Inicio a semana temática "Em nome de Deus"- que objectiva deixar registado um conjunto de situações ou casos em que a acção humana, tendo como móbil ou pretexto a divindade/Deus/entidade omnipotente e omnipresente, os profetas, os messias... ou a religião em geral, se direcciona em termos de práxis por caminhos tortuosos ou pouco reveladores de tolerância ou clarividência (racional)- com o excerto de um romance que aborda um conjunto de acontecimentos que tiveram lugar no século XVII na Colónia da Baía de Massachusetts, em Salem, povoada na época por uma comunidade puritana.
Ann Rinaldi, a autora, dá-nos então a conhecer aquela que foi a onda de histerismo colectivo e de intolerância que originou uma significativa caça às bruxas, em que um número razoável de pessoas foi acusado em tribunal de fazer pactos com o Demónio. Como a autora diz, em nota própria, "Os próceres da cidade, magistrados e ministros acreditavam piamente que o Demónio errava pelos campos tentando encontrar maneira de minar o reino de Deus na Terra. Os anciãos de Salem precisavam de um bode expiatório para os problemas, em 1692. Houvera recentemente uma epidemia de varíola, incursões de índios nos arrabaldes da cidada e muita inimizade entre vizinhos que não davam tréguas a rixas antigas."
Estavamos, pois, perante um clima de grande tensão e medo, altamente favorável às acusações e às perseguições. E assim foi. E em nome de Deus, havia que fazer "limpezas". E os resultados ficaram para a História.

1706
Esta tarde, vim cedo para me sentar no silêncio do Templo de Salem, antes (...) que alguém mais chegasse. Aqui, está fresco, embora ao fim do dia, o sol de Agosto bata sobre o trigo que cresce nos campos e sobre as árvores de fruto já carregadas do que vai ser a colheita de Outono.
Sou uma estranha nesta igreja. Na realidade, já aqui não vinha desde a Primavera de 1692, e entretanto decorreu tanto tempo que tudo parece uma recordação vaga e a rapariga que eu então era parece certamente outra pessoa. Essa rapariga sou eu e, no entanto, não o sou. Porque ela ignorava todos os perigos que a rodeavam tal como acontece com a minha filha que agora dorme tranquilamente nos meus braços.
O mundo de então era outro, ainda que, na sua maioria, os que vivem por aqui apresentem ainda mais marca dos acontecimentos que tiveram lugar nessa altura.
Quanto a mim, falo pouco, se é que alguma vez falo, daqueles terríveis meses de 1692. Aliás, o meu marido também não fala. De facto, julgava que tudo isso ficara para trás até entrar hoje nesta igreja. Quando o fiz, assim que atravessei os seus portais, tudo voltou de repente.
(...)
Contudo, no templo reina a paz. E vejo que não mudou desde os tempos da minha infância. Nessa altura, era a igreja do Reverendo Parris. Mas há muito que ele partiu. (...) Foi o Reverendo Joseph Green que o substituiu. (...) Dizem que trabalhou arduamente durante muito tempo para curar a comunidade dos efeitos daquilo a que muitas pessoas chamam "a recente tragédia".
É nestes termos que se referem à loucura da bruxaria de 1692. E a todos os enforcamentos. Como se não conseguissem suportar mencionar de novo a palavra feitiçaria.
Naquela altura, pronunciavam tal palavra com a maior facilidade. E fizeram-no vezes sem conta. Até que se tornou insuportável ouvi-la. E até que dezanove inocentes foram enforcados, uma pessoa foi empurrada para a morte e muitas outras foram para a prisão, onde ainda se encontram. Oh, não tinham o menor problema em dizer as palavras Diabo e feitiçaria nesse ano de 1692, pois não?
(...)
Meditando sobre toda esta questão, enquanto me encontro sentada na igreja à espera do aparecimento de Ann Putnam, apercebo-me de quão doloroso é rememoriar os acontecimentos dessa época. (...)
Esquecer? Penso que nunca o farei. Nem os outros que aqui se encontram hoje reunidos. Como poderemos esquecer a forma como a comunidade foi devastada, como as casas destruídas e arruinadas de alguns dos acusados foram deixadas ao vento e aos lobos. Como os negócios foram maus porque, durante muitos anos subsequentes, os de fora se recusavam a transaccionar com as pessoas de Salem.
(...)
Pergunto-me se, ao fim ao cabo, será uma boa ideia vermo-nos uns aos outros, uma vez mais, nesta sala de reunião.
Agora, todos temos de nos levantar. Ann Putnam sobe a nave lateral e vira-se para nos encarar. E lá está o Reverendo Green, no púlpito.
Como a Ann envelheceu! Meu Deus, não pode ter mais de vinte e seis anos! (...) A voz é fraca. Mal a consigo ouvir.
- Posso dizer, com verdade e verticalidade, perante Deus e os homens, que não agi movida por raiva, maldade ou má vontade contra qualquer pessoa, porque não tinha nada disso contra nenhuma delas; mas o que fiz foi feito com ignorância, porque fui iludida por Satanás.
A sua voz eleva-se, ganhando força.
- Desejo jazer no pó e pedir honestamente o perdão de Deus e de todos aqueles a quem dei justo motivo de pena e agravo.
Ela continua, mas não a oiço. O meu espírito fecha-se para a não escutar.
(...)
Agora, está a falar o Reverendo Green. A sua voz é forte e límpida e simples as palavras que usa.
- Nenhum de nós está totalmente inocente nesta tragédia. Parece ter[mos] esquecido o que os nossos pais vieram procurar nesta terra selvagem. Os preceitos que selavam o pacto de perdão e comunhão da igreja foram desleixados e menosprezados por tudo o que aconteceu. E tudo isso ainda se encontra suspenso sobre a nossa comunidade. Sim, a fúria da tempestade levantada por Satanás durante esse ano trágico abateu-se muito pesadamente sobre muitos dos que aqui viviam. Alguns dizem que o Senhor enviou anjos do mal para nos acordarem e punirem a nossa negligência.
Os olhos de todos estavam voltados para ele.
- Vamos reduzir agora o poder desses anjos do mal. Vamos enviá-los, de uma vez por todas, para o lugar donde vieram. Não fareis isso comigo, aqui, neste dia? Não amolecereis agora os vossos corações em relação a esta jovem mulher que se entregou à vossa misericórdia? Não sarareis vós as feridas desta comunidade, para sempre, por vós e pelos vossos filhos, perdoando-lhe o seu pecado?
(Ann Rinaldi- O PROCESSO DAS BRUXAS DE SALEM. Fotografia de José Marafona)
No post de amanhã darei um salto até ao futuro. Ao futuro em relação a Salem. Amanhã viajaremos até ao Afeganistão do século XX. Ao Afeganistão dominado pelos Talibãs.
Na sequência do acontecido o fim-de-semana anterior deixo-vos com mais um texto da Paula, blogger do "Divine Decadence Darling!". E registo que, daqui para a frente, os domingos serão reservados, aqui no Abismo, com/para os textos desta autora. Textos que nos permitirão viajar pelo rico folclore português, pelas imensas lendas e narrativas que têm povoado o imaginário de muitos, pela religião popular portuguesa... textos que farão a sua recuperação, readaptação ou cujos conteúdos consigo se farão, de uma ou outra forma, relacionar. Mas serão também aqui trazido textos não tão directamente relacionados com estas realidades, mas igualmente de grande qualidade e com o toque especial e inconfundível da autora. Textos que falam em particular de Portugal, mas que podem falar, também, não especificamente do país, pelo que podem ser estendidos a outras realidades, em particular pela elasticidade das temáticas em causa, adaptáveis e/ou moldáveis a outros espaços, a um conjunto mais alargado de pessoas, assim como a tempos mais dilatados daquele que é o presente ou passado recente.
Serão aqui trazidos textos não pequenos, mas textos cuja qualidade vale a atenção e não mutilação. Textos para ler num todo, de uma vez e assim sentidos no que de melhor possam ter. Textos como aquele que se segue.
Passem pois à leitura que eu me calarei. Quanto ao que se segue... não digam depois que não vos avisei...

A pacata aldeia de Monsanto, de olho vivo sobre as Beiras, foi, na terça-feira de entrudo, o palco onde se desenrolou uma tremenda tragédia. Se o nosso espírito voar e nos transportar às longínquas épocas da Idade Média, não encontra uma cena tão selvagem e revestida de tanta perversidade como aquela que aqui proponho narrar. O nosso espírito não concebe que um ser humano pudesse ter coragem para praticar um crime tão hediondo. A realidade dos factos, ou não seja eu um pobre demónio, filho de Lucífer, o encornado, Zé dos Fogos, Belzebu, porém, convence-nos de que sob este lindo céu azul, que um enorme e divino amplexo estreita toda a humanidade, há feras muito mais ferozes do que as feras do monte, pois, Monsanto é terra de gente boa, terra de gente crente. O certo é que, muitas vezes, entre as ovelhas mansas, disfarça-se o lobo traiçoeiro e entre bom trigo surge de quando em quando o joio. E se as mentiras são feitas de verdades, comecemos então, com esta graça que Deus nos deu...
É certo que existem Bruxas. O silêncio, a escuridão, as sombras e o luar evocam-nas. Em Monsanto, desde a Capela de São João à Torre do Pião, os homens correm para riba, sem olhar para trás, depois da noitada na taberna. Temem os seus olhos verdes da noite, temem ver-se a braços com a sua natureza de Lobisomem. Por volta das onze badaladas do sino da Igreja de Santa Maria do Castelo, acolhem todos às suas casas, altura em que a Bruxa, onírica, unta-se com óleo, sai pela chaminé, voa pelos ares com um fogacho no rabo, e percorre todo o monte, para assustar quem queira ser noctívago, obrigando a quem se atreva, a levá-la às costas a casa.
Pois a família Régio também tomava a noite para junto das cadeiras de cerejeira. Viviam bem junto do Forno Comunitário. E a graça de Deus entrou cedo pelas portadas das janelas. Descarregou a Virgem Mãe, uma semente no ventre de Cremilda, e não seria de admirar, sendo Rui Vargas Régio, principal homem da aldeia, homem-bom, filho Varão, de uma família de varões. Quando nasceu, todos e todas vieram à janelinha gritar bem alto “Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo por esta bela criaturinha...até que enfim, até que enfim...” E era bela esta criatura. Um belo macho, com os olhos mais azuis que o mar e o Céu quando se juntam, uma boca mais suculenta, uma pele mais macia que os lençóis mais bem tratados pela seda. Chamaram-lhe Paulo, pelos apóstolos, pelas lições e pelos arcanjos. Contudo, os Régios, não eram seres de se contentarem. Apesar de tão bela luz divina, quiseram mais, muito mais. Rui Vargas Régio, homem de nome e palavra na aldeia, queria povoar o mundo com estes olhos azuis, tão belos, quanto especiais. “Quero outro, Cremilda, e hei-de o ter, sejas tu mulher para o descarregar, ou seja outra”! Mas Cremilda, não queria. Não queria, sobretudo, desafiar a graça de Deus, mas antes de pronunciar um ai Jesus, já o homem lhe punha novo ovo para chocar. Todos os dias rezava Cremilda um Pai Nosso que estais nos Céus, pedindo a clemência divina, mas foi o desterrado, o maldoso, o corno de cabra, o porco sujo que a atendeu. E Cremilda sentiu o Diabo a soprar dentro dela numa tentação tão grande, que foi obrigada a apertar a boca com ambas as mãos, porque se não o fizesse, teria cuspido fora a Hóstia Bendita. “Possessa, mil vezes possessa, isto que trago aqui, bem dentro de mim”. Com medo, esfregou o ventre com alho e vinagre para não deixar entrar qualquer corno do Diabo. Dizia a todos, que apenas queria proteger a fertilidade, qual marafona, mas a verdade é que temia, a justiça de Deus sobre o seu corpo. “Ai a minha vida, que se Deus Nosso Senhor não me acode, estou desgraçada”, gritava ela com o terço e o incenso pela casa. E por tudo isto, batia com a barriga nas paredes, empurrando-a, espremendo-a, esmurrando-a, para evitar os desejos que de lá saíam. Diziam-lhe que teria que se conformar com a vontade de Deus, mas ela sabia, que não era a vontade de Deus, que o que trazia dentro de si, pudesse andar por aí ao ar livre, espalhando a semente malvada do demónio como um cão espalha as pulgas.
Tinha, de facto, todas as artimanhas do demónio escondidas no corpo. Por isso resolveu, comungar, e fazer as limpezas da igreja, para assim poder estar mais perto do Padre. Um padre tem poder para tirar o demónio dos corpos, e era isso que o Padre Antão lhe devia fazer, para bem dela, para a livrar dos dentes do tentador, e por fim, para o bem da gente da terra. Mas por todo o lado, via Cremilda, os mortos vivos, e os vivos mortos. Via-os a todos, pendurados pelo pescoço, nus e encouraçados, onde, na testa e no peito, onde havia sido feitos sinais com a cruz, lhes saíam mãos de lume e muito fumo. Nessas alturas, Cremilda atirava-se para o chão e cobria a cabeça com o seu xaile preto, entregando o coração a Deus. Mas quem a ouvia era Belzebu, que a acordava durante a noite com as osgas a espreitarem e a tentarem entrar dentro do seu ninho de procriação. “Bichos malditos, cheios de peçonha, querem ver quem vos chama, não é?” Nessas alturas levantava-se, e cuspia para o chão, fazendo repetidamente o sinal da cruz.
Os cães fugiam dela, os corvos voavam em seu redor, e as pedras mexiam-se quando por elas passava. Às vezes ouvia os ratos, murmurarem-se entre si. Ouvia os porcos grunhir antes de serem mortos, os cavalos relincharem antes de serem abatidos, as galinhas cacarejarem antes de ficarem sem cabeça, os pombos piarem antes de serem comidos. Cremilda queixava-se ao Padre, mas o mesmo não lhe dava atenção – “Confie na misericórdia de Deus, prima Cremilda”, confie em Nosso Senhor, tenha resignação”.
Pensais que Cremilda, terá morto o rebento antes de ele nascer? Não, pois não é possível apagar lume onde não existe chama. Mil vezes atordoar o corpo e a alma com chagas, do que deitar para fora o ácido que a corrói. Pois mesmo, rebento de Satanás, não deixa de ser rebento, e merece que Deus lhe ensine a viver, para depois, com a suprema penitência, lhe tirar a vida, pois é misericordioso o nosso Bom Deus. Pois Cremilda não queimou a chaga, antes de sentir dor. Deixou-a a viver dezoito luas cheias dentro de si, alimentou-a com Bicas de Maçã e de Paio. Deixou escorrer sangue pelas pernas, mas nunca a retirou de si.
Com nove meses de cominhos e tomilho, com nove meses de açafrão, assim nasceu a concubina do Cabrão. Na véspera da Quaresma, veio à luz, com a ajuda das mezinhas de Ti Júlia, velha curandeira, sabedeira, e parteira de Nossa Senhora dos Aflitos esta nova menina, que antes de o ser, já era chamada pelas entranhas. Cremilda gritou nessa noite, de tal modo, que acordou o menino Paulo, o de olhos azuis, que naquela idade, e ainda sem saber dizer um ai e um ui, já enfeitiçava as futuras donzelas. Mesmo, ajudada por um alguidar com água fervida e coentros, Cremilda não deixava de ter dores a parir. Ao mesmo tempo benzia-se e gritava “Sai de dentro de mim! Sai de dentro de mim, criança ruim, com a peçonha de mil lacraus e manha de javalis! Sai”. E com tais rezas, ela saiu mesmo. E Deus, tão misericordioso e piedoso, quanto justiceiro, fez saber desde logo, que só toca nos ventres das mulheres, uma só vez na vida, e nunca mais. Pois a menina que rebentou na barriga da mãe, tinha tudo o que o irmão não tinha. Uns olhos tão negros que faziam cair qualquer azeitona, uma boca pálida e gretada, uma cara branca e vergonhosa.
Nasceu uma menina mirrada, com pernas bambas e arqueadas, tão pequena quanto tacanha. Mas o pior só lhe viu a mãe, passadas doze noites, pois a criança, que azedava o leite à mãe, tinha a cabeça tombada para a esquerda, para o lado do mal. A cabeça quase que recusava a vénia divina, e obrava o chão e o inferno. Pois Deus tinha feito justiça, e é certo que bem Haja aos que sabem que o Nosso Senhor, escreve direito por entre linhas tortas...
Pensais que a mãe a matou? Pensais que a mãe abafou aquele riso de escárnio que soprava por entre aqueles dentes de leite? Não, pois não se pode apagar chama, que ainda mal arde. Pelo contrário, a obra de Satanás, com uma mulher do povo, deixou-se crescer debaixo das mesas, sem amor de pai, de mãe, e muito menos de irmão. Até mesmo, quando o médico de Castelo Branco, lhe disse que o que a rapariga tinha, era uma deficiência mental, conjugada com autismo, que derivava certamente, da falta de oxigénio por alturas do parto, e de um possível contacto da mãe com a rubéola, ninguém lhe acreditou. Sabe-se é que, pelas Verdades e pelas Humanidades, o mais certo é a Ciência errar tanto, quanto os Homens, pois, a par de alguns anos, desapareceu, à menina, que por ora se chamava Carla, essa suposta anomalia. Nasceu-lhe outra porém. No dia em que Carla completara seis anos de existência, e estando ela a dar fruta podre aos porcos, apareceu-lhe um pastor que a agarrou por trás e pela frente, e meteu-lhe bosta de vaca pela goela abaixo. Desde então, a pequena ficou muda. A mudez foi algo que não espantou os olhos da mãe. Sabendo ela do segredo que a mantinha viva, atribuiu-lhe a boca suja e cheirosa, a algum achaque, ou alguma possessão diabólica.
Por vezes, a família Régio saia junta, e todos os que por ela passavam, exclamavam-lhes “Belos dias, e Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo”, “Pr`a sempre seja Louvado”, “Pois muito vos prezo esse vosso filho, de olhos mais azuis quanto o Céu pode deitar à terra. Pena que a irmã não seja assim, mas quem já tem um, não precisa de argumentar por mais.” Os pais calados, ouviam e ouviam mais, os sussurros dos visitantes, quando estes se encontravam por trás: “ Vejam-me lá a Prima Cremilda e o Primo Rui? Aquele Paulinho, dos olhos azuis, é mesmo um moço...ai, quase um menino! Verdinho ainda, bem cheiroso como um pé de manjerico. Já a irmã parece que brotou de debaixo da terra sequinha, murcha de todos os sumos e mais branca que a folha do lírio. O que um tem de mais, a outra tem em falta! Pois nota-se bem que aquela não é obra de Nosso Senhor.”
Os anos passaram, e, aquela que aqui se chama Carla, mas que poderia ter qualquer outro nome, em outra terra, transformou-se de criança em moça, e de moça em rapariga. Pois mudaram-lhe as formas, mas nem tão pouco o temperamento. Os filhos das mulheres, assim que voltavam das lides universitárias em Coimbra, para em Monsanto passarem as suas férias, chamavam-na de longe “Carla, Carlinha, Carlona, mostra à gente que não és feita de peçonha!” E assim conseguiam atraí-la para a Gruta da subida para o castelo. Já lá dentro, os jovens despiam-se da cintura para baixo e diziam-lhe “Carla, Carlinha, Carlona, vê como isto cresce para ti! Pega-lhe e mexe-lhe para saberes qual o seu segredo”. E Carla, satisfazia-lhes todos os desejos, mesmo sem os entender. Mas não era somente aos jovens que Carla satisfazia. Também viúvas as havia, que lhe prometiam um bolinho de azeite em troca de aconchego, para que assim esquecessem a morte dos maridos. Carla era muda, e daquela boca não saía nem sequer um suspiro. De facto, a verdade é que todos a conheciam, mas ninguém a queria conhecer.
Em casa, ai Jesus! Sempre era uma aflição em casa dos Régio: ouviam-se gritos que até corta o coração saber escutá-los. Desde o irmão, ao pai, e passando pela mãe, todos lhe gritavam “ Xó daqui, cachorra tinhosa! Xetá daqui pr´a fora, corpo e alma de bruxa. Devíamos queimar-te, como nos diz S. Cipriano, esse mago da Síria.” Mesmo nos dias calmos, em que a mãe se arrastava por um toque de ternura, ao ver Carla aconchegada nos cobertores, sentava-se a seu lado, colocava a cabeça no seu regaço e dizia-lhe baixinho, quase murmurando “Pelas duas tábuas de Moisés, onde Nosso Senhor pôs os seus sagrados pés, sai desse corpo Satanás”. E se é verdade, que não se deve invocar o nome de Nosso Senhor em vão, também o é, que Belzebu, o corno, e o cabrão, não deve ser chamado.
Durante essa noite, uma feiticeira moribunda apareceu a Carla, e contou-lhe a história de Lilit, a primeira mulher que Deus deu ao homem, ser acomodatício, cumpridor das proibições divinas, sobretudo a de pronunciar o exacto nome do Criador. Mas Lilit não se conformava com esta condição humana, entendia que o marido era um mole e incitava-o a revoltar-se, pois mais ninguém deveria ser Deus do que cada um de nós. Mas o homem nada fez, e cansada de tamanha ambição, revoltou-se ela, elevando-se aos ares como uma deusa. Pois o homem não gostou e pediu nova mulher ao Criador, ao qual ele lhe deu Eva. Lilit zangada transformou-se em serpente, amaldiçoando o Paraíso, todo o homem e toda a mulher. Mais lhe disse a feiticeira moribunda, que o homem precisa de crer para sobreviver, mas que se ela aceitasse tal poder vivente e onírico, jamais alguém lhe poderia tocar. Pois é livre que nos cremos, e Deus é o nosso maior opressor. Ouvidas tais palavras, a mudez de Carla cessou, e a mesma lhe disse “Aceito”.
Os sinos tocaram na manhã seguinte em Monsanto. O Padre Antão, prometera o baptismo de Carla a Cremilda, e como os desígnios de Nosso Senhor, assim havia de cumprir-se. Mas no momento das rezas, Carla começou a rir, com um gosto de escárnio e mal dizer. Esconjurou os presentes, uivou como os lobos, cacarejou como as galinhas, e miou como os gatos. Diz-se também, que dizimou muitos carneiros, fez uma mulher vomitar pregos, rasgou o vestido a várias noivas, “chupou” vários recém-nascidos, mas, embora crendo, não nos é possível confirmar tais feitos.
O certo é que a multidão, logo após se ter benzido, lhe chamou possessa, clamando “Matem-na, Prendam-na, Queimem-na como já se fez no Rossio em Lisboa”. Carla começou a correr, e a descer a serra que segura Monsanto. Vários homens partiram com archotes à sua procura, mas, os poucos que dela se aproximaram, viram a sua pele ficar peluda, os dentes crescerem-lhes, as unhas transformarem-se em garras, e da boca saírem uivos guturais. Os outros viram-se presos pelo Fogo que deflagrou cá em baixo, queimando pinhais e sobreiros. Pois Carla, entre Penamacor e Sortelha encontrou um terreiro, onde se despiu e já nua e untada, dançou pela Lua, dançou pelo Sol, dançou pela Chuva e pelo Fogo (houve até quem a tivesse visto a beijar o rabo do Diabo). E, depois de um último olhar para a sua aldeia natal, fez as pedras do castelo deslizarem e rolarem por toda a aldeia. As mulheres, boas e más gritavam, agarrando-se aos filhos, outras viam os maridos ficarem esmagados pelas pedras que por lá caíam. A pouco e pouco todos iam morrendo, incluindo os Régios que acabaram soterrados por uma cruz de ferro, em honra dos soldados que haviam partido para a guerra. Quando este crime hediondo terminou, Carla, triunfante, olhou mais uma vez aquele conjunto de pedras que cobria a aldeia e repetiu novamente a palavra que dissera à feiticeira moribunda “Aceito”...Depois disto, ninguém mais lhe pôs a vista em cima. Houve quem dissesse que ela se evaporou, houve quem dissesse que a terra se abriu e assim a engoliu. Houve quem dissesse...mas isso já não nos interessa.
Pois assim se desenrolou esta tremenda tragédia. Agora não se vá dizer que esta história nunca aconteceu. Agora não se vá dizer que Monsanto ainda persiste lá em cima sob o castelo. Agora não se vá dizer que Carlas há muitas, mas poucas têm este fim. Agora não se vá dizer que quem escreveu esta história quis apenas usar a Aldeia mais portuguesa, para demonstrar o Portugal mais português. Agora não se vá dizer, pois não se diga mais do que dito ficou...
(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Pintura de Paula Rego)
Dou continuação, com este post, à estória de X e Y cujos últimos capítulos foram editados no passado dia 13. Se eventualmente já esqueceram algo... vá lá... recuem uns dias para que seja retomado o "fio da meada". Se continua tudo fresco na vossa cabeça, é só continuar o acompanhamento... já... passando de imediato para o texto que se segue:
DESFRAGMENTAÇÃO DO ROSTO

Espero pelo troco enquanto me habituo à ideia de ter de sair dali. A minha cabeça está num caos absoluto. As ideias voam, desordenadas. Eu tento formar um puzzle, organizar os pensamentos e suposições numa sequência, na tentativa de encontrar uma solução, de achar a pista certa. Tudo o que eu precisava era de um pretexto para voltar a ti. Perder-te de vista, não voltar a ver-te nunca mais, era, agora, insuportável. E esta sensação pesada fazia-se acompanhar dessas ideias, dessas suposições, de caminhos labirínticos e sem saída.
De onde eras? Onde e como poderia eu encontrar-te? Estas eram a base de todas as outras perguntas que se seguiam, dentro da minha cabeça, numa correria incansável. E davam as mãos, puxando a seguinte e a seguinte e a seguinte. Dentro da minha cabeça. Uma maternidade de pensamentos grávidos em trabalho de parto. Progressivamente.
Abro a mão e aceito algumas moedas que caem, mortas e frias, de uma outra mão, delicadamente quente. E desta vez apresso-me em tirar os meus olhos do verde luminoso e atraente dos olhos da Ema, que me sorriam com imutável simpatia. Digo até logo e lanço-te um último olhar. Um olhar que talvez revelasse mais súplica que outra coisa. Um olhar que revelava urgência, desespero e saudades que não existiam. Mas tu sorrias, quem sabe se, troçando pela vitória de teres conseguido divertimento gratuito logo pela manhã. Quem sabe se sorrias apenas por estares feliz ou por seres feliz; se sorrias da situação pela sua graça mas sem maldade.
Quando voltei as costas à tua imagem, ainda consegui ver a expressão de alegria vincada no rosto da outra tua amiga, a morena de cabelo avermelhado tão comprido quanto encaracolado.
No regresso ao trabalho, em estado de efervescência, esforçava-me por decorar caras, expressões, sorrisos, gestos, olhares, posturas. A cada passo que dava, reconstruía toda a história, toda a acção forte e vaga que se enrolava e desenrolava dos meus olhos para a cabeça, e da cabeça para o resto do corpo. E eu pensava se tudo aquilo não passaria de um sonho, de uma visão; se não teria eu enlouquecido ou a minha imaginação estivesse momentaneamente avariada. Isto era injustificável.
Durante esse dia, o trabalho que tinha, em geral, a capacidade, o poder de me abstrair fosse do que fosse, não conseguiu, irremediavelmente, retirar-me daquele estado em que fiquei.
A minha intuição dizia-me que não eras de cá. Podia deixar-me enganar pelos meus olhos que conhecem todos os rostos de vista. Podia deixar-me levar por outras suposições igualmente válidas. O facto de seres de outra localidade. De teres estado numa ausência demasiado longa para eu ter esquecido o teu rosto mesmo que só o tivesse visto uma vez e de relance. Mas nada disto me convencia a ficar de acordo com a hipótese de teres nascido e crescido na mesma terra que eu. Tu não eras daqui. A minha intuição raramente me induziu em erro. E eu confiava mais no meu instinto do noutra pessoa ou até, em coisas vistas pelos meus próprios olhos.
A continuação desse dia foi um verdadeiro inferno. O telefone não me dava descanso. Assuntos de última hora rompiam com a mesma urgência que eu tinha em reencontrar-te, e com necessidade semelhante de ficarem resolvidos no mesmo instante, à necessidade que eu tinha de resolver por onde começar a minha busca. Eu dividia, conforme podia, a minha concentração nos assuntos laborais de grande responsabilidade, com pensamentos confusos, ilusórios girando à tua volta. Por vezes, um dos meus colegas, com quem tinha maior confiança, perguntava se estava tudo bem comigo. E apesar de não fazer perguntas indiscretas, pois intrometer-se na vida dos outros não era o seu forte, o meu estado inconstante, de desinquietação, não lhe passou despercebido.
Por acaso, fomos almoçar juntos como era costume de vez em quando. E durante o almoço, que decorreu num restaurante não muito longe do local onde te descobri, empenhei-me ao máximo por manter uma postura normal, igual à de todos os outros dias. Comentar a minha vida pessoal, a minha vida privada com outras pessoas, era coisa que não se enquadrava no meu estilo de vida, e que destoava com a minha personalidade reservada. Por outro lado, eu fazia questão de separar as águas. Trabalho é trabalho e tudo o que a ele diga respeito, tudo o que a ele esteja ligado é tido por mim como uma questão sagrada, religiosa e, portanto, independente do restante.
Falamos sobre temas diversos da actualidade de um mundo que nos fazia girar à nossa volta; à volta dos outros, e de um todo interligado com outros todos que nos faziam girar à volta deles. As palavras quase saíam com a mesma velocidade que entravam pelos meus ouvidos, enquanto levava o garfo à boca, ou degustava o vinho que caía melhor do que a comida. Creio que estava sem apetite e sem assunto de conversa. Por isso, limitava-me a concordar ou discordar com aquilo que ele ia dizendo.
Já no final do almoço, calhou ele ter perguntado como estavam a correr as mudanças. Eu já nem me lembrava dessa questão que nos últimos tempos havia trazido algum entusiasmo extra à minha vida fechada.
Quando resolvi ir viver sozinho, deixar finalmente, a casa dos meus pais, comentei com o meu colega que andava à procura de casa no centro da cidade mas que me interessava um espaço não muito grande. Uma casa suficiente para uma só pessoa. E foi ele quem me deu uma mãozinha a encontrar aquela que correspondia às minhas expectativas.
Terminámos a refeição com esta conversa que, independentemente de pertencer à minha vida pessoal, não era nenhum assunto secreto. Tomámos café e seguimos, com maior satisfação, para o local de trabalho que nos esperava, interminável e agitado.
(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Christian Coigny)
O próximo capítulo será editado dia 05 de Março, Sábado.
Harry Mulisch, escritor holandês contemporâneo nascido no ano de 1972, é o autor da obra a que faço recurso. "Duas mulheres" consubstancia-se nas retrospectivas que Laura, a narradora, faz dos últimos tempos da sua vida, no contexto da morte da mãe. Nesse âmbito, o relato do envolvimento com uma mulher- Sílvia.
É, pois, da forma como se verifica o primeiro contacto e o início da relação entre ambas, que aqui apresento excerto:

Silêncio.
- Devo dizer-te - disse-lhe eu, talvez uns dez minutos depois de lhe ter dirigido a palavra pela primeira vez, - que não sou uma pessoa muito faladora-
- Eu também não - disse ela.
O que é que se passava comigo? Era uma espécie de declaração que alguém faz num restaurante de estação, onde se encontra com um outro infeliz que respondeu ao anúncio para fins matrimoniais que tinha posto no jornal, quando desde o princípio se tem a intenção de ficar junto para a vida toda. Pelos vistos ela também achava que não era um encontro qualquer - senti isso de imediato quando olhei para as costas dela.
Eu tinha ido comprar pão. Era um sábado à tarde, o sol de Fevereiro brilhava palidamente sobre a cidade. Vi-a do outro lado da rua, ao pé da montra de uma joalharia. Fiquei parada. Olhei para as costas dela e para a nuca, e para a barriga das pernas, metidas numas botas de um vermelho vivo, e ao mesmo tempo interrogava-me porque é que eu estava parada a olhar para ela. Era como se tudo na rua se tivesse deformado e desfocado, como numa determinada espécie de fotografias, enquanto apenas aquela rapariga tinha permanecido bem nítida, no meio da imagem. Não que a vista de trás fosse particularmente bonita: ficava-lhe muito bem o cabelo apanhado de forma solta, mas as costas dela eram um pouco compridas demais, as ancas demasiado estreitas e as pernas não eram tão direitas como geralmente dá gosto ver. Mas tudo se desviava do ideal num sentido que de uma maneira ou de outra se ajustava exactamente a mim. O corpo humano é um sistema de comunicações: acerca dos olhos e da boca todos estão de acordo, e acerca das mãos, mas também os pés e o pescoço e as barrigas das pernas falam uma língua que não pode mentir. Mesmo cortando-lhe a cabeça e os braços, ela continua a ser uma mensagem ideal que merece um lugar no Louvre.
Atravessei a rua. De repente arfava um pouco. Nunca antes tinha sentido tão claramente a sensação, de um segundo para outro, de que estava a fazer algo que iria alterar a minha vida por completo. Nunca tinha tido nada com uma mulher e naquele momento mal me apercebi do que estava prestes a acontecer. Provavelmente, naquele momento ainda pensei que me estava a deixar arrastar por um qualquer sentimento platónico, oriundo da história da arte, resultante das minhas leituras.
(...)
Tinha-me posto ao lado dela. O meu coração batia com força. Ela lançou-me um olhar surpreendido e assustado, e naquele exacto momento desapareceram da cara dela os indícios de angústia e aflição, de modo que pude ver como é que ela era.
(...)
Fazia frio. Caminhávamos ao lado uma da outra através de ruas onde não tínhamos nada para fazer. Ainda não estava claro para mim o que é que eu queria propriamente, apenas que queria continuar a andar ao lado dela, como um cão ao lado do dono - quer dizer, como um cão de um cego, porque o dono não tomava qualquer iniciativa.
- Onde é que havemos de ir? - perguntei.
- Onde quiseres.
- Tens alguma coisa especial para fazer hoje?
- Eu nada. Hoje tirei um dia de folga.
Será que eu própria tinha alguma coisa que fazer? Eu tinha estado casada durante sete anos e já há cinco anos que me tinha divorciado. Fazia o meu trabalho no museu, e as visitas à minha mãe eram ao mesmo tempo as minhas férias. De vez em quando lá ia para a cama com um homem que tinha conhecido por aí. Na maioria das vezes isso passava-se em minha casa. Eu não tinha interesse nenhum em ter uma relação permanente; aliás, os homens que mo propuseram tinham na maior parte dos casos uma família, e nos fins-de-semana, infelizmente, - tens que compreender isso, querida, eu também quereria que as coisas fossem diferentes - não estavam disponíveis.
(...)
Sempre estivera convencida que de repente algo aconteceria, num determinado dia - mas só se eu não procurasse. Tudo aquilo em que concentramos a nossa vontade e a nossa atenção torna-se invisível, inacessível, esta é pelo menos a minha experiência. Só reparamos bem nas coisas quando as vemos pelo canto do olho, num momento em que outro assunto ocupa a nossa atenção. Então, é como se a realidade se sentisse ignorada e, não conseguindo aceitar isso, se impõe a nós.
- Vamos até minha casa beber qualquer coisa?- perguntei.
- Acho uma ideia óptima.
(Harry Mulisch- DUAS MULHERES. Pintura de Raphael Perez)
Com este post dou por encerrada a semana temática "Das relações homossexuais e lésbicas na literatura" (2ª Série). Desejando que esta série vos tenha agradado tanto como a primeira ou simplesmente agradado, sem se fazerem comparações, dado que cada conjunto de textos vale por si, despeço-me agradecendo todas as participações e apoios demonstrados. Beijo grande para todos :)
Tal como foi registado no post anterior, apresento hoje um excerto de um capítulo de "Vagabundos de Nós", de Daniel Sampaio, em que a protagonista é a mãe. A mãe do Diogo, o jovem que de si nos fala, relatando aquele que foi o seu desenvolvimento como criança e jovem, conjugando-se a este nível, a evolução da própria sexualidade, com tudo o que teve inerente. A mãe, uma mãe, que fez os seus acompanhamentos, que foi tirando as suas conclusões... ou nem tanto... ou tardiamente... e que nos vai revelando os seus estados de espírito. Por outro lado, sempre com uma grande força, o tipo de relação tida com este filho.
São, pois estes, alguns dos seus pensamentos:

Podes ter a certeza. Gosto do Francisco desde o primeiro momento, encantou-me a tranquilidade do seu sorriso, o modo educado como cumprimenta, sobretudo a ternura com que te olha.
Foi preciso vencer muitos medos. Por estranho que pareça, Diogo, era mais simples não saber com quem andavas do que te ver amar uma pessoa concreta. Quase me envergonha dizer isto, mas continuo a pensar que ninguém te pode dar mais carinho do que eu. Egoísmos de mãe! Quando chegavas a casa de madrugada e na manhã seguinte tentava em vão tirar-te da cama, vinham-me à cabeça os riscos que corrias, doenças, vinganças, problemas com a polícia, mas tinha a certeza de que uma parte de ti continuava a ser minha, como não amavas ninguém eu continuaria em primeiro lugar. Foi por isso que tive medo quando disseste que finalmente tinhas uma relação importante. Parecias feliz mas a princípio não me alegrei, só apareciam o ciúme e o abandono, receios de que partisses de vez daquela casa e eu ficasse só no mundo, a ver adoecer a avó Xinha e a sentir o teu pai cada vez mais longe.
O tempo ajudou, duas ou três semanas obrigaram-me a reflectir. A pouco e pouco esqueci estes pensamentos egoístas e mesquinhos, compreendi que nada poderia ser melhor do que ter alguém para amar. Sei agora que o acontecimento decisivo foi o jantar a três no restaurante de Campo de Ourique. Aquele sorriso fez desaparecer todas as dúvidas, o modo tranquilo como o Francisco te respondia deu-me a paz há muito pretendida.
Prefiro deixar as coisas assim, não falarei do Francisco a ninguém. Quando as minhas amigas perguntarem pelas tuas namoradas continuarei a dizer que não as conheço e que me pareces um rapaz que não se quer prender. Ao teu pai nada direi, vou limitar-me a responder que tudo vai bem, entraste na Faculdade no curso de Sociologia escolhido em primeira opção, não era isso o mais importante para ele? (...)
A culpa, no entanto, não me deixava sossegar. Onde tinha falhado? Por que motivo não tinha interpretado os sinais que observava desde a tua infância? Não tinha sido cobardia jamais ter interrogado o teu destino, ou questionado aquilo que era evidente no teu percurso?
Dormia mal. Sonhava que a avó Xinha te descobria um dia com o Francisco, ou que o teu pai voltava ao passado, os dois descontrolados batiam-se à minha frente (...). Noutras ocasiões não conseguia adormecer, as minhas amigas tinham-te vsto de mão dada com o teu namorado à entrada de um bar gay, a Alice dizia finalmente perceber por que razão eu não gostava de falar das tuas namoradas.
(Daniel Sampaio- VAGABUNDOS DE NÓS. Pintura de Raphael Perez)
Conhecido pelo grande público, Daniel Sampaio é o autor que merece, hoje, a minha e a vossa atenção. Nascido em Lisboa em 1946, concluiu o curso de Medicina em 1970, doutorou-se em 1986, fez provas de agregação em 1997, na Faculdade de Medicina de Lisboa, onde é professor de Psiquiatria. Foi um dos introdutores da Terapia Familiar em Portugal.
É Chefe de Serviço de Psiquatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, dedicando-se à intervenção terapêutica junto de jovens em risco.
Quer da sua prática profissional, quer de visitas a escolas e contactos com professores e alunos, Daniel Sampaio extrai ideias para ir escrevendo livros, sendo vários aqueles já existentes no mercado. No que a estes respeita temos, então, "Droga, Pais e Filhos" (1978), "Terapia Familiar" (1985), "Que Divórcio?" (1991), "Ninguém Morre Sózinho- o adolescente e o suicídio" (1991), "Vozes e Ruídos- Diálogos com Adolescentes" (1993), "Inventem-se Novos Pais" (1994), "Voltei à Escola" (1996), "A Cinza do Tempo" (1997), "Vivemos Livres Numa Prisão" (1998), "A Arte da Fuga" (1999), "Tudo o Que Temos Cá Dentro" (2000), "Lições do Abismo" (2002), "Vagabundos de Nós" (2003).
E é precisamente o excerto de um capítulo de "Vagabundos de Nós" que seguidamente apresento. Um livro que aborda a questão da homossexualidade numa perspectiva alargada: contada, entendida e sentida por um filho e por uma mãe, alternando-se os capítulos com intervenções dos dois. Intervenções que, contudo, permitem o conhecimento de outras pessoas, inclusive um psiquiatra ao qual a mãe recorre.
Hoje apresento-vos o filho, amanhã estará aqui a mãe. Penso que é um complemento que deve ser feito, por forma a enriquecer e rentabilizar o conteúdo... neste caso, a divulgação de parte do conteúdo da obra em questão.
Quanto ao primeiro excerto:

Cláudia, disseste-me uma noite que estávamos a caminhar para um fim qualquer e, embora não o manifestasse, julgo que entendi. A solidão era a minha melhor companhia e, mesmo quando estava ao pé de ti, era o silêncio que escrevia palavras no teu rosto.
Compreenderás (se ainda te lembrares de mim, cinco anos passados) como era difícil contar-te o que ia cá dentro, falar do medo que sentia sempre que estava contigo. E, apesar disso, estava certo do meu amor. Desejava que os dias passassem e pudesse acordar de novo com a tua voz no telemóvel, ou então que o fim de tarde chegasse para estarmos um com o outro. E, embora com receio, era o sentir do teu corpo que me tranquilizava e dava esperança de um dia alcançar a paz. (...)
Onde está o momento da separação que continuo a procurar na minha memória, aquele minuto em que decidi partir e deixar-te? Durante muitos anos o procurei sem sucesso. Talvez tenha sido depois da conversa com o teu irmão. Recordas-te decerto, Cláudia.
Em cima da cómoda do teu quarto, ao lado de um pequeno búzio que escolhi para ti na Praia da Aguda, vi uma caixa de preservativos de uma marca desconhecida. Tínhamos tido relações quatro ou cinco vezes, os meus fantasmas só me tinham visitado por minutos, tinha sido bom. Não querias, é lógico, engravidar e, como fumavas, tinhas medo da pílula, por isso ia-me habituando ao preservativo.
Quando vi uma marca diferente pensei logo que andavas com outro e o nosso amor era uma mentira, de certeza que não tinhas prezer comigo porque era gay.
Ou então eu é que andava a fingir para fugir ao meu problema, tu tinhas reparado e fazias de conta, o melhor era teres prazer com outro. (...)
Perdia-me em mim próprio. Um dia pensava que as coisas iam bem entre nós, noutros momentos o medo dominava-me. Pensava na escola, todos iam saber que tínhamos acabado por eu ser maricas, de certeza passariam a gozar comigo como faziam com o Rafael. O melhor era desistir de tudo, acabar com este namoro que só existe para disfarçar, assumir desde já que sou gay e nada mais. (...)

E, quinze dias depois do problema do preservativo, aconteceu o pior. Os teus pais estavam fora de Lisboa e o teu irmão ia dormir num sítio qualquer, a casa finalmente só para nós.
Nada resultou como te lembras. Foi tudo culpa minha, Cláudia. Se ainda recordas, como espero, quero que saibas, não foste responsável por nada. Fui eu que me descontrolei uma vez mais.
Falavam de homossexuais na televisão, a mãe de um deles disse que tinha custado a princípio mas que agora estava tudo bem, afinal era uma questão de opção. Apeteceu-me mudar de canal mas parecias interessada e não quis dar nas vistas, se calhar a senhora tinha razão e o melhor era não disfarçar, dizer que era e talvez pudesse contar com a tua amizade para toda a vida.
Quando começámos a fazer amor no chão da sala, imagens loucas assaltavam-me, apressei-me a olhar para o teu sexo porque, de repente, tive medo de estar a fazer amor com um homem.
(Daniel Sampaio- VAGABUNDOS DE NÓS. Pinturas de Raphael Perez)
Thomas Mann (1875-1955) é o escritor que vos trago hoje. E dele a obra "A Morte em Veneza" (escrita entre Julho de 1911 e Julho de 1912). Uma obra que apresenta um interesse... uma paixão, com cunho altamente platónico, de um escritor por um jovem de beleza singular. O cenário: Veneza. Veneza: a cidade que vai "presenciar" todos os acontecimentos, "sentir" todas as emoções, assim como a morte do escritor.
Estamos, de facto, perante um livro onde o Belo é altamente considerado, sendo o conceito feito desenvolver, naquela que é a relação com os sentimentos e emoções vividos. Um livro que, sublinho, tem um forte cunho auto-biográfico.
Deixo-vos com um excerto:

Um grupo de adolescentes e jovens adultos, confiados a uma perceptora ou dama de companhia, estavam reunidos à volta de uma mesinha de bambú: três jovens raparigas, aparentemente de quinze a dezassete anos e um rapaz de cabelos longos, de aproximadamente catorze anos. Aschenbach notou com espanto que o rapaz era de uma beleza perfeita. O seu rosto pálido e graciosamente circunspecto, emoldurado de caracóis cor-de-mel, com um nariz direito, uma boca aprazível e a expressão de uma afeiçoada e divinal seriedade, lembrava esculturas gregas nos tempos mais nobres. No mais puro acabamento da forma era tal o encanto pessoal, que o observador julgava nunca ter encontrado quer na natureza quer nas artes plásticas algo de semelhante perfeição.
(...)
Um sentimento de delicadeza ou de susto, uma espécie de consideração ou de pudor levou Aschenbach a desviar o olhar, como se nada tivesse visto; pois ao contrário do sério observador ocasional de uma reacção passional não agrada de modo nenhum tirar proveito das suas observações, nem que seja para si próprio. Mas sentia-se alegre e ao mesmo tempo abalado: sentia-se feliz. Este fanatismo infantil dirigido contra um pedaço de vida tão inofensivo deu à inexpressividade divina um toque de humano, transformou a preciosa obra-de-arte da natureza, que apenas servirá para deleite do olhar, numa entidade digna de mais profunda compreensão. Concedia àquele adolescente, cujo corpo se destacava pela beleza, uma dignidade que ultrapassa a sua idade.
(...)
A visão daquela figura viva com caracóis gotejantes, originalmente pura e austera, bela como um deus vindo das profundezas do céu e do mar, emergindo e escapando-se aos elementos, despertava imagens míticas, era como poesia de tempos primordiais, tempos de origem da forma e do nascimento dos deuses. Com os olhos fechados, Aschenbach escutava este canto que soava no seu interior e novamente pensou que se sentia bem aqui e que queria ficar.

Aschenbach não amava o prazer. Sempre e onde quer que estivesse a divertir-se, a descansar ou a gozar uns dias agradáveis, era impelido por uma inquietante e obstinada força de regresso à enorme fadiga, à tarefa sagrada e sóbria do seu dia-a-dia. Só este lugar o enfeitiçava, descontraia a sua vontade, o fazia feliz.
(...)
Estátua e espelho! Os seus olhos estreitavam aquela nobre figura à beira do azul e, enlevado neste delírio, julgava envolver com o seu olhar a própria beleza, a forma enquanto pensamento divino, a perfeição una e pura, que vive no espírito e da qual uma cópia, uma parábola humana aqui estava erigida para ser idolatrada. Era este o seu êxtase; e o envelhecimento do artista recebeu-o sem hesitações, com avidez até.
(...)
Alguma relação e um conhecimento tinha de nascer forçosamente entre Aschenbach e o jovem Tadzio, e era com uma alegria penetrante que o mais velho percebia que a sua atenção e participação não ficavam completamente incorrespondidas.
(Thomas Mann- A MORTE EM VENEZA. Pinturas de Raphael Perez)
A semana que hoje se inicia vai lançar a 2ª série da edição de textos que se enquadram na temática "Das relações homossexuais e lésbicas na literatura". E nesta nova série, outros autores, outras formas de abordar as realidades, outros estilos para fazer pensar. Para fazer pensar e para fazer apreciar ainda mais a Literatura, naquela que pode ser a sua riqueza, em particular, em termos de apresentação das realidades, das complexidades e variedades que tem inerentes.
Esta semana arranca com um excerto de uma das obras da escritora Marguerite Yourcenar- "Alexis". E Alexis é um homem, um músico que decide pôr término a três anos de casamento por querer assumir por completo aquela que é a sua sexualidade. Esta obra é, pois, a confissão de Alexis a Monique, sua mulher. Mas é uma confissão contida, não explícita... é uma confissão que se deve subentender. É um dizer, não dizendo directamente. Mas é. E basta estarmos atentos para o perceber.
A propósito desta obra destaco que foi escrita em 1929 com tudo o que isso reflecte de "teorizações" ou explicações sobre a questão da homossexualidade. Seja como for tal não invalida os grandes problemas que são colocados, nomeadamente, aqueles resultantes da (não) aceitação e (não) compreensão social (muito mais dilatados nos inícios do século XX no que concerne a exclusão e marginalização). Ou seja, as questões do preconceito, da imposição de uma moral e de determinado tipo de condutas/posturas/preferências, continuam com uma presença bastante real.
Quanto ao excerto... passemos a ele:

Fui educado pelas mulheres. Era o último filho de uma família muito numerosa; era de compleição doentia; a minha mãe e as minhas irmãs não eram muito felizes; razões de sobra para que eu fosse amado. Existe tanta bondade na ternura das mulheres que durante muito tempo julguei poder dar graças a Deus. A nossa vida, tão austera, era aparentemente fria; tínhamos medo de meu pai; mais tarde, dos meus irmãos mais velhos; nada aproxima tanto as pessoas, como terem medo juntas. Nem a minha mãe nem as minhas irmãs eram muito expansivas; a sua presença era como a dessas lâmpadas frouxas, muito suaves, que mal iluminam, mas cujo clarão uniforme impede que faça demasiado escuro e se fique realmente só. Não se imagina quanto há de tranquilizador, para uma criança inquieta como eu era então, na afeição sossegada das mulheres. (...)
Encontro-me pela segunda vez à beira de uma confissão; melhor será fazê-la de imediato e com toda a simplicidade. As minhas irmãs, bem o sei, também tinham companheiras, que viviam familiarmente connosco, e das quais acabava por julgar-me quase irmão. Contudo, nada parecia impedir que eu amasse alguma dessas raparigas e talvez vós própria achareis singular que o não tenha feito. Precisamente, era impossível. Uma intimidade tão familiar, tão tranquila, arredava as próprias curiosidades, as próprias inquietações do desejo, supondo que a tal me abalançasse junto delas. Não creio excessiva a palavra veneração, que há pouco empregava, aplicada a uma mulher de grande bondade; cada vez menos o creio. Suspeitava já (exagerava, até) quanto há de brutal nos gestos físicos do amor; ter-me-ia repugnado aliar essas imagens da vida doméstica, sensata, perfeitamente austera e pura, a outras imagens, mais apaixonadas. Não nos enamoramos daquilo que respeitamos, nem porventura daquilo que amamos; não nos enamoramos sobretudo daquilo com que nos parecemos; e aquilo de que eu mais me diferençava não era das mulheres. (...)
Dir-se-ia que eu quis explicar há pouco as minhas inclinações por influências exteriores; contribuíram por certo para as fixar; mas vejo perfeitamente que devemos atentar em razões muito mais íntimas, muito mais obscuras, que não compreendemos bem porque se escondem dentro de nós. Não basta ter determinados instintos para se esclarecerem as suas causas, nem ninguém pode, afinal, explicá-las por inteiro; por isso não insistirei. Queria simplesmente mostrar que esses instintos, justamente porque eram naturais em mim, podiam desenvolver-se durante muito tempo sem que eu desse por eles. As pessoas que falam só pelo que ouviram enganam-se quase sempre, porque estão a ver de fora, e vêem grosseiramente. Não imaginam que certos actos que consideram repreensíveis possam ser ao mesmo tempo fáceis e espontâneos, tal como a maior parte dos actos humanos, aliás. Acusam o exemplo, o contágio moral e adiam apenas a dificuldade de explicar. Não sabem que a natureza é mais diversa do que se julga; nem querem saber, porque lhes é mais fácil indignarem-se do que pensar. Fazem o elogio da pureza; não sabem quanto pode haver de turvo na pureza; ignoram sobretudo a candura do erro.
(Marguerite Yourcenar- ALEXIS. Pintura de Raphael Perez)
Porque este fim-de-semana é dela, deixo-vos com outro texto da Paula. Mais um texto. Um outro. Uma outra temática. Relações interpessoais. Relações entre casais. Relações para além das supostamente "oficiais". Legitimidades? Fidelidades? Infidelidades? O que é isso? E face a quê ou a quem? Enfim... Uma proposta de análise e interpretativa. Algo mais, com um cunho muito pessoal. Ora leiam.

Este é o mundo dos desapaixonados.
Este é o mundo, não dos que traem, mas dos que são traídos, dos pintores amargos, mergulhados no vício e no mal, num ambiente cinzento e torpe, onde nunca brilha a luz da esperança e da bondade.
Este é o mundo dos que padecem da doença de terem sido alvo da infidelidade. Um homem e uma mulher, sem nomes, esquecidos, perdidos no vácuo de serem ambos subreptíciamente traídos por aqueles a quem amam. Um homem, sorvedor dos caprichos de uma mulher que o engana tanto quanto pode; uma mulher, incapaz de se libertar das cadeias de vício que a une a um homem que a trai com cada mulher que encontra. Um homem e uma mulher... O café, encenado numa praça londrina no centro de L., concentra nele a delícia de se purificar e realizar o bem. Neste pântano sem céu, onde o cheiro a grãos de café se mistura com a névoa de fumo que enrola o ar que cada ser sente. O homem e a mulher estão sentados em mesas paradoxalmente opostas, como se mundos paralelos e interligados se confrontem com estranhos paradigmas. Em cada uma das suas mesas esconde-se um livro, uma chávena de café suja e vazia, um cinzeiro e beatas.
Fumam e absorvem o fumo, numa última tentativa de recuperarem as lágrimas amargas despejadas pelo sentimento do engano. Reconhecem-se ambos, como dois siameses que, depois de tantos anos separados, se juntam finalmente. Reconhecem a expressão da traição, da faca cravada nas costas. Estão em silêncio, pois nenhum deles quer assumir a responsabilidade de encorajar o outro a deixar de o olhar. O homem e a mulher observam-se como marca do seu triunfo. Os olhos vítreos pousam e descaem-se mutuamente como sinal de que ambos preparam uma dura vingança. A vingança é sempre um atributo do prazer, e os dois sabem que, este sinal dos seus olhares não representa a tristeza de estarem a ser traídos, mas a grandiosidade de serem eles mesmos os traidores. Porém, a pouco e pouco, olhar de ambos vai-se desvanecendo na bruma e nos sons irritantes das máquinas de café. A pouco e pouco, o homem e a mulher vão-se tornando cada vez mais infelizes na sua infelicidade.
A pouco e pouco, a consciência de que continuam ambos a ser traídos, vai sendo retomada e obstinadamente concentrada. Reconhecem que, nunca os seus olhares indefesos poderão colmatar a lacuna da infidelidade alheia. O homem levanta-se e aproxima-se, com passos lentos e vagarosos, da mesa da mulher. O movimentar de rins faz balouçar o corpo ligeiramente para a esquerda, atribuindo-lhe um ar arqueado e desmesuradamente torto. A mulher não se surpreende, mas baixa os olhos sobre a mesa e sobre as beatas perdidas. Conta-as, num estranho exercício de futilidade, mas não as consegue somar, não as reconhece no seu todo. O homem crava os dedos no antebraço da mulher e impulsiona-a a levantar-se. O momento em que a mulher se decide a abandonar a cadeira é atravessado por um casulo de devaneios, como o reconhecimento de uma aventura visível, efectuada no mundo dos homens e das coisas. Os corpos de ambos são movidos por uma verdadeira suspeição, como o tuberculoso que sente subir à boca o gosto do sangue misturado com a saliva.
Presos na gravidade da atmosfera, a mulher segue o homem como uma sombra. Não se falam, não se perguntam, não se compadecem. Deixam-se arrastar por essa força de ar que é o sentimento de vingança. Este é o mundo dos traídos... Na porta de um dos prédios lê-se a palavra "Devoluto", um estranho significado para a mente do homem e da mulher. Empurram a porta pesada e ruidosa e, sem a mínima atenção, sobrem o lance das escadas. No patamar, um ruído mal sufocado de alguma colónia de ratos irrompe sobre os ladrilhos poeirentos, juntamente com um murmúrio confuso e íntimo dos seus pés. Empurram uma das portas e vislumbram o apartamento, palco dos seus delírios. No vestíbulo, vasto e negro, o homem e a mulher tiram o casaco. Abrem-se nele três portas; defronte da entrada há uma grande janela escura, rectangular, que deve, sem dúvida, deitar para um pátio interior. Passam para a sala. - Instalemo-nos aqui. - Diz o homem, apontando para um grande sofá de pele, velho e traçado. Nesse momento despem-se, ficam totalmente nus. A mulher deixa descobrir, em primeiro lugar, os seios, pequenos e flácidos, para depois, em movimentos serpenteantes, deixar sair o resto do corpo. Estranho que o corpo, aquando nu, assume sempre uma natureza indefesa e vertiginosa, como uma verdade cálida e sofredora. Nesse instante, o homem, hábil nos seus movimentos, destapa o corpo, deixando transparecer a verdadeira virilidade masculina, o exercício de poder de que, durante tantos anos, os homens impuseram. Estão ambos nus, frente a frente, mas não ousam sequer imprimir qualquer som, e muito menos a tendência geral dos seres humanos, de usar o toque como reconhecimento.

