
(Ilustração de David Ho)
Hoje o tempo dói. Estou em frente da casa, vejo a varanda no cimo dos olhos, a porta semiaberta aguarda a minha entrada. Venho com os olhos dourados de lágrimas. Venho perdido, meu tio que me deixou aqui e eu tão pouco contigo, que o tempo dói. Dói como as estrelas doem o céu, cosidas na pele, espetadas na sua carne.
Dói porque é um tempo só. Porque já não tenho a esperança, a esperança que nunca tive. Estava inocente na minha vida e a mãe a dizer
- Não passa de hoje, dizem os médicos.
e a chorar e a dizer
- Não passa de hoje, dizem os médicos.
e eu a não entender. Porque mesmo quando a mãe me fez querer ver eu não quis. Eu e ela no hospital, sentados junto à entrada de um dos blocos, cá fora ela dizia
- Está pior, não é possível dizer muito.
e eu a não querer perceber. E soube-o hoje, antes desta porta semiaberta em frente, a varanda no cimo dos olhos, com o H à saída da urgência. Soube-o agora porque não consegui querer saber antes. Porque a infância é tão boa. Porque a morte mata a infância, mata crianças que não morrem porque mata o pai delas. Eu que tenho idade para já saber que a morte procura e encontra, lince, que a morte não faz escolhas, escolhe sempre o mais perto de nós, eu, que sou tão novo e já tão velho, tão rapaz e pouco criança, tão criança por ser tão perto de vós, meus pais, eu, eu que sei agora: a morte chega e mata-nos por dentro ao matar quem nos é dentro, connosco.
E não quero mais entrar em casa, ser o teu lugar no sofá nunca. Não quero e não vou, espero à entrada da porta que ela se feche de tão pouco semiaberta que está. Espero que encerre lá dentro a morte, que me deixe ser criança mais tempo.
(Jorge Reis-Sá - POR SER PRECISO)

(Fotografia de Alberto Monteiro)
Temos de assumir a nossa existência o mais amplamente possível; tudo, até mesmo o impensável, tem de ser possível. No fundo é esta a única coragem que nos é pedida; ter coragem para o mais estranho, o mais singular e o mais inexplicável que possamos encontrar. O facto de a humanidade ter sido cobarde neste sentido fez muito mal à vida; as experiências a que chamam visões, o todo dito mundo-espiritual, a morte, todas estas coisas que nos estão tão próximas, têm diariamente sido tão afastadas da vida que os sentidos com que as podíamos agarrar estão agora atrofiados. (...) Pois não é apenas a inércia a responsável pela repetição das relações humanas, indiscritivelmente monótonas e iguais; é a timidez perante qualquer tipo [de] experiência nova e imprevisível com a qual não nos sentimos capazes de lidar. Mas só alguém que está pronto para tudo, que não exclui nada, nem mesmo a coisa mais enigmática, viverá a relação com o outro como algo vivo que sairá dele próprio [e] da sua existência. Pois se pensarmos nesta existência do indivíduo como um quarto maior ou menor, parece evidente que a maioria das pessoas aprendem a conhecer apenas um canto do seu quarto, um lugar junto à janela, um pedaço de chão no qual andam de trás para a frente. Assim sentem alguma segurança. E, no entanto, essa insegurança perigosa é muito mais humana (...). E se ao menos arranjarmos a nossa vida de acordo com esse princípio que nos aconselha a agarrar aquilo que é difícil, então aquilo que nos parece agora tão estranho tornar-se-á algo em que confiamos e que consideramos mais fiel. (...)
De forma que, caro Sr. Kappus, não deve ter medo, se a tristeza cresce de uma forma que você nunca sentiu (...). Tem de pensar que algo lhe está a acontecer, que a vida não o esqueceu, que o mantém nas suas mãos; não o deixará cair. Por que deseja afastar da sua vida qualquer agitação, qualquer dor, qualquer melancolia, já que desconhece o que estes sentimentos trabalham para si? Por que deseja atormentar-se com a questão se tudo isto vem para onde é preciso? Uma vez que sabe que se encontra no meio de uma transição e nada mais queria do que uma mudança... Se existe algo de mórbido no seu desenvolvimento, lembre-se que a doença é o meio pelo qual o organismo se liberta de algo estranho; assim, devemos ajudar a doença, de forma a tomá-la toda e cortar com ela, pois assim é o progresso. Em si, caro Sr. Kappus, tanto está a acontecer; tem de ser paciente como um doente e confiante como um convalescente; pois talvez seja ambos. E mais: você é também o médico, que tem de o vigiar. Mas há, em todas as doenças, muitos dias em que o médico nada mais pode fazer do que aguardar. E é isso que você, na medida em que é o seu médico, deve agora fazer.
(Rainer Maria Rilke- CARTAS A UM JOVEM POETA)
Deixo-vos como sugestão musical, um cd que tenho na minha cdteca. Como apreciadora que sou das sonoridades latinoamericanas o trabalho em questão não poderia deixar de constar, inclusive, por outra razão que entendo como sendo obvia. O cd a que me refiro é, pois:

Quanto às cantoras e canções que o compõem são:
1. Susana Baca - Peru- "Zamba Malotó"
2. Totó La Momposina - Colombia- "Los Sabores del Porro"
3. Lhasa - México/USA - "De Cara a la Pared"
4. Celina González - Cuba- "Guajira Linda"
5. Eva Ayllón - Perú- "Raíces Negras"
6. Mariana Montalvo - Chile- "La Libélula"
7. Xiomara Fortuna - Brasil- "Há Mulheres"
9. Nazaré Pereira - Brasil- "Brasileira, Tout Simplement"
10. Trio Los Chasouis - Perú- "Azucar de Caña"
11. Mercedes Sosa - Argentina- "Un Son Para Portinari"
Para que fiquem com mais informação, acrescendo seguidamente parte da introdução constante neste trabalho:
"No siempre ha sido fácil para las mujeres el hacerse escuchar en las sociedades de America Latina, tradicionalmente dominadas por los hombres. Pero sus voces transmiten las tradiciones, con sus cantos de cuna para arrullar a los niños y las canciones que se entonan en los dias de fiesta. De generación en generación, las mujeres han sido guardianes de la memoria colectiva en la cultura musical latinoamericana.
(...)
En los últimos años, las mujeres de América Latina han comenzado a alcanzar una mayor aceptación comercial en la música popular. Todas las cantantes incluidas en esta recopilación se han inspirado en las tradiciones musicales de sus respectivas culturas. Intentan conservar y promover estas tradiciones, mantenerlas actualizadas y apegadas a la sociedad moderna con la incorporación de sus propios sentimientos, ideologias e influencias. (...)
Si bien las canciones de esta recopilación reflejan muchos estilos e historias diferentes, todas comparten un vínculo similar con las tradiciones locales. Todas ellas reflejan la mezcla de culturas europeas, africanas e indígenas, que forma el núcleo de la música latinoamericana. Y sus voces comunican un mensaje positivo, inspirado por el pasado y el presente, que ha sido inspiración de muchas generaciones."
Eu gostei muito do cd. Caso a ele tenham acesso, espero que gostem também.

