fevereiro 28, 2005

EM NOME DE DEUS- 1 (O PROCESSO DAS BRUXAS DE SALEM)

Inicio a semana temática "Em nome de Deus"- que objectiva deixar registado um conjunto de situações ou casos em que a acção humana, tendo como móbil ou pretexto a divindade/Deus/entidade omnipotente e omnipresente, os profetas, os messias... ou a religião em geral, se direcciona em termos de práxis por caminhos tortuosos ou pouco reveladores de tolerância ou clarividência (racional)- com o excerto de um romance que aborda um conjunto de acontecimentos que tiveram lugar no século XVII na Colónia da Baía de Massachusetts, em Salem, povoada na época por uma comunidade puritana.
Ann Rinaldi, a autora, dá-nos então a conhecer aquela que foi a onda de histerismo colectivo e de intolerância que originou uma significativa caça às bruxas, em que um número razoável de pessoas foi acusado em tribunal de fazer pactos com o Demónio. Como a autora diz, em nota própria, "Os próceres da cidade, magistrados e ministros acreditavam piamente que o Demónio errava pelos campos tentando encontrar maneira de minar o reino de Deus na Terra. Os anciãos de Salem precisavam de um bode expiatório para os problemas, em 1692. Houvera recentemente uma epidemia de varíola, incursões de índios nos arrabaldes da cidada e muita inimizade entre vizinhos que não davam tréguas a rixas antigas."
Estavamos, pois, perante um clima de grande tensão e medo, altamente favorável às acusações e às perseguições. E assim foi. E em nome de Deus, havia que fazer "limpezas". E os resultados ficaram para a História.

1706

Esta tarde, vim cedo para me sentar no silêncio do Templo de Salem, antes (...) que alguém mais chegasse. Aqui, está fresco, embora ao fim do dia, o sol de Agosto bata sobre o trigo que cresce nos campos e sobre as árvores de fruto já carregadas do que vai ser a colheita de Outono.
Sou uma estranha nesta igreja. Na realidade, já aqui não vinha desde a Primavera de 1692, e entretanto decorreu tanto tempo que tudo parece uma recordação vaga e a rapariga que eu então era parece certamente outra pessoa. Essa rapariga sou eu e, no entanto, não o sou. Porque ela ignorava todos os perigos que a rodeavam tal como acontece com a minha filha que agora dorme tranquilamente nos meus braços.
O mundo de então era outro, ainda que, na sua maioria, os que vivem por aqui apresentem ainda mais marca dos acontecimentos que tiveram lugar nessa altura.
Quanto a mim, falo pouco, se é que alguma vez falo, daqueles terríveis meses de 1692. Aliás, o meu marido também não fala. De facto, julgava que tudo isso ficara para trás até entrar hoje nesta igreja. Quando o fiz, assim que atravessei os seus portais, tudo voltou de repente.
(...)
Contudo, no templo reina a paz. E vejo que não mudou desde os tempos da minha infância. Nessa altura, era a igreja do Reverendo Parris. Mas há muito que ele partiu. (...) Foi o Reverendo Joseph Green que o substituiu. (...) Dizem que trabalhou arduamente durante muito tempo para curar a comunidade dos efeitos daquilo a que muitas pessoas chamam "a recente tragédia".
É nestes termos que se referem à loucura da bruxaria de 1692. E a todos os enforcamentos. Como se não conseguissem suportar mencionar de novo a palavra feitiçaria.
Naquela altura, pronunciavam tal palavra com a maior facilidade. E fizeram-no vezes sem conta. Até que se tornou insuportável ouvi-la. E até que dezanove inocentes foram enforcados, uma pessoa foi empurrada para a morte e muitas outras foram para a prisão, onde ainda se encontram. Oh, não tinham o menor problema em dizer as palavras Diabo e feitiçaria nesse ano de 1692, pois não?
(...)
Meditando sobre toda esta questão, enquanto me encontro sentada na igreja à espera do aparecimento de Ann Putnam, apercebo-me de quão doloroso é rememoriar os acontecimentos dessa época. (...)
Esquecer? Penso que nunca o farei. Nem os outros que aqui se encontram hoje reunidos. Como poderemos esquecer a forma como a comunidade foi devastada, como as casas destruídas e arruinadas de alguns dos acusados foram deixadas ao vento e aos lobos. Como os negócios foram maus porque, durante muitos anos subsequentes, os de fora se recusavam a transaccionar com as pessoas de Salem.
(...)
Pergunto-me se, ao fim ao cabo, será uma boa ideia vermo-nos uns aos outros, uma vez mais, nesta sala de reunião.
Agora, todos temos de nos levantar. Ann Putnam sobe a nave lateral e vira-se para nos encarar. E lá está o Reverendo Green, no púlpito.
Como a Ann envelheceu! Meu Deus, não pode ter mais de vinte e seis anos! (...) A voz é fraca. Mal a consigo ouvir.
- Posso dizer, com verdade e verticalidade, perante Deus e os homens, que não agi movida por raiva, maldade ou má vontade contra qualquer pessoa, porque não tinha nada disso contra nenhuma delas; mas o que fiz foi feito com ignorância, porque fui iludida por Satanás.
A sua voz eleva-se, ganhando força.
- Desejo jazer no pó e pedir honestamente o perdão de Deus e de todos aqueles a quem dei justo motivo de pena e agravo.
Ela continua, mas não a oiço. O meu espírito fecha-se para a não escutar.
(...)
Agora, está a falar o Reverendo Green. A sua voz é forte e límpida e simples as palavras que usa.
- Nenhum de nós está totalmente inocente nesta tragédia. Parece ter[mos] esquecido o que os nossos pais vieram procurar nesta terra selvagem. Os preceitos que selavam o pacto de perdão e comunhão da igreja foram desleixados e menosprezados por tudo o que aconteceu. E tudo isso ainda se encontra suspenso sobre a nossa comunidade. Sim, a fúria da tempestade levantada por Satanás durante esse ano trágico abateu-se muito pesadamente sobre muitos dos que aqui viviam. Alguns dizem que o Senhor enviou anjos do mal para nos acordarem e punirem a nossa negligência.
Os olhos de todos estavam voltados para ele.
- Vamos reduzir agora o poder desses anjos do mal. Vamos enviá-los, de uma vez por todas, para o lugar donde vieram. Não fareis isso comigo, aqui, neste dia? Não amolecereis agora os vossos corações em relação a esta jovem mulher que se entregou à vossa misericórdia? Não sarareis vós as feridas desta comunidade, para sempre, por vós e pelos vossos filhos, perdoando-lhe o seu pecado?


(Ann Rinaldi- O PROCESSO DAS BRUXAS DE SALEM. Fotografia de José Marafona)


No post de amanhã darei um salto até ao futuro. Ao futuro em relação a Salem. Amanhã viajaremos até ao Afeganistão do século XX. Ao Afeganistão dominado pelos Talibãs.

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fevereiro 27, 2005

A EXCOMUNGADA

Na sequência do acontecido o fim-de-semana anterior deixo-vos com mais um texto da Paula, blogger do "Divine Decadence Darling!". E registo que, daqui para a frente, os domingos serão reservados, aqui no Abismo, com/para os textos desta autora. Textos que nos permitirão viajar pelo rico folclore português, pelas imensas lendas e narrativas que têm povoado o imaginário de muitos, pela religião popular portuguesa... textos que farão a sua recuperação, readaptação ou cujos conteúdos consigo se farão, de uma ou outra forma, relacionar. Mas serão também aqui trazido textos não tão directamente relacionados com estas realidades, mas igualmente de grande qualidade e com o toque especial e inconfundível da autora. Textos que falam em particular de Portugal, mas que podem falar, também, não especificamente do país, pelo que podem ser estendidos a outras realidades, em particular pela elasticidade das temáticas em causa, adaptáveis e/ou moldáveis a outros espaços, a um conjunto mais alargado de pessoas, assim como a tempos mais dilatados daquele que é o presente ou passado recente.
Serão aqui trazidos textos não pequenos, mas textos cuja qualidade vale a atenção e não mutilação. Textos para ler num todo, de uma vez e assim sentidos no que de melhor possam ter. Textos como aquele que se segue.
Passem pois à leitura que eu me calarei. Quanto ao que se segue... não digam depois que não vos avisei...