De facto, no exercício de se quererem vingar daqueles que amam e que os torturam, depositam nos olhos o sabor da boca. Naquele antro de traição, sentem-se felizes por saber que, de qualquer modo, estão a vingar-se deles. A infidelidade coloca-lhes à disposição uma ideia de resposta e não uma necessidade de interrogação. Observam-se até cansarem os olhos. Nenhum deles ousa mexer-se... Durante dias, voltaram ao prédio devoluto. Despiam-se, observavam-se, vestiam-se, e voltavam às vidas inertes e tristes que os fazia querer voltar àquele lugar. Porém, à medida que esta estranha rotina se transformava num dogma, o sentimento de vingança ia-se tornando cada vez mais simplificado e inútil. Demovia-os cada vez mais do seu propósito. Num dos dias, quando o homem desabotoava a braguilha, os seus dedos tiveram a certeza de aprisionar um tesouro. A mulher apercebeu-se de tal dilema, e experimentava com isso um sentimento de humildade tranquila perante a serena e incomparável potência do membro para o qual dirigia o olhar.
Naquele dia, o sexo do homem afigurava-se como uma muralha com uma brandura extremamente provocante. A mulher deixou a mão baixar ao ventre e mergulhar-se no seu mais secreto domínio. Novamente o sentimento de vingança, a consciência de que respondia ao facto de ter sido alvo de infidelidade, voltava à mente. O rosto da mulher, tornava-se, com o balançar do corpo, cada vez mais pueril e beatificado. Os seus olhos, não se depositavam no membro do homem, mas no seu olhar, na consciência de estar ela mesma a ser observada. O homem sabia-o, e agarrava com os dedos o membro sólido e palpitante, nu e quente, todo preparado e desambaraçado da roupa, em brasa, e, ao mesmo tempo, gelado, para lançar na espessura do quarto, o registo final do seu prazer. O homem e a mulher acariciavam-se sozinhos e observados um pelo outro. Com dois esgares, deixaram transparecer um sentimento de vitória...
Um novo alento pousava na mente do homem e da mulher. Não se vestiram, antes deixaram-se estar nus, inocentes e incoerentes. A mulher levantou-se e vagueou pelo vestíbulo e pelos outros quartos. A casa não tinha qualquer outro objecto que não aquele sofá. Para qualquer pessoa, tal facto representaria um sentimento de desconforto, mas, para aqueles dois seres, representava a sensação de, também a casa participar naquele acto de vingança. O homem também se levantou e aproximou-se da mulher, que olhava pela janela. Subitamente, um grito surdo e oco produziu-se nas vozes de ambos. Quando aproximaram os olhos da dor, verificaram que, no chão de madeira, todo ele repleto de vidros, provenientes da janela partida, espelhava-se um líquido vermelho negro. O homem e a mulher, munidos de instintos animalescos, tornaram o chão e sugaram o sangue que escorria. Lambiam cada gota, cada vidro, quais vampiros da verdade. Não compreendiam a razão de estranha necessidade, mas sentiam-se saciados em deixar escorrer pela boca o sangue do outro. Nesse instante determinaram o destino. O mundo havia morrido, as trevas ecoavam pela casa...
O homem e a mulher fecharam-se naquela casa durante dias, sem água, sem luz, sem comida. Nesse exercício de prazer corrosivo, sentiam-se famigerados pela vida e pela morte. Não ousavam, no entanto, tocar-se. Ao fim de noites, os corpos, magros, cegos, desidratados e esfomeados, já não tinham qualquer autonomia. A palidez das suas expressões contrastava com a determinação de ambos. Nesse exercício de deturpação da condição humana, os olhares encontraram-se uma vez mais e, nesse instante, o Eros desafiou as convenções. A vingança transformara-se em ternura. O homem e a mulher já não viviam num mundo obscuro. A presença de ambos, o entrelaçar dos seus odores acres e sedentos, fê-los voltar ao mundo da virtude e do bem, ao mundo da esperança e da bondade, ao mundo dos apaixonados. Amavam-se... As suas bocas foram impelidas a tocar-se, mas, à medida que as peles se grudavam, um sentimento repelente tombava sobre as suas mentes. Era a voz da consciência que os chamava. O homem e a mulher estavam perto de se tornarem eles mesmos, naquilo que os trouxera - a infidelidade. No entanto, ao contrário dos seus passivos, eles não estavam prestes a tornarem-se infiéis aos seus companheiros, mas à sua situação de traídos. O seu mundo era o mundo dos traídos e dos desapaixonados, uma condição que os tinha constituído da qual não deviam, nem podia abdicar. Ao entregarem-se ao Eros, estariam a ser infiéis à própria infidelidade.
Não, o seu mundo não era aquele a que agora se propunham, nem nunca o poderia ser... O homem e a mulher, famintos e suados, separados, não ousaram sequer olhar-se. Sentiam-se como o criminoso punido e votado a uma liberdade condicional, em que qualquer acto suspeito seu, o poderia fazer voltar ao calabouço. Vestiram-se e arrastaram-se por esse prédio devoluto e moribundo com cheiro a podre. Chegados à Rua, depararam-se com a luz como se tivessem sido eles os escravos propostos por Platão, na Alegoria da Caverna. O homem e a mulher tornam a suas casas e voltam a esse estranho mundo da traição e do abandono. Sentados, deitados, em pé, nunca abdicarão dessa posição que os companheiros contratualmente os hão submetido. O homem espera a mulher que o engana tanto como pode; a mulher espera o homem que a trai com cada mulher que encontra.
Este é o mundo dos desapaixonados.
Este é o mundo, não dos que traem, mas dos que são traídos.
Enfim, estão sós.
(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografias de José Marafona)
No contexto de acolher aqui no Abismo textos de companheiros da blogosfera, chegou hoje a vez de vos apresentar alguém cujo trabalho aprecio e cujo blog tenho linkado entre aqueles que visito. Falo-vos da Paula, blogger do "Divine Decadence Darling!"
O texto que a seguir edito é um exemplo daquele que é o seu estilo, do formato de apresentação privilegiado, assim como dos temas sobre os quais se debruça. Mas este texto é, em termos de conteúdo, também uma referência. Uma referência do que é ou pode ser o Homem. Uma referência de até onde pode ir o seu cinismo, a sua hipocrisia, o seu julgamento impiedoso.
Estamos, inequivocamente, perante um texto que nos faz parar. Parar para pensar, em particular, na dimensão do exercício... ou não... da nossa humanidade: connosco próprios e com ou em relação aos outros.
Espero que gostem!

O nosso Portugal está cheio de histórias, de medos, de alegorias, de assombrações.
E a aldeia dos S., situada onde as Beiras se cruzam, não é excepção. Contam-se muitas histórias, reflectem-se muitas sentenças, mas naquela aldeia, onde o pão ainda se come a cheirar a lenha, onde os lobos ainda aterrorizam as galinhas, onde os candeeiros a petróleo ainda substituem o Sol, só existe uma história, que é contada vezes e vezes sem conta, como sinal, como presságio para os mais novos, e como lição de vida para os mais velhos...
Nos tempos, em que o Salazar era Rei e em que a Fome era Rainha, aquela aldeia, pequena e insignificante, vivia presa a uma comunidade mesquinha e fechada. Sempre as mesmas caras, sempre os mesmos corações, sempre as mesmas frases feitas, que se desdobravam no medo da Guerra, com aqueles pretos de raça branca e os bons dias da vizinhança e as conversas malfadadas dos restantes. Nessa aldeia, vivia a pobre e bela Sara, oscilante entre a infância e a juventude, cujo pai, sapateiro na aldeia, envenenado pelo cheiro da graxa, morrera pobre, só deixando seis galinhas a sua filha.
No entanto, deixara-lhe mais - a promessa de um casamento, com um pequeno proprietário, que, todas as Segundas partia para a cidade, em busca de lucro e sustentação. Voltava todas as Quartas, depois de se satisfazer em sete bordéis, oito casas de jogo, e uma partida de futebol. Casado com Sara, a sua vida não mudou muito, excepto aos Domingos, em que descia com a jovem mulher pela aldeia até à Igreja e aí assistia à Missa, engalfinhado num fato gordo, preto e sujo, e às Quintas, em que montava a esposa, como um Boi monta a sua Vaca. Ele grunhia como os animais e mordia com tesão os peitos de Sara, enquanto lágrimas da mesma lhe molhavam a boca. Com todas estas sessões, a jovem engravidou.
A aldeia congratulou o homem, fizeram-no detentor de um título de bom pai de família, enquanto a jovem se debatia em dores com aquela gravidez entabulada em medos e desgraças. Quis o destino servir de lição, e a ordem chegou a casa destes. A necessidade de mais homens naquela Guerra de Colónias e Colonatos, e o homem, viu-se obrigado a partir sem demora, e sem tempo de ver o filho nascer. Conta-se que terá sido morto, lentamente, por ferros em brasa, nas mãos de algum galo justiceiro.
Na véspera de dar à luz, a mulher pediu ajuda a duas curandeiras, que, com quatro rezas e seis mezinhas, trouxeram aquela criança pura à luz do dia. Qual o espanto das mulheres que, quando fizeram a criança chorar, a sua cor era mais negra que o carvão. Aquele pequeno ser, representava a mais estirpe linha africana, de uma tez negra e pesada, com um corpo vivo e imponente, fruto de algum Rei de uma cidade perdida no sul de África. A mãe amou-o e não se perguntou sobre as razões de tal mistério de Deus.
No entanto, as bruxas curandeiras, afastaram-se e escarraram perjúrios aos Infernos - "Filho de um Corno, Irmão do Diabo. É o Demo que te manda à terra. Matem-no". Não levou muito tempo, em que a aldeia, virtuosa na sua fúria, roubasse a pobre criança, e a queimasse viva, entre doze rezas, ao lado da Igreja. Acusavam-na de amantizada de algum negro escravo e perdido "Que desgraça para o marido! Que desonra terá o pobre de suportar quando voltar dos nossos triunfos." A realidade, era que nunca ninguém, nem mesmo a Ciência, matreira em todas as respostas, conseguiu descobrir tal razão.
A Mãe não se recompôs de tal crime, e deixou a casa, os bens, e vagueou enlouquecida pelas margens da aldeia. Quando recuperou a sanidade, já era tarde de mais, pois a povoação já a tinha em conta, já lhe dera nome, e já lhe havia feito uma canção.. . As crianças no percurso para a escola, os homens à saída da taberna, as mulheres à saída da Sacristia, todos lhe cantavam a seguinte canção: Atirem Pedras à Puta Puxem-lhe bem esse cabelo De um homem Branco que foi prá luta Teve um filho que nasceu Preto. Todos os dias, enquanto ela passava por alguma casa, mais pobre que os pobres, mais esfomeada que os esfomeados, todos lhe atiravam a canção.
Alguns juntavam as fezes da semana e atiravam-nas à sua cara, outrora tão pura e gélida. Outros procuravam pedras, e atiravam-nas à sua barriga. Com o passar dos tempos, foi obrigada a vender o corpo, aos soldados, aos médicos das aldeias vizinhas, e ao próprio Padre que, julgando-a já excomungada, montava-se sobre ela, fazendo disso uma necessidade para a sua compra celestial e a sua extrema unção.
Um dia, enquanto a jovem Sara, ainda vagueava pelos terrenos, descobriu um vendedor, que vendia lotarias. Incumbido por essa Santa Casa, e, vendo a jovem Sara, rodeada de pestilência, nauseabunda, e encurvada, ofereceu-lhe uma cautela. Sara, já tão pouco habituada a gestos caridosos, aceitou-o de bom modo. Descobriu ela, que ganhara uma fortuna, e, escondeu-a nos pedaços de tecido que ainda trazia agarrado ao corpo. A pouco e pouco a aldeia foi percebendo tal dote da jovem Sara. Recusaram admitir, por resquícios de orgulho, que lhe deviam algum cuidado, mas, mais uma vez o destino lhes foi traiçoeiro. Uma ordem emanada pelo serviço central da União Nacional determinava a expropriação daquela aldeia, sem qualquer indemnização, devido à falta de verba do Município para fazer frente a um Investimento Hoteleiro megalómano por parte do país vizinho.
O terror instalou-se.
Foram feitas Assembleias de Freguesia, discutiram-se múltiplas teorias, mas o possível, tornara-se impossível. A aldeia não tinha verba para fazer face a tal empreendimento. Num futuro próximo, todos os habitantes, ficariam sem as casas, o Padre ficaria sem a Igreja e os donativos das beatas, o Banqueiro ficaria sem o Banco e o dinheiro depositado pelos habitantes, o Presidente da Junta ficaria sem o edifício da Junta e a fama alcançada. Só existia uma solução - o dinheiro da jovem moribunda Sara. Como ela o trazia escondido no ventre, roubar-lhe soaria a acto despropositado. E nisto a Aldeia reconheceu que só ela os poderia salvar.
A aldeia passou a idolatrar a jovem Sara.
Ofereceram-lhe uma casa, deram-lhe banho, adocicaram-na, perfumaram-na.
Pediram-lhe o dinheiro.
Era ver todos os habitantes a implorarem por esse conjunto de notas.
O Padre chorava e pedia-lhe compaixão, o Banqueiro pedia-lhe uma Satisfação, as mulheres pediam-lhe perdão, os homens elogiavam-na até mais não. E, nesse ponto, toda a aldeia descobriu que a amava, de todo o coração. Sara, sofrera muito, e a sua decisão, poderia ser a causa de novos males da povoação.
Ela sabia, que, pela primeira vez, tinha o destino de todos eles, preso e assente na sua mão. O Poder pertencia-lhe, e de certa forma, glorificava-a. Poderia certamente vingar-se de todos eles, de todas as maleitas que a haviam submetido. Contudo, os seus olhares desesperados, os seus medos, as suas angústias, repugnavam a sua cabeça e sua suposta vontade.
Sara confrontava-se com a mente e o coração. Aquela aldeia, um dia já a tratara bem, e certamente o voltaria a fazer. Neste confronto de decisões, a jovem entregou todo o dinheiro ao Presidente da Junta, que rapidamente o fez chegar à Capital, e impedir esta tempestade pelo Irmão mais Velho que é o nosso país vizinho. Agradeceram-lhe e fizeram uma festa em sua honra. Era, de se ver, a jovem, carregada ao colo, sobrestimada, acariciada, mimada. Dançou, bebeu, e deitou-se cansada e confiante. No dia seguinte acordou, repleta em suspiros aliviados, virando-se de lado e observando o nascer do Sol, que um dia julgara extinto. Quando abriu a porta, a aldeia, ainda em festejos de tal gratidão, já lhe cantava:
Atirem Pedras à Puta
Puxem-lhe bem esse cabelo
De um Branco que foi prá luta
Teve um filho que nasceu Preto.
(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING!. Fotografia de José Marafona)
Deixo-vos um excerto de "Um Édipo", peça da autoria de Armando Nascimento Rosa. Um excerto... um pequeno texto... para vos sensibilizar para esta obra do autor: dramaturgo, ensaista e autor musical, em traços gerais.
Nascimento Rosa é doutorado em Literatura Portuguesa Dramática (Século xx), sendo professor nas áreas da Teoria e Estética, Dramaturgia e Escrita Teatral, tendo já um importante currículo ao nível da escrita de peças. Regista-se aqui: "Goiânia- Uma nova caixa de Pandora", "Lianor no país sem pilhas", "Audição- Com Daisy ao vivo no odre marítimo". Divulgou, ainda, em leituras dramatizadas, "Nória e Prometeu- Palavras do fogo" e "Espera apócrifa".
A peça que aqui destaco- "Um Édipo"- estreou em Lisboa, no Teatro da Comuna, em 4 de Julho de 2003.
Quanto ao seu excerto: representativo de uma abordagem à tão significativa e conhecida tragédia de Sófocles. Ei-lo:

Tirésias, o velho xamã cego, é visitado por Jocasta, que recusa dar-se por morta.
(...)
JOCASTA: Também eu não me devia ter separado do meu Édipo em criança. Voltei a juntar-me a ele em adulto sem sabê-lo. E o nosso edílio foi o castigo de o ter enviado para a morte.
TIRÉSIAS: Agora tu estás a falsear a história do teu drama...
JOCASTA: Antes assim fosse, meu amigo. A desgraça de saber roubou-me a harmonia. Era feliz na inconsciência. Pudesse eu voltar atrás e já não posso. Diria adeus ao trono. Fugiria com Édipo e a terra do exílio havia de ser longínqua, pra que jamais voz alguma gritasse que somos mãe e filho a partilhar o tálamo.
TIRÉSIAS: Mas a voz dentro de ti nunca se calaria aonde quer que fosses, e em vão buscarias nas drogas dos físicos o repouso do sono.
JOCASTA: Não sei, Tirésias. Depois de me enforcar, extinguiu-se a agonia e a culpa. Como quando se sai vivo de uma peste mortal, olhamos as coisas com um deslumbramento virgem. Tudo me parece agora tão simples. Os homens amam as mulheres porque desejam mergulhar de novo no mar das delícias que os trouxe para o mundo. Mesmo que as sintam suas filhas, elas são extensões vivas de si próprios e por isso mães na mesma, promessas de futuro. As mulheres jogam o mesmo jogo e no corpo do amante juntam o pai e o filho imaginado. O amor é um incesto universal. Não valia a pena ter-me enforcado por uma causa tão vulgar como esta.
TIRÉSIAS: Mentes a ti mesma, Jocasta. Mas se a mentira te é útil, usa-a como unguento para as tuas feridas. Foram outros os amores malditos que fizeram a perdição da tua casa. Tu bem o sabes...
JOCASTA: Fala-me agora deles, Tirésias. É a tua vez de cuidares de mim com o verbo da memória.
TIRÉSIAS: As pessoas tagarelam dias a fio sobre o teu romance com Édipo. Identificam-se convosco como se estivessem no teatro. Hão-de fazer do vosso incesto o mito de eros mais famoso da História. Muitas actrizes viverão na cena o teu papel; muitos actores hão-de esmagar morangos sobre os olhos pra fingirem o suplício desse marido que tu deste à luz. Até quando os velhos deuses se apagarem dos altares, o vosso amor continuará a inquietar o coração dos mortais.
JOCASTA: Será preciso sofrer tanto para ganhar a eternidade?

TIRÉSIAS: Sê bem vindo, ó Édipo! Tu, que quiseste ser como eu sou. Desejo doido o teu, meu amigo. A cegueira não é prémio cobiçável. (Tirésias saúda Édipo com um abraço. Jocasta ronda-os, como se desejasse abraçá-lo também. Tirésias faz sinal a Jocasta e fala apenas para ela.) Podes abraçá-lo, Jocasta. Ele não sente a miragem do teu corpo
ÉDIPO: Com quem falavas, Tirésias? Há mais alguém connosco além da tua filha? (Jocasta abraça o tronco de Édipo sem que este dê o menor sinal de a sentir enovelada nele.)
TIRÉSIAS: Não Édipo, estamos sozinhos. Um cego diante de um outro cego.
ÉDIPO: Preciso que me oiças, Tirésias. Tu és o médico das almas. E foi a minha alma doente que lançou a peste sobre Tebas. Por isso mutilei os olhos. Deixei de ver o cenário do corpo pra dar atenção ao meu vazio interior.
TIRÉSIAS: Exageras como sempre. Os mortais como tu acabam em personagens de tragédia.
(...)
ÉDIPO: (...) Que animais nós somos, Tirésias, por ficarmos satisfeitos com a morte dos outros? A alegria de sabermos que a desgraça bateu à porta do vizinho e ignorou a nossa casa. Matei um homem que me pertencia mais do que o punhal que trago na cintura. E a imagem do seu rosto golpeado deve ser parecida com aquela que o espelho mostra agora de mim. Quando matamos alguém, matamo-nos também com ele. Era o que o meu pai Pólibo me dizia em criança, ao ver o gozo bravio com que eu empalava lagartos num atiçador de lume. Eu achava que não. Matar para viver é um dever da vida, respondia-lhe. Hoje sei que a vida calça coturnos e vai tirando e pondo as suas duas máscaras. A máscara da comédia e a máscara da tragédia. Às vezes as duas ao mesmo tempo, uma na cara outra na nuca. Mas detrás da máscara só vejo o vazio. Por baixo das vestes, apenas um cabide. A vida é a máscara da morte.
TIRÉSIAS: E a morte a máscara da vida.
(...)
(Armando Nascimento Rosa- UM ÉDIPO. Fotografias de Naushér Benaji)
Com este post dou por encerrada mais uma semana de teatro. Semana que deu sequência a outra, assinalando a excelente receptividade por parte de todos vós, à edição por mim feita de textos dramáticos. Voltarei com mais autores e mais peças no próximo mês. Voltarei para continuar a consolidar esta vertente de trabalho desenvolvida aqui no Abismo, fazendo juz a textos e a representações cujas mensagens não devem ser por nós desconsideradas (no sentido de não conhecidas) ou não acedidas de forma o mais ampla possível. E isso, pela sua qualidade e pelo que nos podem fazer pensar ou ensinar.
Até Março, então!
Um dos grandes nomes da Tragédia grega é, inequivocamente, Sófocles.Tendo vivido entre (ou cerca de) 496 a.c e 405 a.c, uma das suas grandes peças foi "Édipo Rei", cujo excerto hoje aqui trago.
Estamos, com esta peça, face a uma grande estória... face a um grande drama... que é (são) aquele(s) relativo(s) a um indivíduo que assassina o pai, casa e tem filhos com/da mãe. Édipo, Laio e Jocasta são os protagonistas de um destino ao qual sempre procuraram fugir. Mas este estava marcado. Os oráculos tinham falado. Tudo estava traçado. Perante isto, qual a força dos homens? Qual a possibilidade de fuga destas três personagens? A(s) fuga(s) não é (são) de todo conseguida(s). E a catástrofe dá-se quando Édipo e Jocasta (então rei e rainha de Tebas) se confrontam com a realidade. Ela enforca-se. Ele auto-pune-se vazando os olhos e partindo para o exilio.
Mas... passemos para um excerto desta fantástica peça:

ÉDIPO (surgindo à entrada do palácio e dirigindo-se à multidão aterrorizada pela peste que grassa na cidade)
Ó meus filhos, ó novos descendentes do antigo Cadmo, por que razão estais assim, diante de mim, com esses ramos de suplicante? Toda a cidade está cheia de incenso, toda a cidade está cheia de trenos e de lamentações! E achei, meus filhos, que não deviam ser outros a informar-me, que devia vir eu mesmo, eu, Édipo célebre entre todos os homens. Vamos, fala tu, ó velho, porque é conveniente que fales tu em nome deles. Que há então? Que esperança e que receio vos trouxe aqui? Estais seguros de que vos hei-de socorrer; seria um homem sem piedade se me não comovesse com essa vossa atitude.
(...)
ÉDIPO
(...)
Senhor meu parente, filho de Meneceu, que resposta do deus nos trazes tu?
CREONTE
Uma excelente resposta. Há coisas decerto bem difíceis de fazer; mas acho que são boas, se forem bons os resultados.
ÉDIPO
Qual é o oráculo? É que as tuas palavras não nos dão nem confiança nem receio.
CREONTE
Se quiseres que eles ouçam, estou pronto a falar; se não quiseres, entremos no palácio.
ÉDIPO
Fala diante de todos. Mais me preocupam os seus males do que os temores da minha vida.
CREONTE
Direi, pois, o que me disse o deus. Ordena-nos Apolo que apaguemos a mancha que alastrou na nossa terra, que a façamos desaparecer, em lugar de a deixarmos aumentar; devemos recear que se torne inexpiável.
ÉDIPO
E de que espécie é esse mal? Que expiação?...
CREONTE
Expulsando um homem dos nossos territórios ou vingando o crime com o crime, porque é um crime que está arruinando a cidade.
ÉDIPO
Contra que homem foi cometido o crime de que fala o oráculo?
CREONTE
Senhor, foi contra Laio, outrora rei da nossa terra, antes de seres tu o chefe da cidade.
ÉDIPO
Já ouvi falar disso; eu nunca o vi.
CREONTE
O oráculo ordena claramente que sejam castigados os que assassinaram esse homem.
ÉDIPO
Em que terra estão? Como se há-de encontrar qualquer vestígio desse crime tão antigo?
CREONTE
Diz o oráculo que há vestígios na cidade. Só se encontra o que se busca; o que nos é indiferente, de nós foge.
(...)
(Conduzido por uma criança surge Tirésias, velho, cansado e cego.)
ÉDIPO
Ó Tirésias, tu que compreendes todas as coisas, as lícitas e as ilícitas, as do céu e as da terra, bem sabes, embora privado da luz dos olhos, de que mal sofre a cidade; e só a ti encontrámos para nos proteger e nos salvar. Com efeito, Febo - e já talvez estes to tivessem dito- respondeu aos nossos enviados que a única maneira de nos livrarmos da doença era matar os assassinos de Laio ou exilá-los da cidade. Não nos recuses os augúrios das aves nem as outras adivinhações; salva a cidade, salva-te a ti próprio e a mim; lava esta impureza que ficou pela morte do homem que mataram. De ti depende a nossa salvação; não há tarefa mais gloriosa para um homem do que pôr a sua ciência e o seu poder ao serviço dos outros homens.
TIRÉSIAS
Ai de mim! Como é terrível saber, quando o saber é inútil. Tudo sabia, e tudo esqueci; de outro modo, não teria vindo.
ÉDIPO
Que é isso? Pareces-me cheio de tristeza.
TIRÉSIAS
Manda-me voltar para casa. Se me obedeceres melhor será, para ti e para mim.
ÉDIPO
O que dizes não é justo, nem bom para a cidade que te sustentou, se recusares revelar o que sabes.
TIRÉSIAS
Sei que estás a falar contra ti próprio, e temo o mesmo perigo para mim.
ÉDIPO
Em nome dos deuses! Não me escondas o que sabes. Todos nós nos prosternamos diante de ti e te suplicamos...
TIRÉSIAS
Estais todos loucos. Não, não provocarei a minha desgraça, e a tua.
ÉDIPO
Que dizes? Sabes tudo e não queres falar? Tens então o intuíto de nos trair e de perder a cidade?
TIRÉSIAS
Nem a ti nem a mim eu quero esmagar de dor. É em vão que me interrogas. De mim nada saberás.
ÉDIPO
Nada, miserável, nada! Serias bem capaz de enfurecer um coração de pedra. Não há em ti senão dureza e inflexibilidade.
TIRÉSIAS
Lanças-me em rosto a cólera que excito, mas ignoras a que hás-de excitar nos outros. E ainda me censuras!
ÉDIPO
Quem não há-de irritar-se ao ouvir-te proferir as palavras que só exprimem deprezo pela cidade?
TIRÉSIAS
Tudo o que tem de suceder sucederá, apesar do meu silêncio.
ÉDIPO
Pois se tem de suceder bem mo poderias revelar.
TIRÉSIAS
Nada mais direi. Podes, se quiseres, abandonar-te à mais violenta das cóleras.
(...)
JOCASTA
Pelos deuses, Senhor! Dize-me a causa da tua cólera violenta.
ÉDIPO
Vou falar, mais para ti que para eles. Creonte concebeu maus desígnios para mim.
JOCASTA
Fala então e vê se podes provar, explicando a questão, que acusaste Creonte com justiça.
ÉDIPO
Afirmou que fui eu o assassino de Laio.
JOCASTA
E sabe-o por si ou ouviu-o a outrem?
ÉDIPO
Enviou um miserável adivinho que diz de mim todo o mal que pode.
JOCASTA
Não fales mais de tudo isso que se diz. Escuta as minhas palavras e fica sabendo que a ciência dos adivinhos nada pode prever das coisas humanas; vou provar-to em breves palavras. Outrora um oráculo revelou a Laio, não pelo próprio Febo mas pelos seus sacerdotes, que estava no seu destino ser morto por um filho que de mim nasceria; e, no entanto, foram ladrões doutras terras quem o matou numa encruzilhada. Quanto à criança, assim que fez três dias, mandou-a ele pôr, com os pés atados, numa serra deserta. Apolo não conseguiu que fosse o filho o assassino do pai nem que Laio sofresse do filho o que dele temia.
Eis como se cumprem os vaticínios fatídicos. Não te importes. O deus descobrirá facilmente o que pretende saber.
(...)
CORO
Vêde vós, ó habitantes de Tebas, minha pátria! Que tempestade de terríveis desgraças derrubou o Édipo que adivinhou o enigma célebre, o homem poderosíssimo que nunca invejou os cidadãos, nem tinha receio da sorte! Enquanto se espera o dia último, ninguém deve dizer que um mortal foi feliz, antes que ele tenha, sem sofrimento, atingido o termo da existência.
(Sófocles- ÉDIPO REI. Fotografia de Naushér Benaji)
Jean Racine, dramaturgo francês do século XVII (1639-1699) foi um dos autores que recuperou a peça de Eurípedes (assim como Séneca e Sarah Kane). Foi esta, aliás, a sua peça mais representada na Corte de Luís XIV, mas também nos nossos dias. A tal peça em que uma mulher se apaixona pelo filho do marido, trazendo-lhe isso grande instabilidade emocional, em particular, pelo sentimento de culpa, pela ideia de amar em anormalidade, "contra a natureza".
Um drama com grande intensidade... com uma intensidade psicológica indiscutível e causadora de incomodidade para quem o lê ou a si assiste. Sim, porque o amor em causa, é provocador de sofrimento, afastamentos, mortes... infortúnios. Estamos, inequivocamente, perante destinos trágicos.
Atentem, então, na versão de Racine com o excerto da obra em que (tal como no post anterior) Fedra declara o seu amor a Hipólito:

PERSONAGENS:
Fedra, Hipólito, Enone (Ama de Fedra)
FEDRA, para Enone
Ei-lo: ao coração me acode o sangue todo.
Ao vê-lo, já não sei o que venho dizer-lhe.
ENONE
Não esqueçais vosso filho: ele só conta convosco.
FEDRA
Dizem que ireis partir, em breve, para longe,
Senhor. Às vossas dores eu junto as minhas lágrimas.
Venho aqui por um filho explicar-vos meus cuidados.
Um filho já sem pai; não tardará o dia
Em que seja, da morte da mãe, testemunha.
Já inimigos, mil, atacam sua infância.
Defendê-lo, só vós, só vós podeis, Senhor.
Mas secreto remorço o espírito me turva.
Receio ter-vos feito surdo aos meus lamentos.
Temo e tremo, sim, que a vossa justa cólera
Nele persiga depois sua mãe detestável.
HIPÓLITO
Senhora, não terei sentimentos tão baixos.
FEDRA
Se me odiásseis, Senhor, não me lamentaria.
Empenhada em fazer-vos mal sempre me vistes;
Não podeis ler no fundo do meu coração.
Cultivei com afinco a vossa inimizade.
Nas margens que habitava, não vos consenti.
Contra vós declarada, em público e em segredo,
Eu quis que o largo mar me afastasse de vós.
Cheguei a proibir, por uma lei bem expressa,
Que diante de mim dissessem vosso nome.
Mas, se se comparar a ofensa ao castigo,
Se só o ódio pode atrair vosso ódio,
Nunca uma mulher foi mais digna de piedade,
Senhor, e menos digna da vossa aversão.
HIPÓLITO
Dos direitos dos filhos uma mãe ciumenta
Raramente perdoa ao filho d'outra esposa;
Senhora, sei-o bem; importunas suspeitas
São das segundas núpcias os frutos mais comuns.
Mesma desconfiança outra qualquer teria,
E eu talvez piores ultrajes suportasse.
FEDRA
Ah! Senhor!, mas o céu, ouso aqui afirmá-lo,
Não quis que o meu destino a lei comum seguisse!
Cuidado bem dif'rente me turva e devora.
HIPÓLITO
Não vos deixeis, Senhora, turvar por enquanto.
Talvez o vosso esposo ainda esteja vivo;
O céu pode trazê-lo às nossas tristes lágrimas.
Protege-o Deus Neptuno; este Deus tutelar
Jamais será, por meu pai, implorado em vão.
FEDRA
Não se vê duas vezes a morada dos mortos,
Senhor. Esperais debalde que um Deus o devolva:
Esse avaro Caronte nunca solta a presa.
Mas que digo? Ele não morreu: respira em vós.
Sempre perante os olhos julgo ver meu esposo.
Eu vejo-o e falo-lhe; e o meu coração... Perco-me,
Senhor; meu louco ardor, a meu pesar, declaro.
HIPÓLITO
Do vosso amor eu vejo o assombroso efeito.
Teseu, embora morto, em vossos olhos vive;
Sempre, por seu amor, vossa alma inflamada...
FEDRA
(...)
Eu quereria à vossa frente caminhar.
Fedra, descida ao labirinto só convosco,
Só seria convosco encontrada ou perdida.
HIPÓLITO
Deuses! mas que oiço eu? Senhora, já esqueceis
Que Teseu é meu pai e que é o vosso esposo?
FEDRA
Por que supondes vós que perdi a memória?
Acaso, príncipe, deixei de ser quem sou?
HIPÓLITO
Senhora, perdoai-me. Confesso, corando,
Que ofendi sem razão inocentes palavras.
Minha vergonha não suporta o vossa olhar;
Senhora, eu vou...
FEDRA
Cruel! Ah! Tu bem me entendeste.
Falei bastante claro p'ra que duvidasses;
Ah! Vais conhecer Fedra em todo o seu furor:
Amo. Amo-te. Não penses que neste instante,
Inocente a meus olhos, me aprovo a mim mesma,
Nem que do louco amor que me turva a razão
Cobarde complacência nutra o seu veneno.
Objecto de infortúnio das iras celestes,
Abomino-me mais do que tu me detestas.
As minhas testemunhas são Deuses, os Deuses
Que acenderam em mim fogo fatal à estirpe.
Os Deuses que se gabam da cruel vitória
Sobre este coração duma frágil mortal.
Em espírito, tu próprio, recorda o passado.
Não chegava fugir de ti; cruel, expulsei-te.
Eu quis que me julgasses odiosa, inumana;
E, p'ra te resistir, teu ódio provoquei.
Afinal, que lucrei, com inúteis cuidados?
Tu odiavas-me mais, eu não te amava menos.
Infortúnio de novos encantos te vestia.
Enlanguesci, sequei nos fogos e nas lágrimas.
E, p'ra que o saibas, só precisas dos teus olhos,
Se um momento os teus olhos me pudessem ver.
Que digo? A confissão que acabo de fazer-te,
Indigna confissão, julga-la voluntária?
(...)
Olha o meu coração: fere-o com tuas mãos.
Impaciente já de expiar sua ofensa,
Sinto que sai do peito, ansioso desse gesto.
Vé, fere. Mas, se o julgas indigno dos teus golpes,
Se teu ódio me inveja um suplício tão doce,
Se de sangue tão vil não te quiseres manchar,
À falta do teu braço, dá-me a tua espada.
Dá-ma.
ENONE
Mas, que fazeis, Senhora? Justos Deuses!
Vem gente: evitai odiosas testemunhas;
Vinde, vinde, fugi duma vergonha certa.
(Racine- FEDRA. Fotografias de China Hamilton)
Lúcio Aneu Séneca nasceu no século I d.c, por volta do ano 4, em Córdova, na Bética, província da Hispânia, do Império Romano.
Na área da dramaturgia, conhecem-se sete tragédias por si escritas: "Hércules [Enlouquecido]", "Troianas", "Medeia", "Fedra", "Édipo", "Agamémnon" e "Tiestes".
O excerto que se segue foi extraído da peça "Fedra", cuja primeira autoria se deve a Eurípedes, mas recuperada por este e outros autores, ao longo dos séculos.
Passemos a ele:

FEDRA
Quem é que de novo me entrega à dor e de novo me instala na alma um fogo ardente? Como foi agradável ter perdido os sentidos!
HIPÓLITO
Porque foges do doce regresso à vida?
FEDRA (À parte.)
Coragem, alma, tenta, cumpre as tuas ordens.
Sejam destemidas e firmes as palavras. Quem pede com timidez
convida à recusa. Grande parte do meu erro
foi cometido há muito tempo; é tarde para eu ter vergonha.
Amei contra as leis da natureza. Se continuar o que comecei,
talvez possa esconder o crime por detrás do facho nupcial.
O sucesso torna certos erros honestos.
Vamos, começa, alma!
(Para Hipólito) Suplico-te que me concedas um pouco de atenção
em privado. Se tens aqui algum companheiro, manda-o embora.
HIPÓLITO (Apontando em volta.)
Vê, o lugar está livre de qualquer testemunha.
FEDRA
No entanto, os meus lábios negam passagem às palavras começadas.
Uma grande força impele-me a falar e uma maior detém-me.
Habitantes celestes, tomo-vos como testemunhas de que não quero
isto que quero.
HIPÓLITO
A tua alma deseja algo e não consegue revelá-lo?
FEDRA
Os cuidados ligeiros falam, os pesados emudecem estupefactos.
HIPÓLITO
Confia-me os teus cuidados, mãe.
FEDRA
A palavra mãe é demasiado altaneira e poderosa.
Uma palavra mais humilde coaduna-se melhor com os meus sentimentos.
Chama-me irmã ou escrava, Hipólito,
escrava de preferência: suportarei toda a escravidão.
Se me ordenares que caminhe pela neve profunda,
não me molestará avançar pelo cume gelado do Pindo.
Se me ordenares que ande no meio de fogos e de batalhões encarniçados,
não hesitarei em oferecer o meu peito às espadas desembainhadas.
Recebe o cepto que me foi entregue; aceita-me como tua escrava.
[A ti fica-te bem governar o reino, a mim cumprir ordens.]
Não é tarefa de mulher velar por cidades reais.
Tu, em pleno vigor da juventude,
governa firme os cidadãos com a autoridade régia de teu pai
e acolhe nos braços a tua suplicante e a tua escrava.
Compadece-te de uma viúva.
HIPÓLITO
O supremo deus afaste este presságio!
O meu pai em breve regressará a casa são e salvo.
FEDRA
O senhor do reino sem regresso e do Estige silencioso
não construiu caminho para o mundo dos vivos, depois de ele ter sido deixado para trás.
Libertará ele o raptor do seu leito?
Poderá acontecer que até Plutão se sinta favorável ao amor.
HIPÓLITO
Os justos deuses celestes trá-lo-ão de volta.
Mas, enquanto a divindade mantiver os nossos votos na incerteza,
cuidarei dos meus queridos irmãos com a dedicação devida
e farei que não te sintas desamparada.
Eu próprio preencherei para ti o lugar de meu pai.
FEDRA (À parte.)
Ó crédula esperança dos amantes, ó Amor falacioso!
Não disse eu o suficiente? Vou aproximar-me com súplicas.
(Dirigindo-se a Hipólito.)
Compadece-te, escuta as súplicas que o meu coração cala.
Desejo falar-te, mas tenho vergonha.
HIPÓLITO
Que perturbação é essa?
FEDRA
Uma perturbação que dificilmente acreditas que possa cair sobre uma madrasta.
HIPÓLITO
Em teu discurso ambíguo proferes palavras misteriosas.
Fala com clareza.

FEDRA
Um amor ardente queima-me o coração insano. Um fero fogo enfurecido consome-me
[a medula dos ossos e atravessa-me as veias,]
alojando-se nas mais profundas entranhas e escondendo-se nas veias.
como uma chama a propagar-se veloz por altas vigas.
HIPÓLITO
É pelo casto amor de Teseu que estás enlouquecida?
FEDRA
Sim, Hipólito: amo os traços de Teseu,
aqueles que ele tinha outrora em rapaz,
quando a primeira penugem lhe ficou marcada nas faces imberbes
e viu a casa escura do monstro de Cnossos
e recolheu o extenso fio pelo caminho sinuoso.
Como era então glorioso! Faixas cingiam-lhe a cabeleira
e um rubor espalhava-se pelo delicado rosto.
Sob os seus jovens braços emcontravam-se músculos robustos.
Os traços dele eram os da tua Febe ou os do meu Febo
ou antes os teus próprios. Tal, sim, era ele
quando agradou à inimiga; trazia assim a cabeça erguida.
Em ti refulge mais a beleza sem adornos.
O teu pai está todo em ti e também uma parte
da austeridade da mãe se mistura com igual encanto;
no rosto grego desenha-se a severidade cítica.
Se tivesses entrado no mar de Creta com o teu pai,
era para ti que a minha irmã teria entrançado os fios.
A ti, a ti, irmã, onde quer que no céu sideral
tu refuljas, te invoco para uma causa semelhante.
Uma só casa arrebatou duas irmãs:
a ti foi o pai, a mim... o filho. Vê, a descendente
de uma casa real cai a teus joelhos, como uma suplicante.
Sem mancha que me macule, pura, inocente,
para ti apenas me transformo. Determinada humilhei-me em súplicas.
Este dia porá fim à dor ou à vida.
Compadece-te de quem te ama.
HIPÓLITO
Poderoso soberano dos deuses,
ouves tão serenamente estes crimes? Tão serenamente os vês?
(...)
(Para Fedra.) Acaso fui merecedor de adultério?
Fui apenas eu que te pareci instrumento fácil
para tamanho crime? Foi esta a recompensa da minha austeridade?
Tu, com o teu crime, superas toda a raça das mulheres;
tu ousaste um mal maior do que a tua mãe que deu à luz um monstro,
tu és pior do que aquela que te gerou!
(...)
Afasta as mãos impuras para longe do meu casto
corpo.
(À parte.)
Que é isto? Também se precipita nos meus braços?
Há que desembainhar a espada e reclamar o justo castigo.
(...)
FEDRA
Hipólito, cumpres agora a minha prece,
cura a minha loucura. Isto excede a minha prece:
morrer às tuas mãos e ficar salva a honra.
HIPÓLITO (Arremessando Fedra para longe de si.)
Vai-te embora, vive para que nem isso consigas. E que esta espada em que tocaste abandone a minha casta cintura. (...)
(Séneca- FEDRA. Fotografias de China Hamilton)
Parece que bom como actor mas certamente brilhante como dramaturgo William Shakespeare, de origem inglesa, viveu entre 1564 e 1616. Entre as suas peças conhecidas temos: "Hamlet", "Otelo", "Macbeth", "O Rei Lear", "António e Cleópatra", "Júlio César", "O Mercador de Veneza", "Sonho de uma noite de Verão" e... "Romeu e Julieta".
Pois é, é um excerto de "Romeu e Julieta" que aqui vos apresento, com uma pequena nuance interpretativa reflectida nas fotografias editadas. Claro que sim a idealização do Amor, mas sobretudo, o sacrifício do Amor pela Guerra. O confronto do/ao Amor pelos conflitos, pelas rivalidades, pelas discordâncias, pelos diferentes interesses. A subjugação da Paz. O enquinar da Glória. O império do Sacrifício. Até um dia... até ao dia em que se percebe que as consequências são tão graves que o remédio é mesmo retroceder. Que o remédio é inverter a Ordem. É fazer valer o que realmente eleva.
Mas... leiam... e observem...


Na bela Verona, onde se vai passar este drama, duas famílias, iguais em nobreza, impulsionadas por antigos rancores, fazem com que entre si se desencadeiem novas discórdias, em que o sangue dos cidadãos tingue as mãos dos cidadãos.
Das entranhas fatais destas duas famílias inimigas, e sob funesta estrela, nascem dois amantes, cuja desventura e lamentável ruína há-de enterrar, com a sua morte, a luta dos seus pais. As terríveis peripécias deste fatal amor e a raiva obstinada desses pais, que nada pôde aplacar senão a morte dos filhos, vão ser, durante duas horas, o assunto da nossa representação.
(...)
Jardim de Capuleto
(Entra Romeu)
ROMEU- Só se ri das cicatrizes aquele que nunca sentiu uma ferida. (Julieta aparece à janela) Mas... devagarinho! Qual é a luz que brilha através daquela janela? É o oriente, e Julieta é o Sol. Ergue-te, ó Sol resplandecente, e mata a Lua invejosa, que já está fraca e pálida de dor ao ver que tu, sua sacerdotisa, és muito mais bela do que ela própria. Não queiras mais ser sua sacerdotisa, já que tão invejosa é! As roupagens de vestal são doentias e lívidas, e somente os loucos as usam. Deita-as fora! Esta é a minha dama! Oh, eis o meu amor! Se ela o pudesse saber! O seu olhar é que fala e eu vou responder-lhe... Sou ousado de mais; não é para mim que ela fala. Duas das mais belas estrelas de todo o firmamento, quando têm alguma coisa a fazer, pedem aos olhos dela que brilhem nas suas esferas até que elas voltem. Oh! Se os seus olhos estivessem no firmamento e as estrelas no seu rosto! O esplendor da sua face envergonharia as estrelas do mesmo modo que a luz do dia faria envergonhar uma lâmpada. Se os seus olhos estivessem no Céu, lançariam, através das regiões etéreas, raios de tal esplendor que as aves cantariam, esquecendo que era noite. Vede como ela encosta a face à sua mão. Oh! quem me dera ser a luva dessa mão, para poder tocar a sua face.
JULIETA- Ai de mim!
ROMEU- Está a falar... Oh! continua, anjo resplandecente! Porque esta noite tu brilhas tão esplendorosamente sobre a minha cabeça como um alado mensageiro do Céu perante o olhar extrasiado dos mortais, que escondem a íris nas pálpebras ao inclinarem-se para o contemplar quando ele perpassa por entre as nuvens indolentes e navega no seio do ar.
JULIETA- Oh! Romeu, Romeu! Mas porque és tu Romeu? Renega o teu pai, o teu nome; ou, se o não quiseres fazer, jura apenas que me amas e deixarei eu de ser uma Capuleto.
ROMEU (aparte)- Deverei eu continuar a ouvi-la, ou responder-lhe?
JULIETA- É apenas o teu nome que é meu inimigo; tu és tu mesmo, e não um Montecchio. E que é um Montecchio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte que pertença a um homem. Oh! Sê qualquer outro nome! O que é que existe num nome? Aquilo a que nós chamamos rosa teria o mesmo perfume embora lhe déssemos outro nome! Assim, Romeu, ainda que não se chamasse Romeu, conservaria a mesma perfeição que agora possui. Romeu, renuncia ao teu nome, e em vez dele, que não faz parte de ti mesmo, apodera-te de mim!
ROMEU- Aceito. Chama-me apenas teu amor, e far-me-ei de novo baptizar. De ora avante nunca mais serei Romeu.
JULIETA- Quem és tu que, assim protegido pela noite, vens surpreender o meu segredo?
ROMEU- Eu não sei que nome hei-de pronunciar para te dizer quem sou. O meu nome, querida santa, eu próprio o odeio, por ser para ti um inimigo. Se eu o tivesse escrito, rasgá-lo-ia.
JULIETA- Os meus ouvidos não escutaram uma centena de palavras pronunciadas por esta voz, e contudo eu reconheço-a. Não és tu Romeu, e Montecchio?
ROMEU- Nem uma coisa nem outra, gentil donzela, se ambas te desagradam.
JULIETA- Dize-me: como vieste tu até aqui e para quê? Os muros do jardim são altos e difíceis de escalar; e este lugar será para ti a morte se algum dos meus parentes te descobre aqui.
ROMEU- Transpus estes muros com as leves asas do amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar; e o que o amor tem possibilidades de fazer ousa logo tentá-lo! Por isso mesmo, não são os teus parentes que me servirão de obstáculo.
JULIETA- Se eles te vêem, matar-te-ão.
ROMEU- Ai! Há mais perigo nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei couraçado contra a sua inimizade.
JULIETA- Por nada deste mundo eu queria que te vissem aqui.
ROMEU- O manto da noite oculta-me aos olhos deles. Mas, se tu me não amas, que importa que me encontrem? Seria melhor que o ódio deles pusesse fim à minha vida do que a morte tardasse faltando-me o teu amor.
(...)
(Entra, pelo outro lado do cemitério, FREI LOURENÇO com uma lanterna, alavanca e alvião)
FREI LOURENÇO- S. Francisco me ajude! Quantas vezes é que os meus velhos pés pisaram túmulos durante a noite? Quem está aí?
BALTASAR- Um homem que é vosso amigo e que vos conhece bem.
FREI LOURENÇO-Deus te abençoe. Dize-me cá, amigo, que tocha é aquela que dá inutilmente a sua luz às larvas e aos crânios sem olhos? Se não me engano, arde no mausoléu dos Capuletos.
BALTASAR- É verdade, Reverendo Padre. Está lá o meu amo, de quem vós sois amigo.
FREI LOURENÇO- Quem é ele?
BALTASAR- Romeu.
FREI LOURENÇO- Há quanto tempo está ele lá?
BALTASAR- Há mais de meia hora.
FREI LOURENÇO- Vinde comigo ao mausoléu.
BALTASAR- Não me atrevo, senhor. O meu amo julga que eu me fui embora; ele ameaçou-me de morte em termos assustadores se eu ficasse a espreitá-lo.
FREI LOURENÇO- Fica então, eu vou sozinho. Começo a ter um certo receio. Oxalá não tenha sucedido alguma desgraça.
BALTASAR- Enquanto dormia debaixo deste teixo sonhei que o meu amo se batia com outro homem e que o matou.
FREI LOURENÇO (aproximando-se)- Romeu! Meu Deus, meu Deus! Que sangue é este que mancha a entrada de pedra desta sepultura? Para que estarão aqui neste lugar de paz estas espadas ensanguentadas e sem dono? (Entra no túmulo) Romeu! Oh! como está pálido!... E quem é estoutro? O quê Páris também? E banhado em sangue? Oh! que cruel hora a que foi culpada desta lamentável catástrofe! Oh! ela está a mover-se!...
(Julieta acorda)
JULIETA- Oh, caridoso irmão, onde está o meu senhor? Lembro-me bem em que lugar eu devo estar, e cá estou... Mas onde está Romeu?
(Ouve-se barulho)
FREI LOURENÇO- Ouço um certo ruído. Minha filha, abandonemos este antro de morte, de contágio e de sono contra a natureza. Um poder mais forte do que o nosso se ergueu para contrariar os nossos planos. Vem, vem. Fujamos daqui. O teu marido aí jaz morto nos teus braços; Páris também. Anda, vem comigo, que eu vou meter-te numa comunidade de santas religiosas. Não percas tempo com perguntas, que aí vem a guarda. Vem, vem, minha boa Julieta. (Ouve-se barulho outra vez) Eu não ouso ficar aqui por mais tempo.
JULIETA- Ide, ide vós, porque eu não sairei daqui. (Sai Frei Lourenço) Que é isto? Um frasco tão apertado na mão do meu tão fiel amor? Agora vejo que foi o veneno que tão cedo o levou. Oh! egoísta! para que o bebeste tu todo e não deixaste uma gota amiga que me ajudasse a ir ter contigo? Vou beijar os teus lábios, meu amor; talvez aí encontre um resto de veneno, cujo bálsamo me fará morrer... (Beija-o) Os teus lábios estão ainda quentes. (...) O quê? Barulho?! Então não há tempo a perder. Oh, punhal abençoado! (Agarrando no punhal de Romeu) Eis a tua baínha... (Apunhala-se) Cria ferrugem no meu peito e deixa-me morrer! (Cai sobre o cadáver de Romeu e expira).



PRÍNCIPE- Esta carta confirma as palavras de Frei Lourenço. Romeu conta as peripécias do seu amor... a notícia da morte de Julieta... Diz aqui que comprou o veneno a um pobre boticário e com ele se dirigiu a este sepulcro, para morrer e ficar repousando ao lado de Julieta... Onde é que estão esses inimigos? Capuleto! Montecchio! Vede que maldição pesa sobre o vosso ódio. O Céu encontrou meios de matar as vossas alegrias com o amor... E eu, por ter fechado os olhos aos vossos ódios, perdi dois dos meus parentes: todos fomos bem castigados.
CAPULETO- Oh! meu irmão Montecchio! dá-me a tua mão. Este é o dote da minha filha, pois nada mais posso reclamar.
MONTECCHIO- Mas eu posso dar-te mais. Hei-de mandar erguer, em honra da tua filha, uma estátua de puro ouro. E, enquanto Verona for conhecida por este nome, não haverá imagem alguma a quem se preste maior veneração do que à da leal e fiel Julieta.
CAPULETO- De igual esplendor mandarei eu fazer uma a Romeu, que ficará ao lado da sua esposa. Pobres vítimas da nossa inimizade!
PRÍNCIPE- Sinistra paz traz consigo esta manhã; para nos mostrar a sua dor, o Sol velou o seu rosto. Retiremo-nos daqui para falarmos ainda sobre estes tristes acontecimentos. Uns serão perdoados, outros serão punidos, pois jamais história alguma houve mais dolorosa do que a de Julieta e a do seu Romeu.
(Saem)
(William Shakespeare- ROMEU E JULIETA. Primeira e segunda fotografias de Micha Bar-Am; Terceira, quarta e quinta fotografias de Thomas Dworzak)
O dramaturgo que hoje vos trago é Joe Orton. Nascido em Inglaterra em 1933 morreu assassinado pelo amante em 1967. Escreveu várias peças (inclusive para televisão), sendo "Entertaining Mr. Sloane" (1964), aquela que aqui apresento excerto, uma delas. Trata-se de uma peça que aborda, de forma cómica (comédia negra) questões como o desejo, o sexo, a morte, a solidão, mas também (e neste caso em complemento), o que de sórdido pode haver nas relações humanas. Tudo conseguido de uma forma muito especial, muito "Orton", com uma intenção clara de inverter a ordem, o considerado correcto, o socialmente aceite em termos de explicitez. Verifica-se, pois, a vitória da perversão mental e física. Como que uma espécie de elogio... à não decência. Um parodiar da vida familiar (tb, em circunstâncias muito específicas).
"Entertaining Mr. Sloane" estreou em Portugal em 1976 no antigo Teatro Monumental (Lisboa), sendo representada posteriormente no Teatro da Graça (Lisboa). Estava-se então no ano de 1986. Muito recentemente, em concreto a 15/04/2004, a peça é estreada, desta vez pelos Artistas Unidos, intitulada como "O nosso hóspede".
Nas representações dos Artistas Unidos não posso deixar de destacar o trabalho de Lia Gama (como Keth), numa interpretação absolutamente fabulosa. Sem dúvida, e porque assisti à peça, vi-me perante uma actriz fantástica que enriqueceu muitíssimo a personagem de Orton.
Ofereço-vos agora partes da peça que permitem perceber um pouco as ideias que anteriormente registei, assim como fazer imaginar o trabalho da actriz que destaquei.

Uma sala. Tarde.
Entra KATH seguida por SLOANE.
KATH- Aqui é o meu salão.
SLOANE- Posso utilizá-lo? Faz parte do contrato?
KATH- Claro. (Pausa.) Não fique a pensar que está sempre como hoje. Devia ter-me telefonado ou coisa assim. Para eu estar preparada.
SLOANE- O quarto para mim é óptimo.
KATH- Não lhe cheguei a mostrar a casa de banho.
SLOANE- Tenho a certeza que está bem.
Passeia pela sala, examinando a mobília. Pára junto da janela.
KATH- Devia ter mudado as cortinas. Essas aí são de inverno. As de verão são de chitz. (Ri.) As paredes estão a precisar de uma limpeza. O papá sofre muito da vista. Não posso obrigá-lo a fazer trabalhos que metam escadote. É evidente.
Pausa.
SLOANE- Não posso tomar ainda uma decisão definitiva.
KATH- Não tenha pressa. (Pausa.) Qual é a sua opinião? Eu gostava que ficasse.
Silêncio.
SLOANE- É casada?
KATH (pausa)- Fui. Tive um filho... morto em circunstâncias muito tristes. Na altura sofri muito. Mas consegui recompor-me. Acabamos por nos habituar.
Pausa.
SLOANE- Um filho?
KATH- Sim.
SLOANE- Ainda parece muito nova.
Pausa.
KATH- Não sou desmazelada como algumas que há para aí. Faço agora... Se quer saber, tenho quarenta e um anos. (...) Não tem mais família?
SLOANE- Nada.
KATH- Pobrezinho. Só no mundo. Como eu.
SLOANE- A senhora não está só.
KATH- Estou. (Paisa.) Quase. (Pausa.) Se me tivessem deixado ficar com o meu filho, seria diferente. (Pausa.) Você tem quase a mesma idade que ele tinha. O mesmo bom gosto.
SLOANE (lento)- Eu preciso... de compreensão.
KATH- Pois claro que precisa. Posso tirar-lhe o casaco? (Ajuda-o a despir o casaco.) Tem uma pele tão macia. (Acaricia-lhe o pescoço e depois a face. Ele estremece. Pausa. Beija-o na cara.) Um beijo maternal. Apenas um beijo maternal. (Silêncio. Pega-lhe nos braços e faz com que ele a envolva.) Vai ver que sou muito sentimental. Impressiono-me com muita facilidade. (Os braços dele envolvem-na.) Basta ouvir contar... tragédias que aconteceram até a pessoas estranhas. Há tantas vidas arruinadas. (Encosta a cabeça no ombro dele.) Nessas alturas tem de me tratar com meiguice.
Silêncio.

KEMP espeta-lhe o garfo. SLOANE dá um grito de dor.
SLOANE- Seu tarado. Ai, a minha perna! Ai!
KEMP- Você provocou-me.
SLOANE (deixando-se cair numa poltrona)- Vou passar o resto da vida numa cadeira de rodas. (Examina a perna.)Camelo! Não pára de sangrar! Chame alguém!
KEMP (vai até à porta e chama) Kathy! Kathy!
KATH (entra a correr, limpando as mãos ao avental. Vê SLOANE e dá um grito)- O que é que o papá fez?
KEMP- Não foi por querer. (Vai a aproximar-se.)
KATH (repele o pai)- Dói muito?
SLOANE- Não posso andar.
KATH- O ferimento é profundo?
SLOANE- Apanhou uma artéria. Estou a perder litros de sangue. Meu Deus!
KATH- Vamos! Fica melhor sentado no sofá. (Ele deixa-se levar. Ela instala-o no sofá.)