(Fotografia de Bruno Espadana)
É preciso astúcia para se conseguir viver neste mundo. Está bem. Só os astutos sabem praticar o mal para triunfar. Quem sofra com este estado de coisas e decida fazer uma patifaria, para se vingar, para imitar os outros, deve reflectir que, depois, terá de viver sempre com astúcia, saber triunfar, porque senão a astuta patifaria cometida uma vez servirá apenas para o torturar, contrastando com todo o seu persistente estado de não-astuto, não-patife, inapto.
Pecado é agir contra o que nos é próprio. É uma ruptura de equilíbrio. Daqui resulta que, quando alguém pecou (isto é, tem remorsos, caso contrário não foi pecado), toda a sua vida parece posta em questão.
Conselhos aos pecadores: nunca ficar a meio caminho, mas empenhar-se a fundo e procurar transformar a nova orientação num hábito, transfigurar neste sentido especialmente o próprio passado.
Pode parecer o contrário, mas a coisa que causa mais horror a qualquer pessoa é acordar, uma manhã, diferente do que era na noite anterior. Quer dizer, perder o sentido da sua própria arquitectura interna.
Qual a diferença entre um crime realizado e outro imaginado, saboreado, amado, mas não cometido? A seguinte: o primeiro já não poderá não ser, o segundo deixa a ilusão de não ter perturbado a nossa natureza. Em consciência, deveriam provocar em nós o mesmo remorso; mas não sucede assim porque, no segundo caso, nada nos impede de voltarmos a ser o que éramos anteriormente. (...)
Em suma: a boa consciência não é senão a expressão do desejo que todos temos: ser nós próprios - estar à vontade.
Os pequenos prevaricadores ocasionais sofrem imensamente mais do que os maiores criminosos, porque os segundos são naturais.
Quando o remorso de qualquer má acção nos persegue, não é a dor infligida aos outros que nos desagrada, mas o mal estar que nos agita.
A arte de viver - dado que para viver é preciso fazer sofrer os outros (...) - consiste em habituarmo-nos a fazer todas as patifarias sem abalar o nosso equilíbrio interior. Ser capaz de todas as patifarias é a melhor bagagem que um homem pode possuir.
(Cesare Pavese- O OFÍCIO DE VIVER)

Encontra-se já disponível em DVD (embora com outra capa de apresentação), o filme que sintetiza a vida de Sylvia Plath (EUA, 1932-1963) e Ted Hughes (Inglaterra, 1930-1998), dois nomes de referência da Literatura do Século XX.
O filme mostra-nos a relação vivida entre os dois desde o momento em que se conheceram em Cambridge, passando pelo casamento (no ano de 1956) e problemas a si inerentes, nascimento dos filhos, relação com os amigos, separação... tudo até ao suicídio de Sylvia.
Paralelamente a esta relação/vivência a dois (ou vivências dos dois), a evolução da carreira de ambos, nomeadamente ao nível da escrita: maiores ou menores sucessos, maiores ou menores reconhecimentos, inspiração/propensão para a criação ou falta dela, temáticas abordadas, etc.
Um filme que considero interessante, em particular pela carga emotiva global, pela densidade psicológica sobretudo respeitante a Sylvia (uma mulher com problemas desde muito jovem, condicionantes estes da evolução da sua personalidade, formas de estar consigo, com os outros e em particular com Ted), e pela boa interpretação dos autores que dão vida às personagens: Gwyneth Paltrow e Daniel Craig.
Uma referência, sem dúvida, a considerar quer para quem já contactou com a obra de Sylvia e Ted ou para quem ainda não o fez servindo de ponto de partida (eventualmente estimulante).
Quanto ao DVD contém os seguintes extras, entre outros:
- Entrevistas a Christine Jeffs (Realizadora), Alison Owen (Produtora);
- Entrevistas a Gwyneth Paltrow e Daniel Craid (para além de outros actores).
Quanto ao tempo de duração:
C. 110'
Se ainda não viram o filme, façam-no(!). Julgo, realmente, que vale a pena, inclusive porque nos pode pôr (e põe!) a pensar sobre nós próprios relativamente ao que fomos/somos/poderemos ser - connosco, relativamente a nós e com os outros/ ou com um Outro.
(Sarah Kane)
[1º registo]
- Fizeste planos?
- Tomar comprimidos, cortar os pulsos, depois enforcar-me.
- Tudo ao mesmo tempo?
- De certeza que não podia ser reconstituído como um grito de ajuda.
(Silêncio.)
- Não ia resultar.
- Claro que ia.
- Não ia resultar. Sentias-te sonolenta dos comprimidos e não tinhas energia para cortar os pulsos.
(Silêncio.)
- Se ficares sozinha achas que podes fazer mal a ti própria?
- Acho que sim e isso assusta-me.
- Pode ser uma espécie de protecção?
- Sim. É o medo que me afasta da linha do comboio. Só espero, por amor de Deus, que a morte seja a merda do fim. Sinto-me com oitenta anos. Estou cansada da vida, a minha mente quer morrer.
- Isso é uma metáfora, não a realidade.
- É um símile.
- Não é a realidade.
- Não é uma metáfora, é um símile, mas mesmo que fosse, aquilo que define uma metáfora é ela ser real.
(Um longo silêncio.)
- Não tens oitenta anos.
(Silêncio.)
- Tens?
(Um silêncio.)
Ou tens?
(Um longo silêncio.)
- Desprezas todas as pessoas infelizes ou sou só eu em particular?
- Não te desprezo. A culpa não é tua. Tu estás doente.
- Não acho.
- Não?
- Não. Estou deprimida. A depressão é ira. Foi o que tu fizeste, quem lá estava e quem culpas.
- Quem é que tu estás a culpar?
- A mim.
[2º registo]
- Epá, o que é que te aconteceu ao braço?
- Cortei-o.
- Isso é para chamar a atenção, que coisa tão infantil. Aliviou-te?
- Não.
- Aliviou-te?
(Silêncio.)
Aliviou-te?
- Não.
- Não percebo por que é que fizeste isso?
- Então pergunta.
- Aliviou a tensão?
(Um longo silêncio.)
Posso ver?
- Não.
- Gostava de ver, para ver se está infectado.
- Não.
(Silêncio.)
- Sabia que podias fazer isso. Há muitas pessoas que fazem. Alivia a tensão.
- Já alguma vez fizeste?
- ...
- Não. És sensível e são demais merda. Não sei onde é que tu leste isso, mas não alivia a tensão.
(Silêncio.)
Por que é que não me perguntas porquê?
Por que é que eu cortei o braço?
- Queres dizer-me?
- Quero.
- Então diz-me.
- PERGUNTA.
ME.
PORQUÊ.
(Um longo silêncio.)
- Por que é que cortaste o braço?
- Porque me sinto muito bem merda. Porque me sinto fantástica merda.
- Posso ver?
- Podes ver. Mas não toques.
- (Olha) Achas que estás doente?
- Não.
- Eu acho. A culpa não é tua. Mas tens de responsabilizar-te pelas tuas acções. Por favor não voltes a fazê-lo.
[3º registo]
Vim ter contigo à espera de ser curada.
És o meu médico, o meu salvador, o meu juiz omnipotente, o meu padre, o meu deus, o cirurgião da minha alma.
E sou tua partidária na sanidade.
---------
para atingir objectivos e ambições
para superar obstáculos e atingir altos padrões
para aumentar a auto-avaliação pelo bem sucedido
exercício do talento
para superar a oposição
para ter controlo e influência sobre os outros
para me defender
para defender o meu espaço psicológico
para justificar o ego
para receber atenção
para ser vista e ouvida
para excitar, surpreender, fascinar, chocar, intrigar,
divertir, entreter ou atrair os outros
para estar livre de restrições sociais
para resistir à coacção e à constrição
para ser independente e agir de acordo com o desejo
para desafiar a convenção
para evitar a dor
para evitar a vergonha
para apagar as humilhações passadas recapitulando as
acções
para manter o auto-respeito
para reprimir o medo
para superar a fraqueza
para pertencer
para ser aceite
para nos aproximarmos e nos relacionarmos agradavelmente
com o outro
para conversar de maneira amigável, para contar histórias,
trocar sentimentos, ideias segredos
para comunicar, para conversar
para rir e contar piadas
para conquistar a afeição do Outro desejado
para aderir e mantermo-nos fiéis ao Outro
para gozarmos experiências sensuais com o Outro
projectado
para alimentar, ajudar, proteger, confortar, consolar,
apoiar, cuidar ou curar
para ser alimentada, ajudada, protegida, confortada,
consolada, apoiada, cuidada ou curada
para construir uma relação agradável, durável, cooperante e recíproca com o Outro, com um ideal
para ser perdoada
para ser amada
para ser livre
(Sarah Kane- 4:48 PSICOSE)
[Os "registos" apresentados são da minha responsabilidade para efeitos de exposição dos excertos da peça de Sarah Kane. Post em reposição.]

