dezembro 31, 2004

HOJE O TEMPO DÓI


(Ilustração de David Ho)

Hoje o tempo dói. Estou em frente da casa, vejo a varanda no cimo dos olhos, a porta semiaberta aguarda a minha entrada. Venho com os olhos dourados de lágrimas. Venho perdido, meu tio que me deixou aqui e eu tão pouco contigo, que o tempo dói. Dói como as estrelas doem o céu, cosidas na pele, espetadas na sua carne.
Dói porque é um tempo só. Porque já não tenho a esperança, a esperança que nunca tive. Estava inocente na minha vida e a mãe a dizer
- Não passa de hoje, dizem os médicos.
e a chorar e a dizer
- Não passa de hoje, dizem os médicos.
e eu a não entender. Porque mesmo quando a mãe me fez querer ver eu não quis. Eu e ela no hospital, sentados junto à entrada de um dos blocos, cá fora ela dizia
- Está pior, não é possível dizer muito.
e eu a não querer perceber. E soube-o hoje, antes desta porta semiaberta em frente, a varanda no cimo dos olhos, com o H à saída da urgência. Soube-o agora porque não consegui querer saber antes. Porque a infância é tão boa. Porque a morte mata a infância, mata crianças que não morrem porque mata o pai delas. Eu que tenho idade para já saber que a morte procura e encontra, lince, que a morte não faz escolhas, escolhe sempre o mais perto de nós, eu, que sou tão novo e já tão velho, tão rapaz e pouco criança, tão criança por ser tão perto de vós, meus pais, eu, eu que sei agora: a morte chega e mata-nos por dentro ao matar quem nos é dentro, connosco.
E não quero mais entrar em casa, ser o teu lugar no sofá nunca. Não quero e não vou, espero à entrada da porta que ela se feche de tão pouco semiaberta que está. Espero que encerre lá dentro a morte, que me deixe ser criança mais tempo.

(Jorge Reis-Sá - POR SER PRECISO)

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A VIVÊNCIA AMPLA DA NOSSA EXISTÊNCIA


(Fotografia de Alberto Monteiro)

Temos de assumir a nossa existência o mais amplamente possível; tudo, até mesmo o impensável, tem de ser possível. No fundo é esta a única coragem que nos é pedida; ter coragem para o mais estranho, o mais singular e o mais inexplicável que possamos encontrar. O facto de a humanidade ter sido cobarde neste sentido fez muito mal à vida; as experiências a que chamam visões, o todo dito mundo-espiritual, a morte, todas estas coisas que nos estão tão próximas, têm diariamente sido tão afastadas da vida que os sentidos com que as podíamos agarrar estão agora atrofiados. (...) Pois não é apenas a inércia a responsável pela repetição das relações humanas, indiscritivelmente monótonas e iguais; é a timidez perante qualquer tipo [de] experiência nova e imprevisível com a qual não nos sentimos capazes de lidar. Mas só alguém que está pronto para tudo, que não exclui nada, nem mesmo a coisa mais enigmática, viverá a relação com o outro como algo vivo que sairá dele próprio [e] da sua existência. Pois se pensarmos nesta existência do indivíduo como um quarto maior ou menor, parece evidente que a maioria das pessoas aprendem a conhecer apenas um canto do seu quarto, um lugar junto à janela, um pedaço de chão no qual andam de trás para a frente. Assim sentem alguma segurança. E, no entanto, essa insegurança perigosa é muito mais humana (...). E se ao menos arranjarmos a nossa vida de acordo com esse princípio que nos aconselha a agarrar aquilo que é difícil, então aquilo que nos parece agora tão estranho tornar-se-á algo em que confiamos e que consideramos mais fiel. (...)
De forma que, caro Sr. Kappus, não deve ter medo, se a tristeza cresce de uma forma que você nunca sentiu (...). Tem de pensar que algo lhe está a acontecer, que a vida não o esqueceu, que o mantém nas suas mãos; não o deixará cair. Por que deseja afastar da sua vida qualquer agitação, qualquer dor, qualquer melancolia, já que desconhece o que estes sentimentos trabalham para si? Por que deseja atormentar-se com a questão se tudo isto vem para onde é preciso? Uma vez que sabe que se encontra no meio de uma transição e nada mais queria do que uma mudança... Se existe algo de mórbido no seu desenvolvimento, lembre-se que a doença é o meio pelo qual o organismo se liberta de algo estranho; assim, devemos ajudar a doença, de forma a tomá-la toda e cortar com ela, pois assim é o progresso. Em si, caro Sr. Kappus, tanto está a acontecer; tem de ser paciente como um doente e confiante como um convalescente; pois talvez seja ambos. E mais: você é também o médico, que tem de o vigiar. Mas há, em todas as doenças, muitos dias em que o médico nada mais pode fazer do que aguardar. E é isso que você, na medida em que é o seu médico, deve agora fazer.

(Rainer Maria Rilke- CARTAS A UM JOVEM POETA)

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dezembro 30, 2004

LATINAS. WOMEN OF LATIN AMERICA

Deixo-vos como sugestão musical, um cd que tenho na minha cdteca. Como apreciadora que sou das sonoridades latinoamericanas o trabalho em questão não poderia deixar de constar, inclusive, por outra razão que entendo como sendo obvia. O cd a que me refiro é, pois:

Quanto às cantoras e canções que o compõem são:

1. Susana Baca - Peru- "Zamba Malotó"
2. Totó La Momposina - Colombia- "Los Sabores del Porro"
3. Lhasa - México/USA - "De Cara a la Pared"
4. Celina González - Cuba- "Guajira Linda"
5. Eva Ayllón - Perú- "Raíces Negras"
6. Mariana Montalvo - Chile- "La Libélula"
7. Xiomara Fortuna - Brasil- "Há Mulheres"
9. Nazaré Pereira - Brasil- "Brasileira, Tout Simplement"
10. Trio Los Chasouis - Perú- "Azucar de Caña"
11. Mercedes Sosa - Argentina- "Un Son Para Portinari"

Para que fiquem com mais informação, acrescendo seguidamente parte da introdução constante neste trabalho:

"No siempre ha sido fácil para las mujeres el hacerse escuchar en las sociedades de America Latina, tradicionalmente dominadas por los hombres. Pero sus voces transmiten las tradiciones, con sus cantos de cuna para arrullar a los niños y las canciones que se entonan en los dias de fiesta. De generación en generación, las mujeres han sido guardianes de la memoria colectiva en la cultura musical latinoamericana.
(...)
En los últimos años, las mujeres de América Latina han comenzado a alcanzar una mayor aceptación comercial en la música popular. Todas las cantantes incluidas en esta recopilación se han inspirado en las tradiciones musicales de sus respectivas culturas. Intentan conservar y promover estas tradiciones, mantenerlas actualizadas y apegadas a la sociedad moderna con la incorporación de sus propios sentimientos, ideologias e influencias. (...)
Si bien las canciones de esta recopilación reflejan muchos estilos e historias diferentes, todas comparten un vínculo similar con las tradiciones locales. Todas ellas reflejan la mezcla de culturas europeas, africanas e indígenas, que forma el núcleo de la música latinoamericana. Y sus voces comunican un mensaje positivo, inspirado por el pasado y el presente, que ha sido inspiración de muchas generaciones."


Eu gostei muito do cd. Caso a ele tenham acesso, espero que gostem também.

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DA ASTÚCIA, DO PECADO E DO REMORSO


(Fotografia de Bruno Espadana)

É preciso astúcia para se conseguir viver neste mundo. Está bem. Só os astutos sabem praticar o mal para triunfar. Quem sofra com este estado de coisas e decida fazer uma patifaria, para se vingar, para imitar os outros, deve reflectir que, depois, terá de viver sempre com astúcia, saber triunfar, porque senão a astuta patifaria cometida uma vez servirá apenas para o torturar, contrastando com todo o seu persistente estado de não-astuto, não-patife, inapto.

Pecado é agir contra o que nos é próprio. É uma ruptura de equilíbrio. Daqui resulta que, quando alguém pecou (isto é, tem remorsos, caso contrário não foi pecado), toda a sua vida parece posta em questão.
Conselhos aos pecadores: nunca ficar a meio caminho, mas empenhar-se a fundo e procurar transformar a nova orientação num hábito, transfigurar neste sentido especialmente o próprio passado.

Pode parecer o contrário, mas a coisa que causa mais horror a qualquer pessoa é acordar, uma manhã, diferente do que era na noite anterior. Quer dizer, perder o sentido da sua própria arquitectura interna.
Qual a diferença entre um crime realizado e outro imaginado, saboreado, amado, mas não cometido? A seguinte: o primeiro já não poderá não ser, o segundo deixa a ilusão de não ter perturbado a nossa natureza. Em consciência, deveriam provocar em nós o mesmo remorso; mas não sucede assim porque, no segundo caso, nada nos impede de voltarmos a ser o que éramos anteriormente. (...)
Em suma: a boa consciência não é senão a expressão do desejo que todos temos: ser nós próprios - estar à vontade.

Os pequenos prevaricadores ocasionais sofrem imensamente mais do que os maiores criminosos, porque os segundos são naturais.

Quando o remorso de qualquer má acção nos persegue, não é a dor infligida aos outros que nos desagrada, mas o mal estar que nos agita.

A arte de viver - dado que para viver é preciso fazer sofrer os outros (...) - consiste em habituarmo-nos a fazer todas as patifarias sem abalar o nosso equilíbrio interior. Ser capaz de todas as patifarias é a melhor bagagem que um homem pode possuir.

(Cesare Pavese- O OFÍCIO DE VIVER)


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dezembro 29, 2004

SYLVIA



Encontra-se já disponível em DVD (embora com outra capa de apresentação), o filme que sintetiza a vida de Sylvia Plath (EUA, 1932-1963) e Ted Hughes (Inglaterra, 1930-1998), dois nomes de referência da Literatura do Século XX.
O filme mostra-nos a relação vivida entre os dois desde o momento em que se conheceram em Cambridge, passando pelo casamento (no ano de 1956) e problemas a si inerentes, nascimento dos filhos, relação com os amigos, separação... tudo até ao suicídio de Sylvia.
Paralelamente a esta relação/vivência a dois (ou vivências dos dois), a evolução da carreira de ambos, nomeadamente ao nível da escrita: maiores ou menores sucessos, maiores ou menores reconhecimentos, inspiração/propensão para a criação ou falta dela, temáticas abordadas, etc.
Um filme que considero interessante, em particular pela carga emotiva global, pela densidade psicológica sobretudo respeitante a Sylvia (uma mulher com problemas desde muito jovem, condicionantes estes da evolução da sua personalidade, formas de estar consigo, com os outros e em particular com Ted), e pela boa interpretação dos autores que dão vida às personagens: Gwyneth Paltrow e Daniel Craig.
Uma referência, sem dúvida, a considerar quer para quem já contactou com a obra de Sylvia e Ted ou para quem ainda não o fez servindo de ponto de partida (eventualmente estimulante).

Quanto ao DVD contém os seguintes extras, entre outros:

- Entrevistas a Christine Jeffs (Realizadora), Alison Owen (Produtora);
- Entrevistas a Gwyneth Paltrow e Daniel Craid (para além de outros actores).

Quanto ao tempo de duração:

C. 110'

Se ainda não viram o filme, façam-no(!). Julgo, realmente, que vale a pena, inclusive porque nos pode pôr (e põe!) a pensar sobre nós próprios relativamente ao que fomos/somos/poderemos ser - connosco, relativamente a nós e com os outros/ ou com um Outro.


Publicado por void em 03:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

"ESTOU CANSADA, A MINHA MENTE QUER MORRER" (UM POUCO DE TEATRO)


(Sarah Kane)

[1º registo]

- Fizeste planos?
- Tomar comprimidos, cortar os pulsos, depois enforcar-me.
- Tudo ao mesmo tempo?
- De certeza que não podia ser reconstituído como um grito de ajuda.

(Silêncio.)

- Não ia resultar.
- Claro que ia.
- Não ia resultar. Sentias-te sonolenta dos comprimidos e não tinhas energia para cortar os pulsos.

(Silêncio.)

- Se ficares sozinha achas que podes fazer mal a ti própria?
- Acho que sim e isso assusta-me.
- Pode ser uma espécie de protecção?
- Sim. É o medo que me afasta da linha do comboio. Só espero, por amor de Deus, que a morte seja a merda do fim. Sinto-me com oitenta anos. Estou cansada da vida, a minha mente quer morrer.
- Isso é uma metáfora, não a realidade.
- É um símile.
- Não é a realidade.
- Não é uma metáfora, é um símile, mas mesmo que fosse, aquilo que define uma metáfora é ela ser real.

(Um longo silêncio.)

- Não tens oitenta anos.

(Silêncio.)

- Tens?

(Um silêncio.)

Ou tens?

(Um longo silêncio.)

- Desprezas todas as pessoas infelizes ou sou só eu em particular?
- Não te desprezo. A culpa não é tua. Tu estás doente.
- Não acho.
- Não?
- Não. Estou deprimida. A depressão é ira. Foi o que tu fizeste, quem lá estava e quem culpas.
- Quem é que tu estás a culpar?
- A mim.

[2º registo]

- Epá, o que é que te aconteceu ao braço?
- Cortei-o.
- Isso é para chamar a atenção, que coisa tão infantil. Aliviou-te?
- Não.
- Aliviou-te?

(Silêncio.)

Aliviou-te?
- Não.
- Não percebo por que é que fizeste isso?
- Então pergunta.
- Aliviou a tensão?

(Um longo silêncio.)

Posso ver?
- Não.
- Gostava de ver, para ver se está infectado.
- Não.

(Silêncio.)

- Sabia que podias fazer isso. Há muitas pessoas que fazem. Alivia a tensão.
- Já alguma vez fizeste?
- ...
- Não. És sensível e são demais merda. Não sei onde é que tu leste isso, mas não alivia a tensão.

(Silêncio.)

Por que é que não me perguntas porquê?
Por que é que eu cortei o braço?
- Queres dizer-me?
- Quero.
- Então diz-me.
- PERGUNTA.
ME.
PORQUÊ.

(Um longo silêncio.)

- Por que é que cortaste o braço?
- Porque me sinto muito bem merda. Porque me sinto fantástica merda.
- Posso ver?
- Podes ver. Mas não toques.

- (Olha) Achas que estás doente?
- Não.
- Eu acho. A culpa não é tua. Mas tens de responsabilizar-te pelas tuas acções. Por favor não voltes a fazê-lo.

[3º registo]

Vim ter contigo à espera de ser curada.

És o meu médico, o meu salvador, o meu juiz omnipotente, o meu padre, o meu deus, o cirurgião da minha alma.

