março 31, 2005

O ADULTÉRIO

A mulher hesita entre o adultério e uma conversa.
Percebo: na mesa fala baixo e sorri muito
para um homem que não é o seu marido.
Mas ainda há tempo. Por enquanto nada foi feito.
Os pensamentos, felizmente, são reversíveis.
A mulher ao sair do café
poderá ser atropelada: um embate violento, vamos supor.
Poderá, então, quem sabe, permanecer seis meses no hospital,
com o marido ao lado, e revistas;
todos os dias no horário permitido.
E, se tal acontecer, esta mulher não será adúltera.
O homem que não é o seu marido tem um fato escuro,
uma gravata cinzenta atravessada por uma subtil linha branca.
Está contente consigo próprio, é evidente, e com a gravata.
Vejo-os sair do café. Despedem-se. Faço uma pausa,
suspendo os meus projectos, e observo-a a
atravessar a rua para o outro lado.
Um carro passa a grande velocidade,
mas ela já se encontra no passeio, protegida.
Do outro lado diz adeus ao homem de fato escuro,
sorri muito, abana a mão com um movimento excitado.
Ela desaparece por um lado, ele pelo outro.
Encontrar-se-ão de novo: isso é certo. Num outro dia.
Num sítio menos óbvio.
De regresso a mim penso no que é o destino,
e no que é o tempo,
e sei, tenho uma certeza clara: aquela mulher vai sofrer.


(Gonçalo M. Tavares- "1". Edição: Relógio D'Água. Fotografia de Philippe Pache)

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março 30, 2005

DA ESTÉTICA DA DESCONSOLAÇÃO

Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora? Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza!
Quanto mais medito na capacidade, que temos, de nos enganar, mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas. E todo o mundo me surge, em momentos em que a meditação se me torna um sentimento, e com isso a mente se me obnubila, como uma névoa feita de sombra, um crepúsculo dos ângulos e das arestas, uma ficção do interlúdio, uma demora da antemanhã. Tudo se me transforma em um absoluto morto de ele mesmo, numa estagnação de pormenores. E os mesmos sentidos, com que transfiro a meditação para esquecê-la, são uma espécie de sono, qualquer coisa de remoto e de sequaz, interstício, diferença, acaso das sombras e da confusão.
Nesses momentos, em que compreenderia os ascetas e os retirados, se houvesse em mim poder de compreender os que se empenham em qualquer esforço com fins absolutos, ou em qualquer crença capaz de produzir um esforço, eu criaria, se pudesse, toda uma estética da desconsolação, uma rítmica íntima de balada de berço, coada pelas ternuras da noite em grandes afastamentos de outros lares.
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se tinham passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão.
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.


(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO. Fotografia de Alberto Monteiro)

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INSTANTES DE ... "A ESTRADA BRANCA"

Dando cumprimento ao que foi ontem anunciado edito, com este post, alguns poemas de José Tolentino Mendonça, constantes na sua mais recente obra de poesia chegada ao mercado: "A estrada branca". Um livro... um conjunto de poemas que sublinham as preocupações espirituais/de interioridade do autor. Que se debruçam sobre percursos a fazer, sobre interrogações constantes que são necessárias, sobre buscas. Que apontam para recomeços, reiniciações, para experiências importantes ou mesmo imprescindíveis.
No primeiro poema que apresento -"O poema"- o autor faz bastante bem uma espécie de síntese do que é para si a Poesia, sendo que esta permite perceber o que se segue depois em termos de conteúdos, quer aqui quer na totalidade da sua obra poetica. Não vou, pois, fazer mais aprofundamentos teóricos. Opto por vos deixar entrar nos poemas e senti-los à vossa maneira. Neste caso, julgo mesmo ser o melhor, ainda mais depois do que já apresentei no post de ontem.

O POEMA

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visíveis, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.


A ESTRADA BRANCA

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

O PASSO DO ANJO

Pelas escarpas, nos atalhos de areia e erva
em matas sombrias onde as faias se renovam
os animais já não vigiam
já ninguém os persegue

a chuva desenha círculos perfeitos
nos poços dos aldeões
como nos charcos

o restolhar de prata da folhagem
previne do passo do anjo, na escuridão


PLUMAS

Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas velocidades enormes

O amor vive na ponta dos cabelos

O amor, ditam os frios do coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a imprecisa inquietação que nos toma

Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite

Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas
num chapéu de passeio

VIA DEL GOVERNO VECCHIO

Se me trouxeres uma outra luz te explicarei
como se torna um amor imoderado
tão parecido ao anjo que nem nos é dado vislumbrar
a verdadeira passividade não é a do esquecimento
mas a mortal velocidade do desejo
que ninguém suporia a hora alguma

há um segredo comum àqueles desconhecidos
que esbarram um no outro por puro acaso
um olhar branco, um rosto que se volta
e depois no mundo nunca mais se encontram

Eu por mim nunca sei
se estou irremiavelmente longe ou demasiado perto de Deus
às vezes pergunto-me quantas vezes o corvo deverá
bater as suas asas negras
entre o meu corpo e o seu


(José Tolentino Mendonça- A ESTRADA BRANCA. Edição: Assírio e Alvim. Fotografias de José Marafona)

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março 29, 2005

EM CENA: PERDOAR HELENA

Ofereço-vos, hoje, o primeiro texto para Teatro de um... Poeta, que é também Teólogo, Padre, Professor... Trago-vos um texto para Teatro que se encontra desde o passado dia 24- e até 24 de Abril- em cena no Teatro Taborda (Lisboa), com as representações de Alhelí Guerrero, Pedro Martinez, John Romão e encenação de Marcos Barbosa. Trago-vos "Perdoar Helena" de José Tolentino Mendonça.
Originário da Madeira o autor tem, no presente, 39 anos e viu publicada muito recentemente, pela editora Assírio e Alvim, a sua tese de Doutoramento "A construção de Jesus".
No campo da Poesia, José Tolentino Mendonça vê os seus trabalhos editados desde 1990 com o livro "Os dias contados", seguindo-se "Longe não sabia" (1997), "A que distância deixaste o coração" (1998) "Baldios" (1999) e "De igual para igual" (2001). Saído há poucos dias para o mercado, também ao nível da Poesia, "A estrada branca" cujos alguns poemas serão editados aqui no Abismo já no dia de amanhã.
"Perdoar Helena" é, como já disse, o primeito texto para Teatro do autor, sendo a actuação em cena resultante da dramaturgia de Jacinto Lucas Pires, autor do qual já apresentei excerto de uma peça. A representação foi fruto de uma produção conjunta da Companhia O. lilástico e dos Artistas Unidos.
Em termos de conteúdo, é um trabalho que nos fala e/ou faz reflectir, no âmbito de uma viagem pela produção grega antiga/clássica e pelo mundo da própria produção dramática, sobre o Perdão, a Culpa (ou, inversamente, a Culpa e o Perdão), a Responsabilidade, o Destino pessoal, sendo que por isto mesmo, aborda problemáticas relacionadas com o Homem e com o Mundo onde se insere. Por motivos evidentes, e de forma muito particular, é uma peça cujo conteúdo é muito voltado para o Interior. Para o nosso interior. Para o interior do ser humano. Um interior e uma voltagem, evidentemente, imensamento relacionados com a acção, com posturas e posicionamentos, com formas de ser e de estar.
Um texto (e uma peça) que no dizer de José Tolentino Mendonça:

1. É/foi um risco- "Porque é um modo diverso de lidar com a palavra. É passar da solidão em sentido estrito, a que obriga a poesia, para a ideia de companhia, de outras presenças, e pensar que aquelas palavras partirão à procura de uma voz, de um rosto, de um corpo. Os poemas também partem, mas não sabemos à procura de quê."

2. Tem imanente a vertente do ensaio, construindo-se sob a forma de diálogo-"Para mim, a ideia de diálogo é sempre de um caminho comum. A palavra nunca é um fim em si própria. É uma busca, um endereço, uma pergunta, uma seta atirada mais longe. O que procurei no teatro foi que se pudesse pressentir que as palavras servem para fazer um caminho e que determinadas palavras e silêncios nos levam para mais longe, dentro de um certo pensamento. A escrita nunca é, para mim, um exercício de auto-contemplação. As palavras servem para fazer coisas e para tornar outras mais misteriosas, ou mais lúcidas, ou mais obscuras. As palavras têm sempre uma dimensão de transformação. E, no teatro, mais do que a exploração dos pequenos incidentes de uma cena ou de um encontro, tem que haver, como em toda a arte, uma iniciação à vida do espírito. Ou seja, partindo do que é visível, imanente, vivenciado, o teatro pode levar-nos às grandes questões: o que fazemos aqui? para onde caminhamos? chegamos a alguma parte? São esses meios mais fundos da alma humana que me interessa explorar na escrita."

[Citações extraídas da entrevista dada por José Tolentino Mendonça ao "JL" (Jornal de Letras) e publicada no número de 16-29 de Março de 2005, p. 16-17]

Quanto ao excerto da peça:

1. Aqui estamos, escolhidos, ao que parece, pela tecedeira.

2. Pela tecedeira?

1. É assim que surge nomeada na Ilíada. Helena tece as batalhas de Gregos e Troianos... batalhas que ela teria provocado... (enfático) e como é desmedida sua tapeçaria!

2. Helena... Helena...

1. "Para que nos dias futuros/ - explica ela a Heitor- os homens que vão nascer nos tomem em seus cantos".

2. "... surgiu, vinda do seu quarto perfumado e de altos tectos, /Helena, semelhante a Artémis, a deusa da roca dourada/ Pôs-lhe Adastra uma cadeira finamente trabalhada, /Trouxe Alcipe uma alfombra da mais macia lã..."

1. Fios pálidos, fios febris, invisíveis... atraindo a criação para o seu fundo mais fundo. Helena ainda não deixou de tecer.

2. A sua beleza soltava imprevisíveis desastres... assemelhava-se ela à inocente borboleta subindo a sebe dos loureiros, deslumbrante... mas a janela em que ela tocar ruirá, irremediável... a casa que ela atravessar será em breve ocupada pelas chamas, o ombro em que ela docemente pousar será, sem piedade, sacrificado.

1. Não foi ela.

2. As cidades são hoje arrasadas pelos desígnios do petróleo... que aspecto de beleza tem o crude? uma mancha venal, oleosa... Mas a desgraça que o belo ateia, essa desgraça não é mais desculpável...

1. Não... repito que não foi ela.

2. Não foi ela? (irónico) Então era alguém muito parecido. Gente tão diversa na tradição a identifica!

1. Mas é que tens razão... era alguém muito parecido... mesmo... Era um clone.

2. Um clone? Não zombe de mim.

1. Pronto, um eidolon, um simulacro, se quiseres.

2. Que bizarro! E isso é... Eurípedes?!

1. Sim, é o que ele defende justamente em Helena. E já antes dele Estesícoro tratara essa versão do mito. A Helena verdadeira nunca esteve em Tróia. Paris arrastou para lá um fantasma, um ser nuvoloso que se dissiparia no ar, deixando, porém, atrás de si um lastro da mais espessa desventura... Helena é a fidelíssima esposa que Menelau vai resgatar aos intentos do Senhor do Egipto... Toda a perturbação aconteceu por causa de um artifício... um simulacro que os deuses criaram. Pobre filha de Leda.

2. Quase uma década durou a guerra de Tróia... tudo por um engano... pode lá ser!

1. Mas o mundo já conheceu alguma guerra que não fosse fundada no engano? Os soldados desconhecidos cujos túmulos nós veneramos, os vencidos de todas as quarelas, os cortejos dos heróis-mortos...

(...)

2. É que não entendo... E à medida que fala, mais obscuro se torna, mais escondido. Eu esforço-me... digo a mim mesmo isto e aquilo... Mas não entendo...

1. Mas que coisa não entendes?

2. Aquela noite... aquela noite em que cancelou a representação de Helena... aquela noite em que abandonou o teatro... aquela noite em que teve medo...

1. Mas quem te disse que eu tive medo?

2. Porque fugiu... sei que teve medo porque fugiu... a arfar... acossado... Viu que tudo é uma ilusão e ficou paralisado.

1. (gritando) Que sabes tu do medo, que queres dizer? De que me acusas?

2. É tudo um amontoado... a mesma torrente: o sublime, o banal, o grotesco... Nenhuma palavra, nenhuma pedra é inatingível. Desde que nascemos estão as condições reunidas para se levantar o medo... um pânico terrífico... Por isso há um momento qualquer em que se sai a correr com as mãos acima do peito... a nossa voz já não é voz... o nosso olhar são dois poços minúsculos... o incomensurável é apenas um murmúrio, o respirar da escuridão...

