janeiro 31, 2005

DAS RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS E LÉSBICAS NA LITERATURA (1)

Ao longo desta semana (até Sexta-feira) serão editados, aqui no Abismo, excertos de obras incidindo sobre relações de carácter homossexual e lésbico.
O meu objectivo com tal abordagem (complementada com pinturas e/ou fotografias que consigo se harmonizem), é fazer ler/incentivar à leitura de trabalhos onde tais realidades surgem, evitando resultar dai (ou contribuindo para pôr fim a) qualquer tipo de complexo ou preconceito, no meu entender, sem qualquer sentido e descontextualizado daquela que deve ser a apreciação global da Literatura, onde compartimentos de natureza variada devem ser cada vez mais diluídos (ainda mais se forem castrantes ou condicionantes das escolhas a fazer/que são feitas), independentemente das/de áreas de focagem. Procuro igualmente tornar possível uma maior familiarização/entendimento natural com/das concepções/formas de envolvimento(s) e formas de expressão entendidos para além do que é maioritariamente aceite e praticável ou mesmo representado artisticamente.
Será também propícia esta semana, se assim o entenderem, para abordagens mais aprofundadas em torno da questão das relações em destaque, servindo os textos, as pinturas e fotografias editados/a editar como ponto de partida para tratamentos de ordem mais geral ou de ordem mais particular, inclusive, fazendo-os relacionar com iniciativas levadas a cabo em Portugal ou no estrangeiro e com discussões levantadas em seu torno.
Para arranque desta nova semana temática, deixo-vos com um escritor e poeta português já falecido. Espero que gostem:


"AQUI TENS AS MINHAS MÃOS"

... Mas, naquele instante em que deixara o seu olhar afundar-se no rapaz, sentia-se estremecer, e desse estremecimento crescia, do fundo de si, um fogo misterioso. Um fogo que Beno jamais suspeitaria existir. Qualquer coisa que até àquele momento se conservara, interdita para ele e que, subitamente, tomava forma, comovia, e o fazia estremecer e sucumbir.
Calado, Beno, pegou no copo e bebeu. Depois como alguém que varre, e cola, os pedaços de um objecto quebrado, sentiu todo o seu corpo comprimir-se e ficar como uma peça única, extraordinária, outra vez inteira. Viva.
Nesse mesmo instante, abriu as mãos e estendeu-as ao rapaz, como se acabasse de regressar da sua própria morte.
Sorriu, ao descobrir que a paixão, seja ela qual for, é efémera também, como ele, como o rapaz sem nome ali sentado, como a vida, e tem de ser partilhada como um dom - sem demora!
- Aqui tens as minhas mãos - disse Beno, lentamente - elas estão sujas de outros corpos e de noites sem felicidade, estão turvas porque ninguém as quer há muito tempo. Têm o sarro e o esperma e o cheiro azedo do sangue incrustados nas unhas. E gastaram-se, mas se as quiseres, mesmo assim, por pouco tempo que seja, pertencem-te... e... - ia continuar, mas o rapaz interrompeu-o.
- Como te chamas? E dás-me um cigarro?
- Chamo-me Beno. Queres lume? E tu, como te chamas?
O rapaz acendeu o cigarro com o fósforo que Beno lhe estendia e depois disse:
- Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti, mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber. Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos. Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui. Pertencia a outra paixão, e já a esqueci. Dá-me tu um nome, para eu poder ficar contigo.
- Se assim o queres, teremos as noites e os dias para nomear a nossa paixão.
- E vais dar-me um nome de planta, de objecto, ou de pássaro?
- Não sei, não sei ainda.
Calaram-se. Beno e o rapaz começavam a estar bêbados. O rapaz encostara o seu corpo ao corpo de Beno. Olhavam-se. O rapaz erguera a mão, aberta, pousando-a com leveza no ombro de Beno.
- Medo de viver? - sussurou o rapaz.
E Beno estremeceu outra vez, mas não disse nada.

A noite vestia-se lentamente de branco. A neve ia estendendo o ligeiro véu sobre a cidade adormecida há muito. Nenhum ruído, tudo estava branco e cintilava.
Beno e o rapaz caminharam, deixando pegadas que segundos depois se apagavam, como se ninguém tivesse alguma vez trilhado aquele caminho. Nevava, e Beno pressentiu que também o rapaz, um dia, se apagaria da sua vida.
Mais tarde, muito mais tarde, talvez se lembrasse das mãos dele sobre as suas, como um ferimento no peito; então desejou que a neve também apagasse esse ferimento ainda distante.
Caminharam, os ombros tocando-se, e, de cada vez que era preciso atravessar uma rua, o rapaz agarrava-se ao braço de Beno. A noite transformara-se num deserto branco, sem um único som, sem o mais pequeno sinal de vida. A cidade dormia a sono solto. Beno sorriu e deu-lhe a mão.
A neve atingira alguns centímetros de espessura e eles deixaram de ouvir o barulho surdo das botas no asfalto. Longe dali, na noite desconhecida de outro bairro, vibrou uma sirene. (...) Entretanto, o silêncio apressara-se a regressar.
Beno metera a chave à porta. O dia rompía, tímido, ou seria apenas a cintilação das luzes da noite libertando-se do coração fresco da neve?

- Senta-te, vou fazer chá para aquecer... - disse Beno, dirigindo-se para a cozinha.
- Beno!
- Sim.
- Vives aqui sozinho?
O rapaz sentara-se na cama e descalçara as botas.
- Porquê? - perguntou Beno, espreitando à porta do quarto.
- Agrada-me este quarto, fico aqui para viver contigo.
Beno voltara à cozinha, deitara água a ferver no bule e esperava que o chá abrisse. Quando regressou ao quarto, o rapaz estava nu, estendido sobre a cama.

Beberam o chá a escaldar e fumaram. O quarto balouçava como um navio, e Beno pôs-se a olhar com minúcia e desejo para o rapaz nu. A pele branca, o cabelo caído para os olhos, escondendo-lhe as pálpebras sonolentas, quase fechadas. Os lábios húmidos de saliva, entreabertos, num início de sorriso. O sexo em repouso, as mãos sobre o peito, as pernas. Outra vez o sexo, os pêlos, os braços e os ombros, a curva do pescoço, os cabelos, o rosto, os olhos fechados, a pele, a pele... Beno não se cansava de olhar. (...)
Beno estava sentado na cama. Por fim, o rapaz apoiou os joelhos nas suas costas e passou-lhe os braços à roda dos ombros. Sentiu todo o seu corpo encostado ao do rapaz, e a sua respiração, e um beijo, no pescoço.
Lentamente, Beno desprendeu-se e, dobrando-se para trás, deitou a cabeça no peito do rapaz. Ouvia-lhe o bater do coração, fechou os olhos e deixou-se ficar, sem se mexer, naquela posição, paralisado e vazio. E, durante um tempo que ele não soube, afastou de si o mundo e todo o pensamento.
A madrugada roçou a janela, clara e fria, misteriosamente branca. Continuava a nevar.
Beno despiu-se. O rapaz puxou-o para si. Beijaram-se e amaram-se sem descanso manhã adiante.

A neve parara de cair, e tudo era silêncio e lassidão, quando desceram à íntima cumplicidade do sono.


(Al Berto- LUNÁRIO. Pinturas de Raphael Perez)

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janeiro 30, 2005

DO SOFRIMENTO E DA FELICIDADE

SOFRIMENTO E CONHECIMENTO

Todo o sofrimento que não seja ao mesmo tempo conhecimento é inútil. Não te esqueças, visto que sofrer é tão penoso. Em vez de sofrer pela vastidão de um desabamento, sofrer pela sua inutilidade. Não há horror que diminua pelo facto de sofrermos bestialmente; é preciso, pelo contrário, fitá-lo com calma e transformar a sua inutilidade em algo de útil, por meio da contemplação.
Resta saber a realidade actual da morte que, abolindo o sujeito suprime também a contemplação. Mas, então, é ainda mais inútil sofrer. Contemplar até ao último momento, sem pestanejar, continua a ser o sistema mais prático.
... Was't drink up eisel? eat a crocodile?*


*(Que se há-de fazer? Comer um crocodilo?)


O SEGREDO DA FELICIDADE

Porque é que as pessoas assumem poses e "armam" em dândis, ou cépticos, ou estóicos, ou ainda "sans-souci"** etc? Porque sentem que há uma superioridade no enfrentar a vida segundo uma força, uma disciplina que podemos impor, pelo menos, aos nossos pensamentos.
É de facto aqui que reside o segredo da felicidade: assumir uma atitude, um estilo, um molde onde vão cair e caldear-se todas as nossas impressões e expressões.
Toda a vida vivida segundo um modelo corrente, compreensivo e vital, é clássica.


**(Descontraídas)


(Cesare Pavese- O OFÍCIO DE VIVER. Fotografias de William Ropp)

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janeiro 29, 2005

"X E Y: A ESTÓRIA"- CAPÍTULO 7

As emoções fortes (gritando sobre a forma de lembranças) continuam na estória da Alexandra. Na estória da autora que, com uma intensidade crescente, se envolve no ser e no sentir de duas personagens. E o respirar de todos num todo é inevitável. É já inevitável. Os três são um. E esse um somos também nós. Individualmente e em colectivo. Simultaneamente. Ora sintam... ou continuem a sentir...