SLOANE (chamando, impaciente) O sangue está a escorrer pelo sofá. Vai ficar com uma nódoa.
KATH (correndo, com um retalho de seda. Arregaça-lhe a perna da calça, levanta-a e coloca o pano sobre a ferida)- Isto serve. É duma peça que o meu irmão me trouxe. É um tecido muito bom. Estive para fazer uma blusa mas não chegou.
(...)
(...) regressa com uma panela de água. Remexe nas gavetas do aparador e tira uma toalha. Volta para junto de SLOANE. Ajoelha-se.
Que sapatos tão bonitos.
Desaperta-lhe os sapatos, tira-lhos e coloca-os debaixo do sofá.
SLOANE- Parece que vou vomitar.
KATH coloca imediatamente a panela por baixo.
Não, está tudo bem.
KATH- Uma coisa, Sr. Sloane, não seria melhor tirar as calças? Espero que não veja nisto más intenções. (Olha para ele. Ele desaperta o cinto.) Não viu com certeza. Dê um jeitinho, que eu depois puxo. (Puxa e tira-lhe as calças.)
SLOANE enfia a aba da camisa entre as pernas.
(...)
SLOANE- Uuuui!
KATH- O que arde cura. (Pausa.) Tem a pele macia como a duma princesa. Mais suave do que a de muita menina que aparece a dançar na TV. Gosto de rapazes com o corpo macio. (Deixa de friccionar a perna. Pega na ligadura. Pega depois na tesoura e corta a ligadura. Amarra-a em volta da perna de SLOANE.)- Não é estranho você ter pêlos pretos nas pernas?
SLOANE- Hã!
KATH- Mas é excitante.
SLOANE- Pretos?
KATH- Sim. Porque você é louro.
SLOANE- Ah, pois.
KATH- A natureza tem coisas engraçadas.
(...)
Ela apanha as calças do chão.
KATH- Vou limpar isto e dar-lhe uns pontinhos. (Põe a tintura de iodo, a ligadura, etc. em cima do aparador.) Esta gaveta é a minha farmácia. Se precisar de uma aspirina, sirva-se. (Aproxima-se dele.)
Ele deita-se ao comprido, ela sorri. Silêncio.
KATH (confidencialmente)- Estive hoje a lavar a roupa e não tenho nada vestido por baixo. Só os sapatos... Estou completamente nua. Digo-lhe isto porque mais cedo ou mais tarde você ia reparar.
Silêncio. SLOANE tenta alcançar o bolso das calças.
Deixe-se estar quietinho. Descanse. O sangue precisa de tempo para repousar.
SLOANE tira umas meias de vidro do meio das almofadas do sofá.
Há que tempos que eu ando à procura delas!
SLOANE- São suas?
KATH- São. Já reparou no comprimento? Tenho umas pernas altas. Elegantes. (Dá uma palmada na perna.) Sou capaz de surpreender muitos homens. (Pausa.) Tenho um aspecto muito diferente na intimidade. (Debruça-se sobre ele.) Não se vê nada à tranaparência por baixo do vestido, pois não? Não queria nada que se sentisse embaraçado por minha causa.
SLOANE tenta tocar no sítio onde julga estar a mama dela.
KATH (Dando um salto para trás) Sr. Sloane... não abuse da confiança.
SLOANE- Eu pensava que...
KATH- Já sei que queria ver se as minhas maminhas eram mesmo minhas. Vocês são todos iguais. (Sorri.) Tenho de estar alerta consigo. Se eu deixasse, era capaz de me despir e de me possuir no meio do chão. Se o meu irmão sabe disto... (Pausa.) Ele é um homem muito possessivo. (Silêncio. Levanta-se.) Não quer ir para a cama?
SLOANE- Ainda é cedo.
(...)
(Joe Orton- O NOSSO HÓSPEDE. Fotografias resultantes das representações pelos Artistas Unidos)
Num momento em que em Portugal, em pleno período de pré-campanha e campanha eleitoral, se fala (na minha opinião, de forma completamente errada) nos casamentos entre pessoas do mesmo sexo e na possibilidade de adopção pelos respectivos casais, eis uma peça que se situa num mundo só povoado por homens. Homens que entre si se relacionam, homens que entre si definem papéis, homens que parecendo iguais são, contudo, pertencentes a grupos diferentes. Como que integrando-se em clãs distintos onde uns assumem o papel de efectivos "chefes de família" e outros se subalternizam e se vêm reduzidos para as esferas interiores, privadas ou "íntimas" da vida em comum. Homens que, nas suas diferenças, assumem também aquelas de ordem física, permitindo a uns serem portadores do "sémen" originário da vida e a outros receberem esse sémen e darem à luz outros homens.
O excerto que se segue permite perceber tudo isto. Temos, pois, uma família: Pai 1- o "chefe de família", Pai 2- o elemento reservado ao espaço interior e o Filho. O grande problema: o futuro do filho, com a necessidade imperiosa que existe de este se casar. Segue-se o arranjo do casamento, uma conversa entre o Filho e o Prometido (o desejado marido) e um discurso síntese - em termos de ideia orientadora para a vivência em família e em sociedade- do Pai 2.
Uma peça que, em toda a linha, nos remete para mentalidades e práticas muito enraizadas num mundo predominantemente "hetero", com um enorme sentido crítico relativamente à sua durabilidade e permanência.
Registo que a estreia desta peça se verificou em Portugal, pelo Teatro Plástico, a 8 de Janeiro deste ano, no Grande Auditório do Rivoli- Teatro Municipal do Porto.
Quanto a Denis Lachaud, especificamente: nasceu em Paris em 1964. Foi bolseiro universitário na Alemanha, onde iniciou a sua actividade teatral. Em 1990, ao regressar a França funda a Companhia "La Téatralala" na qual exerce as funções de autor, encenador e actor.
Da sua obra fazem parte os romances: "J'apprend l'aleman" (1998), "La forme proffunde" (2000) e "Comme personne" (2003). Quanto a peças de teatro "Ma forêt fantôme" e "Le lion qui rit et la femme en boîte" (2003), todas editadas pela Actes Sud.
É neste momento consultor literário na Comédie Française.
Mas... passemos ao excerto:

Em casa dos Gattal.
PAI 2- Meu filho, os homens nascem e crescem e assumem um lugar, cada um segundo os seus direitos e os seus deveres, cada um retirando das suas possibilidades o que a vontade e as circunstâncias lhe permitam atingir. Proporcionalmente à energia de que dispõe. Tu como os outros todos. Quer-se dizer, nem tu nem ninguém escapa a isto. Tu nasceste aqui, não interessa onde, na pele de não importa quem, e os que têm sorte caem do lado certo da barreira o que foi o teu caso congratula-te por isso agradece todos os dias ao acaso, por essa identidade, esse pedigree, recebidos à sorte, e também por esse invólucro corporal herdado da mistura de genes do teu pai e meus, também isso uma roleta, black-jack, excitará os sentidos, provocará aversão, este filho, quando for grande, é mais uma vez tu sais com as felicitações do juri, sem uma razão objectiva, sem esforço mas adiante, melhor para ti. Em resumo tu tens tudo a teu favor. Ora tu sobrevives numa sucessão de biscates de guarda-nocturno, de habilidoso, de segurança de discoteca e sei lá eu mais o quê e o tempo passa. À beira dos quarenta anos e nada de esposo. Mais uma primavera um Verão que passaram, todos os outros jovens à tua volta se acasalaram, e tu, tu não conseguiste escolher um homem interessar um homem atrair sobre ti o olhar de um homem, nem um único. Isto não pode continuar isto parece o quê?
...
Isto não pode continuar ouviste-me bem?
FILHO- Papá, eu não sim eu ouvi-te eu não tenho a pretensão de escapar a nenhuma condição humana é evidente que te ouvi, essa necessidade de dizeres tudo de uma maneira barroca, sistematicamente. Como os outros, eu sou como hei-de explicar a soma das probabilidades que compõem o meu leque de possibilidades e para o fazer, eu avalio eu avalio razoavelmente eu avalio a vontade que sou capaz de opor ao imobilismo natural das coisas ao peso de, eu meço a quantidade de energia à minha disposição.
Eu estou consciente da sorte que me fez nascer aqui, no vosso meio, do lado certo da barreira não não podes fazer-me o favor de acreditar em mim não. Onde a boa sorte oferece identidade, pedigree e corpo bem feito (sim papá eu tenho plena consciência disso), eu vejo uma ocasião de me congratular, sabendo que da mesma forma é verdade quando pensamos nisso eu poderia ter dado com os burrinhos na água a ver os outros gozarem a vida enquanto eu estaria amarrado à existência cinzenta de alguém que não teve sorte à roleta ao black-jack ou a outro jogo de azar eu aí estou totalmente de acordo contigo. No entanto, acho que seria bom esclarecer que eu não ocupo nenhum lugar de guarda-nocturno de habilidoso nem sequer de segurança de discoteca desde há séculos (de guarda do papá enfim, porque não de eu não sei dizer de enfim seja lá o que for), que fui contratado sim contratado mas quero dizer à séria pela Booster International em Fevereiro como chefe de produto, sim, nada menos do que isso, não mas tu tinhas o ar de eu não acabei se fazes favor eu queria chegar eu queria dizer que trabalhei no mesmo sítio todos os dias de manhã à noite, sem contar as horas eu sei do que estou a falar, dediquei a Primavera o Verão à minha integração profissional, ao reconhecimento das minhas competências pelo meu superior hierárquico e em consequência preocupei-me pouco com os olhares que me poderiam mandar porque papá os olhares tu falas deles dos olhares que me poderiam mandar, não ambicionei interessar nem escolher quem quer que fosse para vos apresentar a ti e ao pai. Fica a saber porém que eu atraio sem problemas os olhares dos homens mais exigentes, os mais à procura de critérios de escolha precisos porque maduramente reflectidos. (...)
PAI 1 (a entrar) - Tu ouves o teu papá quando ele fala?
FILHO- Sim ah sim?
PAI 1- Ouviste bem o que ele te disse?
FILHO- Sim? Pai.
PAI 1- O que é que ele disse?
FILHO- Isto ele disse não pode continuar.
PAI 1- Isto não pode continuar capitão isto parece o quê? Tu és jovem, tu és bonito, a tua musculatura aguenta-se ainda sem muletas nem artifícios, tu és forte, tu resistes bem, tu sabes dar prazer, a tua semente é rica e espessa, nós criámos-te oferecendo-te o melhor, sacrificando muitas vezes as nossas aspirações pessoais às necessidades do pequeno animal enérgico por vezes violento que tu foste, nós afastámos-te lenta e pacientemente do caminho da perdição... continua meu pugilista eu interropi-te.
PAI 2- Como o teu pai te está a explicar tão claramente, em cada estádio do teu desenvolvimento nós encorajámos os teus desejos, nós antecipámo-los, cultivámo-los, provocámo-los de todas as formas, recorrendo a tesouros de criatividade, fizemos de ti uma criança desperta, curiosa, ávida de conhecimento, tiveste direito à melhor educação nas escolas e nas universidades mais cotadas e mais caras... (...)
Nós mantivemo-nos jovens, fortes e sedutores com um excelente desempenho o tempo que foi necessário para te oferecer o modelo de um casal unido na alegria do amor apaixonado, lembro-te que te dei à luz no meio das dores mais horríveis mas feliz pela tua chegada, mas apoiado pela perspectiva dos teus numerosos êxitos futuros, mas sem nunca perder de vista que valia a pena, que um dia eu seria recompensado pelo teu fulgor de homem realizado...
PAI 1- Homem realizado tu não és um homem realizado. Enquanto não tiveres unido o teu destino ao de um outro, enquanto não tiveres acasalado, enquanto do fruto desse acasalamento não tiver nascido a vossa descendência...
(...)
Em frente à casa do prometido. Este responde do interior.
NEGOS- Se fizer o favor... Está alguém em casa? Ó da casa! Ó da casa eu estou mandatado pelos seus pais para falar consigo.
Silêncio. Aparece a silhueta do prometido (é o director da Booster International).
PROMETIDO- Os meus pais estão mortos e enterrados.
NEGOS- E no entanto é a eles que devo conhecê-lo hoje.
PROMETIDO- O que é que está a tentar vender-me?
NEGOS- Antes de morrerem, os seus pais garantiram o seu futuro. Apelaram aos meus serviços.
PROMETIDO- Mas o que é isto?
NEGOS- Comprometi-me contratualmente a arranjar-lhe um marido.
PROMETIDO- Eu não preciso dos seus serviços.
Desaparece.
NEGOS- Espere... Por favor.
PROMETIDO (voz) - Eu não desejo neste momento unir o meu destino ao de quem quer que seja, e se um dia o quiser, tratarei pessoalmente do caso como toda a gente muito boa tarde para si.
NEGOS- Eu entendo a sua dor, não nos preocupamos em unir o nosso destino ao de um outro quando a felicidade nos bateu à porta. É precisamente por isso que os seus pais, um sabendo-se condenado, e o outro tendo decidido segui-lo na morte, apelaram aos meus serviços. Receando que a sua tristeza o levasse a abandonar qualquer perspectiva de futuro, preferiram, antes de partir, obrigar-me por contrato a encontrar o homem que o há-de escolher, que lhe dará o seu nome e o tomará sob o seu tecto.
(...)
FILHO- (...). O teu lugar à frente da Booster International perturba-me. No meu desejo quero eu dizer.
PROMETIDO- Como é que tu sabes? Nós praticamente ainda só nos tocámos nos cotovelos.
FILHO- Mas o risco só o risco! Imagina, a festa está no seu auge, chegou a nossa hora, escapulimo-nos para o quarto nupcial, eu dispo-te, dispo-me, e ali, à minha frente, um monstro, um espantalho, o grande chefe da empresa...
PROMETIDO- Eu não tenho nenhuma tatuagem no peito.
FILHO- Ouve, eu tenho o dever de te desejar. Para isso, tu tens o dever de ser desejável, caso contrário não te consigo honrar. É lógico é técnico. Tens de parar de dirigir a empresa, deves voltar, eu não sei, a considerações mais intimistas no que respeita ao teu êxito pessoal.
PROMETIDO- Diz-me lá. Ou eu paro de trabalhar...
FILHO- Sim...
PROMETIDO- Ou o quê?
FILHO- Eu, estás a ver...
PROMETIDO- Eu vou-te dizer eu. Ou eu paro de trabalhar, ou tu aprendes a viver com uma pessoa que tem um trabalho, poder e que gosta disso, ou ainda podemos anular o casamento. Tu votas pela primeira solução. Não é assim?.
FILHO- Sim...
(...)
PROMETIDO- Podes decidir aprender a viver comigo que sou como sou e que faço aquilo que faço, achar que vale a pena, distinguir-te da massa ao mostrar que é possível, que não há aí nada para causar admiração.
Ou então, informas os teus pais do teu desejo de te manteres solteiro até novas ordens, até um encontro mais adequado.
(...)
FILHO- Estás a armar-te em espertinho.
PROMETIDO- Compete-te retirar as consequências.
FILHO- Podes contar com isso.
Entra o pai 2.
PAI 2- Um primeiro arrufo meus pombinhos?
FILHO- Eu tento fazer com que ele ouça a razão, eu explico-lhe tu sabes o quê, mais valia estar a pentear macacos. Mais vale não me enervar vai tenta, tu.
PAI 2- Mantém a calma caubói, é obvio que não adiante de nada enervares-te. Meu rapaz, faz um esforço para me ouvires peço-te. Desde sempre, desde que os homens são homens, nós fomos incumbidos das tarefas domésticas: fazer filhos, criá-los até podermos oferecer ao mundo rapazes sólidos, organizar o governo da casa, o conforto de cada um. Eles, desde sempre, têm a responsabilidade de trazer para o lar com que alimentar os indivíduos que o compõem, adultos e crianças, garantirem a sua segurança. A nossa tarefa está virada para o interior enquanto que a deles está para o exterior. Eles animam a vida da nossa cidade, o seu poder exprime-se no domínio público. O nosso realiza-se na esfera privada, a íntima. E é aí que reside o verdadeiro poder. Nós governamos tudo na casa é o terreno sobre o qual cresce a comunidade, nós escolhemos e doseamos os adubos, seleccionamos o grão, arrancamos as ervas daninhas. Somos nós quem constróiu o mundo, somos nós quem compõe a sua paisagem. Não são eles. Nós só lhe concedemos os sinais exteriores do poder, nós deixamo-los pensar que eles governam tudo incluindo no seio do lar familiar, mas dia após dia, é a nossa mão que molda.
PROMETIDO- O pior é que acredita mesmo nisso.
(...)
(Denis Lachaud- HETERO. Foto editada: correspondente à apresentação da peça aquando em cena)
Diferentemente do que tem acontecido até agora deixo-vos com dois capítulos da estória de X e Y. Dois capítulos que marcam alguma diferença face aos anteriores, na medida em que o recordar que nos é dado a conhecer passará pela apresentação dos acontecimentos "in loco". Tudo passa, a partir de agora, a ser muito mais vivo, intenso, imediato... em "tempo real". Os discursos vão-se misturar. Estejam pois atentos e apreciem. Mais não digo.
RETROCESSO

Estamos em Novembro. Estes últimos dias de Novembro vieram com um estranho sol, com um estranho calor, com uma estranha aragem que sopra suavemente; eu diria, quase carinhosa, se isto tudo não me agarrasse pelos colarinhos da camisa que trago vestida, e me abanasse de uma maneira violentamente cómica; como vemos os bonecos animados fazerem-no com as árvores para que caiam os frutos. Porque essa árvore desenhada num ecrã sou eu, e este tempo tão estranho troça de mim ao acarinhar-me, irónico, pondo-se igual àquela manhã solarenga de Outubro, quando eu te conheci.
O tempo faz pouco de mim. Faz pouco, troçando, fazendo-me sentir na pele o pouco que agora tenho e o muito que perdi. E eu vejo, sobretudo nestes dias que me despertam não de um sonho mas para o interior de um sonho, vejo a minha vida no pequeno ecrã aos pés de uma cama de casal, e vejo-te dentro dessa pequena caixa cinzenta, embrulhada no meu roupão enorme, agarrada ao Sebastião, o urso boneco inanimado que tu adoravas abraçar quando eu não estava em casa. Vejo-te miúda ainda, e alegremente birrenta com as dores da TPM.
Naquela manhã, uma manhã igual a tantas outras, o sol brilhava no topo do mundo. Ainda se ouviam chilreares vindos das árvores que começavam com a sua cíclica queda de cabelo, e as pessoas passeavam alegremente à beira das ruas, por cima dos passeios, vendo montras, entrando e saindo dos cafés e pastelarias, a caminho do emprego ou das compras... enfim... na vida normal e rotineira de todos os dias. Mas a mim, que observava isto tudo de um 1.º andar no centro da cidade, pareciam-me livres e felizes, como se as responsabilidades e preocupações do dia-a-dia não existissem; e assim todos me pareciam, alegres numa digressão domingueira.
Contudo, eu estava inexplicavelmente bem-disposto. Não era habitual ver-me assim logo pela manhã em dias de semana. E embora eu não conseguisse ver-me bem-humorado ou até me desse conta dessa satisfação que se apoderava de mim, eu estava bem. Sem me aperceber, sentia-me estranho. Talvez por estar bem, pois aquela não era a indiferença do costume.
A meio da manhã, resolvo descer para tomar café. E até quando descia as escadas e atravessava a porta do edifício para o exterior luminosamente citadino, tudo me parecia convidativo e confortavelmente acolhedor. O tempo chamava por mim; conhecia o meu nome de cor e eu sentia cada letrinha soar-me nos ouvidos como um chamamento soletrado e instintivo. Foi assim que fiz o restante e curto caminho da porta do meu trabalho até à porta da pastelaria que ainda hoje frequento.
ÁPICE

Uma música. O ruído de chávenas, pires, pratos, copos, colheres. Uma melodia de loiças e talheres dançando nas mãos dos empregados que se movimentam, activos, por trás dos balcões de vidro transparente. Há um cheiro no ar. Aliás, vários cheiros no ar. Mas tão perfeitamente baralhados que nos parece ser, num contacto primeiro entre narinas e ambiente, um só. O cheiro característico das pastelarias pela manhã.
Á medida que vou avançando, desvio-me de um pequeno traquinas que corre para a rua aos gritinhos e risadas com alguma guloseima nas mãos. A mãe, passa por mim como um relâmpago agitado em preocupação e grita, zangada com laivos de aflição, o nome do garoto desaparecendo atrás do seu braço esticado que não foi a tempo de o agarrar. Eu sorrio e descontraído, de passo leve, dirijo-me ao balcão com maior gulodice que apetite.
Distraído, a namorar a fila de bolos, pastéis e outras iguarias expostas na vitrina à maneira de manequins nas lojas de roupa de senhora, nem oiço a voz simpática da menina Ema, uma das empregadas que, no meio de toda aquela filarmónica matinal, conseguia ter sempre o seu destaque particular. Ela, de pé por trás do balcão, sorria, talvez da minha estranha figura. E diz-me um bom dia a puxar para a brincadeira, perguntando se era o costume. Sim, sim. Digo eu. Pode trazer-me um cafézito curto. E hesitando entre os seus lindos olhos verdes e um delicioso pastel de nata, há algo no ar que me desperta desta abstracção invulgar.
Três bonitas raparigas de pé, vestidas com a fresca elegância própria de quem tem bom gosto e uns presumíveis vinte anos de existência, conversavam alegremente mesmo à minha frente, do outro lado do balcão.
Não querendo comparar ou destacar uma delas das outras duas, ou não querendo afirmar que uma era mais bonita que outra, havia nesta tríplice beleza jovial, que se apresentava aos meus olhos agora bastante atentos, um olhar extremamente cativante que fazia brilhar, ainda mais, este harmonioso triângulo feminino; e que por essa razão, inevitavelmente se destacou diante do meu olhar que já rebentava, instantaneamente, numa inexplicável curiosidade, súbito interesse, e intenso deslumbre... uma mistura de não sei o quê que me caiu em cima da cabeça numa questão de segundos e que me pôs num estado de nervos e entusiasmo, misturados com uma esquisita felicidade parente da euforia. Uma euforia em combate absoluto com a timidez das minhas mãos que, procuravam um pacote de açúcar, perdido entre tantos outros pacotes de açúcar, dentro de uma cestinha de vime, imóvel em cima do balcão, à direita do meu braço embaraçado, tentando esconder a qualquer custo, o tremor interno que se alastrava pelo corpo todo, apressadamente e impossível de travar.
A conversa parecia interessante ou, pelo menos, divertida; a julgar pelos risos constantes que eu observava com os olhos e ouvidos despertos. E independentemente do presente diálogo ser indecifrável aos meus ouvidos que se esforçavam por distinguir a tua voz de todas as outras, eu entendia na minha cabeça de homem, que só poderiam conferenciar sobre algum assunto inerente às mulheres. Isto deixou-me mais descontraído. Sempre achei uma certa graça às mulheres quando se juntam, em duplas, em trios... enfim, nunca se mantém iguais ao que são quando estão sós ou a sós com um homem. É interessante observá-las tanto num caso como noutro. Podemos aprender bastante com os movimentos que elas fazem e que provocam nos outros, sejamos nós homens ou mulheres.
Talvez se, naquela manhã, no meio de toda a inofensiva e deliciosa barafunda em que nos olhámos pela primeira vez, tu estivesses sozinha, talvez as coisas não avançassem da maneira como vimos depois. Era bem provável que, no caso de estares sozinha, nem reparares em mim pois quando caminhavas sozinha nas ruas, ou entravas em cafés, pastelarias, restaurantes e num sem número de locais públicos, a tua timidez, que se escondia em presença de alguém que te era íntimo, ficava a flutuar nos teus olhos. E mesmo quando tentavas disfarçar, não querendo dar parte fraca dessa tua aparência confiante, dessa tua imagem de marca para quem não te conhecia, o teu corpo sob o meu olhar atento traía o restante. Se naquela manhã estivesses só... provavelmente não terias levantado os olhos da chávena de café, e muito menos os terias dirigido a mim. Eu observava-te minuciosamente. Cada detalhe do teu rosto. Cada movimento do teu corpo. A entoação da tua voz e do teu riso. A movimentação dos teus lábios. A circulação do ar que te envolvia. O teu cabelo, que então tocava levemente nos ombros, de um liso perfeitamente escadeado a contrastar admiravelmente com a profundidade de um negro brilhante que me seduzia. Parecias uma deusa vestida com roupas modernas. Uma deusa de carne e osso, que não conseguíamos definir em primeira análise se era menina, se mulher.
A brancura da tua pele, do teu rosto ligeiramente maquilhado, era mística. Mas os teus olhos... era nos teus olhos, na maneira como olhavas, que residia todo o mistério e todo esse misticismo capaz de me levar em viagens inesperadamente alucinantes. E mais uma vez, num ápice, em segundos, eu retrocedi no tempo. De repente, não havia mais nada à nossa volta. Era como se não existisse passado nem futuro; apenas um presente cheio de memórias boas e previsões maravilhosas.
Apesar de toda a actividade dos empregados no interior do balcão em forma de U que nos separava, diminuísse o meu campo de visão sempre que passavam à nossa frente, eu conseguia ver todo este conjunto de imagens numa perfeita sequência fotográfica. E foi durante o intervalo de uma dessas imagens que passavam com natural rapidez, que os teus olhos colidiram com os meus.
Na altura, tendo em conta o estado de total absorção em que me encontrava, não percebi. No entanto hoje posso afirmar com toda a certeza que o primeiro olhar, por incrível que pareça, revelou medo por revelar certezas na mesma medida. Inicialmente, olhaste com timidez, segundo julguei, erradamente. Pareceu-me ser uma mistura de timidez e curiosidade. Os teus olhos, grandiosos e amendoados, moviam-se com vida, com brilho, com existência, verdade e realidade. E tudo isso dentro de um sonho. Nesse momento eu nem conseguia discernir o que me puxava para ti. Eras excessivamente expressiva. E essa tua beleza e expressividade juntas absorviam toda a minha atenção. Isto durou segundos. Ficou-me gravado na memória a ferro e fogo até ao dia de hoje. Olhaste com estranha fixação, ao mesmo tempo que continuaste em amena cavaqueira com as tuas amigas que entretanto, com a sagacidade e esperteza feminina, toparam a uma velocidade idêntica à língua de um camaleão quando apanha um insecto, que eu te devorava com todos os sentidos à excepção do tacto, e do paladar.
Há uma delas, a mais alta e magra, com um rosto bastante interessante, emoldurado por um corte de cabelo curtinho e pintado de loiro platinado, que me olha atenta. E mantendo os seus olhos em continuo disparo de alerta na minha direcção, encurta a distância entre a sua face e a dos restantes elementos para segredar. E nisto, propositadamente, coloca uma das mãos perto da boca, mesmo para eu sentir que cochichavam sobre a minha pessoa. É nestas alturas que um homem se sente um tanto ridículo. Isto porque, vindo da mente feminina, esse arquitecto criativo, inteligente mas por vezes perigoso, para nós claro, nunca sabemos o que pode surgir de onde menos se espera; e logo, nesse preciso momento, senti-me ridículo e um bocado furioso por essa razão.
Só o facto de, após aquela atitude ter sido seguida por risadas a atirar para o histerismo mas em baixo som, deixou-me um bocado irritado. Até parecia que estavam a gozar-me. Portanto, logicamente que, arranquei os olhos de cima da tua figura, contrariado, e continuei beber o café, preparando-me para vingar a minha pequena irritação no pastel de nata que esperava, mais ansioso que tu, para levar uma dentada.
Era desconcertante estar ali. Infelizmente a causa desse transtorno não teve origem na mesma razão anterior à que então decorria. A primeira tinha sido agradável embora perturbadora. E esta nova situação, imprevisível na mesma medida da antecedente, era de um desagradável desconcerto que me meteu deslocado e sem saber ao certo como agir.
As risadinhas não paravam e era impossível não levantar os olhos para ver, por eles mesmos, qual o motivo da risota; aliás, o desenrolar da acção, pois o motivo estava mais que visto que era eu. E como na maioria das vezes a curiosidade é mais forte que o orgulho, eu não consegui conter o olhar sério e cabisbaixo por muito tempo. E quando levo os olhos, assim como quem não quer a coisa, diante da tua imagem estonteante, por mais uma vez, reparo que estás agarrada a uma enorme bola de berlim cheia de creme e açúcar.
A tua postura era completamente oposta à primeira. Contudo, não sei bem porquê, ao contrário de achar igualmente ridículo e digno de troça pela minha parte, nesta nova postura que assumias descaradamente, aquele teu ar de miúda, agora mais evidente que nunca, conseguiu aumentar com maior força e rapidez, os meus níveis de encantamento, anulando assim, a ideia de escárnio que começava a atormentar os meus pensamentos.
Estavas numa provocação cerrada mais as tuas amiguinhas. E todas gozavam o pratinho numa zombaria recíproca, à medida em que fazias coisas com a boca estacada no bolo enorme e, cheio de creme que já caia para cima do prato. Isto tudo com alguma discrição, ainda que não parecessem minimamente preocupadas com o que os outros pudessem pensar.
Na verdade estavas a fazer uma grande chafurdice com o raio do bolo, que nem tinha o aspecto correspondente à ideia que querias transmitir para a tua provocação. Só me apetecia pegar-te por um braço e chamar-te porcazita malvada. Esfregar-te o bolo corpo abaixo, ou substituí-lo por um alimento mais... sugestivo para as tuas brincadeiras atrevidas.
Acabava de dar a última trinca no meu pequeno e inofensivo pastel e tu ali, à minha frente, com olhar de gulosa e desavergonhada, a dares voltas e mais voltas - com os lábios e a língua, que por vezes enfiavas no creme maliciosamente - a um bolo muito diferente do meu.
Confesso que, nestas partes em que enfiavas a língua no creme, com os lábios envoltos nos grãos de açúcar, eu tive de me encostar um pouco à superfície plana, pertencente ao balcão, que tinha à frente da cintura.
Esse contraste de lábios vermelho vivo quase aceso, e o serpentear rosado da tua língua com a consistência amarelada e cremosa que pincelava toda aquela circunstância, fizeram surgir, forçosamente, um volume considerável dentro dos meus jeans, fazendo-me sufocar num desejo explosivo e carnal.
De repente, preocupou-me a ideia de alguém meu conhecido estar a observar, ocasionalmente, o desenrolar de toda esta cena que não teria durado mais de quinze ou vinte minutos. Isto tendo também em conta o período de entrar no estabelecimento, o espaço entre pedido e espera, fazendo referência ao facto de ter bebido o café a conta-gotas substituindo as dentadas no pastel de nata por vagarosas debicadas. Foi uma questão de queimar tempo. Tão simples quanto isso.
Sinceramente, perdi a noção desse tempo enquanto ali estive, disperso, numa torrente de sentimentos tão diferentes na intensidade, qualidade, quantidade e violência. Porque até na doçura dos teus olhos, haviam rasgos de violência. Violência na ideia que, tudo em ti, fosse de bem ou de mal era dito numa só palavra. Intenso.
(Textos de Alexandra Antunes. Fotografias de William Ropp)
O próximo capítulo será editado dia 26, Sábado.