(...)

2. (recobrando) É estranho. O que eu sinto agora é que estamos sempre a um passo, quer nos dirijamos para um lado ou para outro... quer se trate da vida ou da morte. E a isso não se pode fugir... Por mais branda que sopre a brisa, por mais branda... a noite penteia as glicínias com o seu ponte aguçado.

1. (pausa) Sabes o povo berbere... os nómadas...

2. Sim...

1. Estão demasiado ligados à ideia da viagem... sair pelo mundo e tornar à mesma casa, na mesma rua, no mesmo bairro de Ítaca, de Nova Iorque... O nomadismo não é uma viagem assim...

1. O nomadismo é uma viagem sem fim...

2. E...

(...)

1. Há um meridiano que todas as vidas cruzam, quer se pense a sua rotação como mortal ou infinita...

2. Também não sei se ouvi falar.

1. Ouviste... digo-te que ouviste... Há um momento em que o coração parece que estanca perante o espaço em branco. Não aconteceu nada, nada parece ter mudado, mas a página branca, a parede branca, a estrada branca assomam como um obstáculo maior que todas as nossas possibilidades...

2. Penso que sigo...

1. Os que viajam, voltam para trás... regressam à sua rua, aos seus tectos amados, aos olhos de Penépole... Os nómadas...

2. E os nómadas?

1. Os berberes dizem que os nómadas desposam o vazio... falam das núpcias com o vazio...

2. Não compreendo.

1. Mas queres compreender?

2. Juro que quero... Mas...

1. Mas... o quê?

2. Quando a verdade se revela, não é para que seja gritada? Não são os grous, de que tanto fala, gritadores dos céus? O seu canto implantado de modo febril na abóbada celeste, tão tempestuoso que quase corta a respiração, não atesta o seu canto a persistência grandiosa da vida?

1. A verdade revela-se para que entres nela. Isto unicamente.

(...)

1. Nem te dás bem conta, não sabes explicar, mas há um dia em que começas. Vais caminhando dentro da tua casa, às voltas, até te perderes. Há um dia, há uma hora exacta em que te deslocas dentro desse mundo que construíste e és um estranho. Por que está isto aqui? Donde terá chegado aquilo?; Quem são estes que se repetem nas fotografias?; Quem juntou tantos livros em meu redor?- perguntas muitas vezes. Mas não tens segurança sobre coisa alguma. Os outros procuram-te, mas não te vêem. Marcam o teu número, com insistência, mas o telefone não toca. Ou se te chamam do princípio da alameda, se uma multidão inteira grita o teu nome já não ouves. Terás medo? Dizes para ti próprio: "Esta incrível paz será o medo?" Vais percebendo, meditando no teu caso, que aquele pouco que hoje ainda te habita estará também a ponto de abandonar-te. És tomado, então, de uma pressa inumana, de um afã... tentas resistir, encontrar um atalho entre o cerco que te fazem as árvores, as trepadeiras, as magras flores do padro, as lianas... Procuras fixar, escrever esse escasso conhecimento que resta. A minúcia, se ainda for capaz da minúcia, pensas, isso será, talvez, uma saída. Marcas então com etiquetas os objectos, um por um, como quem se entrega a um criterioso e interminável inventário, desenhas a carvão setas enormes ao longo de todas as paredes, gravas um mapa de emergência em cada porta, estás já extenuado, vacilante, passou sobre o mundo muito tempo, quando, por fim, apontas o teu próprio nome e o costuras no casaco, para o que der e vier... E sentas-te à espera. Tu não podes saber, mas aquilo que escreveste já não faz parte de nenhuma língua. Em nenhuma língua dos homens aqueles teus traços, todos juntos, poderão algum dia ser reconhecidos como uma palavra sequer. O silêncio conserva em ti os lábios bem fechados. E, no meio desse, como um clarão. Caçador, sê a tua própria presa... isto recordas.

(...)


(José Tolentino Mendonça- PERDOAR HELENA. Edição: Assírio e Alvim. Fotografia: resultante da representação dos actores supra-referenciados)


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março 28, 2005

A MORTE ANUNCIADA DE UM PALHAÇO POBRE

Atendendo à edição de "Satanás" até ao dia de ontem, transita para hoje a apresentação de mais um texto da Paula. E ei-lo que se segue! Tão brilhante como aqueles até agora aqui trazidos. E mais uma vez: um pretexto para a reflexão. Sobre nós. Sobre o Homem. Sobre o que andamos por aqui a fazer. Sobre o que queremos, preferimos ou não queremos. Sobre as nossas opções. As opções de vida conscientes ou inconscientes. Mas sobre as opções. Sobre os enganos. Sobre o que poderá ser mais fácil. Sobre o que, para nós, pode ser enganadoramente mais fácil. Porque queremos assim. Porque sim.

Meninos e meninas, senhores e senhoras, admirável público: O maior espectáculo do mundo vai começar...

Hoje há circo, pintam-se as grades (se há dinheiro para a tinta, então mãos à obra), ergue-se a tenda oval com uma lona cuidada, pois é ela que dá vida ao espectáculo (uma lona nova e bonita, atrai com certeza mais público). A gente do circo levanta-se bem cedo. Como tudo na vida, é preciso saber fazer de tudo um pouco. Como o dinheiro não abunda, não é possível pagar aos pintores, aos electricistas e aos serralheiros. Ao invés, utiliza-se a matéria de que são feitas as verdades: a improvisação.

Já é quase noite, e já se varrem as bancadas, já se limpam as cadeiras e já se recolhe o lixo de outros circos que por ali passaram. Arreia-se o pano da roda, alimentam-se os leões, escovam-se as crinas dos cavalos, e enterram-se as fezes dos animais para evitar as moscas e as doenças. A noite aproxima-se, e o cheiro do algodão doce já encanta as crianças. “Boa noite, senhoras e senhores! Boa noite, meninos e meninas! É com uma grande alegria que este Circo apresenta um grande espectáculo. E começando a sua apresentação, os irmãos Pompidu, num verdadeiro jogo de malabarismos!”

Os ilusionistas, trapezistas, acrobatas, equilibristas, contorcionistas, domadores, elefantes, ursos, cobras, tigres, cavalos, estão prontos à entrada da tenda. Mas, por agora, aí vem ele...a alma do circo! Um circo que não tem um bom palhaço, não pode ser um bom circo. Gritem e batam palmas, acompanhem os pagodes, os tambores, as trombetas, que aqui vem o Palhaço Pobre...


O Palhaço Pobre entra em cena, sorriso fixo, pensamento algures. A sua caracterização pesada e grotesca, por ele construída na perfeição, impressiona sempre os espectadores, como seja o cúmulo do contra-senso. Ele entra num dos anéis da pista e senta-se à espera da carícia da crina do cavalo, mas é um coice que o atira ao chão. A primeira gargalhada da noite é-lhe devida, pois começa para este palhaço a reprodução de um drama de iniciação e de martírio. As pessoas observam-no curiosas e temidas, sobrepostas em filas e filas de rostos, aos quais o projector lambe ávido, um a um, como uma língua em busca de um dente perdido. Sob o rufar surdo do tambor e sobre a fanfarra das trombetas, o palhaço sobe o escadote em direcção ao nada, como se procurasse a saída celestial de qualquer tragédia monumental. O público ri ainda, porque sabe, ao contrário do palhaço, que a escada conduz ao nada, ao abismo, ao precipício. Lá em cima, este sorri ao público, desequilibra-se, e cai sobre a rede que atravessa todas as pistas do circo. Nova gargalhada surte entre os espectadores. Quando desce ao chão de areia, um silvo agudo de um violino acompanha o seu triste pesar de ter querido ir a todo o lado, e não ter chegado a lado nenhum. Após o sinal da primeira tristeza, voltam a soar as rufadas do tambor, e volta o cabriolar das suas palhaçadas. Mas chegado o momento de cair em transe, os músicos, subitamente inspirados, perseguem-no entre as suas expirais de êxtase como corcéis grudados à plataforma de um carrocel tomado de loucura. Porém, nesta noite, o riso dos espectadores parece-lhe afoito, torpe e miserável. Não são risos cristalinos que este ouve, mas um riso camuflado de mofas e assobios, detritos e outros projécteis de maior solidez. A face do palhaço, tão bem apagada dentro da maquilhagem, torna-se sorumbática. O riso surge-lhe cada vez mais irritante aos ouvidos, até que se torna insuportável. O Palhaço Pobre sai de cena. O público, todavia, espera impacientemente que este regresse, envolto numa áurea impaciente, desconfiada, azeda, aplaudindo sicromáticamente a música numa irada explosão de escárnio. O palhaço não regressa pela primeira vez.

Na sua caravana, o palhaço retira a máscara e ganha a forma de homem. É bonito, mas velho, com rugas que lhe sugam os olhos e a boca. Tem uma cara melodiosa, triste e sonâmbula. Aquela cara não tem vida. O palhaço pensa, enquanto lava a face, que as focas, independentemente do que sejam obrigadas a fazer, são sempre focas; o cavalo, um cavalo; a mesa, uma mesa. No entanto, ele, embora permanecendo um homem, é obrigado a tornar-se em algo mais: tem de assumir os poderes de um ser excepcional, dotado de um excepcional talento, tem de fazer rir as pessoas. Porquê? Sem a máscara, sem o nariz postiço, sem os sapatos, sem a roupa larga e desmedida, ele resume-se a um vagabundo, desconhecido. Ninguém o reconhece, flutua anonimamente entre os milhares a quem ensina a rir por cada cidade que passa. Lágrimas percorrem a sua face, uma face lavada, suja e limpa ao mesmo tempo. O palhaço, enquanto palhaço ri, mas enquanto homem, chora. “És por acaso um palhaço?”, pergunta-se a si próprio, e observa-se no espelho. “Sim, és um palhaço, e ages como te deves comportar. O público paga e quer rir. É apenas isso que ele sabe fazer.” É então que ele percebe que o mundo sem palhaços nunca ri, nunca agita os braços. O público ri com o palhaço, numa luta permanente para conseguir suster as lágrimas. A sua actuação nada mais é, diz para consigo, do que uma alegria criada pela súbita interrupção da rotina de uma vida inteira. E assim, o palhaço percebe finalmente, que o público ri porque há muito, muito tempo, que não conhece a felicidade. A descoberta deixa-o tão agitado que arde de impaciência por voltar à pista e agradecer ao público por este os fazer feliz. Um palhaço nunca chora, apenas ri.

Enquanto o palhaço veste a camisa de flanela para se deitar e dormir, ouve uma vendedora ambulante, fatigada do negócio, que canta:


É n´alegria do Circo
Que se descobre a alegria da Vida
Pois o mundo vive sob uma tenda de linho
Sem saber que o Circo é Vida,
E que a Vida é um Circo.

Pouco depois já dorme. É um sono pesado, no qual se abre o pano de um sonho de um humilde cenário de teatro. Uma trupe de saltimbancos percorre uma estrada, onde a relva é de plástico, e os arbustos de cartão pintado. A lentidão e o ranger das rodas empoleiradas de uma carroça trazem os prisioneiros de um circo decadente e sem vida. Os palhaços choram, sentados naquele pedaço de madeira ambulante, como envoltos numa armadilha do destino, enquanto as rodas de madeira da carroça chapinham as poças d’água. O povo que os espera, zomba e humilha a trupe de saltimbancos, atira-lhes pedras, ovos e lama. A estes mendigos travestidos de palhaços só lhes resta a sua peregrinação eterna. Esta é a miséria da alma, a limitação da condição humana. Um dos palhaços é ridicularizado pelo povo zombeteiro por carregar sobre si, o peso das desgraças humanas. Ele traz sobre o seu torso, o escárnio dos que abusam, dos que matam, dos que fazem sofrer, e isso faz dele um palhaço sem alma. Tal facto provoca risos a partir da sua própria decomposição espiritual.

