra própria, inalterável? Esquecê-la ou termos a ilusão de não a termos dito é o mesmo que esquecermo-nos de nós próprios ou querermos ter a ilusão de nunca termos existido. É por isso que todos temos que reconhecer que amar não é um ócio. Amar não é certamente um vício, mas antes um sacrifício. Soubesses tu que, no amor não existem diferenças. É tudo igual. um bom negócio, lucrativo, repleto de cláusulas incertas, abusivas, dolosas, nas quais o que mais ama, explora o que mais é amado.
Foi assim que a tua vida começou a girar sempre para o mesmo lado e com as mesmas personagens, como um carrocel, pois no carrocel, as personagens são sempre as mesmas. Ao som de uma música estridente e desafinada, vêem-se desfilar, o gato, o cisne, o automóvel, o cavalo, o trono, o dragão, o ovo, e assim por diante, durante toda uma noite. Também tu vias girar as silhuetas dos teus amantes, quer fossem homens que já conhecesses, quer fossem desconhecidos, em tudo parecidos com os primeiros. Havia os jovens, os menos jovens e os velhos; alguns simpáticos, que te tratavam com gentileza, outros desagradáveis, que te consideravam como um objecto comprado e vendido. A música do carrocel era sempre a mesma. Encontravam-se numa esquina, trocavam sete palavras peremptórias, e corriam para a tua casa. Aí fechavam-se no quarto, tu entregavas-te, conversavam um pouco, depois o homem pagava e ia-se embora. O dinheiro que ficava, servia para, no outro dia, poderes comprar um litro de azeite, pão, e algumas batatas. A Guerra embora batesse noutras portas, espreitava pela janela. O engraçado, é que, naquelas filas de senhas de racionamento, todos eram iguais. Desde a puta ao pederasta, desde o comerciante ao padre, ninguém se distinguia.
Durante a noite, se ainda era cedo, e depois de arranjares companhia, tornavas a sair e voltavas á rua das Portas de Santo Antão a procurar outro homem. Mas havia também longas noites em que ficavas em casa sem fazer nada e sem querer ver ninguém. Frequentemente, veres a gaveta das economias vazia, bastava-te para saíres de casa e calcorreares as ruas em busca de um companheiro. Mas, acima de tudo, eras preguiçosa. A preguiça, porém, cessou quando, por engano do ofício tiveste a primeira filha. Nem ela, nem as vizinhas, nem a Mouraria, sabiam de quem era a obra. Mais tarde, essa mesma filha saía de mansinho para comprar gelo para o teu ventre, e impedir assim outros enganos, outros erros. Ainda agora me parece ouvir-te chorar pelos que deitaste fora, pelos que nunca deixaste sair. E, no entanto, nunca te ouvi dizer que esta vida te desagradava, nem que te tenhas arrependido de o ter feito. Foi ao ouvir-te, aliás, que percebi que, no fundo, quase todos os homens, por uma razão ou por outra, agradam-me. Não sei se isto acontece a todas as mulheres; o que eu sei é que sentia todas as vezes que te escutava, um frémito de curiosidade e de expectativa que raramente resultava em decepção.
Dos jovens, gostavas dos corpos compridos, magros, ainda adolescentes, os gestos desajeitados, a timidez, os olhos acariciadores, os lábios e os cabelos cheios de frescura. Dos homens maduros, gostavas dos braços musculosos, largos peitos, um não sei quê de maciço e de possante que a virilidade empresta aos ombros, ao ventre e às pernas; por fim até mesmo os velhos agradavam-te, pois o homem não é, ao contrário da mulher, escravo da idade. O facto de mudares todos os dias de amante permitia-te distinguir à primeira vista qualidades e defeitos com precisão. Além disso, o corpo humano era para ti uma fonte inesgotável de um prazer misterioso e nunca saciado. Contavas-me que, mais de uma vez, te surpreendias a acariciar com os olhos ou a tocar com as pontas dos dedos os membros dos teus companheiros, como se quisesses, para além das superficiais relações que vos uniam, penetrar o sentido do seu interesse por ti, e explicares a ti própria por que motivo, aqueles membros te atraíam tanto. Todavia, procuravas esconder esta atracção o mais que podias, porque estes homens, na sua vaidade sempre desperta, podiam tomá-la por aquela forma de amor, e imaginar que te apaixonaras por eles, quando, na verdade, aquele amor nada tinha a ver como teu fascínio.
Talvez tenha sido essa a emoção que senti quando vi o primeiro homem despido. Estendidos sobre a cama, os homens perdem a sua defesa, tornam-se impotentes, como um corpo intimidado, e que vai ser submetido a qualquer experiência. E tu, soubeste sempre conduzi-los, como um médico conduz a operação.