E sou tua partidária na sanidade.
---------
para atingir objectivos e ambições
para superar obstáculos e atingir altos padrões
para aumentar a auto-avaliação pelo bem sucedido
exercício do talento
para superar a oposição
para ter controlo e influência sobre os outros
para me defender
para defender o meu espaço psicológico
para justificar o ego
para receber atenção
para ser vista e ouvida
para excitar, surpreender, fascinar, chocar, intrigar,
divertir, entreter ou atrair os outros
para estar livre de restrições sociais
para resistir à coacção e à constrição
para ser independente e agir de acordo com o desejo
para desafiar a convenção
para evitar a dor
para evitar a vergonha
para apagar as humilhações passadas recapitulando as
acções
para manter o auto-respeito
para reprimir o medo
para superar a fraqueza
para pertencer
para ser aceite
para nos aproximarmos e nos relacionarmos agradavelmente
com o outro
para conversar de maneira amigável, para contar histórias,
trocar sentimentos, ideias segredos
para comunicar, para conversar
para rir e contar piadas
para conquistar a afeição do Outro desejado
para aderir e mantermo-nos fiéis ao Outro
para gozarmos experiências sensuais com o Outro
projectado
para alimentar, ajudar, proteger, confortar, consolar,
apoiar, cuidar ou curar
para ser alimentada, ajudada, protegida, confortada,
consolada, apoiada, cuidada ou curada
para construir uma relação agradável, durável, cooperante e recíproca com o Outro, com um ideal
para ser perdoada
para ser amada
para ser livre

(Sarah Kane- 4:48 PSICOSE)

[Os "registos" apresentados são da minha responsabilidade para efeitos de exposição dos excertos da peça de Sarah Kane. Post em reposição.]

Publicado por void em 08:31 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 28, 2004

A CORRIDA DOS 100 METROS


(Fotografia de Larry Towell)

Vejamos o mundo.
Exércitos, lugares onde se sofre,
sacrifícios da mãe pelos quatro filhos, o erudito de óculos a
examinar
o filme pornográfico,
o velho de passo lentíssimo com um casaco exagerado,
uma criança a troçar de outra mais fraca,
o casal a discutir por causa do ruído dos pés de um
e da sensibilidade do ouvido do outro,
e no meio de tantos factos e de tão diversas possibilidades,
oito homens com calças curtas e números nas costas
correm cem metros
- nem um centímetro a mais- e ganham ou perdem.
E uma vitória, por exemplo, pode levar alguém a curvar-se
e a chorar. E o assunto são cem metros de espaço no Mundo.
Pensa, por exemplo, no espaço de um país
ou no espaço da tua casa,
ou no espaço que percorres atrás da rapariga
que te largou a mão no meio da cidade;
porém nada mais há em alguns instantes, para esses homens,
além de: cem metros. Cem metros de espaço no planeta.
Vejamos, pois, o Mundo outra vez.
Como quem lê pela segunda vez um livro. Voltemos atrás.
Vejamos onde o homem perdeu a razão.
Em que momento.

(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)

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DO PRECISAR INTERIOR E EXTERIORMENTE


(Fotografia de Philippe Pache)

Há uma coisa que me perturba desde sempre na tua argumentação,
isso é bastante claro na tua última carta, é um
erro indubitável que tu própria
podes verificar: se dizes (como realmente
é verdade) que amas tanto o teu marido que não o podes deixar (nem ao
menos por amor de mim,
isto é: seria para mim terrível se,
apesar disso, o fizesses), então acredito nisso
e dou-te razão. Quando dizes que na realidade tu o
poderias abandonar, mas que ele precisa de ti interiormente
e não pode viver sem ti, que
portanto por essa razão não o podes abandonar, então
também acredito em ti e também te dou razão.
Mas quando dizes que ele não é capaz de enfrentar a vida exteriormente
sem ti e que tu por essa razão (fazendo disto a razão principal)
por essa razão não o podes abandonar,
então, ou dizes isso para encobrires
os motivos referidos anteriormente (não para reforçares,
pois para reforçares não precisas
desses motivos) ou então é apenas uma dessas brincadeiras do cérebro (de que falas
na última carta) por entre as quais
o corpo e não somente o corpo se retorce.


(Franz Kafka- TRÊS CARTAS A MILENA JESENSKÁ)

Publicado por void em 04:33 PM | Comentários (0) | TrackBack

CADERNO DE POEMAS


(Fotografia de Marília Campos)

Mónica, tenho sentido a tua ausência nas palavras que não te escrevo. Trabalho, muito, distracções várias, preocupações mil que me afastam de ti. Nas palavras quero dizer. Em pensamento, tu a interromperes-me as manhãs as tardes as noites. As mesmas manhãs tardes noites que não te escrevo. Sinto-te na ausência do que não digo. Preciso de escrever-te. Repito: preciso de escrever-te.
Na altura em que acordavas ao meu lado, por vezes achei que tinha tudo por garantido e descurei de elaborar versos com as nossas vidas. Mesmo que não os apreciasses e optasses por dar mais atenção à necrologia dos jornais que não lias.
Nessa altura, achava que dizer
- adoro-te
era o mesmo que escrever-te um caderno inteiro só com poemas. Nessas alturas,
- adoro-te
era suficiente para ti, pois nunca aceitarias nada que tivesse maior extensão que aquele microsegundo em que me ouvias e fingias acreditar. Por vezes, abraçados à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, respondias na inevitável repetição do
- também te adoro,
e o meu peito, buscando forças para acreditar no que dizias, sorria. Dali a um pouco, deixar-te-ia. Iria à minha vida e tu continuarias na tua. Os versos que antes te escrevera, tu irias esquecê-los, ao passo que eu optava por recordá-los, aspirando ter oportunidade de os reproduzir numa outra noite em que me dissesses
- adoro-te
e eu, abraçado à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, pudesse responder-te na inevitável repetição de
- também te adoro.

Sabíamos que eram pequenas verdades como estas que nos davam forças para continuar a nossa grande mentira.

(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA)

Publicado por void em 06:50 AM | Comentários (6) | TrackBack

dezembro 27, 2004

HOMENS E HUMANIDADE


(Fotografia de José Marafona)

Falaram-me em homens, em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si,
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

(Alberto Caeiro- POESIA)

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AS RECORDAÇÕES DOS HOMENS


(Fotografia de Marília Campos)

Nas recordações de qualquer homem há certas coisas que ele não revela a toda a gente, apenas aos amigos. Há outras que nem aos amigos ele revelará, apenas a si mesmo e só secretamente. E, finalmente, há outras que o homem até a si mesmo tem medo de revelar, e qualquer homem decente acumula bastantes recordações dessas. Ou seja, quanto mais decente for, tantas mais recordações dessas tem. Pelo menos, eu, pessoalmente, só há pouco ousei recordar certas aventuras do meu passado, a que até então me esquivara com uma espécie de inquietação. Ora, neste momento, quando não só estou a recordá-las mas ainda por cima me atrevo a anotá-las, queria experimentar: é possível, ou não, ser-se absolutamente sincero pelo menos consigo mesmo e não ter medo de toda a verdade? Uma observação: Heine afirma que as autobiografias sinceras são quase impossíveis e que, de certeza, qualquer homem mentirá ao falar de si mesmo. Na opinião dele, o Rousseau, por exemplo, caluniou-se a si mesmo nas suas confissões, e caluniou-se até intencionalmente, por vaidade. Estou convencido que Heine tem razão; compreendo muito bem como se pode, por vezes, só por vaidade, assacar a si próprio até alguns crimes, e eu percebo muito bem de que género pode ser essa vaidade. Heine, porém, estava a falar de um homem que se confessava, perante o público. Quanto a mim, escrevo só para a minha pessoa e declaro, de uma vez para sempre, que se escrevo como se estivesse a dirigir-me aos leitores, faço-o exclusivamente por fingimento, porque é mais fácil para mim escrever desta forma. É apenas uma forma, uma forma sem importância, nunca terei leitores. Já o declarei.


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

Publicado por void em 02:40 PM | Comentários (3) | TrackBack

DA TRISTEZA (E/OU DA TRISTEZA EM NÓS)


(Fotografia de Philipe Pache)

Borgeby gàrd, Flãdie, Suécia
12 de Agosto de 1904

Quero de novo falar um pouco consigo, caro Sr. Kappus, embora quase nada possa fazer que o ajude, quase nada lhe será útil. Teve muitas e grandes tristezas, que passaram. E diz você que mesmo essa passagem foi difícil e o deixou inconsolável. Mas, por favor, pense se essas grandes tristezas não foram directamente para o centro de si próprio? Se muita coisa em si não se modificou, se algures em si próprio, nalgum ponto do seu ser, não se processou uma mudança enquanto se sentiu triste? Só são perigosas e más aquelas tristezas que nós carregamos entre as pessoas de forma a afogá-las; como a doença que é superficial e tolamente tratada, que apenas se retira e passado pouco tempo aparece de novo, mais violenta; e acumuladas dentro de nós não vida, não vivida, rejeitada, vida perdida, da qual podemos morrer. Fosse-nos possível ver para além do conhecimento, e um pouco além dos limites do nosso poder de adivinhar, talvez suportássemos as tristezas com maior confiança do que as alegrias. Pois são os momentos em que algo de novo entra em nós, algo desconhecido; os nossos sentimentos crescem mudos em tímida perplexidade, tudo em nós se retrai, a calma aparece, e o novo, que ninguém conhece, mantém-se ali no meio e é silêncio.
Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralizantes porque deixamos de ouvir os sentimentos surpreendidos a viver. Porque nos encontramos sós com uma coisa estranha que entrou no nosso interior; porque tudo o que nos é íntimo e familiar nos foi tirado por instantes; porque ficamos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Por esta razão a tristeza também passa; a coisa nova dentro de nós, aquela que está a mais, entrou no nosso coração, entrou para a parte mais profunda e já lá não está - já está no nosso sangue. E não percebemos o que foi. (...) E por isso é tão importante ser solitário e alerta quando estamos tristes; porque o momento aparentemente calmo e silencioso em que o nosso futuro põe um pé dentro de nós está muito mais perto da vida, do que aquele outro ponto no tempo, barulhento e fortuito, que nos acontece como se fosse vindo de fora. Quanto mais quietos, mais pacientes e mais abertos nós formos quando estamos tristes, quanto mais profunda e inabalavelmente o novo entrar em nós, melhor o tomamos como nosso, tanto mais o tornaremos nosso destino, e quando num dia mais tarde acontecer, (...) sentiremos dentro de nós a afinidade e a proximidade.

(Rainer Maria Rilke- CARTAS A UM JOVEM POETA)

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dezembro 26, 2004

O AMOR E O EROTISMO NO FEMININO: MARIA TERESA HORTA (4)

Concluo hoje a edição de poemas de Maria Teresa Horta. Este último conjunto provém da obra "Só de amor", datada de 1999. Os poemas apresentados permitem perceber e sentir a intensidade da escrita da autora, onde o Erotismo surge de forma particularmente aberta, sem nada que o atenue e onde a Mulher é/está de forma completamente livre desejando, amando e sentindo. De não esquecer, também, a vertente da partilha de tudo isto com o Outro, um "eu" que completa um cenário (ou cenários determinados) numa posição de absoluto companheirismo, sem laivos de supermacia. E ambos desejam, estão e sentem.
Ora vejam, então:


CHAMAMENTO

Como podes tirar de mim
o chamamento
um minuto que seja
apagares a chama?

Por ti tiro tudo
e enrodilho
queimando tudo depois à cabeceira

Devagar convoco a tempestada aberta
e no meu peito
o coração tropeça

E não há nada que eu queira
imaginar
que entre nós depois
não aconteça


(SÓ DE AMOR, 1999)


O CORPO

É pêssego
Tangerina
E é limão

Tem sabor a damasco
e a alperce

Toma o gosto da canela
de manhã
e à noite a framboesa que se despe

De maça guarda o pecado
e a sedução

Do mel
o açúcar que reveste

Do licor
a febre que no seu rasgão
me invade me inunda e me apetece

Mergulho depressa a minha boca
e bebo a sede
que em mim já cresce

Delírio que me enche
de prazer
tomando o ponto num lume que humedece

Devagar mexo sem tino
as minhas mãos

Provando de ti
o que de ti viesse

O anis do esperma
o doce odor do pão
que o teu corpo espalha e enlouquece


(SÓ DE AMOR, 1999)


TURBAÇÃO

Não podendo suster
tanto apetite
tanta vontade de te morder
a boca

se estás longe procuro
outra maneira
de te tocar e toda a pressa é pouca

Desço os pulsos e afasto
os meus joelhos

Subo os dedos
e toco a minha folha

Entreabro os lábios
e não querendo é já
uma rosa doce
que a minha mão desfolha


(SÓ DE AMOR, 1999)


DELÍRIO

É o meu mel
que eu cheiro na tua boca

É no teu pénis
que eu bebo a sede toda

Nos meus lábios abertos
que me vencem
eu nado devagar sem ter vergonha

É a lagoa - eu digo
de veludo

É o grito - eu sei
na raiva solta

É a proa do prazer
sobre o lençol
onde mais tarde vai rebentar a onda

Secreto é o ruído
dos corpos
no combate
Os elmos já depostos pelo chão
caídas as viseiras e as máscaras
o vestido misturado à armação

São fulvos os cavalos
com as patas cor do pó
tropeçando na paz adormecida

Eu levo a bandeira
do orgasmo
E "para tão grande amor é curta a vida"


(SÓ DE AMOR, 1999)


INCÊNDIO

Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco

Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume aberto

Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho

Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho


(SÓ DE AMOR, 1999)


(Fotografias de Bryce Lankard)

Esperando que tenham gostado da selecção, despeço-me com mais uma saudação a Maria Teresa Horta. De facto a sua poesia é fantástica e... inequivocamente libertadora.


Publicado por void em 09:46 AM | Comentários (6) | TrackBack

dezembro 25, 2004

CHUVA

Deixo-vos com um poema de um fado cantado por Mariza. Mariza é uma referência para mim. É uma fadista que muito aprecio quer pelo seu porte quer pelas suas qualidades/capacidades/potencialidades em termos de interpretação. Por outro lado, a sua prestação em palco é muito boa.
O poema intitula-se "Chuva" e é cantado no 1º album da fadista- Fado em mim.
Ora leiam:

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudade
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
Da história da gente
E outras de quem nem o nome
Lembramos ouvir

São emoções que dão vida
À saudade que trago
Aquelas que tive contigo
E acabei por perder

Há dias que marcam a alma
E a vida da gente
E aquele em que tu me deixaste
Não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai, meu choro de moça perdida
Gritava à cidade
Que o fogo do amor sob a chuva
À instantes morrera

A chuva ouviu e calou
Meu segredo à cidade e eis que ela bate no
vidro
Trazendo a saudade


Acreditem: este fado é muito bom. Para além da letra tem uma música muito bonita. Quanto à interpretação da Mariza: excelente! Se não conhecem, procurem ouvir.