Os palhaços entram na pista. A maquilhagem que pesa sobre eles funciona como uma espécie de máscara que, com as suas cores e formas artificiais, insurge-se como um escudo do mundo, uma forma de esquecer os antigos traumas, transformando o público (seres reais) em autênticas personagens. O mundo esconde-se de si mesmo na cara desta trupe. Tudo permanece na mesma, apenas porque já nada ali se passa. A cúpula desapareceu, os andaimes da tenda caíram. Em vez das habituais bancadas circulares, erguem-se ali, em declive, suave e direitas ao céu, autênticas paredes de pessoas. Não se ouvem gargalhadas, apenas simples murmúrios. Estão ali dependuradas, suspensas num espaço insondável, estas enormes multidões de espectros, cada um e todos crucificados. Os palhaços tentam fugir da arena, mas qualquer que seja a direcção da fuga, as saídas aparecem-lhes bloqueadas. Em desespero de causa, um dos palhaços lança-se sobre um escadote, começa a subi-lo febrilmente, e sobe, sobe até lhe faltar o fôlego. Ao ver os gemidos e os soluços da incontável multidão que os abafa, este desmaia e cai para trás no vazio. O público começa a rir, um riso reprimido de início, crescendo depois gradualmente para um riso oceânico. O palhaço caído recupera a consciência, e, é nesse momento exacto em que reconhece a existência de milhares de espelhos à sua volta, que este se apercebe que os espectadores não se riem da sua queda, mas de si mesmos. Estes palhaços não estão na pista para criar ilusões de felicidade no público de olhar triste, mas para soltar a raiva cega da sua própria humilhação. O público ri-se do mal infligido e sofrido por ele mesmo. O palhaço raciona com tal rapidez que na breve e última fracção do seu sonho, vê reconstruir-se em si todo o espectáculo da sua vida. É a própria revelação que se afunda com ele, pois sabe agora ter havido um instante em que tudo lhe é esclarecido. É altura de acordar.

No dia seguinte, emocionalmente exausto pelas devastações do sonho, decide ficar na caravana. Senta-se diante do espelho, estudando o rosto. Tem por hábito, antes de aplicar a tinta, contemplar-se durante um longo espaço de tempo. É a maneira de se preparar para a representação. O sonho, embora já esquecido pela luz da manhã, deixou nele um gosto azedo sobre a natureza humana. Se sempre se apoiara na ideia de que o ideal da felicidade é ser ela mesma contagiante, a possibilidade de que a torpeza do espírito pudesse estar ela mesma aliada ao riso desafogado, causava-lhe náuseas. Para ele o mundo é triste, mas real, feio, mas belo. Um mundo louco, cheio de contradições, como uma criança mimada. A sua função no mundo reside em emprestar-lhe a ele, o que a vida teima em retirar-lhe - a alegria. O mundo não pode ele próprio fazer parte do espectáculo. Pesa-lhe demasiado sobre a alma, saber que a humanidade seja feita de malabarismos, de trapézios. Ao mesmo tempo, que reflecte, senta-se a olhar para o seu rosto amargurado e de repente põe-se a apagar a imagem e a impor uma nova, aquela que ninguém conhece, mas que em toda a parte é tomada como sua: O Palhaço Pobre enquanto Homem. Mas, o verdadeiro de si, ninguém conhece, nem mesmo os amigos, pois as constantes representações fizeram dele um homem só. Assim, ali sentado, invadido pelas recordações de milhares de outras noites diante do espelho, começa a compreender que a sua vida separada de tudo, esta vida que egoísticamente defende como sua propriedade exclusiva, é a vida de todos. Um Palhaço só se serve a si mesmo como espelho do mundo. A boca larga e disforme, a lágrima presa no canto do olho, a distinção entre o pobre e o rico, é exactamente o quadro pintado de forma grotesca do que é na verdade a humanidade: - um riso, um coice e uma escada dirigida ao nada, apenas isso. “Por isso, é preciso demonstrar ao mundo que esta secreta existência que supostamente preserva a sua identidade, de forma alguma é vida, nada é de facto, nem mesmo a sombra de uma vida. O público precisa de se aperceber que no outro lado do seu espelho, não vive um palhaço, mas um homem, como eles mesmos, fazendo as mesmas coisas absurdas, insignificantes, necessárias que tantos outros fazem. Só assim, o mundo poderá encontrar a esperança, a felicidade e a plenitude dos dias. Esta noite não vai aparecer como Palhaço Pobre, mas como o homem que nunca ninguém ouviu falar. Estranho como todos vêm ao circo à procura de si próprios, mas basta um pouco de tinta gordurosa, um nariz falso, uns trapos carnavalescos para uma pessoa se transformar em ninguém. É o que nós somos – ninguém. E, ao mesmo tempo, toda a gente. “Não é a mim que eles aplaudem, mas a eles próprios. Aprendo agora, que, sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos, aquele último número mais perigoso que exige o rufar absurdo do tambor – deixarmos de ser o que não somos, para aprendermos a ser o que não queremos ser. “ O palhaço pensa então, em encarnar, não a pele do Palhaço Pobre, mas o próprio público. Levanta-se e, ao sair, olha-se no espelho, capta um débil simulacro de sorriso deslizando nos seus lábios. Fecha a porta sem ruído e, em bicos de pés, dirige-se para a tenda do Circo.

Enquanto caminha a passos largos em direcção do enorme recinto de lona, cantarolando baixinho, a ideia que momentos antes se apoderou dele, começa a tomar forma, cada vez mais distintamente. “Em vez de risos e aplausos receberás sorrisos. Pequenos sorrisos de satisfação – e é tudo. Mas é justamente o próprio tudo...mais do que alguém pode pedir. Ao colocares um espelho em frente do público, aliviarás as pessoas dos seus fardos. Isso torná-las-á felizes, mas a ti tornar-te-á ainda mais feliz.” Mal pode esperar pela entrada em cena, tão desejoso está de pôr o seu plano em execução. “Esta noite, darei um espectáculo como nunca se viu. Morrerá o Palhaço Pobre, para nascer um novo ser...um ser humano.”

E agora, senhoras e senhores; meninos e meninas! Para o vosso prazer e entretenimento, este Circo tem a honra de apresentar...o Palhaço Pobre!

Alguém envolto numa capa, entra com uma furiosa impaciência sob o foco do projector, acompanhado pelos guinchos do violino. A partir do momento em que os seus pés afloram a areia e a serradura da pista, deixa cair a capa (não premeditara qualquer acto, muito menos o ensaiara). Naquela pista, encontra-se um homem, nu, indefeso, velho, enrugado nas faces, peles descaídas, calvo, simples, erguendo sobre si um ar sonâmbulo. O público, porém, não ri e nem sequer sorri. A pouco e pouco, murmúrios vão quedando-se sobre as bancadas até formarem um grito selvagem uniforme. O público não gosta. Gritos, lama, pedras, urgem em direcção do palhaço transformado em homem. Bem pequena é a compreensão do público! Bem pequena é a compreensão de qualquer um quando o nosso destino está em jogo. É nesta raiva que o homem, se apercebe que ser palhaço é ser o peão no xadrez do destino. Na pista, a vida não passa de um mudo espectáculo feito de cambalhotas, bofetadas, pontapés – um nunca acabar de fintas e contra-ataques. O idolatrado palhaço! O bem-amado palhaço cujo privilégio especial consiste em reviver os erros, as loucuras, as idiotices, todas as incompreensões que afligem a espécie humana. Ele cometeu o erro de avançar para dentro do espelho, em vez de torneá-lo. “Meu Deus, e pensar que um homem pode armar tais ratoeiras a si próprio! Hoje muito feliz, amanhã miserável! Que idiota”. Porém, o público não para de querer agredir o homem, como se quisesse partir o espelho de si próprio. O palhaço convertido em homem, tenta sair da pista, mas por todo o lado vê o povo enraivecido. Ao ver o escadote, lança-se sobre ele, subindo freneticamente, e sem fôlego. Não demora muito a que este seja tomado por um estado de cansaço. Vê um anjo caminhar para ele – é o anjo da libertação. Vai lançar-se-lhe nos braços, quando uma nuvem escura o desequilibra e o derruba. Sem rede, e sem um gemido sequer, o homem e o palhaço caem, ambos, no chão de areia e serradura. Ouve-se uma prolongada explosão de risos. Os espectadores berram, batem os pés, assobiando. Ao ver o público a rir e a aplaudir, o mestre-de-cerimónias grita:

Senhoras e senhores! Meninos e meninas! Como é tradição neste Circo, o espectáculo tem de continuar! Que venham agora os ilusionistas...


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografia de José Marafona)

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março 27, 2005

SATANÁS- 5

O padre Ernesto, que esteve a rezar cerca de meia hora, levanta-se, benze-se e abre a porta do quarto para se dirigir ao escritório da casa sacerdotal. Irene, a jovem encarregada da limpeza e da cozinha, diz-lhe no corredor:
- A dona Esther já está à sua espera no escritório.
- Obrigado, Irene - responde o padre, apressando o passo e, por alguns instantes, os seus olhos detêm-se no corpo esbelto e voluptuoso da jovem.
Efectivamente, na salinha que faz as vezes de escritório, está uma mulher volumosa, de uns quarenta anos, vestida de preto e com os olhos injectados de sangue. Levanta-se para o cumprimentar.
- Boa tarde, padre.
- Boa tarde, filha, senta-te.
O sacerdote instala-se numa confortável poltrona diante dela, abre os braços e diz numa voz afectuosa e amigável:
- Bom, diz-me em que te posso ajudar.
A voz da mulher é apagada, ténue, muito fraca, revelando uma enorme fadiga e longas noites de insónia.
(...)
- Estou desesperada, padre, já não aguento mais.
- O que se passa?
Ela abre a carteira, tira um lenço creme e limpa as lágrimas.
- Aviso-o de que não quero que ninguém fique a saber disto, padre, não quero um escândalo, nem que a minha casa se transforme num foco de bisbilhotices e mexericos.
- O que me contares não sairá destas quatro paredes.
- Não quero andar por aí nas bocas do mundo.
- Bem, que se passa?
- Comigo nada, padre, é com a minha filha.
- Quantos anos tem ela?
- Acabou de fazer quinze. É uma beleza.
- Tem irmãos?
- Não, padre, é filha única.
- Tem uma boa relação convosco?
- Vivemos as duas sozinhas, padre. O senhor sabe como são os homens, vão semeando filhos e depois abandonam-nos sem que ninguém os condene.
- É uma rapariga ajuizada, sossegada?
- É um anjo, padre, se o senhor a visse... As freiras do colégio não se cansam de a elogiar.
- Então qual é o problema?
A expressão da cara da mulher transforma-se, ela abre os olhos, cora, franze a testa de uma maneira quase cómica, burlesca, e diz:
- As vozes, padre, as vozes...
- Que vozes?
- A minha menina está possuída por vozes que falam de coisas horríveis.
- Como?
- Pessoas malignas, espíritos do mal, padre, que falam através dos lábios da minha menina.
- Não a compreendo - diz o sacerdote, franzindo o sobrolho.
- É quase sempre à noite, quando se vai deitar. As pessoas entram dentro dela e começam a dizer obscenidades, a insultar, a prever factos terríveis.
- A senhora está a dizer-me que a sua filha está possessa?
- Por demónios, padre, por espíritos que vêm do inferno.
- Como é possível?- pergunta o padre Ernesto, agitando os braços e a cabeça negativamente.
- Sim, padre, tem de a ver com os seus próprios olhos.
- Já não existem possessões neste século, senhora. Tem de a levar a um hospital para que lhe façam exames neurológicos e psiquiátricos.

Chegam diante de uma casa colonial localizada no centro de uma ruela mal iluminada. Uma trepadeira cobre uma grande parte da fachada principal.
- É aqui - diz a mulher, metendo uma chave na fechadura de uma porta de madeira.
Assim que atravessa o umbral, o padre Ernesto sente o aroma delicioso de um conjunto de flores vistosas que brilham com a pouca luz que chega até ao jardim interior da residência. A seguir descobre o cheiro exalado pelas paredes, pelos tectos e pela madeira das portas e dos móveis que decoram o local. Reconhece esse odor porque é o mesmo que se respira em mosteiros e conventos, em museus, nas câmaras municipais rurais, nas velhas herdades esquecidas e em certos recantos da sua própria igreja quando desaparece o efeito dos detergentes e dos desinfectantes. Finalmente, quando vai subido as escadas que levam ao primeiro andar, o seu olfacto regista um cheiro nauseabundo e desagradável: o cheiro das canalizações subterrâneas, o das águas negras que viajam pelos esgotos interiores da cidade, um cheiro a fedores corporais acumulados, urina, excrementos, vómitos, sémen e fluxos menstruais. São tão intensas aquelas emanações que vêm de cima que o padre Ernesto sente um ardor no interior dos olhos. E é nesse momento que tem um pressentimento, um palpite, a suspeita de que uma presença anormal está com eles dentro de casa.
(...)
Dona Esther pára diante da porta de um dos quartos do primeiro andar, respira profundamente e diz:
- Vou deixá-lo sozinho com ela, padre. A esta hora já está deitada.