Anos mais tarde, quando me embalavas, quando me alimentavas, via tristeza nos teus olhos. Sentias-te flácida, envelhecida, enrugada; foi assim que compreendi a velhice, que não só muda o aspecto do corpo, mas torna-o inepto e inerte. Por vezes via-te quando te despias, e reparava, sem pensar, nos teus seios negros e murchos, no ventre amarelo e encolhido. A juventude e a beleza tornam a vida suportável e por vezes alegre. Mas quando já não existem?
Tu eras bela, e bem o sabias. Por isso gostavas de passear à hora de maior movimento pelo Chiado. Lentamente, examinado as montras uma por uma com atenção, chegavas à praça do Camões. Desejavas entrar, comprar e trazer para casa todas as belas coisas expostas atrás dos vidros brilhantemente iluminados. Vias as pedras dos passeios, onde formigavam pés calçados com botas, grossos sapatos, sandálias, saltos altos, saltos baixos; vias os transeuntes que subiam e desciam as ruas, a dois e dois, em grupos de homens, de mulheres e de crianças, ou ainda pessoas sós, umas lentas, outras apressadas, todas iguais, justamente porque pretendiam parecer diferentes, com os mesmos fatos, os mesmos chapéus, as mesmas caras, os mesmos olhos, as mesmas bocas. E foi ao veres, as sapatarias, as joalharias, as relojoarias, as livrarias, as floristas, as lojas de fazendas, os luveiros, os cafés, os cinemas, os bancos que sentiste um frémito desalento. Sentiste-te reconfortada com a ideia de que havia um Deus que via claro no teu íntimo: verificaste que em ti nenhum mal havia, que pelo único facto de viveres, estavas inocente, como todos os homens de resto. Sabias que este Deus não estava lá para te condenar ou julgar, mas para justificar a tua existência, que só podia ser boa, visto que dependias dele.
Entraste num café, abriste a mala, tiraste a cigarreira e acendeste um cigarro. Era frequente as mulheres como tu, fumarem nos lugares públicos para chamarem a atenção dos homens. Mas naquela altura não pensavas em procurar amantes, tinhas decidido deixar de o fazer.
Naquele café estava sentado alguém que ainda agora se senta com os mesmos modos com que se sentava nesse café. Era um homem de trinta anos, alto, de cabelo encaracolado, olhos salientes e maxilares duros. Tinha o pescoço tão curto que quase não existia. Sentiste como que uma seiva secreta saindo de uma casca rugosa, sob a forma de mil germezinhos ternos; o desejo de o excitares espicaçava-te o corpo todo e obrigava-te a deixar-te uma atitude reservada. Justamente naquele momento, tinhas decidido deixar a vida. Porém, quanto mais o olhavas, mais a vida te chamava incondicionalmente.
Pensavas que, realmente, nada havia a fazer...era mais forte que tu. Descobriste assim, que trabalho de uma puta não é trabalho ilícito, é amor duro e cuidadoso, procura desmesurada de uma posição na vida que a sociedade, tão hipócrita quanto atrevida, teima em renegar. E, assim, passados uns momentos de reflexão, levantaste os olhos para o homem. Ele ainda te olhava, apalermado, com a chávena na sua mão peluda e os olhos bovinos fixados em ti. Com toda a malícia de que eras capaz, disparaste-lhe um longo olhar cálido e sorridente. Ele recebeu-o em cheio. Levantou-se, agarrou-te violentamente o braço e encaminhou-te para a rua.
Foi com ele, que, depois de alguns momentos de angústia, renunciaste à luta contra o que parecia ser o teu destino, e o abraçaste até com mais amor, como se estreita um inimigo que não se pode vencer.
Alguns, depois de ler esta prosa, vão pensar que é fácil aceitar uma sorte ignóbil mas rendosa em vez de a recusar. Eu tenho perguntado muitas vezes a mim própria, porque será que a tristeza e a raiva enchem as almas daqueles que vivem segundo certos princípios e ideais, enquanto que aqueles que aceitam a sua vida, que é acima de tudo nulidade, obscuridade e fraqueza, são tão despreocupados e alegres.
Pediste à tua filha que se tivesse uma rapariga, lhe chamasse P..., pela pronúncia, por ser um nome em bom estado, vigoroso e saudável. Quiseste que a sua vida fosse, tal como a tua, despreocupada, alegre e feliz. Mas, cada qual obedece não a preceitos, nem nomes, mas ao seu temperamento, que toma o aspecto de destino. O meu, como já o disse, era ser a todo o custo alegre, doce e tranquila. E eu aceitei-o.