O TÉDIO

Eu quero falar contigo. Mesmo que não me oiças; que já não me oiças. Acredito nisso. Que partiste da tua morte também; e não me ouves, não me vês e não me sentes porque eu nunca mais te senti cá em casa. Nunca mais senti nenhuma espécie de abraço espectral, ou um roçar de ti que eras desde então, uma espécie de aragem, de vento criança recém-nascida que não chora e apenas respira; nem os teus sussurros vindos sem som e unicamente em presença. Eu sentia que eras tu, e somente aquilo que eu sentia contava. Tu também eras assim. A verdade, segundo me dizias vezes intermináveis, era o teu sentir. E para ti, o teu sentir afastava todas as nuvens negras no céu que ameaçava chorar desesperado uma noite inteira, e mostrava-te o caminho a seguir. Era essa a tua verdade e o teu verdadeiro sentir, e foi assim que me amaste. Até ao fim do teu corpo; essa locomotiva de emoções que descarrilavam constantemente. Essa locomotiva que não descansou até chegar ao final da linha e parar, completamente avariada.
Tu, X, tu não nos deixaste qualquer hipótese de consertarmos esse motor que movia tudo à tua volta. Mesmo quando me zangavas. Tu tinhas o poder de me fazer reagir das maneiras mais inesperadas e por vezes patéticas ou violentas; mas todas elas me faziam reagir e essa reacção dizia-me numa palavra gesticulada: tu estás vivo e ela faz-te viver sobre o tédio do tempo e dos dias.
Esse pó chamado tédio, dizias tu, que se instala nas casas de famílias inteiras, cobrindo mobiliário, paredes e candeeiros, instalando-se sobre a mesa onde tomas as tuas refeições todos os dias, e na mesma cadeira de sempre no emprego ou na pastelaria habitual que te serve o mesmo chá, ou o igual café de todos os dias; esse pó chamado tédio, que anda por todos os lados, por toda a parte onde existam pessoas e resíduos de cidade, vestígios de uma vida activa, do chamado stress que não tem outro nome, sim, dizias tu, o stress também tem outro nome!, chama-se tens de ser o mais rápido e o mais forte se quiseres sobreviver. E sobrevives na vida acabando por morrer num tédio que é este tem de ser maquinal de todos os dias. Esse pó chamado tédio, dizias-me, nunca conseguirá instalar-se em nós; na nossa vida. E tinhas razão. Esse pó nunca teve tempo de poisar entre nós. A tua locomotiva emocional, em momentos mais calmos, de cansaço, melancolia ou de criatividade enfraquecida, avançava pelas horas com espírito felino, de gato doméstico que, nem em fases de preguiça aguda, perde a elegância.
Esses momentos susceptíveis ao pó, e a todos os vírus consequência que ele traz debaixo do braço, à maneira de presente de Natal metido dentro da caixa colorida, despertando a tua curiosidade através da sua voz vermelha acesa para abrires uma coisa vazia de nada e cheia de aborrecimento e distância; de silêncio desnecessário. De um silêncio que muitas vezes é a poluição sonora para lá das janelas na nossa casa, ou um silêncio casal que partilha uma vida há demasiado tempo, para que somente as respectivas costas, conversem uma noite de curto descanso. Quando voltam costas ao diálogo infectado pela rotina, porque dizer a mesma palavra todos os dias, no mesmo local à mesma pessoa é previsível. E a previsão moldada pela boca habitual expelindo letras caracóis ao sol, no passeio sobre a relva, aborrece e cansa e destrói vagarosamente. É propositado. Não te apercebes que já foi quando desejas o agora que é tarde demais.
A tua morte é, actualmente, esse tédio que descrevias nas nossas conversas elásticas que esticavam línguas pertencentes a duas bocas, desmesuradamente habituadas uma à outra, para se cansarem na maré do desânimo.
E era assim que nos deitávamos. Numa cama constante que acolhia dois corpos em noites sempre diferentes.
Recordo-me de ti, aninhada em mim, a preguiçar, a preguiçar no conforto quente dos meus braços. Por vezes bocejavas. Arrastavas as palavras acompanhadas de espantosa moleza e dizias. Estou cansada e não me apetece fazer nada. Nada de nada. Só quero ficar aqui nos teus braços para sempre e deixar-me morrer, adormecida, num sonho belo, muito belo e meigo. Sem dor. Sem estar só. Sem estar contigo; longe de ti é a vida solidão e nada mais além disso. Para trás da solidão, e muito dentro de mim, estando longe de ti, só dor e dor e dor. Porque tristeza perante semelhante dor, é uma leve brisa e pena de patinho feio que flutua num lago que reflecte a escuridão e a morte do sol.
E o vento era mão fechada lá fora. Vinha do mar furiosamente, e subia a montanha com passadas de gigante, fechando a sua mão colossal e batendo nos vidros da janela do nosso quarto. Entre cada bocejo teu, de vez em quando davas um pulinho na cama; o teu corpo estremecia de susto, e tu exclamavas, oh!, tenho medo... tenho medo, muito medo. Medo e frio. E eu chamava-te tolinha e patetinha; criança adorável com muito medo e pouca vergonha.

(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Naushér Benaji)

O próximo capítulo será editado Sábado, dia 5 de Fevereiro. Até lá!


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janeiro 28, 2005

DO OBSCENO NA LITERATURA: UMA SEMANA COM HENRY MILLER (5)


(Henry Miller)

E chego agora ao fundo desta tirada aparentemente gratuíta. Pensando como penso, sentindo o que sinto sobre a guerra, eu recusar-me-ia, no entanto, a destruir os livros que tratam do fabrico de material de guerra ou de máquinas de guerra, ou da confecção de gases tóxicos ou da criação de bactérias mortíferas, ou de qualquer outra das invenções diabólicas dos espíritos militares: não destruiria os livros que se ocupam de estratégia ou das regras e convenções que regem a arte da guerra "civilizada". Pelo contrário, gostaria de ver intensificada a distribuição e circulação de toda essa literatura. Desejaria ver informadas sobre estas questões tanto as crianças como os adultos. Faria com que todos os homens, mulheres e crianças de toda a terra se familiarizassem com essas palavras, e as conhecessem tão bem como se pretende que conheçam a Bíblia Sagrada. Iria mais longe ainda. Colocaria a Bíblia numa estante, e, noutra, toda essa literatura homicida. Diria: se olham para uma, têem que olhar também para a outra. Faria uma distinção clara entre o livro onde se ordena que não matemos e todos os outros livros onde a matança dos homens, a matança maciça, é ensinada, explicada, aprovada e exemplificada. Lançaria família contra família, irmão contra irmão, em torno desta questão simples. Recomendar-lhes-ia: ajam de acordo com a vossa consciência. Em breve se decidirá a sorte do mundo: continuará a existir ou deixará de existir. Se são pelo mundo da guerra, alistem-se imediatamente para a guerra! Não nos confundam com a vossa indecisão. Não falem de moral se o vosso objectivo final é colaborar na destruição do nosso mundo.
Entre a Bíblia e os manuais do matadouro, situa-se o mundo da literatura, criado pela paixão, pela sede e pela imaginação do homem, e ocupando-se do pensamento, das acções, dos sonhos e das aspirações do homem. É um mundo extraído da vida, interessado apenas na vida, e que alimenta a vida. Se nele há morte, é só na medida em que lhe falta chama, profundidade, liberdade e capacidade de escolher. Se esse imenso produto da energia criadora fosse uma celebração da morte, não passaria de uma caricatura. (...)
Monstro, robot, escravo, ser maldito - pouco importa o termo utilizado para transmitir a imagem da nossa condição desumanizada. Nunca a condição da humanidade no seu conjunto foi tão ignóbil como hoje. Estamos todos ligados uns aos outros por uma ignominiosa relação de senhor e servo; todos presos no mesmo círculo vicioso entre julgar e ser julgado; todos empenhados em destruir-nos mutuamente quando não conseguimos impor a nossa vontade. Em vez de sentirmos respeito, tolerância, bondade e consideração, para já não falar em amor, uns pelos outros, olhamo-nos com medo, suspeita, ódio, inveja, rivalidade e malevolência. O nosso mundo assenta na falsidade. Seja qual for a direcção em que nos aventuremos, a esfera da actividade humana em que nos embrenhemos, não encontramos senão enganos, fraudes, dissimulações e hipocrisia. (...)
É minha convicção que estamos hoje a atravessar um período a que se poderia chamar de "insensibilidade cósmica", um período em que Deus parece, mais do que nunca, ausente do mundo, e o homem se vê condenado a enfrentar o destino que para si próprio criou. Num momento como este, a questão de saber se um homem é ou não culpado de usar de uma linguagem obscena em livros impressos parece perfeitamente inconsequente. É quase como se eu, ao atravessar um prado, descobrisse uma erva coberta de esterco e, curvando-me para a ervilha obscura, lhe dissesse em tom de admoestação: "Que vergonha!".


(Henry Miller- "A obscenidade na literatura", in O MUNDO DO SEXO E OUTROS TEXTOS)


Ann rola-se para trás e para a frente no divã enquanto eu a acaricio. Oh, o que não pensaria Sam, o que não faria ele, se a visse neste momento! (...) O que não pensaria Sam! Isto é realmente vergonhoso, da sua parte... vir aqui para ser fodida por mim, abandonando o pobre Sam. Devia estar em casa a foder com o marido, em vez de estar aqui a dar-mo... Eu não a desiludo... mas pelos meus cálculos, a estas horas Sam e Alexandra já se deve ter tornado bons amigos.
Ann puxa-me as calças para baixo e entretem-se com os meus pintelhos. Oh, aquele cabelo! Passa os dedos pelo meio deles e titila-me os tomates. (...) Ponho os meus braços em volta daquele cu enorme e encosto a cabeça às suas coxas. Rebola-se... está tão em brasa que não consegue falar acertadamente... mas ainda tem receio de meter aquela coisa na boca...
Diabo, suponho que a podia obrigar a engoli-lo... Qualquer gaja, desde que esteja aquecida, abre a boca ao sentir a cabeça dum caralho encostada aos lábios... mas eu quero que a iniciativa parta dela... ou pelo menos que ela assim o pense. Começo a lamber-lhe o ventre e as coxas... ela afasta as pernas e beija-me timidamente a barriga. Faço movimentos com os quadris, como se estivesse a foder compassadamente... e Ann acompanha-me.
Estas gajas! O que elas gostam de apanhar alguma coisa em troca de nada! Do que Ann mais gostaria, agora, era que eu lhe enfiasse a língua naquela fenda e a lambesse até ficar seca, mas não se quer familiarizar com a minha piça mais do que o faz até ao momento... Mas eu posso ser tão teimoso como ela... Lambo-lhe as bordas da cona, mordo-lhe as coxas, com o nariz titilo-lhe a pintelheira. Quando me aproximo muito da nêspera ela sussura excitada... aí... beija-me aí... porque é que não meto a língua agora...


(Henry Miller- "A França entre as pernas", in OPUS PISTORUM. Fotografia de Vanessa Braun)


Com este post dou por concluída a semana dedicada à abordagem da literatura obscena ou da obscenidade na literatura, partindo do exemplo de Henry Miller. Um exemplo que desdobrei em duas formas de tratamento: o pensamento do autor (a teorização sobre a temática em causa) e excertos de trabalhos seus (focalizados sobre episódios determinados).
Não pretendi com esta semana e com as minhas opções em termos de edição, esgotar ou mesmo "estafar" o assunto. Nada disso! Pretendi, tão só, lançar pistas de/para leitura, releitura ou mesmo reinterpretação da obra global de Miller. Abrir um caminho, foi o que desejei, também, para uma abordagem futura de outros autores. E claro, contribuir para tornar normal/mais comum a edição/contacto com um tipo de literatura com características muito próprias, permitindo sobre si um posicionamento absolutamente descomplexado.
O trabalho que desenvolvi ao longo desta semana deu-me um gosto muito particular, precisamente, por tudo o que disse. Se vos consegui tocar e, em vós, fazer encetar um olhar ou despertar um olhar diferente sobre estas temáticas, os meus objectivos foram atingidos. Obrigada pelo vosso acompanhamento :)

Publicado por void em 07:18 AM | Comentários (6) | TrackBack

janeiro 27, 2005

DO OBSCENO NA LITERATURA: UMA SEMANA COM HENRY MILLER (4)


(Henry Miller)

Ah, a palavra "moral"! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confusões que este termo engendrou abarcam quase toda a história das perseguições movidas pelo homem ao seu semelhante. Para além do facto de não existir apenas uma moral, mas muitas, é evidente que em todos os países, seja qual for a moral dominante, há uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo é permitido, tudo é perdoado. Ou seja, tudo o que de abominável e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode espiatório, "não têm moral". Pensar-se-á que, se realmente glorificássemos a vida e não a morte, se dessemos valor à criação e não à destruição, se acreditássemos na fecundidade e não na impotência, a tarefa suprema em que nos empenharíamos seria da eliminação da guerra. Pensar-se-á que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a indústria de material de guerra, material que hoje se tornou indescritivelmente diabólico. Digo "assassinos", porque em última análise esses homens não são outra coisa. A sangue-frio, anos antes de estalar qualquer conflito, preparam-se para obrigar os outros a obedecer-lhes; enumeram mentalmente todas as formas concebíveis de horror e destruição, e dedicam-se à sua tarefa calmamente, deliberadamente, implacavelmente, esperando apenas pelo momento certo para levarem à prática os seus planos. Os homens que são chamados a pegar em armas, os homens que são obrigados a fazer funcionar esta maquinaria inumana, embora não possam considerar-se inteiramente inocentes, não são, pelo menos, responsáveis pelo planeamento e pela preparação da carnificina. São simples vítimas que, mais tarde, e segundo os acasos do destino, serão apelidadas de cobardes ou de heróis. O seu papel é obedecer. E, mesmo que as suas vidas sejam poupadas, mesmo que não sofram, na carne, mutilações, os que sobreviverão ficarão, sem dúvida, com o espírito aleijado. Confrontados com uma nova guerra - porque uma guerra engendra sempre outras - não poderemos esperar que estas "vítimas" se mostrem caridosas e magnânimas. Tendo sofrido, contravontade, exigirão inevitavelmente que os seus filhos e filhas paguem o mesmo tributo... Portanto, o que eu digo é que, se esta escravidão de sacrifício e vingança não é imoral, se não é a forma mais absoluta de imoralidade, então essa palavra não tem sentido. Não estamos a ser destruídos e corrompidos pelos escritos pornográficos ou obscenos; estamos a ser destruídos e condenados, em todos os sentidos, pela guerra e pelo planeamento da guerra.