Um autor polémico na escrita. Um realizador (que também foi actor) polémico. Um dramaturgo que não passa igualmente despercebido. Pier Paolo Pasolini, nasceu em Bolonha, Itália em 1922, tendo sido assassinado em Óstia, Roma, em Novembro de 1975, precisamente por ser essa personagem de existência tão incómoda para o pais de então. E era incómodo, acima de tudo, pelas mensagens que passava através das suas obras onde a abordagem, por exemplo, da religião e do sexo foram/são feitas/surgem absolutamente fora dos cânones aceites na época. Registe-se que estes recursos temáticos (ou sub-temáticos) eram/foram feitos com objectivos muito determinados, inclusive, com intenções políticas e de análise/interpretação social claras.
Alguns dos seus filmes: "O Evangelho segundo S. Mateus" (1964), "Teorema" (1968), "Medeia" (1970), "Decameron" (1971), "Os contos de Cantuária" (1972), "As mil e uma noites" (1974), "Saló ou os Cento e vinte dias de Sodoma" (1975).
Peças escritas (destacam-se): "Afabulação" (1966), "Orgia" (1969) e "Calderon" (1973).
Tem ainda obras escritas em Prosa e Verso.
Segue-se a edição de um excerto da peça "Afabulação". Quanto a esta: uma reflexão sobre o mundo, sobre a vida e sobre o conhecimento que os homens têm das coisas/das realidades, de si próprios, assim como dos outros (inclusive em termos geracionais). Da mesma forma, o homem face aos valores e sua mutabilidade (ou imutabilidade). Em destaque, aqui: a relação entre um pai e um filho. Uma tragédia.
___________________________________
PAI
Aaaaaah, aaaaaaah,
aaaaaaaaaaaaah!
SOMBRA DE SÓFOCLES
Apareço-te no fundo desse lamento.
Deve ser a febre das feridas.
Deixas de te lamentar
e eu desapareço; depois, voltas a lamentar-te
e eu volto a aparecer.
Vou e venho, veloz como um raio,
suspenso no fundo do teu lamento,
pobre homem esfaqueado.
PAI
Aaaaaaah! E porquê?
SOMBRA DE SÓFOCLES
Para te dar explicações
acerca do que é.
PAI
Pois bem, escuto-te...
SOMBRA DE SÓFOCLES
Escrevi tragédias
como tu bem sabes - porque as lestes em estudante.
Portanto, como homem de teatro, não é a ti que falo,
mas à tua personagem:
a esse homem febril
que teimosamente se lamenta.
Venho, de facto, trazer-te notícias
de outras personagem...
e essa personagem...
e essa personagem
é um rapaz... um rapaz...
PAI
Oh, amigo, sim, fala-me dele... É por acaso
ele quem te envia?
(...)
SOMBRA DE SÓFOCLES
Bem: tu tentas decifrar o enigma
do teu filho. Mas ele não é nenhum enigma.
O problema é esse.
(...)
PAI
E então? Diz-me qual é essa verdade,
que a tua razão conhece!
SOMBRA DE SÓFOCLES
Infelizmente, não é uma verdade
da razão: a razão
serve, de facto, para decifrar os enigmas...
Mas o teu filho - o problema é esse, repito -
não é nenhum enigma.
O teu filho é um mistério.
(...)
Tu também decifraste
os teus pequenos enigmas
e a tua vida avançou
e o teu poder aumentou.
Portanto, talvez tenha sido por hábito
(no mundo só existe
o poder, o dinheiro e a vitória...)
que achaste que o teu filho
também era um enigma. E começaste,
cheio de boa vontade, a decifrá-lo.
E, se ele fosse um enigma,
tê-lo-ias certamente decifrado.
Ou por intermédio da religião
ou por intermédio da loucura
ou, por fim, como era mais provável,
por intermédio, mesmo da razão. Eu não,
mas tu,
tu, tens o culto da razão.
E é de facto através dela, repito,
que se decifram os enigmas
que malditamente juncam o terreno
entre o homem e o seu poder sobre a realidade. (...)
Diz-me lá! De que serviu ao meu Édipo
decifrar o enigma? Para conquistar o poder?
Conquistou-o e perdeu-o.
E o que eu quero sublinhar é que o perdeu
sem ter sabido nada do mistério.
(...)
PAI
Volta ao meu filho!
SOMBRA DE SÓFOCLES
Se eu tivesse sido apenas um poeta,
explicar-te-ia só com palavras.
Mas eu sou mais do que um poeta; por isso
as palavras não me bastam; tens de ver
o teu filho como no teatro; tens de completar
a evocação da palavra com a presença dele,
em carne e osso, e mesmo nu, a fazer amor
- ou alguém parecido com ele, mas também
em carne e osso - com os seus membros desnudados.
Tens de o ver, não só de o ouvir;
não só ler o texto que o evoca,
mas tê-lo a ele à tua frente. O teatro
não evoca a realidade dos corpos só com as palavras
evoca-a também com esses mesmos corpos...
PAI
E depois?
SOMBRA DE SÓFOCLES
O homem só se apercebeu da realidade
quando a representou.
E nada melhor do que o teatro a pôde alguma vez representar.
(...)
PAI
Sim, sim, está bem, tens razão, condena-me, mas diz-me:
o meu filho é portanto a realidade,
a realidade que me escapa: mas uma realidade concreta, que não o é
se não se representa
em toda a sua insuportável violência.
SOMBRA DE SÓFOCLES
É mais ou menos isso.
PAI
E eu não devo decifrá-la, porque não é nenhum enigma:
mas conhecê-la - ou seja, tocá-la, vê-la e senti-la -
porque é um mistério.
(...)
PAI [posteriormente, para o Ferroviário]
(...)
O período de que te falo é de facto uma época;
a época em que o meu filho era jovem.
Os hábitos tinham mudado, a mentalidade era
diferente (dizia-se): havia também
uma luz diferente no ar, eu sei,
porque as primaveras já não eram as velhas
primaveras camponesas em torno das oficinas; os campos
já não estavam humildemente cobertos de vegetação,
coroados de salgueiros e de choupos, salpicados de prímulas.
Mas isto é conversa fiada. O estranho é
que o meu filho parecia saber desde sempre todas estas coisas
que eram para mim uma grande novidade.
E esse saber dava-lhe direitos,
e esses direitos, o mistério...
Tu sabes, não sabes, Cagarola, mas vamos resumir: os pais
querem que os filhos morram (por isso os mandam para a guerra) e os filhos querem matar os pais
(por isso, por exemplo, protestam contra a guerra,
e desprezam, cheios de altivez, a sociedade dos velhos que a quer). Pois bem, eu,
não queria matar o meu filho...
queria ser morto por ele!!
Não te parece estranho?
E ele, não queria matar-me
- ou deixar-se matar
cheio de boa vontade e resignado
como todos os jovens obedientes -
não queria matar-me nem deixar-se matar!!
Nem uma coisa, nem outra, percebes, Cagarola?
Não queria saber de mim,
nem de todas as mortes, antigas e novas,
que ligam um pai e um filho...
Depois tinha-se libertado de tudo,
saía de casa, fazia o que queria,
ignorava-me, fugia-me, estava sempre não sei onde.
Se isto era o futuro, era totalmente imprevisível.
Que futuro? Tu pensarás, talvez, que se trata de um futuro já passado.
Que eu vejo as coisas parado num momento
que tem um valor absoluto, o perigo antes da guerra,
a guerra, o pós-guerra, os Anos Cinquenta.
Para mim, de facto, não é a sequência que conta,
confundo os decénios uns com os outros; e o antes
e o depois, na minha historiografia,
obedecem a leis poéticas.
Mas só sou louco quando quero.
A sinopse da relação entre pai e filho
com que concluí o meu afabular solitário
é válida para o presente real;
e o futuro imprevisível que me armou a mão
é mesmo este, o do decénio que vivemos.
Fez desaparecer o passado,
e, prematuramente, domina os homens.
Os homens vivem-no com inconsciência,
sentindo-o na realidade mais como morte
de valores passados do que como nascimento de valores novos.
Isso humilha-os, e fá-los regredir
a impiedades infantis.
Foi isso que, na realidade, me tornou assassino de um filho abúlico, anacronicamente
inocente (a morte que se trate
de uma inocência humanamente nova).
(Pier Paolo Pasolini- AFABULAÇÃO. Fotografia: o autor em destaque)
Diferentemente do que estava de início pensado esta semana dedicada ao Teatro vai prolongar-se ainda mais. Pela boa receptividade havida, traduzida no número de visitas diárias aqui ao Abismo, apostei na continuação da edição de textos dramáticos durante toda a próxima semana. Continuo a contar convosco até porque... vão haver novidades em termos de formatos e interpretações da minha parte relativamente ao verificado até agora. Fiquem atentos!
Jean-Luc Lagarce é o dramaturgo que vos apresento hoje. Nascido em França no ano de 1956, faleceu em Setembro de 1995 com SIDA. Lagarce foi também encenador e co-fundador da companhia "Le Théâtre de la Roulotte" (finais da década de 70 do século passado), que levou (e leva) à cena para além dos seus próprios textos, autores como Kafka, Ionesco, Molière ou Wedeking.
Destaco as seguintes peças da sua autoria: "Tão só o fim do mundo", "As regras da arte de bem viver na sociedade moderna" e "Estava em casa e esperava que a chuva viesse".
Apresento, de seguida, um excerto de "Tão só o fim do mundo", estreada em Portugal no passado mês de Janeiro pelos Artistas Unidos.
Dão vida à peça as seguintes personagens: Luís (34 anos), Susana (sua irmã, 23 anos), António (irmão destes, 32 anos), Catarina (mulher de António, 32 anos) e a Mãe (mão de Luís, António e Susana, 61 anos). Conteúdo: Luís vai ao encontro da família para comunicar a sua morte próxima. Dado que a separação entre eles é já bastante longa, o reencontro vai pautar-se por recordações, cobranças, desentendimentos... fazendo com que o objectivo da viagem de Luís não se concretize. Do mesmo, só o público que assiste à peça, tem desde o início conhecimento.
As intervenções de Susana e da Mãe, são, pois exemplo de todo o ambiente criado.
LUÍS
Mais tarde, no ano seguinte
- era a minha vez de morrer -
tenho quase trinta e quatro anos e foi com esta idade
que morri,
no ano seguinte,
há vários meses que esperava sem fazer nada,
a disfarçar, sem saber mais nada,
há vários meses que esperava ter acabado com isto,
no ano seguinte,
como quando às vezes ousamos mexer-nos,
quase nada,
perante um perigo extremo, imperceptivelmente, sem
querer fazer barulho ou arriscar um gesto demasiado violento que
acordaria o inimigo e nos destruiria de imediato,
no ano seguinte,
apesar de tudo,
o medo,
assumindo o risco e sem nunca ter esperança de sobreviver,
apesar de tudo,
no ano seguinte,
decidi voltar a vê-los, procurar as minhas pisadas,
repisar os meus passos e fazer a viagem,
para anunciar, lentamente, com cuidado, com cuidado e
precisão
- acho eu-
lentamente, calmamente, de forma ponderada
- e não fui sempre para os outros e para eles, em particular, não fui sempre um homem ponderado?,
para anunciar,
dizer,
apenas dizer,
a minha morte próxima e irremediável,
ser eu próprio a anunciá-lo, ser o seu único mensageiro,
e parecer
- talvez o que sempre quis, o que sempre quis e decidi, em
todas as circunstâncias e desde os tempos mais longínquos
que ouso
recordar -
e parecer uma vez mais poder decidir,
dar a mim próprio e dar aos outros, e a eles, em particular,
tu, vocês, ela, e ainda os que não conheço (tarde demais, paciência),
dar a mim próprio e dar aos outros uma última vez a ilusão
de assumir a responsabilidade dos meus actos e de ser,
até ao limite, senhor de mim mesmo.
(Passa-se em casa da Mãe e de Susana, um domingo, evidentemente, ou ainda ao longo de quase um ano inteiro.)

SUSANA
Veio de taxi
Estava atrás da casa e ouço um carro,
pensei que tinhas comprado um carro, nunca se sabe, seria
lógico.
Estava à tua espera e o barulho do carro, do taxi, soube imediatamente que estavas a chegar, fui ver, era um taxi,
vieste de taxi desde a estação, era o que eu tinha dito, não tem sentido, podia-te ter ido buscar,
tenho carro próprio,
se me tens telefonado hoje, teria ido imediatamente
ao teu encontro,
só tinhas de avisar e esperar por mim num café.
Eu tinha dito que tu ias fazer isto,
eu disse-lhes
que tu ias apanhar um taxi,
mas eles acharam todos que tu sabias o que tinhas a fazer.
A MÃE
Fizes-te boa viagem? Não te perguntei.
LUÍS
Estou bem.
Não tenho carro, não.
Tu, como é que estás?
ANTÓNIO
Estou bem.
Não é uma viagem longa, não exageremos.
(...)
SUSANA
Quando te foste embora
- não me lembro de ti -
não sabia que te ias embora por tanto tempo, não me apercebi,
não prestava atenção,
e dei comigo sem nada.
Esqueci-me bastante depressa.
Era pequena, novinha, é o que dizem, era pequena.
Não é bom que te tenhas ido embora,
que te tenhas ido embora por tanto tempo,
não é bom e não é bom para mim
e não é bom para ela
(ela não te vai dizer nada)
e, de certa forma, também não é bom para eles, para o António e para a Catarina.
Mas também,
- acho que não me engano-
mas também não deve ser, não deve ter sido, não deve ser
bom para ti,
para ti também não.
Às vezes deves ter,
mesmo que nunca o reconheças,
mesmo que nunca o devas reconhecer
- e é de reconhecimento que se trata -
às vezes também deves ter
(é o que eu digo)
também deves,
às vezes deves ter precisado de nós e deves ter lamentado
não nos poderes dizer nada. (...)
Às vezes enviavas-nos cartas,
às vezes envias-nos cartas,
não são bem cartas, são o quê? pequenas mensagens, são só pequenas mensagens, uma ou duas frases, nada, como é
que se diz?
elípticas.
"Às vezes enviavas-nos cartas elípticas". (...)
Estas pequenas mensagens
- as frases elípticas -
estas pequenas mensagens vêm sempre escritas em postais
(temos, hoje, uma colecção invejável)
como se desta forma quisesses dar a entender que estás sempre em férias,
não sei, era o que eu achava,
ou ainda como se, antecipadamente,
quisesses reduzir o lugar que nos virias a reservar
e oferecer a todo e qualquer olhar as mensagens sem importância
que nos envias.
"Estou bem e espero que vocês também estejam." (...)

A MÃE
(...)
Eles querem falar contigo, essas coisas,
foi o que eu ouvi,
mas também os conheço
sei muito bem
como podia não saber?
Se não tivesse ouvido, podia muito bem adivinhar,
Acabaria por adivinhar, ia dar ao mesmo.
Eles querem falar contigo,
souberam que voltavas e acharam que iam poder falar contigo,
têm um certo número de coisas para te dizer desde há muito tempo e finalmente uma ocasião.
Vão-te querer explicar, mas vão explicar mal,
porque eles não te conhecem, ou mal.
A Susana não sabe quem tu és,
isto não é conhecer é imaginar,
imagina sempre e nunca sabe nada da realidade,
e ele, o António,
o António é diferente,
conhece-te, mas à maneira dele como conhece tudo e toda
a gente,
como conhece ou como quer conhecer cada coisa,
tendo lá a sua ideia e nunca dando o braço a torcer. (...)
Mal chegaste,
eu vi-te,
mal chegaste pensaste logo que estavas a cometer um erro e preferias ir-te embora imediatamente,
não me digas nada, não me digas o contrário - vais assustá-los
(isto também é medo)
vão ter medo de terem pouco tempo e vão insistir
desajeitadamente,
e vai ser tudo dito de qualquer maneira ou demasiado
depressa,
de uma forma demasiado abrupta, o que vai dar ao mesmo, e brusca,
porque eles são bruscos, sempre foram e continuam a ser, e duros também,
é a maneira de ser deles,
e tu não vais entender, sei como tudo vai acontecer e como
aconteceu sempre.
Vais responder apenas com duas ou três palavras
e vais ficar calmo como tu próprio aprendeste a ficar
- não fui eu nem o teu pai,
o teu pai ainda menos,
não fomos nós que te ensinámos essa forma tão hábil e tão detestável de ser calmo em todas as circunstâncias, não me lembro disso
ou não sou responsável -
vais responder apenas com duas ou três palavras,
ou vais sorrir, é a mesma coisa,
vais-lhes sorrir
e a única coisa de que se vão lembrar,
depois, a seguir, mais tarde,
à noite quando adormecerem,
a única coisa de que se vão lembrar é desse sorriso,
é a única resposta que vão querer guardar,
e é esse sorriso que eles vão discutir e voltar a discutir,
não vai mudar nada, bem pelo contrário,
e esse sorriso vai agravar as coisas entre vocês,
vai ser como o rasto do desprezo, a pior das feridas. (...)
Ambos gostavam que tu estivesses mais por cá,
mais presente
mais vezes presente,
encontrarem-te, telefonarem-te,
zangarem-se contigo e reconciliarem-se e perderem o respeito,
esse famoso respeito obrigatório para com os irmãos mais velhos,
ausentes ou estranhos. (...)
Pequeno sorriso?
Apenas "duas ou três palavras"?
(...)
LUÍS
Depois, o que faço,
é ir-me embora.
Nunca mais volto. Morro alguns meses mais tarde,
um ano no máximo.
(...)
(Jean-Luc Lagarce- TÃO SÓ O FIM DO MUNDO. Fotografias resultantes das representações dos Artistas Unidos)

Originários da Rússia, Vladímir Presniakov (n. 1974) e Oleg Presniakov (n. 1969) têm já (apesar das suas idades) um currículo bastante razoável no que respeita a peças da sua autoria, peças estas que têm sido representadas, para além da Rússia, em Inglaterra, Polónia, Sérvia, Alemanha, Itália, Austrália, Suécia, mas também em Portugal.
No nosso país as representações tiveram lugar pelas mãos dos Artistas Unidos, em particular "Terrorismo" (peça datada de 2000) e "No papel da vítima" (peça datada de 2002), no passado ano de 2004.
Edito seguidamente um excerto de "Terrorismo", peça em seis actos, cada um deles referindo-se a uma situação onde o Medo, a Morte e o medo da Morte estão bastante presentes, transmitindo a ideia que o Terrorismo (através de uma abordagem mais alargada/diferenciada) está em toda a parte, através das mais diversas manifestações. Desde os espaços de carácter público, aos espaços de carácter privado, onde as nossas casas são o exemplo mais significativo, situações que remetem para o Medo e para a Morte (e para a relação entre ambos) são um lugar por demais comum, sendo nós mais ou menos capazes de consigo lidar.
_________________
Espaço asfaltado em frente da entrada do aeroporto. Em vez dos carros que normalmente estacionam neste lugar, acomodaram-se, sentados nos sacos e malas, numerosos passageiros. Pelas figuras, tristonhas e curvadas, e pelos rostos, com aquela expressão parada de desespero submisso e de histeria reprimida, pode-se adivinhar que estão aqui há muito tempo. Os coitados tinham vindo para o aeroporto com a finalidade de viajarem, segundo as necessidades de cada qual (...). Alguma coisa, porém, baralhou de repente os seus planos e obrigou-os a não passarem do sinistro estacionamento asfaltado, qual autêntica ilha do azar, e a imobilizar-se aqui mesmo.
A seguir a este espaço, defronte da fachada envidraçada do edifício, estende-se um cordão de militares fardados. É este cordão à vista de todos que, por certo, impede os passageiros de embarcar. (...)
HOMEM FARDADO- Aeroporto encerrado.
PASSAGEIRO- Desculpe?
HOMEM FARDADO- Aeroporto encerrado.
PASSAGEIRO- Mas o meu voo é daqui a vinte minutos.
HOMEM FARDADO- Documentos.
PASSAGEIRO- Faça o favor, bilhete, passaporte... (Apressa-se a entregar ao militar o bilhete e o passaporte; este estuda-os, depois devolve-lhos.)
HOMEM FARDADO- Aeroporto encerrado
PASSAGEIRO- Então como é que eu embarco?
O HOMEM FARDADO guarda silêncio e olha concentrada e severamente como que através do PASSAGEIRO.
PASSAGEIRO- Ouça, deve estar cansado de explicar a toda a gente porque é que não deixam entrar ninguém... mas, bem vê, eu é que não estou ao corrente. Comprei o bilhete há uma semana e ninguém me avisou que podiam cancelar tudo assim de repente porque o aeroporto encerrou sem pré-aviso. Acho que as minhas perguntas são perfeitamente legítimas, faça o favor de responder...
HOMEM FARDADO- Bomba no aeroporto. Todos os voos foram adiados por tempo indeterminado. Quando for concluída a operação de desarme, o senhor pode entrar no aeroporto.
PASSAGEIRO- Entro no aeroporto, pois - mas aí já não fará sentido nenhum... Olha que esta... bomba no aeroporto... Pois, e quando é que vocês acabarão...? Hummm... Mas porquê? (O PASSAGEIRO murmura mais qualquer coisa, afastando-se do militar e sentando-se em cima da sua mala, perto de outras pessoas à espera.)
PASSAGEIRO (para o vizinho do lado, sentado numa mala axadrezada)- Sabe o que se passa aqui?
SEGUNDO PASSAGEIRO (olha para o céu, franze os olhos)- Claro que sei... há uma suspeita de bomba no aeroporto...
PASSAGEIRO- Para quê? Quer dizer que... devia chegar alguém, ou partir... alguém assim muito... sei lá, que pudesse sofrer um atentado... um político, um cientista?
SEGUNDO PASSAGEIRO (...)- O senhor é político?
TERCEIRO PASSAGEIRO- Não.
SEGUNDO PASSAGEIRO- Cientista?
TERCEIRO PASSAGEIRO- Não.
SEGUNDO PASSAGEIRO- Estranho, porque o senhor, aqui, é o único a dar mais ou menos um ar de político ou cientista...
TERCEIRO PASSAGEIRO- Porquê?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Porque não tem bagagem.
TERCEIRO PASSAGEIRO- E depois?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Não tem bagagem, o que significa que não se preocupa com nada - alguém lha vai trazer, ou então, de uma maneira geral, não precisa dela porque anda de tal modo assoberbado com a política ou a ciência que não pensa em mais nada...
TERCEIRO PASSAGEIRO- E não penso, é verdade, mas não sou político nem cientista.
SEGUNDO PASSAGEIRO- E o senhor é digno de um atentado?
TERCEIRO PASSAGEIRO- Não sei...
SEGUNDO PASSAGEIRO- Bom, e acha que podia ser por sua causa que eles puseram uma bomba no aeroporto?
TERCEIRO PASSAGEIRO (nervosamente)- Porque é que acha que há uma bomba no aeroporto?
SEGUNDO PASSAGEIRO (com ironia)- Adivinhei.
PASSAGEIRO- Pelo menos foi o que disseram os militares...
SEGUNDO PASSAGEIRO e TERCEIRO PASSAGEIRO (juntos)- Os militares disseram?
PASSAGEIRO- Foi, disseram ainda agora...
TERCEIRO PASSAGEIRO- Por mim, não os ouvi dizerem nada disso... Só sei que alguém deixou a bagagem na pista de aterragem. Agora estão os sapadores a ver se descobrem o que é que tem dentro. Enquanto isso, os voos estão cancelados e fecharam o aeroporto...
PASSAGEIRO- E tudo isso por causa de uma bagagem qualquer?!
TERCEIRO PASSAGEIRO- Pois claro... Uma bagagem qualquer! Pode haver lá dentro tudo o que se queira. Podemos ir todos pelos ares. Aliás, é muito ingénuo pensar que puseram uma bomba no aeroporto por causa de um político ou de um cientista. Foi por causa de nós, de todos nós que estamos aqui sentados, porque quando morre gente inocente, pessoas simples, que não se destacam em nada - isso é ainda mais assustador do que morrer um homem importante. Quando morrem pessoas normais, sabem, principalmente com muita frequência e em número elevado... quando não morrem na guerra mas nas suas próprias casas, nos aviões, ou a caminho do trabalho, então, no Estado, muda tudo automaticamente, e os políticos com a sua política inútil, e os cientistas com a sabedoria deles, vai tudo a pique...
PASSAGEIRO- A pique?...
TERCEIRO PASSAGEIRO- Sim, a pique, porque nada nem ninguém pode governar um mundo em que morrem tantas vezes pessoas normais - tantas vezes e em tão grande número...
SEGUNDO PASSAGEIRO- Para que é que é preciso caçar os figurões bem protegidos se é possível matar a ideia e o sentido com tanta facilidade - é que ninguém protege isso... A ideia e o sentido da vida inteira está nas pessoas, em todos nós, mas a nós ninguém protege! Mesmo agora, estão a guardar o aeroporto, e não a nós!
TERCEIRO PASSAGEIRO- É sempre a mesma coisa, quem sofre é o inocente...
SEGUNDO PASSAGEIRO- Pois, o inocente é que sofre... (Ao pronunciarem estas frases, o TERCEIRO PASSAGEIRO e o SEGUNDO PASSAGEIRO abanam as cabeças com afectação.)
TERCEIRO PASSAGEIRO- Embora toda a gente tenha algumas culpas no cartório de uma maneira ou de outra...
SEGUNDO PASSAGEIRO- O que não é motivo para pôr bombas a toda a gente!
PASSAGEIRO- Esperem... Porque é que acham que há-de haver explosivos na bagagem?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Estão precisamente a investigar isso agora, e nós não achamos nada, nós só estamos a raciocinar, enquanto eles (aponta para os militares do cordão) estão a investigar...
TERCEIRO PASSAGEIRO- De qualquer maneira... aquilo já explodiu.
SEGUNDO PASSAGEIRO- Sim. Sim. Explodiu.
PASSAGEIRO- Como? (Olha teatralmente à sua volta.) Então onde está o fumo, os estilhaços, os escombros? Onde?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Está tudo no interior.
PASSAGEIRO- No interior?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Sim, no interior de todos os que estão aqui sentados - e no interior de todos aqueles ali, os que não nos deixam entrar (aponta para os militares)... Os que estão ali a fazer o cordão... foram arrancados de qualquer coisa... de uma vida lá deles... obrigaram-nos a esta preocupação, a enervar-se, e apesar de fingirem que não têm medo, percorre-os um calafriozinho, uma correntezinha de ar viscosa... de vez em quando não o podem evitar, eu bem vejo... Aqui, já despedaçaram alguma coisa em toda a gente, já levaram toda a gente a pensar noutras coisas... O que vamos fazer com isto?! O quê?!
(...)
(Irmãos Presniakov- TERRORISMO. Fotografias: Vladímir e Oleg no Teatro Taborda- Lisboa.)
Pensador, escritor e dramaturgo francês, Albert Camus nasceu na Argélia em 1913, vindo a morrer num acidente de viação em 1960, numa viagem de regresso a Paris. Licenciado em Filosofia, acabou por enveredar pelo Jornalismo e foi premiado no ano de 1957 com o Prémio Nobel da Literatura.
O seu trabalho como dramaturgo distingue-se pelas obras originais e pelas adaptações. Inseridas na primeira vertente temos as peças "Calígula", "O equívoco", "Estado de sítio" e "Os justos". Ao nível das adaptações temos: "A devoção à cruz", "Os espíritos", "Requiem por uma freira", "O cavaleiro de Olmedo", "Os possessos".
Apresento, seguidamente, um excerto da peça "Calígula" (versão conhecida do público, impressa em 1944 e estreada em 1945). Peça que aborda as questões da Felicidade, da Liberdade e do Poder. No âmbito deste último, aquelas que podem ser as deturpações, incompreensões e equívocos. Mas aborda também o Poder como móbil para a descoberta da ausência de limites interiores, nomeadamente no que respeita à destruição que é possível causar... ou que através de si pode causar. Uma reflexão sobre o Homem e sobre aqueles que podem ser os seus extremos. Uma reflexão sobre a Loucura. Uma reflexão sobre o Absurdo. Uma reflexão sobre o Destino.