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 07:55 AM | Comentários (3)

março 04, 2005

EM NOME DE DEUS- 5 (A REFLEXÃO FILOSÓFICA)

Em nome de Deus... em nome da Religião.... em nome do Transcendente... a reflexão filosófica. Ou a sua possibilidade. Ou o Homem pensando em si na relação que estabelece/vai estabelecendo com a Metafísica. Tudo. O Todo. E pensando na grande instituição resultante. A Igreja. A sua mensagem. A sua actuação.
Neste último post dedicado à temática, um conjunto de máximas e reflexões de Goethe. Goethe: o escritor, o dramaturgo, o filósofo, o cientista, que viveu entre 1749-1832. Fiquem com elas. Pensem. E... fiquem bem no âmbito da relação que quiserem estabelecer entre vós e o... divino... entre vós e o que está para além de vós... Um pequeno exercício, também, de... Fé?

- O verdadeiro é análogo a Deus: não se apresenta no imediato. Somos obrigados a descobri-lo a partir das suas manifestações.

- Se subimos, Deus é tudo. Se descemos, Deus é um suplemento da nossa miséria espiritual.

- É grande a fraqueza da criatura; se procura alguma coisa não a encontra. Deus, porém, é forte; se procura a criatura, no mesmo momento a tem na mão.

- Discute-se muito e há-de continuar a discutir-se em torno das vantagens e inconvenientes da divulgação da Bíblia. Para mim o assunto é claro: será perniciosa, como sempre o foi, se usada de modo dogmático e fantasista; e será útil, como sempre o foi, se for encarada de modo didáctico e sensível.

- A Igreja torna fraco tudo o que toca.

- A religião cristã é uma revolução política.
intencional que falhou e que seguidamente se transformou em revolução moral.

- A fé é amor para com o invisível, é confiança no impossível, no improvável.


(Goethe- MÁXIMAS E REFLEXÕES. Fotografia de Alberto Monteiro)


Publicado por void em 06:44 AM | Comentários (5)

março 03, 2005

EM NOME DE DEUS- 4 (DA RECUSA DA COMUNHÃO)

Hoje deixo-vos com esta notícia. Julgo que faz todo o sentido nesta rúbrica semanal. Estou triste. Há coisas absolutamente lamentáveis. Há coisas não enquadráveis num país europeu... num continente supostamente desenvolvido. Mas, enfim, em Portugal tudo é possível. Vou-me consolando fazendo um esforço para pensar que nem todos os padres pensam assim. Mas... por outro lado, isto não tem a ver com continentes, tem a ver com a Igreja Católica. Tem a ver com as posições oficiais do Vaticano. E não me digam que não. Para quando a evolução?
E mais não digo. Leiam:

"Padre recusa comunhão a católicos que usam contraceptivos

Um sacerdote católico publicou esta quarta-feira um anúncio participando «aos interessados» a sua recusa em dar a comunhão aos católicos que usam meios contraceptivos, recorrem à reprodução assistida ou aceitam a actual lei em vigor sobre o aborto.
No anúncio, o padre Nuno Serras Pereira invoca o cânone 915 do Código de Direito Canónico para, «na impossibilidade de contactar pessoalmente as pessoas envolvidas», lhes dar conhecimento público de que «está impedido de dar a sagrada comunhão eucarística a todos aqueles católicos que manifestamente têm perseverado em advogar, contribuir para, ou promover a morte de seres humanos inocentes».
Nestes incluem-se todos os que usam «diversas pílulas, DIU e pílula do dia seguinte» e os que recorrem a «técnicas de fecundação extra-corpórea, selecção embrionária, criopreservação, experimentação em embriões» e outros métodos de reprodução medicamente assistida.
Votar ou participar em campanhas a favor da legalização do aborto, aceitar ou concordar com a actual lei em vigor (6/84 e seus acrescentos) também são motivos que impedem o padre de dar a comunhão, além da eutanásia.
O cânone 915 diz que «não são admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto», explicou à agência Lusa, o professor Saturino Costa Gomes, director do Instituto Superior de Direito Canónico.
Ou seja, «os sacerdotes podem recusar a comunhão» a todos os católicos relativamente aos quais têm conhecimento de que cometeram ou cometem um pecado grave, segundo o que está estabelecido nos preceitos da Igreja Católica.
A Lusa tentou contactar o padre Nuno Serras Pereira, que reside no Seminário da Luz, sem sucesso até ao momento.
O Patriarcado não quis fazer declarações sobre o assunto.

Diário Digital / Lusa"


(Fotografia de José Marafona)


Publicado por void em 07:08 AM | Comentários (3)

março 02, 2005

EM NOME DE DEUS- 3 (O HOMEM QUE MORREU)

D. H. Lawrence (1885-1930), o escritor que nos põe Cristo a "transgredir". Aquele que um dia assumiu ser Filho de uma entidade superior. Aquele que tinha como missão trazer a todos os homens a palavra de Deus. Aquele que por isso foi vexado, torturado, crucificado, morto... Aquele que, depois da morte, chegou de novo à vida. Ressurreição. Em nome de Deus, a morte. Em nome de Deus, novamente a vida. Mas que vida? Lawrence apresenta-nos a sua proposta: uma vida diferente em que Cristo toma, ele próprio, opções diferentes. Opções, supostamente inesperadas. Em nome de Deus, Cristo, foi. Em nome de um homem novo, diferente, total, Cristo opta por ser.
Deixo-vos, pois, com excerto de uma obra que chocou. Deixo-vos com uma obra que recomendo vivamente. Deixo-vos com uma obra que permite pensar diferente sobre o que é pensado, muito da mesma forma. Deixo-vos... um Cristo muito, mas muito humanizado.... em que a vertente divina deixou de ser. Em nome de Deus, o Homem. Só. Sem mitos.

[Perto de Jerusalém]

Ao mesmo tempo, na mesma manhã e nessa mesma hora anterior ao alvorecer, um homem despertava do sono prolongado que o tinha amarrado. Acordava entorpecido e frio num buraco escavado na rocha. Todo aquele sono lhe enchera o corpo de dor, e ainda continuava cheio de dor. Não abriu os olhos. Apesar de saber que estava acordado, e entorpecido, e frio, e rígido, e cheio de dor, e amarrado. Tinha no rosto ligaduras frias, e as pernas ligadas uma à outra. Só as mãos estavam livres. (...)
Por fim abriu os olhos. No escuro. No mesmo escuro! Mas talvez houvesse a fenda clara de uma luz que o perturbava imenso, que fendia à força a escuridão total. Não conseguiu levantar a cabeça. Tinha os olhos fechados. E uma vez mais chegou ao fim.
Depois levantou-se de repente, e a vastidão do mundo entrou em colapso. As ligaduras caíram. E por cima dele fecharam-se as estreitas paredes de pedra provocando-lhe a angústia do aprisionamento que ainda não conhecia. Havia fendas de luz. (...)
Sabe-se lá de onde chegava a força, da revulsão; houve um estalido, uma onda de luz, e o homem morto encolheu-se no covil para enfrentar a sua investida animalesca. O amanhecer mal tinha começado. Foi invadido pela estranha veemência de um sopro forte que rasgava o dia. E isto significava acordar de vez. (...)
Regressar! Depois de tudo aquilo, regressar! Viu as ligaduras de linho caídas à volta dos pés mortos e abaixou-se para as apanhar, dobrar e devolvê-las à cavidade rochosa de onde tinha emergido. (...)
Estava sozinho; e, por ter morrido, muito para lá da solidão. (...)