Ela volta-se e desce as escadas sem olhar para trás. O padre Ernesto abre a porta e respira um ar pestilento, húmido, como se estivesse a entrar de repente num buraco de imundícies, numa cloaca imunda ou num dos mais sujos recantos do inferno. Sente vontade de vomitar mas consegue controlar o seu corpo pouco a pouco, inspirando devagar com a boca semiaberta, descontraindo o corpo, acostumando-se às rajadas fétidas e pestilentas. Fecha a porta e senta-se na única cadeira que há no quarto. Na cama, deitada de barriga para cima, está a rapariga com uma camisa da noite branca que a cobre até aos tornozelos.
(...)
- Agrado-lhe, padre? - diz de repente uma voz aflautada, felina, e a jovem ergue as pálpebras deixando a nu uns cintilantes olhos azuis.
- A tua mãe quer que conversemos.
- Não respondeu à minha pergunta.
- És muito bonita - garante o padre com calma, sem grande convicção, tirando importância ao que está a dizer.
- Deseja-me?
- Não vim ofender-te, filha.
- Sei que lhe agrado, padre, que quer tocar-me, acariciar-me.
- Estás enganada.
- Aproveite padre, toque-me onde quiser.
- Não me insultes dessa forma. Lembra-te que sou um sacerdote.
Ela sorri com uma careta perversa e a voz que o padre Ernesto ouve a seguir é grossa, varonil, como se um homem adulto tivesse acabado de entrar no quarto e estivesse também na cama, junto dela.
- Qual sacerdote qual carapuça, cão lascivo, verme asqueroso.
Um arrepio percorre as costas do padre Ernesto de cima a baixo.
- Pensas que não sei quem és? Achas que me vais enganar com os teus sermões piedosos? Olha o que vou fazer para ti, porco.
A rapariga levanta a camisa da noite até ao umbigo, mete a mão numas cuecas pequenas e insinuantes e acaricia o sexo com os dedos da mão direita.
- Preciso de um homem, padre - a voz torna a ser a de uma jovenzinha delicada.
- Já chega - diz o sacerdote com a voz agitada.
Ela tira a mão e explode numa gargalhada grotesca.
- Eu sei quem és, porco - continua a dizer a mesma voz.
- Não sei de que estás a falar - afirma o sacerdote transtornado, enjoado, com o estômago agitado.
- O pedacito de carne que tens entre as pernas dá-te trabalho, hã?
- Cala-te!
- Por aí ofendes a tua fá, hã?... Cabrãozinho libidinoso...
(...)
A voz grossa volta a surgir e termina dizendo:
- Filho da puta, criminoso, és um cachorro cheio de pecados.
O padre Ernesto não aguenta mais, levanta-se e, com um salto, chega até à porta, abre-a e sai do quarto com falta de ar, chorando. O pior é que, ao fechar a porta, repara numa forte erecção que lhe levanta as calças e que as avoluma de uma forma vergonhosa, contra a sua vontade.


(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas de Debates. Fotografias: William Ropp)


Com este post concluo a apresentação de excertos de "Satanás". Espero que tenham gostado e que as minhas escolhas tenham sido suficientemente significativas para vos atrair para a leitura integral da obra. Um abraço a todos :)

Publicado por void em 04:21 PM | Comentários (2) | TrackBack

SATANÁS- 4

A campainha do telefone arranca Andrés das suas reflexões. Deixa a gravura em cima da secretária e levanta o auscultador:
- Está?
- Andrés?
- Sim, sou eu.
- É a Angélica.
- Olá, tudo bem?
- Preciso de te ver - diz ela com a voz num sussuro.
- Agora?
- Podemos conversar esta tarde?
- Não pode ser amanhã?
- É urgente.
- Aconteceu-te alguma coisa?
- Preciso de falar contigo.
- E tem de ser hoje?
- É muito importante, Andrés.
- Okay, diz-me onde.
- Na bilheteira do teleférico que sobe até Monserrate.
- Monserrate hoje?
- É um sítio tranquilo, sem gente, sem carros. Tenho de te contar uma coisa muito importante.
- A que horas?
- Achas bem às três?
- Combinado, às três na bilheteira.
- Não faltes, Andrés.
- Oiço-te como se fosse uma chamada de longa distância. O que te aconteceu?
- Prefiro dizê-lo pessoalmente.
- É grave?
Entre gemidos e suspiros ouve-se a voz longínqua dela:
- Muito.
(...)
Uma chuvinha começa a cair sobre a cidade às duas e meia da tarde. Andrés vai num táxi pela Avenida Circunvalar, contornando as montanhas, e observa as gotas de água batendo contra os vidros do carro. Interroga-se sobre que diacho terá acontecido a Angélica e deseja intimamente que não seja uma situação irremediável, mas antes um sofrimento passageiro, uma prova que depois de superada não deixa marcas indeléveis nem sequelas destrutivas. Às duas e cinquenta paga o que indica o taxímetro e desce diante da bilheteira do teleférico de Monserrate.
Angélica está à espera dele sentada nas escadas da antiga estação. Assim que o vê, atira-se a ele e abraça-o sem o largar, como se fossem enviá-los para países diferentes e estivessem a despedir-se nas partidas internacionais do aeroporto. Ele afasta-a um pouco para lhe dar um beijo e é nessa altura que descobre os pontos violáceos na cara dela. São manchas pequenas, minúsculas mas bastante visíveis, como se a pele manifestasse os rigores de uma varicela ou de um sarampo.
- O que te aconteceu? - pergunta-lhe sem a beijar.
- É disso que te quero falar.
(...)
Um longo silêncio augura uma mudança no rumo da conversa. Angélica pergunta de chofre:
- Porque me pintaste daquela maneira?
- Referes-te ao retrato?
- Sim.
- Não sei.
- Mas porque me pintaste como Proserpina nos infernos?
- Não sei, Angélica, pareceu-me ver em ti algumas parecenças com o quadro de Rossetti e quis prestar-lhe uma homenagem.
- Não estás a ser sincero comigo. Isto é muito importante para mim, não me evites. Diz-me por que apareço no Hades com as faces picadas e carcomidas.
- Não sei, juro-te...
- Tu não querias pintar-me.
- Não.
- Porquê?
Andrés apercebe-se da angústia que aflige Angélica, da necessidade que tem de uma resposta sincera e transparente. Não se pode furtar a isso e responde:
- Há algumas semanas fiz um retrato do meu tio Manuel. Pintei-o com algumas malformações na garganta. Telefonou-me passados alguns dias dizendo-me que tinha um tumor cancerígeno muito avançado precisamente nessa zona. Está em tratamento mas não melhora. O mais certo é morrer rapidamente.
- E porque o pintaste assim?
- Não sei, Angélica, sinto-me como se estivesse num pesadelo, é uma força irracional que de repente se apodera de mim, como se estivesse em transe, possesso, invadido por imagens que se impõem na tela. Tive tanto medo que nunca mais quis voltar a fazer retratos.
- Por isso não querias pintar-me.
- Sim.
- E por isso ficas com febre e adoeces.
- O desgaste deixa-me prostrado.
Angélica passa as mãos pelo cabelo, observa-o de soslaio e pergunta-lhe:
- O que sentiste quando estavas a pintar-me?
- A mesma coisa, vi-te com olheiras, cheia de chagas e o pincel encarregou-se de dar forma, na tela, a essas visões.

(...)

- Tenho de contar-te uma coisa muito grave - diz-lhe Angélica. Ele observa-lhe a pele da cara manchada pelos pequenos pontos que a desfiguram.
- Diz.
- As borbulhas que tenho são uma doença que se chama Molusco Contagioso.
- O que é isso?
- É uma doença de pele.
- Mas tem cura, imagino.
- Não é essa a questão.
- Não compreendo.
(...)
- Explica-me por que razão não é importante curar-se - insiste Andrés baixando a chávena e colocando-a na mesa.
- Porque o Molusco Contagioso é apenas uma manifestação de uma doença muito mais grave.
- Como assim?
Ela deixa de lado o café e diz em voz baixa:
- Fiz alguns exames e tenho sida, Andrés.
Angélica baixa a cabeça e limpa as lágrimas com a mão. Andrés continua a sentir que não está na realidade, mas num pesadelo do qual desajaria acordar quanto antes.
- Tens a certeza?
- Fiz um segundo exame e também deu positivo.
- E sabes desde quando és seropositiva?
- Não.
- Isso significa que também posso estar contagiado.
- Nós usámos sempre preservativo, lembras-te? - diz ela, deixando de chorar e assoando o nariz com os guardanapos da mesa.
- Então?
- Creio que foi depois, Andrés.
- Com quem estiveste durante este tempo?
- Esse é o problema - Angélica continua a falar num tom de voz muito baixo, quase em segredo.- Quando acabámos a nossa relação senti que ia morrer, não queria fazer nada, nem sequer levantar-me da cama. Mas depois odiei-te, senti que me tinhas ferido injustamente.
- Não foi isso, Angélica.
- Eu sei, eu sei, mas foi o que senti nessa altura. Quis vingar-me. Então comecei a ir para a cama com um e com outro. Ia a todas as festas e acabava na cama com o primeiro que mo propusesse. Como estava a tomar anticoncepcionais era-me indiferente que o tipo usasse preservativo ou não. A maior parte das vezes estava bêbada ou drogada. Cheguei a estar com dois ou três homens no mesmo dia.
Andrés suspira sem dizer nada. Ela conclui:
- Fui também para a cama com vários estrangeiros. Julgo que foi um deles que me contagiou.
Soam os sinos da igreja. Andrés ouve aquele ruído metálico atravessar o ar invernoso da tarde e sente, num instante revelador, que é novamente dono de si próprio, que chegou finalmente à realidade.


(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas de Debates. Fotografia de William Ropp)