(A cena fica vazia durante alguns segundos. Calígula entra furtivamente pela esquerda. Tem um ar alucinado, está sujo, os seus cabelos estão empapados de água e as suas pernas enlameadas. Leva várias vezes a mão à boca. Caminha para o espelho e detém-se, assim que apercebe nele a sua própria imagem. Balbucia palavras indistintas, depois vai-se sentar à direita, os braços caídos entre os joelhos separados. Helicon entra pela esquerda. Vendo Calígula, pára na extremidade da cena e observa-o em silêncio. Calígula volta-se e vê-o. Pausa.)
HELICON, atravessando a cena- Bom dia, Caius.
CALÍGULA, naturalmente- Bom dia, Helicon. (Silêncio.)
HELICON- Pareces fatigado.
CALÍGULA- Andei muito.
HELICON- Sim, a tua ausência foi longa. (Silêncio.)
CALÍGULA- Era difícil de encontrar.
HELICON- O quê?
CALÍGULA- O que queria.
HELICON- E que querias tu?
CALÍGULA- A Lua.
HELICON- O quê?
CALÍGULA- Sim, eu queria a Lua.
HELICON- Ah! (Silêncio. Helicon aproxima-se.)
CALÍGULA- Bem!... É uma das coisas que não tenho.
HELICON- Claro. E agora, está tudo em ordem?
CALÍGULA- Não, não a posso ter.
HELICON- É aborrecido.
CALÍGULA- Sim, é por isso que estou cansado. (Pausa) Helicon!
HELICON- Diz, Caius.
CALÍGULA- Pensas que estou doido.
HELICON- Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.
CALÍGULA- Já sei. Enfim! Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível. (Pausa) As coisas, tal como são, não me parecem satisfatórias.
HELICON- É a opinião geral.
CALÍGULA- É a verdade. Até há pouco tempo, eu não a sabia. Agora, sei. (Sempre natural.) Este mundo, tal como está feito, não é suportável. Tenho, portanto, necessidade da Lua, ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo.
HELICON- É uma razão de peso. Mas, geralmente, não podemos conservá-la até ao fim.
CALÍGULA, levantando-se com a mesma simplicidade - Que sabes tu disso? É porque nunca a conservamos até ao fim, que nada se alcança. Mas é possível que talvez baste continuarmos lógicos até ao fim. (Olha Helicon.) Li o que estás a pensar. Quantas histórias por causa da morte de uma mulher! Não, não é isso. Suponho recordar-me, é verdade, de ter morrido há alguns dias uma mulher que amava. Mas, o que é o amor? Pouca coisa. Juro-te que esta morte não quer dizer nada, apenas significa uma verdade que torna a Lua necessária. Uma verdade muito simples e muito clara, talvez um pouco estúpida, mas difícil de descobrir e pesada de suportar.
HELICON- E qual é, então, essa verdade, Caius?
CALÍGULA, lasso, num tom lento- Os homens morrem e não são felizes.
HELICON- Ora, Caius, toda a gente passa bem sem essa verdade. Olha à tua volta. Não é ela que nos impede de almoçar.
CALÍGULA, subitamente, numa explosão - Então, é porque tudo à minha volta é mentira, e eu, eu quero que se viva na verdade! E, justamente, tenho meios para os obrigar a viverem na verdade. Porque eu sei o que lhes falta, Helicon. Eles estão privados do conhecimento, porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina.
HELICON- Não te ofendas com o que te vou dizer, Caius. Acho que, em primeiro lugar, devias ir repousar.
CALÍGULA, sentando-se e falando docemente- Não posso, Helicon, já não posso.
HELICON- Porquê?
CALÍGULA- Se durmo, quem me dará a Lua?
HELICON, após uma pausa- É verdade. (Calígula levantou-se com um esforço visível.)
CALÍGULA- Escuta, Helicon. Ouço passo e vozes. Cala-te e esquece que me viste.
HELICON- Entendido. (Calígula dirige-se para a saída. Volta-se.)
CALÍGULA- E, se fazes favor, ajuda-me de hoje em diante.
HELICON- Não tenho razões para o não fazer, Caius. Mas, das muitas coisas que sei, poucas te interessam. Logo, em que posso eu ajudar-te?
CALÍGULA- No impossível.
HELICON- Farei o possível.
(...)
CESÓNIA- Choras?
CALÍGULA- Sim, Cesónia.
CESÓNIA- Enfim, mudou alguma coisa? Se amavas Drusilla, também me amavas a mim e a muitas outras. Não havia razão para que a sua morte te fizesse correr três dias e três noites pelos campos e te trouxesse agora com esse ar hostil.
CALÍGULA, voltando-se - Quem fala de Drusilla, doida? Não podes imaginar que um homem chore por outra coisa, a não ser por amor?
CESÓNIA- Perdão, Caius. Procuro compreender.
CALÍGULA- Os homens choram porque as coisas não são como deviam ser. (Ela avança para ele.) Não me toques. (Ela recua.) Mas fica ao pé de mim. (...) Que me interessa ter firmeza nas mãos, para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem? Não Cesónia, não podendo agir sobre a ordem do mundo, é indiferente que durma ou continue acordado.
CESÓNIA- Mas isso é querer igualar-se aos deuses. Não há pior loucura.
CALÍGULA- Também tu me julgas louco. E, no entanto, o que é um deus, para que deseje igualar-me a ele? Está para além dos deuses o que hoje desejo, com todas as minhas forças. Tomo de assalto um reino, onde impera o impossível.
(...)
CALÍGULA- E quem te disse que não sou feliz?
CESÓNIA- A felicidade é generosa. Não vive de destruições.
CALÍGULA- Então é porque há duas espécies de felicidade, e eu escolhi a dos assassinos. Porque sou feliz. Houve um tempo em que pensei atingir o limite da dor. Pois bem: pode-se ir mais longe ainda! No fim dessas paragens existe uma felicidade estéril e magnífica. Olha-me: (Ela olha-o.) Eu rio-me, Cesónia, quando penso que, durante anos e anos, Roma inteira evitou pronunciar o nome de Drusilla. Porque Roma se enganou durante anos e anos. O amor não me basta: é isto que acabo de compreender. É isso que eu vejo hoje mesmo, ao contemplar-te. Porque amar alguém, é aceitar envelhecer com esse alguém. Eu não sou capaz desse amor. Drusilla velha, seria bem pior que Drusilla morta. Julga-se que um homem sofreu porque lhe morreu um dia o ser amado. Mas o seu verdadeiro sofrimento não é tão fútil: é perceber que nem sequer o desgosto dura! Até a dor não faz sentido.
Bem sabes que não tinha desculpas, nem mesmo a sombra de um amor, nem a amargura da melancolia. Não tenho alibi. Mas hoje, eis-me ainda mais livre do que há anos era, liberto que estou da memória e da ilusão. (Ri apaixonadamente.) Sei que nada dura! Oh! Saber isto! Fomos só dois ou três, na história, que tivemos a verdadeira experiência disto, que pudemos atingir esta felicidade demente. Cesónia: seguiste, até ao fim, uma tragédia bastante curiosa. É tempo de cair sobre ti a cortina. (Passa dee novo por trás dela e passa-lhe o antebraço à volta do pescoço.)
CESÓNIA, apavorada- A felicidade é, portanto, essa liberdade espantosa?
CALÍGULA, apertando-lhe a pouco e pouco o pescoço- Podes ter a certeza, Cesónia. Sem ela, eu teria sido um homem satisfeito. Graças a ela conquistei a divina clarividência do solitário. (Exalta-se cada vez mais, estrangulando Cesónia a pouco e pouco, enquanto ela se abandona sem resistir, com as mãos abertas para a frente; e fala-lhe debruçado sobre o ouvido.) Vivo, mato, exerço o poder delirante do destruidor, ao pé do qual o do Criador parece uma macaquice. É isso ser feliz. É isso a felicidade, essa insuportável libertação, esse desprezo universal, o sangue, o ódio em meu redor, esse isolamento sem par do homem que põe toda a sua vida diante de si, a alegria desmedida do assassino impune, essa lógica implacável que rebenta as vidas humanas (ri), que te destrói, Cesónia, para perfazer, enfim, a solidão eterna que desejo.
(...)
CALÍGULA- À história, Calígula, à história!
(O espelho quebra-se e, nesse instante, entram por todas as portas os conjurados, em armas. Calígula faz-lhes frente, com um riso de louco. O Velho Patrício fere-o pelas costas e Cherea em pleno rosto. O riso de Calígula transforma-se em soluços. Todos o ferem. Num último soluço, Calígula, rindo e estrebuchando, grita:)
CALÍGULA- Ainda estou vivo!
(Albert Camus- CALÍGULA)
Sam Shepard nasceu nos EUA em 1943, desenvolvendo o seu trabalho no campo da escrita, da representação e da direcção de actores. No que respeita à escrita esta verifica-se ao nível da prosa mas também ao nível da dramaturgia. Na área da representação Shepard tem lugar quer no Cinema quer no Teatro.
Em Portugal "Loucos por Amor" estreou no Teatro Aberto em Setembro de 1990, voltando a representação a verificar-se em 2003 no Teatro Nacional D. Maria II.
Deixo-vos com um excerto da peça que aborda a estória de duas personagens- Eddie e May- cuja relação passa pelas mais diversas dificuldades, resultando destas a não concretização de um amor que parece estar, desde sempre, condenado ao fracasso. Poder-se-á falar, relativamente aos dois envolvidos, num verdadeiro responsável? A questão fica, pois, em aberto.

EDDIE (sentado, atira a luva para cima da mesa. Pausa curta) May, olha. May! Eu não vou para lado nenhum. Vês? Eu estou aqui. Não me fui embora. Olha. (ela não olha) Não sei porque é que não queres olhar para mim. Tu sabes que sou eu. Quem é que havia de ser? (pausa) Queres um copo de água ou qualquer outra coisa? Hum? (ele levanta-se lentamente, aproxima-se cautelosamente dela, acaricia-lhe a cabeça com suavidade, ela continua quieta) May! Vá lá. Não podes continuar assim. Há quanto tempo é que estás para aí sentada? Queres que eu vá lá fora e te traga alguma coisa? Umas batatas fritas ou qualquer outra coisa? (ela agarra de repente com os dois braços a perna dele que está mais próxima e aperta-a com força, metendo a cabeça entre os joelhos dele) Não me vou embora. Não te preocupes. Eu não me vou embora. Vou ficar aqui. Já te disse. (ela agarra-se ainda com mais força à perna dele, ele fica parado, acaricia-lhe suavemente o cabelo) May? Larga-me, está bem? Querida? Eu meto-te na cama. Queres? (ela agarra-lhe na outra perna e aperta-lhe as duas com força). Vá lá. Meto-te na cama e faço-te um chá quente ou outra coisa qualquer. Queres chá? (ela abana violentamente a cabeça e continua agarrada às pernas dele) Com limão? Ou queres Ovomaltine? May? tu agora largas-me, está bem? (pausa, depois ela empurra-o e volta à sua posição inicial) Agora deita-te e tenta descansar. (ele começa a tentar deitá-la suavemente na cama puxando os cobertores para trás. Ela reage furiosamente, salta da cama e bate-lhe com os punhos. Ele chega-se para trás. Ela volta para a cama e olha para ele, furiosa e zangada)
EDDIE (depois de uma pausa) Queres que eu me vá embora?
(Ela abana a cabeça.)
MAY- Não!
EDDIE- Então o que é que tu queres?
MAY- Cheiras mal.
EDDIE- Eu cheiro mal.
MAY- Cheiras.
EDDIE- Estive dias ao volante.
MAY- Os teus dedos cheiram mal.
EDDIE- A cavalo.
MAY- A rata.
EDDIE- Então, May.
MAY- Cheiram mal, cheiram a dinheiro.
EDDIE- Não vamos começar com essas merdas.
MAY- A rata limpa. Muito limpa.
EDDIE- Sim, está bem.
MAY- Tu sabes que é verdade.
EDDIE- Vim para ver se estavas bem.
MAY- Eu não preciso de ti!
EDDIE- Está bem. (volta-se para sair, pega na luva e na correia) Muito bem.
MAY- Não te vás embora!
EDDIE- Vou-me embora.
(Ele sai pela porta da direita, batendo com ela com toda a força; a porta ressoa.)
MAY (com um grito de angústia) Não te vás embora!
(...)
EDDIE- O que é que eu faço? Hum? O que é que eu vou fazer?
MAY- Tu sabes.
EDDIE- O quê?
MAY- Vais apagar-me da tua vida.
EDDIE- De que é que tu estás a falar?
MAY- Vais apagar-me ou já me apagaste da tua vida.
EDDIE- Porque é que eu havia de querer isso? Estás parva?
MAY- Porque eu estou a atrapalhar.
EDDIE- Não sejas estúpida.
MAY- Sou mais esperta do que tu e tu sabes. Sei adivinhar os teus pensamentos mesmo antes de tu os pensares.
(Eddie vai ao longo da parede até ao canto superior direito. May mantém-se no seu lugar no canto oposto.)
EDDIE- Estou a tentar cuidar de ti. Percebes, May?
MAY- Não, não estás. Tu sentes-te é culpado. Culpado e cobarde.
EDDIE- Fantástico.
(...)
MAY (calmamente, permanecendo no seu canto) Eu vou matá-la, sabes?
EDDIE- A quem?
MAY- A quem...
EDDIE- Não fales assim.
(...)
MAY- Vou. Vou matá-la a ela e depois mato-te a ti. Metodicamente. Com facas afiadas. Com duas facas diferentes. Uma para ela e outra para ti. (bate com o cotovelo contra a parede. A parede ressoa) Para que o sangue não se misture. Mas a ela torturo-a primeiro. A ti não. A ti vou esperar que estejas dentro de mim. Talvez no meio de um beijo. Exactamente quando tu julgares que está tudo bem outra vez. Exactamente no momento em que tu tiveres a certeza que me conseguiste dar a volta. É então que tu morres.
(...)
EDDIE- Eu vim aqui para te buscar! O que é que se passa contigo? Fiz este caminho todo para te vir buscar! Achas que eu fazia isso se não te amasse? Achas? Aquela cabra não significa nada para mim! Nada. A única razão por que eu estou aqui és tu.
MAY- Eu não saio daqui, Eddie.
(...)
EDDIE- Eu não me vou embora. Já não me importo com o que tu pensas. Não me importo com o que tu sentes. Nada disso é importante. Eu não me vou embora. Vou ficar aqui. Não me importo que entrem dúzias de "amigos" por aquela porta. Vou enfrentá-los um a um. Não me importo que odeies a minha maneira de ser. Não me importo que detestes olhar para mim, ouvir a minha voz ou sentir o meu cheiro. Vou ficar aqui para sempre. Nunca te hás-de ver livre de mim. Nem nunca hás-de conseguir fugir de mim. Eu hei-de encontrar-te estejas tu onde estiveres. Sei exactamente como funciona a tua cabeça. Acertei sempre. Acertei todas as vezes.
MAY- Tens de acabar com isto, Eddie.
EDDIE- Eu não vou acabar com nada!
(Pausa.)
MAY (calma) Muito bem. Ouve. Eu já não percebo a tua cabeça. A sério, não percebo. Agora precisas desesperadamente de mim. Agora não podes viver sem mim. Agora fazias tudo por mi. Porque é que eu hei-de acreditar desta vez?
EDDIE- Porque é verdade.
MAY- Mas também era verdade todas as outras vezes. Todas as outras vezes. Agora volta a ser verdade. Há quinze anos que tu me tratas como se eu fosse uma coisa. Há quinze anos que eu tenho sido um yo-yo nas tuas mãos. Eu nunca te menti. Nunca fiz jogo duplo contigo. Ou te amava ou não te amava. E agora, pura e simplesmente, não te amo. Estás a perceber? Percebes? Não te amo. Não preciso de ti. Não te quero. Estás a perceber? E se agora ainda aguentas ficar, é porque estás louco ou não passas de um pobre diabo.
(...)
(Eddie e May encontram-se no centro do palco. Abraçam-se. Beijam-se ternamente. As luzes de uns faróis cruzam de repente o cenário, vindas novamente do fundo à esquerda, entram pela janela, varrem o cenário e depois desaparecem fora de cena à direita. Ouve-se o som de uma colisão forte, vidros partidos, uma explosão. A luz brilhante, alaranjada e azul, de um fogo de gasolina ilumina de repente a janela ao fundo. Depois ouve-se o som de cavalos a relinchar selvaticamente, de cascos a galopar sobre o pavimento, o som vai desaparecendo, por fim o silêcio total. (...) Durante isto tudo Eddie e May continuam agarrados um ao outro. Ninguém se mexe. Depois Martin levanta-se, vai até à janela ao fundo, olha através das persianas. Pausa.)
MARTIN (ao fundo, junto da janela, olhando lá para fora para as chamas) O carro que está lá fora com o atrelado para cavalos é teu?
EDDIE (continua com May) É.
MARTIN- Está a arder.
EDDIE- Está.
MARTIN- Os cavalos soltaram-se e fugiram.
EDDIE (afasta-se de May) Já calculava.
MAY- Eddie...
EDDIE (para May) Vou só lá fora ver o que é que se passa. Eu tenho pelo menos de ver o que é que se passa ou não?
MAY- O que é que interessa?
EDDIE- Não posso deixar que ela faça isto e se ponha a andar. Não achas que eu tenho de fazer qualquer coisa? (vai em direcção à porta da direita) Não me demoro nada.
MAY- Eddie...
EDDIE- Não me demoro nada. Vou só ver o que se passa e volto já. Está bem?
(...)
MAY- Ele foi-se embora.
MARTIN- Ele disse que voltava já.
MAY (Pausa) Foi-se embora.
(Sam Shepard- LOUCOS POR AMOR)
Inicia-se hoje, aqui no Abismo, a semana dedicada ao Teatro (edição de Fevereiro). Semana esta que, relativamente ao mês anterior, se vai prolongar por mais um dia, pelo que a apresentação de excertos de peças se verificará até Sábado.
Relativamente aos autores/dramaturgos vamos ter: Sarah Kane (Inglaterra), Sam Shepard (EUA), Albert Camus (França), Irmãos Presniakov (Rússia), Jean-Luc Lagarce (França) e Pier Paolo Pasolini (Itália).
Inicio a semana com Sarah Kane. A dramaturga nasceu em Londres em 1971, suicidando-se a 20 de Fevereiro de 1999. Escreveu cinco peças todas elas representadas em Inglaterra, mas não só. São elas: Blasted (Ruínas- estreia 1995), Phaedra's Love (O Amor de Fedra- estreia 1996), Cleansed (Purificados- estreia 1998), Crave (Falta- estreia 1998) e 4:48 Psychosis(4:48 Psicose- estreia 2000).
Relativamente à peça escolhida- "O Amor de Fedra"- para edição, foi lida publicamente pela 1ª vez n'a Capital, pelos Artistas Unidos, a 6 de Dezembro de 2000. Quanto à estreia: Centro Cultural de Belém e Teatro Taborda (Lisboa) em 2004 pelos mesmos Artistas Unidos.
Passemos ao excerto:

Um palácio real.
Hipólito está sentado num quarto, às escuras, a ver televisão. Está espojado num sofá, rodeado de brinquedos electrónicos caros, pacotes vazios de aperitivos e doces. Espalhadas pelo chão do quarto, peúgas usadas e roupa interior.
Come um hambúrguer, os olhos fixos na luz tremeluzente de um filme de Hollywood.
Funga.
Sente a aproximação de um espirro e esfrega o nariz para o evitar.
A irritação continua.
Olha à volta do quarto e pega numa peúga.
Examina-a cuidadosamente e assoa-se a ela.
Atira a meia para o chão e continua a comer o hambúrguer. O filme fica particularmente violento.
Hipólito assiste imperturbavelmente.
Pega noutra meia, examina-a e atira-a fora.
Pega noutra, examina-a e decide que serve.
Põe o pénis dentro da meia e masturba-se até se vir sem uma centelha de prazer.
Tira a meia e atira-a para o chão.
Começa a comer outro hambúrguer.
MÉDICO-Está deprimido.
FEDRA- Eu sei.
MÉDICO- Ele devia mudar de dieta. Não pode viver de hambúrgueres e manteiga de amendoim.
FEDRA- Eu sei.
MÉDICO- E lavar a roupa de vez em quando. Cheira mal.
FEDRA- Eu sei. Fui eu que lhe disse isso.
MÉDICO- O que é que ele faz durante o dia?
FEDRA- Dorme.
MÉDICO- Quando se levanta.
FEDRA- Vê filmes. E faz sexo.
MÉDICO- Ele sai?
FEDRA- Não. Telefona a pessoas. Elas aparecem. Fazem sexo e depois vão-se embora.
MÉDICO- Mulheres?
FEDRA- O Hipólito não tem nada de maricas.
MÉDICO- Ele devia arrumar o quarto e fazer algum exercício.
(...)
MÉDICO- Ele faz sexo consigo?
FEDRA- Desculpe?
MÉDICO- Ele faz sexo consigo?
FEDRA- Sou madrasta dele. Somos da família real.
(...)
Estrofe a trabalhar.
Fedra entra.
ESTROFE- Mãe.
FEDRA- Vai-te embora desaparece não me toques não fales comigo fica comigo.
ESTROFE- O que é que se passa?
FEDRA- Nada. Nada mesmo.
ESTROFE- Estou a ver.
FEDRA- Já alguma vez pensaste, pensaste que o teu coração se ia partir?
ESTROFE- Não.
FEDRA- Desejaste rasgar o peito arrancá-lo de lá para parar a dor?
ESTROFE- Isso matava-te.
FEDRA- Isto está a matar-me.
ESTROFE- Não. Só parece.
FEDRA- Uma lança no meu flanco, a arder.
ESTROFE- Hipólito.
FEDRA (Grita.)
ESTROFE- Estas apaixonada por ele.
FEDRA (Ri-se histericamente.) O que é que estás a dizer?
ESTROFE- Obsecada.
FEDRA- Não.
ESTROFE (Olha para ela.)
FEDRA- É assim tão óbvio?
ESTROFE- Sou tua filha.
(...)
FEDRA- Sinto-o através das paredes. Pressinto-o. Sinto o coração dele a bater a uma milha de distância. (...) Há uma coisa entre nós, uma coisa impressionante como a merda, sentes? Queima. Destinados. Nós. Destinados.
ESTROFE- Não.
FEDRA- A ficar juntos.
ESTROFE- Ele é vinte anos mais novo que tu.
FEDRA- Quero trepar para dentro dele, trazê-lo para o mundo.
ESTROFE- Isso não é saudável.
FEDRA- Ele não é meu filho.
ESTROFE- Estás casada com o pai dele.
FEDRA- Não vai voltar, anda ocupado de mais a ser inútil.
ESTROFE- Mãe. Se alguém descobre.
FEDRA- Não posso negar uma coisa tão grande.

Hipólito vê televisão com o som muito baixo. (...)
Fedra entra com vários presentes embrulhados. Pára, por uns momentos, a observá-lo. Ele não olha para ela. (...)
Hipólito não pára de ver televisão.
Fedra liga uma luz mais forte.
HIPÓLITO- Quando é que foi a última vez que deste uma foda?
FEDRA- Isso não é pergunta que se faça à tua madrasta.
HIPÓLITO- Então não foi o Teseu. Não me parece que ele a mantenha enxuta também.
FEDRA- Gostava que lhe chamasses pai.
(...)
HIPÓLITO- O que é que se passa contigo?
FEDRA- O que é que queres dizer?
HIPÓLITO- Nasci no meio desta merda, tu casaste com ela. Ele era uma boa foda? Deve ter sido isso foda-se. Toda a gente a cheirar-te a cona e tu escolheste Teseu, um homem do povo, que punheteiro.
FEDRA- Só falas comigo sobre sexo.
HIPÓLITO- É o que mais me interessa.
FEDRA- Pensei que odiasses.
HIPÓLITO- Odeio pessoas.
FEDRA- Elas não te odeiam.
HIPÓLITO- Não. Oferecem-me ninharias.
FEDRA- Eu queria dizer -
HIPÓLITO- Eu sei o que querias dizer. Tens razão. As mulheres acha-me mais atraente desde que fiquei gordo. Acham que eu devo ter um segredo.
(Assoa o nariz numa meia e atira-a fora.)
FEDRA (Não reage.) Olham fixamente um para o outro. HIPÓLITO- Por que é que não vais falar com a Estrofe, ela é tua filha, eu não. Porquê toda esta preocupação comigo? FEDRA- Amo-te. Silêncio. HIPÓLITO- Porquê? FEDRA- És difícil. Temperamental, cínico, amargo, gordo, decadente, mimado. Passas o dia na cama, vês televisão à noite, arrastas-te pela casa com o sono nos olhos e não tens um pensamento para ninguém. Sofres. Eu adoro-te. HIPÓLITO- Não é muito lógico. FEDRA- O amor não é lógico. (...) Olham os dois fixamente para a televisão. HIPÓLITO- Pronto. Acabou-se o mistério. Silêncio. FEDRA- Vais ficar com ciúmes? HIPÓLITO- De quê? FEDRA- Quando o teu pai voltar. HIPÓLITO- O que é que isso tem a ver comigo? FEDRA- Nunca tinha sido infiel. (...) Só o fiz porque estou apaixonada por ti. HIPÓLITO- Não estejas. Não gosto disso.
Hipólito desvia o olhar.
Finalmente, Fedra chega-se a Hipólito.
Ele não olha para ela.
Desaperta-lhe as calças e faz sexo oral.
Ele olha para o ecrã durante todo o tempo e come os doces.
Quando está quase a vir-se emite um som.
Fedra começa a afastar a cabeça - ele agarra-lhe na cabeça e vem-se na boca dela sem tirar os olhos da televisão.
Liberta a cabeça dela.
Fedra senta-se e olha para a televisão.
Um longo silêncio, perturbado apenas pelo barulho do saco de doces de Hipólito.
Fedra chora
(Sarah Kane- O AMOR DE FEDRA. Fotografias resultantes de representações pelos Artistas Unidos)
Esta peça foi recuperada e adaptada pela autora a partir dos autores clássicos (ex: Eurípedes), à semelhança do que vinha sendo feito ao longo dos tempos por outros dramaturgos. Sarah deu-lhe o seu toque muito especial, transformando-a em mais uma peça muito polémica, bem ao estilo dos seus trabalhos.
Registo que numa próxima semana de Teatro, outras versões da peça serão aqui trazidas para que, para vós, possa servir de ponto de comparação ou mesmo de complemento aos conteúdos agora editados.