(Henry Miller- "A obscenidade na literatura", in O MUNDO DO SEXO E OUTROS TEXTOS)

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janeiro 26, 2005

DO OBSCENO NA LITERATURA: UMA SEMANA COM HENRY MILLER (3)

Pergunto por vezes a mim próprio se não será possível existir uma razão mais profunda para que sejam proscritos os livros "imorais". Tenho notado que, o mais das vezes, o autor de uma obra "obscena" é um homem que ama a verdade. Serviu-se frequentemente da sua condenável linguagem "licenciosa" para revelar a perversidade do nosso comportamento. As suas verdades chocam, porque a verdade anda sempre nua. A falsidade e a hipocrisia, que nos nossos dias prevalecem, são uma provocação para os homens honestos, levando-os a usar uma linguagem explosiva, uma linguagem chocante. Mas aqueles para quem a verdade é bemvinda e que acreditam na vida, não encontram nessa linguagem nada de repugnante. Para dizer a verdade, eu próprio não encontro na vida muita coisa que possa ser considerada "repugnante", à excepção da maldade pura, que é rara. E é para mim perfeitamente incompreensível que se possam condenar em si mesmos ou por si mesmos um tema, um estilo ou uma forma de tratamento. Se a nossa vida quotidiana está repleta de fealdade, é inevitável que surjam homens para a descrever e revelar nos seus múltiplos pormenores. É tão impossível calar a verdade da vida como impedir a difusão do saber. O máximo a que a censura pode aspirar é a retardar o inevitável. Porque os livros, como tudo o resto neste universo, são criados como resposta às nossas necessidades, às nossas necessidades mais profundas. Fazem parte do espírito do tempo. O pensamento precisa de se exteriorizar. Se não consegue encontrar forma de vir à superfície, através das várias formas de arte, escava o solo, segue vias subterrâneas, e acaba por envenenar as próprias fontes da vida. Para mais, não é muito crível que as ideias, mesmo quando aberrantes, sejam produto de alguns indivíduos monstruosos. As ideias andam no ar, como costuma dizer-se, e o artista não faz mais do que servir-se delas. É igualmente um fenómeno muitíssimo curioso a chamada literatura obscena ser a mais resistente de todas as formas de literatura. Existiu desde os tempos mais remotos, e persiste, sem protecção, sem fazer barulho, apesar de tudo o que contra ela se possa dizer. Só uma outra categoria literária é presumivelmente tão duradoura como ela: a literatura ocultista. A primeira corresponde, sem dúvida, a alguma necessidade vital que nem as mais severas admoestações morais ou penalizações conseguem irradicar, enquanto a segunda corresponde a esse sentido do mistério que há em nós e que nenhuma explicação moral ou religiosa jamais satisfaz.


Henry Miller- "A obscenidade na literatura", in O MUNDO DO SEXO E OUTROS TEXTOS)


As cartas de Tania acabam sempre por me alcançar, ande eu por onde andar. Chegam duas, uma de manhã e outra por correio expresso. Significa que ela se sente sozinha!... vou endoidecer, se passo mais outra noite sem dormir contigo. Não penso noutra coisa, senão nesse grande pénis e nas coisa maravilhosas que ele faz; dava tudo o que tenho para o sentir outra vez, para o ter na minha mão. Chego a sonhar com ele! (...)

A minha mãe também gostaria que tu estivesses aqui para a possuíres, posso dizer-to, pois ela fala tanto a teu respeito. Está sempre a perguntar o que é que nós fazíamos, o que é que se passava nas alturas em que estávamos na cama juntos, vai até ao ponto de querer saber o que dizíamos! Vai todas as noites para a cama comigo e com Peter e obriga-me a lembê-la. Eu não me importo, gosto de o fazer, mas gostava que estivesses aqui para que me possuísses mais vezes...
E por aí fora. "De Tania com amor", é assim que termina a carta. A segunda é mais longa.
Tania descobriu uma nova loucura e, escreve ela, "tenho de te contar tudo imediatamente. Estranho não é? É porque eu gostaria que fosses tu a fazê-lo. Julgo que é por teres uma ferramenta tão grande. Quando penso no tamanho dela, sinto uma excitação enorme.
Aliás, durante a maior parte do tempo em que ele me fez aquilo, eu estive a pensar em ti.
Sentia-me tão contente por ter novamente um homem para me possuir (...) que me despi, assim que chegámos ao quarto dele. Ele queria que nos deitássemos e brincássemos primeiro, mas eu sentia-me tão em brasa que não aguentei e ele teve de me montar. Estava tão doida que o tipo teve medo que eu saltasse pela janela. Oh! era maravilhoso sentir novamente um homem a possuir-me. (...)

Arrastou-me por todo o quarto! Já me tinha possuído duas vezes, quando me disse que me ia ensinar um truque novo, mas que precisava de uma nova erecção. Limitei-me a pô-lo na boca e a chupá-lo um poucochinho e, num minuto, estava pronto para outra!
Depois, ele deitou-me no chão, de barriga para baixo, sobre umas almofadas macias e começou a possuir-me por detrás. (...) Então, de repente, senti qualquer coisa diferente e esquisita. Primeiro, pareceu-me que ele estava a ejacular e que o seu esperma escorria dentro de mim, mas a seguir começou a correr em jorros e eu percebi que ele estava a urinar! Oh! que invulgar e maravilhosa sensação aquela! O seu grande pénis estava todo enterrado, não existia qualquer saída e assim, o líquido mantinha-se lá dentro. Era tão quente que toda eu ardia, sentindo, ao mesmo tempo, a urina a invadir todos os recessos íntimos do meu corpo. (...)
Não podes imaginar como me senti depois de ele ter retirado o pénis, ali deitada, com a urina de um homem no meu interior e fazendo pressão sobre o meu estômago. Em seguida, ele levou-me para a casa de banho e, aí, eu deixei sair a urina, litros e litros dela a saírem-me pelo cu e ele de pé, à minha frente, obrigando-me a chupar-lhe o pénis.


(Henry Miller- "Sous les toits de Paris", in OPUS PISTORUM)

Fotografias editadas: Vanessa Braun.

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janeiro 25, 2005

DO OBSCENO NA LITERATURA: UMA SEMANA COM HENRY MILLER (2)

Então sempre é verdade. Tania está calva como uma águia, lisa como um ovo. Tudo o que ficou, como prova de que já existiu uma mata de pêlos nascentes, ali entre as suas pernas, foi um arranhar suave, quando se passa a mão a contra-pêlo. E não foi só a sua conazita que foi rapada... o cu seguiu o mesmo caminho, ou fizeram-no seguir... não que ali houvesse muito que rapar... (...) Abre as pernas o mais possível, deixa-se escorregar e ergue o vestido de forma a eu poder não só vê-la como também senti-la. Tem a mesma macieza do rosto... mais macio, aliás, porque na sua face ainda se pode ver uma leve penugem quando a luz incide directamente. (...)
Tania não se consegue manter quieta no meu colo. Mexe o cu de um lado para o outro, espreme-me a mão entre as suas coxas. Está outra vez com comichão na cona... sacar-lhe o tufo de pêlos não foi lá grande remédio para lhe acalmar os ardores. (...)
Tania está húmida entre as pernas. Agora não possui quaisquer cabelos para absorverem aqueles fluídos, diz ela... talvez tenha de pedir os meus emprestados... e cá vem ela direito às minhas calças, para apanhar uma mão-cheia. A cabra já nem pede as coisas, agarra o que pode, e exige aquilo em que não consegue pôr a mão. (...)
Tania aperta-me o pénis num anel mortal... só o deixará depois da vida o ter abandonado em golfadas. Mas, no que toca à sua cona, comporta-se como uma miúda com um brinquedo novo... tem de usar uma mão para a explorar, estando ao mesmo tempo a masturbar-me. (...)
Tania acocora-se, com as mãos a cobrir o sexo, observando-me enquanto me dispo. Quero que ela me chupe o caralho? pergunta ela. Não respondo. Oh, então devo querer meter o caralho... aqui! E fica de pernas abertas, os dois braços sobre a cabeça. Estou em cima dela antes de poder unir novamente as pernas, a verga numa mão e as calças ainda na outra... (...)
Outra coisa... quando não há uma pintelheira para a camuflar na sombra, foder parece um perigo mortal, literalmente. O meu mangalho não tem hipótese de entrar naquele minúsculo orifício sem o esfrangalhar todo... (...).
Estar a foder Tania nestas condições é como estar a foder uma miúda de liceu, se exceptuarmos o facto de que uma miúda de liceu nunca teria uma aparência tão nua. O meu ventre esfrega-se contra o dela, e a única coisa que encontra é a sua pele, nada mais. Entre as suas pernas não se encontra nada além da lubricidade, e um odor e um calor de forno de alta tensão. (...)

Envolve-me com as pernas, apoia-se com firmeza... e zás - cola-se a mim tão firme e suavemente como se fosse papel de parede. O meu pénis está enterrado nela à profundidade de um braço, e consegue finalmente arrancar-lhe um gemido. Então começa a manear-se, puxa-me a cabeça para baixo, e enfia a língua na minha boca. (...)
Não posso foder Tania só com o caralho... esta nudez é demasiado espantosa. Tenho de a sentir, brincar com ela, enfiar-lhe os dedos. Ponho ambos os braços à sua volta, debaixo do cu e entre as coxas, acariciando aquela nêspera aberta ao mesmo tempo que lhe encavo o marzápio. Titilo-lhe o olho do cu, aperto, belisco... por fim, sem tirar o mangalho, enfio também os dedos no "conillon". Tania acha magnífico... nem um olhar, nem uma palavra... rebola-se por todo o divã; está transformada num cesto de cobras vivas... Rolamo-nos um sobre o outro e ela nunca afrouxa as pernas quentes e nuas. Meti-lhe o pénis lá dentro e ela não dá hipóteses a que ele saia de lá. Somos um grande sucesso em ginástica. (...)
Os dois examinamos as covinhas que o cu dela faz... mas eu estou mais interessado naquela covinha entre as nádegas. Ajoelho-me por detrás de Tania e ela afasta as pernas quando sente o mangalho lá atrás...
"Mete-o! Mete o teu caralho no meu buraco pelado e giro, e fode-me..." Enfia a cabeça nos braços e a voz sai-lhe abafada: "Está todo rapado e pequenino... enquanto me estás a foder podes imaginar que ainda sou uma menina pequena..." (...)
Pela maneira como o seu recto se abre, podia pensar-se que Tania se contentava em ter ali dentro a cabeça de Johnny... mas ela quere-o todo, completo, e quere-o desesperadamente... Enterra-o todo, não se cansa de gritar... e lá lho enterro, nunca fui mesquinho com aquilo que tenho. (...)
Depois... acaba-se a conversa, dá gritos com uma esporradela no cu, e vem-se. Salta como se fosse um grito, comigo sempre encavado nela... Estou decidido a não lhe tirar o caralho do cu, mas por fim ela cai do divã e afasta-se... (...)
Ainda estou com tesão, e Tania faz-me festas na gaita para ma conservar. Está deitada de costas a manipular-me, de modo que vejo a esporra e a langonha a escorrerem-lhe da vaginazita rapada. Caldo de ostra...