(Fotografia de Larry Towell)
Vejamos o mundo.
Exércitos, lugares onde se sofre,
sacrifícios da mãe pelos quatro filhos, o erudito de óculos a
examinar
o filme pornográfico,
o velho de passo lentíssimo com um casaco exagerado,
uma criança a troçar de outra mais fraca,
o casal a discutir por causa do ruído dos pés de um
e da sensibilidade do ouvido do outro,
e no meio de tantos factos e de tão diversas possibilidades,
oito homens com calças curtas e números nas costas
correm cem metros
- nem um centímetro a mais- e ganham ou perdem.
E uma vitória, por exemplo, pode levar alguém a curvar-se
e a chorar. E o assunto são cem metros de espaço no Mundo.
Pensa, por exemplo, no espaço de um país
ou no espaço da tua casa,
ou no espaço que percorres atrás da rapariga
que te largou a mão no meio da cidade;
porém nada mais há em alguns instantes, para esses homens,
além de: cem metros. Cem metros de espaço no planeta.
Vejamos, pois, o Mundo outra vez.
Como quem lê pela segunda vez um livro. Voltemos atrás.
Vejamos onde o homem perdeu a razão.
Em que momento.
(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)

(Fotografia de Philippe Pache)
Há uma coisa que me perturba desde sempre na tua argumentação,
isso é bastante claro na tua última carta, é um
erro indubitável que tu própria
podes verificar: se dizes (como realmente
é verdade) que amas tanto o teu marido que não o podes deixar (nem ao
menos por amor de mim,
isto é: seria para mim terrível se,
apesar disso, o fizesses), então acredito nisso
e dou-te razão. Quando dizes que na realidade tu o
poderias abandonar, mas que ele precisa de ti interiormente
e não pode viver sem ti, que
portanto por essa razão não o podes abandonar, então
também acredito em ti e também te dou razão.
Mas quando dizes que ele não é capaz de enfrentar a vida exteriormente
sem ti e que tu por essa razão (fazendo disto a razão principal)
por essa razão não o podes abandonar,
então, ou dizes isso para encobrires
os motivos referidos anteriormente (não para reforçares,
pois para reforçares não precisas
desses motivos) ou então é apenas uma dessas brincadeiras do cérebro (de que falas
na última carta) por entre as quais
o corpo e não somente o corpo se retorce.
(Franz Kafka- TRÊS CARTAS A MILENA JESENSKÁ)

(Fotografia de Marília Campos)
Mónica, tenho sentido a tua ausência nas palavras que não te escrevo. Trabalho, muito, distracções várias, preocupações mil que me afastam de ti. Nas palavras quero dizer. Em pensamento, tu a interromperes-me as manhãs as tardes as noites. As mesmas manhãs tardes noites que não te escrevo. Sinto-te na ausência do que não digo. Preciso de escrever-te. Repito: preciso de escrever-te.
Na altura em que acordavas ao meu lado, por vezes achei que tinha tudo por garantido e descurei de elaborar versos com as nossas vidas. Mesmo que não os apreciasses e optasses por dar mais atenção à necrologia dos jornais que não lias.
Nessa altura, achava que dizer
- adoro-te
era o mesmo que escrever-te um caderno inteiro só com poemas. Nessas alturas,
- adoro-te
era suficiente para ti, pois nunca aceitarias nada que tivesse maior extensão que aquele microsegundo em que me ouvias e fingias acreditar. Por vezes, abraçados à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, respondias na inevitável repetição do
- também te adoro,
e o meu peito, buscando forças para acreditar no que dizias, sorria. Dali a um pouco, deixar-te-ia. Iria à minha vida e tu continuarias na tua. Os versos que antes te escrevera, tu irias esquecê-los, ao passo que eu optava por recordá-los, aspirando ter oportunidade de os reproduzir numa outra noite em que me dissesses
- adoro-te
e eu, abraçado à vida, no cheiro de um e outro confundido na pele, pudesse responder-te na inevitável repetição de
- também te adoro.
Sabíamos que eram pequenas verdades como estas que nos davam forças para continuar a nossa grande mentira.
(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA)

(Fotografia de José Marafona)
Falaram-me em homens, em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si,
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.
(Alberto Caeiro- POESIA)

(Fotografia de Marília Campos)
Nas recordações de qualquer homem há certas coisas que ele não revela a toda a gente, apenas aos amigos. Há outras que nem aos amigos ele revelará, apenas a si mesmo e só secretamente. E, finalmente, há outras que o homem até a si mesmo tem medo de revelar, e qualquer homem decente acumula bastantes recordações dessas. Ou seja, quanto mais decente for, tantas mais recordações dessas tem. Pelo menos, eu, pessoalmente, só há pouco ousei recordar certas aventuras do meu passado, a que até então me esquivara com uma espécie de inquietação. Ora, neste momento, quando não só estou a recordá-las mas ainda por cima me atrevo a anotá-las, queria experimentar: é possível, ou não, ser-se absolutamente sincero pelo menos consigo mesmo e não ter medo de toda a verdade? Uma observação: Heine afirma que as autobiografias sinceras são quase impossíveis e que, de certeza, qualquer homem mentirá ao falar de si mesmo. Na opinião dele, o Rousseau, por exemplo, caluniou-se a si mesmo nas suas confissões, e caluniou-se até intencionalmente, por vaidade. Estou convencido que Heine tem razão; compreendo muito bem como se pode, por vezes, só por vaidade, assacar a si próprio até alguns crimes, e eu percebo muito bem de que género pode ser essa vaidade. Heine, porém, estava a falar de um homem que se confessava, perante o público. Quanto a mim, escrevo só para a minha pessoa e declaro, de uma vez para sempre, que se escrevo como se estivesse a dirigir-me aos leitores, faço-o exclusivamente por fingimento, porque é mais fácil para mim escrever desta forma. É apenas uma forma, uma forma sem importância, nunca terei leitores. Já o declarei.
(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

(Fotografia de Philipe Pache)
Borgeby gàrd, Flãdie, Suécia
12 de Agosto de 1904
Quero de novo falar um pouco consigo, caro Sr. Kappus, embora quase nada possa fazer que o ajude, quase nada lhe será útil. Teve muitas e grandes tristezas, que passaram. E diz você que mesmo essa passagem foi difícil e o deixou inconsolável. Mas, por favor, pense se essas grandes tristezas não foram directamente para o centro de si próprio? Se muita coisa em si não se modificou, se algures em si próprio, nalgum ponto do seu ser, não se processou uma mudança enquanto se sentiu triste? Só são perigosas e más aquelas tristezas que nós carregamos entre as pessoas de forma a afogá-las; como a doença que é superficial e tolamente tratada, que apenas se retira e passado pouco tempo aparece de novo, mais violenta; e acumuladas dentro de nós não vida, não vivida, rejeitada, vida perdida, da qual podemos morrer. Fosse-nos possível ver para além do conhecimento, e um pouco além dos limites do nosso poder de adivinhar, talvez suportássemos as tristezas com maior confiança do que as alegrias. Pois são os momentos em que algo de novo entra em nós, algo desconhecido; os nossos sentimentos crescem mudos em tímida perplexidade, tudo em nós se retrai, a calma aparece, e o novo, que ninguém conhece, mantém-se ali no meio e é silêncio.
Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralizantes porque deixamos de ouvir os sentimentos surpreendidos a viver. Porque nos encontramos sós com uma coisa estranha que entrou no nosso interior; porque tudo o que nos é íntimo e familiar nos foi tirado por instantes; porque ficamos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Por esta razão a tristeza também passa; a coisa nova dentro de nós, aquela que está a mais, entrou no nosso coração, entrou para a parte mais profunda e já lá não está - já está no nosso sangue. E não percebemos o que foi. (...) E por isso é tão importante ser solitário e alerta quando estamos tristes; porque o momento aparentemente calmo e silencioso em que o nosso futuro põe um pé dentro de nós está muito mais perto da vida, do que aquele outro ponto no tempo, barulhento e fortuito, que nos acontece como se fosse vindo de fora. Quanto mais quietos, mais pacientes e mais abertos nós formos quando estamos tristes, quanto mais profunda e inabalavelmente o novo entrar em nós, melhor o tomamos como nosso, tanto mais o tornaremos nosso destino, e quando num dia mais tarde acontecer, (...) sentiremos dentro de nós a afinidade e a proximidade.
(Rainer Maria Rilke- CARTAS A UM JOVEM POETA)
Concluo hoje a edição de poemas de Maria Teresa Horta. Este último conjunto provém da obra "Só de amor", datada de 1999. Os poemas apresentados permitem perceber e sentir a intensidade da escrita da autora, onde o Erotismo surge de forma particularmente aberta, sem nada que o atenue e onde a Mulher é/está de forma completamente livre desejando, amando e sentindo. De não esquecer, também, a vertente da partilha de tudo isto com o Outro, um "eu" que completa um cenário (ou cenários determinados) numa posição de absoluto companheirismo, sem laivos de supermacia. E ambos desejam, estão e sentem.
Ora vejam, então:
CHAMAMENTO