(...)

A mulher vacilou como se fosse cair, porque o reconhecia. E ele disse-lhe:
- Madalena! Não tenhas medo. Estou vivo. Puseram-me cedo demais no sepulcro, e por isso regressei à vida. (...) Não me toques, Madalena - disse ele.- Ainda não! Ainda não estou sarado nem em contacto com os homens. (...) Ainda não regressei por completo, Madalena! O que se há-de fazer?
- Mestre! Como te chorámos! Voltas para junto de nós?
- O que lá vai, lá vai - disse ele. - Para mim, o final ficou para trás. (...) Para mim, esta vida acabou.
- E renuncias à glória? - perguntou ela com tristeza.
- A minha glória é não estar morto - respondeu. - Sobrevivi à minha missão. É essa a minha glória. Sobrevivi ao dia e à morte da minha intervenção, e continuo homem. Ainda sou novo, Madalena, nem à meia-idade cheguei. Alegra-me que tudo tenha terminado. Tinha de ser. Agora estou contente por tudo ter terminado, e o dia da minha intervenção ter ficado para trás. O mestre e o salvador morreram em mim; vou agora tratar do que me cabe nesta vida que é só minha.

(...)

[Líbano]

Na treva absoluta do homem que havia dentro de si, sentiu então o tumulto de qualquer coisa a aproximar-se devagar, muito devagar. Uma aurora, um novo sol. Um sol novo erguia-se na escuridão absoluta do mais íntimo de si. Esperou-o ofegante, a tremer de assustadora expectativa...
- Já não sou eu. Sou qualquer coisa nova...
E enquanto aquilo se levantava, com um sopro frio de decepção sentiu o amplexo da mulher viva desprender-se dele, o calor e a paixão desprenderem-se dele deixando-o decepcionado. Cansada, tinha caído aos pés da deusa, com a face oculta.
Ele inclinou-se, para pousar suavemente a mão no calor do ombro batido pela luz, e foi atravessado pelo sobressalto do desejo, e de sobressalto em sobressalto chegou a pensar que enfrentava outra espécie de morte, embora morte cheia de esplendor.
Tinha agora a atenção concentrada naquela mulher que se vergava e escondia. Inclinado ao pé dela fazia-lhe carícias cegas, meigas, e murmurava coisas sem nexo. Não encontrava sentido na morte nem na sua paixão pelo sacrifício, só tinha consciência da plenitude daquela mulher caída, da branca e macia pedra de vida... (...)
Ao inclinar-se tinha sentido uma chama viril e forte que ascendia, magnífica, desde os seus rins.
- Ressuscitei!
(...)
De repente ela olhou-o, e a sua face era uma luz ávida e meiga em ascenção, os olhos como uma profusão de flores húmidas. Apertou-a contra o peito, terno na paixão e devorador no desejo, e teve um derradeiro pensamento:
- A minha hora chegou e fui apanhado de surpresa...
Conheceu-a, e os dois foram um só.

(...)

Disse à mulher:
- Em breve terei de partir. (...) Sou um homem, e o mundo está aberto. Mas é bom e sólido o que entre nós existe. Fica em paz. Regressarei quando o rouxinol voltar a cantar no vale do seu leito; é tão garantido como a Primavera.

(...)