Tenham um bom dia de Natal!

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dezembro 24, 2004

PORÉM A TERRA ACORDOU CANSADA


(Fotografia de José Marafona)

Porém a terra acordou cansada.
Vezes de mais deu vinho e pão à força, à usura. Recusou a oferta de ouro, mas alimentou o exército errado. Confundiu a
espada com os tranquilos.
Agora cansou-se; fechou a porta. Não é o momento da dança,
ainda, nem sequer do repouso.
De manhã o homem volta ao trabalho; a mulher ao adultério.
É o último homem a baixar o coração que o diz: não existe terra
onde o mal se esconda.
Na manhã seguinte o exército regressa;
e até os santos começam a aceitar, no caminho, a carruagem
confortável e as coroas de ouro.


(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)

Publicado por void em 05:35 PM | Comentários (1) | TrackBack

SOBRE A EDUCAÇÃO FEMININA E A CONDIÇÃO DA MULHER


(Fotografia de Bryce Lankard)

Actualmente está na moda falar sobre novos métodos de educação feminina, mas tudo não passa de um disparate. Presentemente as mulheres são treinadas e educadas em perfeita harmonia com os ditames da sociedade moderna real e a missão que o seu sexo deve desempenhar; e a educação feminina dependerá sempre da concepção que os homens têm das mulheres. Ninguém tem dúvidas sobre o que os homens pensam das mulheres. Vinho, mulheres e canções... é o que escrevem os poetas. Basta ler a poesia de qualquer época ou de qualquer país... comecemos pelos poemas eróticos, sobre Vénus e Frineia, observemos as pinturas e as esculturas; facilmente nos apercebemos de que a mulher apenas serve de instrumento de prazer, tanto nas classes altas como nas mais baixas. Mas repare na astúcia do diabo. Já não bastava atribuir à mulher um papel tão degradante, como ainda a obriga a representá-lo de modo tão dissimulado e ardiloso. Por conseguinte, em tempos que já lá vão, podíamos ler como os galantes cavaleiros idolatravam e divinizavam a mulher; nos dias de hoje os homens declaram que veneram e respeitam as mulheres; cedem-lhes os seus lugares, apanham-lhes os lenços de assoar quando estas os deixam cair; alguns até vão mais longe ao admitir-lhe direitos iguais (ocupar os mesmos cargos civis, participar no governo, etc). Mas face a todos estes protestos e declarações a visão que o mundo possui da missão e da posição da mulher manteve-se inalterada: ela continua a ser o que sempre foi... um objecto de prazer; e a mulher está bem consciente de que é essa a realidade. (...) O servilismo feminino consiste em a mulher ser olhada como um instrumento de prazer, e esta atitude é considerada correta. Recebe privilégios e são-lhe concedidos direitos iguais aos dos homens, mas mesmo assim as pessoas continuam a olhá-la como um instrumento de prazer, e continuam a educá-la visando esse fim; primeiro inculcando-lhe estes valores durante a infância e, mais tarde, influenciando a opinião pública. E assim ela continua a ser o que sempre foi, uma serva desmoralizada e aviltada, e o homem permanece também o mesmo: um dono e um proprietário sem conceitos morais. Damos às mulheres cargos em escolas e em hospitais e mesmo assim continuamos a olhá-las como anteriormente. (...)
Só poderá haver uma evolução quando os homens mudarem a sua opinião sobre as mulheres e elas próprias se olharem de modo diferente. Só poderemos superar esta situação quando a mulher compreender que o celibato, a virgindade é o estado mais elevado a que pode aspirar... uma situação que ela agora considera uma vergonha e uma desgraça. Mas até que esta alteração de mentalidade se dê, o ideal de qualquer jovem permanecerá o que é hoje, independentemente da educação que possa ter recebido... atrair o maior número possível de homens para ter mais opções de escolha.


(Leon Tolstoi- ENSAIO SOBRE O CIÚME)


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dezembro 23, 2004

O AMOR E O EROTISMO NO FEMININO: MARIA TERESA HORTA (3)

Segue-se mais um conjunto de quatro poemas de Maria Teresa Horta. Em termos temporais situam-se entre 1977 e 1997, constando nas obras "Mulheres de Abril", "Os Anjos" e "Destino". São eles:


SOLIDÃO

Entre a tristeza
e a saudade

um vago pátio interior
onde flutua

mansamente nos olhos
e ao fluir dos lábios

a solidão dos dias
sem ternura


(MULHERES DE ABRIL, 1977)


ANJO DO TEU CORPO

A parte que é
anjo
do teu corpo

e me procura a meio
da madrugada

Sobrevoando o lago
que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava

A parte que é
anjo
no teu corpo

e me visita
a meio da madrugada

descansando as asas
dos teus ombros
a meu lado:
em cima da almofada


(OS ANJOS, 1983)


(SEM TÍTULO)

Não pretendo mais do que o limite,
que para além do limite
já se entrega

Eu cumpro os meus
limites,
não cumprindo as regras


(DESTINO, 1997)


DIFERENÇA

Aquilo que é secreto
à tua beira
e longe de ti se torna
tão corrente

Aquilo que é vulgar
longe de ti
mas se estás perto
se torna tão diferente

Aquilo que é mistério
indecifrável

se te aproximas até à minha
cama

E que se torna
raivosamente instável
se por acaso não dizes que me amas

Aquilo que é segredo
se o não escutas
e à tua beira fica
desvairado

Aquilo de que fujo
se não juras
ou não me tomas
de modo apaixonado

Aquilo que é mesquinho
e medíocre
se por acaso te afastas do meu
lado

Mas que logo cintila
e refulge
quando regressas vindo do
passado


(DESTINO, 1997)


(Fotografias de Juul de Vries)

O último conjunto de poemas da autora será editado no Domingo. Continuo a contar com o vosso acompanhamento. Até lá!

Publicado por void em 06:40 AM | Comentários (9) | TrackBack

dezembro 22, 2004

O AMOR E O EROTISMO NO FEMININO: MARIA TERESA HORTA (2)

E eis mais quatro poemas de Maria Teresa Horta. Situam-se estes, em termos de tempo de produção e edição, entre os anos de 1971 e 1975.

São os seguintes:


POEMA AO DESEJO

Empurra a tua espada
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo

que eu sinta de ti a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins

deixa depois que a tua boca
desça
e me contorne as pernas de doçura

Ó meu amor a tua língua
prende
aquilo que desprende de loucura


(MINHA SENHORA DE MIM, 1971)


POEMA SOBRE O ENREDO

Enredada estou de mim
nesta febre em que me vejo
já que enredada de ti
não se cura o meu desejo

que nem me pus de curar
este fogo do teu corpo
nem me pus de enganar
esta sede que provoco

pois logo desenredada
eu sei que me enredaria
neste vício de enredar
o meu espasmo em teu orgasmo
por sua vez enredados na branda rede dos dias


(MINHA SENHORA DE MIM, 1971)


AS NOSSAS MADRUGADAS

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me
defendo

É raiva
então ciúme
a tua boca

é dor e não
queixume
a tua espada

é rede a tua língua
em sua teia

é vício as palavras
com que falas

E tomas-me de força
não o sendo

e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
e o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuíres de mim o que não sabes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

e tu dentro de mim
vais descobrindo vales


(MINHA SENHORA DE MIM, 1971)


O CORPO

Digo do corpo
o corpo:
e do meu corpo

digo no corpo
o sítio e os lugares

de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso em seus vagares

Lazeres do corpo:
os ombros
as lisuras - o colo alto
a boca retomada

no fim das pernas
a porta da ternura
dentro dos lábios
o fim da madrugada

Digo do corpo
o corpo:
e do teu corpo

as ancas breves
ao gosto dos abraços

os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em súbitos cansaços

Vício de um corpo:
o teu
com o seu veneno

que bebo e sugo
até ao mais amargo
ao mais cruel grau do esgotamento

e onde em silêncio
nado
em cada espasmo

Digo do corpo
o corpo:
o nosso corpo

Digo do corpo
o gozo
do que faço

Digo do corpo
o uso
dos meus dias

e a alegria
do corpo sem disfarce


(EDUCAÇÃO SENTIMENTAL, 1975)


(Fotografias de Philippe Pache)

Um outro conjunto de poemas já amanhã, Quinta-feira. Espero que estejam a gostar :)

Publicado por void em 06:47 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 21, 2004

A COISA


(Fotografia de Juul de Vries)

Porém, é impossível descobrir o
nome inteiro das coisas.
Há sempre um sobrenome,
três ou quatro designações de família,
e várias aproximações que nos escapam.
Uma coisa simples como a pedra
poderá ter tantos nomes incertos
como a água. E é só um exemplo.
Daí a dificuldade para entender
um único dia.
É impossível saber o nome inteiro da vida,
mas tal não é razão para te matares já.


(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)

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DO POSICIONAMENTO DA MULHER NO CASAMENTO (E DO CASAMENTO EM SI)


(Fotografia de José Marafona)

- Em que aspecto é que a educação é um mal? - Perguntou a senhora, com um sorriso quase imperceptível nos lábios. - Não podemos concordar, com certeza, com o tipo de casamento de outrora, em que a noiva e o noivo só se conheciam antes do casamento? (...)
Eles não sabiam se gostavam um do outro, se poderiam vir a gostar um do outro, casavam sem saber com quem, sendo infelizes o resto das suas vidas. E, na sua opinião, acha que isso era melhor? (...)
- Hoje em dia as pessoas estão muito mal esclarecidas, - repetiu o comerciante, olhando a senhora desdenhosamente, sem lhe responder à pergunta.
- Gostaria de saber como explica a ligação entre a educação e discórdia no casamento, - exclamou o advogado, sorrindo de modo imperceptível. O comerciante ia começar a falar quando a senhora o interrompeu, dizendo:
- Não, esses tempos já estão completamente ultrapassados.
O advogado, contudo, olhando-a exclamou: - Deixe-o explicar o ponto de vista dele!
- A insensatez provém da educação, - gritou o comerciante de modo dogmático.
- Unem em matrimónio pessoas que não se amam e depois admiram-se que esses casais vivam infelizes, - exclamou a senhora precipitadamente, virando-se para o advogado, para mim, e até mesmo para o caixeiro viajante (...).
- Só os animais é que podem ser tratados assim, - continuou com o intuito de espicaçar o comerciante - o dono emparelha-os e acasala-os da maneira que acha mais adequada. Só que os homens e as mulheres criam os seus próprios laços e têm as suas inclinações naturais.
- A senhora não deve dizer isso, - retorquiu o comerciante. - Um animal é um ser irracional, enquanto o homem tem leis.
- Sim, mas como espera conseguir viver com alguém, se não nutre qualquer espécie de amor por essa pessoa? - Gritou a senhora abruptamente, expressando assim os seus sentimentos que tinha como genuínos.
- Antigamente não se pensava nessas coisas, - afirmou o comerciante com ar solene e autoritário. - Esses costumes só agora é que entraram em voga (...). A coisa mais importante que a mulher deve aprender é a ter medo.
(...)
- Mas a que espécie de medo se refere?- Perguntou a senhora.
- Aquele que está representado nas palavras: " E ela temerá o senhor seu marido". É a esse medo que me refiro.
- Esses dias fazem parte de um passado longínquo, meu caro senhor, - exclamou a senhora com um tom de voz amargo.
- Não, minha senhora, esses dias não podem ser esquecidos. Tal como Eva foi criada a partir da costela do homem, assim permanecerá para todo o sempre.
(...)
- Sim, é assim que vocês, homens, resolvem tão facilmente essa questão,- exclamou a senhora, não se rendendo e desviando olhar noutra direcção.- Vocês têm toda a independência e querem que nós, as mulheres, fiquemos presas "a sete chaves". Mas, no entanto, tenho a certeza de que se permitem ter todo o tipo de liberdades.
- Ninguém tem que nos conceder seja o que for; sabe, um homem não traz qualquer infortúnio ao lar pela sua má conduta fora de casa. Mas uma mulher, uma esposa, é um ser muito frágil.
A ênfase e a gravidade conferidos ao discurso pelo comerciante provocaram um efeito deveras persuasivo nos seus ouvintes. Até a senhora estava consciente da derrota; contudo, recusava-se a desistir.
- Sim, mas penso que todos admitem que uma mulher é um ser humano, dotado de sentimentos, tal como um homem. Então, o que deve fazer se não amar o marido?
- Se não amar o marido? - repetiu o comerciante com voz zangada, movendo simultaneamente as sobrancelhas e os lábios. - Ora, não receie, ela acabará po aprender a amá-lo. (...)
- Oh!, só que ela não aprenderá a amá-lo, - afirmou a senhora. - E se não existir amor, não será a força que o fará nascer.


(Leon Tolstoi- ENSAIO SOBRE O CIÚME, 1891)

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dezembro 20, 2004

O AMOR E O EROTISMO NO FEMININO: MARIA TERESA HORTA (1)

Inicio com este post aquela que será a apresentação ao longo desta semana de poemas de amor e de carácter erótico de Maria Teresa Horta. Na passada Sexta-feira editei, da autora "Ponto de Honra", também, com o objectivo de preparar este destaque.
A edição é/será feita atendendo a uma ordem cronológica de escrita e publicação verificadas, permitindo esta acompanhar a evolução das produções ao longo de dois períodos muito particulares: em Ditadura e após o 25 de Abril, naquilo que isso significa de posicionamento e afirmação amoroso-erótico(a) da Mulher e na forma como o Amor é vivido a dois no âmbito de uma partilha e envolvência plena e em igualdade.
Sendo que a poesia de Maria Teresa Horta tem sempre uma mensagem muito mais global do que aquela que à partida se pode vislumbrar pelo que parece de mais imediato, julgo valer a pena deixar-vos um conjunto razoável de poemas para que a mesma consiga ser melhor e mais consolidadamente entendida.

