novembro 30, 2004

A MORTE DOS NÃO ESCOLHIDOS


(Fotografia de José Marafona)

Podias ter arranjado um viúvo menos descarrilado. Alguém que depois outros lembrassem pelo fulgor da saudade. Quando a mulher do meu amigo Alexandre morreu, ele perguntou-me em surdina, voz desmoronada: "Porque é que a morte não pergunta primeiro: posso levar esta pessoa, ou levo outra? Porque, se perguntasse, eu teria dito que me levasse a mim primeiro."
A mulher do Alexandre morreu de leucemia. Ele era médico e mentiu-lhe, confiante de que a fé nessa mentira operaria o milagre de transformar a verdade numa mentira imortal. A mulher do Alexandre não existia; ele é que era o marido dela, da pintora que criara o neo-barroco e praticava a religião do amor plural. Se o Alexandre tivesse morrido primeiro, a sua mulher tê-lo-ia chorado, pintado e esquecido. Mas o Alexandre vivia do sangue dela, desse sangue desequilibrado, frágil, excessivo. Se a morte me tivesse perguntado, juro-te que lhe teria suplicado que me levasse em vez de ti. Mas não tenho o direito de dizer isto a ninguém. A começar por ti.
Se Deus existe, é um romancista dos ranhosos, isso garanto-te eu. Desses despachados e cheios de esquemas, que atiram as personagens para o buraco que os estudos de mercado considerarem mais rentável. O que tem engordado, esse teu Deus, com a miséria que distribui pelos seus pobres personagens- é vê-los em Fátima, de rastos, a pagarem a esmola das raríssimas graças com que Sua Excelência os vai brindando, para lhes manter a fé em lume brando. (...)
Quando os teus pais morreram, disseram-te que a fé é que nos salva. E que fé é que me salva da tua morte? É vê-los, cheios de fé na via sacra das repartições, dobrados aos favores dos capatazes, ruminando no borbulhante Dia do Juízo em que o Senhor arregaçará as mangas para lhes vingar a alpaca das humilhações. Desde que os ateus Lhe decretaram a morte em altos gritos, fizeram dele um mártir- e Ele aí em cima, aqui em baixo, por todos os lados da nossa vida a rir-Se de nós, a roer-te esses ossos tão tenros, a roer-me o corpo em que tu respiras, a tapar a música terrena do teu riso com o trovão da Sua injustiça infinita.
Se ao menos eu tivesse escrito cada um dos nossos dias, anotado a sequência das nossas conversas, agarrado o Tempo que nos foi roubado. Uma narrativa, uma ilusão de ordem que estancasse a fluidez insignificante da vida. Pelo sim pelo não, vê se explicas a esse Imperialíssimo Barbudo que ninguém gostou tanto de ti como eu. A ver se ao menos o Tipo te põe a milhas dos gabirús desagradecidos a quem tu chamavas amantes, e me põe à mesa contigo, para eu te ganhar às cartas, como de costume.


(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA)

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novembro 29, 2004

NO ABISMO COM... (9)

Esta semana com o retomar da rúbrica "No Abismo com...", temos como convidada Sílvia Chueire (pseudónimo: Eugênia Fortes), originária do Brasil, em particular, do Rio de Janeiro.
Desde há algum tempo que conheço o trabalho da Sílvia/Eugênia e nunca lhe fui indiferente pela qualidade que tem inerente. A autora já viu os seus poemas editados aqui no Void várias vezes, sendo que por isso mesmo faz todo o sentido considerá-la neste novo espaço, para que um novo destaque ou impulso de divulgação seja dado.
Ao longo desta semana vários poemas serão editados e uma vez que a autora tem um pseudónimo, serão tidos em conta trabalhos assinados das duas formas. O registo diferenciado será feito sempre que a escolha recair sobre poemas assinados ora de uma ou de outra forma.
Sem mais delongas inicio a apresentação de parte de obra da(s) autora(s) que, espero, seja do vosso agrado. Avancemos, então:


INVENTÁRIO



rabisco o inventário de mim mesma:
carne, ossos, sentimentos.
nunca sei por onde começo,
ou se termino.
histórias, uns poemas,
e a mente a fabricar perguntas.

é descansado meu respirar,
um pouso, uma pausa,
ao anotar os versos.

os passos em torno do tempo,
afetos, amigos poucos,
sexo, a história comum,
os sentimentos ocultos num riso,
nas pálpebras baixas.
a transgressão eventual,
mas firme de convicções.
ou o olhar amoroso , frontal,
óbvio.

um inventário,
coleção de pequenas coisas
que sou.
e em sendo assim,
que já não sou.

nada direi sobre o vinho, tinto,
sobre as esféricas evoluções
da fumaça dos cigarros,
nem sobre a gana de bailar,
de cantar um canto saleroso
cada vez que ouço o rascante
de uma guitarra flamenca,
e uma canção escala-me o peito.
ou de entoar um blues, um lamento,
nas noites sós e sem lua.

sobre ser mulher, nada direi,
que este é um segredo a ser mantido.

o amor, raro.
filhos, laços.
lágrimas, alguma dor,
algumas alegrias,
e estas linhas tecidas
nas noites longas.
o olhar líquido para o horizonte:
o mar, sempre o mar.
e a determinação de ser feliz.


não tem utilidade este inventário,
não me salvará do esquecimento.
salva-me, talvez,
de esquecer-me.


LABIRINTOS

há labirintos que são uma renda
na qual os olhos se emaranham
e as mãos trabalham cuidadosas,
construindo detalhes
em voltas quase imperceptíveis
que cobrem e descobrem
e desenham desenhos impossíveis:
os mais belos.

nestes labirintos eu me perderia
com a alma leve
e o corpo a cantar
num ritmo de blues.

como se tecesse cada dia.
como se tecesse a minúcia,
a curva,
o fio tênue;
entremeadas as palavras
e os passos.

fôlego breve,
grito semi surdo,
olhos voltados para o encantamento.

vida a correr nas veias.


(Poemas assinados por Silvia Chueire- EUGENIAINTHEMEADOW. Fotografias de Beat A. von Weissenfluh)


[Sílvia, é um prazer enorme ter-te aqui e um grande desafio ilustrar cada um dos teus poemas. Garanto-te que me vou esforçar e tudo fazer para que o teu trabalho saia bastante reforçado em termos de apreciação (positiva)neste mundo da blogosfera. O teu lugar aqui no Void é uma garantia. Tu sabes. Um grande beijo ai para esse lado do Atlântico. Sandra]


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novembro 28, 2004

AS IMAGENS OMNIMÉDIA DE APOSTOLOS PANAGOPOULOS (2)

Na sequência do post ontem editado, apresento hoje o 2º conjunto de imagens da autoria de Apostolos Panagopoulos. A brevidade referida não se prolongou para além do dia de hoje, dado que optei por não vos intervalar durante mais tempo o acompanhamento do trabalho em questão. Julgo que a sua grande qualidade o justifica o pleno. Confirmem:

Imagem 1

Imagem 2

Imagem 3

Imagem 4

Imagem 5

Imagem 6

Imagem 7

Imagem 8


Imagem 9

Imagem 10


E agora que chegamos ao fim, espero que tenham gostado. Realmente!

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JB ("ESPAÇO SUB-20"/ENSAIO DE ROMANCE)

Depois de "Duas pedras de gelo", agora "JB". Um outro espaço, outras personagens e a grande referência em termos de recordação surgindo para além desta... o registo de uma quase "aparição", mas muito real. Ora leiam o que a Mónica nos tráz hoje...


(Autor desconhecido)

Hoje fui “arrastado” pelo Manel (aquele meu amigo que adoras) para uma daquelas discotecas da moda impregnada de Barbies e de putos que ainda nem foram à tropa, a abanarem-se como malucos e a beberem coisas esquisitas. Nada como o meu JB que faço questão de beber encostado ao balcão enquanto observo toda a gente que passa.
Hoje não foi excepção, voltei a beber o meu JB enquanto o Manel metia conversa com uma dessas Barbies que passeiam mini saias e roupas super coloridas pela pista; algumas nem sequer sabem falar, como é o caso desta… coitada, deve ser por isso que ri tanto das piadas sem graça do Manel, nem as deve perceber!
É isto que admiro no Manel: sua eterna capacidade de engatar Barbies (sempre produzidas ao estilo de Hollywood ) e de as levar para casa com a mesma perícia com que as despacha no dia a seguir.
Como eu gostava de ser como ele; de certeza que agora não estava aqui a escrever-te
mais uma vez. Mas não consigo e quando no final do meu JB oiço o Manel, encostando-se a mim, dizer “- olha a Ana!”, fiquei com o coração aos saltos, sem saber o que fazer…
Foi a primeira vez que te vi desde a discussão. Vinhas acompanhada de mais uma Barbie e rias como só tu o fazes. Sorriste para o Manel e cumprimentaste-nos com um beijo no rosto (que me deixou ainda com mais saudades quando senti o teu perfume junto de mim de novo). O Manel agarrou-te pela cintura e desafiou-te para a pista. Assim como chegaste, partiste rápida e implacável com um relâmpago.


(Mónica- MY PAPER MOON)

[E a estória continua no próximo dia 2 de Dezembro. Não percam... ;) Beijinho a todos. Sandra]

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novembro 27, 2004

AS IMAGENS OMNIMÉDIA DE APOSTOLOS PANAGOPOULOS (1)

Este post abre um conjunto de dois que objectivam dar a conhecer o trabalho de Apostolos Panagopoulos, criador de imagens (de grande referência e com características muito particulares que estabelecem, inequivocamente diferenças, face a um universo maior de autores).
Apostolos Panagopoulos é de origem grega tendo sido criado em Atenas. Emigrou jovem para a Holanda onde vive actualmente. Em termos de formação, estudou História da Arte. Trabalhou com vários escultores e compositores, na qualidade de director de arte de cinema e televisão, tendo igualmente sido professor de artes. Dedica-se desde 1998 às artes plásticas.

Relativamente àquelas que são as fontes inspiratórias e objectivos de Apóstolos, eis o que nos diz:

"As minhas fontes de inspiração mantêm-se as mesmas: um repertório de mitos contemporâneos, da Antiguidade Clássica Grega e da Época Isabelina, bem como literatura e música. E também não mudaram os objectivos: explorar a simbiose e o conflito entre os elementos culturais e tecnológicos clássicos e contemporâneos. Vejo-me não tanto como um pintor, no sentido tradicional da palavra, mas como um contador de histórias. E, tal como um compositor, tento alcançar uma linguagem mais universal. Com um alfabeto de memórias culturais, citações do passado e marcas da nossa realidade quotidiana, procuro erigir espelhos onde cada um possa ver reflectida a Condição Humana."