(Fotografia de Christopher Voelker)
És a vida e a morte.
Vieste de Março
para a terra nua -
e dura ainda o teu arrepio.
Sangue de Primavera
anémona ou nuvem-
o teu passo leve
violou a terra.
Recomeça a dor.
O teu passo leve
reabriu a dor.
Estava fria a terra
debaixo do triste céu,
imóvel e fechada
num sonho tórpido,
como quem já não sofre.
Também o gelo era doce
dentro do coração profundo.
Entre a vida e a morte
a esperança calava-se.
Agora tudo o que vive
tem voz e sangue.
Agora a terra e o céu
são um arrepio forte,
torce-os a esperança,
transtorna-os a manhã,
submerge-os o teu passo,
o teu hálito de aurora.
Sangue de Primavera,
toda a terra treme
dum tremor antigo.
Reabriste a dor.
És a vida e a morte.
Sobre a terra nua
passaste leve
como andorinha ou nuvem,
e a torrente do coração
reanimou-se e jorra
e espelha-se no céu
e reflecte as coisas -
e as coisas, no céu e no coração
sofrem e contorcem-se
à tua espera.
É a manhã, é a aurora,
sangue de Primavera,
tu violaste a terra.
A esperança torce-se,
e espera-te e chama-te.
És a vida e a morte.
O teu passo é leve.
(Cesare Pavese- VIRÁ A MORTE E TERÁ OS TEUS OLHOS)

(Fotografia de Philippe Pache)
Lá no alto, num ramo firme
arqueia-se uma gralha negra toda molhada
arranjando e voltando a arranjar as penas à chuva.
Não espero qualquer milagre
nem nada
que venha lançar fogo à paisagem
no interior dos meus olhos, nem procuro
mais no tempo inconstante qualquer desígnio,
mas deixo as folhas manchadas cair conforme caem,
sem cerimónia ou maravilha.
Embora - admito-o- deseje
ocasionalmente alguma resposta
do céu mudo, não posso honestamente queixar-me:
uma certa luz pode ainda
surgir incadescente
da mesa da cozinha ou da cadeira
como se um fogo celestial tornasse
seu, de um instante para outro, os mais estranhos objectos,
assim consagrando um intervalo
de outro modo inconsequente
para nos dar grandeza e glória,
ou até amor. De qualquer modo, caminho agora
atenta (pois isso poderia acontecer mesmo nesta
paisagem triste e arruinada); descrente,
mas astuta, ignorante
de que um anjo se decida a resplandecer
repentinamente a meu lado. Apenas sei que uma gralha
ordenando as suas penas negras pode brilhar
de tal maneira que prenda a minha atenção, erga
as minhas pálpebras, e conceda
um breve repouso com medo
de uma neutralidade total. Com sorte,
viajando teimosamente por esta estação
de fadiga, acabarei
por juntar um conjunto
de coisas. Os milagres acontecem
se gostares de invocar aqueles espasmódicos
gestos de luminosos milagres. A espera recomeçou de novo,
a longa espera pelo anjo,
por essa rara, fortuita visita.
(Sylvia Plath-PELA ÁGUA)

(Fotografia de William Ropp)
Os loucos não têm prazer em lugares opostos
aos lugares escolhidos pelo senhor Johannes,
proprietário de uma joalharia, e com uma percentagem
de dez por cento num outro negócio, não muito claro, mas rentável.
O corpo dos loucos, a sua pele,
sejamos mesmo óbvios: o seu pénis, a vagina das loucas,
nenhum destes conhecidos órgãos funciona em sentido contrário
ao dos ponteiros do relógio
da casa de família.
Os loucos vêem paisagens diferentes, mas fazendo as contas:
têm dois olhos, dois sistemas correctos
de ver esse mundo errado
que é o deles, o dos loucos. Mas no prazer e no sofrimento
as diferenças são poucas ou nenhumas, repito:
não há sítios sexuais misteriosos no corpo da mulher louca
que grita pela rua pedindo um garfo.
Dêem-lhe o garfo, mas não a julguem completamente parva.
(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)
Pois continuem a acompanhar os pensamentos/lembranças de Y. Pois continuem a respirar a intensidade do que por ai vem (na sequência do que já foi). Pois continuem a vibrar com tudo. Pois continuem...
Pois...
O TEU CÃO

Vou falar-te de ti. Vou contar-te a tua história. Vou contar-te a história que me contaste sobre ti e a história que escrevemos juntos. Eu comecei por escrevê-la onde ela terminou. Comecei pelo fim. Já antes havia dito a razão; os porquês.
Todos os dias, pelo fim da tarde regresso a casa. É raro ter de ir a algum lado, e fazer compras é uma necessidade de última importância. Também não tenho aquilo que se pode chamar vida social e muito menos, agitada. Já me basta a agitação social durante o dia de trabalho; uma agitação forçada e insuportável pois cada vez tenho maior vontade de mandar tudo e todos para o Diabo e refugiar-me em casa. Esconder-me, enterrar a cabeça na almofada e chorar ou simplesmente, ficar uma tarde inteira no nosso jardim a brincar com o teu cão. Ele ainda é teu. Mais teu do que meu. E nem eu nem o cão fomos os mesmos desde então. Acredita. Mas ele mantém-se vivo. Apesar de tudo... sou tão forte como o teu cão. E ele mantém-se fiel a ti. Sou igual ao teu cão...
Pelo entardecer, quando regresso a casa, nunca venho pelo mesmo caminho. E para lá, de manhãzinha, é semelhante. As pessoas conhecem-me ao passar mas eu vario nas caras que vejo. Faço das caras a mesma coisa que faço com os caminhos. A mim parecem-me díspares, e eu tento não ser, ainda que por segundos, o mesmo homem na mesma estrada.
Assim que meto o pé em território nosso, território tão sagrado, o cão salta para cima de mim com aquele desânimo desesperante de querer encontrar-te, escondida e pequenina dentro de algum bolso da minha roupa; com aquele desânimo desesperante certo de que, embora lhe tenhas parecido uma fada, jamais tiveste o formato de um gnomo... e fareja-me, fareja-me muito, provavelmente pensando, com espécie de ciúme. Estiveste com ela e não queres dizer-me? Sabes onde ela está e não me dizes? Sabes onde ela se esconde e não ma trazes... E depois... ainda mais desanimado, retirando o seu focinho para fora do bolso do meu casaco, metendo o seu rabinho entre pernas, afasta-se lentamente para junto da tua espreguiçadeira; aquela onde passaste muitas tardes de Primavera a ler, e ao lado da qual o teu cão se deitava, na relva fofa e aquecida pelo calor do sol. Ele seguia-te para toda a parte. Nunca perdia uma oportunidade de se deitar ou sentar ao teu lado. Esperava-te. Ainda te espera. Sou igual ao teu cão...
Trato do cão, que espera pacientemente pela comida, com o focinho pousado em cima das patas cruzadas que se estendem na relva fresca destes dias de Novembro. Dou-lhe algumas festas na cabeça, e falo com ele durante um bom bocado enquanto as minhas mãos continuam a afagar-lhe o pêlo farfalhudo. E esse momento parece-me ser bom. Ele é o único com quem falo acerca de nós dois. E é com ele que falo mais acerca de tudo em geral. Porque a ti que me conheces bem, não pareço ser uma pessoa fechada. Mas tu sabes qual a verdade. Houve sempre essa certeza desde inicio.
E eu volto para dentro de casa. Esfrego as mãos uma na outra e noto, com algum pesar, que as noites começam a ser verdadeiramente frias.
Deixo a porta das traseiras aberta. Tu detestavas que o cão dormisse na casota de cão porque para ti ele não era um cão; era um cão filho adoptivo ou algo do género que, inicialmente não entendi muito bem. E continuo a penetrar dentro de casa e a meditar nestas coisas que me dizias. Tinhas muita piada quando te debatias, perdida em discursos pela defesa dos inocentes, dos desfavorecidos, dos miseráveis. E gesticulavas que te fartavas. Querias exprimir-te de todas as maneiras possíveis para me convenceres que os teus ideais estavam correctos. E era fácil convenceres as massas, já que o teu único público era eu e o teu cão. E ainda que não concordássemos, eu com as tuas ideias, e o cão com os teus gestos, tu saías sempre triunfante. Gostava de te ver feliz. Ainda gosto de te ver feliz.
Chego ao mesmo sítio onde te encontro, melhor e mais perto. E isto é assim todos os dias. A tua cadeira, a tua secretária. As coisas que escrevias e que chegaram a irritar-me uma vez ou outra, devido à sua negra e pesada tristeza; pois se por um lado eras alegre, feliz e segura de ti, sabendo bem aquilo que querias, noutros momentos eras a infelicidade e agonia em pessoa. E caías tantas vezes na confusão de um círculo vicioso, que eu questionava-me infindáveis vezes se tu sabias realmente aquilo que querias.
Era a tal locomotiva. A tal locomotiva que teimava com o fim de linha; que teimava em descarrilar de vez em quando. E eu sento-me aqui nestes fins de tarde e passo as mãos pela superfície de madeira maciça resistente da tua secretária. E vejo-te nua a avançar para mim metida dentro desse teu sorriso malicioso e olhar de raposa matreira. Vejo-te e sinto-te; as mãos a apoiarem-se nos meus ombros e através de uma força maior, não pelos braços mas pelo olhar que fazias, levarem o meu corpo a mover-se precisamente para onde o querias. E deitada em cima da secretária, numa posição muito oferecida e desavergonhada, dizias. Fode-me. Não dizias mais nada. Gritavas. Gemias. E mais nada.
A primeira vez que me fizeste isso fiquei completamente doido mas sem saber o que fazer. Não sabia se havia de avançar para ti com violência e explodir no teu corpo todo o desejo que me provocavas, se entrar na tua brincadeira, no teu jogo e esforçar-me por não te levar a sério. Era por essa razão que me metias doido. Por me fazeres hesitar entre a fragilidade do teu corpo e a provocação dos teus olhos.
(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Naushér Benaji)
O próximo capítulo será editado dia 13, Domingo.
"ATÉ DOÍA"

O Alexandre foi o primeiro. Era meu primo... afastado! Não faça essa cara!...
Eu tinha dezoito aninhos e estava de férias da faculdade que na verdade estava fechada, ou sem aulas, ou lá o que era aquilo que se passava. O Alexandre veio de visita no Verão de 74. Morava na Suiça, os meus tios tinham emigrado antes da revolução e deram-se bem por lá. Eram os únicos da família que tinham mesmo dinheiro. Nós, era só fachada...
O Alexandre naquela altura era uma personagem quase mítica para mim. Eu não o conhecia, mas já ouvira tudo acerca dele. Das infindáveis namoradas, da pizzaria que abrira e fechara, do sótão onde vivia independente por cima dos pais, da mota...
Ele tinha uma mota fantástica, daquelas que só um emigrante compraria, mas que não havia por cá na altura e que davam imenso nas vistas... não me lembro do nome daquilo, mas era uma máquina linda...
Foi de mota que ele veio naquele Verão. Atravessou a Europa montado nela e tornou-se no meu herói instantâneo. Eu nunca tinha saído daqui, e Portugal para mim era basicamente entre Cascais e Lisboa, passando pelo Estoril... fino, não era?
Foi um grande Verão aquele. O Alexandre era para vir por um mês. Ficou três.
Logo no primeiro dia perguntou-me, tu é que és pintor? Mostra lá essas merdas.
E eu tremia. Mal me tinha nas pernas a pensar que se calhar ele achava mesmo os meus quadros uma merda... que eram!... mas não. Espalhou-os pelo meu quarto e ficou a vê-los. Depois olhou para mim. Olhou-me nos olhos, eu com os joelhos em manteiga, e perguntou, queres pintar-me?


Nos primeiros dias ele saía sozinho. Ia à praia, à discoteca, e nem sequer me perguntava se eu queria ir. Mas também os meus pais tinham-me debaixo de cerco, não fosse eu sair com os freaks da faculdade que andavam de comício em comício e por tudo o que era manifestação nesse Verão. O Alexandre parecia que era a única pessoa em férias neste país. Todos os outros estavam a lutar pelo futuro da nação e a cantar canções de protesto.
Uma tarde eu estava no jardim quando ele se montou na moto para sair. Queres vir miúdo?, perguntou-me.
Aonde vais?
Queres vir? Ou sim ou sopas...
Eu disse que sim.
Pôs-me o capacete e eu montei-me na moto atrás dele. Disse-me que a melhor maneira de me aguentar era abraçá-lo pela cintura. E eu abracei-o. Saímos de Cascais em direcção a Lisboa, eu com a maior camada de tesão que alguma vez tive. Até doía.
Passámos a ponte que já não era Salazar e eu perguntei aonde vamos? Logo vês, foi a resposta. Eu estava embriagado com tudo. O rio a voar lá em baixo.
Acabámos na Arrábida, às voltas pela serra, e quando o Sol já se estava a pôr chegámos a uma praia. Não havia ninguém por ali, era um Verão esquecido. A revolução ardia mais que o sol.
Vamos ao banho?
Não tenho calções.
E é preciso?
Despiu-se até ficar em cuecas e correu a mergulhar. Eu segui-lhe o exemplo antes que a tesão me voltasse.
Nadámos até o Sol se pôr e quando saímos da água já era de noite. Eu tremia de frio. Ele foi à mota e trouxe uma toalha que tinha num saco.
Secou-me com ela de alto a baixo, devagar, com cuidado, com ternura mesmo. E não disse nada do tesão enorme que me levantava as cuecas molhadas e transparentes enquanto o fazia. Só disse, anda, vamos embora, quando terminou.
Eu chorei nas costas dele, abraçado a ele no regresso a casa. As lágrimas sem secarem dentro do capacete.


No dia seguinte ficámos sozinhos em casa. A minha avó estava com medo da reforma agrária e tinha-lhe dado um treco qualquer. Os meus pais foram acudir e ficámos só os dois. Ele dormiu a manhã toda. Eu pus-me a pintar, só para acalmar os nervos.
A meio da tarde entrou-me em cuecas pelo quarto adentro, olhou-me sem dizer nada e foi-se deitar na cama. Põs-se nu.
Acha que pintei mais alguma coisa nessa tarde?
Foi muito bonito. Ele tratava-me como se eu fosse de loiça. Mesmo depois, mais tarde, quando começou a entrar em mim.
A partir daí falávamos muito. Tínhamos uma catedral de silêncio e murmúrios durante o sexo. Depois ficávamos deitados a suar juntos, a falar, a sonhar em voz alta.
O Alexandre convenceu os meus pais a deixar-me ir. Pôs-me montado atrás dele na mota, com uma tenda de campismo às costas e fomos correr Portugal. Começámos pela Batalha, Tomar, Nazaré e fomos por aí acima até ao Gerês. Cada dia uma eternidade, cada noite...
No Porto entrámos numa manifestação e fez todo o sentido andar pelas ruas infestadas de gente a gritar liberdade. Os meus pais morreriam se soubessem.
Fizemos planos. Ele voltava à Suiça, a terra dos chocolates, dos relógios e da Julie Andrews a cantarolar que os montes estão vivos com o som da música. Voltava a abrir a pizzaria para fazer dinheiro. E no Natal eu ia lá fazer visita, teoricamente. Mas depois já não voltava. Depois ficávamos os dois na pizzaria, entre o queijo e as enchovas. E íamos ser felizes. Íamos ser amantes, amigos e irmãos. Estava decidido.
Foram três meses. Ainda deu para o Alentejo, para o Algarve, Salamanca e Badajoz.
Chorei quando se foi embora. Chorei ainda mais quando soube que tinha morrido num desastre com um camião numa estrada de Espanha.
(Daniel J. Skramesto- OLHOS DE CÃO. Pinturas de Raphael Perez)
Gostaram? Espero sinceramente que sim. Mas espero, sobretudo, que esta semana temática tenha servido de sensibilização para os aspectos que abordei no post inicial, significando isso, um salto qualitativo para o entendimento de tudo aquilo que no seu âmbito está em causa. Obrigada pelo vosso acompanhamento :)
"CONQUISTADA"
Clarissa
Falou-me, então, dele directamente. Sem fingir que era um gajo qualquer. Falou-me dele com rancor. Com uma mágoa clara, que tentava disfarçar, mas que não conseguia. Falou-me dele e eu escutei-a. Porque sei ouvir. Faz parte das minhas qualidades. Não me entusiasmei, claro. Mas ouvi-a com atenção. Interessam-me as feições no seu rosto, a mudança de tom, o olhar e as mãos. As alterações repentinas. Ela estava um pouco bêbada. Não costuma falar muito sobre isto, vê-se. Estabeleceu comigo uma relação de confiança, baseada exclusivamente no facto de não nos conhecermos bem. É tão habitual, mas nunca perde o encanto. Ouvir alguém, falar com alguém, que conhecemos tão pouco. Aquele pequeno olhar que mostra que nos queremos conhecer, que não conseguimos evitar desejar estar com essa pessoa. No final da conversa, talvez ela tenha percebido o que é que eu estou aqui a fazer. Sim, penso que sim. Olhou-me de soslaio, percebeu. De repente, deve ter-lhe passado pela cabeça. É neste momento que as coisas se tornam mais frágeis. É aqui que qualquer movimento em falso pode arremessar tudo para longe. E eu quero esta mulher. Portanto não vou falhar. Vou deixar-me estar no meu canto, enquanto ela se martiriza com os seus pensamentos habituais. Até que, num instante, vai lembrar-se de mim, por qualquer coisa que pensou ou que viu, e vai pensar em mim um pouco mais. Porque já está na dúvida. E essa dúvida vai fazer com que ela me ligue e me procure. A curiosidade vai levá-la até mim várias vezes e de várias formas. Não, não sou convencida. Tenho a certeza do que estou a dizer, senão não o dizia. Elas gostam dessa coisa que lhes dou, essa leveza, essa ausência de penetração. Como se essa ausência significasse um menor risco, ou melhor, como se o facto de eu não ter pénis significasse uma menor invasão da minha parte. Se calhar têm razão, mas escapa-lhes o essencial. Além disso, não é uma coisa que me preocupe muito. Preocupam-me antes as mãos e as costas. Preocupa-me a suavidade e o encanto. Quero fazê-la feliz por uns momentos, dure o tempo que durar. Por isso, ela vem ter comigo mais do que pelo resto. Porque o resto não interessa assim tanto quando se trata de pele.

Está diferente, a minha menina. Está mais leve, menos rancorosa. Sorri para mim e pica-me descaradamente. Eu gosto. Aquela tristeza a descer toda para outro lado. Já lhe expliquei que a minha função é aproveitar-me da miséria dela. Ela ri-se, claro. Não, não é verdade, responde. Diz, eu é que estou claramente a usar-te. Eu rio-me, mas fico a pensar naquilo. De facto, as coisas também podem ser vistas assim. Nunca me tinha ocorrido. Ela insiste: a melhor maneira de não veres o que te acontece é pores-te por cima. E arremata: não penses que comigo vais ficar sempre por cima. A piada sexual tinha de lá estar, claro. É inteligente. Percebo que, afinal, é ainda mais difícil do que imaginei. Isso dá-me ainda mais ponta. Difícil no sentido que não é enquadrável, que me impõe novas estratégias, novos lances. Não é previsível nem monótona. Olho para ela e penso se devo dormir com ela. Se não será um desperdício perder este desafio, este picanço estimulante. Quero, quero muito, mas há qualquer coisa que se vai perder. E não quero o que posso ganhar. Porque não me apetece. Nem me apetece estar ao lado de alguém que acha que já perdeu o grande amor da sua vida. Quero sorrir-lhe e sentir esta coisa no sexo, na barriga, nos olhos.

Era inevitável, parece-me. Teria sido estúpido recuar. Foi inevitável. Telefonou-me, falámos durante um bocado. Depois disse para eu passar por casa dela para beber um café. Disse que sim e fui. Ela ainda não tinha jantado. Estava a fazer o jantar. Sentei-me no banco da cozinha e olhei-a. Tínhamos as duas um sorriso parvo. Ela estava embaraçada. Eu também, mas disfarço melhor. Não sei o que foi. A presença dela, o seu corpo tão perto, o olhar. Tive de agarrá-la. Agarrei-a e beijei-a. Uma, duas, três, muitas vezes. E ela respondia. Com toda a intensidade. A comida a fazer no fogão. Nós a beijarmo-nos durante horas sem parar. Até decidirmos ir para o quarto. Com a pele dela a misturar-se com a minha. Conquistada.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM. Fotografias de Austin Feld)
"É TUDO UM GRANDE MISTÉRIO E UMA GRANDE PROVOCAÇÃO... SOU SIMPLESMENTE"
Eduarda
E porque não? Esta dor não pode ser mais arremediável. Gosto dela quando se ri e me olha em silêncio. Sem nenhum compromisso a não ser a leveza. Finalmente percebi o que está aqui a fazer. Embora não tivesse pensado nisso antes. Os lábios, as mãos, a franqueza. A franqueza estonteante. Não me intimida, mas de certa maneira sim. Ele que se foda. Posso ir para outro lado. Não passar mais de manhã pela porta dele. Posso fazer com que ela me prenda à cama. Fazer com que ela me enevoe o olhar, me deixe cercada pela vontade de a comer. E, nesses instantes, deixar abandonar-me a uma situação desconhecida. Menos fatal, mais bela. A testa dela na minha mão ainda é só um desejo e, de repente, há um clique na minha cabeça que me diz que é possível. Mais possível que ele. Mais possível que uma verdade inabalável. Mais possível que a certeza que não me ias abandonar. Que ele não me ia abandonar. Reparo, então, nas mãos. Parecem-me suaves. Parece-me que ela era capaz de me levar daqui e experimentar esse prazer. Esse prazer que já não sei nomear sem ser sozinha, às escuras no quarto. Conversas sussuradas em sítios públicos. Viagens clandestinas à casa de banho. Expectativas insanas e bem-vindas. Apetece-me. Apetece-me muito. Não me despeço. Não me despeço já. Enfrento as coisas de outra forma. Aponto o dedo firme contra qualquer direcção menos na dela. Faz-me rir. Faz-me rir. E, depois, quero ver o que é embasbacar-me. Voltar a embasbacar-me sem nenhuma explicação, a não ser a alegre satisfação. E porque não? Porque não um beijo doce ? (...)

E, de cada vez que tentavas fugir, eu agarrava-te. Voltavas a ficar em cima de mim. Voltavas a pôr o desejo em marcha. Fiquei viciada na tua pele. Inesperadamente. No teu olhar na cama. Nessa tua incapacidade de dizeres não. Nessa tua vontade de me levares para outro lado, um lado melhor. Com todo o prazer. A tua segurança e a maneira como desvias os olhos quando a conversa se torna mais séria. Olho para ti e pergunto-me o que sou. O que estou aqui a fazer. O que tu me estás a fazer. Há mais de um ano que não sei nada disto. Que não sei quando esconder as minhas coisas, o meu ser. Quando mostrar. Mas tu és uma mulher e tudo parece diferente. Dizes que estás numa ordem diferente do resto, que já nada se encaixa aqui. Queres dar-me palavras novas. Eu aceito-as, porque tu me dás contentamento. Porque me puxas e eu vou. Porque se soltam as coisas cá dentro e eu vibro. Pasmas-me. Pasmo-me. E tudo se mistura no prazer. Não quero sair do quarto. Não quero sair do teu corpo. Quero ficar aqui e quero que estejas comigo. É maravilhoso. De onde isto surgiu? Esta capacidade de renovação que não sabia possível. Este leve esquecimento de tudo o que me atormentou e, por certo, ainda me atormenta. Para onde me levas?

Deixas-me um pouco atrapalhada, apesar de tudo. Essa tua tendência para a megalomania faz-me sorrir. A vontade de seres a melhor. Sinto a pressão do desconhecido, mas começo a saber por onde me levar. Não foi preciso ir muito longe, parece-me. Tudo isto me é familiar. Ainda estou confusa, apesar de contente. Ponho-me a olhar para a parede e penso nele. Mas tu vens-me buscar a esse sítio e fazes como se não fosse nada. Mas eu sei que sabes, porque eu leio o teu pensamento e sei que lês o meu. É tudo um grande mistério e uma grande provocação. A maior parte das vezes esqueço-me de tudo. Dele. Mas, principalmente, se sou mulher, se és mulher. Sou simplesmente. E depois tento lembrar-me e fico contente. Fico contente por ser mulher e por tu também seres. Começo a ver outros tons entre o preto e o branco. Começo a achar que nem tudo é garantido que permaneça por um dia termos acreditado que sim. Fico feliz, mas também desorientada, porque queria ter alguma coisa firme. Algo perene, que não se esvaísse nas minhas mãos sempre que as coisas se tornam mais frágeis. Vou, no entanto, saboreando estes momentos. Porque sim, porque me escapas e me atrais.
Nenhuma de nós confessa, mas estamos atrapalhadas. Atrapalhadas, depois do amor, atrapalhadas nas palavras que se devem dizer. Que se querem e não se querem dizer. Atrapalhadas. Não sabes bem onde pôr as tuas mãos ao dormir. Uns minutos antes de adormeceres, quando já estás mesmo quase, quase a dormir, deixas de ficar atrapalhada. Abraças-me por completo. Pões a tua perna por cima das minhas. Eu rio-me. Quer dizer que sou tua? E falas, dizes coisas, baixinho, que não entendo. Eu beijo-te. E tu sorris. Quando estou contigo assim, sinto-me maravilhada. Não compreendo o que me está a acontecer e apetece-me ficar para sempre assim. Dás-me novas direcções, mas tu própria pareces não conhecê-las. E penso que nada será alguma vez comparável a isto, aconteça o que acontecer. (...) Pergunto-me porquê. Se serás tu, com essa tua generosidade mascarada de pretensão. Se será este momento, com o renascer para o amor, o fim da dor. Se será por seres mulher, com toda a novidade e surpresa que isso implica. Pergunto-me. E não chego a nenhuma conclusão.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM. Fotografias de Austin Feld, Igor Amelkovich e Giuseppe Sarcinella, respectivamente)
"... FOI A COISA MAIS PARECIDA COM AMOR QUE ME ACONTECEU NA VIDA"

Chegou-se à janela, encostou-se ao parapeito baixo, entre as namoradeiras, marcas de antigas pudicícias. (...)
Tentou afastar o pensamento dessa época em que fora mais feliz que nunca, sem razão talvez, porque não tinha então nada que agora não tivesse, a não ser talvez a esperança. Ergueu os olhos para as montanhas ao fundo, e suspirou. (...)
Suspirou de novo e apoiou-se mais no parapeito, o tronco inclinado quase em ângulo recto. Sentiu passos mas não se virou, concentrando-se na paisagem como se tentasse prendê-la toda no olhar, captá-la para a levar consigo para onde quer que fosse, fazer das suas memórias mais que uma sombra difusa que só ali, naquele lugar, parecia tornar-se real. Sentiu que se aproximava e se lhe encostava de forma pouco habitual, em bicos de pés quase, era imaginação ou sentia por baixo do linho grosso um botão que ameaçava tornar-se alguma coisa mais, ou sugeria...
- Que estás a fazer?
- Nada, gostava só de te ver gemer, achas que consigo?
Cumprimiu-o contra o parapeito, insinuou-se entre as nádegas, roçou-se um pouco por puro gozo e pressionou, mais e um pouco mais...
- Está quieta, pareces parva! O que é que queres provar, desta vez?
- (...) mas qual é o mal? Achas que é assédio? Violência psicológica? Afinal sou uma mulher, nada mais normal, só se for por isso... é preconceito? Até aposto que não te estava a saber mal de todo...
- Não tem nada a ver, é só isso, sabes perfeitamente que não é preconceito, andei com gajas muito tempo mas agora não me interessa, pronto! E muito menos dessa maneira, se não reagi logo é porque estava a pensar noutras coisas, noutros tempos...
- (...) Mas pronto, deixa lá, esquece, prometo que não te chateio mais, foi só uma vontade que me deu, estavas tão a jeito... Em que estavas a pensar, diz lá, era no Rodrigo, não era? Ainda não te passou?
- Nem passa, podes crer, foi a coisa mais parecida com amor que me aconteceu na vida, tirando talvez uma história de puto, que não deu em nada nem criou raízes... Não consigo esquecê-lo, sobretudo quando estamos aqui, devo ser masoquista porque só quero voltar aqui, é o único sítio em que consigo ver a cara dele com nitidez, os olhos muito azuis e a cicatriz pequenina no canto da boca... Acreditas que aqui consigo sentir o cheiro dele, o cheiro a mar e a chuva no meio dos pinheiros, que consigo ouvir a voz dele...

Nos olhos de António brilhavam lágrimas que conseguia já reter, não como no princípio quando a simples lembrança de Rodrigo o fazia chorar a ponto de ter que se esconder, fugir para a casa de banho; afinal um homem não chora, muito menos o arquitecto Tavares, ainda para mais no atelier ou em reunião com clientes... António nunca assumira a sua homossexualidade a não ser em meios muito restritos, com os amigos ou em meios de ocasião em que o implícito imperava, gente que tinha necessidade de se dar a conhecer mas não queria fornecer argumentos para a crucificação pública (...).
- Tenho tantas saudades do Rodrigo, Ana, mesmo tantas...
- Saudades porquê, ainda anteontem se foi embora, estiveste três dias inteirinhos com ele! E pelo que se ouvia do lado de lá da casa, não estiveste mal de todo... Conta lá!
- Não, nesse aspecto é a melhor cama que já tive, sei lá, é a liberdade total, não há horas nem regras, outro dia tenho a impressão que nem dormimos, mas não é isso, acho que até devia evitar estar com ele, envenena-me pensar que não o tenho sempre, fico com vontade de o manter colado a mim... Um dia destes queixou-se que quase sufocava, estive não sei quanto tempo abraçado a ele, a apertá-lo e a sentir o meu peso cada vez maior nas costas dele, queria entrar por ele dentro e nunca mais sair, esmagá-lo até sermos só um... Tu não percebes! (...) Mas o Rodrigo, sabes, é diferente, mexe comigo de uma maneira que não estou habituado, faz-me desconfiado, estou com ele e sinto o cheiro dos outros, juro-te que é verdade, o cheiro de todos com quem ele esteve, misturado com aquele perfume dele, e com o meu cheiro... E nos olhos vejo mais um, sou só mais um... O que pensas que anda ele a fazer quando não está comigo?

- E depois? Achas que se fosses como ele alguém tinha alguma coisa a dizer? O Rodrigo adora-te, se não está contigo a toda a hora é porque tu lhe dás muita seca, comporta-te, não faças isso, não faças aquilo, olha as pessoas a olhar... E claro que se não está contigo tem que estar com mais alguém, o homem não é de pau e aliás era um desperdício! Mesmo que estivesse contigo, quer dizer, se vocês vivessem juntos, não estavas livre de ele filar o gajo mesmo ao lado, se lhe apetecesse, se fosse a altura certa, o Rodrigo é uma alma livre e parece que é mesmo isso que não consegues engolir.
(António Pedro- MAÇAS DE ADÃO. Pinturas de Sebastian Moreno)