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março 26, 2005

SATANÁS- 3

Maria chega à rua e percorre alguns quarteirões até à avenida principal. Estica o braço e um taxi pára junto dela para a recolher. Abre a porta traseira e senta-se com os joelhos unidos e com a carteira no colo.
- Para a Carrera Quince com a Calle Setenta y Seis, por favor.
- Claro, boneca - diz uma voz amável e juvenil.
Fecha a porta do taxi e observa pela primeia vez o aspecto do taxista. É um homem de uns vinte e quatro anos, com uns jeans e uma camisola de algodão desportiva, que a observa de vez em quando através do espelho retrovisor. Maria apercebe-se de que a cadeira do co-piloto está inclinada para a frente, permitindo ao passageiro esticar as pernas à vontade.
O taxi roda pela Avenida Diecinueve em direcção ao Sul. No semáforo da Calle Cien, em vez de voltar à esquerda para se dirigir à Carrera Once, o condutor volta à direita, na direcção da Auto-Estrada Norte.
Maria repara no engano:
- Para onde vai?
- Vou pela auto-estrada.
- E porque não vai pela Carrera Once?
- Por aqui é mais rápido.
(...)
O taxi passa a Calle Noventa y Dos e segue em frente. O homem conduz a uma velocidade média, sem pressa, como se gozasse da tensão crescente que se sente dentro do automóvel.
- És muito pouco conversadora, boneca.
- Tenho pressa.
- São assim as meninas ricas, não gostam de falar com os pobres.
- Eu não sou nenhuma menina rica.
- Deixe-se de tontices, lourinha - a voz é agora agressiva, dura, intimidativa. - Se fosse pobre não andaria na farra na Zona Norte, nem viveria onde vive, nem usaria a roupa que usa.
- Engana-se...
- Cale a boca, lourinha, que estou a ficar com mau génio.
- Faça o favor de parar. Vou sair.
- Ah sim?
- Pare aqui, por favor.
- Você julga que pode dar ordens. Não maninha, enganou-se. Aqui quem dá as ordens sou eu.
A determinada altura, o banco do passageiro levanta-se e, da parte dianteira do carro, um homem que estava agachado e bem escondido aparece como por magia e por artes de prestidigitação. É da mesma idade do condutor e tem uma navalha na mão direita.
- O que é isto? - pergunta Maria com o coração a bater aceleradamente.
- Surpresa - diz o homem com uma voz esganiçada - , eu sou o coelho que estava dentro da cartola.
(...)
O carro atravessa a Carrera Treinta, a Avenida Sesenta y Ocho e a Avenida Boyacá e pára num descampado, nos arredores de Bogotá. O condutor desliga o motor. O silêncio da noite é total. Um ou dois carros ocasionais ouvem-se de vez em quando ao longe. O co-piloto ordena:
- Vamos para baixo, loirinha.
Maria sente que as pernas não lhe respondem muito bem. O medo mantém-na paralisada, com os músculos imóveis e entorpecidos.
- Não ouviu, loirinha? Acorde.
Acaba por conseguir abrir a porta e sair do carro desajeitadamente. Em pânico, observa os números da matrícula pintados num dos lados do taxi. Os dois homens saem sorridentes e aproximam-se esfregando as mãos. O que vinha a conduzir tira uma moeda e pergunta ao outro:
- Cara ou coroa?
- Coroa - responde o da navalha.
A moeda dá voltas no ar e cai na palma da mão do condutor.
- Cara - diz este. - Calha-me a mim primeiro.
Aproxima-se de Maria e ordena-lhe:
- Vamos, meu amor.
- Por favor, não me façam mal.
- Vamos - torna a dizer o homem, empurrando-a até a deixar reclinada no banco traseiro do carro. Senta-se ao lado dela e fecha a porta.- Vamos, tiro-lhe a blusinha para agarrar nessas tetas.
- Peço-lhe.
(...)
Tira o casaco com brusquidão, dá um puxão, rasga-lhe a blusa e atira-a para o chão do carro, puxa o soutien para cima e começa a beijar-lhe e a acariciar-lhe os seios, respirando como um animal.
- Que par de tetas tão boas, bonequinha.
Maria não consegue mexer-se nem dizer nada. Vê o homem beijá-la e apalpá-la mas não sente nada, é como se o seu corpo pertencesse a outra mulher e ela estivesse a presenciar a sua violação.
(...)
Despe-se rapidamente e, com o membro erecto, inclina-se sobre o corpo de Maria.
- Abre as pernas, bonequinha.
Separa-lhe as pernas à força e penetra-a violentamente, com a respiração entrecortada, como se estivesse a afogar-se. Repete como um autómato enquanto mexe as ancas de cima para baixo:
- Puta, puta, puta...
Maria não sente nada. Olha para o tecto do carro com o olhar perdido, alheado, desligado da realidade. O homem emite um longo gemido, fica imóvel um instante e senta-se de novo junto ao corpo da rapariga. Nessa altura repara nas manchas de sangue nas pernas dela, no banco, no seu pénis - agora flácido - e nos testículos.
- Meu amor, não me disseste que eras virgem.
Veste-se e abre a porta do carro. O homem da navalha está encostado à mala, passando a navalha de uma mão para a outra.
- Mano, a bonequinha era virgem.
- Sim?
- Tirei-lhe os três, imagina a delícia.
- Deixa passar, mano, que agora é a minha vez - diz o co-piloto, entrando no carro de sopetão.
Fecha a porta, pousa a navalha no chão e tira a roupa sem dizer uma palavra. Agarra Maria pelos ombros e dá-lhe a volta, pondo-a de barriga para baixo.
- Vou tirar-lhe a outra tampa, boneca, a do cuzinho.
Afasta as nádegas avantajadas de Maria com a mão esquerda, agarra no membro com a direita e mete-o pouco a pouco pelo ânus dela até o sentir bem aberto e dilatado. Não chega a durar cinco segundos e ejacula com os olhos fechados. É um acto rápido, prematuro. Maria chora com a cara afundada no banco. O tipo levanta-se, veste-se, agarra na navalha, dá uma palmada no traseiro de Maria e diz-lhe:
- Obrigado por esse rabo, boneca.
Sai do carro e dirige-se ao seu companheiro:
- Despachado, mestre.
- Que tal? - pergunta-lhe o condutor, aproximando-se.
- Bom, fui-lhe ao cu.
- Outra que perdeu a virgindade.
- Sim, mano, ficou a sangrar pela frente e por trás.
- Missão cumprida, vamos.
Fazem sair a sua vítima e deixam-na jogada no prado com a roupa junto dela. O táxi desaparece na escuridão.
Um vento frio e gelado obriga Maria a voltar a si. Veste-se com as mãos rígidas devido à baixa temperatura e calça os sapatos. Uma dor aguda, tenaz, percorre-lhe o corpo todo. Andando com dificuldade, aproxima-se da avenida para pedir ajuda. Lá em cima, no céu, uma lua cheia ilumina a noite como se fosse um refractor gigantesco rompendo as trevas.


(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas e Debates. Fotografia de William Ropp)

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SATANÁS- 2

- Tenho medo, padre.
- Porquê?
- Estou a enlouquecer.
- Que se passa?
- Tenho pensamentos atrozes.
- Conta-me.
- Não tenho perdão.
- Deus é infinitamente misericordioso, filho, o seu perdão não tem limites.
A igreja está vazia, sem o ruído de passos e de murmúrios provocado pelos paroquianos ao longo da nave central. Uma luz ténue entra pelos vitrais do tecto e espalha-se em brilhos multicolores que dão ao lugar um ar de irrealidade, como se se tratasse de uma imagem onírica, sonhada, e não de objectos e de lugares palpáveis e reais. O padre Ernesto está sentado no confessionário e a voz que lhe chega revela angústia e desespero, noites de insónia, medo de si próprio, uns nervos prestes a explodir e uma mente que roça o delírio e a demência de forma perigosa. (...)
- Confia em Deus, filho.
Ouve-se do outro lado uma respiração entrecortada, afogada, difícil. Finalmente, o homem decide falar:
- Não sei o que me passa pela cabeça, padre, não me reconheço, este não sou eu.
- Conta-me pouco a pouco.
(...)
- Tudo começou com a perda do meu trabalho, padre. Fiquei sem emprego e foi-me impossível encontrar outro, os meses passam e nada, não havia uma vaga em lado nenhum, algumas horas de trabalho, uma colocação temporária, nada. Perdemos o apartamento onde vivíamos e penhoraram-nos os móveis, a roupa, os electrodoméstivos, tudo. Fomos viver para casa dos pais da minha mulher com as duas meninas. Pode imaginar o que foi aquele pesadelo, as brigas, as discussões, as lutas de manhã à noite.
- Sim, filho, compreendo.
- O meu sogro morreu e toda a família dizia que tinha sido por nossa culpa, que o venho tinha morrido porque já não aguentava. Passado um mês, morreu a minha sogra de tanto desgosto. A minha mulher disse-me no dia do funeral: "Tu mataste-os, deixaste-me órfã."
- Frases que se dizem por impotência, filho, com zanga e irritação.
- Depois veio a fome, padre, a fome física, as dores de estômago das minhas duas filhas, a anemia, a desnutrição, as constipações recorrentes, a falta de sono. A minha mulher disse que não pensava deixar morrer as filhas de fome e foi para a praça do mercado mendigar, apanhar do chão frutos podres, verduras esmagadas, pedaços de pão esquecidos.
- Sinto muito, filho.
- E agora cheguei ao limite, padre. Tenho sonhos que me visitam até de dia, assim que fecho os olhos. Quero libertar a minha mulher e as minhas filhas do sofrimento, não desejo mais dor para elas.
- Acalma-te.
- Quero matá-las, padre. Vejo-as a toda a hora manchadas de sangue, esfaqueadas pela minha mão. Cheguei a passear pela casa durante a noite, tremendo, febril, invadido pela vontade de matar. Entende-me, padre?
- Não te assustes, filho. Deus não permitirá uma coisa dessas.
- Quero assassiná-las, padre, mas por amor, porque não quero que continuem a sofrer desta maneira. Tenho de as ajudar, de as libertar deste horror.
- Vamos rezar juntos, filhos, vamos pedir por ti e pela tua família. Deus ouvir-nos-á.
O padre Ernesto entoa uma prece e depois repete um Pai-Nosso e uma Ave-Maria acompanhada pela voz do homem. Depois pergunta:
- Estás arrependido, filho?
- Não sei, padre, não sei se estou arrependido. Já lhe disse que tudo o que me vem à cabeça é por amor.
- Para que Deus te perdoe, tens de estar arrependido.
- Pois...

(...)

O que precisa fazer é arranjar quanto antes um trabalho àquele homem, seja no que for, e, entretanto, recorrer aos fundos de emergência da igreja e da caridade alheia para arranjar um sustento que permita às suas duas filhas, à mulher e a ele próprio, alimentar-se e recuperar da inanição e da doença. Depois será muito mais fácil derrotar aquela força maligna que se apoderou do seu espírito, aqueles instintos criminosos disfarçados de bondade e benevolência.
Uma mulher obesa que vem a subir pela mesma rua levanta a mão direita pedindo-lhe para parar e diz-lhe com a voz alarmada e inquieta:
- Que sorte encontrá-lo, padre.
A expressão faz o padre Ernesto sorrir.
- A mim?
- Sim, padre.
- E pode saber-se porquê?
A mulher recupera o fôlego e diz-lhe:
- Estão à sua procura por toda a parte Acaba de me dizer a minha filha.
- E quem precisa de mim com tanta urgência?
- As pessoas estão reunidas na igreja.
- A missa é só às sete - diz o padre Ernesto, perplexo.
- Estão à sua espera há uma hora.
- Mas o que aconteceu?
- É melhor ir depressa, padre.
(...)
O padre Ernesto passa por entre o povo sem cumprimentar ninguém e entra na igreja com a suspeita de saber quem o espera dentro do recinto sagrado. Ajoelhado diante do altar com a cabeça inclinada sobre o peito e com uma faca ensaguentada no chão a poucos centímetros dele, um homem magro e encurvado parece estar a afogar-se na torrente do seu próprio pranto.


(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas de Debates. Fotografia de William Ropp)

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março 25, 2005

SATANÁS- 1

Com um espírito avesso à época do ano em que nos encontramos (ou, provavelmente, até não, dependendo do ponto de vista) trago-vos hoje, e até Domingo (inclusive), excertos de um livro muito recentemente saído no mercado: "Satanás", da autoria do colombiano Mario Mendoza (n. 1964, Bogotá), com edição da responsabilidade da Temas e Debates. Um livro que inaugura a colecção "Radiografias", cujo objectivo é divulgar obras que, através da ficção, apresentem os grandes problemas da sociedade contemporânea.
Tendo como cenário a cidade de Bogotá (capital da Colombia), "Satanás" debruça-se sobre a presença do Bem e do Mal na passagem dos dias, que nada mais é do que a sua concretização na passagem dos tempos e, directamente, na vida dos indivíduos. Nesta dupla vertente, o Mal impõe-se de forma brutal, engolindo tudo e todos, mesmo quando parece haver algum raio de esperança ou o acreditar que o melhor é possível. Uma existência/presença que envolve... que vai envolvendo até ao sufocar e carcomir dos seres humanos. Uma presença (que é "a" presença) que transtorna psiquicamente, que manipula, que vira do avesso, que desracionaliza na senda constante do enegrecimento individual e paralela/consequentemente colectivo.
Ao longo da estória, que se pode desdobrar em várias estórias confluentes para um final comum, temos um olhar sobre quatro personagens (principais): Maria, Andrés, padre Ernesto e Campo Elias.
Convém referir que Campo Elias (46 anos, na altura), um antigo colega de faculdade do autor (22/23 anos, tb na altura), foi o móbil para a elaboração desta obra. E quem foi? Um indivíduo que a 4 de Dezembro de 1986, assassinou 29 pessoas em vários pontos de Bogotá. O que aconteceu marcou profundamente Mendoza, sendo que durante vários anos amadureceu a ideia de construção de um romance, o qual, só viria a ser concluído já neste novo século.
"Satanás" foi galardoado com o Prémio Biblioteca Breve 2002.

Os excertos que se seguem procuram, pois, dar a ideia global do grande tema ou da grande preocupação subjacentes ao livro através, sobretudo, de reflexões desenvolvidas. Aqueles que se seguirão no Sábado e no Domingo, incidirão sobre situações concretas onde o tal Mal está presente quer através de vontades, quer através de práticas, ou seja, em contextos envolventes aos indivíduos ou já no seu interior, conduzindo-os irremediavelmente.
Já li o livro na totalidade. É extremamente forte, vertiginoso, hipersensorial. Violento. É devorável. Aconselho vivamente a sua leitura integral. Acreditem: absolutamente a não perder.

DIÁRIO DE UM FUTURO ASSASSINO

20 DE OUTUBRO: Esta manhã, a minha aluna particular de Inglês surpreendeu-me com um comentário engenhoso. É uma jovem de catorze anos. Estou a ensinar-lhe o idioma recorrendo ao romance de Robert Louis Stevenson, O Estranho Caso do Doutor Jekill e Mister Hyde. Com o livro nos joelhos disse-me:
- O senhor gosta muito deste livro.
- Sim - reconheci.
- Não mo deu para ler apenas para me ensinar inglês, não é verdade?
- Não entendo.
- Há mais qualquer coisa. - Sorri para comigo. Ela continuou: - A história de Jekill é a de qualquer homem.
- Achas?
- A sua, a minha, a de qualquer pessoa.
- Como?
- Somos anjos e demónios ao mesmo tempo. Não somos uma única pessoa, mas uma contradição, uma complexidade de forças que lutam dentro de nós.
- Talvez sim.
- Somos cobardes e heróis, santos e pecadores, bons e maus. Tudo depende dessa luta, não acha?
- Sim, se calhar - disse, espantado por ouvir uma opinião tão inteligente numa rapariga daquela idade.
- Eu acho. O bem e o mal não existem separados, cada um por seu lado, mas unidos, colados. E às vezes confundem-se.