A pacata aldeia de Monsanto, de olho vivo sobre as Beiras, foi, na terça-feira de entrudo, o palco onde se desenrolou uma tremenda tragédia. Se o nosso espírito voar e nos transportar às longínquas épocas da Idade Média, não encontra uma cena tão selvagem e revestida de tanta perversidade como aquela que aqui proponho narrar. O nosso espírito não concebe que um ser humano pudesse ter coragem para praticar um crime tão hediondo. A realidade dos factos, ou não seja eu um pobre demónio, filho de Lucífer, o encornado, Zé dos Fogos, Belzebu, porém, convence-nos de que sob este lindo céu azul, que um enorme e divino amplexo estreita toda a humanidade, há feras muito mais ferozes do que as feras do monte, pois, Monsanto é terra de gente boa, terra de gente crente. O certo é que, muitas vezes, entre as ovelhas mansas, disfarça-se o lobo traiçoeiro e entre bom trigo surge de quando em quando o joio. E se as mentiras são feitas de verdades, comecemos então, com esta graça que Deus nos deu...
É certo que existem Bruxas. O silêncio, a escuridão, as sombras e o luar evocam-nas. Em Monsanto, desde a Capela de São João à Torre do Pião, os homens correm para riba, sem olhar para trás, depois da noitada na taberna. Temem os seus olhos verdes da noite, temem ver-se a braços com a sua natureza de Lobisomem. Por volta das onze badaladas do sino da Igreja de Santa Maria do Castelo, acolhem todos às suas casas, altura em que a Bruxa, onírica, unta-se com óleo, sai pela chaminé, voa pelos ares com um fogacho no rabo, e percorre todo o monte, para assustar quem queira ser noctívago, obrigando a quem se atreva, a levá-la às costas a casa.
Pois a família Régio também tomava a noite para junto das cadeiras de cerejeira. Viviam bem junto do Forno Comunitário. E a graça de Deus entrou cedo pelas portadas das janelas. Descarregou a Virgem Mãe, uma semente no ventre de Cremilda, e não seria de admirar, sendo Rui Vargas Régio, principal homem da aldeia, homem-bom, filho Varão, de uma família de varões. Quando nasceu, todos e todas vieram à janelinha gritar bem alto “Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo por esta bela criaturinha...até que enfim, até que enfim...” E era bela esta criatura. Um belo macho, com os olhos mais azuis que o mar e o Céu quando se juntam, uma boca mais suculenta, uma pele mais macia que os lençóis mais bem tratados pela seda. Chamaram-lhe Paulo, pelos apóstolos, pelas lições e pelos arcanjos. Contudo, os Régios, não eram seres de se contentarem. Apesar de tão bela luz divina, quiseram mais, muito mais. Rui Vargas Régio, homem de nome e palavra na aldeia, queria povoar o mundo com estes olhos azuis, tão belos, quanto especiais. “Quero outro, Cremilda, e hei-de o ter, sejas tu mulher para o descarregar, ou seja outra”! Mas Cremilda, não queria. Não queria, sobretudo, desafiar a graça de Deus, mas antes de pronunciar um ai Jesus, já o homem lhe punha novo ovo para chocar. Todos os dias rezava Cremilda um Pai Nosso que estais nos Céus, pedindo a clemência divina, mas foi o desterrado, o maldoso, o corno de cabra, o porco sujo que a atendeu. E Cremilda sentiu o Diabo a soprar dentro dela numa tentação tão grande, que foi obrigada a apertar a boca com ambas as mãos, porque se não o fizesse, teria cuspido fora a Hóstia Bendita. “Possessa, mil vezes possessa, isto que trago aqui, bem dentro de mim”. Com medo, esfregou o ventre com alho e vinagre para não deixar entrar qualquer corno do Diabo. Dizia a todos, que apenas queria proteger a fertilidade, qual marafona, mas a verdade é que temia, a justiça de Deus sobre o seu corpo. “Ai a minha vida, que se Deus Nosso Senhor não me acode, estou desgraçada”, gritava ela com o terço e o incenso pela casa. E por tudo isto, batia com a barriga nas paredes, empurrando-a, espremendo-a, esmurrando-a, para evitar os desejos que de lá saíam. Diziam-lhe que teria que se conformar com a vontade de Deus, mas ela sabia, que não era a vontade de Deus, que o que trazia dentro de si, pudesse andar por aí ao ar livre, espalhando a semente malvada do demónio como um cão espalha as pulgas.
Tinha, de facto, todas as artimanhas do demónio escondidas no corpo. Por isso resolveu, comungar, e fazer as limpezas da igreja, para assim poder estar mais perto do Padre. Um padre tem poder para tirar o demónio dos corpos, e era isso que o Padre Antão lhe devia fazer, para bem dela, para a livrar dos dentes do tentador, e por fim, para o bem da gente da terra. Mas por todo o lado, via Cremilda, os mortos vivos, e os vivos mortos. Via-os a todos, pendurados pelo pescoço, nus e encouraçados, onde, na testa e no peito, onde havia sido feitos sinais com a cruz, lhes saíam mãos de lume e muito fumo. Nessas alturas, Cremilda atirava-se para o chão e cobria a cabeça com o seu xaile preto, entregando o coração a Deus. Mas quem a ouvia era Belzebu, que a acordava durante a noite com as osgas a espreitarem e a tentarem entrar dentro do seu ninho de procriação. “Bichos malditos, cheios de peçonha, querem ver quem vos chama, não é?” Nessas alturas levantava-se, e cuspia para o chão, fazendo repetidamente o sinal da cruz.
Os cães fugiam dela, os corvos voavam em seu redor, e as pedras mexiam-se quando por elas passava. Às vezes ouvia os ratos, murmurarem-se entre si. Ouvia os porcos grunhir antes de serem mortos, os cavalos relincharem antes de serem abatidos, as galinhas cacarejarem antes de ficarem sem cabeça, os pombos piarem antes de serem comidos. Cremilda queixava-se ao Padre, mas o mesmo não lhe dava atenção – “Confie na misericórdia de Deus, prima Cremilda”, confie em Nosso Senhor, tenha resignação”.
Pensais que Cremilda, terá morto o rebento antes de ele nascer? Não, pois não é possível apagar lume onde não existe chama. Mil vezes atordoar o corpo e a alma com chagas, do que deitar para fora o ácido que a corrói. Pois mesmo, rebento de Satanás, não deixa de ser rebento, e merece que Deus lhe ensine a viver, para depois, com a suprema penitência, lhe tirar a vida, pois é misericordioso o nosso Bom Deus. Pois Cremilda não queimou a chaga, antes de sentir dor. Deixou-a a viver dezoito luas cheias dentro de si, alimentou-a com Bicas de Maçã e de Paio. Deixou escorrer sangue pelas pernas, mas nunca a retirou de si.
Com nove meses de cominhos e tomilho, com nove meses de açafrão, assim nasceu a concubina do Cabrão. Na véspera da Quaresma, veio à luz, com a ajuda das mezinhas de Ti Júlia, velha curandeira, sabedeira, e parteira de Nossa Senhora dos Aflitos esta nova menina, que antes de o ser, já era chamada pelas entranhas. Cremilda gritou nessa noite, de tal modo, que acordou o menino Paulo, o de olhos azuis, que naquela idade, e ainda sem saber dizer um ai e um ui, já enfeitiçava as futuras donzelas. Mesmo, ajudada por um alguidar com água fervida e coentros, Cremilda não deixava de ter dores a parir. Ao mesmo tempo benzia-se e gritava “Sai de dentro de mim! Sai de dentro de mim, criança ruim, com a peçonha de mil lacraus e manha de javalis! Sai”. E com tais rezas, ela saiu mesmo. E Deus, tão misericordioso e piedoso, quanto justiceiro, fez saber desde logo, que só toca nos ventres das mulheres, uma só vez na vida, e nunca mais. Pois a menina que rebentou na barriga da mãe, tinha tudo o que o irmão não tinha. Uns olhos tão negros que faziam cair qualquer azeitona, uma boca pálida e gretada, uma cara branca e vergonhosa.
Nasceu uma menina mirrada, com pernas bambas e arqueadas, tão pequena quanto tacanha. Mas o pior só lhe viu a mãe, passadas doze noites, pois a criança, que azedava o leite à mãe, tinha a cabeça tombada para a esquerda, para o lado do mal. A cabeça quase que recusava a vénia divina, e obrava o chão e o inferno. Pois Deus tinha feito justiça, e é certo que bem Haja aos que sabem que o Nosso Senhor, escreve direito por entre linhas tortas...
Pensais que a mãe a matou? Pensais que a mãe abafou aquele riso de escárnio que soprava por entre aqueles dentes de leite? Não, pois não se pode apagar chama, que ainda mal arde. Pelo contrário, a obra de Satanás, com uma mulher do povo, deixou-se crescer debaixo das mesas, sem amor de pai, de mãe, e muito menos de irmão. Até mesmo, quando o médico de Castelo Branco, lhe disse que o que a rapariga tinha, era uma deficiência mental, conjugada com autismo, que derivava certamente, da falta de oxigénio por alturas do parto, e de um possível contacto da mãe com a rubéola, ninguém lhe acreditou. Sabe-se é que, pelas Verdades e pelas Humanidades, o mais certo é a Ciência errar tanto, quanto os Homens, pois, a par de alguns anos, desapareceu, à menina, que por ora se chamava Carla, essa suposta anomalia. Nasceu-lhe outra porém. No dia em que Carla completara seis anos de existência, e estando ela a dar fruta podre aos porcos, apareceu-lhe um pastor que a agarrou por trás e pela frente, e meteu-lhe bosta de vaca pela goela abaixo. Desde então, a pequena ficou muda. A mudez foi algo que não espantou os olhos da mãe. Sabendo ela do segredo que a mantinha viva, atribuiu-lhe a boca suja e cheirosa, a algum achaque, ou alguma possessão diabólica.
Por vezes, a família Régio saia junta, e todos os que por ela passavam, exclamavam-lhes “Belos dias, e Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo”, “Pr`a sempre seja Louvado”, “Pois muito vos prezo esse vosso filho, de olhos mais azuis quanto o Céu pode deitar à terra. Pena que a irmã não seja assim, mas quem já tem um, não precisa de argumentar por mais.” Os pais calados, ouviam e ouviam mais, os sussurros dos visitantes, quando estes se encontravam por trás: “ Vejam-me lá a Prima Cremilda e o Primo Rui? Aquele Paulinho, dos olhos azuis, é mesmo um moço...ai, quase um menino! Verdinho ainda, bem cheiroso como um pé de manjerico. Já a irmã parece que brotou de debaixo da terra sequinha, murcha de todos os sumos e mais branca que a folha do lírio. O que um tem de mais, a outra tem em falta! Pois nota-se bem que aquela não é obra de Nosso Senhor.”
Os anos passaram, e, aquela que aqui se chama Carla, mas que poderia ter qualquer outro nome, em outra terra, transformou-se de criança em moça, e de moça em rapariga. Pois mudaram-lhe as formas, mas nem tão pouco o temperamento. Os filhos das mulheres, assim que voltavam das lides universitárias em Coimbra, para em Monsanto passarem as suas férias, chamavam-na de longe “Carla, Carlinha, Carlona, mostra à gente que não és feita de peçonha!” E assim conseguiam atraí-la para a Gruta da subida para o castelo. Já lá dentro, os jovens despiam-se da cintura para baixo e diziam-lhe “Carla, Carlinha, Carlona, vê como isto cresce para ti! Pega-lhe e mexe-lhe para saberes qual o seu segredo”. E Carla, satisfazia-lhes todos os desejos, mesmo sem os entender. Mas não era somente aos jovens que Carla satisfazia. Também viúvas as havia, que lhe prometiam um bolinho de azeite em troca de aconchego, para que assim esquecessem a morte dos maridos. Carla era muda, e daquela boca não saía nem sequer um suspiro. De facto, a verdade é que todos a conheciam, mas ninguém a queria conhecer.
Em casa, ai Jesus! Sempre era uma aflição em casa dos Régio: ouviam-se gritos que até corta o coração saber escutá-los. Desde o irmão, ao pai, e passando pela mãe, todos lhe gritavam “ Xó daqui, cachorra tinhosa! Xetá daqui pr´a fora, corpo e alma de bruxa. Devíamos queimar-te, como nos diz S. Cipriano, esse mago da Síria.” Mesmo nos dias calmos, em que a mãe se arrastava por um toque de ternura, ao ver Carla aconchegada nos cobertores, sentava-se a seu lado, colocava a cabeça no seu regaço e dizia-lhe baixinho, quase murmurando “Pelas duas tábuas de Moisés, onde Nosso Senhor pôs os seus sagrados pés, sai desse corpo Satanás”. E se é verdade, que não se deve invocar o nome de Nosso Senhor em vão, também o é, que Belzebu, o corno, e o cabrão, não deve ser chamado.
Durante essa noite, uma feiticeira moribunda apareceu a Carla, e contou-lhe a história de Lilit, a primeira mulher que Deus deu ao homem, ser acomodatício, cumpridor das proibições divinas, sobretudo a de pronunciar o exacto nome do Criador. Mas Lilit não se conformava com esta condição humana, entendia que o marido era um mole e incitava-o a revoltar-se, pois mais ninguém deveria ser Deus do que cada um de nós. Mas o homem nada fez, e cansada de tamanha ambição, revoltou-se ela, elevando-se aos ares como uma deusa. Pois o homem não gostou e pediu nova mulher ao Criador, ao qual ele lhe deu Eva. Lilit zangada transformou-se em serpente, amaldiçoando o Paraíso, todo o homem e toda a mulher. Mais lhe disse a feiticeira moribunda, que o homem precisa de crer para sobreviver, mas que se ela aceitasse tal poder vivente e onírico, jamais alguém lhe poderia tocar. Pois é livre que nos cremos, e Deus é o nosso maior opressor. Ouvidas tais palavras, a mudez de Carla cessou, e a mesma lhe disse “Aceito”.
Os sinos tocaram na manhã seguinte em Monsanto. O Padre Antão, prometera o baptismo de Carla a Cremilda, e como os desígnios de Nosso Senhor, assim havia de cumprir-se. Mas no momento das rezas, Carla começou a rir, com um gosto de escárnio e mal dizer. Esconjurou os presentes, uivou como os lobos, cacarejou como as galinhas, e miou como os gatos. Diz-se também, que dizimou muitos carneiros, fez uma mulher vomitar pregos, rasgou o vestido a várias noivas, “chupou” vários recém-nascidos, mas, embora crendo, não nos é possível confirmar tais feitos.
O certo é que a multidão, logo após se ter benzido, lhe chamou possessa, clamando “Matem-na, Prendam-na, Queimem-na como já se fez no Rossio em Lisboa”. Carla começou a correr, e a descer a serra que segura Monsanto. Vários homens partiram com archotes à sua procura, mas, os poucos que dela se aproximaram, viram a sua pele ficar peluda, os dentes crescerem-lhes, as unhas transformarem-se em garras, e da boca saírem uivos guturais. Os outros viram-se presos pelo Fogo que deflagrou cá em baixo, queimando pinhais e sobreiros. Pois Carla, entre Penamacor e Sortelha encontrou um terreiro, onde se despiu e já nua e untada, dançou pela Lua, dançou pelo Sol, dançou pela Chuva e pelo Fogo (houve até quem a tivesse visto a beijar o rabo do Diabo). E, depois de um último olhar para a sua aldeia natal, fez as pedras do castelo deslizarem e rolarem por toda a aldeia. As mulheres, boas e más gritavam, agarrando-se aos filhos, outras viam os maridos ficarem esmagados pelas pedras que por lá caíam. A pouco e pouco todos iam morrendo, incluindo os Régios que acabaram soterrados por uma cruz de ferro, em honra dos soldados que haviam partido para a guerra. Quando este crime hediondo terminou, Carla, triunfante, olhou mais uma vez aquele conjunto de pedras que cobria a aldeia e repetiu novamente a palavra que dissera à feiticeira moribunda “Aceito”...Depois disto, ninguém mais lhe pôs a vista em cima. Houve quem dissesse que ela se evaporou, houve quem dissesse que a terra se abriu e assim a engoliu. Houve quem dissesse...mas isso já não nos interessa.

Pois assim se desenrolou esta tremenda tragédia. Agora não se vá dizer que esta história nunca aconteceu. Agora não se vá dizer que Monsanto ainda persiste lá em cima sob o castelo. Agora não se vá dizer que Carlas há muitas, mas poucas têm este fim. Agora não se vá dizer que quem escreveu esta história quis apenas usar a Aldeia mais portuguesa, para demonstrar o Portugal mais português. Agora não se vá dizer, pois não se diga mais do que dito ficou...