Como podes tirar de mim
o chamamento
um minuto que seja
apagares a chama?
Por ti tiro tudo
e enrodilho
queimando tudo depois à cabeceira
Devagar convoco a tempestada aberta
e no meu peito
o coração tropeça
E não há nada que eu queira
imaginar
que entre nós depois
não aconteça
(SÓ DE AMOR, 1999)
O CORPO

É pêssego
Tangerina
E é limão
Tem sabor a damasco
e a alperce
Toma o gosto da canela
de manhã
e à noite a framboesa que se despe
De maça guarda o pecado
e a sedução
Do mel
o açúcar que reveste
Do licor
a febre que no seu rasgão
me invade me inunda e me apetece
Mergulho depressa a minha boca
e bebo a sede
que em mim já cresce
Delírio que me enche
de prazer
tomando o ponto num lume que humedece
Devagar mexo sem tino
as minhas mãos
Provando de ti
o que de ti viesse
O anis do esperma
o doce odor do pão
que o teu corpo espalha e enlouquece
(SÓ DE AMOR, 1999)
TURBAÇÃO

Não podendo suster
tanto apetite
tanta vontade de te morder
a boca
se estás longe procuro
outra maneira
de te tocar e toda a pressa é pouca
Desço os pulsos e afasto
os meus joelhos
Subo os dedos
e toco a minha folha
Entreabro os lábios
e não querendo é já
uma rosa doce
que a minha mão desfolha
(SÓ DE AMOR, 1999)
DELÍRIO

É o meu mel
que eu cheiro na tua boca
É no teu pénis
que eu bebo a sede toda
Nos meus lábios abertos
que me vencem
eu nado devagar sem ter vergonha
É a lagoa - eu digo
de veludo
É o grito - eu sei
na raiva solta
É a proa do prazer
sobre o lençol
onde mais tarde vai rebentar a onda
Secreto é o ruído
dos corpos
no combate
Os elmos já depostos pelo chão
caídas as viseiras e as máscaras
o vestido misturado à armação
São fulvos os cavalos
com as patas cor do pó
tropeçando na paz adormecida
Eu levo a bandeira
do orgasmo
E "para tão grande amor é curta a vida"
(SÓ DE AMOR, 1999)
INCÊNDIO

Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco
Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume aberto
Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho
Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho
(SÓ DE AMOR, 1999)
(Fotografias de Bryce Lankard)
Esperando que tenham gostado da selecção, despeço-me com mais uma saudação a Maria Teresa Horta. De facto a sua poesia é fantástica e... inequivocamente libertadora.

Deixo-vos com um poema de um fado cantado por Mariza. Mariza é uma referência para mim. É uma fadista que muito aprecio quer pelo seu porte quer pelas suas qualidades/capacidades/potencialidades em termos de interpretação. Por outro lado, a sua prestação em palco é muito boa.
O poema intitula-se "Chuva" e é cantado no 1º album da fadista- Fado em mim.
Ora leiam:
As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudade
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
Da história da gente
E outras de quem nem o nome
Lembramos ouvir
São emoções que dão vida
À saudade que trago
Aquelas que tive contigo
E acabei por perder
Há dias que marcam a alma
E a vida da gente
E aquele em que tu me deixaste
Não posso esquecer
A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai, meu choro de moça perdida
Gritava à cidade
Que o fogo do amor sob a chuva
À instantes morrera
A chuva ouviu e calou
Meu segredo à cidade e eis que ela bate no
vidro
Trazendo a saudade
Acreditem: este fado é muito bom. Para além da letra tem uma música muito bonita. Quanto à interpretação da Mariza: excelente! Se não conhecem, procurem ouvir.
Tenham um bom dia de Natal!

(Fotografia de José Marafona)
Porém a terra acordou cansada.
Vezes de mais deu vinho e pão à força, à usura. Recusou a oferta de ouro, mas alimentou o exército errado. Confundiu a
espada com os tranquilos.
Agora cansou-se; fechou a porta. Não é o momento da dança,
ainda, nem sequer do repouso.
De manhã o homem volta ao trabalho; a mulher ao adultério.
É o último homem a baixar o coração que o diz: não existe terra
onde o mal se esconda.
Na manhã seguinte o exército regressa;
e até os santos começam a aceitar, no caminho, a carruagem
confortável e as coroas de ouro.
(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)

(Fotografia de Bryce Lankard)
Actualmente está na moda falar sobre novos métodos de educação feminina, mas tudo não passa de um disparate. Presentemente as mulheres são treinadas e educadas em perfeita harmonia com os ditames da sociedade moderna real e a missão que o seu sexo deve desempenhar; e a educação feminina dependerá sempre da concepção que os homens têm das mulheres. Ninguém tem dúvidas sobre o que os homens pensam das mulheres. Vinho, mulheres e canções... é o que escrevem os poetas. Basta ler a poesia de qualquer época ou de qualquer país... comecemos pelos poemas eróticos, sobre Vénus e Frineia, observemos as pinturas e as esculturas; facilmente nos apercebemos de que a mulher apenas serve de instrumento de prazer, tanto nas classes altas como nas mais baixas. Mas repare na astúcia do diabo. Já não bastava atribuir à mulher um papel tão degradante, como ainda a obriga a representá-lo de modo tão dissimulado e ardiloso. Por conseguinte, em tempos que já lá vão, podíamos ler como os galantes cavaleiros idolatravam e divinizavam a mulher; nos dias de hoje os homens declaram que veneram e respeitam as mulheres; cedem-lhes os seus lugares, apanham-lhes os lenços de assoar quando estas os deixam cair; alguns até vão mais longe ao admitir-lhe direitos iguais (ocupar os mesmos cargos civis, participar no governo, etc). Mas face a todos estes protestos e declarações a visão que o mundo possui da missão e da posição da mulher manteve-se inalterada: ela continua a ser o que sempre foi... um objecto de prazer; e a mulher está bem consciente de que é essa a realidade. (...) O servilismo feminino consiste em a mulher ser olhada como um instrumento de prazer, e esta atitude é considerada correta. Recebe privilégios e são-lhe concedidos direitos iguais aos dos homens, mas mesmo assim as pessoas continuam a olhá-la como um instrumento de prazer, e continuam a educá-la visando esse fim; primeiro inculcando-lhe estes valores durante a infância e, mais tarde, influenciando a opinião pública. E assim ela continua a ser o que sempre foi, uma serva desmoralizada e aviltada, e o homem permanece também o mesmo: um dono e um proprietário sem conceitos morais. Damos às mulheres cargos em escolas e em hospitais e mesmo assim continuamos a olhá-las como anteriormente. (...)
Só poderá haver uma evolução quando os homens mudarem a sua opinião sobre as mulheres e elas próprias se olharem de modo diferente. Só poderemos superar esta situação quando a mulher compreender que o celibato, a virgindade é o estado mais elevado a que pode aspirar... uma situação que ela agora considera uma vergonha e uma desgraça. Mas até que esta alteração de mentalidade se dê, o ideal de qualquer jovem permanecerá o que é hoje, independentemente da educação que possa ter recebido... atrair o maior número possível de homens para ter mais opções de escolha.
(Leon Tolstoi- ENSAIO SOBRE O CIÚME)
Segue-se mais um conjunto de quatro poemas de Maria Teresa Horta. Em termos temporais situam-se entre 1977 e 1997, constando nas obras "Mulheres de Abril", "Os Anjos" e "Destino". São eles:
SOLIDÃO