(Henry Miller- "A França entre as pernas", in OPUS PISTORUM. Fotografias de Vanessa Braun)

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janeiro 24, 2005

DO OBSCENO NA LITERATURA: UMA SEMANA COM HENRY MILLER (1)

De hoje até Sexta-feira darei, aqui no Abismo, particular destaque ao tema "Obscenidade na Literatura" (designação que não entendo como estática, antes discutível), sendo que neste contexto sobressairão as opiniões do escritor americano Henry Miller (1891-1980), pela representatividade que teve/tem tido/tem no "tipo" de escrita que naquela designação tem cabimento. Mas para além das opiniões, darei também atenção particular às suas estórias, ou seja, ao terreno onde tais opiniões tiveram/têm tido aplicabilidade, ou melhor, como o tiveram/têm tido. Entendo, pois, que este é o formato mais completo para melhor se conhecer e compreender o trabalho global do autor e, a partir dele, pensarmos e opinarmos sobre a temática. No entanto, Miller será apenas o primeiro autor do género que aqui trarei. Outros se seguirão no sentido, também, de consolidarmos e aprofundarmos o debate.

Durante muito tempo, incluindo no próprio presente (e/ou passado muito recente), a literatura de carácter erótico (ou acentuadamente erótico), onde o sexo é abordado de forma particularmente explícita e numa linguagem especialmente crua, raiando ou chegando mesmo ao pornográfico, tem sido entendida como uma espécie de "contracultura", distanciada dos "normais" cânones literários.
Foram muitos os anos, ou melhor, os séculos em que a censura foi incisiva sobre esta forma de escrita: reportando-nos ao Mundo Moderno e Contemporâneo, desde o século XV (em particular com a Inquisição e, posteriormente, outras instituições) até ao século XX, as obras proibidas foram imensas e os seus autores afastados dos núcleos literários, abrindo-se assim terreno para a denominada "literatura clandestina" (igualmente conhecida por literatura licenciosa ou obscena). Henry Miller, no século passado, teve que esperar anos até ver as suas obras livremente traduzidas e publicadas não só na Europa (tradução e publicação), mas também nos EUA (publicação). Por isso ser uma referência aqui. Por isso ser a primeira referência aqui, com um enquadramento próprio e distinto (recordo que neste blog já foi editado Sade).

Não quero alongar mais esta minha introdução. Propositadamente não o vou fazer. Prefiro que ao longo desta semana, e com o deparar dos textos, façamos todos as nossas reflexões e emitamos as nossas opiniões. Julgo, pois, ser o mais indicado. E para isso, passemos, pois, a Miller:

É indubitável que o sexo constitui parte essencial da vida. É também um facto geralmente reconhecido que o papel do sexo, ou a sua importância na vida de cada um, varia segundo o indivíduo. O problema parece ser o seguinte: até que ponto pode a verdade da vida, naquilo que se relaciona com o comportamento sexual, ser utilizado na literatura? Talvez não resida sequer aqui o problema, mas antes na maneira como o sexo é apresentado. Em suma, talvez a questão pudesse ser assim formulada: Haverá uma maneira certa e uma maneira errada de tratar o sexo numa obra de arte? O que nos conduz imediatamente à questão seguinte: A maneira certa será a do moralista, a do censor, a do polícia? Ou, se preferirem, será o Estado, por intermédio dos seus legisladores, o árbitro em última instância sobre o que está certo e errado, o que é bom e mau, em matéria de arte?
Parece-me a mim que o pressuposto em que se baseiam as acções restritivas dos nossos guardiãos morais é simplesmente o de que o acesso à literatura proibida nos pode levar a comportar-se como animais. Mas pensar assim é insultar o reino animal. E, ao mesmo tempo, transformar a paixão, o maior atributo do homem, numa caricatura. (...) De todas as criaturas da terra, o homem é a única de comportamento imprevisível. Há em nós alguma coisa de toda a criação. Quando nos é negada a menor parcela de liberdade, ficamos espiritualmente limitados e mutilados. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da miríade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos. A religião faz de nós santos, ou apenas bons cidadãos; mas o que faz de nós homens, o que nos faz humanos até ao âmago é a liberdade. É uma palavra terrível, a liberdade, para aqueles que viveram toda a vida mentalmente algemados. (...)
Estou honestamente convencido de que o medo e o horror que o obsceno inspira nos dias de hoje, deriva mais da linguagem utilizada do que do pensamento. É como se lidássemos aqui com tabus primitivos. O facto de certas palavras, certas expressões, geralmente - mas nem sempre - associadas ao sexo, terem passado a ser consideradas "proibidas" é, no fundo, perfeitamente enganador. Aqueles a quem estes símbolos escritos chocam, desgostam, ferem ou horrorizam estão familiarizados com eles na língua falada. Todos ouvimos diariamente essas expressões "indecentes", "ordinárias", "feias", do berço à sepultura. Como e porquê, então, não nos tornámos imunes a elas? Que sortilégio possuem, de que não sabemos proteger-nos? Note-se que é, em particular, contra o seu uso na literatura que lutam os virtuosos. Mas porque há-de a literatura ser mais sacrossanta do que a fala? Não será a escrita uma outra forma de fala? Será que a juventude é corrompida - venerável termo de que constantemente nos servimos - apenas pela linguagem obscena? Os corruptores da juventude têm sido, ao longo dos tempos, objecto de tantas e tão variadas acusações que é difícil imaginar como seria possível ampliar a lista dos "males". E é sempre o próprio espírito da vida que constitui o alvo dessas acusações. A vida, porém, como tantas vezes tem sido demonstrado, não aceita ser restringida ou diminuída por códigos morais, por leis ou ditames de espécie alguma. O que rege a vida é o espírito, e o espírito do homem, divino por essência, permanece inviolável.


(Henry Miller- "A obscenidade na literatura", in O MUNDO DO SEXO E OUTROS TEXTOS. Fotografia de Vanessa Braun)

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janeiro 23, 2005

POESIA DE ADOLESCÊNCIA: A.A (3)

Aqui ficam mais quatro poemas da Alexandra, consolidando aquele que foi/é um percurso no campo da escrita. Mais quatro poemas que vincam um estilo muito próprio de reflexão, de expressão, de grito para o mundo. Mais quatro poemas que são, acima de tudo, e num espelhar, o burilar íntimo de quem os produz.
E são eles:

ESQUECER PARA PODER VIVER

Primeiro choro
Depois solto uma gargalhada
Os problemas ignoro
E a vida fica mais engraçada!
Para mim o tempo é escasso
Tenho pressa de viver
Ás vezes nem sei o que faço
Porque amanhã poderei morrer.
A morte não me assusta
Um dia terei de partir
E o que mais me custa
É saber que de ninguém vou poder me despedir.
E que saudades vou sentir!
Sentir saudades de chorar
Ou de me divertir...
E principalmente de sonhar.
Cada dia que passa
É mais um que acabou de evaporar
Tudo o que ontem se perdeu, hoje já não se acha
E não vamos perder o amanhã a procurar.
A vida não é para viver?
Então mal ou bem está a ser vivida
O que não pode haver
É uma hora perdida.
Por isso torno a dizer
O que não hei-de esquecer
Depois de chorar
E de soltar uma gargalhada
Os problemas se ignoram
Para que a vida seja apenas mais engraçada!


RECEIO NÃO ENCONTRAR...

Caminho pela praia
Porque não tenho nada para fazer
Piso a areia
Como se pisasse algo que quero esquecer.
Tenho esta ideia
Dentro dos meus pensamentos
Algo que já não quero alcançar
Em honra dos velhos tempos.
Caminho pela praia, para me libertar
Talvez estes ventos me ajudem a não pensar
E continuo a caminhar...
Talvez comece a imaginar
Que alguém estou a avistar...
Mas já é tarde, está a escurecer
E o sol começa a se esconder.
Ainda não consegui encontrar
O que começara a sonhar...
O sol já não se vê
Porquê?!
Então o que quero encontrar
É como este dia que se tornou em noite
É como este dia que acabou de se mudar.


LOUCURA

Os loucos são loucos
Porque os que os compreendem
São muito poucos
Ou porque raramente deles se lembrem.
Loucos somos bastantes
Poucos são os nenhuns
Os que não nos entendem são os restantes
Louca sou eu e mais alguns.
Doença é loucura
Loucura é doença
Doença essa sem cura
A loucura é uma crença!
Enlouquecer, enlouquecer, enlouquecer...
Para muitos até chega a ser pecado
Todos a loucura tentam esquecer
Porém, todos dela provam um bocado.
Cada dia que passa
Mais eu quero enlouquecer
Só o corpo fracassa...
Em compensação a mente não pára de aquecer.


DESTINO

Caminho numa estrada
Onde sofri muitos acidentes
Mesmo depois de tão marcada
Continuo a mostrar os dentes.
Talvez sorria
Para quem não mereça
Nesta estrada por ti corria
Mas felizmente ainda tenho cabeça!
Talvez exista pelo percurso
Uma paragem ou cruzamento
Ou exista algum recurso
Mas até lá pode acabar o sentimento.
Vou pôr grades
Neste meu coração
Que nem sequer os frades
Hão-de passar pelo portão.
Vou-te voltar as costas
E a minha estrada continuar
Não é de mim que tu gostas
Por isso não vejo razão para te amar.
O que te disse está dito
E não vou retirar o que disse
O que aconteceu estava escrito
Nem haveria nada que o impedisse!
Não posso olhar para trás
Vou caminhar e viver...
Continuar a saber
O que só um sentimento faz.


(Poemas de Alexandra Antunes. Fotografias de Elena Vasilieva)

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janeiro 22, 2005

"X E Y: A ESTÓRIA"- CAPÍTULO 6

Depois de uma semana de interregno, eis que retomo a estória escrita pela Alexandra. Uma estória... a estória... onde o "eu masculino" se continua a impôr com as suas lembranças/recordações/memórias. De-mos-lhe, pois, toda a atenção:


VER-ME NELA

Continuo aqui a olhar para mim num presente que já é futuro, embora passe tão devagar que dói como nunca me doeu na vida; uma dor igual à dor do dia em que deixaste a nossa casa, e uma dor igualmente terrível ao dia em que morreste e me deixaste perdido na casa que abandonaste. E quando eu me vejo criança, no dia em que olhei para ti pela primeira vez, e compreendo a razão do poder que sempre tiveste em fazer de mim eu, parece que dói mais. Porque é a dor de querer tanto, tanto voltar àquele dia, e encontrar-me criança nos teus olhos. É a dor do querer tanto, tanto voltar ao dia em que me senti eu mais que nunca, nunca tão completo como naquele momento e a partir daquele instante de desejo e travessura embrulhados num papel inocente de rebuçado.
Os teus olhos ávidos de vida e esperança. E eu a olhar para ti e a visualizar projectos de pontes que nos fariam chegar a outra margem completamente diferente do que tinha sido a minha vida até ali, até esbarrar com a linha negra de pestanas farfalhudas que adornavam um olhar que me disse. Acredita em ti, porque ao fazê-lo, acreditarás em mim também. E eu hoje sei, eu hoje sei que nesse momento, ainda que, inconscientemente cego pela paixão, eu vi-me em ti e tu viste-te em mim.
Tu morta nestes dias. E eu a reviver o dia que menos doeu, quando foi aquele dia, e que agora dói mais por sabê-lo tão longe, tão fechado. O meu coração caixa-forte. O dia caixa-forte sem código de acesso. O código marcado nas impressões digitais nos teus dedos e dos teus pensamentos. E toda tu impressão digital código mortos e desaparecidos para sempre. E a impossibilidade de aceder ao dia que menos doeu na minha vida e que agora dói mais porque já não posso começar-te de novo. Começar-te toda em mim e construir-me todo em ti. Porque agora só posso acabar-me; acabar em mim, o eu incompleto, o eu que já não sou eu. Um eu cigarro tuberculoso que morre sentado numa cadeira cinzeiro de mármore. É assim que me vejo do lado de fora com os olhos fixos num cemitério de filtros retorcidos e manchados de nicotina.