[In: Revista "Periférica". Nº 11, Outono 2004 (Janela Indiscreta)]


Tendo como ponto de partida a apresentação e palavras do autor, partamos agora, concretamente, para aquele que é o seu trabalho, o qual prepositadamente não legendo para que todos vós possam dar largas à vossa imaginação, sem qualquer tipo de condicionamento. Ora vejam:


Imagem 1

Imagem 2

Imagem 3

Imagem 4

Imagem 5

Imagem 6

Imagem 7

Imagem 8

Imagem 9

Imagem 10

Imagem 11

Imagem 12

Imagem 13

Imagem 14

Imagem 15

Imagem 16

Imagem 17


Muito em breve o próximo conjunto. Até lá registem este na vossa memória. E claro, passem a ter o autor como alguém a considerar.

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novembro 26, 2004

AMOR EM ESTADO DE COMA


(Fotografia de Elena Vasilieva)

Segue-me. Liberta o animal que tens dentro de ti, e segue-me! Mesmo que eu fuja de terror. Mesmo que a tua imagem me deixe horrorizada. Segue-me. Solta a besta que mora no teu corpo sem morada. Porque o teu corpo é o Inferno e tu o Diabo em pessoa; e eu não encontro a rua que dê para esse Largo; eu não encontro o caminho que me leve à tua porta. Segue-me! Imploro-te. Porque estou tão perdida, tão perdida que me afogo em cada objecto que toco; porque estou tão perdida que os sonhos maus submergem de cada chão por onde caminho. Segue-me. Não consigo parar de correr; não consigo parar de temer. De temer o passado que corre à minha frente; de temer o presente que me empurra para sítio nenhum; e eu corro, corro muito. Corro como se os meus pés se gastassem à medida que avanço; corro muito, cada vez mais rápido, cada vez mais depressa e sinto que o chão me devora as pernas sem pés se não conseguir ser mais veloz. E eu corro e grito. Corro e grito sem parar. Segue-me! Segue-me! Segue-me!, e o chão devora-me as pernas; e os sonhos maus submergem do chão devorando os meus sonhos que são mais rápidos que eu.
Cada vez mais alto. Tu. Cada vez mais longe. Nós. E a corrida que não cessa. E o desespero que se esvai demolindo edifícios que arranham o céu. E eu a correr desesperada. E o teu monstro adormecido e incapaz transformando o nosso amor num amor doente e em estado de coma. E eu igualmente doente e louca ligada a essa mesma máquina que faz o nosso amor respirar. E corro como se a energia gasta nesta correria desse oxigénio para o nosso amor respirar. O nosso amor em estado de coma que apenas existe; que se limita a respirar. E algo dentro de mim me diz que não devemos desistir dos nossos sonhos. E eu sigo o impulso do meu coração, e faço gestos que te transmitam a minha sequência, pois já não tenho voz.
A minha cabeça ficou para trás; as minhas pernas ficaram para trás e os pés foram engolidos pelo último pesadelo. E eu sou apenas um corpo mutilado que se agita em gestos e em gritos que já não se ouvem sob o chão que o nosso amor me roubou porque tu não me seguiste.


(Alexandra Antunes- FRÁGIL)


E o tríptico é concluído...

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novembro 25, 2004

MASTER PIECE


(Fotografia de Christian Coigny)

Foi descendo as escadas de mármore sem olhar para os degraus. Tinha pressa. Transpirava por todos os poros, roia as unhas, chorava baixinho. Estava correndo tanto que sentiu uma lágrima grossa voar de seu olho e molhar seu cabelo. Olhou para trás e sentiu alívio. Ninguém viu o que tinha acontecido, ninguém poderia ter visto, não, por favor. Porque logo com ela, meu deus, justo com ela? Não foi de propósito, não foi, ela repetia, baixinho, num gemido. Foi começando a cansar, foi diminuindo o passo. Tinha alcançado a saída do prédio e a porta art nouveau cheia de arabescos e relevos de flores. Parou e encostou-se numa coluna. Cobriu o rosto com as mãos. Lembrou dele, ainda há poucos minutos, sorrindo pra ela, no salão principal. Lembrou de suas mãos estendidas e de seu corpo ali, se oferecendo. Não, jamais. Nem em sonho. Ela nunca poderia adivinhar. Como ela poderia saber que ele se desmancharia em pleno ar, quebraria em mil pedaços, se desintegraria? Porque nunca ninguém lhe falou sobre isso? Ela não sabia. Ela não sabia que tem gente que é só obra de arte. Tem gente em que é proibido tocar.

(Eliana Pougy- Conto breve editado na revista "Periférica". Nº 11, Outono 2004, p. 63)

Publicado por void em 08:35 PM | Comentários (1) | TrackBack

TODO O TEMPO FUTURO FOI PIOR


(Fotografia de José Marafona)

Ontem à noite suplantou as balas com que o metralharam e fugiu da polícia entre a multidão.
Escondeu-se na copa de uma árvore, partiu-se o ramo e acabou espetado numa cerca de ferro. Soltou-se do ferro, adormeceu numa lixeira e foi aprisionado por uma pá mecânica. A pá libertou-o, caiu sobre um tapete rolante e foi esmagado por toneladas de lixo. O tapete pô-lo diante de um forno, ele não quis entrar e começou a retroceder.
Deixou o tapete e passou à pá, deixou a pá e foi para a lixeira, deixou a lixeira e espetou-se na cerca, deixou a cerca e escondeu-se na árvore, deixou a árvore e procurou a polícia.
Ontem à noite mostrou o peito às balas com que o metralharam e caiu como qualquer um quando o enchem de chumbo: completamente morto.

(Raúl Brasca- Microconto editado na revista "Periférica". Nº 11. Outono 2004, p. 68)

Publicado por void em 07:57 PM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 24, 2004

ESTÁS ONDE NÃO ESTÁS ("ESPAÇO SUB-20"/ENSAIO DE ROMANCE)

E a estória criada pela Mónica continua. Depois de "Duas pedras de gelo" temos agora "Estás onde não estás". Mais um instante de escrita. Mais um instante de uma vida- a dele-. Mais um registo de vivências após partilhas a dois.

Adoptei este habito de te escrever cartas; é algo que me transcende, tornou-se obrigatório. Descobri que é a melhor forma de exprimir a dor que sinto.
Sei que um dia me livrarei deste maldito habito e te deixarei de escrever cartas que depois rasgo com uma precisão implacável, a mesma precisão com que te tento arrancar do meu coração …
Sei que não vou escrever-te para sempre, tal como sei que não ficarás presa na minha memoria para sempre. Um dia, próximo espero, deixarei de te ver a passear pela casa.
Sabias que só durmo na sala? Será que sabes que cada vez que me tento deitar na cama sinto o teu cheiro e recuo para o sofá? Mas não é só no quarto que estás; vejo-te também na cozinha a fazer asneiras e a rir, vejo-te a correr de um lado para o outro no corredor apressada porque estás atrasada para o trabalho, vejo-te a sair do banho com o cabelo a pingar o chão todo, vejo-te a rebolar pela sala com o cão e na varanda a falar ao telemóvel, vejo-te sentada a escrever e no quarto a ler, vejo-te por todo lado onde passo mas o mais estranho é que não estas!

(Monica- MY PAPER MOON. Ilustração de David Ho)


[A continuação da edição terá lugar Domingo, dia 28. Até lá!]

Publicado por void em 12:04 AM | Comentários (6) | TrackBack

novembro 23, 2004

AMOR ASSIMPTÓTICO


(Fotografia de Christopher Voelker)

Viram-se e correram um para o outro, mas a cada passo que davam, algo resistia ao seu avanço com crescente potência. No entanto, o desejo crescia ainda mais rápido e obrigava-os a seguir. Exaustos, aproximaram-se o suficiente para verem a cor dos olhos um do outro; outro esforço, e ela reparou que ele tinha dentes muito brancos e perfeitos; outro, e ele viu um lunar diminuto na testa dela; um pouco mais, e só tinham que estirar o corpo e estender as mãos para tocarem-se. Estiraram o corpo. As mãos procuraram-se, avançaram penosamente, continuam avançando, as pontas dos dedos já sentem a iminência do toque, estão muito próximo, cada vez mais próximo, as marcas do esforço descomunal gravam-se nas caras enquanto o desejo se torna intolerável e eles empurram as suas mãos até ao limite infinitamente próximo, absolutamente inalcançável.


(Raúl Brasca- Microconto editado na revista "Periférica". Nº 11. Outono 2004, p. 69)

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O MONSTRO


(Fotografia de Elena Vasilieva)