Entre a tristeza
e a saudade
um vago pátio interior
onde flutua
mansamente nos olhos
e ao fluir dos lábios
a solidão dos dias
sem ternura
(MULHERES DE ABRIL, 1977)
ANJO DO TEU CORPO

A parte que é
anjo
do teu corpo
e me procura a meio
da madrugada
Sobrevoando o lago
que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava
A parte que é
anjo
no teu corpo
e me visita
a meio da madrugada
descansando as asas
dos teus ombros
a meu lado:
em cima da almofada
(OS ANJOS, 1983)
(SEM TÍTULO)

Não pretendo mais do que o limite,
que para além do limite
já se entrega
Eu cumpro os meus
limites,
não cumprindo as regras
(DESTINO, 1997)
DIFERENÇA

Aquilo que é secreto
à tua beira
e longe de ti se torna
tão corrente
Aquilo que é vulgar
longe de ti
mas se estás perto
se torna tão diferente
Aquilo que é mistério
indecifrável
se te aproximas até à minha
cama
E que se torna
raivosamente instável
se por acaso não dizes que me amas
Aquilo que é segredo
se o não escutas
e à tua beira fica
desvairado
Aquilo de que fujo
se não juras
ou não me tomas
de modo apaixonado
Aquilo que é mesquinho
e medíocre
se por acaso te afastas do meu
lado
Mas que logo cintila
e refulge
quando regressas vindo do
passado
(DESTINO, 1997)
(Fotografias de Juul de Vries)
O último conjunto de poemas da autora será editado no Domingo. Continuo a contar com o vosso acompanhamento. Até lá!
E eis mais quatro poemas de Maria Teresa Horta. Situam-se estes, em termos de tempo de produção e edição, entre os anos de 1971 e 1975.
São os seguintes:
POEMA AO DESEJO

Empurra a tua espada
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo
que eu sinta de ti a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins
deixa depois que a tua boca
desça
e me contorne as pernas de doçura
Ó meu amor a tua língua
prende
aquilo que desprende de loucura
(MINHA SENHORA DE MIM, 1971)
POEMA SOBRE O ENREDO

Enredada estou de mim
nesta febre em que me vejo
já que enredada de ti
não se cura o meu desejo
que nem me pus de curar
este fogo do teu corpo
nem me pus de enganar
esta sede que provoco
pois logo desenredada
eu sei que me enredaria
neste vício de enredar
o meu espasmo em teu orgasmo
por sua vez enredados na branda rede dos dias
(MINHA SENHORA DE MIM, 1971)
AS NOSSAS MADRUGADAS

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito
pois suspeitas
que com ele me visto e me
defendo
É raiva
então ciúme
a tua boca
é dor e não
queixume
a tua espada
é rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas
E tomas-me de força
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse
E queres-me de amor
e dás-me o tempo
a trégua
a entrega
e o disfarce
E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuíres de mim o que não sabes
Despertas-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo
e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales
(MINHA SENHORA DE MIM, 1971)
O CORPO

Digo do corpo
o corpo:
e do meu corpo
digo no corpo
o sítio e os lugares
de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso em seus vagares
Lazeres do corpo:
os ombros
as lisuras - o colo alto
a boca retomada
no fim das pernas
a porta da ternura
dentro dos lábios
o fim da madrugada
Digo do corpo
o corpo:
e do teu corpo
as ancas breves
ao gosto dos abraços
os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em súbitos cansaços
Vício de um corpo:
o teu
com o seu veneno
que bebo e sugo
até ao mais amargo
ao mais cruel grau do esgotamento
e onde em silêncio
nado
em cada espasmo
Digo do corpo
o corpo:
o nosso corpo
Digo do corpo
o gozo
do que faço
Digo do corpo
o uso
dos meus dias
e a alegria
do corpo sem disfarce
(EDUCAÇÃO SENTIMENTAL, 1975)
(Fotografias de Philippe Pache)
Um outro conjunto de poemas já amanhã, Quinta-feira. Espero que estejam a gostar :)

(Fotografia de Juul de Vries)
Porém, é impossível descobrir o
nome inteiro das coisas.
Há sempre um sobrenome,
três ou quatro designações de família,
e várias aproximações que nos escapam.
Uma coisa simples como a pedra
poderá ter tantos nomes incertos
como a água. E é só um exemplo.
Daí a dificuldade para entender
um único dia.
É impossível saber o nome inteiro da vida,
mas tal não é razão para te matares já.
(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)