(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Vanessa Braun)


O próximo capítulo será editado Sábado, dia 29. Amanhã, o retomar da poesia de adolescência da autora. Fiquem bem!


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janeiro 21, 2005

CINZA ÀS CINZAS ("UMA SEMANA NO TEATRO")

Harold Pinter nasceu em Inglaterra no ano de 1930. De 1957 até ao presente a sua carreira tem-se pautado por trabalho ao nível da autoria de peças, como encenador, argumentista e actor, distribuindo-se toda esta actividade pelo Teatro, Cinema, Rádio e Televisão. Desde os anos 60 que é um dos dramaturgos mais representado em todo o mundo. A sua estreia em Portugal ficou a dever-se a Jacinto Ramos (falecido no ano passado), com a peça "O Monta-Cargas", em 1963.
A peça que aqui apresento parte foi escrita no ano de 1996. Passemos a ela:

Uma casa no campo.
Sala de estar no piso térreo. Uma janela grande.
Um jardim por detrás da janela.

Duas poltronas. Dois candeeiros.

Final da tarde. Verão.

A sala vai escurecendo durante o desenvolvimento da acção da peça.
A luz dos candeeiros intensifica-se.

Devlin está de pé, com uma bebida na mão. Rebecca está sentada. Silêncio.

REBECCA- Por exemplo... ele deixava-se ficar de pé, à minha frente, e cerrava o punho. E depois punha a sua outra mão no meu pescoço, agarrava-o e empurrava a minha cabeça até si. Roçava o seu punho... sobre a minha boca. E dizia: "Beija o meu punho."

DEVLIN- E tu beijavas?

REBECCA- Oh, claro. Beijava-lhe o punho. Os nós dos dedos. E depois ele abria a mão e oferecia-me a palma da mão... para eu beijar... e eu beijava-a.
Pausa.
E depois eu falava.

DEVLIN- E o que dizias? Dizias o quê? Dizias-lhe o quê?
Pausa.

REBECCA- Eu dizia: "Põe a tua mão à volta da minha garganta." Murmurava através da sua mão, enquanto a beijava, mas ele ouvia a minha voz, ouvia-a através da sua mão, sentia a minha voz na sua mão, ouvia-a ali.
Silêncio.

DEVLIN- E ele punha? Ele punha a mão à volta do teu pescoço?

REBECCA- Oh, claro. Punha. Claro. E mantinha-a ali, delicadamente, muito, muito delicadamente, tão delicadamente. Ele adorava-me, estás a perceber?

DEVLIN- Adorava-te?
Pausa.
E isso significa o quê, "ele adorava-te"? O que é que isso significa?
Pausa.
Queres tu dizer que ele não colocava qualquer pressão sobre a tua garganta? É isso que tu queres dizer?

REBECCA- Não.

DEVLIN- Então o quê? O que é que tu queres dizer?

REBECCA- Ele exercia alguma... pressão... sobre a minha garganta, claro. De tal modo que a minha cabeça começava a cair para trás, delicada, mas expressivamente.

DEVLIN- E o teu corpo? Para onde caía o teu corpo?

REBECCA- O meu corpo caía para trás, lenta, mas expressivamente.

DEVLIN- De tal modo que as tuas pernas se abriam?

REBECCA- Sim.
Pausa.

DEVLIN- As tuas pernas abriam-se?

REBECCA- Sim.
Silêncio.

DEVLIN- Sentes que estás a ser hipnotizada?

REBECCA- Quando?

DEVLIN- Agora

REBECCA- Não.

DEVLIN- A sério?

REBECCA- Não.

DEVLIN- Porque não?

REBECCA- Por quem?

DEVLIN- Por mim.

REBECCA- Por ti?

DEVLIN- O que é que tu achas?

REBECCA- Acho que tu és um cabrão.

DEVLIN- Eu, um cabrão? Eu! Deves estar a brincar.

Rebecca sorri.

REBECCA- Eu, a brincar? Deves estar a brincar.
Pausa.

DEVLIN- Tu percebes por que é que te estou a fazer estas perguntas, não percebes? Põe-te no meu lugar. Sou forçado a fazer-te estas perguntas. Há tantas coisas que eu não sei. Não sei nada... de toda esta história. Nada. Estou às escuras. Preciso de luz. Ou será que achas as minhas perguntas impróprias?
Pausa.

REBECCA- (...) Não consigo dizer-te como é que ele era.

DEVLIN- Esqueceste-te?

REBECCA- Não. Não me esqueci. Mas a questão não é essa. Seja como for, ele foi-se embora há muitos anos.

DEVLIN- Foi-se embora? Para onde?

REBECCA- O trabalho obrigou-o a partir. Ele tinha um emprego.

(...)

DEVLIN- (...) Estou a falar do teu amante. Do homem que tentou assassinar-te.

REBECCA- Assassinar-me?

DEVLIN- Matar-te.

REBECCA- Não, não. Ele não tentou assassinar-me. Ele não queria assassinar-me.

DEVLIN- Ele sufocou-te e estrangolou-te. A diferença não é muita. Segundo o teu relato. Não é verdade?

REBECCA- Não, não. Ele sentia compaixão por mim. Ele adorava-me.

DEVLIN- Tinha um nome, esse homem? Era estrangeiro? E onde é que eu estava na altura? O que é que tu queres que eu compreenda? Que me foste infiel? Por que é que não falaste comigo? Porque é que não confessaste? Ter-te-ias sentido muito melhor. A sério. Poderias ter-me tratado como um padre. Poderias ter-me posto à prova. Sempre quis ser posto à prova. Costumava ser uma das minhas ambições de vida. E agora perdi a grande oportunidade. A menos que tudo isto tenha acontecido antes de eu te ter conhecido. E, nesse caso, não tens qualquer obrigação de me contar seja o que for. Não tenho nada a ver com o teu passado. Quando se leva uma vida dedicada à investigação e à universidade, não nos podemos permitir ser incomodados pelas realidades mais frívolas, tu sabes, mamas, esse tipo de coisas.

(...)

Devlin aproxima-se de Rebecca. Fica de pé junto dela e olha para ela.
Cerra o punho e coloca-o em frente ao seu rosto.
Coloca a mão esquerda sobre o pescoço de Rebecca e aperta-o. Aproxima o rosto dela do seu punho. O seu punho aflora os lábios dela.

DEVLIN- Beija o meu punho.
Ela não se mexe.
Ele abre a mão e coloca a palma da mão sobre a boca de Rebecca.
Ela não se mexe.

DEVLIN- Fala. Diz. Diz: "Põe a tua mão à volta da minha garganta."
Ela não fala.
Pede-me para pôr a minha mão à volta da tua garganta.
Ela não fala nem se mexe.
Ele coloca a mão na garganta dela. Pressiona delicadamente.
A cabeça dela cai para trás.
Permanecem imóveis.

(...)

Longo silêncio.

Escuro.


(Harold Pinter- CINZA ÀS CINZAS. Fotografias relativas à representação levada a cabo por João Cardoso e Rosa Queiroga. Estreia da peça: Fevereiro de 2002 no Espaço A Capital/Teatro Paulo Claro- Lisboa-)


E com o excerto de peça editado dou por encerrada esta semana dedicada ao Teatro. Espero que tenham gostado e que esta minha paixão vos tenha, de certa forma, despertado para uma forma muito particular de expressão/comunicação. Para uma forma muito particular de Arte.
Deixei-vos alguns nomes da dramaturgia contemporânea. Deixei-vos alguns exemplos de peças. Deixei-vos a 1ª semana de uma iniciativa que pretendo alargar e aprofundar. Como disse na Segunda-feira passada, em Fevereiro volto. Volto com mais Teatro. Volto com mais um conjunto de nomes e trabalhos que tudo vou fazer para que vos prendam a este meu palco.
Até lá!

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janeiro 20, 2005

PENETRADOR ("UMA SEMANA NO TEATRO")


(Anthony Neilson)

Deixo-vos com um excerto de "Penetrador", peça da autoria de Anthony Neilson, datada de 1993.
Relativamente ao dramaturgo: nasceu na Escócia em Março de 1967. As suas primeiras peças datam de finais dos anos 80 e em 1991 o seu trabalho é particularmente reconhecido no Festival de Edimburgo atendendo ao êxito de "Normal: o estripador de Dusseldorf". Estas mesmas peças (e toda a sua produção) têm sido traduzidas e representadas por toda a Europa, incluindo em Portugal, particularmente "Cicatrizes" (escrita em 2002), pelos Artistas Unidos.
Neilson é um dos percursores da denominada geração In Yer Face, que se caracteriza por uma escrita directa, musculada e bastante preocupada com os problemas da actualidade. A peça aqui editada (parte) é prova disto mesmo. Passemos, pois a ela, para que tal possa ser devidamente percebido:


PIÇA [Soldado que desertou]- Estou metido em problemas, pá. Têm andado a perseguir-me.

MAX (pausa)- Quem?

PIÇA (pausa)- Os Penetradores.

Uma longa pausa. Max olha para Alan, que encolhe os ombros intrigado.

MAX- Os Penetradores?

Pausa. Piça aquiesce. Ruídos abafados vindos da televisão da porta ao lado.

PIÇA- Vai até ao topo da hierarquia. Descobri-os. Queriam que eu me alistasse mas eu não quis e agora querem matar-me.

ALAN- Matar?

PIÇA (aquiesce. Pausa)- Vão descobrir-me e matar-me para que eu nunca possa contar. E depois eliminam as fichas como se eu nunca tivesse existido. Podem fazer isso. São muito poderosos. Podem fazer com que nunca lá tivesse estado.

ALAN- Mas nós sabemos, Piça.

PIÇA (pausa)- Talvez também vos matem.

Pausa. Alan olha para Max.

ALAN- Ele disse aquilo que eu penso que ele disse?

MAX aquiesce.

MAX- Mas que raio de merda é que eles fazem, esses... terminadores ou lá o que é?

PIÇA- Penetradores.

MAX- Penetradores

PIÇA- Penetram.

ALAN- Pergunta imbecil.

MAX- O que é que eles são uma... unidade disfarçada ou... ?

PIÇA diz que não com a cabeça.

PIÇA- Enfiam-te coisas. (Pausa.) Pelo cu acima.

MAX- Pelo cu acima?

PIÇA- Enfiam-te coisas. Toda a espécie de coisas. Descobri-os e eles mantiveram-me num... quarto escuro, era um... apenas um quarto escuro. Drogaram-me. Nunca vi as caras deles. Acordavam-me de vez em quando para me poderem fazer mais coisas. Devem ter passado semanas. Não sei quanto tempo. Talvez meses.

Uma longa pausa.

ALAN- Não me surpreende.

MAX- Não?

ALAN (diz que não com a cabeça)- Já ouvi coisas assim. Nós não sabemos nem metade daquilo que acontece nesses sítios. Era o que eu estava a dizer.

MAX- Mas fugiste...?

PIÇA- Só queria tomar os meus comprimidos. Esperei por eles no quarto escuro. Dessa vez vieram três. Tinham um pau de madeira. Iam-mo enfiar.

Levanta-se, tentando lembrar-se. Começa a mimar os acontecimentos, mais ou menos, como se não estivessem bem claros na sua memória e procurasse clarificá-los.

Disseram-me para eu... me inclinar...?

Inclina-se.

Por isso inclinei-me mas depois eu...

Olha à volta, e depois para Alan.

Alan, tu fazes o tipo.

Pausa. Alan olha para ele.

ALAN- Eu estou a beber chá...

Piça fá-lo levantar-se gentilmente.

PIÇA- Não te faço mal.