E o que vos deixo hoje é:

INVOCAÇÃO AO AMOR

Pedir-te a sensação
a água
o travo

aquele odor antigo
de uma parede
branca

Pedir-te da vertigem
a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas

Pedir-te
sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta

pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara

Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas

Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua

Meu ciúme
meu perfil
minha fome

meu sossego
minha paz
minha aventura

Meu sabor
minha avidez
saciedade

minha noite
minha angústia
meu costume

(VERÃO COINCIDENTE, 1962)


SAUDADE

Saudade já saudade
antes saudade
amor de te não ver
porque pressinto

se sinto que te ter
é não saber
distância já agora
e que não minto

Amor de que me calo
e te não digo

amor já saudade
já instinto

(AMOR HABITADO, 1963)


TU

Com esse teu ar
de arcanjo negro

pálido e magro
triste e alheado

ficas por vezes quase etéreo
calado
enquanto eu te olho docemente

Num espanto condenado
quase místico
debruço-me secratamente à tua beira

e numa espécie de prece
porque existes

alheado- magro
belo e triste

estou de joelhos
meu amor
e beijo-te

(CANDELABRO, 1964)


MEMÓRIA

Retenho com os meus
dentes
a tua boca entreaberta

e as palmas das mãos
dormentes
resvalam brandas e certas

As tuas mãos no meu peito

e ao longo
das minhas pernas

(CANDELABRO, 1964)


NOITE

De noite só quero vestido
o tecido dos teus dedos
e sobre os ombros a franja
do final dos cabelos

Sobre os seios quero
a marca
do sinal dos teus dentes

e a vergasta dos teus
lábios
a doer-me sobre o ventre

Nas pernas e no pescoço
quero a pressão mais
ardente

e da saliva o chicote
da tua língua dormente

(CANDELABRO, 1964)


(Fotografias de Philippe Pache)

O próximo conjunto de poemas será editado na Quarta-feira. Até lá!

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dezembro 19, 2004

DA REPRESSÃO DE SENTIMENTOS E DO ANIQUILAMENTO DAS PESSOAS (UM POUCO DE TEATRO)

Deixo-vos com a parte final de "A Casa de Bernarda Alba", peça escrita por Federico García Lorca no ano de 1936 (também o ano da sua morte). Uma peça que é uma tragédia. Como disse o autor, uma tragédia que nada mais é do que a tragédia das mulheres das aldeias espanholas que se encontram presas aos imensos preconceitos que as impedem de viver, na sua plenitude, os sentimentos mais nobres. Mulheres acorrentadas a ideias ou valores sociais pré-concebidas/pré-concebidos que nada mais fazem do que as castrar, gerando situações de imensa hipócrisia cujo resultado é o aniquilamento de si próprias.
O excerto que se segue é uma amostra disso mesmo, do que pode causar em termos familiares em geral e individuais em particular.

LA PONCIA (sempre com crueldade)
Bernarda: aqui passa-se qualquer coisa de extraordinário. Não te quero lançar as culpas, mas tu não deste liberdade às tuas filhas. Martírio é namoradeira, digas lá o que disseres. Por que não a deixaste casar com o Henrique Humanas? Por que é que no mesmo dia em que estava combinado ele vir falar-lhe à janela lhe mandaste recado para que não viesse?

BERNARDA
Tornava a fazê-lo mil vezes. O meu sangue não se junta ao dos Humanas enquanto eu for viva. O pai dele era ganhão!

LA PONCIA
Nunca perdes essas farroncas.

BERNARDA
Tenho-as porque as posso ter. E tu não as tens porque sabes muito bem qual é a tua origem.

LA PONCIA (com ódio)
Não mo recordes. Já sou uma velha. Sempre fui grata à tua protecção.

BERNARDA (altiva)
Não parece!

LA PONCIA (com ódio disfarçado em suavidade)
Martírio há-de esquecer isto.

BERNARDA
Se não o esquecer, pior para ela. Não acredito nessa tal "coisa extraordinária" que se passa nesta casa. Aqui não se passa nada. Isso querias tu! E se um dia alguma coisa houver, fica certa de que não atravessará estas paredes!

LA PONCIA
Lá isso não sei. Na aldeia há mais quem saiba ler no pensamento dos outros.

BERNARDA
Ah, como gozarias se nos visses, a mim e às minhas filhas, no meio das mulheres perdidas!

LA PONCIA
Ninguém sabe o seu destino!

BERNARDA
Pois eu, sim, eu sei o meu! E o das minhas filhas! (...)

(...)

LA PONCIA
Talvez seja melhor não me meter em nada.

BERNARDA
É isso o que deves fazer. Trabalhar e boca calada. É essa a obrigação dos que trabalham para os outros.

LA PONCIA
Mas não pode ser. Não achas que Pepe estaria melhor casado com a Martírio ou... sim!, com a Adela?

BERNARDA
Não me parece!

LA PONCIA
Adela. Essa, sim, é que é a verdadeira noiva do Pepe!

BERNARDA
As coisas nunca correm a nosso gosto.

LA PONCIA
Mas custa muito uma pessoa não seguir a sua verdadeira inclinação. A mim parece-me mal ver o Pepe com a Angústias! E a toda a gente! Até ao ar! Quem sabe o que virá a acontecer...

(...)

MARTÍRIO (em voz baixa)
Adela! (Pausa. Avança até à porta. Em voz alta.) Adela!

(Entra Adela. Vem um pouco despenteada.)

ADELA
Que é que queres?

MARTÍRIO
Deixa esse homem!

ADELA
Que autoridade tens tu para me falares assim?

MARTÍRIO
O teu procedimento não é de uma mulher honrada!

ADELA
O que te dói sei eu: é não poderes fazer o mesmo!

MARTÍRIO (em voz alta)
Vou contar tudo! Isto não pode continuar assim!

ADELA
E ainda estamos no começo. Eu cheguei primeiro, minha invejosa. Tive a coragem que te falta. Fugi da morte que paira nesta casa e fui procurar o que era meu, a vida que me pertencia!

MARTÍRIO
Esse homem sem alma veio por causa de outra, e tu atravessas-te no caminho!

ADELA
Veio pelo dinheiro, mas nunca tirou os olhos de mim.

MARTÍRIO
Não consentirei que o roubes! Há-de casar-se com Angústias.

ADELA
Sabes tão bem como eu que ele não a quer.

(...)

ADELA
Por isso é que não queres que eu vá ter com ele. Que te importa que ele beije uma mulher de quem não gosta?! A mim, também, que me importa! Pode viver à vontade cem anos com a Angústias. Mas que me beije a mim isso faz-te uns ciúmes terríveis, porque também gostas dele, também o queres!

MARTÍRIO (dramática)
Sim! Confesso-o sem vergonha. Sim! Posso rebentar de amargura, mas é verdade: adoro-o!

(...)

BERNARDA
Acabem com isso! Que miséria a minha, não poder ter um raio para as fulminar!

MARTÍRIO (apontando Adela)
Esteve com ele! Olhe como ainda tem as saias cheias de palhas!

BERNARDA
A palha é a cama das desgraçadas!
(Dirige-se furiosa para Adela.)

ADELA (fazendo frente à mãe)
Acabou-se a prisão! (Adela tira a bengala das mãos da mãe e parte-a em duas) Veja o que faço à sua tirania. Não dê nem mais um passo. Em mim só manda o Pepe!

(...)

BERNARDA
A espingarda! Onde está a espingarda?!

(...)

ADELA
Ninguém poderá vencer-me!

ANGÚSTIAS (dominando-a)
Não sais daqui com esse ar de triunfo! Ladra! Desonra da nossa casa!

MADALENA
Deixa-a, que vá para onde nunca mais a tornemos a ver.

(Ouve-se um tiro.)

BERNARDA (entrando)
Anda, vai agora procurá-lo!

MARTÍRIO (entrando)
Acabou-se o Pepe Romano!

ADELA
Pepe! Meus Deus! Pepe!

(Sai correendo.)

LA PONCIA
Mataste-o?

MARTÍRIO
Não. Fugiu a cavalo.

BERNARDA
A culpa não foi minha. As mulheres não sabem apontar.

MADALENA
Por que disseste então que o mataste?

MARTÍRIO
Para me vingar dela! Era capaz de fazer correr rios de sangue!

LA PONCIA
Maldita!

MADALENA
Excomungada!

BERNARDA
Foi melhor assim. (Ouve-se um ruído.) Adela! Adela!

LA PONCIA (à porta)
Abre!

BERNARDA
Abre! Não penses que estas paredes podem esconder a tua vergonha!

CRIADA (entrando)
Os vizinhos já acordaram!

BERNARDA (em voz baixa como um rugido)
Abre, se não arrombo a porta! (Pausa. Tudo continua em silêncio.) Adela! (Afasta-se da porta.) Tragam um martelo!

(La Poncia dá um empurrão à porta e entra. Ao entrar dá um grito e sai.)

BERNARDA
Que é?

LA PONCIA (levando as mãos ao pescoço)
Deus queira que nenhuma de nós tenha um fim como este!

(As irmãs recuam. A Criada benze-se. Bernarda dá um grito e avança.)

LA PONCIA
Não entres.

BERNARDA
Não! Eu não entro! Tu, Pepe, continua a correr, vivo, pela escuridão dos caminhos... Mas um dia cairás! Tirem-na da corda! A minha filha morreu virgem! Levam-na para o quarto e vistam-na como uma donzela. Nem uma palavra do que se passou! Morreu virgem! Ouviram?! Mandem aviso, para que ao amanhecer toquem os sinos.

MARTÍRIO
Foi a única ditosa de nós todas!

BERNARDA
Nada de choros! A morte é preciso olhá-la de frente. Silêncio! (Para outra filha:) Cala-te, já te disse! (Para outra filha:) Guarda as lágrimas para quando estiveres sozinha. Havemos de nos afogar todas num mar de luto. Adela, a filha mais nova de Bernarda Alva, morreu virgem. Ouviram-me?! Silêncio! Já disse: silêncio!


(Federico García Lorca- A CASA DE BERNARDA ALBA)

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O TEMPO E A DOR PROVOCADA


(Fotografia de Philippe Pache)

Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei seis dias, a própria triste sala de espera da estação de caminho de ferro onde gastei duas horas à espera do comboio - sim, mas as coisas boas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da hora de Deus roça-me pela face lívida.
O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas.


(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

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dezembro 18, 2004

(SOBRE A) VANTAGEM HUMANA


(Fotografia de José Marafona)

Oh, mas digam-me: quem foi o primeiro a proclamar, o primeiro a declarar que o homem faz sujeiras só porque não conhece os seus verdadeiros interesses; e que, se for esclarecido, se alguém lhe abrir os olhos para os seus verdadeiros e normais interesses, o homem deixará imediatamente de fazer pulhices, tornar-se-á sem tardança bom e nobre, porque, iluminado por alguém e na posse da consciência das suas vantagens, ele, consequentemente, começará por assim dizer a fazer o bem? Ó criança! Ó bebé puro e inocente! Mas desde quando, em primeiro lugar, em toda essa ceterva de milhares de anos, o homem age apenas movido pela vantagem própria? Que fazer então dos milhões de factos testemunhando que os homens, conscientemente, ou seja, compreendendo totalmente quais são as suas verdadeiras vantagens, as afastaram para segundo plano e se atiraram por outro caminho, se entregaram ao risco, ao deus-dará, sem serem forçados por nada nem por ninguém, mas não querendo contudo seguir o bom caminho e abrindo teimosa e voluntariosamente o outro, difícil, absurdo, procurando-o por entre a escuridão? Significa que tal teimosia e voluntariedade lhes foi de facto mais atraente do que qualquer vantagem... Vantagem! O que é vantagem? Querereis tomar a responsabilidade de definir com toda a precisão em que consiste exactamente a vantagem para o homem? E se suceder que a vantagem humana, em determinada ocasião, consista, não só possível mas precisamente, em desejar para si o pior e não o que mais lhe convém? Se assim for, se tal ocasião pode acontecer, então toda a vossa regra dá em nada. (...) Porque as vossas vantagens são a prosperidade, a liberdade, a tranquilidade, etcaetera, etcaetera; portanto, um homem que, digamos, alerta e conscientemente agisse em contradição com essa lista seria, na vossa e, sem dúvida, na minha opinião, um obscurantista ou um doido varrido, não seria? (...) A nossa própria, livre e independente vontade, o nosso próprio capricho, por mais absurdo e selvagem que seja, a nossa própria vantasia, desenfreada por vezes até à loucura- eis a mais vantajosa das vantagens, a que foi omitida, a que não se encaixa em nenhuma classificação e que permanentemente faz desmoronarem-se todos os sistemas e teorias. Onde foram todos esses sábios buscar a ideia de que o homem precisa de uma qualquer vontade normal e virtuosa? Por que razão fantasiaram eles que é indispensável ao homem uma vontade sensatamente vantajosa? O que o homem precisa é só de uma vontade independente, custe o que custar e leve aonde levar esta independência. E sabe-se lá que diabo de vontade é essa...


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

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CONVERSAS ENTRE AMIGOS


(Fotografia de José Marafona)

Quando, a meio de uma conversa entre amigos,
chega o acostumado momento das recordações,
e nos seus lábios ressuscita em claro-escuros
a flor seca do passado, penso surpreendido
que os clássicos tinham razão
quando escreveram com tal subtilieza os seus belos tópicos
acerca da fugacidade do tempo,
e sacode-me com violência
a inutilidade destas repetições.

A fugacidade do tempo
não é coisa que me assombre,
mais estranho seria
deter a ordem das horas;
mas ouvir questões
que nos velhos livros já eram velhas
repetidas de forma torpe e presumidamente nova
é coisa que me assusta.


(Ricardo Arregi- revista "Periférica". Nº 10. Verão 2004, p. 57)

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DVD MAFALDA VEIGA

Os dias 4 e 5 de Outubro de 2003 foram particularmente importantes na carreira musical de Mafalda Veiga, na medida em que fez os seus primeiros espectáculos no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Actuar neste espaço sempre fora um sonho da cautautora; significava como que uma espécie de consagração. Os anos passaram, os albuns foram sendo gravados até que neste ano o tão desejado, aconteceu.
Eu estive presente no concerto, como fã da Mafalda que sou. Adorei! Simplesmente adorei, embora ache que o Coliseu seja um espaço demasiado grande/amplo para o intimismo passado com as suas canções e pelas suas prestações ou postura em palco. Mas isto é um detalhe de opinião. O Coliseu estava cheio, o entusiasmo foi enorme e o tempo passou num ápice. Sem qualquer dúvida, quando mais o concerto avançava mais eu me sentia envolvida por todo aquele ambiente, nos quais as canções se afirmavam com uma força cada vez maior.

E eis que agora, um pouco mais de um ano depois, chega ao mercado o dvd do espectáculo. Trabalho esperado pelos fãs da cantautora mas certamente não só. Evidentemente, também, que o adquiri. Tê-lo é, pois, uma forma de reforçar em mim uma noite que foi tão especial com a possibilidade de a recordar sempre que desejar. Claro que já o fiz e, acreditem, voltei a arrepiar-me várias vezes.