CÍRCULOS INFERNAIS

Sentado no escritório à mesa de trabalho, o padre Ernesto folheia os recortes de imprensa que guarda numa pasta de estudante, arquivados durante anos numa sequência maldita e nefasta que cobre o último decénio. Trata-se de uma série de artigos, de pequenas notas de jornal ou de fotografias que lhe chamaram a atenção e que mostram a decomposição gradual do mundo. Com a mão direita levanta uma das folhas e detém-se na fotografia de um rapaz de uns dezassete anos que olha para a máquina com uma cara de miúdo assustado enquanto três polícias altos e corpulentos tentam algemá-lo. A legenda da fotografia diz: "Três revólveres, cinco caixas de munições, um lança-foguetes e sete obuses de morteiro foram encontrados na casa de César Padilha, um estudante do sexto ano do secundário. Face às perguntas dos investigadores, o jovem Padilha afirmou: "Só queria estar preparado para qualquer eventualidade."
(...)
O padre Ernesto passou mais algumas páginas e detém-se na fotografia de uma rapariga loura de dezoito ou dezanove anos que é levada com os pulsos algemados por uma patrulha da Polícia. O rosto da jovem está calmo, repousado, em paz. Ao lado da fotografia, a redacção do jornal explica: "A adolescente Carmen Romero manteve os pais amarrados e a pão e água durante catorze dias na cave da casa onde viviam os três. No último minuto, quando ouviu a chegada de vários agentes da Polícia, Carmen estrangulou os progenitores com as próprias mãos. Os cadáveres mostravam contusões, queimaduras e fracturas quer nas extremidades superiores quer nas inferiores, o que comprova que o casal foi brutalmente torturado pela sua própria filha no decurso das duas semanas de detenção. Ao ouvir um dos polícias, impressionado com a cena, comentar "isto é uma loucura", Carmen Romero rompeu o silêncio e afirmou: "Loucos eram eles, não eu. O meu pai começou a violar-me desde criança com a cumplicidade da minha mãe, que o permitiu sem dizer nada. Muitas vezes ele sujeitou-me à força de pancada e de pontapés e ela nunca me protegeu, nunca impediu as agressões. Eles sofreram duas semanas. Eu sofri por mais de dez anos."
Noutro recorte, em letras de imprensa, aparece a seguinte notícia: "A enfermeira Conchita Rubio foi detida no lar de terceira idade El Abuelo Feliz por ter envenenado mais de catorze idosos. Ao ser interrogada por este jornal, a enfermeira defendeu-se argumentando que o fizera por compaixão, comovida pela triste situação dos pacientes. "A maior parte deles passa o tempo a chorar, sentindo saudades dos filhos e dos netos. Achei que a morte era uma saída decente para eles", disse a senhora Rubio."
Na última folha o sacerdote reconhece a sua própria letra. É uma citação de Louis J. Halle copiada à mão com o pulso trémulo: "Prevejo a extensão de uma desordem contínua, com o seu cortejo de desumanidade e a sua tendência para uma bestialidade crescente. Prevejo a barbárie."
O padre Ernesto aproxima-se da biblioteca e tira dois livros de uma das estantes: El enigma de las brujas, de Frei Leopoldo Santos e Las huestes de Satán, de Ezequiel Bautista. Leva-os até à secretária e procura no primeiro os processos de feitiçaria correspondentes à zona de Carcassonne, Toulouse, entre 1330 e 1340. Se bem se recorda o sacerdote, várias das feiticeiras capturadas expõem ali nas suas declarações o triunfo certo de Satanás e o seu reinado definitivo sobre o planeta. Com efeito, no capítulo IV, Frei Leopoldo Santos transcreve páginas inteiras dos documentos originais. Examinando as linhas com uma atenção exagerada, o padre Ernesto encontra finalmente um dos parágrafos desejados:

Ana Maria de Georgel manifestou em seguida que, durante o longo decurso dos anos passados desde a sua possessão até ao seu encarceramento, nunca deixou de praticar o mal e de se entregar a práticas abomináveis, sem que o temor a Nosso Senhor a detivesse. Assim, cozia caldeirões, sobre um fogo maldito, ervas envenenadas, substâncias extraídas quer dos animais, quer de corpos humanos que, numa horrível profanação, ia arrancar ao repouso da terra santa dos cemitérios, para se servir deles nos seus feitiços; vadiava durante a noite em volta das forcas patibulares, quer fosse para tirar tiras das vestes dos enforcados, quer fosse para roubar a corda onde estavam pendurados, quer para se apoderar dos seus cabelos, unhas ou gordura.
Interrogada acerca do símbolo dos Apóstolos e acerca da crença que os fiéis devem à nossa Santa Religião, respondeu, como verdadeira filha de Satanás, que existia uma completa igualdade entre Deus e o Diabo, que o primeiro era rei do Céu e o segundo da Terra; que todas as almas que este acabava por seduzir estavam perdidas para o Altíssimo e que viviam eternamente na Terra, passando de um corpo para outro através dos séculos, danificando, maltratando, corrompendo e fazendo sofrer as outras almas atormentadas. Ao perguntarem onde ficava, nesse caso, o Inferno, a bruxa respondeu que a Terra e o Inferno eram uma e a mesma coisa, local de padecimento e de dor, recanto de desdita, paragem de infortúnio, recinto de desgraça e miséria.

O padre Ernesto sente as frases como navalhas, como vidros cortantes que lhe abrem o pensamento. As palavras da mulher ajustam-se na perfeição às sensações que o vêm invadindo há semanas e que o impedem de viver com tranquilidade e de desempenhar satisfatoriamente as suas funções de sacerdote. O triunfo do mal. Porque não? Não bastava uma caminhada pela cidade para nos darmos conta de que estamos a deambular entre círculos infernais? Não eram os rostos dos mendigos, dos loucos, dos solitários, dos prisioneiros, dos suicidas, dos assassinos, dos terroristas, dos esfomeados, testemunhos claros do reino das sombras? Recinto de desgraça e de miséria. Sim, era assim, sem dúvida.
(...)
Dirige-se para o centro da cidade com a cabeça a transbordar de ideias, pensativo, sem se aperceber das pessoas e dos carros que se misturam à sua volta numa desordem inexplicável. O triunfo do mal. Porque não? A destruição do planeta, o capitalismo selvagem, a xenofobia acelerada... Mesmo pensando nos próprios dignitários da Igreja que tentaram extirpar os sabat e os vínculos demoníacos de uma sociedade sufocada e em crise permanente, a hipótese de uma maldade crescente confirmava-se. Porque a Inquisição e o Santo Ofício o que foram, senão organizações criminosas e assassinas? Potros de tortura, ferragens, cordas, facas e máquinas abomináveis eram as provas irrefutáveis de uma Igreja doente e delirante que continuava a promover e acrueldade e a violência no interesse de uma moralidade inexistente. Uma Igreja cuja misoginia saltava à vista quando decretava que "por um homem, dez mil mulheres", referindo-se ao facto de, por cada varão que tiveram de sacrificar ou torturar, assassinariam ou maltratariam dez mil mulheres. Porquê? Porque elas representavam a luxúria e a concuspiscência, eram elas que procuravam o sexo e a satisfação do corpo a todo o custo. A velha história do punhado de celibatários que têm pânico do clítoris e sonham extirpá-lo e fazê-lo desaparecer. Não havia dois bandos opostos, os bons e os maus, mas um grupo apenas cerrando fileiras em redor do ódio, da sevícia e da monstruosidade. O triunfo total e pleno da maldade. Não era uma suposição tão absurda.

(Mário Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas e Debates. Fotografias de William Ropp)

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março 24, 2005

O LADO DA MORTE (OU NELA... OU COM ELA...)

[deste lado da morte ninguém responde]

fazia nós no outono. o eco genital de Deus a abrir avessos. um sangue muito branco falava na água da pele. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondia.
árvores todas caiam os braços. o deserto escorria no lugar da pele. um lençol cheio de silêncio respondia pelo mundo. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondeu.
o dia não sabia se existia. uma canção de barco abria feridas no tempo. as janelas diziam dezembro, dezembro, e a primavera tinha sido ontem por fora. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém responde.

morte que tens o nome dos meus dias: saberás ler em sangue ou em sânscrito? que desespero corpo precisas para te abrir os ouvidos de tempo? que perguntas batem na tua pele de silêncio, mais altas que as línguas que cantavam os que tens no seio?
morte que tens o nome dos meus dias: é tarde demais para mim; não tenho sonhos para tu levares, nem água nenhuma me pesa os ossos mais do que sede. o que pode vencer-te, guardas nos teus braços - o que guardei nos meus braços, e partiu porque nunca me pertencia.
morte que tens o nome dos meus dias: apenas o teu eco responde pelo visível. as escarpas do mistério, demasiado luz, não têm palavras para me rasgar. tudo o que tenho está na tua língua, e à porta do século que abriste, o batimento das sombras ensurdece o mar onde respiro.
morte que tens a forma dos meus dias, o nome por onde sigo: ouves o corpo que contigo se deita, lua depois de lua, e grita branco o teu sono? a bordo deste texto segue uma mentira, de carne rebentada de silêncio. ouve-me antes que seja tempo demais para que eu não te ame.
do outro lado dos meus dias, vejo-te: somos só um, atravessando palavras enquanto nascem Deus e o seu tempo; dos meus ossos uma música traz os minutos todos como um fogo. arde comigo, antes que o esquecimento, que tu ignoras, nos separe.
morte, minha materna morte: faz-me o poema onde aprenda a morrer. e, num texto corpo de silêncio, cria comigo o amor.


(Pedro Sena-Lino- DESTE LADO DA MORTE NINGUÉM RESPONDE. Quasi Edições. Fotografias de José Marafona)

Publicado por void em 06:58 AM | Comentários (3) | TrackBack

março 23, 2005

INSTANTES DE... "CARAS BARATAS" (2)

No passado dia 16 editei o primeiro conjunto de poemas de Adília Lopes, com a garantia de não ficar por ai. E eis-me aqui com ela de novo. Apenas alguns dias depois. Não muitos, só alguns. Relativamente à autora, nada mais vou acrescentar à introdução já feita nesse mesmo post. Hoje, tão só, remeto-vos para a leitura dos poemas que se seguem. E mais uma vez o faço entusiasticamente, na medida em que a poesia de Adília, pelas particularidades inerentes, a isso (me) leva.

Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo


À medida que a paixão
acabava
o cabelo dela ia ficando
por lavar
usou um chapéu
mas a partir de certa altura
meu amor
não foi suficiente um chapéu.


BODY ART?

Com os remédios
engordo 30 Kg
o carteiro pergunta-me
para quando
é o menino
nos transportes públicos
as pessoas levantam-se
para me dar o lugar
sento-me sempre

Emagreço 21 Kg
as colegas
da Faculdade de Letras
perguntam-me
se é menino
ou menina

No metro
um rapaz
e um velho
discutem
se eu estou grávida
o rapaz quer-me
dar o lugar

Detesto
o sofrimento


Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa


É preciso pensar
em tudo
dos preservativos
às panelas
e há mesmo quem
nos preservativos
veja já as panelas
pensa-se de mais
e não se pensa
de facto


(Adília Lopes- Caras Baratas. Antologia. Edição: Relógio D'Água. Fotografia de Urs Kahler)

Publicado por void em 06:43 AM | Comentários (4) | TrackBack

março 22, 2005

EM CENA: AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT (2)

Segue-se o segundo excerto da peça "As lágrimas amargas de Petra von Kant", da autoria de Rainer Werner Fassbinder, ontem anunciado. Um excerto que é aquele por mim escolhido para vos mostrar as grandes linhas orientadoras da relação entre Petra e Karin. Uma relação onde uma suposta "dominadora", afinal, não o é. Uma relação onde, pensando em termos de "domínio" e "submissão", há uma clara inversão de papéis. Petra fica emocionalmente dependente. Petra não se consegue libertar de pensamentos de põem em causa o fluir inquestionável da relação. Petra quer saber mais. Petra quer mais cumplicidade. Petra quer maior fusão. Petra deseja uma fusão real. Uma fusão efectiva. E por isso sofre. Sofre porque sente que algo (que é, afinal, muito) lhe escapa. Sofre porque não tem garantias. Sofre porque não consegue suportar a "anarquia" (?) emocional "imposta" por Karin. Sofre por aquela que é a liberdade vivida por Kartin. Pela inexistência de magnetismo vindo dela. E desmorona. E desmorona-se como pessoa. Fica presa. Enclausurada no interior de si numa luta tremenda com os seus sentimentos.
Estamos, de facto, perante uma relação que pode constranger quem lê (que somos nós). Estamos, de facto, perante uma relação que pode fazer sufocar: pela angústia e sofrimento que vemos pela parte de um ser humano. Um ser humano que pode ser/espelhar qualquer um de nós, num momento ou fase (inesperada) da nossa vida.