Alan olha para Max que o tranquiliza. Ele permite, relutantemente, que Piça o manipule. Piça inclina-se, colocando Alan atrás dele.

PIÇA- Portanto eu estou inclinado. Alan, finge que tens um pau.

MAX- Não vai ser fácil.

Alan sorri com sarcasmo.

ALAN- O que é que tu queres dizer?

PIÇA- Finge que tens um pau e que mo vais enfiar.

Sentindo-se idiota, Alan fá-lo. Lentamente, Piça passa em revista os movimentos.

Virei-me ao contrário... (...) Agarrei no pau... (...) E eu -

Mima partir o pau nas pernas dele. Um movimento brusco.

parti-o ao meio... (...) E depois eu -

Dá uma volta sobre si próprio rapidamente, dando um soco no olho de Alan.

No olho dele.

Alan encolhe-se.

PIÇA- E -

Mais um movimento rápido e agarra Alan pelo cabelo. Alan uiva e Max pára de rir.

Agarrei no outro e -

Puxa a cabeça de Alan para trás. Ele morre. Piça mima atingi-lo com o pau três vezes na garganta. Cada pancada aproxima-se perigosamente mais

assim e ouviu-se um som e -

Força Alan a ajoelhar-se. Tudo isto acontece em segundos.

o terceiro no chão e -

Puxa o cabelo de Alan até ele rodar sobre si próprio.

UACK!

Max dá um salto com o grito. Piça mima bater nos tomates de Alan com o pau. Alan reage instintivamente a cada pancada.

PIÇA- UAC! nos tomates
UAC! chamando-lhe maricas de merda
UAC!
UAC!
UAC! e já havia sangue
UAC! UAC! UAC! UAC!
UAC!

(...)

Deixou de se mexer. Deixou de respirar. (Pausa.) Eu saí, saltei a rede. Apanhei a estrada. Vim para aqui.

(...)

Piça remexe no saco que tem no colo e quase imediatamente tira de lá uma enorme e feia faca de caça: uma faca que acaba com todas as facas. Max e Alan ficam um bocado perturbados.

ALAN- Foda-se!

MAX- Por amor de Deus caralho!

Piça estende-a orgulhosamente, olhando para ela.

PIÇA- Terei-a a um deles. Ia espetar-ma no cu.

(...)

MAX- Caralhos ma fodam. Isto é material do exército. (Pausa.) Isto é mau. (Pausa.) Molda-se perfeitamente à mão, não é?

(...)

ALAN- (...) Quer dizer, se tu tiraste realmente a faca a alguém que te queria apunhalar com ela... é claro que a devias levar a alguém...

PIÇA- Quem?

ALAN- Bom, ao teu... superior no exército ou a alguém...

PIÇA- Mas eles fazem todos parte do mesmo!

ALAN- Então à polícia...

PIÇA- Não eles estão por todo o lado, não só no exército, não só... os Penetradores, eles estão... vocês não sabem...


(Anthony Neilson- PENETRADOR)

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janeiro 19, 2005

A NOITE CANTA OS SEUS CANTOS ("UMA SEMANA NO TEATRO")

Jon Fosse nasceu em 1959 em Haugesund, no Oeste da Noruega. Iniciou-se no campo da literatura no ano de 1983, tendo publicado romances, poesia, ensaio, novelas e livros para crianças. A sua primeira obra para teatro foi escrita em 1994. Desde ai o seu trabalho tem sido representado na Noruega, mas também no estrangeiro.
Quanto à peça que seguidamente edito excerto, foi escrita em 1998.
Passemos a ela:


Escuro. A luz aumenta. Uma sala, um sofá, uma poltrona e uma mesa baixa à frente, ligeiramente para a direita. Atrás, um pouco à esquerda, uma grande janela, lá fora claridade. À direita da janela, um pouco acima, está um relógio de parede que indica um quarto para as três horas. (...) O Jovem está deitado no sofá a ler um livro.

A JOVEM
Entra pela porta da direita

Eu não posso mais
Pausa curta
Não eu não aguento
Não podemos viver assim
O Jovem ergue-se lentamente, fecha o livro, mas entala o indicador entre as páginas, a marcar
Tu ficas para aí deitado a ler
Não sais
Não fazes nada
Debita de enfiada
Não temos dinheiro
Tu não tens trabalho
Nada
Não temos nada
Vai sentar-se na poltrona
E tu sais cada vez menos cada vez menos
Antes em todo o caso ainda ias às compras
ainda ias ao correio
Nunca quiseste ir passear
Eu sempre gostei de dar passeios
Sim antes de te conhecer
Eu dava sempre grandes passeios
Todos os domingos dava um passeio
E muitas vezes até nos outros dias
E tinha amigos
Podiam não ser muitos
mas pronto tinha amigos
e amigas
Mas elas nunca mais cá vieram
Já nem sequer a Marta aqui vem
Ela pode tocar à porta
e ficar lá fora a falar comigo
mas entrar é que ela não quer
Porque tu ficas para aí sentado
e transpiras mal-estar
As minhas amigas vieram cá algumas vezes
mas tu ficaste para aí sentado
rígido e tenso
sem dizer palavra
Ri, abatida
Que ambiente
Não
Era insuportável
e por isso
olha para ele
é claro que elas não vêm mais vezes
Ninguém vem
Pausa curta
Tu estás doente
É
Tu já nem as pessoas suportas
O Jovem suspira, olha para ela
Não eu não aguento mais
O Jovem acena que sim com a cabeça. Pausa
E depois quando finalmente alguém vem visitar-nos têm logo de ser os teus pais

(...)

Sim sim.
Pausa curta
E já era tempo
De virem ver o bebé
Até parece que não se interessam por ele
Bem podiam ter vindo mais cedo
Sinceramente
O Jovem baixa os olhos.

O JOVEM
Eles só não nos querem incomodar

A JOVEM
É eles têm de vir
Eu percebo
Eu percebo que eles têm mesmo de vir
Olha à volta da sala, suspira
E agora tenho de pôr-me a arrumar a casa
Antes de os teus pais chegarem
Tem de estar tudo limpo e asseado
Quando a sogra vem de visita
não é verdade
O Jovem pousa o livro na mesa, levanta-se, anda um pouco pela sala
Poupa-me
Em voz alta
Poupa-me
Eu não aguento mais ver-te a andar assim
Resignada
Eu vou limpar e arrumar a casa
Portanto tu
Não
Tu não te incomodes
O Jovem volta para o sofá, senta-se
Eu vou fazer tudo
Fica à vontade
tu
Continua a ler o teu livro
Tu
Podes continuar a ler o teu livro
Ela ri um pouco
Ou talvez possas pensar em ir às compras
Um pouco assustado ele olha para ela
Ou também tenho eu de fazer isso
Tenho de ir às compras
Tenho de arrumar a casa
Tenho de fazer a comida para os teus pais
Em voz alta
Não
Tu é que podes ir às compras

O JOVEM
contrariado
Sim



BASTE
Deixa-te disso agora
Foste tu que telefonaste

A JOVEM
Pois eu sei
Mas
Que tu e eu
olha para ele
somos um do outro
sim disso não há a mínima dúvida
Mas ele e eu
Olha para Baste
Sim sempre
E sempre foi muito bom para o bebé
cuidou sempre muito dele
e assistiu ao parto
ajudou-me em tudo o que podia
Sim
E então
Ela levanta as mãos e esconde a cara nelas

BASTE
Queres que me vá embora

A JOVEM
Retira as mãos da cara, olha para ele
Não não
Não vás
Eu não aguento
Eu sinto tanto a tua falta
Quando não estás comigo
Eu não aguento
Tu não te podes ir embora
Baste vai sentar-se no sofá. A Jovem vai sentar-se na poltrona
Só que
Pois é tudo tão difícil e tão triste
É tudo tão horrível
Foi tão de repente
Tem sempre de acontecer alguma coisa

(...)

BASTE
Não sei
Mas não podemos ir embora
Podemos conversar depois

A JOVEM
Quase a chorar
Sim
Pausa
Sabes no que estou a pensar
Ele abana a cabeça
Eu sou mesmo parva
Estou a pensar nas panelas
lá dentro na cozinha
Desolada
Eu estou a pensar que agora vou deixar
As panelas lá dentro na cozinha
É o que estou a pensar
Estou completamente doida

BASTE
um pouco abatido
Queres
Ou não queres
vir
Tu tens
interrompe-se, olha para ela
Sim tens
Tu e eu
Temos de ir viver juntos
É temos
Não é verdade
A Jovem acena com a cabeça
Pois é
Vá então
Vamos embora

(...)

A JOVEM
Fala para o bebé
E agora vamos os dois mudar de casa
Vamos morar para outro sítio
E tu
Olha para Baste
De certa maneira vais ser pai
Ele faz que sim com a cabeça. Pausa. Para Baste subitamente
Não eu não posso ir agora
não posso
Ele
pausa curta
foi sempre bom para mim
ele só não sabia que mais fazer para ajudar
E depois ele é tão desajeitado
Não ousa sair
passam-se dias e dias sem que ele ouse sair
nem sequer à loja da esquina
ele ousa ir
E aquela escrevinhação dele
não presta para nada
tudo o que ele escreve
Tenho a certeza que não presta para nada
É a única coisa que ele diz que consegue fazer
ficar em casa a escrever
Mas é evidente que ninguém quer publicar
o que ele escreve
Ele não tem talento que chegue
Ele não tem talento de todo
Era um aluno miserável na escola
Reprovou a várias disciplinas no liceu
Nós andámos juntos no liceu

(...)

BASTE
(...)
Ouve-se um forte estampido de espingarda. A Jovem olha, assustada, para Baste que deu um salto em frente assustado
Matou-se
Parece-me que ele se matou
Foi um tiro
Eu acho que ele se matou

(...)

A JOVEM
Muito baixinho
Só ficou um bocadinho da cabeça
Começa a chorar

BASTE
Temos de
O bebé começa a chorar
Ele matou-se
Eu
Pois
Temos de
Não sei bem
Vou telefonar à polícia
A um médico
Vou telefonar
Sai pela porta da direita

A JOVEM
grita
Não vás embora
Pausa longa. A luz diminui. O bebé deixa aos poucos de chorar. Escuro.


(Jon Fosse- A NOITE CANTA OS SEUS CANTOS. Fotografias tiradas aquando da representação levada a cabo pelos Artistas Unidos no Teatro Taborda- Lisboa- em Fevereiro/Março de 2004. Actores: Joana Bárcia -A Jovem-, António Simão -O Jovem-, Américo Silva -Baste-. Como personagens existem ainda o Pai e a Mãe do Jovem, aqui não incluidos.)

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janeiro 18, 2005

O CARACAL ("UMA SEMANA NO TEATRO")

Judith Herzberg é a dramaturga que hoje aqui apresento. Tendo nascido em Amsterdão no ano de 1934, Judith inicia a sua escrita para Teatro nos inícios dos anos 70, sendo que até ai a Poesia assumia pleno destaque em termos de produções. Para além de peças e de poesia, tem escrito ensaios, argumentos cinematográficos, obras dramáticas para televisão, versando igualmente o seu trabalho sobre traduções. A dramaturga encontra-se traduzida em várias línguas e tem sido representada, em particular, na Alemanha.
O monólogo que seguidamente apresento parte, é datado de 1987. Para além de uma mulher (da qual nunca se sabe o nome) a outra grande personagem é um (o) telefone. Quanto ao título do monólogo: caracal é um animal semelhante a um lince que é a companhia doméstica desta mesma mulher.

Mas ... passando à peça:


Um monólogo. Noite
Mulher de 30-40 anos numa sala. Fala ao telefone.

MULHER

Robbert , meu anjo, queres trabalhar no cinema?
Nesse caso tens de sair comigo na passagem de ano.