Para lembrar a quem lá esteve e para os que não tendo estado, se podem interessar pela respectiva aquisição (que, conjuntamente com o dvd, inclui um cd), deixo as canções interpretadas e constantes:

1- Tatuagens
2- De mão em mão
3- Ouve-se o mar
4- Quando
5- Uma noite para comemorar
6- Llovizna
7- Vestígios de ti
8- Cúmplices
9- O menino do piano
10- Filme
11- O lume
12- Restolho
13- Fim do dia
14- Cada lugar teu
15- Balada de um soldado
16- Velho

Para terminar, deixo-vos com um pequeno depoimento do escritor Jorge Reis-Sá incluído neste trabalho, cujas palavras subscrevo inteiramente:

"Procuro uma palavra para melhor definir este som. Procuro uma palavra para definir os olhos que percrutam a plateia, que aproximam cada verso daquilo que queremos mais nosso- a felicidade.
A Mafalda entrega a cada verso que canta uma doçura que não encontramos em mais nenhuma escritora de canções no nosso país. Porque toca na nossa alma e na nossa pele em partes iguais, entregando a quem a ouve aquilo que mais é necessário na música- a beleza.
Encontro uma palavra para melhor definir este som- o afecto. A Mafalda é uma cantora ímpar, bonita pelos versos que canta e pela pessoa tão querida que os compõe."

De facto!

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dezembro 17, 2004

PONTO DE HONRA


(Maria Teresa Horta)


Não sou escrava
de lamento
nem tento ferida
de enfeite

nem uso a raiva
que tenho
como um alfange
no peito

Não talho o sangue
nas pedras

nem uso palavras de ódio

e não quero anéis
de aceite
para enfeitar os meus olhos


(Maria Teresa Horta- MINHA SENHORA DE MIM)

[Pelo meu feminismo, trazer Maria Teresa Horta aqui, só pode ser motivo de orgulho. Por tudo o que ela defendeu e defende através da Literatura, o meu grande "Bem haja". Sandra]

Publicado por void em 01:51 PM | Comentários (4) | TrackBack

O HOMEM, O NASCIDO DA TERRA


(Fotografia de José Marafona)

O homem, o nascido da terra: como ele caminha, orgulhoso.
Mas não te tornes demasiado grande porque os "deuses gostam de baixar o que se eleva".
Da cultura os Mistérios exigem-te apenas a mão direita limpa,
que não tenhas morto;
que saibas grego se és grego, que saibas a língua da tua mãe, se és filho.
As rochas escondem crianças;
as almas andam no cortejo do ar: procuram carne: mães com força
para as mostrar, para as exibir ao sol.
Não te eleves: o céu é demasiado alto; lá em cima apenas o que
não consegue cair.

(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)

Publicado por void em 06:54 AM | Comentários (7) | TrackBack

dezembro 16, 2004

(im)PERFEIÇÃO


(Fotografia de Marília Campos)

Seria perfeito o traço da curva no papel,
se não houvesse por trás do compasso,
a mão imperfeita do homem.

Qual a beleza da perfeição?
Que beleza há na ausência absoluta
de ansiedade e história?

O rigor não me seduz.
Antes as mãos trêmulas,
o coração a baralhar na boca as palavras.

A precisão completa,
à qual nada seria complementar,
esta exatidão sem finalidades,
não me emociona.

O que mais nos moverá,
afora a vida, ela própria?
Qual a exatidão da vida?

Movo-me na existência curta
que me cabe,
num andar trôpego de afetos.

Meu trajeto longe de ser perfeito,
é um labirinto .
Não o pretendo exato no traçado.
Quero-o pleno nos significados.


(Silvia Chueire- EUGENIAINTHEMEADOW)

Publicado por void em 08:07 PM | Comentários (6) | TrackBack

AMANHÃ A CHUVA PASSA ("ESPAÇO SUB-20"/ENSAIO DE ROMANCE)

Mais um micro-capítulo da estória da Mónica. Nele vamos estar face a um reencontro particularmente "aproximado". Mais um flash. Vamos ver como correm as coisas:


As varias preces feitas a um deus que desconheço foram finalmente recompensadas quando te vi hoje bater à porta. Fizeste questão de dizer que vinhas ver o cão (nunca pensei ficar tão contente por ele estar doente) mas mesmo assim não consegui deixar de olhar para os teus olhos negros que tanto me perturbam. Não sei quem ficou mais feliz por te ver: eu ou ele, que se apressou a saltar-te para o colo e a lamber-te a cara enquanto lhe afagavas o pêlo. Fiquei junto à porta a ver aquela cena tão bela quanto familiar; foi bom ter o teu sorriso de novo aqui em casa.
- Parece que a doença já lhe passou!
- Sente a tua falta, Ana. E não é só ele … (deixei escapar por entre um olhar envergonhado)
E sorris como só tu sabes fazer enquanto caminhas até mim, que continuo embaraçado (nunca fui bom com as palavras). Dás-me um beijo no rosto e dizes-me com toda a serenidade que te é tão característica :
- Também sinto a vossa falta!
E sais apressada para o trabalho, levando mais uma vez sem perceberes o meu coração contigo.


(Mónica- MY PAPER MOON. Imagem de David Ho)

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dezembro 15, 2004

LÁGRIMAS NEGRAS

Um excelente cd resultante de um trabalho conjunto entre Bebo Valdés (uma referência em Cuba), em particular com o seu contributo ao piano e Diego "El Cigala", cantor de flamengo, na interpretação de um conjunto de canções que se situam ao nível dos boleros e dos ritmos afro-cubanos. Estamos, pois, perante um registo musical que faz um percurso pela canção de amor (e acreditem: muito amor e muita paixão) iberoamericana, em particular com paragens em Cuba, América do Centro e Sul, assim como Espanha. Ao nível da produção temos Fernando Trueba e Javier Limón.

As canções:

1. Inolvidable
2. Veinte años
3. Lágrimas negras
4. Nieblas del riachuelo
5. Corazón loco
6. Se me olvidó que te olvidé
7. Vete de mi
8. La bien pagá
9. Eu sei que vou te amar

Garanto-vos que é um cd que dá gosto ouvir, para quem gosta do género, obviamente, mas provavelmente não só... quem não conhece, experimente... arrisque... julgo que não vai arrepender-se.

Publicado por void em 09:01 PM | Comentários (2) | TrackBack

FORA DE CONTROLE


(Fotografia de Elena Vasilieva)

aqui estou eu
toma-me para sempre
guarda-me na tua mão
tranca-me dentro de ti
não libertes a minha alma.
estrangula o meu corpo
de tantos abraços, apertos
asfixia a minha boca
de tantos beijos
rasga a minha pele
com carícias devastadoras
castiga os meus pensamentos
arranca-os, destrói-os, manipula-os!
aqui estou eu
a tua bonequinha voodoo
a tua menina marionete
controla-me... controla-me...
aterroriza-me, atormenta-me
faz-me temer-te
faz-me sentir o pânico
o horror cada vez mais perto
cada vez mais intenso
cada vez mais certo...
sinto o cheiro no ar...
o cheiro da obsessão
deixo-me ser sugada, absorvida
deixo-me levar, pela tua mão...
pela tua voz, pela tua mente...
vou em queda permanente
a flutuar constantemente...
apenas tenho noção
de quão interessante é...
dar tudo o que a minha alma tem,
dar-te todo o meu bom senso,
deixar-me enlouquecer como uma terapia
perder o controle...
(já não consigo viver por mim)...


(Alexandra Antunes- FRÁGIL)

Publicado por void em 06:47 AM | Comentários (11) | TrackBack

dezembro 14, 2004

OS BRAÇOS


(Fotografia de José Marafona)

Como viver? Não há outra pergunta séria.
Um velho com o braço direito partido
folheia o jornal com a mão esquerda.
Penso: assim seria mais fácil.
O corpo a decidir por nós.
Olho para mim: os dois braços intactos.
Que fazer?


(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)

Publicado por void em 08:26 PM | Comentários (2) | TrackBack

O HOMEM E OS SEUS HÁBITOS


(Fotografia de Bruno Espadana)

Meus senhores, claro que estou a brincar, e eu próprio sei que ando mal ao brincar assim, que nem tudo pode ser levado na brincadeira. Talvez esteja a brincar rangendo os dentes. Senhores, estou atormentado de questões, resolvam-nas por mim. Por exemplo, quereis desacostumar o homem dos seus velhos hábitos e corrigir-lhe a vontade de acordo com as exigências da ciência e do senso comum. Mas como é que sabeis que não só tem de ser possível mas também necessário refazer o homem deste modo? Como chegastes à conclusão de que o desejo humano precisa tanto de ser corrigido? Numa palavra, como sabeis que uma tal correcção trará realmente vantagens ao homem? E, já que é de dizer tudo, por que tendes tanta certeza de que não ir contra as vantagens verdadeiras e normais, garantidas pelos argumentos da razão e da aritmética é de facto muito vantajoso para o homem e de que existe uma lei para toda a humanidade? É que, por enquanto, tal não passa de uma suposição vossa. Admitamos que seja uma lei da lógica, mas talvez não seja uma lei da humanidade. Estareis, meus senhores, a pensar que eu sou doido? Permiti-me uma ressalva. Estou de acordo, o homem é um animal, essencialmente criador, predestinado a aspirar a um fim na vida conscientemente e a dedicar-se à arte da engenharia, ou seja, a abrir para si mesmo um caminho, eterna e ininterruptamente, seja para onde for. Mas talvez lhe apeteça às vezes desviar-se para qualquer lado, precisamente porque é obrigado a abrir esse caminho, e também porque, por mais tolo que seja quem age directamente, talvez lhe aconteça de vez em quando pensar que esse caminho vai sempre seja para onde for e que o principal não consiste em que direcção segue, mas no próprio facto de seguir e em que a criança da boa moral não despreze a arte da engenharia e não se dedique à folga nociva que, como se sabe, é a mãe de todos os males. O homem gosta de criar e de construir caminhos, é indiscutível. Mas por que gosta também apaixonadamente da destruição e do caos? Vá, digam lá!


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

Publicado por void em 06:43 AM | Comentários (6) | TrackBack

dezembro 13, 2004

CARTA PARA DEUS

Meu bom Deus,

embora crente na infinidade do Vosso saber e poderio, e certo da Vossa ubicuidade, eu tenho de admitir que por vezes me assalta um ligeiro sentimento de dúvida no que respeita o Vosso interesse por nós e a eficiência dos vossos serviços.
Problemas ficam por resolver, orações urgentes ficam por ouvir, ódios arcaicos desencadeiam guerras, os vulcões cospem fogo, a terra treme, os automobilistas perdem a cabeça, os cirurgiões distraem-se...

Antigamente podia a gente comunicar-Vos os nossos anseios e exprimir-Vos os nossos votos através dos intermediários que mantínheis no Vaticano, em Meca, Jerusalém, na Índia, no Tibete e no resto do Oriente. E o facto dessas transacções serem umas vezes gratuítas e exigirem doutras o pagamento de emolumentos, a dádiva de oferendas ou a realização de sacrifícios, emprestava-lhes mesmo um agradável carácter de roleta, onde, como sabiamente determinastes, a excitação vem do mais do jogar e menos do resultado.

Para mal nosso, porém, duma ou doutra forma todas essas antigas delegações do Vosso poder têm sofrido com a erosão do tempo e dos costumes. Qualquer intervenção do Vaticano - desfazer os sagrados laços dum matrimónio, por exemplo - custa hoje uma fortuna. Numa peregrinação a Meca ou Jerusalém somem-se as economias de anos. Quer a gente visitar a Índia em compenetrada viagem de meditação religiosa, logo o agente de viagens nos tenta impingir também uma volta pelos bordéis de Bangkok ou Hong Kong.
Tal decadência e o abandono em que nos sentimos, atribuo-os eu à simples razão de que actualmente somos em excesso. (...)

De facto, nem mesmo de Deus se pode esperar que simultaneamente oiça os pedidos, os clamores, as aflições e os desejos secretos dos habitantes do universo, e ainda por cima se interesse pelos 6 biliões que povoam a mais pequenina das bolas planetárias.
Ciente dessas circunstâncias, e vivendo nós aqui uma época publicitária, ocorreu-me primeiro que com um anúncio eu talvez conseguisse atrair a Vossa atenção. Depois decidi que não.

Uma carta aberta, como esta, pareceu-me com mais probabilidade de surtir efeito, porque mesmo aí no céu é lógico que a secção de recortes se ache menos sobrecarregada que o serviço de escuta.
Aliás o que Vos quero pedir não é caso de vida ou de morte e nem sequer tem urgência, pois de há muito conheço afeições sólidas, de saúde vou bem e o que ganho cobre o que gasto. Sonhos de poder ou de glória não tenho e o mundo ainda me maravilha, a ponto de com sincero encanto continuo a olhar por vezes uma flor, uma criança, ou paro a admirar a beleza duma paisagem.

O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante. E é disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que eu continue a chamar às coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade.


(J. Rentes de Carvalho- texto publicado na revista "Periférica". Nº 6, Verão 2003, pp. 14-15. Compondo esta carta optei por editar alguns trabalhos de John Vink, fotógrafo belga, retratando a situação de refugiados e deslocados em algumas partes do mundo. )

Publicado por void em 03:40 PM | Comentários (5) | TrackBack

ORÁCULO


(Fotografia de Urs Kahler)

Cumpro correctamente
todo o ritual,
mas, não sei porquê,
quase nunca
se cumprem
as promessas dos deuses.


(Rikardo Arregi- revista "Periférica". Nº10, Verão 2004, p. 56)

Publicado por void em 11:43 AM | Comentários (5) | TrackBack

TELECINÉSIA

- Há que acreditar ou rebentar - disse-lhe o homem que saía da sala quando ele entrava.
Ele acabou de entrar. A mulher esperou que se sentasse, fechou os olhos e, com voz cavernosa, chamou pela mesa provençal que estava no primeiro andar. Movendo agilmente as patas, como um perfeito quadrúpede amestrado, a mesa desceu pelas escadas.
- Isto é incrível - exclamou ele. E, antes que pudesse explicar-se melhor, rebentou.