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Pintura de Paula Rego)

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fevereiro 26, 2005

"X E Y: A ESTÓRIA"- CAPÍTULO 11

Dou continuação, com este post, à estória de X e Y cujos últimos capítulos foram editados no passado dia 13. Se eventualmente já esqueceram algo... vá lá... recuem uns dias para que seja retomado o "fio da meada". Se continua tudo fresco na vossa cabeça, é só continuar o acompanhamento... já... passando de imediato para o texto que se segue:


DESFRAGMENTAÇÃO DO ROSTO

Espero pelo troco enquanto me habituo à ideia de ter de sair dali. A minha cabeça está num caos absoluto. As ideias voam, desordenadas. Eu tento formar um puzzle, organizar os pensamentos e suposições numa sequência, na tentativa de encontrar uma solução, de achar a pista certa. Tudo o que eu precisava era de um pretexto para voltar a ti. Perder-te de vista, não voltar a ver-te nunca mais, era, agora, insuportável. E esta sensação pesada fazia-se acompanhar dessas ideias, dessas suposições, de caminhos labirínticos e sem saída.
De onde eras? Onde e como poderia eu encontrar-te? Estas eram a base de todas as outras perguntas que se seguiam, dentro da minha cabeça, numa correria incansável. E davam as mãos, puxando a seguinte e a seguinte e a seguinte. Dentro da minha cabeça. Uma maternidade de pensamentos grávidos em trabalho de parto. Progressivamente.
Abro a mão e aceito algumas moedas que caem, mortas e frias, de uma outra mão, delicadamente quente. E desta vez apresso-me em tirar os meus olhos do verde luminoso e atraente dos olhos da Ema, que me sorriam com imutável simpatia. Digo até logo e lanço-te um último olhar. Um olhar que talvez revelasse mais súplica que outra coisa. Um olhar que revelava urgência, desespero e saudades que não existiam. Mas tu sorrias, quem sabe se, troçando pela vitória de teres conseguido divertimento gratuito logo pela manhã. Quem sabe se sorrias apenas por estares feliz ou por seres feliz; se sorrias da situação pela sua graça mas sem maldade.
Quando voltei as costas à tua imagem, ainda consegui ver a expressão de alegria vincada no rosto da outra tua amiga, a morena de cabelo avermelhado tão comprido quanto encaracolado.
No regresso ao trabalho, em estado de efervescência, esforçava-me por decorar caras, expressões, sorrisos, gestos, olhares, posturas. A cada passo que dava, reconstruía toda a história, toda a acção forte e vaga que se enrolava e desenrolava dos meus olhos para a cabeça, e da cabeça para o resto do corpo. E eu pensava se tudo aquilo não passaria de um sonho, de uma visão; se não teria eu enlouquecido ou a minha imaginação estivesse momentaneamente avariada. Isto era injustificável.
Durante esse dia, o trabalho que tinha, em geral, a capacidade, o poder de me abstrair fosse do que fosse, não conseguiu, irremediavelmente, retirar-me daquele estado em que fiquei.
A minha intuição dizia-me que não eras de cá. Podia deixar-me enganar pelos meus olhos que conhecem todos os rostos de vista. Podia deixar-me levar por outras suposições igualmente válidas. O facto de seres de outra localidade. De teres estado numa ausência demasiado longa para eu ter esquecido o teu rosto mesmo que só o tivesse visto uma vez e de relance. Mas nada disto me convencia a ficar de acordo com a hipótese de teres nascido e crescido na mesma terra que eu. Tu não eras daqui. A minha intuição raramente me induziu em erro. E eu confiava mais no meu instinto do noutra pessoa ou até, em coisas vistas pelos meus próprios olhos.
A continuação desse dia foi um verdadeiro inferno. O telefone não me dava descanso. Assuntos de última hora rompiam com a mesma urgência que eu tinha em reencontrar-te, e com necessidade semelhante de ficarem resolvidos no mesmo instante, à necessidade que eu tinha de resolver por onde começar a minha busca. Eu dividia, conforme podia, a minha concentração nos assuntos laborais de grande responsabilidade, com pensamentos confusos, ilusórios girando à tua volta. Por vezes, um dos meus colegas, com quem tinha maior confiança, perguntava se estava tudo bem comigo. E apesar de não fazer perguntas indiscretas, pois intrometer-se na vida dos outros não era o seu forte, o meu estado inconstante, de desinquietação, não lhe passou despercebido.
Por acaso, fomos almoçar juntos como era costume de vez em quando. E durante o almoço, que decorreu num restaurante não muito longe do local onde te descobri, empenhei-me ao máximo por manter uma postura normal, igual à de todos os outros dias. Comentar a minha vida pessoal, a minha vida privada com outras pessoas, era coisa que não se enquadrava no meu estilo de vida, e que destoava com a minha personalidade reservada. Por outro lado, eu fazia questão de separar as águas. Trabalho é trabalho e tudo o que a ele diga respeito, tudo o que a ele esteja ligado é tido por mim como uma questão sagrada, religiosa e, portanto, independente do restante.
Falamos sobre temas diversos da actualidade de um mundo que nos fazia girar à nossa volta; à volta dos outros, e de um todo interligado com outros todos que nos faziam girar à volta deles. As palavras quase saíam com a mesma velocidade que entravam pelos meus ouvidos, enquanto levava o garfo à boca, ou degustava o vinho que caía melhor do que a comida. Creio que estava sem apetite e sem assunto de conversa. Por isso, limitava-me a concordar ou discordar com aquilo que ele ia dizendo.
Já no final do almoço, calhou ele ter perguntado como estavam a correr as mudanças. Eu já nem me lembrava dessa questão que nos últimos tempos havia trazido algum entusiasmo extra à minha vida fechada.
Quando resolvi ir viver sozinho, deixar finalmente, a casa dos meus pais, comentei com o meu colega que andava à procura de casa no centro da cidade mas que me interessava um espaço não muito grande. Uma casa suficiente para uma só pessoa. E foi ele quem me deu uma mãozinha a encontrar aquela que correspondia às minhas expectativas.
Terminámos a refeição com esta conversa que, independentemente de pertencer à minha vida pessoal, não era nenhum assunto secreto. Tomámos café e seguimos, com maior satisfação, para o local de trabalho que nos esperava, interminável e agitado.


(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Christian Coigny)


O próximo capítulo será editado dia 05 de Março, Sábado.


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fevereiro 25, 2005

DAS RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS E LÉSBICAS NA LITERATURA (2ª SÉRIE- 5)

Harry Mulisch, escritor holandês contemporâneo nascido no ano de 1972, é o autor da obra a que faço recurso. "Duas mulheres" consubstancia-se nas retrospectivas que Laura, a narradora, faz dos últimos tempos da sua vida, no contexto da morte da mãe. Nesse âmbito, o relato do envolvimento com uma mulher- Sílvia.
É, pois, da forma como se verifica o primeiro contacto e o início da relação entre ambas, que aqui apresento excerto:

Silêncio.
- Devo dizer-te - disse-lhe eu, talvez uns dez minutos depois de lhe ter dirigido a palavra pela primeira vez, - que não sou uma pessoa muito faladora-
- Eu também não - disse ela.
O que é que se passava comigo? Era uma espécie de declaração que alguém faz num restaurante de estação, onde se encontra com um outro infeliz que respondeu ao anúncio para fins matrimoniais que tinha posto no jornal, quando desde o princípio se tem a intenção de ficar junto para a vida toda. Pelos vistos ela também achava que não era um encontro qualquer - senti isso de imediato quando olhei para as costas dela.
Eu tinha ido comprar pão. Era um sábado à tarde, o sol de Fevereiro brilhava palidamente sobre a cidade. Vi-a do outro lado da rua, ao pé da montra de uma joalharia. Fiquei parada. Olhei para as costas dela e para a nuca, e para a barriga das pernas, metidas numas botas de um vermelho vivo, e ao mesmo tempo interrogava-me porque é que eu estava parada a olhar para ela. Era como se tudo na rua se tivesse deformado e desfocado, como numa determinada espécie de fotografias, enquanto apenas aquela rapariga tinha permanecido bem nítida, no meio da imagem. Não que a vista de trás fosse particularmente bonita: ficava-lhe muito bem o cabelo apanhado de forma solta, mas as costas dela eram um pouco compridas demais, as ancas demasiado estreitas e as pernas não eram tão direitas como geralmente dá gosto ver. Mas tudo se desviava do ideal num sentido que de uma maneira ou de outra se ajustava exactamente a mim. O corpo humano é um sistema de comunicações: acerca dos olhos e da boca todos estão de acordo, e acerca das mãos, mas também os pés e o pescoço e as barrigas das pernas falam uma língua que não pode mentir. Mesmo cortando-lhe a cabeça e os braços, ela continua a ser uma mensagem ideal que merece um lugar no Louvre.
Atravessei a rua. De repente arfava um pouco. Nunca antes tinha sentido tão claramente a sensação, de um segundo para outro, de que estava a fazer algo que iria alterar a minha vida por completo. Nunca tinha tido nada com uma mulher e naquele momento mal me apercebi do que estava prestes a acontecer. Provavelmente, naquele momento ainda pensei que me estava a deixar arrastar por um qualquer sentimento platónico, oriundo da história da arte, resultante das minhas leituras.
(...)
Tinha-me posto ao lado dela. O meu coração batia com força. Ela lançou-me um olhar surpreendido e assustado, e naquele exacto momento desapareceram da cara dela os indícios de angústia e aflição, de modo que pude ver como é que ela era.
(...)
Fazia frio. Caminhávamos ao lado uma da outra através de ruas onde não tínhamos nada para fazer. Ainda não estava claro para mim o que é que eu queria propriamente, apenas que queria continuar a andar ao lado dela, como um cão ao lado do dono - quer dizer, como um cão de um cego, porque o dono não tomava qualquer iniciativa.
- Onde é que havemos de ir? - perguntei.
- Onde quiseres.
- Tens alguma coisa especial para fazer hoje?
- Eu nada. Hoje tirei um dia de folga.
Será que eu própria tinha alguma coisa que fazer? Eu tinha estado casada durante sete anos e já há cinco anos que me tinha divorciado. Fazia o meu trabalho no museu, e as visitas à minha mãe eram ao mesmo tempo as minhas férias. De vez em quando lá ia para a cama com um homem que tinha conhecido por aí. Na maioria das vezes isso passava-se em minha casa. Eu não tinha interesse nenhum em ter uma relação permanente; aliás, os homens que mo propuseram tinham na maior parte dos casos uma família, e nos fins-de-semana, infelizmente, - tens que compreender isso, querida, eu também quereria que as coisas fossem diferentes - não estavam disponíveis.
(...)
Sempre estivera convencida que de repente algo aconteceria, num determinado dia - mas só se eu não procurasse. Tudo aquilo em que concentramos a nossa vontade e a nossa atenção torna-se invisível, inacessível, esta é pelo menos a minha experiência. Só reparamos bem nas coisas quando as vemos pelo canto do olho, num momento em que outro assunto ocupa a nossa atenção. Então, é como se a realidade se sentisse ignorada e, não conseguindo aceitar isso, se impõe a nós.
- Vamos até minha casa beber qualquer coisa?- perguntei.
- Acho uma ideia óptima.


(Harry Mulisch- DUAS MULHERES. Pintura de Raphael Perez)


Com este post dou por encerrada a semana temática "Das relações homossexuais e lésbicas na literatura" (2ª Série). Desejando que esta série vos tenha agradado tanto como a primeira ou simplesmente agradado, sem se fazerem comparações, dado que cada conjunto de textos vale por si, despeço-me agradecendo todas as participações e apoios demonstrados. Beijo grande para todos :)

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fevereiro 24, 2005

DAS RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS E LÉSBICAS NA LITERATURA (2ª SÉRIE- 4)

Tal como foi registado no post anterior, apresento hoje um excerto de um capítulo de "Vagabundos de Nós", de Daniel Sampaio, em que a protagonista é a mãe. A mãe do Diogo, o jovem que de si nos fala, relatando aquele que foi o seu desenvolvimento como criança e jovem, conjugando-se a este nível, a evolução da própria sexualidade, com tudo o que teve inerente. A mãe, uma mãe, que fez os seus acompanhamentos, que foi tirando as suas conclusões... ou nem tanto... ou tardiamente... e que nos vai revelando os seus estados de espírito. Por outro lado, sempre com uma grande força, o tipo de relação tida com este filho.
São, pois estes, alguns dos seus pensamentos:

Podes ter a certeza. Gosto do Francisco desde o primeiro momento, encantou-me a tranquilidade do seu sorriso, o modo educado como cumprimenta, sobretudo a ternura com que te olha.
Foi preciso vencer muitos medos. Por estranho que pareça, Diogo, era mais simples não saber com quem andavas do que te ver amar uma pessoa concreta. Quase me envergonha dizer isto, mas continuo a pensar que ninguém te pode dar mais carinho do que eu. Egoísmos de mãe! Quando chegavas a casa de madrugada e na manhã seguinte tentava em vão tirar-te da cama, vinham-me à cabeça os riscos que corrias, doenças, vinganças, problemas com a polícia, mas tinha a certeza de que uma parte de ti continuava a ser minha, como não amavas ninguém eu continuaria em primeiro lugar. Foi por isso que tive medo quando disseste que finalmente tinhas uma relação importante. Parecias feliz mas a princípio não me alegrei, só apareciam o ciúme e o abandono, receios de que partisses de vez daquela casa e eu ficasse só no mundo, a ver adoecer a avó Xinha e a sentir o teu pai cada vez mais longe.
O tempo ajudou, duas ou três semanas obrigaram-me a reflectir. A pouco e pouco esqueci estes pensamentos egoístas e mesquinhos, compreendi que nada poderia ser melhor do que ter alguém para amar. Sei agora que o acontecimento decisivo foi o jantar a três no restaurante de Campo de Ourique. Aquele sorriso fez desaparecer todas as dúvidas, o modo tranquilo como o Francisco te respondia deu-me a paz há muito pretendida.
Prefiro deixar as coisas assim, não falarei do Francisco a ninguém. Quando as minhas amigas perguntarem pelas tuas namoradas continuarei a dizer que não as conheço e que me pareces um rapaz que não se quer prender. Ao teu pai nada direi, vou limitar-me a responder que tudo vai bem, entraste na Faculdade no curso de Sociologia escolhido em primeira opção, não era isso o mais importante para ele? (...)
A culpa, no entanto, não me deixava sossegar. Onde tinha falhado? Por que motivo não tinha interpretado os sinais que observava desde a tua infância? Não tinha sido cobardia jamais ter interrogado o teu destino, ou questionado aquilo que era evidente no teu percurso?
Dormia mal. Sonhava que a avó Xinha te descobria um dia com o Francisco, ou que o teu pai voltava ao passado, os dois descontrolados batiam-se à minha frente (...). Noutras ocasiões não conseguia adormecer, as minhas amigas tinham-te vsto de mão dada com o teu namorado à entrada de um bar gay, a Alice dizia finalmente perceber por que razão eu não gostava de falar das tuas namoradas.