Uma pessoa sobre quem vão fazer o filme. Uma amiga da minha mãe, mais velha do que ela, que tem dons sobrenaturais e caracóis que se lhe colam à cabeça e um bigode com cera. Eu acho mesmo que ela tem orgulho no bigode porque põe cera, ou será que já to disse, e frisa-o. Mas ainda não sei se eu própria lá vou, passei toda a noite, toda a semana à espera dum telefonema e não suporto quando o telefone não toca por isso eu própria começo a fazer chamadas porque estou à espera. Mas no fundo já estou há um ano à espera, Robbert.

Então é assim. Tens mesmo tempo? É uma história comprida.

Apaixonada pela primeira vez, há um ano.
Casado claro. Casamento falhado etc. Ficou louco por mim, imediatamente, quer divorciar-se, promete, suplica, etc. Eu digo: não, nada disso, se daqui a um ano estiveres divorciado, telefona-me, entretanto nada de contactos. Nada de nos vermos, nada de telefonemas, nada de cartas. Isto foi há um ano e por isso agora passo a vida colada ao telefone.

Telefono a toda a gente, podem-me despedir ou assassinar, tudo bem, desde que ele me telefone. Já não aguento mais, Robbert.

Talvez ele se tenha reconciliado. Ou morrido. Talvez se tenha divorciado e entretanto se tenha casado outra vez. Não sei nada mas já não aguento mais. Pela primeira vez na minha vida um verdadeiro amor.

Dura há um ano...

Na minha cabeça, sim, na minha cabeça fui fiel como um cão. E agora, Robbert, eu já não aguento mais.

é uma boa pergunta.
(Pensa)
Que finalmente eu podia deixar de adiar tudo,
Acabar com o provisório, que as coisas já não precisavam de ser sempre tão provisórias.

Não, não faço isso. Aguentei um ano inteiro e não é agora no último momento que eu lhe vou telefonar.
Tu também não farias isso

sim, depois de meia hora

mas se te tens dominado um ano inteiro, todos os dias, agora não vais estragar tudo no último momento

Pois, mas eu não.

Eu não sou moralista, eu simplesmente não quero ter um peso desses na minha consciência. Dorme bem meu querido.

eu não me vou deitar já.
(Desliga)

(...)

(Marca um número.)

Peço desculpa de lhe telefonar tão tarde, mas posso
Falar com o seu marido?

Oh... então telefono noutra altura.

Sou colega dele. Passei em frente ao escritório e vi a luz acesa e achei estranho, por isso estou a telefonar-lhe para ter a certeza

bem, eu... não sou bem do escritório dele, eu... sou de outro escritório, mas temos muitos negócios e o que é que está a dizer, fechou? Não sabia disso, ainda não ouvi dizer nada. Deve ter sido há pouco tempo.

O quê?

Como?

há um problema?

Não, não me importo nada (que a senhora chore)

Sim, claro que é chato para si, mas

O que é que está a dizer? A empresa foi vendida?

É lá que ele mora agora?

Ah, no antigo escritório dele, mas onde é que é isso

Ah claro, é onde sempre foi, e ele tem lá telefone?

O mesmo número?

E com que nome vem na lista?

Da empresa? Ah sim

o que é que ele já não tem?

O telefone?

Não, eu, ah, eu acho que já é muito tarde, não a acordei, pois não?

O que é que quer dizer com já não. Mas então a senhora deve dormir durante o dia!

Bem, eu não acredito nisso. Eu acho que a senhora dorme mas que não dá por isso. Porque ninguém consegue viver assim tanto tempo sem dormir. Ainda agora ouvi falar num náufrago que tinha ficado três dias sem se afogar

Está, está, está!
(Desligaram)

(...)

(Sem poisar o auscultador telefona imediatamente para outro número.)

Estou a ligar de novo porque a chamada caiu e eu pensei que a senhora talvez pudesse pensar que fui eu quem desligou

Ah, foi a senhora quem desligou

Se quiser, eu não a quero

Mas também não queria

não, não precisa de me contar nada

ninguém a quem possa contar?

Por causa de outra mulher, quando é que foi que

Então há um ano que a senhora está assim tão desorientada?

E ele vive lá com essa outra melhor?

(...)

Há quanto tempo é que ele a conhecia?

(...)

sim. Claro que não sei, mas eu sinto que ele vai voltar. O que a senhora me está a contar dessa namorada, a descrição que ele faz dela... Não há ninguém assim.

Não.

sim

não

Boa noite.

(Desliga)
(Olha para o relógio)
(Marca um número para saber as horas – acerta o relógio.)
(O telefone toca. Ela já não atende.)


(Judith Herzberg- O CARACAL. Fotografia de Jorge Gonçalves. Representação com Sofia Aparício, Teatro Taborda- Lisboa-, 2003)


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janeiro 17, 2005

DONA DE CASA ("UMA SEMANA NO TEATRO")

De hoje até Sexta-feira as edições de posts incidirão sobre Teatro. Uma semana onde editarei excertos de peças de importantes dramaturgos contemporâneos, versando estas sobre temáticas da mais variada ordem e que, de uma forma ou de outra, acabam ou podem acabar por nos tocar.
Sublinho que esta "Semana no Teatro" é apenas a primeira de entre outras que se seguirão, no sentido de concretizar uma aposta na divulgação de um gosto muito pessoal, assim como no tornar "normal" a leitura de teatro, propondo(-vos) um envolvimento crescente com diferentes formas de exposição e de expressão da realidade (ou de realidades).
Ao longo desta semana passarão por aqui: Ester Gerritsen- cujo excerto de monólogo se segue- (Holanda), Judith Herzberg- também monólogo- (Holanda), Jon Fosse (Noruega), Anthony Neilson (Escócia) e Harold Pinter (Inglaterra). Futuramente, outros autores, de outras nacionalidades (ou das mesmas), estarão igualmente presentes. Avanço-vos já que a 2ª semana no Teatro acontecerá no próximo mês de Fevereiro.

Para não me alongar mais, uma breve informação sobre Esther Gerritsen:
nasceu em 1972, formando-se em Estudos Dramáticos pela Escola das Artes em Utrecht, no ano de 1995.
O excerto do monólogo que se segue estreou em 1999 no Teatro Gasthius em Amsterdão, percorrendo seguidamente a Holanda no âmbito de um programa de jovens dramaturgos
.

Passando ao monólogo:


MULHER:

Uma batata.
Estou só com a batata.
Juntos formamos um universo.

...

De manhã a mulher descasca batatas.
É possível.
Desde que as ponha na água.
Às onze horas descasca as batatas para as cinco e
meia.
Assim juntam-se as onze horas e as cinco e meia.
O intervalo é um tempo suspenso.
É nesse tempo suspenso que ela existe.
É aí que ela vagueia.

São onze horas e está tudo pronto para as cinco e meia.
As roupas que foram passadas já não olham para ela.
As plantas que foram regadas só pensam nelas próprias.
As batatas que foram descascadas já não estão interessadas na mulher.
Tudo ocupou o seu lugar e ela ficou só.

Tudo espera pelas cinco e meia em silêncio.
O espaço cala-se.

São onze horas.
A mulher olha para a última batata por descascar.
Até às cinco e meia esta batata é a única coisa que ainda espera alguma coisa dela.
Juntas formam um universo.
Só com essa batata é que ela tem uma relação.
A batata espera alguma coisa dela.
Ela tem planos para a batata.
Ela pensa que a batata é um "ele".
E pensa nele.
Junto têm um futuro.
Ainda.

A casa é um mundo.
A mulher a única sobrevivente.
Ela é do tempo de depois da catástrofe.
Ela é a protagonista num desses filmes sobre o que
se passa depois da terceira guerra mundial.
Não há mais nada.
A não ser ela.
E o que resta do mundo.
E ele.
Claro.
O homem.
Mas ele há-de vir.
Vem daqui a pouco.
Mais tarde.

Ele tem um papel noutro filme.
É um filme sobre pessoas.
Um filme sobre relações.
Um "human interest film".
Um filme sobre sonhos e desejos.
Sobre conflitos interiores.
Ele é que tem uma vida emocional.
Tem uma vida de pensamentos.
Interroga-se sobre as coisas.
Ele duvida.
Ele espera.
Ele lamenta.
Ele deseja.
É um ser humano.
Não faz mal.
Ela gosta do seu ser humano.
Ela não tem nenhuma relação.
Ela tem-no a ele.
Ele é o marido dela.

(...)

Encontrou-o a ele.
O marido.
E então tudo parou.
Ela parou.
Porque gostava dele.
Era o suficiente.
Cobria tudo.
Ele interessava-se por ela.
Pela existência dela.
Pelas relações dela.
Pelos pensamentos dela.
Queria saber tudo dela.
Ela achava bem.
Ela também queria saber alguma coisa.
E ao mesmo tempo não.
Gostava dele.
Era o suficiente.
Ela não estava interessada.
Ela já o conhecia.
Ela era o marido dela.

Ela deixou de pensar em chegar a algum lado, em como lá chegar, com que meios, por que preço, as vantagens e as desvantagens, a ideia por detrás, a visão do porque é que a gente faz o que faz, e ela própria, sobretudo ela própria, quem era, quem viria a ser, o que achava dela própria e o que achava que devia achar dela própria, o que ela própria achava que ela própria achava que ela própria achava dela própria trocou o seu mundo de pensamentos por um mundo mais palpável, o mundo de que vestido, que prédio, que bolo, o tamanho da casa, em que bairro, qual a marca da misturadora, e viu as coisas à volta dela, viu efectivamente pela primeira vez as coisas à volta dela, e encontrava-se a ela própria nos armários, nas roupas, nos electrodomésticos, deixou de ser acessível às pessoas que pensavam nisso, que lhe sussuravam coisas, tais como materialista, dependente, limitada, ingénua, tornou-se completamente surda, porque as coisas já não representavam mais nada, a misturadora já não era igual a um electrodoméstico moderno, igual a: materialismo, igual a: presunção, burguesia, a misturadora não representava mais nada, a misturadora era a misturadora, era Braun a misturadora, era a misturadora dela, tal como as bonecas dela antigamente eram as bonecas dela.

(...)

Ele vem.
Vem salvar-me.
São cinco e meia.
Vem.
Tens de vir.
Chegar a casa.

(...)

Estou a ouvir-te.
Ouço-te chegar.
Vem!
Estou aqui.
Estou a olhar pela janela.
Estou à espera.
De ti.
Para que juntos.
Aguento.
Espero.
Vem.
Vem!
Bolas, vem!
Estou aqui.
Vem.
Vou. Vou. Não.
Vem!
Vens mas não vens.
Bolas, estou a ver-te.
Vejo que estás ao virar da esquina.
Estou a ver-te!
Anda.
Vem!
São cinco e meia!
Tens de vir para casa!
Tens de vir para ao pé de mim.
Vem! Vem!

(...)

A porta da garagem está aberta!
Aberta para ti!
Pronta!
Entra!
Entra cowboy!
Vem cowboy!
Estou aqui!
I-ha!
Vem cowboy.
Sai desse carro.
Vem buscar-me!
Pega-me!
Vem-me...
Vem.