Amo-te. Amo-te tanto. Amo-te como nunca amei ninguém. E magoa-me muito que digas certas coisas, e que duvides do que sinto por ti”. Este era o monstro antes de ser monstro. Ou será que foi sempre monstro? Era o monstro adormecido. O monstro que eu despertei. Culpa tua. Puta dissimulada.
Como foi que despertei o monstro adormecido? Alimentei-o com o meu amor nas circunstâncias da vida.
Comecei por alimentá-lo com palavras e suspiros. Alimentei-o com a minha voz. Dei-lhe a minha vida toda, assim, como se a bagagem que trazia a abarrotar de factos passados e presentes, se tivesse aberto com um golpe de navalha, assim, aos pés dele. Fiquei de pé, imóvel e com os olhos muito abertos. Exclamava, em desespero. E agora? E agora? Estava tudo ali espalhado pelo quarto da nossa vida em chamas.
Dei-lhe o meu corpo. Dei-lhe o meu corpo aos bocados. Dei-lhe os meus braços. Não lhe pedi que viesse ao meu encontro. Abracei-o, simplesmente abracei-o com toda a força que tinha no momento. E não conseguia desprender o meu corpo. Temia que nunca mais nos voltássemos a tocar. E dei-lhe as minhas mãos. As nossas mãos que transpiravam de ansiedade. Era estar contigo. Era não querer largar-te mais. Era estudar cada linha da tua mão e alterar as voltas que o destino dá. As voltas que o destino marca. E eu tinha essa hora marcada contigo. A tua mão fez parar o veículo da minha alma e quando menos se esperava ele passou todos os semáforos que nos roubavam os minutos; e eu avancei perante todos os sinais vermelhos da vida quebrando leis e regras e tudo quanto existia à nossa volta; ainda que fosse por momentos.
Eu dei-lhe o corpo despido e livre de amarras. Eu mostrei-me tal como sou sem medo de ser julgada. Eu dei-lhe o meu sorriso e o meu choro e dei-lhe tudo aquilo que estava ao meu alcance.
Para quê?
Para que o monstro despertasse. Para que o monstro se alimentasse dos meus sonhos, do meu amor, da minha esperança. Para que crescesse com as minhas fraquezas e que depois, mais tarde, quando eu menos esperasse ele desferisse a machadada final.
O monstro riu-se. Riu-se muito com o meu desespero. As tragédias provocam-lhe o riso e isso fá-lo ficar maior e mais forte. Embora o monstro que despertei nunca o admita. Será que o monstro chorou alguma vez na vida?
Esta é a mulher que eu amo”, e a mulher que eu destruí.
Conseguiste varrer tudo de bom que eu tinha no meu interior. Conseguiste destruir o crédito que eu ainda dava à palavra amor, como sinónimo de afecto e de bem-querer ao outro. Sinto que só me desejas sofrimento. Entre lutar e abandonar tu escolhes a segunda via por ser a mais fácil. Só pensas em ti. O teu orgulho disse-me, um dia, baixinho ao ouvido, sem que te apercebesses. É o teu orgulho que me abandona e me fere a tiros de caçadeira. É este o cenário que me vem à ideia. O cenário de caça onde tu te divertes com os teus disparos de egoísmo a matares toda a vida existente em mim. E para onde quer que eu olhe, todos os caminhos me levam a ti. Mesmo com feridas abertas. Mesmo deixando rastos de sangue que mancham ainda mais um passado feito de ilusões. Mesmo no silêncio de tormento. Eu continuo. Tu não ouves mais nada. Estás surdo. És um monstro. O monstro que eu despertei em ti.
Como é possível não te amar? Como é possível sequer conceber que alguém te consiga odiar? Não consigo. A cada dia que passa, amo-te cada vez mais.” Estou tão perdida, tão confusa, tão destruída que já nem sei se estas foram palavras minhas ou palavras tuas. Como é possível esse amor que sentes ser tão odioso? Acabaste de conceber a única pessoa com a qual eu me importaria que sentisse ódio por mim. Tu. E a cada hora que passa é como se todas as coisas belas que me disseste, desabassem como muralhas em cima da minha cabeça e a abrissem ao meio, fragmentando todas as memórias de todos os momentos maravilhosos que passámos.
Como foste capaz de me humilhar? Como foste capaz de apertar a tua mão e num pequeno e brusco gesto, esmagares-me desta forma? Como foste capaz de dizer tais mentiras no passado se hoje me sinto completamente desfeita! Tu és capaz de tudo isso porque és um monstro. E suponho que nunca mais voltes a cair num sono profundo. O teu orgulho supera-te e preferes abandonar... preferiste abandonar-me.


(Alexandra Antunes- FRÁGIL)

Publicado por void em 12:03 AM | Comentários (7) | TrackBack

novembro 22, 2004

NÃO TENHO PRESSA


(Fotografia de Bruno Espadana)

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente onde o meu braço chega-
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não onde penso.
Só me posso sentar onde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra cousa,
E somos vadios do nosso corpo.

(Alberto Caeiro- POESIA)

Publicado por void em 09:52 PM | Comentários (0) | TrackBack

ROSTO CHEIO DE ÍNTIMOS SILÊNCIOS


(Fotografia de Marília Campos)

Tinha o rosto cheio de íntimos silêncios.
E na sombra aguardava o tempo numa confiança
tranquila.
Longínqua, como quem flutua na última claridade e
reflecte nas margens da consciência.
Raramente trazia até si uma palavra, um nervo de luz
ou um rumor vigilante. Esperava talvez um movimento,
um desejo de espaço. Ou qualquer outra coisa perdida
no seu pensamento.

(Bela Mandil- NA ESCRITA E NO ROSTO)

[Bela Mandil é o pseudónimo de Fernando Esteves Pinto]

Publicado por void em 07:42 PM | Comentários (1) | TrackBack

DUAS PEDRAS DE GELO ("ESPAÇO SUB-20"/ENSAIO DE ROMANCE)

No passado dia 08, no âmbito da rúbrica "Espaço sub-20", iniciei a edição do primeiro texto de um (ensaio de) romance da autoria da Mónica do blog "My Paper Moon". Esse texto intitulou-se "Solidão". Tal como registado na altura a sua continuação verifica-se hoje, desta vez com o título "Duas pedras de gelo". Espero que gostem...

Estou de novo sentado no chão frio e vazio, assim como ficou tudo o resto depois de partires, demasiado frio e demasiado vazio. Acho que já não sou o mesmo. Sabias que agora a minha nova companheira é a garrafa de whisky? Sabias que agora bebo? Por certo não sabes; ias ficar desapontada, chamar-me-ias fraco e inevitavelmente acabarias por fazer-me desistir deste vicio horrendo.
Afogo as minhas lembranças entre duas pedras de gelo enquanto ponho o teu CD a tocar e revejo-te no meio da sala branca com os malditos sofás pretos (ainda não sei porque te deixei escolher isto, mas agora é tarde para os devolver). Revejo-te a dançar agarrada ao cão e a chamar-me, vejo-te a rodopiar para cá e para lá fazendo da sala a tua pista.
- Quando danças ganhas asas, sabias miúda ?
Sorris e puxas-me – Para de dizer tolices e vem dançar!
E ficávamos assim agarrados, embalados pelo som a dançar horas a fio até eu me fartar e dizer que tenho de trabalhar. E tu continuas a dançar sozinha no meio da sala branca que agora está demasiado vazia. Hoje arrependo-me de não continuar a dançar contigo…
As lembranças assombram-me acho que já nem a bebida me ajuda a esquecer-te.


(Mónica- MY PAPER MOON. Fotografia de Marília Campos)

[Pois é! Um texto pequenino que terá a sua continuação no dia 24. Queriam saber mais? Pois bem, continuem a acompanhar a história nesse mesmo dia. Até lá!]

Publicado por void em 06:50 AM | Comentários (14) | TrackBack

novembro 21, 2004

AMAR POR AMAR


(Fotografia de Elena Vasilieva)

Eu amo multidões... um deserto
Ah! Se amo! Que bom amar!
Eu amo de longe, de perto
Amo parada, amo sem parar!
Amo os prados, as montanhas
Os vales, os cumes, as muralhas
Golfinhos, peixes, até piranhas
E do teu sótão, também amo todas as tralhas.
Amo as portas, gavetas, armários
As janelas, as varandas, os telhados
Amo gaivotas, gaviões e canários
Amo por aqui, por ali, por todos os lados.
Amo rios, riachos, os sete mares!
Amo pontes, escadas, elevadores
Números impares, números pares
Amo o Arco-Íris, todas as cores!
Eu amo a poesia, a prosa, as palavras infinitas
Livros, pergaminhos e papéis
Eu amo o silêncio, as palavras nunca ditas
Amo a arte, as telas e os pincéis.
A paz, a beleza e a alegria
A luz trémula, reluzente; os intermédios
O carinho, a ternura, a avidez e a harmonia
Amo a doença, a cura, os males e os remédios.
A verdade e a mentira
A bondade e a malvadez
Amo este amor que já ninguém me tira
Amo-te agora, agora e para sempre outra vez.
Amo a terra e a água
A luz e a escuridão
Amo a felicidade e a já tão velha mágoa
Cabem cá todos no meu coração.
Ah! Amo este cansaço
Que não me cansa de tanto amar
Amo um beijo teu, um simples abraço
Amo-te sem fronteiras, sem barreiras, sem nada esperar.
Eu amo a lua, o céu estrelado
Os dias, as noites, os crepúsculos e as auroras
Amo o mistério do bosque assombrado
Amo todos os frutos, morangos e amoras.
As flores, os jardins e as florestas
Os duendes, as fadas e as feiticeiras
Neste meu coração sem arestas
Eu amo de mil maneiras.
O fogo, o vento, o ar
A força e a fraqueza
Ah! Este amor que preciso respirar!
Este amor tão nobre, filho do certo e da incerteza.
Eu amo as linhas, as rectas, as metas
Os anjos e arcanjos; todos os seres celestiais
Eu amo o Cupido e as setas
Amo tempestades e vendavais.
Eu amo vozes, sons e assobios
Todos os poetas e compositores
Amo melodias, barquinhos e navios
Sinfonias, todos os artistas e pintores.
Os sorrisos contagiantes
As almas voadoras
Os anões e os gigantes
Homens, mulheres e crianças sonhadoras.
Amo salas vazias, salas cheias
Amo teatros e espectadores
Amo pedras, rochas, castelos e ameias
Amo o drama, a comédia e os actores.
Amo todos os pecados
Vulgares ou originais
Os paraísos encerrados
Amo as serpentes e todos os animais.
A maçã e a semente
A dentada e o caroço
Amo o agora e o antigamente
A tua queda no meu coração, infinito poço!
Amo as poças, os charcos e as rãs
Amo a natureza e este mundo destruído
Amo-te adormecido, todas as manhãs
Amo-te, ó mundo desaparecido!
Eu amo este e aquela
Amo-te a ti e a ele também
Eu amo-me, amo-a a ela
Amo tudo, todos; amo nada e ninguém.
Amo-te hoje e amanhã
Amo-te todos os dias, anos e meses
Amo-te de noite e de manhã
Amo-te sempre, todas as vezes.
Eu amo sem saber porquê
Eu amo este instinto de amar
Eu amo o que o olhar vê e não vê
Amo e amo por amar.

(Alexandra Antunes- FRÁGIL.)

[Deixo-vos este poema que mostra, inequivocamente, a personalidade complexa da autora. Mas que mostra também o quanto tal complexidade se concretiza tão bem naquela que é a sua grande paixão: a escrita. Alexandra: amar por amar?! Diz-me (nos)... Poema que me foi muito bem declamado pela propria, hoje, às 02.30 da madrugada. E o impacto, em mim, foi grande... Sandra]


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GRANDES ESTAGNAÇÕES (EM MIM)

Tenho grandes estagnações. Não é que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num postal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém, adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é agradável. Há mais subtileza na minha desinteligência comigo. Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a vida vegetativa da alma- a palavra, o gesto, o hábito- me exprimem eu para os outros, e através deles, para mim.