(Daniel Sampaio- VAGABUNDOS DE NÓS. Pintura de Raphael Perez)

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fevereiro 23, 2005

DAS RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS E LÉSBICAS NA LITERATURA (2ª SERIE- 3)

Conhecido pelo grande público, Daniel Sampaio é o autor que merece, hoje, a minha e a vossa atenção. Nascido em Lisboa em 1946, concluiu o curso de Medicina em 1970, doutorou-se em 1986, fez provas de agregação em 1997, na Faculdade de Medicina de Lisboa, onde é professor de Psiquiatria. Foi um dos introdutores da Terapia Familiar em Portugal.
É Chefe de Serviço de Psiquatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, dedicando-se à intervenção terapêutica junto de jovens em risco.
Quer da sua prática profissional, quer de visitas a escolas e contactos com professores e alunos, Daniel Sampaio extrai ideias para ir escrevendo livros, sendo vários aqueles já existentes no mercado. No que a estes respeita temos, então, "Droga, Pais e Filhos" (1978), "Terapia Familiar" (1985), "Que Divórcio?" (1991), "Ninguém Morre Sózinho- o adolescente e o suicídio" (1991), "Vozes e Ruídos- Diálogos com Adolescentes" (1993), "Inventem-se Novos Pais" (1994), "Voltei à Escola" (1996), "A Cinza do Tempo" (1997), "Vivemos Livres Numa Prisão" (1998), "A Arte da Fuga" (1999), "Tudo o Que Temos Cá Dentro" (2000), "Lições do Abismo" (2002), "Vagabundos de Nós" (2003).
E é precisamente o excerto de um capítulo de "Vagabundos de Nós" que seguidamente apresento. Um livro que aborda a questão da homossexualidade numa perspectiva alargada: contada, entendida e sentida por um filho e por uma mãe, alternando-se os capítulos com intervenções dos dois. Intervenções que, contudo, permitem o conhecimento de outras pessoas, inclusive um psiquiatra ao qual a mãe recorre.
Hoje apresento-vos o filho, amanhã estará aqui a mãe. Penso que é um complemento que deve ser feito, por forma a enriquecer e rentabilizar o conteúdo... neste caso, a divulgação de parte do conteúdo da obra em questão.
Quanto ao primeiro excerto:

Cláudia, disseste-me uma noite que estávamos a caminhar para um fim qualquer e, embora não o manifestasse, julgo que entendi. A solidão era a minha melhor companhia e, mesmo quando estava ao pé de ti, era o silêncio que escrevia palavras no teu rosto.
Compreenderás (se ainda te lembrares de mim, cinco anos passados) como era difícil contar-te o que ia cá dentro, falar do medo que sentia sempre que estava contigo. E, apesar disso, estava certo do meu amor. Desejava que os dias passassem e pudesse acordar de novo com a tua voz no telemóvel, ou então que o fim de tarde chegasse para estarmos um com o outro. E, embora com receio, era o sentir do teu corpo que me tranquilizava e dava esperança de um dia alcançar a paz. (...)
Onde está o momento da separação que continuo a procurar na minha memória, aquele minuto em que decidi partir e deixar-te? Durante muitos anos o procurei sem sucesso. Talvez tenha sido depois da conversa com o teu irmão. Recordas-te decerto, Cláudia.
Em cima da cómoda do teu quarto, ao lado de um pequeno búzio que escolhi para ti na Praia da Aguda, vi uma caixa de preservativos de uma marca desconhecida. Tínhamos tido relações quatro ou cinco vezes, os meus fantasmas só me tinham visitado por minutos, tinha sido bom. Não querias, é lógico, engravidar e, como fumavas, tinhas medo da pílula, por isso ia-me habituando ao preservativo.
Quando vi uma marca diferente pensei logo que andavas com outro e o nosso amor era uma mentira, de certeza que não tinhas prezer comigo porque era gay.
Ou então eu é que andava a fingir para fugir ao meu problema, tu tinhas reparado e fazias de conta, o melhor era teres prazer com outro. (...)
Perdia-me em mim próprio. Um dia pensava que as coisas iam bem entre nós, noutros momentos o medo dominava-me. Pensava na escola, todos iam saber que tínhamos acabado por eu ser maricas, de certeza passariam a gozar comigo como faziam com o Rafael. O melhor era desistir de tudo, acabar com este namoro que só existe para disfarçar, assumir desde já que sou gay e nada mais. (...)

E, quinze dias depois do problema do preservativo, aconteceu o pior. Os teus pais estavam fora de Lisboa e o teu irmão ia dormir num sítio qualquer, a casa finalmente só para nós.
Nada resultou como te lembras. Foi tudo culpa minha, Cláudia. Se ainda recordas, como espero, quero que saibas, não foste responsável por nada. Fui eu que me descontrolei uma vez mais.
Falavam de homossexuais na televisão, a mãe de um deles disse que tinha custado a princípio mas que agora estava tudo bem, afinal era uma questão de opção. Apeteceu-me mudar de canal mas parecias interessada e não quis dar nas vistas, se calhar a senhora tinha razão e o melhor era não disfarçar, dizer que era e talvez pudesse contar com a tua amizade para toda a vida.
Quando começámos a fazer amor no chão da sala, imagens loucas assaltavam-me, apressei-me a olhar para o teu sexo porque, de repente, tive medo de estar a fazer amor com um homem.


(Daniel Sampaio- VAGABUNDOS DE NÓS. Pinturas de Raphael Perez)

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fevereiro 22, 2005

DAS RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS E LÉSBICAS NA LITERATURA (2ª SÉRIE- 2)

Thomas Mann (1875-1955) é o escritor que vos trago hoje. E dele a obra "A Morte em Veneza" (escrita entre Julho de 1911 e Julho de 1912). Uma obra que apresenta um interesse... uma paixão, com cunho altamente platónico, de um escritor por um jovem de beleza singular. O cenário: Veneza. Veneza: a cidade que vai "presenciar" todos os acontecimentos, "sentir" todas as emoções, assim como a morte do escritor.
Estamos, de facto, perante um livro onde o Belo é altamente considerado, sendo o conceito feito desenvolver, naquela que é a relação com os sentimentos e emoções vividos. Um livro que, sublinho, tem um forte cunho auto-biográfico.
Deixo-vos com um excerto:

Um grupo de adolescentes e jovens adultos, confiados a uma perceptora ou dama de companhia, estavam reunidos à volta de uma mesinha de bambú: três jovens raparigas, aparentemente de quinze a dezassete anos e um rapaz de cabelos longos, de aproximadamente catorze anos. Aschenbach notou com espanto que o rapaz era de uma beleza perfeita. O seu rosto pálido e graciosamente circunspecto, emoldurado de caracóis cor-de-mel, com um nariz direito, uma boca aprazível e a expressão de uma afeiçoada e divinal seriedade, lembrava esculturas gregas nos tempos mais nobres. No mais puro acabamento da forma era tal o encanto pessoal, que o observador julgava nunca ter encontrado quer na natureza quer nas artes plásticas algo de semelhante perfeição.
(...)
Um sentimento de delicadeza ou de susto, uma espécie de consideração ou de pudor levou Aschenbach a desviar o olhar, como se nada tivesse visto; pois ao contrário do sério observador ocasional de uma reacção passional não agrada de modo nenhum tirar proveito das suas observações, nem que seja para si próprio. Mas sentia-se alegre e ao mesmo tempo abalado: sentia-se feliz. Este fanatismo infantil dirigido contra um pedaço de vida tão inofensivo deu à inexpressividade divina um toque de humano, transformou a preciosa obra-de-arte da natureza, que apenas servirá para deleite do olhar, numa entidade digna de mais profunda compreensão. Concedia àquele adolescente, cujo corpo se destacava pela beleza, uma dignidade que ultrapassa a sua idade.
(...)
A visão daquela figura viva com caracóis gotejantes, originalmente pura e austera, bela como um deus vindo das profundezas do céu e do mar, emergindo e escapando-se aos elementos, despertava imagens míticas, era como poesia de tempos primordiais, tempos de origem da forma e do nascimento dos deuses. Com os olhos fechados, Aschenbach escutava este canto que soava no seu interior e novamente pensou que se sentia bem aqui e que queria ficar.

Aschenbach não amava o prazer. Sempre e onde quer que estivesse a divertir-se, a descansar ou a gozar uns dias agradáveis, era impelido por uma inquietante e obstinada força de regresso à enorme fadiga, à tarefa sagrada e sóbria do seu dia-a-dia. Só este lugar o enfeitiçava, descontraia a sua vontade, o fazia feliz.
(...)
Estátua e espelho! Os seus olhos estreitavam aquela nobre figura à beira do azul e, enlevado neste delírio, julgava envolver com o seu olhar a própria beleza, a forma enquanto pensamento divino, a perfeição una e pura, que vive no espírito e da qual uma cópia, uma parábola humana aqui estava erigida para ser idolatrada. Era este o seu êxtase; e o envelhecimento do artista recebeu-o sem hesitações, com avidez até.
(...)
Alguma relação e um conhecimento tinha de nascer forçosamente entre Aschenbach e o jovem Tadzio, e era com uma alegria penetrante que o mais velho percebia que a sua atenção e participação não ficavam completamente incorrespondidas.


(Thomas Mann- A MORTE EM VENEZA. Pinturas de Raphael Perez)

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fevereiro 21, 2005

DAS RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS E LÉSBICAS NA LITERATURA (2ª SÉRIE-1)

A semana que hoje se inicia vai lançar a 2ª série da edição de textos que se enquadram na temática "Das relações homossexuais e lésbicas na literatura". E nesta nova série, outros autores, outras formas de abordar as realidades, outros estilos para fazer pensar. Para fazer pensar e para fazer apreciar ainda mais a Literatura, naquela que pode ser a sua riqueza, em particular, em termos de apresentação das realidades, das complexidades e variedades que tem inerentes.
Esta semana arranca com um excerto de uma das obras da escritora Marguerite Yourcenar- "Alexis". E Alexis é um homem, um músico que decide pôr término a três anos de casamento por querer assumir por completo aquela que é a sua sexualidade. Esta obra é, pois, a confissão de Alexis a Monique, sua mulher. Mas é uma confissão contida, não explícita... é uma confissão que se deve subentender. É um dizer, não dizendo directamente. Mas é. E basta estarmos atentos para o perceber.
A propósito desta obra destaco que foi escrita em 1929 com tudo o que isso reflecte de "teorizações" ou explicações sobre a questão da homossexualidade. Seja como for tal não invalida os grandes problemas que são colocados, nomeadamente, aqueles resultantes da (não) aceitação e (não) compreensão social (muito mais dilatados nos inícios do século XX no que concerne a exclusão e marginalização). Ou seja, as questões do preconceito, da imposição de uma moral e de determinado tipo de condutas/posturas/preferências, continuam com uma presença bastante real.
Quanto ao excerto... passemos a ele:

Fui educado pelas mulheres. Era o último filho de uma família muito numerosa; era de compleição doentia; a minha mãe e as minhas irmãs não eram muito felizes; razões de sobra para que eu fosse amado. Existe tanta bondade na ternura das mulheres que durante muito tempo julguei poder dar graças a Deus. A nossa vida, tão austera, era aparentemente fria; tínhamos medo de meu pai; mais tarde, dos meus irmãos mais velhos; nada aproxima tanto as pessoas, como terem medo juntas. Nem a minha mãe nem as minhas irmãs eram muito expansivas; a sua presença era como a dessas lâmpadas frouxas, muito suaves, que mal iluminam, mas cujo clarão uniforme impede que faça demasiado escuro e se fique realmente só. Não se imagina quanto há de tranquilizador, para uma criança inquieta como eu era então, na afeição sossegada das mulheres. (...)
Encontro-me pela segunda vez à beira de uma confissão; melhor será fazê-la de imediato e com toda a simplicidade. As minhas irmãs, bem o sei, também tinham companheiras, que viviam familiarmente connosco, e das quais acabava por julgar-me quase irmão. Contudo, nada parecia impedir que eu amasse alguma dessas raparigas e talvez vós própria achareis singular que o não tenha feito. Precisamente, era impossível. Uma intimidade tão familiar, tão tranquila, arredava as próprias curiosidades, as próprias inquietações do desejo, supondo que a tal me abalançasse junto delas. Não creio excessiva a palavra veneração, que há pouco empregava, aplicada a uma mulher de grande bondade; cada vez menos o creio. Suspeitava já (exagerava, até) quanto há de brutal nos gestos físicos do amor; ter-me-ia repugnado aliar essas imagens da vida doméstica, sensata, perfeitamente austera e pura, a outras imagens, mais apaixonadas. Não nos enamoramos daquilo que respeitamos, nem porventura daquilo que amamos; não nos enamoramos sobretudo daquilo com que nos parecemos; e aquilo de que eu mais me diferençava não era das mulheres. (...)
Dir-se-ia que eu quis explicar há pouco as minhas inclinações por influências exteriores; contribuíram por certo para as fixar; mas vejo perfeitamente que devemos atentar em razões muito mais íntimas, muito mais obscuras, que não compreendemos bem porque se escondem dentro de nós. Não basta ter determinados instintos para se esclarecerem as suas causas, nem ninguém pode, afinal, explicá-las por inteiro; por isso não insistirei. Queria simplesmente mostrar que esses instintos, justamente porque eram naturais em mim, podiam desenvolver-se durante muito tempo sem que eu desse por eles. As pessoas que falam só pelo que ouviram enganam-se quase sempre, porque estão a ver de fora, e vêem grosseiramente. Não imaginam que certos actos que consideram repreensíveis possam ser ao mesmo tempo fáceis e espontâneos, tal como a maior parte dos actos humanos, aliás. Acusam o exemplo, o contágio moral e adiam apenas a dificuldade de explicar. Não sabem que a natureza é mais diversa do que se julga; nem querem saber, porque lhes é mais fácil indignarem-se do que pensar. Fazem o elogio da pureza; não sabem quanto pode haver de turvo na pureza; ignoram sobretudo a candura do erro.


(Marguerite Yourcenar- ALEXIS. Pintura de Raphael Perez)

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fevereiro 20, 2005

A FIDELIDADE

Porque este fim-de-semana é dela, deixo-vos com outro texto da Paula. Mais um texto. Um outro. Uma outra temática. Relações interpessoais. Relações entre casais. Relações para além das supostamente "oficiais". Legitimidades? Fidelidades? Infidelidades? O que é isso? E face a quê ou a quem? Enfim... Uma proposta de análise e interpretativa. Algo mais, com um cunho muito pessoal. Ora leiam.

Este é o mundo dos desapaixonados.
Este é o mundo, não dos que traem, mas dos que são traídos, dos pintores amargos, mergulhados no vício e no mal, num ambiente cinzento e torpe, onde nunca brilha a luz da esperança e da bondade.
Este é o mundo dos que padecem da doença de terem sido alvo da infidelidade. Um homem e uma mulher, sem nomes, esquecidos, perdidos no vácuo de serem ambos subreptíciamente traídos por aqueles a quem amam. Um homem, sorvedor dos caprichos de uma mulher que o engana tanto quanto pode; uma mulher, incapaz de se libertar das cadeias de vício que a une a um homem que a trai com cada mulher que encontra. Um homem e uma mulher... O café, encenado numa praça londrina no centro de L., concentra nele a delícia de se purificar e realizar o bem. Neste pântano sem céu, onde o cheiro a grãos de café se mistura com a névoa de fumo que enrola o ar que cada ser sente. O homem e a mulher estão sentados em mesas paradoxalmente opostas, como se mundos paralelos e interligados se confrontem com estranhos paradigmas. Em cada uma das suas mesas esconde-se um livro, uma chávena de café suja e vazia, um cinzeiro e beatas.
Fumam e absorvem o fumo, numa última tentativa de recuperarem as lágrimas amargas despejadas pelo sentimento do engano. Reconhecem-se ambos, como dois siameses que, depois de tantos anos separados, se juntam finalmente. Reconhecem a expressão da traição, da faca cravada nas costas. Estão em silêncio, pois nenhum deles quer assumir a responsabilidade de encorajar o outro a deixar de o olhar. O homem e a mulher observam-se como marca do seu triunfo. Os olhos vítreos pousam e descaem-se mutuamente como sinal de que ambos preparam uma dura vingança. A vingança é sempre um atributo do prazer, e os dois sabem que, este sinal dos seus olhares não representa a tristeza de estarem a ser traídos, mas a grandiosidade de serem eles mesmos os traidores. Porém, a pouco e pouco, olhar de ambos vai-se desvanecendo na bruma e nos sons irritantes das máquinas de café. A pouco e pouco, o homem e a mulher vão-se tornando cada vez mais infelizes na sua infelicidade.
A pouco e pouco, a consciência de que continuam ambos a ser traídos, vai sendo retomada e obstinadamente concentrada. Reconhecem que, nunca os seus olhares indefesos poderão colmatar a lacuna da infidelidade alheia. O homem levanta-se e aproxima-se, com passos lentos e vagarosos, da mesa da mulher. O movimentar de rins faz balouçar o corpo ligeiramente para a esquerda, atribuindo-lhe um ar arqueado e desmesuradamente torto. A mulher não se surpreende, mas baixa os olhos sobre a mesa e sobre as beatas perdidas. Conta-as, num estranho exercício de futilidade, mas não as consegue somar, não as reconhece no seu todo. O homem crava os dedos no antebraço da mulher e impulsiona-a a levantar-se. O momento em que a mulher se decide a abandonar a cadeira é atravessado por um casulo de devaneios, como o reconhecimento de uma aventura visível, efectuada no mundo dos homens e das coisas. Os corpos de ambos são movidos por uma verdadeira suspeição, como o tuberculoso que sente subir à boca o gosto do sangue misturado com a saliva.
Presos na gravidade da atmosfera, a mulher segue o homem como uma sombra. Não se falam, não se perguntam, não se compadecem. Deixam-se arrastar por essa força de ar que é o sentimento de vingança. Este é o mundo dos traídos... Na porta de um dos prédios lê-se a palavra "Devoluto", um estranho significado para a mente do homem e da mulher. Empurram a porta pesada e ruidosa e, sem a mínima atenção, sobrem o lance das escadas. No patamar, um ruído mal sufocado de alguma colónia de ratos irrompe sobre os ladrilhos poeirentos, juntamente com um murmúrio confuso e íntimo dos seus pés. Empurram uma das portas e vislumbram o apartamento, palco dos seus delírios. No vestíbulo, vasto e negro, o homem e a mulher tiram o casaco. Abrem-se nele três portas; defronte da entrada há uma grande janela escura, rectangular, que deve, sem dúvida, deitar para um pátio interior. Passam para a sala. - Instalemo-nos aqui. - Diz o homem, apontando para um grande sofá de pele, velho e traçado. Nesse momento despem-se, ficam totalmente nus. A mulher deixa descobrir, em primeiro lugar, os seios, pequenos e flácidos, para depois, em movimentos serpenteantes, deixar sair o resto do corpo. Estranho que o corpo, aquando nu, assume sempre uma natureza indefesa e vertiginosa, como uma verdade cálida e sofredora. Nesse instante, o homem, hábil nos seus movimentos, destapa o corpo, deixando transparecer a verdadeira virilidade masculina, o exercício de poder de que, durante tantos anos, os homens impuseram. Estão ambos nus, frente a frente, mas não ousam sequer imprimir qualquer som, e muito menos a tendência geral dos seres humanos, de usar o toque como reconhecimento.

De facto, no exercício de se quererem vingar daqueles que amam e que os torturam, depositam nos olhos o sabor da boca. Naquele antro de traição, sentem-se felizes por saber que, de qualquer modo, estão a vingar-se deles. A infidelidade coloca-lhes à disposição uma ideia de resposta e não uma necessidade de interrogação. Observam-se até cansarem os olhos. Nenhum deles ousa mexer-se... Durante dias, voltaram ao prédio devoluto. Despiam-se, observavam-se, vestiam-se, e voltavam às vidas inertes e tristes que os fazia querer voltar àquele lugar. Porém, à medida que esta estranha rotina se transformava num dogma, o sentimento de vingança ia-se tornando cada vez mais simplificado e inútil. Demovia-os cada vez mais do seu propósito. Num dos dias, quando o homem desabotoava a braguilha, os seus dedos tiveram a certeza de aprisionar um tesouro. A mulher apercebeu-se de tal dilema, e experimentava com isso um sentimento de humildade tranquila perante a serena e incomparável potência do membro para o qual dirigia o olhar.
Naquele dia, o sexo do homem afigurava-se como uma muralha com uma brandura extremamente provocante. A mulher deixou a mão baixar ao ventre e mergulhar-se no seu mais secreto domínio. Novamente o sentimento de vingança, a consciência de que respondia ao facto de ter sido alvo de infidelidade, voltava à mente. O rosto da mulher, tornava-se, com o balançar do corpo, cada vez mais pueril e beatificado. Os seus olhos, não se depositavam no membro do homem, mas no seu olhar, na consciência de estar ela mesma a ser observada. O homem sabia-o, e agarrava com os dedos o membro sólido e palpitante, nu e quente, todo preparado e desambaraçado da roupa, em brasa, e, ao mesmo tempo, gelado, para lançar na espessura do quarto, o registo final do seu prazer. O homem e a mulher acariciavam-se sozinhos e observados um pelo outro. Com dois esgares, deixaram transparecer um sentimento de vitória...
Um novo alento pousava na mente do homem e da mulher. Não se vestiram, antes deixaram-se estar nus, inocentes e incoerentes. A mulher levantou-se e vagueou pelo vestíbulo e pelos outros quartos. A casa não tinha qualquer outro objecto que não aquele sofá. Para qualquer pessoa, tal facto representaria um sentimento de desconforto, mas, para aqueles dois seres, representava a sensação de, também a casa participar naquele acto de vingança. O homem também se levantou e aproximou-se da mulher, que olhava pela janela. Subitamente, um grito surdo e oco produziu-se nas vozes de ambos. Quando aproximaram os olhos da dor, verificaram que, no chão de madeira, todo ele repleto de vidros, provenientes da janela partida, espelhava-se um líquido vermelho negro. O homem e a mulher, munidos de instintos animalescos, tornaram o chão e sugaram o sangue que escorria. Lambiam cada gota, cada vidro, quais vampiros da verdade. Não compreendiam a razão de estranha necessidade, mas sentiam-se saciados em deixar escorrer pela boca o sangue do outro. Nesse instante determinaram o destino. O mundo havia morrido, as trevas ecoavam pela casa...
O homem e a mulher fecharam-se naquela casa durante dias, sem água, sem luz, sem comida. Nesse exercício de prazer corrosivo, sentiam-se famigerados pela vida e pela morte. Não ousavam, no entanto, tocar-se. Ao fim de noites, os corpos, magros, cegos, desidratados e esfomeados, já não tinham qualquer autonomia. A palidez das suas expressões contrastava com a determinação de ambos. Nesse exercício de deturpação da condição humana, os olhares encontraram-se uma vez mais e, nesse instante, o Eros desafiou as convenções. A vingança transformara-se em ternura. O homem e a mulher já não viviam num mundo obscuro. A presença de ambos, o entrelaçar dos seus odores acres e sedentos, fê-los voltar ao mundo da virtude e do bem, ao mundo da esperança e da bondade, ao mundo dos apaixonados. Amavam-se... As suas bocas foram impelidas a tocar-se, mas, à medida que as peles se grudavam, um sentimento repelente tombava sobre as suas mentes. Era a voz da consciência que os chamava. O homem e a mulher estavam perto de se tornarem eles mesmos, naquilo que os trouxera - a infidelidade. No entanto, ao contrário dos seus passivos, eles não estavam prestes a tornarem-se infiéis aos seus companheiros, mas à sua situação de traídos. O seu mundo era o mundo dos traídos e dos desapaixonados, uma condição que os tinha constituído da qual não deviam, nem podia abdicar. Ao entregarem-se ao Eros, estariam a ser infiéis à própria infidelidade.
Não, o seu mundo não era aquele a que agora se propunham, nem nunca o poderia ser... O homem e a mulher, famintos e suados, separados, não ousaram sequer olhar-se. Sentiam-se como o criminoso punido e votado a uma liberdade condicional, em que qualquer acto suspeito seu, o poderia fazer voltar ao calabouço. Vestiram-se e arrastaram-se por esse prédio devoluto e moribundo com cheiro a podre. Chegados à Rua, depararam-se com a luz como se tivessem sido eles os escravos propostos por Platão, na Alegoria da Caverna. O homem e a mulher tornam a suas casas e voltam a esse estranho mundo da traição e do abandono. Sentados, deitados, em pé, nunca abdicarão dessa posição que os companheiros contratualmente os hão submetido. O homem espera a mulher que o engana tanto como pode; a mulher espera o homem que a trai com cada mulher que encontra.
Este é o mundo dos desapaixonados.
Este é o mundo, não dos que traem, mas dos que são traídos.
Enfim, estão sós.