(Esther Gerritsen- DONA DE CASA. Fotografias de Philippe Pache)

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janeiro 16, 2005

"X E Y: A ESTÓRIA"- CAPÍTULO 5

Na persistência destes dias que nos envolvem a persistência, também, de uma estória que se nos entranha. E nesse entranhar, um emaranhar de nós connosco, numa calma agitação de sentimentos pelo que lemos e pelo que nos vem ou é susceptível vir de fora.
Persistências várias, em nós, nos espaços e no(s) tempo(s) que as percorrem, que nos percorrem, que nos tranquilizam ou que nos agitam.
E mais um capítulo se segue:


A PERSISTÊNCIA DOS DIAS

Estes dias têm doído mais. Estes dias, estes dias que arrastam meses e anos atrás de si. Dois velhos chinelos sem solas que se arrastam pelo chão, enfiados em dois pés que rangem ossos por baixo da pele ausente de carne firme. São estes os meus dias. E eu encosto-me novamente nas costas da tua cadeira, desvio os olhos do horizonte, do oceano longínquo e aqui tão perto de mim, e sinto o cheiro a maresia que sobe pela montanha tão devagar como se viesse descalço e a ondular numa dança do ventre em camera lenta. A música está lá. Está aqui. E toca tão baixinho, tão suave que é impossível magoar os ouvidos. Este silêncio dói. Este silêncio, e esta raiva que agora não arde, camuflada de azul acizentado. A névoa ao longe vai caindo e confunde-se com as ondas e as ondas deixam-se embalar pela música que não me magoa os ouvidos.
O cigarro repousa, apagado, sobre o cinzeiro de mármore branco. E o seu corpo, agora transformado num cilindro anoréctico de cinzas, descansa em paz, enquanto o fumo paira pelo ar deste espaço cheio das tuas mãos, dos teus pés, dos teus olhos, dos teus pensamentos, da tua respiração que era tão viva e depois, nestes dias, tão morta. E eu paro mais um pouco e revejo-me neste cigarro que morreu após o primeiro toque de dedos e de lábios. Que morreu, lentamente, após a primeira inspiração e o primeiro sopro de desejo, de prazer, de necessidade quase amor e quase paixão e quase qualquer coisa que nos degrada de dia para dia porque faz mal mas sabe-nos bem. Revejo-me assim, a morrer sentado nesta cadeira cinzeiro de mármore duro e frio e desconfortável, a ver o tempo passar, a ver o tempo a arder lentamente; as minhas ideias a subirem entre ondulações e vales de uma vida; e eu cá em baixo sentado entre as ameias de um castelo cadeira de mármore posto ao contrário pelas mãos de uma criança; esquecido numa praia ao fim do dia. Imóvel, preso, fundido ao chão a observar as pessoas que abandonam o sol, a água, a areia, toda uma praia ao final de um dia. Estes dias que me doem.
E sentado nesta cadeira, a tua cadeira, a observar o defunto, eu vejo-me a morrer sentado, de braços cruzados em cima de um peito caixa-forte, cujo código apenas tu conhecias; apenas tu possuías. Vejo um homem que desliza pelo tempo perdido e pelo tempo que se perde, pelo tempo que o fez perder-se, absorto em divagações de fumo que sobem e morrem no ar silencioso, misturados com o aroma a oceano; misturados com a essência do mar, com a pureza das ondas que adormecem num embalo fraterno. Uma passadeira verde e dourada que se estende aos pés de um homem pequenino, de cabelos claros e pés a sonhar que saltitam de nuvem para nuvem. E tudo brilha, e tudo sorri. E ele, com os seus olhos abertos numa alegria temperada de inocente curiosidade, corre para os braços do caminho vida e tempo infinitos. Era eu criança. E era eu outra vez naquele dia, quando os meus olhos encontraram os teus. E nesse momento, nesse momento desse dia, o dia que menos me doeu em toda a vida, eu revi os meus pés pequeninos que corriam na passadeira verde e dourada; eu vi essa passadeira desenrolar-se do interior dos teus olhos. Duas lágrimas que brilharam de alegria e esperança, e se uniam num misto de desejo e travessura, transformados agora em passadeira, na direcção dos meus olhos que te fitavam alucinadamente inocentes. Desejo e travessura, habilidosamente embrulhados num papel de rebuçado que para mim se estendia. E eu ali naquele dia que menos doeu em toda a minha vida; eu ali outra vez criança grande, homem pequenino. Com duas mãos muito grandes carregadas de histórias perdidas e de sonhos acabados; duas mãos que se estendiam novamente às mãos da vida e do tempo. E tudo me parecia sorrir novamente. Só porque tu sorrias para mim; só porque tu sorrias para mim com os teus olhos, as tuas mãos, os teus pés e toda tu sorrias e brilhavas. E toda tu eras vivacidade, a vivacidade de uma criança.


(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Naushér Benaji)


A edição do próximo capítulo terá lugar dia 22, Sábado. Até lá, fiquem bem. Muito bem.

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janeiro 15, 2005

POESIA DE ADOLESCÊNCIA: A.A (2)

Dando continuidade à edição iniciada a semana passada, deixo-vos com outros três poemas escritos pela Alexandra, naquele que foi o seu período de adolescência.
Sendo que fui já bastante generosa em palavras no post que inaugurou esta mostra, hoje não me vou alongar mais. Julgo que o melhor é passar-vos para o trabalho da autora para que nele se possam envolver. Assim:


O MEU JARDIM

No meu jardim não existem flores
Apenas sons e algumas cores
No meu jardim não existem plantas
Apenas pecados de pessoas santas
No meu jardim não existem árvores nem arbustos
Porém, existem sentimentos bastante robustos
No meu jardim não existem cactos; não é um deserto
Apenas existe o que está errado e o que está certo
No meu jardim não se ouvem pássaros a cantar
Ouvem-se somente vozes de pessoas a falar
No meu jardim existe alegria e tristeza
Por vezes sabe-se o que se quer, outras não se tem a certeza!
No meu jardim não há folhas caídas no chão
Mas nele existe a palavra sim e a palavra não
No meu jardim existe ódio e amor
E também alguma coisa, como que, seja lá o que for!
O meu jardim não é vedado
Permite-se a saída a quem lá tenha entrado
O meu jardim, o meu jardim! Por vezes é mal tratado
Outras vezes vejo que com amor dele têm cuidado
O meu jardim, é o meu jardim!
Quem manda nele sou eu, até chegar o seu fim.


SEM MEDO

É sim, afirmativo
Por vezes sou um brinquedo inofensivo
Pois sim, pois bem
O sentimento vai, o sentimento vem
Sem reacção
Sem ilusão
Solta o barco e deixa-o à deriva
Não olhes para trás nem impeças que ele siga.
Deixa-o andar, deixa-o correr
Deixa-o no mar para ele se perder
Deixa-o no mar, deixa-o no mar
Deixa-o, deixa-o, deixa-o lá ficar
Nada irá acontecer e se acontecer...
Quem quererá saber!
Ninguém se irá importar
Se o barco se afundar.
Pois sim, pois não
Temos sempre que dar a mão
Querendo ou até sem querer
Temos que dar o braço a torcer.
Sobe, sobe, sobe o que for mais alto
Mas depois, não tenhas medo de dar o salto
Sobe, sobe, porque o caminho é sempre a subir
Olha para cima, não tenhas medo de cair
Voa, voa, voa sem as asas
Encara a vida que não é um conto de fadas.
Cai e levanta-te
Não percas a corda, agarra-te, manda-te
Vai de cabeça, não percas nenhuma oportunidade
São poucas na vida assim como os momentos de felicidade.
Luta sempre sem parar
Não durmas hoje, não vás descansar.
Olha-te ao espelho da alma
Vês que não podes ficar calma?
Põe a mão na consciência
Vês que não podes perder a paciência?
Luta sem medo, sempre sem medo
Porque para ti, o perigo já não é segredo
Muita coragem, muita coragem
Porque a vida não é só uma passagem.


SOU O QUE SOU

Sou o que eu quiser
A vida é um risco...
Sou homem ou mulher
O predador, a presa ou o isco.
Sou inocência ou vingança
Bondosa ou a maldade
Sou a espera da esperança
Por vezes presa em liberdade!
Sou fiel ou traidora
Consoante as provas que me vão dando
Um pouco tímida ou provocadora
Dependendo de como, quem ou quando!
Fraca ou resistente
Com sabedoria ou ignorante
Por vezes triste, outras contente
Garantindo a quem me garante.
Vou amando sem pensar
Vou agindo sem sentir
Para trás não posso voltar
Não quero chorar, apenas rir.
Sou vulgar ou a invulgaridade
Mas passo sempre despercebida
Comigo há sempre rivalidade...
Mas também ando sempre prevenida!!!
Esta é a verdade, para quem queira acreditar
Sou o que eu quiser e bem me apetecer
Sou tentação para quem me desejar
E se existo é porque não quero desaparecer.


(Poemas de Alexandra Antunes. Fotografias de José Marafona)


O próximo conjunto de poemas será editado dia 23, Domingo. Mais um conjunto que, espero, vos permita continuar a consolidar opinião sobre o estilo e as temáticas abordadas pela Alexandra, já agora (e porque não?), arriscando um exercício de comparação com as suas produções actuais, inclusive em Prosa. Difícil? Ora vá lá: tentem! ;)


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janeiro 14, 2005

"X E Y: A ESTÓRIA"- CAPÍTULO 4

Deixo-vos com mais um capítulo desta estória. Mais um capítulo cujo conteúdo não é de todo para crianças. Deixo-vos com um capítulo... mais um, onde as lembranças e a saudade se abraçam num aperto de (quase) tirar a respiração. Deixo-vos com mais um capítulo com uma grande carga emotiva. Fiquem bem... aguentando-o.


CRIANÇA INOCENTE

Pouso o cigarro aceso no cinzeiro. Inclino o meu corpo até ao parapeito da janela do escritório. Desvio os cortinados lentamente e alargo o horizonte da minha memória ao contemplar a neblina que se forma ao longe... lá ao longe onde o sol repousa. Lá ao longe onde os pássaros deixaram de se ouvir. Lá ao longe onde a lua te murmura segredos. Segredos que só tu e ela conhecem. Talvez ela te conte segredos que só eu e ela conhecemos. Talvez seja esta uma das formas possíveis que eu encontro para partilhar a minha vida contigo. O resto de vida que me resta. O pedaço de vida que conseguiste deixar em mim. A minha vida miserável. E penso em ti X. Penso em ti X. Penso em ti desde o nosso começo até ao teu fim X. Até ao teu fim já longe, lá longe.
Eu sei que não consegues ouvir-me neste preciso momento. Neste momento que tão pouco preciso. E estes dias têm sido tão difíceis. Estes dias que se puseram há dias. Estes dias que se puseram iguais ao dia em que te conheci. Ao nosso começo X. Ao nosso começo que terminou no teu fim. Estes dias tão diferentes dos dias em que partiste. Do dia em que largaste tudo e foste embora.
Esses dias doeram-me. O dia em que partiste foi o que mais doeu. E os dias que se seguiram doeram tanto quanto o primeiro; mas a cólera, a raiva, os nervos cegam-nos ao ponto de julgarmos que não dói. Não dessa maneira. Dói mas é uma dor diferente. É uma dor de querer partir tudo à nossa volta, de querer agredir toda a gente que se meta no nosso caminho. É uma dor de querer bater com a cabeça nas paredes até que aquela pessoa entranhada em nós até aos ossos, sair pelas raízes dos cabelos em direcção às pontas encrespadas de irritação.
Eu fiquei pior que estragado nesse dia. Digamos que, fiquei mesmo de cabelos em pé. Creio que perdi uma enorme quantidade de cabelo nesses dias de fúria, e mais tarde, quando as coisas atenuaram um pouco, notei, numa manhã em que fazia a barba frente ao espelho da casa de banho, que já tinha um batalhão de cabelos brancos, em pleno exercício no meio de uma floresta brava. E julguei vê-los perdidos uns dos outros, na escuridão de uma noite de temporal, a procurarem abrigo. Eram as minhas ideias, primeiramente, em conflito. Diziam-me. Tu não estás velho. Não, não. Tu não estás velho. Ainda és um jovem rapaz. Ainda és um jovem e belo rapaz. E depois, as minhas ideias em conflito a perderem-se; a perderem-se na ideia que eu tinha que ainda era novo.