(A luz está acesa. É de noite. Petra corre no palco como uma galinha assustada enquanto se arranja. Marlène ajuda-a a abotoar a roupa, etc., e depois senta-se à máquina de escrever. Tocam à porta.)

PETRA
Marlène! Tocaram à porta, Marlène. Estou atrasadíssima. Abre, que eu vou já.

(Saem ambas. Passado um momento Marlène entra com Karin, indica-lhe um lugar, senta-se de novo à máquina. Karin levanta-se, vai a um espelho, fica a olhar-se demoradamente. Petra entra.)

PETRA
Karin! Que amável.

KARIN (volta-se devagar)
Boa noite, Frau von Kant.

(Petra aproxima-se dela como se fosse para a abraçar, mas detém-se antes de o fazer.)

PETRA
Sentemo-nos. Preparei umas coisas para comer. Marlène, podes servir! (Marlène sai.) Sim senhor. Ei-la aqui.

KARIN
Sim, eis-me. (Riem ambas.)

(...)

PETRA
(...) Onde vives agora?

KARIN
No hotel Rheingold.

PETRA
No hotel? Não é muito caro?

KARIN
Vinte e sete marcos com pequeno-almoço.

PETRA
Pois é. Não se pode aguentar muito tempo. Vens aqui para minha casa. É mais barato e... além disso é confortável.

KARIN
Sim? Eu...

PETRA
Não queres?

KARIN
Quero, quero. Receio é poder vir a aborrecê... a aborrecer-te.

PETRA
Conheço-me, Karin. Não me aborrecerás. Conheço-me. Sinto-me muitas vezes sozinha. Juntas estaremos bem.

KARIN
Se é assim que queres... muito bem. Realmente, eu...

PETRA
Amo-te. Amo-te, Karin. Amo-te. As duas juntas vamos conquistar o mundo. Não sei o que se passa comigo, apetece-me fazer-te festas, beijar-te... Eu (Abraça-a.)

KARIN
Eu também gosto de ti, Petra, gosto muito, mas tens de me dar tempo.

PETRA
Dou-te tempo, Karin. Tempo é o que não nos falta. Temos imenso tempo. Tempo para nos conhecer uma à outra. Havemos de amar-nos, Marlène, traz mais uma garrafa de champagne. (Marlène sai.) Ainda nunca, nunca, senti amor por uma mulher. Sou louca, Karin, louca! Mas é belo ser louco. É loucamente belo ser louco.

(...)

(É de manhã cedo, Karin ainda está na cama, Petra está a vestir-se. Marlène leva embora a loiça do pequeno-almoço que ficou junto da cama. Karin lê uma revista.)

(...)

(Marlène entra.)

PETRA
Os meus sapatos, depressa!

KARIN
Começo a achar que ela realmente tem pancada.

PETRA
Ela não tem "pancada", ela ama-me.

KARIN
Divirtam-se. (Marlène traz os sapatos.)

PETRA
Obrigada. (Marlène vai trabalhar.) Isso de deixar a escola é definitivo?

KARIN
O que é isso de definitivo? Já não aprendo mais nada.

PETRA
Aprende-se sempre qualquer coisa. Nunca se pára.

KARIN
Tu e as tuas sábias sentenças.

PETRA
Não é sabedoria, é experiência. Olha, eu telefono e peço desculpa por ti, e assim já podes lá voltar. Acho que é melhor para ti fazeres alguma coisa até ao fim. Acredita que vale sempre a pena.

KARIN
Se achas que sim.

PETRA
Sim, acho.

KARIN
Então está bem.

PETRA
Óptimo.

KARIN
Arranja-me um Gin-Tonic.

PETRA (prepara o Gin-Tonic.)
Bebes demais. Tem cuidado porque engorda.

KARIN
Vai-te lamber o cu.

PETRA
Olha que a tua figura é o teu capital, além disso não tens mais nada.

KARIN
Achas que sim?

PETRA
Não acho, sei. À nossa.

KARIN
À nossa.

PETRA (senta-se na cama ao lado de Karin e abraça-a.)
Amo-te.

KARIN
Eu também.

PETRA
Merda. Eu também, eu também!... Ora diz eu amo-te.

KARIN
Sim, sim.

PETRA
Vamos.

KARIN
Okey. Gosto de ti. Amo-te.

PETRA
Tens a pele mais bonita do mundo.

KARIN
Sim?

PETRA
Sim. E o mais bonito cabelo. E os mais bonitos ombros. E... e os mais bonitos olhos. Amo-te, amo-te, amo-te. Amo-te.

KARIN
Deixa-me, por favor.

PETRA
Porquê?

KARIN
Ainda não lavei os dentes.

PETRA
Não faz mal.

KARIN
Mas a mim incomoda-me. Vá lá. E ainda quero ler. Por favor.

PETRA
Okey. Deixo-te em paz. Se tens nojo.

KARIN
Não tenho nojo. Mas não se pode passar as vinte e quatro horas do dia a fazer marmelada.

PETRA
Pode.

KARIN
Ah, Petra.

PETRA
Poderia ficar eternamente abraçada a ti. Não sei por que és tão bruta comigo. Como se eu te tivesse feito algum mal, quando não há nada que eu não faça por ti.

KARIN
Não sou bruta.

PETRA
Para ti é simples. Limitas-te a dizer não sou bruta. Mas quando preciso de ti das-me com os pés. Karin?

KARIN
Sim?

PETRA
Posso... Quero ficar mais um bocadinho ao teu lado.

(Karin não reage. Petra senta-se na borda da cama. Passado um momento começa a fazer festas a Karin.)

PETRA
Onde é que foste ontem à noite? (Karin não responde.) Karin?

KARIN
Sim?

PETRA
Perguntei onde é que foste ontem à noite.

KARIN
Fui dançar.

PETRA
Até às seis da manhã?

KARIN
E que mal tem?

PETRA
Não há nenhum sítio que esteja aberto até tão tarde.

KARIN
Não?

PETRA
Não. Com quem foste "dançar"?

KARIN
O quê?

PETRA
Perguntei com quem foste dançar?

KARIN
Com um homem!

PETRA
Ah sim?

KARIN
Sim.

PETRA
Que homem?

KARIN
Um preto muito grande, com uma grande picha preta.

(...)

PETRA
Como era o homem?

KARIN
Na cama?

PETRA
Por exemplo.

KARIN
Insaciável.

PETRA
Sim?

KARIN
Completamente. Podes imaginar as grandes mãos pretas na minha pele branca e macia. E... aqueles lábios! Bem sabes como os negros têm lábios grossos e quentes. (Petra leva a mão ao peito.) Vais desmaiar, caríssima? (Ri à gargalhada.)

(...)

KARIN
(...). Tínhamos prometido dizer sempre a verdade uma à outra. Mas tu não aguentas. Queres que te mintam.

PETRA
Sim, mente-me. Por favor, mente-me.

KARIN
Está bem. Então não é verdade. Levei a noite toda a passear sozinha e a pensar em nós.

PETRA
Sim? (Esperançosa.) É verdade?

KARIN
Claro que não. Fui mesmo para a cama com um homem. Mas não tem importância, ou tem?

PETRA (a chorar)
Não. Não - claro que não. Mas não percebo, realmente, não percebo. Porquê... porquê...

KARIN
Pára de chorar, Petra, por favor. Olha, eu gosto de ti, a sério, amo-te... mas... (Encolhe os ombros. Petra chora descontroladamente.) Era evidente que eu de vez em quando dormiria com um homem. Sou assim. Mas não nos prejudica em nada. Eu só me sirvo dos homens, não lhes dou mais valor do que isso. É só um divertimento. Palavra. Falaste sempre em liberdade e assim. Disseste sempre que entre nós não havia compromissos, ... Não chores! Olha, já sabes que eu volto para ti.

PETRA
Doi-me tanto o coração. Como se me tivessem enterrado uma faca no peito.

KARIN
Não faz falta doer, o coração. Nem eu nem tu precisas disso.

PETRA
Nem eu nem tu precisamos disso. Sujeitos no singular ligados por nem, obrigam ao verbo no plural se a acção pertence a ambos os sujeitos.

KARIN
Ah Petra. Claro que não sou tão inteligente como tu, nem tão educada. Sei isso muito bem.

PETRA
És bela. Gosto muito de ti. Doi-me tudo, de tanto gostar de ti. Meu Deus, meu Deus. (Vai arranjar uma bebida.) Queres outra?

KARIN
Não, tenho que ter cuidado com a linha.

(...)

PETRA
Era mesmo negro?

KARIN
Sim. Porquê?

PETRA
Só para saber.

KARIN
Ele era mesmo giro, também terias gostado dele. Não era bem preto, era mulato, e com um rosto mesmo inteligente. Há negros assim, com um rosto mesmo europeu, não há?

PETRA
Sim? Não sei.

KARIN
Há, há. Este era um deles. Contou coisas muito giras, da América e assim.

PETRA
Por favor, Karin. (Desata a chorar novamente.)

KARIN
Pronto, eu calo-me. Pensei que já tínhamos arrumado o assunto.

PETRA
Escusas de ficar a sonhar com ele. (Arranja nova bebida.)

KARIN
Tu também bebes que te fartas.

PETRA
É só o que me resta.

KARIN
Não exageres, caramba. Estás mesmo histérica.

PETRA
Não estou histérica. Sofro.

KARIN
Ora, se sofres é porque te faz bem.

(...)

PETRA
Eu preferia ser feliz, Karin, acredita. Preferia mil vezes ser feliz. Tudo isto dá cabo de mim.

KARIN
O que é que dá cabo de ti?

(...)

PETRA
Tu. Tu dás cabo de mim. Porque nunca sei por que razão estás realmente comigo, se é porque tenho dinheiro, porque te dou uma chance ou porque... porque me amas.

KARIN
Claro que é porque te amo. Merda.

PETRA
Ah, pára com isso. Ninguém aguenta tanta incerteza.

KARIN
Se não me acreditas...

PETRA
O que é isso de acreditar. Não tem nada a ver com acreditar... É claro que acredito que me amas. Claro. Mas não sei nada. Não sei de verdade. E é isso que dá cabo de mim. É só isso.

(...)

PETRA (vai e abraça Karin.)
Amo-te, não posso fazer nada contra isso. Não posso. Preciso de ti Karin. Preciso tanto de ti. (Ajoelha-se, abraça as pernas de Karin.) Farei tudo por ti. Só quero estar neste mundo por tua causa, Karin. Só te tenho a ti. Eu... eu... fico tão sozinha sem ti, fico tão sozinha, Karin.

(...)

(Petra está sozinha no palco, tropeça num tapete, etc, já está bêbada. O pick-up toca "The great pretender" dos Platters. Ela canta, dança, ao som do disco. Prepara uma bebida. O telefone toca. Petra corre a atender.)

PETRA (ansiosa)
Está? Não, não é von Kant. (Atira com o auscultador, senta-se numa poltrona, bebe. O telefone volta a tocar, ela atende, rápida. Esperançada.) - Sim? Não, não, não, não. (Desliga.) Oh, odeio, odeio, odeio-te. Odeio-te. Odeio-te Quem me dera morrer. Desaparecer. Estas dores. Não aguento. Eu... eu... não posso mais. Oh, meu Deus, porca de merda. Porca de merda nojenta. Hás-de me pagar. Dou cabo de ti. Acabo contigo. Hás-de rastejar a meus pés, filha da puta. Hás-de beijar-me os pés. Ah, que merda. Meu Deus, que fiz eu para merecer isto? Que fiz eu. (O telefone toca.) Karin? (Desliga.) Amo-te. Não sejas tão má, Karin! Merda, merda. Preciso tanto de ti. Telefona, ao menos telefona. Quero ouvir a tua voz. (Chora, vai até ao bar, prepara uma bebida.) Não te custava nada telefonar. Só telefonar. Não custava nada. Mas a porca nem sequer pensa nisso. (...)