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografias de José Marafona)


Publicado por void em 08:25 AM | Comentários (6) | TrackBack

fevereiro 19, 2005

A FELICIDADE NEM SEMPRE É DIVERTIDA

No contexto de acolher aqui no Abismo textos de companheiros da blogosfera, chegou hoje a vez de vos apresentar alguém cujo trabalho aprecio e cujo blog tenho linkado entre aqueles que visito. Falo-vos da Paula, blogger do "Divine Decadence Darling!"
O texto que a seguir edito é um exemplo daquele que é o seu estilo, do formato de apresentação privilegiado, assim como dos temas sobre os quais se debruça. Mas este texto é, em termos de conteúdo, também uma referência. Uma referência do que é ou pode ser o Homem. Uma referência de até onde pode ir o seu cinismo, a sua hipocrisia, o seu julgamento impiedoso.
Estamos, inequivocamente, perante um texto que nos faz parar. Parar para pensar, em particular, na dimensão do exercício... ou não... da nossa humanidade: connosco próprios e com ou em relação aos outros.
Espero que gostem!

O nosso Portugal está cheio de histórias, de medos, de alegorias, de assombrações.

E a aldeia dos S., situada onde as Beiras se cruzam, não é excepção. Contam-se muitas histórias, reflectem-se muitas sentenças, mas naquela aldeia, onde o pão ainda se come a cheirar a lenha, onde os lobos ainda aterrorizam as galinhas, onde os candeeiros a petróleo ainda substituem o Sol, só existe uma história, que é contada vezes e vezes sem conta, como sinal, como presságio para os mais novos, e como lição de vida para os mais velhos...

Nos tempos, em que o Salazar era Rei e em que a Fome era Rainha, aquela aldeia, pequena e insignificante, vivia presa a uma comunidade mesquinha e fechada. Sempre as mesmas caras, sempre os mesmos corações, sempre as mesmas frases feitas, que se desdobravam no medo da Guerra, com aqueles pretos de raça branca e os bons dias da vizinhança e as conversas malfadadas dos restantes. Nessa aldeia, vivia a pobre e bela Sara, oscilante entre a infância e a juventude, cujo pai, sapateiro na aldeia, envenenado pelo cheiro da graxa, morrera pobre, só deixando seis galinhas a sua filha.

No entanto, deixara-lhe mais - a promessa de um casamento, com um pequeno proprietário, que, todas as Segundas partia para a cidade, em busca de lucro e sustentação. Voltava todas as Quartas, depois de se satisfazer em sete bordéis, oito casas de jogo, e uma partida de futebol. Casado com Sara, a sua vida não mudou muito, excepto aos Domingos, em que descia com a jovem mulher pela aldeia até à Igreja e aí assistia à Missa, engalfinhado num fato gordo, preto e sujo, e às Quintas, em que montava a esposa, como um Boi monta a sua Vaca. Ele grunhia como os animais e mordia com tesão os peitos de Sara, enquanto lágrimas da mesma lhe molhavam a boca. Com todas estas sessões, a jovem engravidou.

A aldeia congratulou o homem, fizeram-no detentor de um título de bom pai de família, enquanto a jovem se debatia em dores com aquela gravidez entabulada em medos e desgraças. Quis o destino servir de lição, e a ordem chegou a casa destes. A necessidade de mais homens naquela Guerra de Colónias e Colonatos, e o homem, viu-se obrigado a partir sem demora, e sem tempo de ver o filho nascer. Conta-se que terá sido morto, lentamente, por ferros em brasa, nas mãos de algum galo justiceiro.

Na véspera de dar à luz, a mulher pediu ajuda a duas curandeiras, que, com quatro rezas e seis mezinhas, trouxeram aquela criança pura à luz do dia. Qual o espanto das mulheres que, quando fizeram a criança chorar, a sua cor era mais negra que o carvão. Aquele pequeno ser, representava a mais estirpe linha africana, de uma tez negra e pesada, com um corpo vivo e imponente, fruto de algum Rei de uma cidade perdida no sul de África. A mãe amou-o e não se perguntou sobre as razões de tal mistério de Deus.

No entanto, as bruxas curandeiras, afastaram-se e escarraram perjúrios aos Infernos - "Filho de um Corno, Irmão do Diabo. É o Demo que te manda à terra. Matem-no". Não levou muito tempo, em que a aldeia, virtuosa na sua fúria, roubasse a pobre criança, e a queimasse viva, entre doze rezas, ao lado da Igreja. Acusavam-na de amantizada de algum negro escravo e perdido "Que desgraça para o marido! Que desonra terá o pobre de suportar quando voltar dos nossos triunfos." A realidade, era que nunca ninguém, nem mesmo a Ciência, matreira em todas as respostas, conseguiu descobrir tal razão.

A Mãe não se recompôs de tal crime, e deixou a casa, os bens, e vagueou enlouquecida pelas margens da aldeia. Quando recuperou a sanidade, já era tarde de mais, pois a povoação já a tinha em conta, já lhe dera nome, e já lhe havia feito uma canção.. . As crianças no percurso para a escola, os homens à saída da taberna, as mulheres à saída da Sacristia, todos lhe cantavam a seguinte canção: Atirem Pedras à Puta Puxem-lhe bem esse cabelo De um homem Branco que foi prá luta Teve um filho que nasceu Preto. Todos os dias, enquanto ela passava por alguma casa, mais pobre que os pobres, mais esfomeada que os esfomeados, todos lhe atiravam a canção.

Alguns juntavam as fezes da semana e atiravam-nas à sua cara, outrora tão pura e gélida. Outros procuravam pedras, e atiravam-nas à sua barriga. Com o passar dos tempos, foi obrigada a vender o corpo, aos soldados, aos médicos das aldeias vizinhas, e ao próprio Padre que, julgando-a já excomungada, montava-se sobre ela, fazendo disso uma necessidade para a sua compra celestial e a sua extrema unção.

Um dia, enquanto a jovem Sara, ainda vagueava pelos terrenos, descobriu um vendedor, que vendia lotarias. Incumbido por essa Santa Casa, e, vendo a jovem Sara, rodeada de pestilência, nauseabunda, e encurvada, ofereceu-lhe uma cautela. Sara, já tão pouco habituada a gestos caridosos, aceitou-o de bom modo. Descobriu ela, que ganhara uma fortuna, e, escondeu-a nos pedaços de tecido que ainda trazia agarrado ao corpo. A pouco e pouco a aldeia foi percebendo tal dote da jovem Sara. Recusaram admitir, por resquícios de orgulho, que lhe deviam algum cuidado, mas, mais uma vez o destino lhes foi traiçoeiro. Uma ordem emanada pelo serviço central da União Nacional determinava a expropriação daquela aldeia, sem qualquer indemnização, devido à falta de verba do Município para fazer frente a um Investimento Hoteleiro megalómano por parte do país vizinho.

O terror instalou-se.
Foram feitas Assembleias de Freguesia, discutiram-se múltiplas teorias, mas o possível, tornara-se impossível. A aldeia não tinha verba para fazer face a tal empreendimento. Num futuro próximo, todos os habitantes, ficariam sem as casas, o Padre ficaria sem a Igreja e os donativos das beatas, o Banqueiro ficaria sem o Banco e o dinheiro depositado pelos habitantes, o Presidente da Junta ficaria sem o edifício da Junta e a fama alcançada. Só existia uma solução - o dinheiro da jovem moribunda Sara. Como ela o trazia escondido no ventre, roubar-lhe soaria a acto despropositado. E nisto a Aldeia reconheceu que só ela os poderia salvar.
A aldeia passou a idolatrar a jovem Sara.

Ofereceram-lhe uma casa, deram-lhe banho, adocicaram-na, perfumaram-na.

Pediram-lhe o dinheiro.

Era ver todos os habitantes a implorarem por esse conjunto de notas.

O Padre chorava e pedia-lhe compaixão, o Banqueiro pedia-lhe uma Satisfação, as mulheres pediam-lhe perdão, os homens elogiavam-na até mais não. E, nesse ponto, toda a aldeia descobriu que a amava, de todo o coração. Sara, sofrera muito, e a sua decisão, poderia ser a causa de novos males da povoação.
Ela sabia, que, pela primeira vez, tinha o destino de todos eles, preso e assente na sua mão. O Poder pertencia-lhe, e de certa forma, glorificava-a. Poderia certamente vingar-se de todos eles, de todas as maleitas que a haviam submetido. Contudo, os seus olhares desesperados, os seus medos, as suas angústias, repugnavam a sua cabeça e sua suposta vontade.

Sara confrontava-se com a mente e o coração. Aquela aldeia, um dia já a tratara bem, e certamente o voltaria a fazer. Neste confronto de decisões, a jovem entregou todo o dinheiro ao Presidente da Junta, que rapidamente o fez chegar à Capital, e impedir esta tempestade pelo Irmão mais Velho que é o nosso país vizinho. Agradeceram-lhe e fizeram uma festa em sua honra. Era, de se ver, a jovem, carregada ao colo, sobrestimada, acariciada, mimada. Dançou, bebeu, e deitou-se cansada e confiante. No dia seguinte acordou, repleta em suspiros aliviados, virando-se de lado e observando o nascer do Sol, que um dia julgara extinto. Quando abriu a porta, a aldeia, ainda em festejos de tal gratidão, já lhe cantava:
Atirem Pedras à Puta
Puxem-lhe bem esse cabelo
De um Branco que foi prá luta
Teve um filho que nasceu Preto.


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING!. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em 08:30 AM | Comentários (4)

fevereiro 18, 2005

UM ÉDIPO ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 3)

Deixo-vos um excerto de "Um Édipo", peça da autoria de Armando Nascimento Rosa. Um excerto... um pequeno texto... para vos sensibilizar para esta obra do autor: dramaturgo, ensaista e autor musical, em traços gerais.
Nascimento Rosa é doutorado em Literatura Portuguesa Dramática (Século xx), sendo professor nas áreas da Teoria e Estética, Dramaturgia e Escrita Teatral, tendo já um importante currículo ao nível da escrita de peças. Regista-se aqui: "Goiânia- Uma nova caixa de Pandora", "Lianor no país sem pilhas", "Audição- Com Daisy ao vivo no odre marítimo". Divulgou, ainda, em leituras dramatizadas, "Nória e Prometeu- Palavras do fogo" e "Espera apócrifa".
A peça que aqui destaco- "Um Édipo"- estreou em Lisboa, no Teatro da Comuna, em 4 de Julho de 2003.
Quanto ao seu excerto: representativo de uma abordagem à tão significativa e conhecida tragédia de Sófocles. Ei-lo:

Tirésias, o velho xamã cego, é visitado por Jocasta, que recusa dar-se por morta.
(...)

JOCASTA: Também eu não me devia ter separado do meu Édipo em criança. Voltei a juntar-me a ele em adulto sem sabê-lo. E o nosso edílio foi o castigo de o ter enviado para a morte.

TIRÉSIAS: Agora tu estás a falsear a história do teu drama...

JOCASTA: Antes assim fosse, meu amigo. A desgraça de saber roubou-me a harmonia. Era feliz na inconsciência. Pudesse eu voltar atrás e já não posso. Diria adeus ao trono. Fugiria com Édipo e a terra do exílio havia de ser longínqua, pra que jamais voz alguma gritasse que somos mãe e filho a partilhar o tálamo.

TIRÉSIAS: Mas a voz dentro de ti nunca se calaria aonde quer que fosses, e em vão buscarias nas drogas dos físicos o repouso do sono.

JOCASTA: Não sei, Tirésias. Depois de me enforcar, extinguiu-se a agonia e a culpa. Como quando se sai vivo de uma peste mortal, olhamos as coisas com um deslumbramento virgem. Tudo me parece agora tão simples. Os homens amam as mulheres porque desejam mergulhar de novo no mar das delícias que os trouxe para o mundo. Mesmo que as sintam suas filhas, elas são extensões vivas de si próprios e por isso mães na mesma, promessas de futuro. As mulheres jogam o mesmo jogo e no corpo do amante juntam o pai e o filho imaginado. O amor é um incesto universal. Não valia a pena ter-me enforcado por uma causa tão vulgar como esta.