Nesses períodos de sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que algarismos ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus actos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.
Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim. Às vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim, talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira; ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir mais eu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou.
Seja como for deixo que seja. E ao deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o que sou, conforme a sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.


(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO. Fotografia de José Marafona)

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novembro 20, 2004

NO ABISMO COM... (8)

E eis-nos chegados ao post que encerra a semana de destaque dada à poesia do Carlos, responsável pelo blog "Manifesto," espaço onde todo o seu trabalho vai surgindo e se consolidando naquela que é a qualidade que tem inerente.
Neste post objectivo sublinhar aquele que é o trabalho criativo global do autor, o qual se situa e conjuga cada vez mais em duas áreas: a Poesia e a Fotografia. Relativamente à primeira, um cheirinho foi já aqui deixado durante estes dias que, espero, tenha servido de mote para visitarem (quem não conhecia) o espaço de onde provém e para lá voltarem com a regularidade merecida. Os já familiarizados com os versos do Carlos certamente que viram reforçado o seu merecimento em termos de divulgação. Penso que isso foi evidenciado nos comentários expressos relativos a isto mesmo.
Quanto à Fotografia... uma outra paixão do nosso amigo. E pelo que tenho constatado, uma paixão cada vez mais exaltada, mais presa a si, mais forte, num calor sempre crescente. Já conversei pessoalmente com o Carlos sobre este seu gosto e é muito bom ver que, de facto, a vontade de fazer mais, de aperfeiçoar constantemente e de descobrir sensações novas a partir dai, emerge naquele que é o seu olhar e o seu estilo discreto. Há um brilho enorme que o envolve. E isso nota-se nas fotografias que tira. Algumas delas serão hoje apresentadas. E todas formam um conjunto/sequência tradutor/a de movimento, ritmo, agitação. E tudo, tudo, na bela cidade de Lisboa... à noite...
O poema que se segue é como que um hino do Carlos a esta ideia traduzida em imagens. Sigam-me(nos):


MOMENTOS (ELECTRIC’A VOAR)


Momentos correndo, movimentos que pauso acelerando
e a estrada é a estação de mais um Sábado comigo.
As luzes confundem o caminho com destino
e os transportes se fundem por um domínio
nessa cor que me leva contigo.


Sintamos estes pulsares
que nos sorriem a passar
e consumamos o que resta dos nossos paladares
e assim deixarmo-nos estar
A viver
cada brilho que nos sorri em segundos
fazendo viagens presentes momentos futuros
nesses trilhos onde vivos se agitam livres os corações profundos.


Apanhemos então esta electricidade
que vem da necessidade evolução.
Cada segundo não se pode desmerecer
por entre esses cacos e mentes vazias
que só querem viver no lado onde está a apodrecer a razão,
E sintamos esses dias a correr voando
por essas linhas de sensação e poder
que a cada momento nos circundam às voltas planando
soprando aos ventos as respostas para este nunca se perder.


Agora reparem nas FOTOS:

Fotografia 1:

Fotografia 2:

Fotografia 3:

Fotografia 4:

Fotografia 5:

Fotografia 6:

Fotografia 7:


Deixo-vos, agora, com um pequeno texto de Sophia de Mello Breyner seleccionado pelo Carlos, inequivocamente tradutor do seu pensamento, forma de ser e de estar perante a Cultura/Arte (Literatura):

“O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto de uma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará, necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência, ele está a contribuir para a formação de uma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.”


E umas últimas palavras do autor... para mim... para vós...:

"A semana termina e para vos levar, levam uma fotografia junto com a poesia, com a vida. Imparável caminho feito de momentos, únicos, acasos e iluminações que no meu caso tomam a forma de versos e paixões. E que destas luzes surjam sonhos, surjam forças, concretizações, vontade, animando cada dia com novo colorido, com nova ideia imagem e se possível passar a mensagem de que somos, somos feitos de tecido revestido de sentidos e sentimentos e tantas coisas boas que são difíceis de enumerar, ou relembrar.

Continuarei manifesto porque o melhor poema ainda não vos mostrei, ainda nem sequer o escrevi mas já me sorri, como todos os outros que também me sorriram quando pediram para ser escritos, todos os outros aqui postos ou no manifesto mostrados ou mesmo aqueles guardados em ficheiros compactos e nos dossiers arrumados, no quarto.

Cada palpitar agitado me estimula os olhos de onde vejo, a mão de onde escrevo, neste corpo que vivo se movimenta e cedo se levanta com o pensamento e o desejo. E assim, continuarei por aí preenchendo espaços de trovas, ventos, prosas, momentos e poemas de versos que ora mostram, ora viram do avesso, mas acima de tudo te dizem para gozares todo e qualquer tempo. E sempre amando, sempre desejando mais querer, aconteça o que acontecer, estando sempre vivo presente e dizendo aquele “Sempre!”, esse “Sempre!” para toda a gente."


Espectacular!


[Carlos:
Por tudo o meu muito obrigada. Esta semana passada contigo foi fabulosa e um marco aqui no meu abismo, que passou a ser também teu por direito. Conto contigo sempre, amigo. Segue as tuas paixões e procura concretizar os teus sonhos, em particular no mundo da escrita. Tu mereces tudo... Sandra]

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novembro 19, 2004

NO ABISMO COM... (7)

Mais dois poemas do Carlos. Mais duas manifestações daquela que é a sua grande sensibilidade e poder criativo. Mais dois exemplos do que é possível fazer com a junção de palavras e versos naquela que é uma interpretação/visão da realidade. No fundo, mais exemplos de uma realidade que pode ser. Reparem:


- NOS

momentos onde o tempo parece parar numa correria desenfreada por esses caminhos
quando nos olhamos tocando nos gestos labirintos
aquela música que os nossos olhos ouvem a inspirar,
Em locais certos por sítios onde os desertos se enchem de vida
pintando o mar que inunda o céu que despiste
abstraída do tumulto que nos circunda
criando aquele lugar quente que não desiste...



Nos momentos onde o tempo parece parar sobrevoamos o espaço
flutuando por entre as núvens que desenhamos
por entre os verdes da esperança e do regresso,
Vamos até onde não paramos indo levados
parando somente os relógios mantendo-os acordados
enquanto mergulhamos na vontade e sonhamos
entregues nos dando amando lado a lado


- E ENCONTRAMO-NOS COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ

E encontramo-nos como se fosse a primeira vez
em que desconhecidos nos conhecemos, reconhecemos
e em que apaixonados ficámos e nos partimos, vivemos,
E agora, passado o tempo, encontramo-nos e estamos iguais
tão diferentes em tudo mas amantes de nós e do mundo
completamente irresistível, estimulante e de mais.

E encontramo-nos como na primeira vez
a sorrir e sem passado que nos fizesse dizer coisas feias
e rindo sobre ruas cheias e eu cheirando o que tu cheiras,
Por essas estradas, por essas veias saltitando nas horas
por aqui e por ali, e que saudades eu tinha de te ver assim
com o brilho nos olhos a sorrir para mim.


(Fotografias de Kenny Simmons e Margarida, respectivamente)


[Sem qualquer dúvida que a Poesia do Carlos é absolutamente envolvente. Falo por mim, é claro, mas não posso evitar fazê-lo. E não posso pelo que cada palavra me provoca em termos de sentimentos. O Carlos consegue dar muito brilho às realidades. Consegue tornar tudo mais "aberto", mais esplêndido, mais bonito. É isso um dom, certamente.

Amanhã será editado o último post com Poesia do autor. Conto convosco para me/nos acompanharem neste desfecho que será certamente com grande mas grande dignidade e qualidade. Sandra]

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novembro 18, 2004

O FIM ("ESPAÇO SUB-20")


(Autor desconhecido)

Vi uma garrafa ao longe no mar.
Nadei e nadei, até a encontrar. O céu ficou escuro. As pessoas começaram a gritar. Começaram a cair pingas vermelhas. O mar tempestuoso atirou-me para terra. Abri a garrafa. Lá dentro, uma carta sem nome chamava por mim. Com a carta na mão, fugi para casa. À minha frente, um tornado dançava com os arranha-céus. O céu chorava mais e mais sangue. Subi a colina e abriguei-me na casa abandonada de vidros partidos. Olhei para baixo. Tudo estava a desmoronar-se. Aves caíam no chão, os prédios ruíam, as pessoas gritavam, os cães uivavam, o vento rugia, ondas enormes chegavam do mar, chovia sangue e cinzas … o mundo estava a morrer.

Abri a carta. Dizia:
A esperança morreu nos corações humanos.

O último raio de sol entrou pela janela.


(Sana- RASGA-ME AS PALAVRAS)

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novembro 17, 2004

NO ABISMO COM... (6)

E "No Abismo com..." está novamente à vossa beira. O Carlos continua a dar o seu "Manifesto" e o resultado reforça mais e mais o que já foi permitido ver na Segunda-feira. A grandiosidade continua... a beleza grita muito alto... e nós... nós, pequenos que somos, olhamo-la deslumbrados. E temos, assim, o fascínio possibilitado pela leitura:


- NA ESCURIDÃO DO INCERTO ESTOU

A minha cabeça pede por um socorro
Precisa de se entender e eu preciso de ver como a agarro
No silêncio que não se esgota na palavra que se grita
Num grito que se importa por se ouvir sem se ter
Neste coração que pára quando o peito saltita
Quando se quer tanto que nem se sabe o que é querer
Quando pensamos ser o mais feliz compositor artista
Que com a palavra fica acrescentando uma magia escrita

Na escuridão do incerto estou,
Os meus pés são o instrumento com que varro
O meu corpo foge mas sou eu que corro
Vou para cedo não chegar só à tarde
Para que avance com a coragem sem medo
O medo que é vir a ter fuligem doente nesta saudade
Aquela que me toca o cabelo, que me vê ao espelho por um dedo
E que me ergue de novo à liberdade
Fazendo de um momento o mais derradeiro e bonito de verdade


- LÊ

Para quem não me percebe
vai um sopro leve
e quem me olha e não me vê
chega um signo que se lê

Lê sobre o que escrevo
sobre o meu pensamento
sobre o teu vento ausente e quente,
Como o manto que nos agasalha
em Inverno terno, lágrima
de repente
e chora e arrefece
e vive
viva de querer
um querer que não se esquece
e se tece para ser ver,
E se chega ao anoitecer
em mais uma linha de ter ao escrever
enlouquece, endoidece-me o ser...