O homem que tinha morrido remou devagar, ao sabor da corrente, e ria sozinho.
- Lancei a semente da minha vida e da minha ressurreição, deixei para sempre o meu contacto na mulher deste dia, levo na carne o seu perfume como uma essência de rosas. Quero-lhe do fundo do meu ser. Mas o ouro e a serpente sinuosa voltam a enrolar-se e dormem na raiz da minha árvore. Deixa, pois, que o barco te leve. Amanhã é um novo dia.


(D.H Lawrence- O HOMEM QUE MORREU. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 06:32 PM | Comentários (3)

março 01, 2005

EM NOME DE DEUS- 2 (FACE NEGADA)

O dia 27 de Setembro de 1996 marca a entrada dos talibãs em Cabul, capital do Afeganistão. A partir dessa data um manto negro estende-se ainda mais por grande parte do país com o decretar e fazer cumprir de decretos onde os mais elementares direitos dos indivíduos são negados. Como vítimas inequívocas, porque brutalmente atingidas, as mulheres.
Latifa, uma rapariga então com 16 anos, que desejava tornar-se jornalista e que vivia uma adolescência até ai normal, vê todos os seus sonhos desmoronarem-se. E é sobre todo isso que o livro "Face negada. Ter vinte anos em Cabul" nos fala. É sobre esses direitos retirados, em nome da pureza do Islão, que a abordagem se faz, sendo o excerto que se segue um pequeno mas relevante exemplo.

Latifa fugiu clandestina do Afeganistão, com alguns membros da sua família. A escrita deste livro foi possível por isso mesmo. Em jeito de introdução, assina Latifa:

"Este livro relata os acontecimentos passados e recentes vividos pela minha família no meu país, o Afeganistão.
Espero que sirva de chave para outras mulheres, para aquelas cuja palavra está acorrentada, que guardaram o seu testemunho no coração e na memória. Dedico-o a todas as raparigas e mulheres afegãs, que mantiveram a sua dignidade até ao último momento. A todas elas, privadas dos seus direitos no seu país e que vivem no obscurantismo, agora que entramos no século XXI. A todas as mulheres executadas em público aos olhos dos seus filhos e dos seus pares, sem piedade nem julgamento.
Ofereço-o, também, à minha mãe, que me ajudou sempre, dando-me lições de liberdade e resistência."

No dia 7 de Outubro de 2001, dá-se o início da intervenção militar americano-britânica no Afeganistão, que irá resultar na expulsão dos talibãs no poder.

Quanto ao excerto escolhido do livro:

Nove horas da manhã, 27 de Setembro de 1996. Alguém bate violentamente à porta. Toda a família se sobressalta, porque desde que amanheceu estamos extremamente nervosos. O meu pai levanta-se rapidamente e a minha mãe, angustiada, segue-o com os olhos, o rosto marcado pelo esgotamento, depois de uma noite sem sono. Ninguém conseguiu pregar olho. (...)
O meu pai regressa à cozinha, seguido do nosso jovem primo Farad, esbaforido e lívido. Dir-se-ia que Farad treme interiormente e todo o seu rosto exprime o medo. Mal consegue falar, as palavras atropelam-se nos seus lábios numa sequência de estranhos soluços.
- Vim... saber notícias de vós! Está tudo bem? Não vistes nada? Não sabeis? Eles estão aqui! Tomaram Cabul! Os talibãs estão em Cabul! Não vieram a vossa casa? Não exigiram as vossas armas?
- Não, ninguém veio aqui, mas nós vimos o pano branco a flutuar na mesquita. Tememos o pior, foi Daoud que o viu esta manhã.
Esta manhã, por volta das 5.00h, quando tinha descido para ir buscar água, como habitualmente, à torneira do prédio, o meu jovem irmão Daoud voltou a subir precipitadamente com a bacia vazia na mão.
- Vi um pano branco na mesquita e outro na escola!
A bandeira dos talibãs. Nunca tinha flutuado antes em Cabul, só a vira na televisão ou em fotografias nos jornais.
(...)
Enquanto esperamos que a Rádio Charia se digne informar-nos sobre as ordens do novo poder, temos direito, durante oito ou nove horas, a música religiosa, a uma leitura de versículos do Corão e a orações.
(...)
Onze horas. A Rádio Charia retoma o serviço para anunciar que o primeiro-ministro do governo interino, composto por seis mullahs, decretou:
"Doravante, o país será regido por um sistema totalmente islâmico. Todos os embaixadores no estrangeiro estão suspensos. Os novos decretos são os seguintes, segundo a charia:

- Toda a pessoa, possuidora de uma arma, deve entregá-la no posto militar ou mesquita mais próximos.
- As raparigas e as mulheres não têm o direito de trabalhar no exterior da casa.
- Todas as mulheres que sejam obrigadas a sair de casa devem ir acompanhadas por um marham (pai, irmão ou marido).
- Os transportes públicos reservarão um autocarro para as mulheres e um autocarro para os homens.
- Os homens devem deixar crescer a barba e aparar o bigode segundo a charia.
- Os homens devem usar um turbante, ou um gorro branco na cabeça.
- Proibição de usar fato e gravata. Obrigação de usar o traje tradicional afegão.
- As mulheres e as raparigas usarão o chadri.
- Interdição de usar verniz nas unhas ou carmim nos lábios e maquilhar o rosto.
- Todo o indivíduo muçulmano deve cumprir as suas orações precisas e no local onde se encontra."

Nos dias seguintes, os decretos chovem, sempre à mesma hora, sobre a Rádio Charia, ditos pausadamente pela mesma voz ameaçadora, em nome da charia:

- É interdito afixar fotografias de seres humanos e de animais.
- Uma mulher não tem o direito de apanhar um taxi sem ser acompanhada por um mahram.
- Nenhum médico homem tem o direito de tocar no corpo de uma mulher sob o pretexto de uma consulta.
- Uma mulher não tem o direito de ir a casa de um alfaiate de homens.
- Uma jovem não tem o direito de ter uma conversação com um jovem. Os transgressores serão casados imediatamente após esta falta.
- As famílias muçulmanas não têm o direito de ouvir música, mesmo que seja por ocasião da cerimónia de um casamento.
- É interdito às famílias tirar fotografias e imagens vídeo, mesmo durante um casamento.
- É interdito às noivas frequentar os salões de beleza, mesmo durante as preparações para o casamento.
- É interdito às famílias muçulmanas dar nomes não islâmicos aos seus filhos.
- Todos os não muçulmanos, hindus e judeus, devem usar vestuário amarelo ou um pano amarelo. Devem assinalar as suas casas com um pano amarelo, a fim de poderem ser reconhecidos.
- É interdita a todos os comerciantes a venda de bebidas alcoólicas.
- É interdita aos comerciantes a venda de roupa interior feminina.
- Quando a polícia pune um infractor, ninguém tem o direito de fazer perguntas ou criticar.
- Todo o infractor aos decretos da charia será punido em praça pública.

Desta vez, eles matam-nos, a nós, raparigas e mulheres. Matam-nos em silêncio, sorrateiramente. As piores interdições, já aplicadas na grande maioria do território, aniquilam-nos e colocam-nos, por completo, à margem da sociedade.Todas as mulheres são abrangidas, das mais jovens às mais velhas. A interdição do trabalho às mulheres implica a derrocada dos serviços de saúde e administração. Deixa de haver escola para as raparigas, cuidados às mulheres e ar fresco. Para casa, as mulheres! Ou então, para debaixo do chadri. Fora da vista dos homens! É a negação total da liberdade individual, um verdadeiro racismo sexual.


(Latifa- FACE NEGADA. TER VINTE ANOS EM CABUL. Fotografias de Thomas Dworzak: 1ª e 2 ª: de talibãs; 3ª: talibãs prisioneiros com soldados da Aliança do Norte- 2001.)

[Nota: "Charia- conjunto de regras saídas dos textos sagrados do Islão, que regem a vida religiosa, política, social e individual dos muçulmanos."]


Quanto ao post de amanhã: e se Cristo for, ele próprio, autor da "transgressão"? Será possível falar desta forma quando o que está em causa é a sua humanização total? O que quererá isto dizer? Qual o alcance? ... Pois... o post de amanhã...


Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (4)