TIRÉSIAS: Mentes a ti mesma, Jocasta. Mas se a mentira te é útil, usa-a como unguento para as tuas feridas. Foram outros os amores malditos que fizeram a perdição da tua casa. Tu bem o sabes...

JOCASTA: Fala-me agora deles, Tirésias. É a tua vez de cuidares de mim com o verbo da memória.

TIRÉSIAS: As pessoas tagarelam dias a fio sobre o teu romance com Édipo. Identificam-se convosco como se estivessem no teatro. Hão-de fazer do vosso incesto o mito de eros mais famoso da História. Muitas actrizes viverão na cena o teu papel; muitos actores hão-de esmagar morangos sobre os olhos pra fingirem o suplício desse marido que tu deste à luz. Até quando os velhos deuses se apagarem dos altares, o vosso amor continuará a inquietar o coração dos mortais.

JOCASTA: Será preciso sofrer tanto para ganhar a eternidade?

TIRÉSIAS: Sê bem vindo, ó Édipo! Tu, que quiseste ser como eu sou. Desejo doido o teu, meu amigo. A cegueira não é prémio cobiçável. (Tirésias saúda Édipo com um abraço. Jocasta ronda-os, como se desejasse abraçá-lo também. Tirésias faz sinal a Jocasta e fala apenas para ela.) Podes abraçá-lo, Jocasta. Ele não sente a miragem do teu corpo

ÉDIPO: Com quem falavas, Tirésias? Há mais alguém connosco além da tua filha? (Jocasta abraça o tronco de Édipo sem que este dê o menor sinal de a sentir enovelada nele.)

TIRÉSIAS: Não Édipo, estamos sozinhos. Um cego diante de um outro cego.

ÉDIPO: Preciso que me oiças, Tirésias. Tu és o médico das almas. E foi a minha alma doente que lançou a peste sobre Tebas. Por isso mutilei os olhos. Deixei de ver o cenário do corpo pra dar atenção ao meu vazio interior.

TIRÉSIAS: Exageras como sempre. Os mortais como tu acabam em personagens de tragédia.

(...)

ÉDIPO: (...) Que animais nós somos, Tirésias, por ficarmos satisfeitos com a morte dos outros? A alegria de sabermos que a desgraça bateu à porta do vizinho e ignorou a nossa casa. Matei um homem que me pertencia mais do que o punhal que trago na cintura. E a imagem do seu rosto golpeado deve ser parecida com aquela que o espelho mostra agora de mim. Quando matamos alguém, matamo-nos também com ele. Era o que o meu pai Pólibo me dizia em criança, ao ver o gozo bravio com que eu empalava lagartos num atiçador de lume. Eu achava que não. Matar para viver é um dever da vida, respondia-lhe. Hoje sei que a vida calça coturnos e vai tirando e pondo as suas duas máscaras. A máscara da comédia e a máscara da tragédia. Às vezes as duas ao mesmo tempo, uma na cara outra na nuca. Mas detrás da máscara só vejo o vazio. Por baixo das vestes, apenas um cabide. A vida é a máscara da morte.

TIRÉSIAS: E a morte a máscara da vida.

(...)


(Armando Nascimento Rosa- UM ÉDIPO. Fotografias de Naushér Benaji)


Com este post dou por encerrada mais uma semana de teatro. Semana que deu sequência a outra, assinalando a excelente receptividade por parte de todos vós, à edição por mim feita de textos dramáticos. Voltarei com mais autores e mais peças no próximo mês. Voltarei para continuar a consolidar esta vertente de trabalho desenvolvida aqui no Abismo, fazendo juz a textos e a representações cujas mensagens não devem ser por nós desconsideradas (no sentido de não conhecidas) ou não acedidas de forma o mais ampla possível. E isso, pela sua qualidade e pelo que nos podem fazer pensar ou ensinar.
Até Março, então!

Publicado por void em 09:28 PM | Comentários (2)

ÉDIPO REI ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 3)

Um dos grandes nomes da Tragédia grega é, inequivocamente, Sófocles.Tendo vivido entre (ou cerca de) 496 a.c e 405 a.c, uma das suas grandes peças foi "Édipo Rei", cujo excerto hoje aqui trago.
Estamos, com esta peça, face a uma grande estória... face a um grande drama... que é (são) aquele(s) relativo(s) a um indivíduo que assassina o pai, casa e tem filhos com/da mãe. Édipo, Laio e Jocasta são os protagonistas de um destino ao qual sempre procuraram fugir. Mas este estava marcado. Os oráculos tinham falado. Tudo estava traçado. Perante isto, qual a força dos homens? Qual a possibilidade de fuga destas três personagens? A(s) fuga(s) não é (são) de todo conseguida(s). E a catástrofe dá-se quando Édipo e Jocasta (então rei e rainha de Tebas) se confrontam com a realidade. Ela enforca-se. Ele auto-pune-se vazando os olhos e partindo para o exilio.
Mas... passemos para um excerto desta fantástica peça:

ÉDIPO (surgindo à entrada do palácio e dirigindo-se à multidão aterrorizada pela peste que grassa na cidade)
Ó meus filhos, ó novos descendentes do antigo Cadmo, por que razão estais assim, diante de mim, com esses ramos de suplicante? Toda a cidade está cheia de incenso, toda a cidade está cheia de trenos e de lamentações! E achei, meus filhos, que não deviam ser outros a informar-me, que devia vir eu mesmo, eu, Édipo célebre entre todos os homens. Vamos, fala tu, ó velho, porque é conveniente que fales tu em nome deles. Que há então? Que esperança e que receio vos trouxe aqui? Estais seguros de que vos hei-de socorrer; seria um homem sem piedade se me não comovesse com essa vossa atitude.

(...)

ÉDIPO
(...)
Senhor meu parente, filho de Meneceu, que resposta do deus nos trazes tu?

CREONTE
Uma excelente resposta. Há coisas decerto bem difíceis de fazer; mas acho que são boas, se forem bons os resultados.

ÉDIPO
Qual é o oráculo? É que as tuas palavras não nos dão nem confiança nem receio.

CREONTE
Se quiseres que eles ouçam, estou pronto a falar; se não quiseres, entremos no palácio.

ÉDIPO
Fala diante de todos. Mais me preocupam os seus males do que os temores da minha vida.

CREONTE
Direi, pois, o que me disse o deus. Ordena-nos Apolo que apaguemos a mancha que alastrou na nossa terra, que a façamos desaparecer, em lugar de a deixarmos aumentar; devemos recear que se torne inexpiável.

ÉDIPO
E de que espécie é esse mal? Que expiação?...

CREONTE
Expulsando um homem dos nossos territórios ou vingando o crime com o crime, porque é um crime que está arruinando a cidade.

ÉDIPO
Contra que homem foi cometido o crime de que fala o oráculo?

CREONTE
Senhor, foi contra Laio, outrora rei da nossa terra, antes de seres tu o chefe da cidade.

ÉDIPO
Já ouvi falar disso; eu nunca o vi.

CREONTE
O oráculo ordena claramente que sejam castigados os que assassinaram esse homem.

ÉDIPO
Em que terra estão? Como se há-de encontrar qualquer vestígio desse crime tão antigo?

CREONTE
Diz o oráculo que há vestígios na cidade. Só se encontra o que se busca; o que nos é indiferente, de nós foge.

(...)

(Conduzido por uma criança surge Tirésias, velho, cansado e cego.)

ÉDIPO
Ó Tirésias, tu que compreendes todas as coisas, as lícitas e as ilícitas, as do céu e as da terra, bem sabes, embora privado da luz dos olhos, de que mal sofre a cidade; e só a ti encontrámos para nos proteger e nos salvar. Com efeito, Febo - e já talvez estes to tivessem dito- respondeu aos nossos enviados que a única maneira de nos livrarmos da doença era matar os assassinos de Laio ou exilá-los da cidade. Não nos recuses os augúrios das aves nem as outras adivinhações; salva a cidade, salva-te a ti próprio e a mim; lava esta impureza que ficou pela morte do homem que mataram. De ti depende a nossa salvação; não há tarefa mais gloriosa para um homem do que pôr a sua ciência e o seu poder ao serviço dos outros homens.

TIRÉSIAS
Ai de mim! Como é terrível saber, quando o saber é inútil. Tudo sabia, e tudo esqueci; de outro modo, não teria vindo.

ÉDIPO
Que é isso? Pareces-me cheio de tristeza.

TIRÉSIAS
Manda-me voltar para casa. Se me obedeceres melhor será, para ti e para mim.

ÉDIPO
O que dizes não é justo, nem bom para a cidade que te sustentou, se recusares revelar o que sabes.

TIRÉSIAS
Sei que estás a falar contra ti próprio, e temo o mesmo perigo para mim.

ÉDIPO
Em nome dos deuses! Não me escondas o que sabes. Todos nós nos prosternamos diante de ti e te suplicamos...

TIRÉSIAS
Estais todos loucos. Não, não provocarei a minha desgraça, e a tua.

ÉDIPO
Que dizes? Sabes tudo e não queres falar? Tens então o intuíto de nos trair e de perder a cidade?

TIRÉSIAS
Nem a ti nem a mim eu quero esmagar de dor. É em vão que me interrogas. De mim nada saberás.

ÉDIPO
Nada, miserável, nada! Serias bem capaz de enfurecer um coração de pedra. Não há em ti senão dureza e inflexibilidade.

TIRÉSIAS
Lanças-me em rosto a cólera que excito, mas ignoras a que hás-de excitar nos outros. E ainda me censuras!

ÉDIPO
Quem não há-de irritar-se ao ouvir-te proferir as palavras que só exprimem deprezo pela cidade?

TIRÉSIAS
Tudo o que tem de suceder sucederá, apesar do meu silêncio.

ÉDIPO
Pois se tem de suceder bem mo poderias revelar.

TIRÉSIAS
Nada mais direi. Podes, se quiseres, abandonar-te à mais violenta das cóleras.

(...)

JOCASTA
Pelos deuses, Senhor! Dize-me a causa da tua cólera violenta.

ÉDIPO
Vou falar, mais para ti que para eles. Creonte concebeu maus desígnios para mim.

JOCASTA
Fala então e vê se podes provar, explicando a questão, que acusaste Creonte com justiça.

ÉDIPO
Afirmou que fui eu o assassino de Laio.

JOCASTA
E sabe-o por si ou ouviu-o a outrem?

ÉDIPO
Enviou um miserável adivinho que diz de mim todo o mal que pode.

JOCASTA
Não fales mais de tudo isso que se diz. Escuta as minhas palavras e fica sabendo que a ciência dos adivinhos nada pode prever das coisas humanas; vou provar-to em breves palavras. Outrora um oráculo revelou a Laio, não pelo próprio Febo mas pelos seus sacerdotes, que estava no seu destino ser morto por um filho que de mim nasceria; e, no entanto, foram ladrões doutras terras quem o matou numa encruzilhada. Quanto à criança, assim que fez três dias, mandou-a ele pôr, com os pés atados, numa serra deserta. Apolo não conseguiu que fosse o filho o assassino do pai nem que Laio sofresse do filho o que dele temia.
Eis como se cumprem os vaticínios fatídicos. Não te importes. O deus descobrirá facilmente o que pretende saber.

(...)

CORO
Vêde vós, ó habitantes de Tebas, minha pátria! Que tempestade de terríveis desgraças derrubou o Édipo que adivinhou o enigma célebre, o homem poderosíssimo que nunca invejou os cidadãos, nem tinha receio da sorte! Enquanto se espera o dia último, ninguém deve dizer que um mortal foi feliz, antes que ele tenha, sem sofrimento, atingido o termo da existência.


(Sófocles- ÉDIPO REI. Fotografia de Naushér Benaji)

Publicado por void em 08:02 PM | Comentários (3)

fevereiro 17, 2005

FEDRA/2 ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 3)

Jean Racine, dramaturgo francês do século XVII (1639-1699) foi um dos autores que recuperou a peça de Eurípedes (assim como Séneca e Sarah Kane). Foi esta, aliás, a sua peça mais representada na Corte de Luís XIV, mas também nos nossos dias. A tal peça em que uma mulher se apaixona pelo filho do marido, trazendo-lhe isso grande instabilidade emocional, em particular, pelo sentimento de culpa, pela ideia de amar em anormalidade, "contra a natureza".
Um drama com grande intensidade... com uma intensidade psicológica indiscutível e causadora de incomodidade para quem o lê ou a si assiste. Sim, porque o amor em causa, é provocador de sofrimento, afastamentos, mortes... infortúnios. Estamos, inequivocamente, perante destinos trágicos.
Atentem, então, na versão de Racine com o excerto da obra em que (tal como no post anterior) Fedra declara o seu amor a Hipólito
:



PERSONAGENS:

Fedra, Hipólito, Enone (Ama de Fedra)

FEDRA, para Enone
Ei-lo: ao coração me acode o sangue todo.
Ao vê-lo, já não sei o que venho dizer-lhe.

ENONE
Não esqueçais vosso filho: ele só conta convosco.