E para quem não me percebe
vai a brisa de algodão salpicada de seda
saltitando num céu que nos bebe a mente
e que nada, nada nos pede.


(Ilustrações de David Ho)


[Carlos, eu peço-te: não deixes de escrever Poesia nunca. Se o fizeres, amputas-nos (e amputas-me) de um abraço imensamente forte feito das/pelas tuas palavras. É que a conjugação delas é linda. Linda...]


Publicado por void em 06:40 AM | Comentários (9) | TrackBack

novembro 16, 2004

O MUNDO ACABOU


(Fotografia de José Marafona)

E o mundo acabou. Inexplicavelmente, ou sem uma explicação que possa ser dita e entendida. O mundo acabou, como num instante em que se fechassem os olhos e não se visse sequer o que se vê com os olhos fechados. (...). O mundo acabou e nem o tempo prosseguiu. Os minutos não passavam porque não existiam, como não existiam os momentos ou os olhares. O infinito era o infinito de não ser nem infinito, nem nada. A morte não existia no meio de todas as coisas mortas. Não existiam os cadáveres. Tinha morrido a memória da morte. (...). O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar.


(José Luís Peixoto- NENHUM OLHAR)


[Post em reposição]


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AS FERIDAS ESSENCIAIS (3)

E mais uma vez, também, Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell. Mais dois poemas, fazendo reforçar aquelas que são as temáticas sobre as quais versa o seu trabalho:


O TOQUE DA MORTE

Quem possui o toque da morte
não sabe a sorte que tem e de como irá fazer tantas pessoas felizes.

Porque o toque da morte é uma espécie de cura sem mentira.

Quem toca com o toque da morte
desconhece, por completo, o seu dom
e como o transmitir às pessoas que, verdadeiramente,
esperam por ele para começar a viver.

Porque o toque da morte faz-nos descer à terra
de onde nunca deveríamos ter levantado as nossas cabeças
e que nunca deveríamos ter pisado com os nossos pés.


MORTOS A UMA SÓ VOZ

A voz que sai e que se
Descola, com violência,
Da carne dos teus lábios.

A voz diferente
Do que, em murmúrio, aguarda
E do que, em grito, sabe ser aguardado.

O erro a uma só voz
Passeia quente nas tuas veias,
Perde-se no sopro narcótico
Com que, outra vez, me calas.

O erro diferente de quem sonha
E de quem, se sabe sonhado.

A tua voz hoje é diferente.
É a voz de quem espera e de que se sabe esperado.


Outros exemplos serão aqui trazidos. Aguardem!

Publicado por void em 06:43 AM | Comentários (0) | TrackBack

SOU APENAS UM HOMEM


Sou apenas um homem entre as lápides.
E, quando os mortos murmuram o meu nome,
digo simplesmente que estou aqui,
acendendo as velas,
rezando outra vez, com palavras humildes,
nos altares destruídos.

Desejaria dissipar o sono,
abrir ternamente as blusas de linho,
beijar,
com os lábios comovidos,
cada rosa cálida que nasce dos teus seios.

E aí,
como se procurasse o mel e o vinho do amor,
encontraria a paz que ao longo dos anos
persegui com os olhos muito abertos.

Mas esta névoa, este som de ossos quebrados no cimo dos montes,
renova sempre os sinais da inquietude.


(José Agostinho Baptista- ESTA VOZ É QUASE O VENTO)


[Pela boa recepção do poema que dia 14 editei deste autor, eis mais um exemplo para reforçar a ideia relativa à excelência do seu trabalho. Sandra ]

Publicado por void em 06:42 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 15, 2004

NO ABISMO COM... (5)

Retomo esta semana a rúbrica "No Abismo com...", na qual se dá destaque aos trabalhos de colaboradores e também amigos deste blog. Hoje trago-vos um amigo que consolidará a sua colaboração com a apresentação de poemas que hoje se inicia. Este amigo é o Carlos Branco do blog "Manifesto" que vejo, inequivocamente, como um poeta. O Carlos adora Poesia. O Carlos pensa Poesia. O Carlos vive em Poesia, ou melhor, vive poeticamente. O seu gosto por este género de escrita, pelo que ela lhe permite e a(s) realidade(s) que a si levam surgem transbordantemente em si, o que se pode comprovar pelo seguinte depoimento por si prestado:

Momentos” de-vida-mente identificados. A criação.
Os momentos surgem por instantes de forma instintos que nos pedem imediatamente para serem escritos. Os momentos de-vida-mente identificados não têm hora marcada e nem lugar próprio. A primeira coisa que marca o momento é o aparecimento do verso na mente, o primeiro de um conjunto recheado de improviso mental com ou sem significado aparente. É como uma luz que se ilumina ou uma lufada de ar fresco que reanima a vida. A vida, que inspira, porque é tudo. E é no contacto com todas as formas que fazem parte da vida, que podem ir de pedras inamovíveis a seres profundamente irrequietos, que se encontram todas as frases e versos que surgem de repente e que logo ali urgem em ser escritos para que não se percam no labirinto de pensamentos e momentos únicos que tomam conta do cérebro. E quando surge esse momento mágico, repleto de vida, sensações e sensibilidade, que é o momento da criação, nada pode impedir de o registarmos, porque o momento da criação não tem mesmo lugar nem hora marcada. Acontece, mas também se estimula.
O facto da poesia ser o registo que pode reflectir melhor a profundidade e sensibilidade do ser humano, não impede que quem a faz não tenha uma atitude racional e pensada sobre o trabalho. Deve ter sempre. Cada vez mais a poesia é um exercício onde ponho em prática toda a necessidade de exteriorização dos meus sentimentos e sensações, pensamentos vontades, vontades momentos, calma fúria, silêncios e gritos. E assim, chego a vós através da “sensacionalidade” e “sentimentalidade” que exprimo, inata em mim, nascida de um trabalho exercido com toda a capacidade de raciocínio e todos os sentimentos e instintos, e claro, toda a vontade de amar, através dos desejos profundos, de situações reais ou fictícias, mas sempre verdadeiras porque me pertencem como todos estes pensamentos em forma de poemas que decido partilhar."


Iniciando a concretização do que acabou de ser explicitado, deixo-vos com um poema editado numa publicação de uma associação a que o Carlos pertence, poema este que conheci/tomei contacto, ontem, na sequência de um encontro pessoal com o autor. Atentem:


ESTE DIA

E este dia de tanto azul e
tanta beleza de infinito
de tanto grito a mar sobre um
céu lindo e limpo
soprando a breve brisa num
aconchego
por onde me aproximo e me
esfrego.
E este dia de tanto azul que é
o traço negro por fora rasgado
faz-me querer beber tudo num
só trago e escrever sobre algo
algo que se brilhe como esta
luz por cima luzidia
que se ilumina e que me
inspira o dia,
E tanto azul e tanta cor junta
nos horizontes para lá do
olhar e da luta
que preciso tanto como tudo
tocando no verso o mundo,
E tanto azul passando sobre o
tempo
se abre agora na noite escura
o sopro de um vento
mergulhando num vasto
negrume de brilho
que me cobre como um manto
e me acende ao rastilho.
E este dia de tanto azul que
parecia esquecido
olhou-me os olhos aqui
sentado
gritando escondido abrindo o
caminho descoberto
que abraço, que quero e que
descrevo num só excerto.
Este dia


O Carlos como homem das letras que é, inclusive a nível de percurso universitário, tem uma grande preocupação em analisar, perceber e explicar o que no mundo dos criadores vai acontecendo. O depoimento que se segue é, pois, prova disso mesmo. Ora vejam:

Pensamentos” de-vida-mente identificados. Os criadores.
Umas palavras para quem cria. O importante da criação é a expressão individual, que pode ou não reflectir o colectivo. Sendo a poesia e a escrita a expressão máxima do meu ser, depressa chego à conclusão que não conseguiria viver exprimindo-me de outra forma, pois o que sinto é vida e a forma como exprimo o sentimento é viver. E assim, o mais importante é exprimir o que se tem cá dentro, independentemente da forma como se o faz, e se possível criando e recriando, onde entra nesse processo toda a capacidade consciente de raciocínio que já falei e todos os sentimentos que residem cá dentro. Só assim, exprimindo-nos, seja de que forma for, podemo-nos impor porque este é o sinal de que verdadeiramente existimos e pensamos sobre existir, escolhendo ou não fazer parte do conjunto, sociedade. No entanto, quem cria, deve preservar toda a capacidade de auto-critica e análise do seu próprio trabalho para também analisar melhor os trabalhos dos outros, e face a todas as pessoas, quer criem ou não, tem de haver sempre uma posição de humildade para não cairmos no erro de pensarmo-nos superiores a alguém. Aqui, ou se gosta ou não se gosta, embora, como é obvio, o direito de se criticar é completamente legitimo, mas acima de tudo é necessário respeitar o trabalho, o esforço e a dedicação que o criador imprime à sua criação, e sempre, sempre presente o apelo para que se continue o trabalho acreditando e dando valor ao que temos dentro. Independentemente das barreiras que se nos colocam à frente a palavra desistir existe para não existir e por muito que reprimam nosso esforço, nossa criação e forma de expressão, nada nos impedirá de continuarmos nossas criações, estimulando sentimentos e pensamentos para que nunca deixemos de ser livres e para que nunca deixemos de sonhar.
Uma palavra também para quem incentiva, para quem dá a oportunidade e a visibilidade e para quem acredita nos nossos trabalhos e os expõe. Agradecimentos, saudações, beijos e abraços, e continuem sempre a sentir-nos, porque nosso universo da criação também engloba os que recebem, lêem e passam a mensagem. Vocês também fazem parte deste universo de criação que dá vida e colorido ao mundo.
À Sandra um beijo do fundo do meu coração."


Não podendo eu, desde já, deixar de agradecer as palavras que me são dirigidas, dou seguimento a mais um poema do autor. É ele:


JUNTO COM PEDAÇOS

Junto os pedaços e divago mergulho nos braços da distância
junto dos pedaços, bocados de corpo e riso de peito aberto
junto em pedaços uma bola colorida entre as mãos de uma criança
A nossa, que se escreve e que eu aperto com passos apressados de infância

Toquei na sombra em branco da minha pele
Movimentei objectos sem ordem aparente e perdi-lhes no tacto
na delícia que deve ser tocá-los ao de leve e de repente,
Procuro gente, sem fato,
gente de facto

E toquei na sombra e gritei o sol baixinho no teu quarto
Agitei as águas reladas na hora e percorri tudo sem maneira
Vasculhando cada letra perdida por brincadeira sentado na cadeira
E agora entro ai dentro, provo o leite e me deito no lento gosto
sem saída

E junto os pedaços dos pedaços em pedaços da sombra inquieta parada vadia
Dos nossos para os nossos em nossos desejos de letra e vida que não para
Como ossos dentro de fossas e louças baratas
sinceras
Fotografo o espaço e guardo os restos das lembranças
raras


[Fotografias de José Marafona e Marília Campos, respectivamente.]