(Fotografia de José Marafona)
- Em que aspecto é que a educação é um mal? - Perguntou a senhora, com um sorriso quase imperceptível nos lábios. - Não podemos concordar, com certeza, com o tipo de casamento de outrora, em que a noiva e o noivo só se conheciam antes do casamento? (...)
Eles não sabiam se gostavam um do outro, se poderiam vir a gostar um do outro, casavam sem saber com quem, sendo infelizes o resto das suas vidas. E, na sua opinião, acha que isso era melhor? (...)
- Hoje em dia as pessoas estão muito mal esclarecidas, - repetiu o comerciante, olhando a senhora desdenhosamente, sem lhe responder à pergunta.
- Gostaria de saber como explica a ligação entre a educação e discórdia no casamento, - exclamou o advogado, sorrindo de modo imperceptível. O comerciante ia começar a falar quando a senhora o interrompeu, dizendo:
- Não, esses tempos já estão completamente ultrapassados.
O advogado, contudo, olhando-a exclamou: - Deixe-o explicar o ponto de vista dele!
- A insensatez provém da educação, - gritou o comerciante de modo dogmático.
- Unem em matrimónio pessoas que não se amam e depois admiram-se que esses casais vivam infelizes, - exclamou a senhora precipitadamente, virando-se para o advogado, para mim, e até mesmo para o caixeiro viajante (...).
- Só os animais é que podem ser tratados assim, - continuou com o intuito de espicaçar o comerciante - o dono emparelha-os e acasala-os da maneira que acha mais adequada. Só que os homens e as mulheres criam os seus próprios laços e têm as suas inclinações naturais.
- A senhora não deve dizer isso, - retorquiu o comerciante. - Um animal é um ser irracional, enquanto o homem tem leis.
- Sim, mas como espera conseguir viver com alguém, se não nutre qualquer espécie de amor por essa pessoa? - Gritou a senhora abruptamente, expressando assim os seus sentimentos que tinha como genuínos.
- Antigamente não se pensava nessas coisas, - afirmou o comerciante com ar solene e autoritário. - Esses costumes só agora é que entraram em voga (...). A coisa mais importante que a mulher deve aprender é a ter medo.
(...)
- Mas a que espécie de medo se refere?- Perguntou a senhora.
- Aquele que está representado nas palavras: " E ela temerá o senhor seu marido". É a esse medo que me refiro.
- Esses dias fazem parte de um passado longínquo, meu caro senhor, - exclamou a senhora com um tom de voz amargo.
- Não, minha senhora, esses dias não podem ser esquecidos. Tal como Eva foi criada a partir da costela do homem, assim permanecerá para todo o sempre.
(...)
- Sim, é assim que vocês, homens, resolvem tão facilmente essa questão,- exclamou a senhora, não se rendendo e desviando olhar noutra direcção.- Vocês têm toda a independência e querem que nós, as mulheres, fiquemos presas "a sete chaves". Mas, no entanto, tenho a certeza de que se permitem ter todo o tipo de liberdades.
- Ninguém tem que nos conceder seja o que for; sabe, um homem não traz qualquer infortúnio ao lar pela sua má conduta fora de casa. Mas uma mulher, uma esposa, é um ser muito frágil.
A ênfase e a gravidade conferidos ao discurso pelo comerciante provocaram um efeito deveras persuasivo nos seus ouvintes. Até a senhora estava consciente da derrota; contudo, recusava-se a desistir.
- Sim, mas penso que todos admitem que uma mulher é um ser humano, dotado de sentimentos, tal como um homem. Então, o que deve fazer se não amar o marido?
- Se não amar o marido? - repetiu o comerciante com voz zangada, movendo simultaneamente as sobrancelhas e os lábios. - Ora, não receie, ela acabará po aprender a amá-lo. (...)
- Oh!, só que ela não aprenderá a amá-lo, - afirmou a senhora. - E se não existir amor, não será a força que o fará nascer.
(Leon Tolstoi- ENSAIO SOBRE O CIÚME, 1891)
Inicio com este post aquela que será a apresentação ao longo desta semana de poemas de amor e de carácter erótico de Maria Teresa Horta. Na passada Sexta-feira editei, da autora "Ponto de Honra", também, com o objectivo de preparar este destaque.
A edição é/será feita atendendo a uma ordem cronológica de escrita e publicação verificadas, permitindo esta acompanhar a evolução das produções ao longo de dois períodos muito particulares: em Ditadura e após o 25 de Abril, naquilo que isso significa de posicionamento e afirmação amoroso-erótico(a) da Mulher e na forma como o Amor é vivido a dois no âmbito de uma partilha e envolvência plena e em igualdade.
Sendo que a poesia de Maria Teresa Horta tem sempre uma mensagem muito mais global do que aquela que à partida se pode vislumbrar pelo que parece de mais imediato, julgo valer a pena deixar-vos um conjunto razoável de poemas para que a mesma consiga ser melhor e mais consolidadamente entendida.
E o que vos deixo hoje é:
INVOCAÇÃO AO AMOR
Pedir-te a sensação
a água
o travo
aquele odor antigo
de uma parede
branca
Pedir-te da vertigem
a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas
Pedir-te
sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta
pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara
Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas
Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua
Meu ciúme
meu perfil
minha fome
meu sossego
minha paz
minha aventura
Meu sabor
minha avidez
saciedade
minha noite
minha angústia
meu costume
(VERÃO COINCIDENTE, 1962)
SAUDADE

Saudade já saudade
antes saudade
amor de te não ver
porque pressinto
se sinto que te ter
é não saber
distância já agora
e que não minto
Amor de que me calo
e te não digo
amor já saudade
já instinto
(AMOR HABITADO, 1963)
TU
Com esse teu ar
de arcanjo negro
pálido e magro
triste e alheado
ficas por vezes quase etéreo
calado
enquanto eu te olho docemente
Num espanto condenado
quase místico
debruço-me secratamente à tua beira
e numa espécie de prece
porque existes
alheado- magro
belo e triste
estou de joelhos
meu amor
e beijo-te
(CANDELABRO, 1964)
MEMÓRIA

Retenho com os meus
dentes
a tua boca entreaberta
e as palmas das mãos
dormentes
resvalam brandas e certas
As tuas mãos no meu peito
e ao longo
das minhas pernas
(CANDELABRO, 1964)
NOITE

De noite só quero vestido
o tecido dos teus dedos
e sobre os ombros a franja
do final dos cabelos
Sobre os seios quero
a marca
do sinal dos teus dentes
e a vergasta dos teus
lábios
a doer-me sobre o ventre
Nas pernas e no pescoço
quero a pressão mais
ardente
e da saliva o chicote
da tua língua dormente
(CANDELABRO, 1964)
(Fotografias de Philippe Pache)
O próximo conjunto de poemas será editado na Quarta-feira. Até lá!
Deixo-vos com a parte final de "A Casa de Bernarda Alba", peça escrita por Federico García Lorca no ano de 1936 (também o ano da sua morte). Uma peça que é uma tragédia. Como disse o autor, uma tragédia que nada mais é do que a tragédia das mulheres das aldeias espanholas que se encontram presas aos imensos preconceitos que as impedem de viver, na sua plenitude, os sentimentos mais nobres. Mulheres acorrentadas a ideias ou valores sociais pré-concebidas/pré-concebidos que nada mais fazem do que as castrar, gerando situações de imensa hipócrisia cujo resultado é o aniquilamento de si próprias.
O excerto que se segue é uma amostra disso mesmo, do que pode causar em termos familiares em geral e individuais em particular.