(Raúl Brasca- Microconto editado na revista "Periférica". Nº 11, Outono 2004, p. 69)

Publicado por void em 09:23 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 12, 2004

ACROMANIA


(Fotografia de Elena Vasilieva)

Loucura completa
Loucura incurável
Loucura indiscreta
Loucura insaciável.
Loucura arriscada
Pela qual estou a passar
Estou tão obcecada
Que deste sentimento, me não consigo livrar.
Quero que seja mentira
Não quero acreditar
Esta é a minha ira
Se não me amas não quero escutar.
Não vou querer ouvir
Nem sequer disso falar
Eu não quero sentir
Que de mim não possas gostar.
Sei que não compreendes
Que para mim és importante
Porque é que não me entendes?
Porque é que para ti sou tão insignificante?!
Lágrimas derramadas...
Tantas que eu já derramei!
Desculpas talvez inventadas...
Quando falar contigo tentei.
Não, não estou a exagerar
O que sinto jamais é exagero
Não, eu só não consigo encarar
Este meu grande desespero.
Meu amor, vou fazer uma tatuagem
Dentro do meu coração
Nele vou gravar uma mensagem
Em honra da minha grande paixão.
Que posso eu fazer?!
Não te posso obrigar...
Se a mim não podes pertencer
Só me resta chorar.
Acromania
Que de mim se apodera
Degradante sinfonia
Que escuto enquanto a minha mente desespera.
Loucura inebriante
Loucura brutal
Loucura tão insinuante
Cada dia que passa se torna mais fatal.
Só queria ternura...
Será que é tão impossível?
Esta é a maior tortura
Já não posso lutar, a paixão é invencível.
Estou a arder
Estou a incendiar
Não paro de enlouquecer
Não consigo suportar.
Para onde quer que olhe, só vejo a tua imagem...
Estás-me no sangue, estás-me na alma.
E o meu coração é tão selvagem...
Tão depressa bate que não me deixa ficar calma.
E esta foi mais uma aventura
Que acabaste de viver
E esta é a minha desventura
Na qual por ti estou a sofrer.


(Alexandra Antunes- FRÁGIL)

Publicado por void em 05:33 PM | Comentários (2) | TrackBack

NÃO BASTA MORRER PARA CONHECER O SORRISO DE DEUS


(Fotografia de José Marafona)

Não basta morrer para conhecer o sorriso de Deus- mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira. Quando o pior acontecia, aquele sorriso descia às minhas trevas com um soluço de baloiço, um gingar de gonzos arrancado às cordas da infância. Eu sentava-me nele e subia, balouçando até à luz. O pior aconteceu-me cedo, tive sorte. Deus procura primeiro os que sofrem antes do conhecimento específico da dor, talvez porque os outros sabem demasiado para puderem ser salvos.
Tu dizias que era o contrário: que Deus nasce da ignorância própria dos sofrimentos prematuros. Mas tu, meu aluno dilecto, cedo te deixaste povoar pelo excesso do saber. Deus não sabia nada do Universo quando o criou. Imagino que se sentiria só. Imagino que num momento impreciso dessa solidão se terá tornado maior do que Ele próprio, estourando numa gigantesca flor de luz. E imagino-O, depois, tentando dar um sentido particular a cada uma das pétalas dessa luz dispersa. Agora que saí do corpo que fui (...) imagino-o melhor ainda, ébrio de luz, lúcido, encandeado por um Lúcifer oculto e criador incrustado no seu próprio ser, em estado de paixão com a história desencadeada pela sua omnipotente solidão. E balouço no Seu sorriso outra vez, a vez definitiva porque o meu corpo está lá em baixo, num caixão, contemplado e lembrado e chorado pela última vez.
Não me levantarei da cama amanhã depois de Lhe pedir em surdina que dê um impulso maior ao balouço, que o empurre com força até que os pés me voem para fora do calor aterrado dos lençois. Ninguém vai estar à minha espera, não terei de me disfarçar de desculpas, não voltarei a iludir ou desiludir ninguém. Não voltarei a morrer no corpo do único homem que me abriu no corpo a passagem secreta para a morte. Não voltarei à desilusão do renascimento. Sobretudo não voltarei a desiludir-te a ti, o descrente que me ensinou a crer melhor, o meu pequeno e velho Deus de algibeira, o meu amigo.
Despojada de corpo é-me mais fácil transformar-me no próprio balouço, na luz dançante de que ele é feito. Num murmúrio de vento peço-Lhe que não me empurre tão depressa por esse lugar iluminado que é a Sua Carne, peço-Lhe que me deixe matar saudades desse mundo que deixei tão de repente. Matar saudades de ti. Ou matar-te, como fazem as crianças, para recomeçar uma outra história, no balouço quotidiano do teu sorriso.

(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA)

Publicado por void em 12:48 PM | Comentários (0) | TrackBack

ENTÃO VAMOS


(Fotografia de José Marafona)

Vamos, vamos numa viagem por onde não sei
ir por onde não digo, sobre estes campos de céu
que para nós ali ao canto deste espaço guardei
junto ao teu sol que ilumina infinito amor meu.

Vamos, vamos e nos transportando vai o vento que ao mesmo tempo que nos leva nos vai lavando os cabelos
tão esvoaçados pelos caminhos que vão estando perto
tão perto que nem chegamos a vê-los.

E vamos, vamos alongar traços na estrada
calcorrear a profundidade dos sentidos
e sentirmos tudo no meio do nada
sem nunca nos acharmos perdidos.


(Carlos Branco- MANIFESTO)

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dezembro 11, 2004

RED SHOE DIARIES

Uma relação que tudo parecia ter para ser perfeita. Ele e ela vivendo uma relação estável, envolvente, com garantias de uma continuidade sem problemas para ambos. Pelo menos assim começa por ser apresentada. E dessa forma vai evoluindo. No geral, assim é.
[Ela escreve sobre isto. Ela escreve sobre tudo. Ela tem um Diário. Através da sua escrita temos conhecimento dos acontecimentos, das pessoas envolvidas, dos seus sentimentos, das suas emoções. Temos conhecimento dos mais pequenos pormenores.
O filme decorre a partir dai: da sua voz que lê a escrita. A sua escrita. E é também essa escrita e essa voz que nos levam a uma outra relação que surge:]
dela com uma outra pessoa. Alguém que ela vê como um ser perfeito. Um homem fisicamente perfeito com quem poderia ter uma relação que só lhe traria prazer, bem estar e contribuiria para o aumentar da sua (auto-)confiança. Aventura. Mais envolvimento... Nada de rotinas.
[E tudo isso é escrito... Tudo é passado para Diário. É registada, então, uma relação triangular em que ela é o vértice. Um Diário que posteriormente vai ser lido. Que vai ser lido por uma razão muito particular.]
Só que, o que a princípio parecia (ser) controlado/controlável, muda de rumo. E dá-se a perda do sentido... de um determinado sentido... os remorços vão aumentando...
Um pedido de casamento contribui decisivamente para um final revelado logo no início do filme e, por isso, desde cedo esperado, embora não necessariamente com os contornos que teve.
[O Diário é lido. A sua escrita revela-se para outro alguém. O seu segredo é descoberto.]

Um filme produzido por Zalman King com excelentes interpretações de David Duchovny, Brigitte Bako e Billy Wirth. Um filme com ambientes muito sensuais e envolventes, acompanhados por uma música que permite o sublinhar disso mesmo. Um filme que vale a pena ver e sobre ele pensar, sobre as mais diversas perspectivas.

Filme disponível em DVD, embora ainda não legendado em português.


Publicado por void em 05:25 PM | Comentários (4) | TrackBack

PORTA ABERTA ("ESPAÇO SUB-20"/ENSAIO DE ROMANCE)

E a estória da Mónica continua. Continuemos a fazer o seu acompanhamento... desta vez com "A porta aberta":


Desde aquele dia tudo piorou, agora só saio de casa para ir trabalhar e já nem no trabalho te consigo esquecer. O Manel veio falar comigo no dia seguinte. Disse-me o que já temia: sente-se atraído por ti. Disse-me que te beijou mas que não correspondes-te e perguntou-me se o que sentia por ti estava acabado. Menti-lhe claro, disse-lhe para avançar. Não acredito que tenha sorte contigo mas também tenho as minhas duvidas se realmente te conheço.
O Manel sempre foi como um irmão mais novo, a companhia de tudo: a primeira vez que fumei foi com ele; a primeira vez que espreitei o balneário feminino foi com a ajuda do Manel, quando há algum jogo de futebol lá esta o Manel. Dói muito ver-te longe, mas dói mais ver-te com o Manel. Perder a amizade do Manel seria impensável, mas não me imagino viver sem ti. Vou esperar para ver o que acontece e apelar ao teu bom senso. Enquanto isso continuo a escrever-te estas cartas tontas; tenho o armário cheio delas embora rasgue a maior parte.
Não sei o que se passa com o cão, talvez esteja doente. Ainda não me habituei muito bem com a ideia de o ter por cá e ele percebe isso. Já não anda atrás de mim como andava quando partiste, agora limita-se a olhar para a minha triste figura a definhar a cada dia que passa. Talvez ainda dê o cão, sinto que falhei… com ele e contigo!

(Mónica- MY PAPER MOON. Ilustração de David Ho)

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dezembro 10, 2004

DEMÓNIOS INTERIORES


Porque todos nós os temos (aos tais demónios interiores), e em sua homenagem, deixo-vos com a letra de uma das canções de Jorge Palma, constante no seu último álbum: "Norte" (letra de Carlos Tê e Jorge Palma):


Sentei à minha mesa
os meus demónios interiores
falei-lhes com franqueza
dos meus piores temores

tratei-os com carinho
pus jarra de flores
abri o melhor vinho
trouxe amêndoas e licores

chamei-os pelo nome
quebrei a etiqueta
matei-lhes a sede e a fome
dei-lhes cabo da dieta

conheci bem cada um
pus de lado toda a farsa
abri a minha alma
como se fosse um comparsa

E no fim, já bem bebidos
demos abraços fraternos
de copos bem erguidos
brindámos aos infernos
saíram de mansinho
aos primeiros alvores
fizeram-se ao caminho
sem mágoas nem rancores

Adeus, foi um prazer!
disseram a cantar
mantém a mesa posta
porque havemos de voltar


Ok... e tu e tu e tu.... consegues/conseguem fazer também uma recepção destas? Eu? Ah sim! Consigo mesmo! E eles? Bom... provavelmente dizem-me para manter, também, a mesa posta ;)

Publicado por void em 05:56 PM | Comentários (5) | TrackBack

MAR


(Fotografia de José Marafona)

Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo. (...)
Largou a cidade e os amigos, a casa, o conforto, a noite, o trabalho e tudo o mais. Viajou em direcção ao sul, com a certeza de que jamais encontraria o mar perdido, em lugar incerto, a meio da sua vida.
Sabia agora que nenhum mar existia fora do seu corpo, e que tinha sido na perda irremediável de um mar que adquirira um outro onde, por noites de inquietante insónia, podia encontrar-se consigo mesmo e envelhecer sem sobressaltos; afastado da vã alegria dos homens e da pobreza do mundo.
Ao chegar junto do mar sentou-se no cimo da duna, como dantes, e esperou. Esperou que o mar guardado no fundo de si transbordasse, e fosse ao encontro daquele que perdera e se espraiava agora à sua frente.

Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar - esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um num outro, para sempre.
Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adquiriram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas.


(Al Berto- O ANJO MUDO)

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dezembro 09, 2004

A VIDA COMO SONHO QUE SE RECUSA A CONFRONTOS


(Fotografia de José Marafona)

Tudo quanto de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes - deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só têm que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Disse Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos - não porque sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos.

(Bernardo Soares- O LIVRO DO DESASSOSSEGO)

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VOZES


(Fotografia de Elena Vasilieva)

Oiço vozes... oiço vozes
Aqui e além
Imagino-te os gestos, as tuas poses
Rouba-me o corpo, leva-me a alma como refém.

Eu oiço vozes, oiço vozes a murmurar
Vozes que me intrigam, que me confundem
Vozes que me prendem, que não me deixam voltar
Vozes que me separam e me fundem.

Corro agora por este infinito corredor
A chorar, a chorar
Corro neste labirinto de agonizante dor
Sinto as paredes a desabar.

A imensa escuridão
De mãos dadas com a cega luminosidade
Baralham com violência a minha visão
Fazem-me constantemente perder e ganhar idade.

Vejo espelhos, vejo apenas um vago reflexo
Vejo espelhos que se vão quebrando
Vejo imagens, ideias sem nexo
E tudo se vai... tudo se vai apagando.

Oiço vozes... vozes caladas, vozes silenciosas
Que me gritam no pensamento
Que derrubam multidões maliciosas
De sentimentos poeirentos levados pelo vento.

E eu perco-me mais e mais neste labirinto
Neste mundo que se mistura com o belo e o horror
Perco-me na dor e no prazer que sinto
E corro parada, noutro sítio com o mesmo terror.

Oiço vozes, muitas vozes nesta multidão
Procurando a tua sem distinguir
Perco-me neste corropio de sons, nesta confusão
E sinto... sinto a alma a fugir... a fugir...

E eis que na parede, a última barreira
Se erguem dois olhos gigantescos, enormes, despertos
A minha alma que voa desnorteada, de qualquer maneira
Caí perante estes olhos tão abertos.

Perco os sentidos e desfaleço
E a minha alma apaga-se suavemente
Extingo-me, morro, desapareço
E, o teu olhar, a tua voz... fazem-me renascer lentamente.

Estiveste sempre comigo, a observar, a observar
Deixaste-me morrer exausta, louca, descrente.
E agora, segura, dentro de ti, o meu novo lar
Longe deste mundo, deste ar, desta gente!


(Alexandra Antunes- FRÁGIL)

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dezembro 08, 2004

O PROBLEMA DA AUTOLIBERTAÇÃO OU DO NOVO (RE)CONHECIMENTO DO HOMEM


(Henry Miller)

Quer o admita quer não, o artista encontra-se obcecado pela ideia de recriar o mundo, a fim de restaurar a inocência do homem. Ele sabe, além disso, que o homem só poderá recuperar a sua inocência se reconquistar a sua liberdade. Aqui, a liberdade significa a morte do autómato.
Num dos seus ensaios, D. H Lawrence afirmava que há duas grandes modalidades de vida: a religiosa e a sexual. Dizia ele que a primeira tinha precedência sobre a segunda. O sexo era a via menor, na sua opinião. Sempre pensei que havia apenas uma via, o caminho da verdade, conduzindo não à salvação, mas à luz. Por muito que as civilizações difiram umas das outras, por muito que as leis, os costumes, as crenças e os cultos do homem variem de época para época e segundo a raça e o tipo dos homens, vejo no comportamento dos grandes guias espirituais uma concordância singular, um exemplo de verdade e de inteireza que até uma criança é capaz de compreender.
Poderá parecer descabido ver o autor do Trópico de Câncer exprimir estas opiniões. Mas não quando se vê para além da superficie! Apesar de essa obra estar generosamente recheada de sexo, o que interessava ao autor não era o sexo nem a religião, mas o problema da autolibertação. Em Trópico de Capricórnio, a utilização do obsceno é mais estudada e intencional, talvez devido a uma consciência maior das exigências imperiosas da expressão. O interlúdio intitulado "A Terra da Foda" é para mim um ponto alto da fusão entre o símbolo, o mito e a metáfora. Utilizado como um dique, serve um duplo objectivo. (...) Embora enquanto escrevia, só parcialmente estivesse consciente do seu sentido, no que se refere ao propósito com que o escrevi, havia absoluta certeza. Era uma proeza equivalente a saltar para fora da própria pele. (...)
Trópico de Câncer é um testamento ensopado de sangue, que revela as devastações causadas pela minha luta no ventre da morte. O forte cheiro a sexo que o livro emana é, na realidade, o aroma do nascimento; só é desagradável ou repugnante para os que não conseguem reconhecer o seu sentido.
Trópico de Capricórnio representa a transição para uma fase mais lúcida: da consciência do eu para a consciência dos fins. (...)
Como acontece com toda a gente, sou eu o meu pior inimigo. Ao contrário do que acontece à maior parte das pessoas, porém, sei também que sou o meu próprio salvador. Sei que a liberdade significa responsabilidade. Sei como é fácil transformar os desejos em actos. Mas quando fecho os olhos, tenho que ter cuidado com a maneira como sonho e com aquilo que sonho, porque doravante só o mais ténue dos véus separa o sonho da realidade.