Esperando, sinceramente, que este 1º post vos tenha motivado para o acompanhamento desta rúbrica ao longo da semana, deixo registado que mais poemas do Carlos serão editados na Quarta-feira. Conto convosco! E conto convosco de forma tão participada quanto possível.
Para ti, Carlos, aquele abraço...

Publicado por void em 06:45 AM | Comentários (15) | TrackBack

novembro 14, 2004

A NOITE


(Fotografia de José Marafona)

A noite
rodeia-nos com os seus braços longos,
com as suas ferramentas negras,
e aperta-nos,
como se fosse a grande mãe antiga,
inclinada sobre os berços à deriva.

A noite
pinta os lábios de vermelho e as unhas,
abre os decotes de algodão e seda,
calça sapatos muito altos,
quando dança sobre as nossas vidas.

A noite
acende as suas luzes, as suas violentas
luzes amarelas,
e então vemos as estrelas, os recifes, as
ruas sem árvores,
todas as portas fechadas.


(José Agostinho Baptista- ESTA VOZ É QUASE O VENTO)


[Não é a 1ª vez que edito poesia deste autor. Não será certamente a última, atendendo ao muito que aprecio o seu trabalho. É um dos meus poetas de eleição, ao nível da poesia portuguesa contemporânea. O poema acima apresentado faz parte do seu último livro, o qual recomendo imensamente. Sandra]

Publicado por void em 12:45 PM | Comentários (4) | TrackBack

SEXO ENTRE MENTIRAS- 1


(Fotografia de Stanislaw Trzaska)

Tinham discutido durante o dia inteiro. Nada de grave, apenas a má disposição matinal que é transportada da cama para o quarto de banho e que depois se propaga como um fogo lento e irritadiço na secção cerebral amorosa. Isto se ainda houver amor entre o casal. Mesmo que o amor se tenha transformado em novas imagens para cada um deles, ou que ela se comporte sexualmente enfadonha e inactiva espiritualmente, e que não olhe com amor intenso a figura repetida e enjoativa que ele representava, a noite pode transformar o cenário mais péssimo da vida duma mulher. Tem acontecido com ela, e por esse motivo já atribuiu o fenómeno à sua passividade sexual. Pensou ligeiramente se não seria uma marionete, ou o seu comportamento não estaria ao nível de uma boneca insufável. Para uma mulher que ao longo da sua vida de casada foi hipotecando o desejo e o prazer, uma mulher que em tempos de juventude e novidade pornográfica tentou cultivar o êxtase mais profundo e interior, enfrentava agora o acto sexual como um frete rotineiro semelhante ao compor as roupas da cama todas as manhãs. Mas ela sente-se triste e humilhada por isso? Sente-se mal amada pelo companheiro, esse que só a quer para se fazer representar no papel de amante? O jogo encantado da mulher está na recusa de se dar ao homem numa total abertura emocional. Havia um acto de vingança enfatizado na doce renúncia de se entregar e sentir prazer. A mulher amava no verso de si mesma. Amava com o negativo de se sentir amada numa revolta que não controlava. Sentia-se como se ele decalcasse no corpo dela um conjunto de selos raríssimos e valiosos; selos belos e atenciosos colados por cima de estampas desagradáveis e agressivas. Ele fazia o ritual da maquilhagem comportamental. A noite era a sala do arrependimento e da elevada compreensão. A noite, a luz farsante do ambiente nocturno, era o esquecimento. E eles envolviam-se sexualmente sem qualquer identidade.


(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

[Post em reposição]


Publicado por void em 09:31 AM | Comentários (3) | TrackBack

novembro 13, 2004

UNIÃO ("ESPAÇO SUB-20")


(Autor desconhecido)

Era Inverno, e como tal a chuva escorria sobre a janela do seu quarto. Lá fora a escuridão era mortífera. Entre várias hesitações decidiu sair. Precisava de arejar. Sentia-se carregada de emoções. Insegura vestiu a gabardina e sem chapéu, saiu. Saiu descalça. Caminhou horas a fio sobre a areia molhada que habitava junto de sua casa. O mar, curiosamente, estava calmo. Parou. Sentou-se e assim ficou: a olhar para aquele mar; a desfrutar da sua beleza e de tudo o que ele lhe podia dar. Precisava dele; dos seus conselhos e da sua sabedoria. Da sua calma; da sua razão. Sentiu-se protegida e junto da mãe que já não vira há muito. Deixou escorrer uma lágrima e depois esboçou um sorriso. Tinha saudades: da mãe. Era pequena quando a mãe teve que partir. Deixando-a com aquele que melhor a podia cuidar: o mar.

Deixou-se adormecer. Estava cansada de andar sobre aquela areia molhada; cansada de se sentir perdida; cansada de se sentir tão só. Acordou com uma onda que passou por cima do seu corpo. Tremeu. Estava, agora, com frio. Olhou à sua volta e não aguentando mais entrou num choro profundo.

Reparou que, bem perto de si, uma sombra a acompanhava. Lentamente subiu o rosto e uma mão, estendida, esperava a sua. Um olhar. Apenas um olhar tornou-os cúmplices. Espontaneamente nasceu um sorriso tímido da jovem que lhe estendeu a mão.

Agora, de mãos unidas, tornaram-se um só.
Inseparáveis.
Sentia-se agora de alma quente. Aquele vazio que nunca conseguira explicar estava, agora, preenchido. Sem quaisquer palavras, olharam-se. E assim ficaram por longos segundos, como se assim quisessem ficar para sempre. Olhos nos olhos. Seria a eterna felicidade que ambos desejavam. Olharam-se mais uma vez e beijaram-se.


(Sara- O MUNDO À JANELA)

Publicado por void em 07:39 PM | Comentários (3) | TrackBack

SUA AUSÊNCIA

Não me faça promessas...
Não há pressa,
pensava eu, ser assim
Sei que não poderá cumprir
Nada peço, nada pede
Somos assim:
você ai, eu aqui!



Almas que se buscam,
se encontram
Sem olfacto, tacto, visão
Ando percorrendo
ruas, avenidas,
que não me
levarão a você



Sinto muito
este descompasso
A falta do laço
que une dois seres
quando se encontram
Se amam, se tocam,
explodem em uma mistura
de ternura, carinho,
sedução, tesão



De espírito,
vivem os anjos
Por Deus,
sou um ser humano
Preciso de você,
da sua presença
Para de me deixar
nessa imensa ausência,
de com você nunca estar


(Emanuela Moura- INÉDITO. Fotografias de Steve Weiss)


[Sendo este poema o espelho de sentimentos e desejos muito teus, não poderia o seu conteúdo deixar de ser de uma profundidade imensamente tocante. Pelo que entendo do significado mais íntimo de si, trouxe-o aqui para que pudesse ser dado a conhecer a todos, mas principalmente àqueles que experenciam as avalanchas emocionais que podem decorrer da ausência ou do não estar imediato. Um beijo do tamanho do mundo e muita, muita admiração. Sandra]


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novembro 12, 2004

O SILÊNCIO DENTRO DO EXTERIOR REVOLTOSO ("ESPAÇO SUB-20")


(Fotografia de Marília Campos)

Os corredores e as salas – os cordeiros alinhados e fechados com cancelas – as lajes do chão em padrões ziguezagueantes não me deixes calcar o risco portas marcadas a ferro em brasa – qual é a sala? – cigarros macerados pelo sinal das aulas.
O professor – Bom dia X
Bom dia L Bom dia W bom dia K bom dia rápido! qual é que eu sou?
- Bom dia. Desejo-te um bom dia porque não te conheço e é melhor servir as regras. Desejo-te um bom dia e sei que se o desejares para mim, se o desejares mesmo, além do vazio automático dessas palavras, se o desejares nem que for só um bocadinho, quem sabe se resultará? Quem sabe se o teu desejo influenciará as breves metas do meu dia?
As sombras de carvão balançam nas lajes – não encontro o reflexo do desnorteamento – talvez algures descubras o meu, penso para as paredes, penso para a chuva que não pára não pára não pára de me chamar – não posso ir. Não posso ir nas bordas do quadro branco outrora negro, e nos esbracejares irrequietos das rectas, os estilos decorativos e os sermões daquele padre amigo do rei.
Mantém-te firme. O vento desprega-me os dedos do chão, empurra-me para trás, para a queda que me espera no abrigo da sombra não! e combato o frio, combato o sangue, louco por tingir as folhas. Se cair, uma árvore esmigalhada dentro de mim e o silêncio do vento marulheiro depois do mar. Depois da tempestade, o silêncio.
Os dois buracos em cima do meu nariz recolhem o turbilhão, as janelas desmontadas da normalidade, lá fora a guerra contra a morte enquanto cá dentro a luta contra o grito de revolta, as asas carentes a pedirem-me o despertar das penas – não posso ir. Não posso ir, desculpa-me Dina.
O silêncio como se a morte reinasse na sala, o silêncio dentro do exterior revoltoso.
Troncos depenados de cores confundem-se com os espectros do estrado, as feições do padre são reviradas pela tempestade e – sou uma folha perdida nas outras folhas perdidas e se os céus não pararem de cair, deixa-me cair com eles.

(Dina- VIRGENS SUICIDAS)

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novembro 11, 2004

CARTAS


(Fotografia de José Marafona)

Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um sinal.
Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. Toco a alba das pálpebras que, de súbito, se abrem para mim.
Um fio de luz coalha na saliva no lábio.
Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro. Mas não há repouso nesta paixão.
O dia cresce, sem luz- e os pássaros soltam-se do pólen dos sonhos, embatem contra os nossos corpos.
Nada podemos fazer.
Um risco de passos ensanguentados alastra pelo chão da cidade. A noite cerca-nos, devora-nos. Estamos definitivamente sozinhos.
Começamos, então, a imitar a vida um do outro. E, abraçados, amamo-nos como se fosse a última vez...