LA PONCIA (sempre com crueldade)
Bernarda: aqui passa-se qualquer coisa de extraordinário. Não te quero lançar as culpas, mas tu não deste liberdade às tuas filhas. Martírio é namoradeira, digas lá o que disseres. Por que não a deixaste casar com o Henrique Humanas? Por que é que no mesmo dia em que estava combinado ele vir falar-lhe à janela lhe mandaste recado para que não viesse?
BERNARDA
Tornava a fazê-lo mil vezes. O meu sangue não se junta ao dos Humanas enquanto eu for viva. O pai dele era ganhão!
LA PONCIA
Nunca perdes essas farroncas.
BERNARDA
Tenho-as porque as posso ter. E tu não as tens porque sabes muito bem qual é a tua origem.
LA PONCIA (com ódio)
Não mo recordes. Já sou uma velha. Sempre fui grata à tua protecção.
BERNARDA (altiva)
Não parece!
LA PONCIA (com ódio disfarçado em suavidade)
Martírio há-de esquecer isto.
BERNARDA
Se não o esquecer, pior para ela. Não acredito nessa tal "coisa extraordinária" que se passa nesta casa. Aqui não se passa nada. Isso querias tu! E se um dia alguma coisa houver, fica certa de que não atravessará estas paredes!
LA PONCIA
Lá isso não sei. Na aldeia há mais quem saiba ler no pensamento dos outros.
BERNARDA
Ah, como gozarias se nos visses, a mim e às minhas filhas, no meio das mulheres perdidas!
LA PONCIA
Ninguém sabe o seu destino!
BERNARDA
Pois eu, sim, eu sei o meu! E o das minhas filhas! (...)
(...)
LA PONCIA
Talvez seja melhor não me meter em nada.
BERNARDA
É isso o que deves fazer. Trabalhar e boca calada. É essa a obrigação dos que trabalham para os outros.
LA PONCIA
Mas não pode ser. Não achas que Pepe estaria melhor casado com a Martírio ou... sim!, com a Adela?
BERNARDA
Não me parece!
LA PONCIA
Adela. Essa, sim, é que é a verdadeira noiva do Pepe!
BERNARDA
As coisas nunca correm a nosso gosto.
LA PONCIA
Mas custa muito uma pessoa não seguir a sua verdadeira inclinação. A mim parece-me mal ver o Pepe com a Angústias! E a toda a gente! Até ao ar! Quem sabe o que virá a acontecer...
(...)
MARTÍRIO (em voz baixa)
Adela! (Pausa. Avança até à porta. Em voz alta.) Adela!
(Entra Adela. Vem um pouco despenteada.)
ADELA
Que é que queres?
MARTÍRIO
Deixa esse homem!
ADELA
Que autoridade tens tu para me falares assim?
MARTÍRIO
O teu procedimento não é de uma mulher honrada!
ADELA
O que te dói sei eu: é não poderes fazer o mesmo!
MARTÍRIO (em voz alta)
Vou contar tudo! Isto não pode continuar assim!
ADELA
E ainda estamos no começo. Eu cheguei primeiro, minha invejosa. Tive a coragem que te falta. Fugi da morte que paira nesta casa e fui procurar o que era meu, a vida que me pertencia!
MARTÍRIO
Esse homem sem alma veio por causa de outra, e tu atravessas-te no caminho!
ADELA
Veio pelo dinheiro, mas nunca tirou os olhos de mim.
MARTÍRIO
Não consentirei que o roubes! Há-de casar-se com Angústias.
ADELA
Sabes tão bem como eu que ele não a quer.
(...)
ADELA
Por isso é que não queres que eu vá ter com ele. Que te importa que ele beije uma mulher de quem não gosta?! A mim, também, que me importa! Pode viver à vontade cem anos com a Angústias. Mas que me beije a mim isso faz-te uns ciúmes terríveis, porque também gostas dele, também o queres!
MARTÍRIO (dramática)
Sim! Confesso-o sem vergonha. Sim! Posso rebentar de amargura, mas é verdade: adoro-o!
(...)
BERNARDA
Acabem com isso! Que miséria a minha, não poder ter um raio para as fulminar!
MARTÍRIO (apontando Adela)
Esteve com ele! Olhe como ainda tem as saias cheias de palhas!
BERNARDA
A palha é a cama das desgraçadas!
(Dirige-se furiosa para Adela.)
ADELA (fazendo frente à mãe)
Acabou-se a prisão! (Adela tira a bengala das mãos da mãe e parte-a em duas) Veja o que faço à sua tirania. Não dê nem mais um passo. Em mim só manda o Pepe!
(...)
BERNARDA
A espingarda! Onde está a espingarda?!
(...)
ADELA
Ninguém poderá vencer-me!
ANGÚSTIAS (dominando-a)
Não sais daqui com esse ar de triunfo! Ladra! Desonra da nossa casa!
MADALENA
Deixa-a, que vá para onde nunca mais a tornemos a ver.
(Ouve-se um tiro.)
BERNARDA (entrando)
Anda, vai agora procurá-lo!
MARTÍRIO (entrando)
Acabou-se o Pepe Romano!
ADELA
Pepe! Meus Deus! Pepe!
(Sai correendo.)
LA PONCIA
Mataste-o?
MARTÍRIO
Não. Fugiu a cavalo.
BERNARDA
A culpa não foi minha. As mulheres não sabem apontar.
MADALENA
Por que disseste então que o mataste?
MARTÍRIO
Para me vingar dela! Era capaz de fazer correr rios de sangue!
LA PONCIA
Maldita!
MADALENA
Excomungada!
BERNARDA
Foi melhor assim. (Ouve-se um ruído.) Adela! Adela!
LA PONCIA (à porta)
Abre!
BERNARDA
Abre! Não penses que estas paredes podem esconder a tua vergonha!
CRIADA (entrando)
Os vizinhos já acordaram!
BERNARDA (em voz baixa como um rugido)
Abre, se não arrombo a porta! (Pausa. Tudo continua em silêncio.) Adela! (Afasta-se da porta.) Tragam um martelo!
(La Poncia dá um empurrão à porta e entra. Ao entrar dá um grito e sai.)
BERNARDA
Que é?
LA PONCIA (levando as mãos ao pescoço)
Deus queira que nenhuma de nós tenha um fim como este!
(As irmãs recuam. A Criada benze-se. Bernarda dá um grito e avança.)
LA PONCIA
Não entres.
BERNARDA
Não! Eu não entro! Tu, Pepe, continua a correr, vivo, pela escuridão dos caminhos... Mas um dia cairás! Tirem-na da corda! A minha filha morreu virgem! Levam-na para o quarto e vistam-na como uma donzela. Nem uma palavra do que se passou! Morreu virgem! Ouviram?! Mandem aviso, para que ao amanhecer toquem os sinos.
MARTÍRIO
Foi a única ditosa de nós todas!
BERNARDA
Nada de choros! A morte é preciso olhá-la de frente. Silêncio! (Para outra filha:) Cala-te, já te disse! (Para outra filha:) Guarda as lágrimas para quando estiveres sozinha. Havemos de nos afogar todas num mar de luto. Adela, a filha mais nova de Bernarda Alva, morreu virgem. Ouviram-me?! Silêncio! Já disse: silêncio!
(Federico García Lorca- A CASA DE BERNARDA ALBA)

(Fotografia de Philippe Pache)
Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei seis dias, a própria triste sala de espera da estação de caminho de ferro onde gastei duas horas à espera do comboio - sim, mas as coisas boas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da hora de Deus roça-me pela face lívida.
O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

(Fotografia de José Marafona)
Oh, mas digam-me: quem foi o primeiro a proclamar, o primeiro a declarar que o homem faz sujeiras só porque não conhece os seus verdadeiros interesses; e que, se for esclarecido, se alguém lhe abrir os olhos para os seus verdadeiros e normais interesses, o homem deixará imediatamente de fazer pulhices, tornar-se-á sem tardança bom e nobre, porque, iluminado por alguém e na posse da consciência das suas vantagens, ele, consequentemente, começará por assim dizer a fazer o bem? Ó criança! Ó bebé puro e inocente! Mas desde quando, em primeiro lugar, em toda essa ceterva de milhares de anos, o homem age apenas movido pela vantagem própria? Que fazer então dos milhões de factos testemunhando que os homens, conscientemente, ou seja, compreendendo totalmente quais são as suas verdadeiras vantagens, as afastaram para segundo plano e se atiraram por outro caminho, se entregaram ao risco, ao deus-dará, sem serem forçados por nada nem por ninguém, mas não querendo contudo seguir o bom caminho e abrindo teimosa e voluntariosamente o outro, difícil, absurdo, procurando-o por entre a escuridão? Significa que tal teimosia e voluntariedade lhes foi de facto mais atraente do que qualquer vantagem... Vantagem! O que é vantagem? Querereis tomar a responsabilidade de definir com toda a precisão em que consiste exactamente a vantagem para o homem? E se suceder que a vantagem humana, em determinada ocasião, consista, não só possível mas precisamente, em desejar para si o pior e não o que mais lhe convém? Se assim for, se tal ocasião pode acontecer, então toda a vossa regra dá em nada. (...) Porque as vossas vantagens são a prosperidade, a liberdade, a tranquilidade, etcaetera, etcaetera; portanto, um homem que, digamos, alerta e conscientemente agisse em contradição com essa lista seria, na vossa e, sem dúvida, na minha opinião, um obscurantista ou um doido varrido, não seria? (...) A nossa própria, livre e independente vontade, o nosso próprio capricho, por mais absurdo e selvagem que seja, a nossa própria vantasia, desenfreada por vezes até à loucura- eis a mais vantajosa das vantagens, a que foi omitida, a que não se encaixa em nenhuma classificação e que permanentemente faz desmoronarem-se todos os sistemas e teorias. Onde foram todos esses sábios buscar a ideia de que o homem precisa de uma qualquer vontade normal e virtuosa? Por que razão fantasiaram eles que é indispensável ao homem uma vontade sensatamente vantajosa? O que o homem precisa é só de uma vontade independente, custe o que custar e leve aonde levar esta independência. E sabe-se lá que diabo de vontade é essa...
(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

(Fotografia de José Marafona)
Quando, a meio de uma conversa entre amigos,
chega o acostumado momento das recordações,
e nos seus lábios ressuscita em claro-escuros
a flor seca do passado, penso surpreendido
que os clássicos tinham razão
quando escreveram com tal subtilieza os seus belos tópicos
acerca da fugacidade do tempo,
e sacode-me com violência
a inutilidade destas repetições.
A fugacidade do tempo
não é coisa que me assombre,
mais estranho seria
deter a ordem das horas;
mas ouvir questões
que nos velhos livros já eram velhas
repetidas de forma torpe e presumidamente nova
é coisa que me assusta.
(Ricardo Arregi- revista "Periférica". Nº 10. Verão 2004, p. 57)