(...)


(Rainer Werner Fassbinder- AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT. Peça editada pelas Edições Cotovia. Fotografia de China Hamilton)

Publicado por void em 06:40 AM | Comentários (3) | TrackBack

março 21, 2005

EM CENA: AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT (1)

Rainer Werner Fassbinder (1946-1982) é o dramaturgo que vos trago hoje. Dramaturgo mas também actor, encenador e realizador. Um impulsionador do Cinema e Teatro na/da Alemanha.
A peça que seguidamente apresento o primeiro excerto é a prova do importantíssimo trabalho desenvolvido pelo autor ao nível da dramaturgia. Uma peça datada dos inícios do anos 70 do Século XX (1972) que aborda a relação entre duas mulheres. Mas uma peça que aborda a realidade (ou determinada realidade) da burguesia, da classe média do mundo Ocidental. Em concreto, e neste caso, com as devidas adaptações às personagens e ao seu meio: problemas relacionados com o casamento, com o papel do homem e da mulher na sociedade, com o trabalho e com as relações entre as pessoas que nesse mundo vivem e nesse mundo se cruzam.
"As lágrimas amargas de Petra von Kant", peça adaptada ao Cinema, incide sobre uma relação lésbica. Mas incide, da mesma forma, naquele que é o percurso de vida, forma de pensar, ser e estar da sua personagem principal: Petra. É uma peça que no relacionamento, sobretudo, entre três mulheres (Petra, Marlène e Karin- três da totalidade das personagens femininas) regista modelos de submissão, poder e anarquia. De sublinhar que o que parece uma garantia à partida, nem sempre assim se mantém. E é esse evoluir que dá um toque tão especial ao enredo.
Portanto, estamos perante uma peça que recomendo vivamente a leitura integral. Como disse: hoje edito um primeiro excerto, que versa num diálogo entre Petra e a sua amiga Sidónia sobre o casamento e divórcio da primeira (casamento este que é já o segundo). Amanhã, far-vos-ei chegar o excerto onde a abordagem da relação de Petra com Karin se dá.
Espero que gostem e desfrutem de toda a riqueza inerente.

Personagens:

Petra von Kant
Valéria von Kant, sua mãe
Gabriela von Kant, sua filha
Sidónia von Grasenabb, sua amiga
Karin Thimm, sua amante
Marlène, sua empregada

(...)

(Marlène entra com Sidónia de Grasenabb.)

SIDÓNIA
Queridíssima!

PETRA
Sidónia, querida!

SIDÓNIA
Petra! (Abraçam-se.)

PETRA
Meu Deus, há quanto tempo...

SIDÓNIA
Três anos, caríssima. Três anos. Como o tempo passa. Tu estás óptima. Tremendamente bem. Como é que consegues?

PETRA
Não me ficas atrás em nada, minha querida, em juventude, em beleza, em nada, mesmo.

SIDÓNIA
E o Frank? (Petra faz-lhe sinal para mudar de assunto.) Li as notícias. Na Austrália, imagina! E disse ao Lester, coitada, olha a sorte que teve. Nós tínhamos-te prevenido acerca desse homem.

PETRA
A experiência, Sidónia, tem de ser acumulada pelo próprio. Acredita, sinto-me feliz por ter vivido o que vivi. O que nós aprendemos ninguém mais nos pode tirar. Pelo contrário. A experiência amadurece-nos.

SIDÓNIA
Não sei, Petra, quando o fim já se está a ver desde o princípio será que a experiência vale a pena?

PETRA
Faz um café, Marlène. Ou preferes chá?

SIDÓNIA
Café está bem.

PETRA
Já tomaste o pequeno-almoço?

SIDÓNIA
Já, obrigada. Apanhei o avião cedinho de Frankfurt para cá. Estava morta por saber como é que te aguentavas. Se sofrias, ou...

PETRA
Ora, Sidónia, as pessoas evoluem. Antes... sim antes era diferente, é verdade. Não saberia o que fazer. Passar uma tal vergonha... Acreditei tanto no que ele tinha de bom. Mas no casamento os pontos fracos é que surgem ao de cima.

SIDÓNIA
Não sei, com o Lester...

PETRA
Desculpa. Mas vocês viajam tanto que não chegam a ter tempo para se conhecerem de verdade. Agora o Frank e eu estávamos dia e noite um com o outro, sempre, ininterruptamente, e eu sempre a recear pela minha existência. Assim fica-se mesmo a saber de que matéria é feito o outro... Desculpa, não queria ser amarga, mas esse homem e eu podíamos ter tido algumas possibilidades. Boas possibilidades. A sorte não permitiu.

SIDÓNIA
Ainda pensas nisso?

PETRA
Não, Sidónia, penso nas possibilidades que realmente houve, mais nada. Acredita que é triste reconhecer que os defeitos de alguém têm mais peso do que as suas qualidades.

SIDÓNIA
Vocês discutiram, ou quê?

PETRA
Discutir? Não propriamente. O que havia era um frio, sabes, a pessoa sente-o e... Olha, tu estás com alguém no carro, ou no quarto, e apetece-te dizer qualquer coisa, mas tens medo. Apetece-te ser meiga, mas tens medo. Tens medo de perder um ponto, de te tornar mais fraca. É terrível quando alguém já não pode fazer marcha atrás consigo mesmo.

SIDÓNIA
Creio que percebo. Confusamente, mas...

PETRA
Sei o que vais dizer agora. Que o mais inteligente deve ceder, por exemplo. Ou... Não, Sidónia, em matéria de relações humanas, quando a carroça se atola em merda ninguém é capaz de a tirar de lá.

SIDÓNIA
Não pode ter sido assim durante três anos.

PETRA
Claro que não. Houve momentos tão belos que... momentos em que se esquece tudo, tudo, como se se pudessem resolver todas as dificuldades, como se se pudesse encontrar uma base de entendimento, que... ora, a carroça estava atolada em merda.

SIDÓNIA
Pobre de ti! Coitada!

PETRA
As coisas são fáceis de lamentar, Sidónia, mas mais difíceis de compreender. Quando compreendo não devo lamentar, pois posso mudar o que compreendo. Só devo lamentar a sério o que não compreendo.

SIDÓNIA
Já vejo que essa coisa toda fez de ti uma mulher dura. É pena, as mulheres duras sempre me desagradaram.

PETRA
Pareço dura porque uso a cabeça. Não estás habituada a que as mulheres pensem. Pobre coelhinha.

SIDÓNIA
Petra! Por favor!

PETRA
Desculpa, não te quis ofender. Quero só que oiças realmente o que te estou a dizer e que não aprecies com um juízo já feito o que acabei de contar.

SIDÓNIA
Certo. Entendo a tua amargura. Foi ele... que pediu o divórcio?

PETRA
Não, fui eu.

SIDÓNIA
Não foi ele? Foste tu... meu Deus.

PETRA
Espanta-te, não é? A coitada da Petra, a desgraçada que não queria deixar o marido, que parecia desesperadamente apaixonada, quase escravizada, foi ela que pediu o divórcio, que horror não é?

SIDÓNIA
Ele...

PETRA
Não, ele não me enganou. De resto para mim o adultério nunca teria sido motivo de separação. Pela parte que me tocava a relação era saudável. Nós dávamos muita importância ao prazer e nenhuma à fidelidade: quer dizer à fidelidade forçada. Intelectualmente éramos verdadeiramente fiéis um ao outro. Não, as coisas correram mal por outras razões. Claro, quando a relação se estraga vem o nojo, ou o ódio. Mas isso não deve ter nada a ver com o que se passava à nossa volta, com as outras pessoas, ou... (Marlène entra, serve o café.) Obrigada.

SIDÓNIA
Obrigada.

PETRA
Agora põe-te a desenhar, por favor. É urgente.

(Marlène continua a desenhar.)

SIDÓNIA
Podemos...?

PETRA
Marlène? A Marlène está comigo há três anos. A Marlène ouve tudo, vê tudo, sabe tudo. Com a Marlène não é preciso ter cuidado.

SIDÓNIA
Óptimo. Continuemos. O que foi então que vos fez tão opostos, tão doentes?

(...)

PETRA
Nós queríamos ser felizes um com o outro. Percebes? Um com o outro. Para isso não havia nenhum exemplo anterior que já tivesse resultado, que eu pudesse seguir.

SIDÓNIA
Mas então o que foi que aconteceu que levou à repugnância? Com tanta clareza, tanta compreensão?

PETRA
O sucesso, por exemplo. O sucesso que fui eu que tive, e que o Frank esperava para ele, de que ele precisava, de facto. Foi assim que começou. É tão simples como isso. Sim.

SIDÓNIA
Sim. Desculpa! O sucesso não é razão para...

PETRA
Os homens! E a sua vaidade! Ah, Sidónia. Ele queria encher-me de mimo, tomar conta de mim. Sustentar-me. Sim, ele levava o seu papel a sério. É verdade que respeitava a minha opinião, mas no entanto queria sustentar-me. É por este desvio que a opressão se instala. E o que acontece é o seguinte: oiço o que tu dizes, percebo-te, mas... quem é que ganha o dinheiro, quem é que anda a foçar? Aí tens, há duas medidas! Ah, minha cara. Ao princípio era assim: o que tu ganhas, minha linda, põe-se numa conta especial, servirá mais tarde para comprar uma casinha, ou um carro mais rápido ou coisa do género. Concordei, disse que sim, porque... ele era tão meigo, Sidónia, e quantas vezes o amor que se desprendia dele me arrebatou até ao êxtase, me deixou sem respiração, tal era a felicidade... Depois, quando ficou sem trabalho... De início era quase cómico ver o seu ridículo orgulho ferido, e para ser franca eu até gozei com isso, pensando que ele próprio sabia que o seu comportamento era ridículo. Mas não sabia. E quando mais tarde eu tentei esclarecer as coisas, dizer-lhe que para mim não fazia diferença um homem estar ou não estar no topo, já era tarde demais. Mal surgia este tema ele ficava de pedra, Sidónia, uma muralha. E então, pouco a pouco, começou a morrer a dignidade. Vi que me tinha enganado com ele, e comigo, e decidi acabar. Acabar com o meu amor por ele. Os últimos seis meses foram horríveis, acredita, horríveis! É claro que ele reparou que tudo tinha acabado, ou pelo menos desconfiou. Mas não levou a bem. E não procedeu com muita inteligência. Já que não conseguia prender a mulher em tudo, tentou ao menos na cama. Então surgiu o nojo. Ele foi usando a técnica, a força. Deixei-o, fui aguentando, mas a verdade é que o achava um porco.

SIDÓNIA
Petra!

PETRA
Cheirava mal! Cheirava a homem. Tal e qual como os homens cheiram. O que antes era para mim tão atraente... agora enjoava-me, dava-me vontade de chorar. E a maneira como ele me possuía...

SIDÓNIA
Não, Petra! Por favor.

PETRA
Agora ouves a história até ao fim. Ele montava-me como o touro monta a vaca. Sem a menor atenção, sem se preocupar com o meu prazer de mulher. As dores, Sidónia, as dores, nem podes imaginar. E quando eu, mesmo assim, às vezes... que vergonha! Que vergonha. Tive tanta vergonha. Ele a julgar que eu gritava de amor, de gratidão. Era mesmo estúpido, estúpido. Os homens são muito estúpidos.

SIDÓNIA
Coitada, coitada de ti! Como sofreste.

PETRA
Não preciso da tua compaixão. Ele... ele teria precisado da minha. Compreensão, bondade, compaixão, quando já nada mais é possível. Eu não tinha mais nada a oferecer-lhe. As coisas iam de mal a pior. Quando comíamos juntos, o seu mastigar parecia-me o barulho duma explosão, o engolir - não consegui aguentar mais. Nem a maneira como ele cortava a carne, nem a maneira como comia a salada, segurava o cigarro, ou o copo de whisky. Parecia-me tudo tão ridículo, tão... afectado. Sentia vergonha por ele, porque me parecia que todos os que o viam reagiam como eu. É claro que isso tinha o seu quê de histeria, de pânico. Já não havia nada a fazer, Sidónia. Era o fim. Estava tudo acabado. (Silêncio.) Sinto-me envergonhada.

SIDÓNIA
Não tens nada que sentir. Procuraste aprender. Procuraste compreender o que se passava. Eu...

PETRA
Acho que o homem é feito de tal maneira que precisa dos outros, mas ainda não aprendeu como se vive com os outros. (Tocam à porta.)
Marlène!

(Marlène levanta-se, vai abrir.)

SIDÓNIA
Deve ser a Karin.

PETRA
Karin?