O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho.
No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.
Dantes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me pertenceres mais. Odeio-te. Abro os olhos. Regresso ao meu corpo e odeio-te. E, quem sabe se no meio de tanto ódio não te perdoaria- mas ambos sabemos que o perdão não existe.
Se fugias, perseguia-te. Mas olhar começava a cegar. Sentia-te, já não te via. E o pior é que o tacto também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele e o calor do sexo. O rosto aprendido de cor.
Hoje, tudo se sobrepõe. Nomes, rostos, gestos, corpos, lugares... um montão de cinzas que me deixaste como herança.
Não devo perder tempo com o ciúme. A paixão desgastou-me. E nunca houve mais nada na minha vida- paixão ou ódio.
Só isto: se me aparecesses agora, tenho a certeza, matava-te.


(Al Berto- O ANJO MUDO)

[Na medida em que para Al Berto o mar é/era uma referência intensamente abordada na sua escrita (por exemplo, através da ideia das viagens), faço acompanhar este texto da fotografia constante, também em memória do poeta/escritor, que tanto admiro. Por outro lado, senti-a como um bom cenário para envolver o texto em questão. E o mar é focado.... de novo... Sandra]

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novembro 10, 2004

O TEU PASSADO NÃO TEM IMPUREZAS


(Fotografia de Marília Campos)

Descarregas memórias do teu passado como quem pede desejos. Deixas que a tristeza se acometa de ti e aguardas até que a dor passe. Esperas, ficas sozinha: introspectiva, resistes até que o vazio seja preenchido por alguma memória. Essa memória, por comparação com a contemporaneidade, está sempre num patamar superior. Tudo é perfeito quando recordado. As incongruências e os pecados esquecidos, as arestas frias são limadas pela tua mania das grandezas. Na tua cabeça, o passado não tem impurezas, é incólume e imediato; está à mão de um pensamento.

(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA)

Publicado por void em 07:46 PM | Comentários (8) | TrackBack

OS NOSSOS CAMINHOS DIFERENTES


(Pintura de Françoise Nielly)

Querido Pedro,

Deus sabe o quanto me custa tomar esta decisão. Tentei várias vezes dizer olhando-te nos olhos, esses olhos que tantas vezes me sugaram a alma, mas nunca fui capaz. Teria sido demasiado doloroso para mim, ver esse azul ficar cinzento e por fim apagar-se. Nunca o conseguiria fazer. Amo-te muito. No entanto esta relação não pode mais continuar, eu quero outra vida para mim. Quero ter filhos, quero pensar que vou poder ter netos. Quero saber que a minha vida não vai acabar na solidão de um qualquer bar de engate. Foste e serás sempre uma pessoa importantíssima na minha vida, porém conservarei apenas recordações. Quero lembrar-me sempre de ti com carinho. Quero ver-te rir, como só tu ris, quero guardar esta imagem de um amor ideal mas que a vida me obriga a rejeitar.
Serás sempre o meu Pedro.
A dor que eu sinto neste momento, possivelmente nunca sarará. Meu querido, peço-te que me perdoes por este afastamento tão repentino. Não posso mais viver neste conflito. Não quero mais sofrer em nome de um amor condenado. Sei que compreenderás isso e que serás mais feliz nos braços de outro homem.
Adeus.

Do teu um dia, João.
...

Os lagos de tristeza transbordaram e lavaram-lhe a cara pintada de toda a raiva que pode existir numa só alma. Saiu porta fora, deixando para trás todos os dedos inquisidores da sociedade. Iria seguir o caminho do seu coração, iria ser feliz, custasse o que custasse. Iria conseguir encontrar-se de novo no corpo e na alma de um outro homem.

(António Pedro- MAÇÃS DE ADÃO)


[Post em reposição]


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novembro 09, 2004

MOMENTOS DE AMOR

Clarissa

Era inevitável, parece-me. Teria sido estúpido recuar. Foi inevitável. Telefonou-me, falámos durante um bocado. Depois disse para eu passar por casa dela para beber um café. Disse que sim e fui. Ela ainda não tinha jantado. Estava a fazer o jantar. Sentei-me no banco da cozinha e olheia-a. Tínhamos as duas um sorriso parvo. Ela estava embaraçada. Eu também, mas disfarço melhor. Não sei o que foi. A presença dela, o seu corpo tão perto, o olhar. Tive de agarrá-la. Agarrei-a e beijei-a. Uma, duas, três, muitas vezes. E ela respondia. Com toda a intensidade. A comida a fazer no fogão. Nós a beijarmo-nos durante horas sem parar. Até decidirmos ir para o quarto. Com a pele dela a misturar-se com a minha. Conquistada.


Encaixo o meu queixo entre o teu ombro e o teu rosto. Beijo-te o pescoço, sempre no mesmo sítio. Durante horas queria. Assustas-me. Sabias? Espero que não saibas. Espero que não vejas o meu olhar quando ficas ausente. Não percebo bem o que está a acontecer. Mas é bom a maior parte do tempo. Não vou perguntar. Nunca falho nestas coisas. Não vou perguntar. Estou descansada a ver o tempo passar. Mergulho no teu corpo. E espreito com cuidado a tua alma. Com algum pudor. Não tenho muito contacto com almas. Principalmente as de quem está comigo, assim como tu, nua na cama. Respiro como um sussuro e esta perspectiva é nova. Adormeço nos teus braços e não estranho ao acordar. A estranheza está aí.


Não sei, há um arrepio em tudo isto. À noite, gosto de estar abraçada a ti. Gosto de olhar para ti, sem mais nada. Ver os teus olhos. Perceber o que é que gostas, o que é que queres, procuro-te como nunca procurei ninguém. Fico a pensar como nos conhecemos e o que parecia querer. Não sei para onde foi essa leveza. Tudo agora é tão intenso, como se, a cada dia, me apaixonasse mais por ti. Sim, acho que estou apaixonada. Estou de certeza. Mas não é igual, é outra coisa. Não me canso do teu cheiro, nem da tua voz. Procuro-te sempre no escuro. Confundo-me com as tuas dores, com o teu riso, com a tua memória, com o teu prazer.


Ouço a tua voz no escuro a dizer-me aquilo e fico feliz. De repente estou eufórica e só me apetece chorar. Fazemos amor e eu volto a repetir as palavras, as mesmas que me disseste, as que eu já te tinha dito sem tu ouvires. Estás tão leve, tão sossegada, tão perto de mim. Não hesitas um instante. Pareces toda minha e eu, que estou habituada a isso, não sei o que fazer. Porque és muito diferente. Porque, contigo, cada beijo é uma dádiva, cada olhar um privilégio. Estou aparvalhada e apetece-me fugir ao mesmo tempo que me apetece mergulhar ainda mais nisto. Não vou fazer conjecturas, não vou prever lances futuros. Tudo isto é novo para mim e nenhum dos meus esquemas habituais se enquadra. És a minha mulher, aquela que vai ficar aqui comigo. Para sempre.


(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)


[Lanço estes momentos àquela tão particular (E)ternidade que tanto mas tanto me permite repousar. Sandra]

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novembro 08, 2004

SOLIDÃO ("ESPAÇO SUB-20"/ENSAIO DE ROMANCE)

Retomando o já familiar "Espaço sub-20", deixo-vos hoje com uma surpresa e originalidade. Surpresa, porque se inicia com este post a edição de um ensaio de romance escrito pela amiga Mónica do blog "My Paper Moon". Sendo que já outros textos seus foram editados, a diferença surge agora com algo de conteúdo mais sequencial e prolongado. Quanto à originalidade, de facto assim é, na medida em que temos a autora que assume e se assume, também, como a personagem masculina do enredo.
Tendo em conta estes aspectos chamo a vossa atenção para o que se segue e continuará todas as segundas-feiras, com excepção daquelas em que terá lugar a rúbrica "No abismo com...".
Não posso deixar de registar e de vos dar a conhecer que esta proposta de trabalho foi-me feita pela própria Mónica, a qual aceitei de imediato e com grande entusiasmo por acreditar, de facto, na qualidade que envolve o projecto. Conheço a autora, conheço a sua capacidade criadora, tenho muito presente as suas potencialidades. Desta forma só o "sim" poderia resultar da minha parte. Mas porque a vossa atenção e opinião também são importantes, conto (tal como a Mónica) com todas as opiniões que possam deixar. Assim sendo, passemos ao texto, antecedido por uma excelente fotografia:


O tic-tac do relógio tornou-se insuportável, a casa tornou-se fria e
desagradável. Tudo à minha volta parece ruir, não deveria ter-te deixado
partir...
O erro foi meu, bem sei, fartaste-te de me dizer. Mas que podia eu fazer?
Tens sonhos a mais, és livre de mais, tudo em demasia ... é impossível
sermos iguais ! Os opostos atraem-se? Tretas, (como dizias) tudo tretas !!!
Pena não te dar ouvidos ... sou demasiado teimoso, teimoso e orgulhoso para te
dar razão.
Fiquei com a casa impregnada de ti, livros teus, cd's teus, móveis teus, roupas tuas, até capacete da tua scooter esquecido no sofá; ficou tudo como estava na esperança de voltares atrás. Ilusões que se desfazem à medida que o tempo passa e eu vou ficando mais solitário com a casa cheia da tua presença, mas com o enorme vazio deixado pelo teu sorriso que não voltei a ver.
Fico horas sentado no chão a olhar para o telefone - que desde que partiste só
tocou duas vezes por engano- na esperança que da próxima vez possas ser tu.
O cão passa a maior parte do tempo atrás de mim, também sente a falta de
calor humano, também ele se sente abandonado... não o deveríamos ter
adoptado, és mais teimosa que eu sabias?
Claro que sabes, és muito segura de ti... Que é te poderia escapar? A vida?
Não! Queres tudo, tentas agarrar tudo, nada te faz recuar, só o amor é
verdadeiramente capaz de te assustar. És como uma flor do campo, que cresce
livre e feliz sozinha mas que quando colhida acaba por morrer na jarra. Era
isso que te estava a acontecer: estavas a morrer aos poucos nesta jarra, a
cada dia sentia-te mais triste e apagada. As minhas amarras foram a desculpa
perfeita para fugires de mim.
O relógio continua a cronometrar com uma precisão invejável os instantes que
passo a pensar em ti, como o fumo do cigarro que me pediste tantas vezes para
deixar o nosso amor desfez-se no ar ...


(Mónica- MY PAPER MOON. Fotografia de Margarida.)


[A continuação deste trabalho da Mónica terá lugar no próximo dia 22 deste mês. Até lá!]