Os dias 4 e 5 de Outubro de 2003 foram particularmente importantes na carreira musical de Mafalda Veiga, na medida em que fez os seus primeiros espectáculos no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Actuar neste espaço sempre fora um sonho da cautautora; significava como que uma espécie de consagração. Os anos passaram, os albuns foram sendo gravados até que neste ano o tão desejado, aconteceu.
Eu estive presente no concerto, como fã da Mafalda que sou. Adorei! Simplesmente adorei, embora ache que o Coliseu seja um espaço demasiado grande/amplo para o intimismo passado com as suas canções e pelas suas prestações ou postura em palco. Mas isto é um detalhe de opinião. O Coliseu estava cheio, o entusiasmo foi enorme e o tempo passou num ápice. Sem qualquer dúvida, quando mais o concerto avançava mais eu me sentia envolvida por todo aquele ambiente, nos quais as canções se afirmavam com uma força cada vez maior.
E eis que agora, um pouco mais de um ano depois, chega ao mercado o dvd do espectáculo. Trabalho esperado pelos fãs da cantautora mas certamente não só. Evidentemente, também, que o adquiri. Tê-lo é, pois, uma forma de reforçar em mim uma noite que foi tão especial com a possibilidade de a recordar sempre que desejar. Claro que já o fiz e, acreditem, voltei a arrepiar-me várias vezes.
Para lembrar a quem lá esteve e para os que não tendo estado, se podem interessar pela respectiva aquisição (que, conjuntamente com o dvd, inclui um cd), deixo as canções interpretadas e constantes:
1- Tatuagens
2- De mão em mão
3- Ouve-se o mar
4- Quando
5- Uma noite para comemorar
6- Llovizna
7- Vestígios de ti
8- Cúmplices
9- O menino do piano
10- Filme
11- O lume
12- Restolho
13- Fim do dia
14- Cada lugar teu
15- Balada de um soldado
16- Velho
Para terminar, deixo-vos com um pequeno depoimento do escritor Jorge Reis-Sá incluído neste trabalho, cujas palavras subscrevo inteiramente:
"Procuro uma palavra para melhor definir este som. Procuro uma palavra para definir os olhos que percrutam a plateia, que aproximam cada verso daquilo que queremos mais nosso- a felicidade.
A Mafalda entrega a cada verso que canta uma doçura que não encontramos em mais nenhuma escritora de canções no nosso país. Porque toca na nossa alma e na nossa pele em partes iguais, entregando a quem a ouve aquilo que mais é necessário na música- a beleza.
Encontro uma palavra para melhor definir este som- o afecto. A Mafalda é uma cantora ímpar, bonita pelos versos que canta e pela pessoa tão querida que os compõe."
De facto!

(Maria Teresa Horta)
Não sou escrava
de lamento
nem tento ferida
de enfeite
nem uso a raiva
que tenho
como um alfange
no peito
Não talho o sangue
nas pedras
nem uso palavras de ódio
e não quero anéis
de aceite
para enfeitar os meus olhos
(Maria Teresa Horta- MINHA SENHORA DE MIM)
[Pelo meu feminismo, trazer Maria Teresa Horta aqui, só pode ser motivo de orgulho. Por tudo o que ela defendeu e defende através da Literatura, o meu grande "Bem haja". Sandra]

(Fotografia de José Marafona)
O homem, o nascido da terra: como ele caminha, orgulhoso.
Mas não te tornes demasiado grande porque os "deuses gostam de baixar o que se eleva".
Da cultura os Mistérios exigem-te apenas a mão direita limpa,
que não tenhas morto;
que saibas grego se és grego, que saibas a língua da tua mãe, se és filho.
As rochas escondem crianças;
as almas andam no cortejo do ar: procuram carne: mães com força
para as mostrar, para as exibir ao sol.
Não te eleves: o céu é demasiado alto; lá em cima apenas o que
não consegue cair.
(Gonçalo M. Tavares- POESIA 1)

(Fotografia de Marília Campos)
Seria perfeito o traço da curva no papel,
se não houvesse por trás do compasso,
a mão imperfeita do homem.
Qual a beleza da perfeição?
Que beleza há na ausência absoluta
de ansiedade e história?
O rigor não me seduz.
Antes as mãos trêmulas,
o coração a baralhar na boca as palavras.
A precisão completa,
à qual nada seria complementar,
esta exatidão sem finalidades,
não me emociona.
O que mais nos moverá,
afora a vida, ela própria?
Qual a exatidão da vida?
Movo-me na existência curta
que me cabe,
num andar trôpego de afetos.
Meu trajeto longe de ser perfeito,
é um labirinto .
Não o pretendo exato no traçado.
Quero-o pleno nos significados.
(Silvia Chueire- EUGENIAINTHEMEADOW)
Mais um micro-capítulo da estória da Mónica. Nele vamos estar face a um reencontro particularmente "aproximado". Mais um flash. Vamos ver como correm as coisas:

As varias preces feitas a um deus que desconheço foram finalmente recompensadas quando te vi hoje bater à porta. Fizeste questão de dizer que vinhas ver o cão (nunca pensei ficar tão contente por ele estar doente) mas mesmo assim não consegui deixar de olhar para os teus olhos negros que tanto me perturbam. Não sei quem ficou mais feliz por te ver: eu ou ele, que se apressou a saltar-te para o colo e a lamber-te a cara enquanto lhe afagavas o pêlo. Fiquei junto à porta a ver aquela cena tão bela quanto familiar; foi bom ter o teu sorriso de novo aqui em casa.
- Parece que a doença já lhe passou!
- Sente a tua falta, Ana. E não é só ele … (deixei escapar por entre um olhar envergonhado)
E sorris como só tu sabes fazer enquanto caminhas até mim, que continuo embaraçado (nunca fui bom com as palavras). Dás-me um beijo no rosto e dizes-me com toda a serenidade que te é tão característica :
- Também sinto a vossa falta!
E sais apressada para o trabalho, levando mais uma vez sem perceberes o meu coração contigo.
(Mónica- MY PAPER MOON. Imagem de David Ho)

Um excelente cd resultante de um trabalho conjunto entre Bebo Valdés (uma referência em Cuba), em particular com o seu contributo ao piano e Diego "El Cigala", cantor de flamengo, na interpretação de um conjunto de canções que se situam ao nível dos boleros e dos ritmos afro-cubanos. Estamos, pois, perante um registo musical que faz um percurso pela canção de amor (e acreditem: muito amor e muita paixão) iberoamericana, em particular com paragens em Cuba, América do Centro e Sul, assim como Espanha. Ao nível da produção temos Fernando Trueba e Javier Limón.
As canções:
1. Inolvidable
2. Veinte años
3. Lágrimas negras
4. Nieblas del riachuelo
5. Corazón loco
6. Se me olvidó que te olvidé
7. Vete de mi
8. La bien pagá
9. Eu sei que vou te amar
Garanto-vos que é um cd que dá gosto ouvir, para quem gosta do género, obviamente, mas provavelmente não só... quem não conhece, experimente... arrisque... julgo que não vai arrepender-se.

(Fotografia de Elena Vasilieva)
aqui estou eu
toma-me para sempre
guarda-me na tua mão
tranca-me dentro de ti
não libertes a minha alma.
estrangula o meu corpo
de tantos abraços, apertos
asfixia a minha boca
de tantos beijos
rasga a minha pele
com carícias devastadoras
castiga os meus pensamentos
arranca-os, destrói-os, manipula-os!
aqui estou eu
a tua bonequinha voodoo
a tua menina marionete
controla-me... controla-me...
aterroriza-me, atormenta-me
faz-me temer-te
faz-me sentir o pânico
o horror cada vez mais perto
cada vez mais intenso
cada vez mais certo...
sinto o cheiro no ar...
o cheiro da obsessão
deixo-me ser sugada, absorvida
deixo-me levar, pela tua mão...
pela tua voz, pela tua mente...
vou em queda permanente
a flutuar constantemente...
apenas ten