FEDRA
Dizem que ireis partir, em breve, para longe,
Senhor. Às vossas dores eu junto as minhas lágrimas.
Venho aqui por um filho explicar-vos meus cuidados.
Um filho já sem pai; não tardará o dia
Em que seja, da morte da mãe, testemunha.
Já inimigos, mil, atacam sua infância.
Defendê-lo, só vós, só vós podeis, Senhor.
Mas secreto remorço o espírito me turva.
Receio ter-vos feito surdo aos meus lamentos.
Temo e tremo, sim, que a vossa justa cólera
Nele persiga depois sua mãe detestável.

HIPÓLITO
Senhora, não terei sentimentos tão baixos.

FEDRA
Se me odiásseis, Senhor, não me lamentaria.
Empenhada em fazer-vos mal sempre me vistes;
Não podeis ler no fundo do meu coração.
Cultivei com afinco a vossa inimizade.
Nas margens que habitava, não vos consenti.
Contra vós declarada, em público e em segredo,
Eu quis que o largo mar me afastasse de vós.
Cheguei a proibir, por uma lei bem expressa,
Que diante de mim dissessem vosso nome.
Mas, se se comparar a ofensa ao castigo,
Se só o ódio pode atrair vosso ódio,
Nunca uma mulher foi mais digna de piedade,
Senhor, e menos digna da vossa aversão.

HIPÓLITO
Dos direitos dos filhos uma mãe ciumenta
Raramente perdoa ao filho d'outra esposa;
Senhora, sei-o bem; importunas suspeitas
São das segundas núpcias os frutos mais comuns.
Mesma desconfiança outra qualquer teria,
E eu talvez piores ultrajes suportasse.

FEDRA
Ah! Senhor!, mas o céu, ouso aqui afirmá-lo,
Não quis que o meu destino a lei comum seguisse!
Cuidado bem dif'rente me turva e devora.

HIPÓLITO
Não vos deixeis, Senhora, turvar por enquanto.
Talvez o vosso esposo ainda esteja vivo;
O céu pode trazê-lo às nossas tristes lágrimas.
Protege-o Deus Neptuno; este Deus tutelar
Jamais será, por meu pai, implorado em vão.

FEDRA
Não se vê duas vezes a morada dos mortos,
Senhor. Esperais debalde que um Deus o devolva:
Esse avaro Caronte nunca solta a presa.
Mas que digo? Ele não morreu: respira em vós.
Sempre perante os olhos julgo ver meu esposo.
Eu vejo-o e falo-lhe; e o meu coração... Perco-me,
Senhor; meu louco ardor, a meu pesar, declaro.

HIPÓLITO
Do vosso amor eu vejo o assombroso efeito.
Teseu, embora morto, em vossos olhos vive;
Sempre, por seu amor, vossa alma inflamada...

FEDRA
(...)
Eu quereria à vossa frente caminhar.
Fedra, descida ao labirinto só convosco,
Só seria convosco encontrada ou perdida.

HIPÓLITO
Deuses! mas que oiço eu? Senhora, já esqueceis
Que Teseu é meu pai e que é o vosso esposo?

FEDRA
Por que supondes vós que perdi a memória?
Acaso, príncipe, deixei de ser quem sou?

HIPÓLITO
Senhora, perdoai-me. Confesso, corando,
Que ofendi sem razão inocentes palavras.
Minha vergonha não suporta o vossa olhar;
Senhora, eu vou...

FEDRA
Cruel! Ah! Tu bem me entendeste.
Falei bastante claro p'ra que duvidasses;
Ah! Vais conhecer Fedra em todo o seu furor:
Amo. Amo-te. Não penses que neste instante,
Inocente a meus olhos, me aprovo a mim mesma,
Nem que do louco amor que me turva a razão
Cobarde complacência nutra o seu veneno.
Objecto de infortúnio das iras celestes,
Abomino-me mais do que tu me detestas.
As minhas testemunhas são Deuses, os Deuses
Que acenderam em mim fogo fatal à estirpe.
Os Deuses que se gabam da cruel vitória
Sobre este coração duma frágil mortal.
Em espírito, tu próprio, recorda o passado.
Não chegava fugir de ti; cruel, expulsei-te.
Eu quis que me julgasses odiosa, inumana;
E, p'ra te resistir, teu ódio provoquei.
Afinal, que lucrei, com inúteis cuidados?
Tu odiavas-me mais, eu não te amava menos.
Infortúnio de novos encantos te vestia.
Enlanguesci, sequei nos fogos e nas lágrimas.
E, p'ra que o saibas, só precisas dos teus olhos,
Se um momento os teus olhos me pudessem ver.
Que digo? A confissão que acabo de fazer-te,
Indigna confissão, julga-la voluntária?
(...)
Olha o meu coração: fere-o com tuas mãos.
Impaciente já de expiar sua ofensa,
Sinto que sai do peito, ansioso desse gesto.
Vé, fere. Mas, se o julgas indigno dos teus golpes,
Se teu ódio me inveja um suplício tão doce,
Se de sangue tão vil não te quiseres manchar,
À falta do teu braço, dá-me a tua espada.
Dá-ma.

ENONE
Mas, que fazeis, Senhora? Justos Deuses!
Vem gente: evitai odiosas testemunhas;
Vinde, vinde, fugi duma vergonha certa.


(Racine- FEDRA. Fotografias de China Hamilton)

Publicado por void em 09:22 PM | Comentários (4)

FEDRA ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 3)

Lúcio Aneu Séneca nasceu no século I d.c, por volta do ano 4, em Córdova, na Bética, província da Hispânia, do Império Romano.
Na área da dramaturgia, conhecem-se sete tragédias por si escritas: "Hércules [Enlouquecido]", "Troianas", "Medeia", "Fedra", "Édipo", "Agamémnon" e "Tiestes".
O excerto que se segue foi extraído da peça "Fedra", cuja primeira autoria se deve a Eurípedes, mas recuperada por este e outros autores, ao longo dos séculos.
Passemos a ele:

FEDRA
Quem é que de novo me entrega à dor e de novo me instala na alma um fogo ardente? Como foi agradável ter perdido os sentidos!

HIPÓLITO
Porque foges do doce regresso à vida?

FEDRA (À parte.)
Coragem, alma, tenta, cumpre as tuas ordens.
Sejam destemidas e firmes as palavras. Quem pede com timidez
convida à recusa. Grande parte do meu erro
foi cometido há muito tempo; é tarde para eu ter vergonha.
Amei contra as leis da natureza. Se continuar o que comecei,
talvez possa esconder o crime por detrás do facho nupcial.
O sucesso torna certos erros honestos.
Vamos, começa, alma!
(Para Hipólito) Suplico-te que me concedas um pouco de atenção
em privado. Se tens aqui algum companheiro, manda-o embora.

HIPÓLITO (Apontando em volta.)
Vê, o lugar está livre de qualquer testemunha.

FEDRA
No entanto, os meus lábios negam passagem às palavras começadas.
Uma grande força impele-me a falar e uma maior detém-me.
Habitantes celestes, tomo-vos como testemunhas de que não quero
isto que quero.

HIPÓLITO
A tua alma deseja algo e não consegue revelá-lo?

FEDRA
Os cuidados ligeiros falam, os pesados emudecem estupefactos.

HIPÓLITO
Confia-me os teus cuidados, mãe.

FEDRA
A palavra mãe é demasiado altaneira e poderosa.
Uma palavra mais humilde coaduna-se melhor com os meus sentimentos.
Chama-me irmã ou escrava, Hipólito,
escrava de preferência: suportarei toda a escravidão.
Se me ordenares que caminhe pela neve profunda,
não me molestará avançar pelo cume gelado do Pindo.
Se me ordenares que ande no meio de fogos e de batalhões encarniçados,
não hesitarei em oferecer o meu peito às espadas desembainhadas.
Recebe o cepto que me foi entregue; aceita-me como tua escrava.
[A ti fica-te bem governar o reino, a mim cumprir ordens.]
Não é tarefa de mulher velar por cidades reais.
Tu, em pleno vigor da juventude,
governa firme os cidadãos com a autoridade régia de teu pai
e acolhe nos braços a tua suplicante e a tua escrava.
Compadece-te de uma viúva.

HIPÓLITO
O supremo deus afaste este presságio!
O meu pai em breve regressará a casa são e salvo.

FEDRA
O senhor do reino sem regresso e do Estige silencioso
não construiu caminho para o mundo dos vivos, depois de ele ter sido deixado para trás.
Libertará ele o raptor do seu leito?
Poderá acontecer que até Plutão se sinta favorável ao amor.

HIPÓLITO
Os justos deuses celestes trá-lo-ão de volta.
Mas, enquanto a divindade mantiver os nossos votos na incerteza,
cuidarei dos meus queridos irmãos com a dedicação devida
e farei que não te sintas desamparada.
Eu próprio preencherei para ti o lugar de meu pai.

FEDRA (À parte.)
Ó crédula esperança dos amantes, ó Amor falacioso!
Não disse eu o suficiente? Vou aproximar-me com súplicas.

(Dirigindo-se a Hipólito.)

Compadece-te, escuta as súplicas que o meu coração cala.
Desejo falar-te, mas tenho vergonha.

HIPÓLITO
Que perturbação é essa?

FEDRA
Uma perturbação que dificilmente acreditas que possa cair sobre uma madrasta.

HIPÓLITO
Em teu discurso ambíguo proferes palavras misteriosas.
Fala com clareza.

FEDRA
Um amor ardente queima-me o coração insano. Um fero fogo enfurecido consome-me
[a medula dos ossos e atravessa-me as veias,]
alojando-se nas mais profundas entranhas e escondendo-se nas veias.
como uma chama a propagar-se veloz por altas vigas.

HIPÓLITO
É pelo casto amor de Teseu que estás enlouquecida?

FEDRA
Sim, Hipólito: amo os traços de Teseu,
aqueles que ele tinha outrora em rapaz,
quando a primeira penugem lhe ficou marcada nas faces imberbes
e viu a casa escura do monstro de Cnossos
e recolheu o extenso fio pelo caminho sinuoso.
Como era então glorioso! Faixas cingiam-lhe a cabeleira
e um rubor espalhava-se pelo delicado rosto.
Sob os seus jovens braços emcontravam-se músculos robustos.
Os traços dele eram os da tua Febe ou os do meu Febo
ou antes os teus próprios. Tal, sim, era ele
quando agradou à inimiga; trazia assim a cabeça erguida.
Em ti refulge mais a beleza sem adornos.
O teu pai está todo em ti e também uma parte
da austeridade da mãe se mistura com igual encanto;
no rosto grego desenha-se a severidade cítica.
Se tivesses entrado no mar de Creta com o teu pai,
era para ti que a minha irmã teria entrançado os fios.
A ti, a ti, irmã, onde quer que no céu sideral
tu refuljas, te invoco para uma causa semelhante.
Uma só casa arrebatou duas irmãs:
a ti foi o pai, a mim... o filho. Vê, a descendente
de uma casa real cai a teus joelhos, como uma suplicante.
Sem mancha que me macule, pura, inocente,
para ti apenas me transformo. Determinada humilhei-me em súplicas.
Este dia porá fim à dor ou à vida.
Compadece-te de quem te ama.

HIPÓLITO
Poderoso soberano dos deuses,
ouves tão serenamente estes crimes? Tão serenamente os vês?
(...)
(Para Fedra.) Acaso fui merecedor de adultério?
Fui apenas eu que te pareci instrumento fácil
para tamanho crime? Foi esta a recompensa da minha austeridade?
Tu, com o teu crime, superas toda a raça das mulheres;
tu ousaste um mal maior do que a tua mãe que deu à luz um monstro,
tu és pior do que aquela que te gerou!
(...)
Afasta as mãos impuras para longe do meu casto
corpo.

(À parte.)

Que é isto? Também se precipita nos meus braços?
Há que desembainhar a espada e reclamar o justo castigo.
(...)

FEDRA
Hipólito, cumpres agora a minha prece,
cura a minha loucura. Isto excede a minha prece:
morrer às tuas mãos e ficar salva a honra.

HIPÓLITO (Arremessando Fedra para longe de si.)
Vai-te embora, vive para que nem isso consigas. E que esta espada em que tocaste abandone a minha casta cintura. (...)


(Séneca- FEDRA. Fotografias de China Hamilton)


Publicado por void em 08:11 PM | Comentários (1)

fevereiro 16, 2005

ROMEU E JULIETA ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 3)

Parece que bom como actor mas certamente brilhante como dramaturgo William Shakespeare, de origem inglesa, viveu entre 1564 e 1616. Entre as suas peças conhecidas temos: "Hamlet", "Otelo", "Macbeth", "O Rei Lear", "António e Cleópatra", "Júlio César", "O Mercador de Veneza", "Sonho de uma noite de Verão" e... "Romeu e Julieta".
Pois é, é um excerto de "Romeu e Julieta" que aqui vos apresento,