(Henry Miller- O MUNDO DO SEXO. Ensaio, Fevereiro-Abril, 1957)

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DO SABER (OU NÃO) VINGAR-SE


(Fotografia de José Marafona)

Então, entre os que sabem vingar-se ou, em geral, defender-se - como se passam as coisas? Esses, logo que ficam possuídos, digamos, pela ideia de vingança, só guardam dentro deles essa ideia até que tenham atingido o seu desígnio. Um senhor deste tipo investe a direito contra o alvo, como um touro bravo, de cornos baixos, e só uma parede o faz parar. (...) Pois bem, este homem espontâneo é o que eu considero o mais normal, tal como o imaginava a mãezinha dele- a natureza- quando o deitou ao mundo. E tenho ciúmes dele que me exasperam. Ele é idiota, não vou contrariar-vos neste ponto, mas quem vos garante que o homem normal não tem de ser idiota?- que sabeis vós disso? Talvez até seja elegante. Estou tanto mais convicto desta, digamos, suspeita porquanto se tomardes, por exemplo, a antítese do homem normal, ou seja, o homem de consciência alargada, que vai buscar as suas origens já não à natureza, claro, mas ao fundo de uma retorta (...), acontece ao homem da retorta achincalhar-se perante a sua antítese a ponto de, por si mesmo, se sentir, com a maior sinceridade desta vida, com toda a sua consciência alargada, um rato, e já não um homem. Um rato de consciência alargada, talvez, mas um rato, e o outro é que é o homem, e daí as consequências, e assim por diante. Principalmente, é por si mesmo, por sua própria iniciativa que ele se toma por rato; ninguém lho pede; e esse é um ponto capital. Observemos agora um rato em acção. Suponhamos, por exemplo, que também ele foi humilhado (é humilhado quase perpetuamente) e que também ele se deseja vingar. Então acumula uma raiva ainda maior que a de l'homme de la nature et de la vérité. Aquele seu feio apetitezinho, reles, de pagar da mesma moeda ao ofensor rói-o por dentro, de uma maneira talvez ainda mais torpe do que aconteceu com l'homme de la nature et de la vérité, porque l'homme de la nature et de la vérité, com a sua idiotia congénita, estima que a sua vingança mais não é do que um acto de justiça; mas o rato, mercê da sua consciência alargada, nega tal justiça. Chegamos agora ao acto enquanto tal, à vingança propriamente dita. O desgraçado rato, para além da sua baixeza original, teve tempo de se rodear do círculo formado pelas questões e pelas dúvidas, e por outras nojices que tais; a uma pergunta única acrescentou o rato tantas outras perguntas sem resposta que viu amontoar-se à sua volta numa espécie de lodaçal mortífero, um monturo fétido composto das suas dúvidas, inquietações e, para terminar, dos escarros que lhe cuspinham os espontâneos homens de acção que, rodeando-o gravemente como seus juízes ou tiranos, o cobrem de ridículo rindo a bandeiras despregadas. Claro que ao rato apenas resta esboçar um gesto de impotência com a patita, arvorar um sorrisinho de desprezo em que nem acredita e enfiar-se no buraco com o rabo entre as pernas. Aí, no fundo do seu subterrâneo malcheiroso, abjecto, o nosso ratinho humilhado, tolhido, escarnecido, logo mergulha numa raiva fria e venenosa, uma raiva- aqui é que bate o ponto!- perpétua.


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

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dezembro 07, 2004

NA HORA DE PÔR A MESA


(Fotografia de Marília Campos)

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUÍNAS)

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PALAVRAS SEM TEMPO ("ESPAÇO SUB-20")


(Fotografia de Marília Campos)

É sempre tão inconstante, a minha vontade de interferir. Por um segundo, as palavras formam-se, no segundo a seguir, diluem-se naquele pesado silêncio. Aquele silêncio que ninguém gosta de quebrar, porque a primeira nota de som vai logo embater nos grandes portões do silêncio, e mesmo o mínimo ruído parece um grito agonizante que nos acorda para o mundo. Quem ousa abalar o meu silêncio? Cobardia? talvez. Ou talvez as palavras não mereçam atenção... Mas e as palavras riscadas no papel? aqueles sarrabiscos de tinta que tentam apagar algo escondido... quem é que já não tentou ler o que estava lá escrito, por baixo daquele véu negro de algo que ficou por dizer? e paira aquela névoa densa no ar. E não digo o que penso. E algo fica por dizer. E simplesmente, não me atiro para o meio da estrada para salvar o rapaz. E a vida continua. Sigo em frente, pelos corredores do que é palpável. E a vontade volta de mudar. De salvar o mundo de tudo o que vejo nos olhos daquela gente sem sabor. O azedo de toda a situação. Interferir, deixar passar a multidão cega. E as palavras formam-se para, mais uma vez, as escrever no meu muro das lamentações. O muro interminável do não saber aproveitar cada pedrinha de areia que cai na clepsidra gigante chamada vida. Afogo-me na minha saliva.


(Sana- RASGA-ME AS PALAVRAS)


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dezembro 06, 2004

DO SEXUAL E DO RELIGIOSO


(Henry Miller)

Quanto ao facto de saber se o sexual e o religioso são antagónicos e opostos, eu responderia do seguinte modo: todos os elementos ou aspectos da vida, por muito pobres, por muito duvidosos que sejam (para nós), são susceptíveis de conversão, e na verdade devem ser transpostos para outro nível, de acordo com a nossa maturidade e inteligência. O esforço visando eliminar os aspectos "repugnantes" da existência, que é a obsessão dos moralistas, não só é absurdo, como fútil. É possível ser-se bem sucedido na repressão dos pensamentos e desejos, dos impulsos e tendências feios e "pecaminosos", mas os resultados são manifestamente desastrosos. (É estreita a margem que separa um santo e um criminoso.) Viver plenamente os seus desejos e, ao fazê-lo, modificar subtilmente a natureza destes, é o objectivo de todo o indivíduo que aspira a desenvolver-se. Mas o desejo é soberano e inextirpável, mesmo quando, como dizem os budistas, se converte no seu contrário. Para alguém se poder libertar do desejo, tem de desejar fazê-lo.
Trata-se de um tema que sempre me interessou profundamente. Na minha juventude, é já depois disso, fui vítima de movimentos impulsivos, perfeitamente incontroláveis. Ultimamente, na sequência de um período prolongado de intensa actividade criadora, tem-me impressionado mais do que nunca o pântano de ideias em que se atola o modo tradicional de tratar este tema.

(Henry Miller- O MUNDO DO SEXO)

["O Mundo do Sexo", ensaio escrito originalmente entre Fevereiro-Abril de 1957. Depois deste outros excertos de si serão aqui editados.]

Publicado por void em 10:11 PM | Comentários (4) | TrackBack

UM GRITO ("ESPAÇO SUB-20"/ENSAIO DE ROMANCE)

É com "um grito" que a Mónica dá continuação à sua estória. Mais um momento, mais um flash, mais uma cena-relâmpago na vida do nosso personagem. Mais um passo também para o desenrolar de sentimentos, emoções, para recalcar aquela que é a vivência menos positiva do Amor. Lembranças, recordações, equivalências que se estabelecem, desilusões. E um "ela" cada vez mais distante... ou cada vez mais diferentemente perto. Sobre isto escreve a autora:

Um grito! Como se escreve um grito?
O grito que dei ao ver o Manel beijar-te ontem quando decidi mais uma vez ir visitar-te ao trabalho. O grito que ainda hoje tenho sufocado na garganta, quando vi os teus lábios colados aos do Manel. A vontade que tive foi de me aproximar e arranca-lo de cima de ti. Em vez disso fiquei na sombra a presenciar o vosso beijo. Talvez o Manel forçasse. Talvez tu até nem quisesses porque te vi afasta-lo pouco depois, mas comigo foi a mesma coisa: também me afastas-te e dois dias depois chamaste-me a tua casa. Dói menos acreditar que o Manel forçou …
Como é que chegamos aqui, Ana? Era tudo tão bonito, tantos projectos, tantos sonhos, mas tão poucas realidades. Habituei-me a viver nas sombras, a sofrer nas sombras.
Porquê, Ana? Porquê o Manel? Porquê o meu melhor amigo?
Consegues ouvir-me? Claro que não! Nem estas estúpidas cartas tu lês; ouvir-me então seria pedir demais.
Acho que estou a ficar louco!


(Mónica- MY PAPER MOON. Ilustração de David Ho)

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dezembro 05, 2004

O ENCONTRO (DO DIÁRIO DE ANAIS NIN)

Dezembro de 1931

Um rosto espantosamente branco, olhos ardentes. June Mansfield, a mulher de Henry. Quando ela veio na minha direcção, saindo da escuridão do meu jardim para a luz da entrada, eu vi pela primeira vez a mulher mais bela do mundo.

Há uns anos, quando eu tentava imaginar uma verdadeira beleza, criei no meu espírito a imagem precisamente daquela mulher. Até imaginei que ela seria judia. Conhecia há muito tempo a cor da sua pele, o seu perfil, os seus dentes.
A sua beleza inundou-me. Quando me sentei em frente dela senti que faria qualquer loucura por ela, qualquer coisa que ela me pedisse. Henry apagou-se. Ela era cor, brilho, estranheza.
O seu papel na vida era a única coisa que a preocupava. Eu sabia as razões: a sua beleza traz-lhe dramas e acontecimentos. As ideias têm pouco significado. Eu vi nela a caricatura do personagem teatral e dramático. Vestuário, atitudes, conversa. Ela é uma actriz magnífica. Nada mais. Eu não podia alcançar o seu âmago. Tudo o que Henry tinha dito acerca dela era verdade.
No fim da noite eu era como um homem, terrivelmente apaixonada pelo rosto e pelo corpo dela, que prometia tanto, e odiava o seu ego, criado nela pelos outros. Outros sentem por causa dela; e por cauda dela outros, como Henry, amam-na com prejuízo de si próprios.
À noite sonhei com ela, como se ela fosse muito pequena, muito frágil, e amei-a. Eu amei uma pequenez de que me apercebi na sua conversa: o orgulho desproporcionado, um orgulho ferido. Tem falta de segurança no âmago, anseia insaciavelmente por admiração. Ela vive dos reflexos de si mesma nos olhos dos outros. Não ousa ser ela própria. Não existe a June Mansfield. Ela sabe-o. Quanto mais é amada, melhor o sabe. (...)

Ela pousa para mim ao partir. Apetece-me sair a correr e beijar a sua fantástica beleza, beijá-la e dizer: "Tu levas contigo um reflexo de mim, uma parte de mim. Eu sonhei-te, desejei a tua existência. Serás sempre parte da minha vida. Se eu te amo, tem de ser por termos partilhado, alguma vez, o mesmo imaginário, a mesma loucura, o mesmo palco. (...)". (...)
Amo-a pelo que ela ousou ser, pela sua dureza, a sua crueldade, o seu egoísmo, a sua perversidade, a sua destrutividade demoníaca. Ela era capaz de me reduzir a cinzas, sem hesitar. Ela é uma personalidade criada para os extremos. Eu admiro a sua coragem para magoar, e estou disposta a ser-lhe sacrificada. Ela somará a totalidade de mim a si. Ela será June mais tudo o que eu contenho.


(Anais Nin- HENRY & JUNE. Fotografias: Anais e June, respectivamente)


[Agarro em muitas das palavras de Anais e torno-as minhas pensando num outro alguém. Um brinde a ti "minha Anais", que és muito, mas muito especial. Sandra]

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ESTADO NATURAL (CONSCIÊNCIA NÍTIDA DA NOSSA BAIXEZA)


(Fotografia de José Marafona)

Agora, meus senhores, vou contar-vos, seja ou não do vosso agrado, por que não consegui tornar-me sem sequer um insecto. Solenemente vos digo: eu quis ser insecto, reiteradas vezes. E nem disso tive a honra. (...)
Quanto mais eu tomava consciência do bem, de todo esse "belo e sublime", mais me atolava no meu pântano, e mais capaz ficava de me afundar nele completamente. Mas o essencial era que isso nunca parecia fortuito, era como se devesse ser mesmo assim. Como se fosse o meu estado natural, e não doença ou enguiço meu, de tal modo que acabei por nem ter desejo de combater esse enguiço. E também ia acabando por acreditar (às tantas acreditei mesmo) que era assim, que era esse o meu estado natural. Mas, a princípio, o que eu penei nessa luta! Era incapaz de meter na cabeça que o meu estado era igual ao de toda a gente, então escondia a coisa como um segredo. Tinha vergonha (talvez continue a ter vergonha até hoje); chegava a sentir uma espécie de deleite secreto, nada normal nem decente, quando voltava a casa, ao meu buraco, por uma dessas noites de cão que temos em Petersburgo e me crescia a consciência de que tinha perpetrado nesse dia mais uma nojice e, sendo irreparável o que fizera, eu me roía, secretamente, no meu íntimo, roía-me todo, esburgava-me e rilhava-me a mm mesmo até que a aflição se me tornasse uma espécie maldita de doçura vergonhosa e depois virasse um gozo, um gozo franco e grave! Um gozo, sim, um gozo! Insisto. Falo disto porque sempre quis tirar as coisas a limpo: os outros sentiram o mesmo género de gozo? Entendamo-nos: esse gozo provém de uma consciência demasiado nítida da nossa baixeza; de nós próprios sentirmos que estamos nas últimas; e que isto é torpe, e que não há meio nenhum de nos sentirmos melhor; que não nos resta qualquer saída, que nunca na vida havemos de ser diferentes; que, mesmo tendo tempo e fé para sermos outros, nós próprios decerto não quereríamos transformar-nos; e que, se o quiséssemos, também não poderíamos fazer nada, porque talvez seja mesmo verdade que já não temos nada em que nos transformar.


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)


[Com este post inicio um conjunto de outros versando sobre a referida obra de Dostoiévski. Publicada em 1864 numa revista, apresenta-se como uma das obras de referência do autor. Divide-se em duas partes: 1ª- longo monólogo em que o personagem surge e se vai dando a conhecer com o que de pior/mais degradante pode existir no Ser Humano, 2ª- o personagem é apresentado em acção, ilustrando-se dessa forma o confronto do seu eu degradado com as realidades/situações sociais com que se vai confrontando. Atendendo, pois, ao interesse da(s) temática(s) em questão e que continuarão a suceder-se, conto com o vosso acompanhamento e colaboração. Sandra]

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dezembro 04, 2004

NORTE

Saido muito recentemente para o mercado o último álbum de Jorge Palma. "Norte" é um trabalho absolutamente fantástico, com letras com uma pertinência e profundidade muito grandes e músicas que nos envolvem por completo. Um conjunto de canções que são "muito Palma" e que permitem a todos nós (que o apreciamos, mas não só) identificar-nos plenamente.

Deste cd deixo-vos a letra de uma canção que muito aprecio e que dediquei, desde a 1ª vez que a ouvi, à "minha menina". Eheheh... :

GOSTO DE BRINCAR COM O FOGO
(Letra: Jorge Palma)

Gosto de brincar com o fogo
de jogar com as palavras
adoro coisas perigosas
incómodas e jocosas

Gosto de coisas obscenas
de soltar as fantasias
brincadeiras maliciosas
perversamente gostosas

Nunca peguei numa arma
eu nunca matei um homem
nunca violei mulheres
nunca massacrei crianças

Neste mundo em chamas
neste planeta a arder
neste inferno na terra
temos tudo a perder

Gosto de brincar com o fogo
deitar achas p'ra fogueira
gozar os truques da mente
e confundir toda a gente

Interessa-me a puberdade
excitam-me as pernas das freiras
gosto de provocar danos
nas teias dos puritanos

Mas não se brinca com a fome
nem com a miséria alheia
a vida não vale nada
quando se trafica o sangue

Neste mundo em chamas
neste planeta a arder
neste inferno na terra
temos tudo a perder


Pois é... pois é... e assistir à sua interpretação na FNAC-Chiado na passada Terça-feira foi muito, muito giro, entre outras coisas, claro! Eheheh... Deixo-vos com uma foto (tirada por Victor Almeida) para registo:



Para quem gosta do "Tio Jorginho", até ao concerto aqui em Lisboa. Encontramo-nos lá!

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NO ABISMO COM... (12)

Concluo, com este post, a semana dedicada a Sílvia Chueire. E concluo com a autora desdobrada de si, ou seja, escrevendo como Eugênia e escrevendo como Sílvia. Penso que é o mais indicado, hoje, pela síntese que importa fazer, não no sentido conclusivo-definitivo, antes, como síntese de um período onde o destaque contínuo foi uma evidência.
Não posso deixar de referir que esta soma de edições me soube a pouco. A muito pouco. E eventualmente terá sabido a pouco também a alguns de vós. No entanto o Tempo não acaba hoje e a Sílvia vai voltar. Esta é uma garantia que dou como grande apreciadora da poesia da(s) autora(s).
Para não vos reter mais deixo-vos com três poemas assinados por Eugênia Fortes. Apreciem:


ASAS

no olhar alado

do desejo

perdem-se

todas as palavras

e desenha-se

o gozo


PERGUNTAS

I

qual será o teu gesto,
reconstruída a ponte
entre o sonho e o real
a comunicar-me o desejo,
o teu ?
qual o dia em que tuas asas
te voarão até mim ?

II

qual será o teu gosto
quando me tocares a pele,
qual será o meu?
em que dia do calendário
tu virás,
nesse mar de ternura,
de desejo nosso?

III

qual será a tua surpresa
ao saber que era possível
a pedra mover-se do silêncio ?
no dia em que perdido o temor
reencontrares-te em mim
e eu me souber onde sempre estive:
em ti.


TOCAR-TE

Deve haver um modo de dizer-te,
um modo de tocar-te.
Sempre pensei que as palavras seriam este modo.
Ou as mãos,
ou a boca,
ou...
O corpo é óbvio.

Mas não há corpos na distância.
Há apenas memória e tempo.
Tempo e dúvidas.
Dúvidas e angústia para uns.
Falta e oceanos para outros.
Ou há corpos na distância?
Tenho mais que um corpo de palavras,
um corpo de músculos, pele,
coração e sangue a pulsar.

Um beijo talvez te tocasse,
o som, a forma,
a textura aveludada de um beijo.

Mas tudo é silêncio.
E tu tens medo.


Objectivando fazer a tal síntese que falei segue-se, agora, um poema da Sílvia, assinado por "si mesma". Ora leiam:


INTEGRALMENTE

não escondi nada em planos ou estratégias.
tudo se passa naturalmente
como o ir e vir das ondas do mar.

o que omiti teve razão precisa,
o que disse foi sempre a expressão do que penso.
nada digo se não tiver nas mãos meu coração
e nenhum receio,
a intimidade absoluta
de uma liberdade rara.

quero ser o que sou de melhor,
assim, na confiança de que meus gestos.
minhas palavras,
são para além de comunicação, aves libertas,
ou passos de uma dança
na qual o corpo está lá, inteiro.
contradições , perguntas
e afirmações.
nada do que pensamos
tem sempre lógica irretorquível.
o que me interessa é ser feliz,
fazer feliz.
é deixar-me levar pela corrente deste rio.

o afeto deve ter algum valor
que o eleve acima da pequenez cotidiana.
e é sempre ele que demarca o meu caminho.
que espero que o faça.

algum dia alguém perceberá
que há um manancial desconhecido nisso
e há de valoriza-lo
em todas as suas minúcias.
cada som. cada aroma,
cada palavra ou olhar atento,
todas as curvas ,
a dedicação que ultrapassa o medo.
o corpo a dançar a dança única,
de riso, de prazer e sem limites.

a vida vivida integralmente
acima das horas curtas de cada dia.


(Poemas editados originalmente no blog EUGENIAINTHEMEADOW. Fotografias de Urs Kahler)


E então? Pessoalmente estou absolutamente envolvida. Não há hipótese. Melhor: a Sílvia/Eugênia não dá (dão) hipótese. A Poesia surgindo, sendo percorrida por nós e entrando cada vez mais fundo... mais fundo...

Mas... e a poetisa? O que pensará ela de tudo isto? Como vê a sua escrita? Como a entende? Por que é que a desenvolve, aprofunda, faz chegar até nós?
Leiam o depoimento que se segue para, em vós, perceberem de tudo isto um pouco mais... ou um pouco melhor:


"Nunca escrevi. Sempre soube que havia algo a fazer neste sentido. Que tinha algo a dizer, mas nunca o fiz, não conseguia. Um dia, há apenas alguns anos, achei que enfim tinha conseguido expressar em palavras o que queria. Nunca satisfatoriamente, mas há muito sei que a perfeição é inalcançável, portanto cá estou, escrevendo como posso.

Cada um escreve pelas suas razões. Escrevo para dizer do meu olhar para o mundo. Escrevo porque a escrita é um modo de elaborar questões. Escrevo porque quero que leiam e quero que o poema toque a quem o lê. Escrevo porque já não sei viver sem escrever.

Aquele entre nós que tiver a chance de achar esta fissura no real (ainda assim parte dele) que é o poema, terá encontrado mais um modo de pensar a vida, os afetos, as circunstâncias. Um modo musical que busca certa plenitude nas palavras.

Mas nada disso interessa, nenhuma das definições. O que de fato interessa é que o poema alce vôo e que voemos, todos,com ele.
A poesia está no mundo e nos olhos do mundo.

Silvia Nogueira da Gama Chueire"


[Que mais te posso dizer, Sílvia? Olha, deixo-te simplesmente o meu muito obrigada pelo privilégio que me deste- e sei que continuarás a dar- para editar a tua Poesia e o reforço do expressar relativo àquela que é a beleza imensa das tuas palavras: palavras, versos, poemas... Um beijo enorme e coeso para chegar inteirinho a esse lado do oceano. Sandra]

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dezembro 03, 2004

SOCIEDADE CAVERNOSA


(Fotografia de José Marafona)

Sabes, eu não tenho idade. Mais uma vez te digo. Não tive infância.
Sempre acreditei que morresse com uma idade a que os outros exclamam. Oh morreu tão nova. Que importa a idade? Eu sou criança mesmo que viva até me chamarem velha. Já estou velha e fui uma velha criança. E agora eu exijo à vida. Uma vida não basta. Quero que me devolvas a minha boneca. Eu deixei de ser essa boneca brinquedo nas mãos da vida.
A mãe encontrou um cálice de sangue, já seco, debaixo da minha cama. Sim, mãe, eu gostava de ver o meu sangue a sair da carne. E quando ia tirar sangue desmaiava. Ninguém tem o direito de tirar sangue a ninguém. Apenas nós próprios temos esse direito unicamente sobre nós. Uma vida é uma vida. É nossa e de mais ninguém. Se quiser acabar com esta vida, acabo. Mas ninguém tem o direito de tirar a vida a mais ninguém. Exceptuando a sua própria vida.
Eu não pedi para nascer. E agora a morte é também um acaso? A vida é um acaso do querer e é também um caso extremamente complexo. Mas a morte é um enigma. Ninguém pede a morte mas vida, eu que nunca te pedi, hoje peço-te para morrer.
Quando se é criança não se possui idade. Quando se é criança temos o nome que mais gostamos. Quando se é criança, simplesmente, não se possui.
Cresce-se. Passa-se a ter tudo e mais alguma coisa. Passamos a ter um nome de acordo com o estatuto. Passamos a ter idades a cada ano que passa e com isso, e mais algumas coisas totalmente desnecessárias, passamos a fazer parte de grupos. O grupo dos 30, dos 40, dos 50. Vem o reumático e todas as doenças da velhice, quando afinal, sempre estivemos doentes porque assim nascemos. Nascemos, não num mundo doente mas numa sociedade doente. Uma sociedade que é como eu. Uma sociedade que nunca teve infância ou, se a teve, foi demasiado doente e cavernosa.


(Alexandra Antunes- FRÁGIL)

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dezembro 02, 2004

NO ABISMO COM... (11)

Neste abismo em que estamos Sílvia Chueire dá o mote, mas hoje dá-o através de poemas assinados por Eugênia Fortes, o seu pseudónimo.
Seja de "uma" ou de "outra", a Poesia não perde, em nada, aquilo que a sustenta: a qualidade, a beleza, a capacidade de (nos) fazer pensar e fazer interiorizar numa tentativa de reconhecimento (de nós). Mas será realmente assim? E o(s) Outro(s) está(ão) também lá?... estão igualmente inerentes a esses versos assinados diferentemente? Que querem que vos diga mais? Confirmem por vocês próprios:

DELICADEZA

nunca poderia crer
numa nova delicadeza.
e não é que ela existe ?
há sempre gestos
que desconhecemos.


DESEJASTE

o céu está mais próximo:
nuvens baixas.
é sempre o mesmo olhar
de espanto:
desejaste que eu morresse
tantas mortes.
mais mil ainda morrerei,
os dois sabemos.


(Poemas constantes no blog EUGENIAINTHEMEADOW. Fotografias de Vlados)


[Sábado, teremos o coroar da "semana abísmica" com esta poetisa brasileira. Não se esqueçam e venham até cá. Abraço para todos. Sandra]

Publicado por void em 09:15 PM | Comentários (3) | TrackBack

NO INÍCIO ("ESPAÇO SUB-20"/ENSAIO DE ROMANCE)

Depois de "JB", a estória da Mónica continua... "No início". Pois é, é até lá que vamos recuar. Mergulhemos numa lembrança ainda mais anterior: ao ponto em que tudo começou. E foi assim:

Tornei-me no meu pior pesadelo, um romântico incorrigível. Passo a maior parte do meu tempo a recordar-te. Ainda hoje me lembro do primeiro beijo que te roubei, das primeiras palavras que trocamos, da primeira vez que te vi: passaste por mim a sorrir, olhaste-me nos olhos sem me veres realmente; mesmo assim algo em ti me prendeu. Fui descarado e ofereci-me para tomar café contigo; como quem me desafia sorriste e aceitaste que me sentasse na tua mesa de explanada.
- Sorris sempre assim?
- Assim como?
- Como estas a fazer agora!
- Ofereces-te para o café sempre assim?
- Depende …
- Pobres raparigas indefesas – disseste por entre gargalhadas.
- Não me pareces indefesa.
- E não sou! - Pela primeira vez olhaste-me sem escudos ou muros a separar-nos -Tenho de ir …
Pegaste no teu capacete e partiste deixando-me para trás a sonhar contigo. Fugiste de mim tal como fizeste agora. Mas desta vez não vou ser pre-existente, não vou voltar ao mesmo café no dia seguinte só para te encontrar. Fugiste, como foges de tudo o que te limita, que te intimida e que te detém! É isso que fazes: foges de tudo e de todos, até quando Ana? Estou cansado de tudo isto; estas cartas magoam-me tanto mas se não te escrever será pior. Há palavras que magoam tanto: as lascivas deste estúpido amor que tinha tudo para ser perfeito.

(Mónica- MY PAPER MOON. Ilustração de David Ho)

[Quanto a vocês: continuem envolvidos em tudo isto e voltem... voltem, que dia 6 há mais. Beijinho para todos e especialmente para ti, Mónica. Sandra]

Publicado por void em 06:46 AM | Comentários (5) | TrackBack

dezembro 01, 2004

NO ABISMO COM... (10)

E a descida ao abismo continua com mais dois poemas da Sílvia Chueire. Dois poemas que nos continuam a falar muito para dentro, no âmbito daquele que é o direccionar das palavras para o mais interior que há de/em nós: nós mesmos numa relação connosco, com os outros e com os outros naquilo que isso se nos reflecte enormemente.
Sigam-me, então, em mais este percurso... intimista:


INQUIETO

tenho o corpo inquieto
de uma inquietude que morde por dentro.
nem sempre faço perguntas.
não se pergunta ao corpo o que há,
sob pena de ouvir respostas.

tenho a alma colada à parede.
branca e contida alma,
quase a passar despercebida
enquanto murmura cânticos,
poemas antigos,
frases sem sentido aparente.

sou às vezes uma voz de memória
e sombras
a tecer um manto de palavras
para enganar o tempo,
sabendo que não o engano.

nada mais que um corpo inquieto
numa vida breve
que me ultrapassa,
e toma o rumo do mar.


FINGIR

Ando no olho do furacão
como se passeasse na ravina.

Finjo que não vejo
a tempestade em torno.

Finjo que não sei
da agitação em mim.


(Poemas assinados por Sílvia Chueire- EUGENIAINTHEMEADOW. Fotografias de Marília Campos)


Publicado por void em 09:23 AM | Comentários (3) | TrackBack