Publicado por void em 06:49 AM | Comentários (13) | TrackBack

novembro 06, 2004

NO ABISMO COM... (4)

Concluo com este post a edição de trabalhos da 1ª colaboradora da rúbrica "No Abismo com...". Deixo-vos com um poema e dois textos (em prosa) da Alexandra, esperando que todos eles sejam do vosso agrado. Que o que se segue contribua para sublinhar, mais uma vez, a grande qualidade do blog da autora, onde as suas criações vão surgindo a um ritmo quase alucinante, mas sempre com uma marca muito própria e, por isso, inconfundível.
Antes de passar aos escritos da Alexandra apresento hoje, e muito especialmente, um depoimento da própria. Um depoimento sobre o significado da escrita para si.
Ao longo do post deixo-vos, igualmente, fotografias... suas. É verdade: a própria imagem da Alexandra acompanhando aquela que é a sua escrita!

Mas vamos lendo e vendo tudo... passo a passo. Comecemos pelo depoimento:



"O que é para mim escrever? Escrever é acima de tudo exorcizar demónios e ao mesmo tempo crucificar anjos. Escrever é imprimir a alma no papel, é estabelecer uma ligação entre as veias e a caneta. É tentar agarrar as palavras que flutuam no ar e na escuridão do meu quarto pouco antes de adormecer. Escrever é a repetição de sentimentos vistos, sentidos, observados sobre diversos pontos de vista. É sentir-me como este e aquele. É regressar ao passado e prever o futuro. É o estar aqui e agora e ao mesmo tempo não estar. É também a minha contradição numa busca incessante de me descobrir, conhecer-me e desconhecer-me; transformar-me nisto que todos conhecem e perante mim, tornar-me naquilo que não sou. É o ser e não ser sem nunca deixar de sentir; ainda que esse sentir seja vazio. Escrever? Escrever é dançar, cantar, gritar de peito aberto pronto a receber ora aplausos ora facadas. É brincar com as palavras por mais sérias que elas sejam. É sentir uma mão a dar asas à imaginação e ter na outra mão um cutelo disciplinado como um soldadinho de chumbo imóvel em cima da minha cabeça, e inquisidor, pronto a disparar perguntas; porque pensas isto? Porque escreveste aquilo? Eu escrevo aquilo que sinto. É inevitável. Por mais doloroso que seja escrever, e tal como todos os vícios, que sabem bem mas fazem mal, é pois, vomitar letras, palavras, frases, diálogos, pensamentos, ideias, sentimentos, um vício que me traz, consequentemente a dor do exteriorizar a minha alma e também a dor interna, quando apodrece dentro de mim. Quando não o faço, quando não escrevo, sinto-me a engolir o meu próprio vómito. E escrever... em suma, e resumidamente, numa só palavra, é vomitar; vomitar palavras e sentimentos, e através desse vómito, descer ao fundo do meu abismo...
Agradeço, a todos vós, com a minha alma, a presença e as palavras que me têm deixado nesta iniciativa da nossa querida amiga Sandra, e por me terem dado a mão e através das minhas palavras terem descido ao meu abismo; à essência do meu ser."


E agora as criações:


FORA DE CONTROLE



aqui estou eu
toma-me para sempre
guarda-me na tua mão
tranca-me dentro de ti
não libertes a minha alma.
estrangula o meu corpo
de tantos abraços, apertos
asfixia a minha boca
de tantos beijos
rasga a minha pele
com carícias devastadoras
castiga os meus pensamentos
arranca-os, destrói-os, manipula-os!
aqui estou eu
a tua bonequinha voodoo
a tua menina marionete
controla-me... controla-me...
aterroriza-me, atormenta-me
faz-me temer-te
faz-me sentir o pânico
o horror cada vez mais perto
cada vez mais intenso
cada vez mais certo...
sinto o cheiro no ar...
o cheiro da obsessão
deixo-me ser sugada, absorvida
deixo-me levar, pela tua mão...
pela tua voz, pela tua mente...
vou em queda permanente
a flutuar constantemente...
apenas tenho noção
de quão interessante é...
dar tudo o que a minha alma tem,
dar-te todo o meu bom senso,
deixar-me enlouquecer como uma terapia
perder o controle...
(já não consigo viver por mim)...


PROSSIGO PARA O CADAFALSO

Estou triste. Sei que não te apercebes disso neste riso camuflado de criança endiabrada. Sou frágil. Sinto que há um vazio entre nós. Faz corrente de ar e nenhum de nós se atreve a fechar a porta. Para que mais nada se meta entre eu e tu. Este amor constipa-me. Tenho frio na cabeça. As ideias estão congeladas. O nosso amor chega a ser doentio e não há nada que nos cure disto. Preciso de ti. Não me importo quando te zangas e quando gritas comigo. Sei que dói muito quando te peço coisas que não me podes dar. O amor entre nós chega a ser algo que não é, na mais pura das realidades. Somos dois seres surreais que se sonharam um ao outro.
O reflexo de horror em mim ultrapassa todos os meus estados febris. Espécie de monstro que alimentas a todo o instante.
Não existem espaços de vazio onde não me sinta num inferno que não arde. Os espaços vazios inabitados de ti.
Este amor é labirinto ao qual já me habituei. E o hábito chega a doer.
Tento apertar a tua mão que se esbate quando se aproxima o toque da minha. E deito-me neste tabuleiro de xadrez com os olhos pregados na teia de aranha que avisto na aresta da parede. A tua mão desaparece lentamente e o pó mágico que cai é cal que me entope as narinas.
Canso-me de dizer-te estas coisas. Parece impossível que ainda não tenhas sentido que estou perdida. Este amor é labirinto e nunca encontrarei a porta de saída.
Faz corrente de ar aqui. Dentro de mim. Estou gelada e a temperatura sobe lá fora. Como é possível ter febre com este gelo todo no pensamento?
Não consigo mover-me mais nesta tristeza que me paralisa. O nosso amor chega a ser pantanoso. Tenho lama tua pelo corpo todo. Tenho-a dentro das veias e o meu coração está alagado. Não posso ir mais fundo que isto.
Estou triste. Disfarço bem nas palavras que enfeito com coroas de flores, para te oferecer. E por trás, sinto a de espinhos enterrar-se pelo crânio. Vejo o nosso amor dentro de uma urna como se estivéssemos ambos num velório. E este cheiro a flores confunde-me. Não sei se deva rir ou chorar a meio da bruma que invade os jardins por onde passeamos lado a lado.
Olho para trás e já não tenho olhos que consigam ver todo o caminho de pedra que se abateu abaixo dos meus pés.
Passo a mão pela marca que deixaste antes de me conheceres e sinto o veneno que se solta da minha barriga. Levo os dedos aos lábios e sinto o sabor da tua perfídia confundir-se com o cheiro do nosso amor lamacento.
À minha frente, espera-me carrasco, que não te abandonarei nem no dia do meu velório. Sigo em leves passadas inocentes para os dedos da tua forca. O nosso altar é o cadafalso. Sempre desejei morrer nos teus braços.


REFLEXOS

Dizias baixinho. Usa outras palavras. Constrói outras frases. Exprime sentimentos diferentes. Eu isolava-me disto tudo. Isolava-me do que dizias. Não posso viver de outra forma nem escrever de outra maneira.
Via-te agarrado a uma peça de roupa que tinha deixado no chão do quarto. Do nosso quarto. E tu dormias sempre assim. Agarrado a qualquer coisa que tivesse o meu cheiro. A algo que fosse meu. Como quisesses esfolar-me viva sem me matares. Como se assim pudesses vestir-te de mim e seres eu. Para que um dia pudesses compreender-me.
Eu gritava contigo. Muitas vezes varria o quarto com todos os objectos que tivessem ao alcance das minhas mãos momentaneamente encolerizadas. Não consigo guardar para dentro. Não suporto amontoar rancores dentro de mim. Não tenho ódios empilhados nem armazéns de frases nunca ditas. Dizia-te. Digo-te.
Não podes dizer tudo o que pensas. Não podes dizer tudo o que surge segundos antes e depois do acto na linha do horizonte dos teus pensamentos. Nem tão pouco podes fazer tudo o que te apetece. E eu apenas te dizia que posso dizer tudo aquilo que penso e fazer tudo o que me apetece desde que esse tudo seja tudo o que sinto.
Nunca me apertaste nas tuas mãos. É assim que me prendes. Sou livre.
Não consegues exprimir os teus sentimentos sem misturares sangue, flores e riso. Tudo tem o seu preço. Eu dizia-te, muitas vezes a gritar.
Tenho sede. Tenho sede de vida e morte. Tenho sede de lágrimas e sorrisos. E tudo aquilo que sou se resume a uma explosão de contrastes. E tu amas tudo isso em mim.
Não podes pedir-me que escreva de outra forma se é esta a verdade. E a verdade muitas vezes dói e custa a engolir. Mas eu dizia-te que quando a minha escrita não mais te agradasse, também não valeria a pena sujá-la com os teus olhos. A dor não se reflecte nos olhos de quem lê com agrado ou desagrado. A dor não maça os olhos que se esforçam por compreender as entrelinhas. Mas a palavra sente-se suja quando assim é absorvida.
Havia vezes em que me perguntavas o porquê desta violência que sai de mim como água de um repuxo. Tens prazer em jogar palavras e objectos, no papel, no chão e nas paredes. É esta a maneira que encontras de soltar os demónios. Nunca faço pontaria. E há vezes em que me acertas e dói e custa a engolir. Por ser esta a verdade.
Penso em desistir quando isto se transforma em prisão. Um dia destes, quem sabe já não regresse. Voltei a casa.
Entrego-te, em mão, tudo aquilo que escrevi. Voltei a casa, voltei a escrever, voltei para ti e os teus olhos regressaram às minhas palavras sem condenação. E o mundo inteiro pode fechar os olhos a estas palavras. Elas não ganharão pó enquanto os teus olhos reservarem esse brilho para elas. Dois espelhos virados um para o outro e uma luz no meio. Tudo o que preciso para ser feliz... ter-te a meu lado...

______________________

Desejo, sinceramente, que tenham apreciado/gostado de todos os trabalhos da Alexandra aqui editados. Quer em termos de Poesia quer em termos de Prosa, a autora revelou aquele que é o seu estilo, quais são as suas temáticas, quais são as suas preocupações. Muitos mas muitos mais textos e poemas ficaram por apresentar. As produções da autora são já de uma quantidade considerável, pelo que vos trouxe apenas uma amostra. Mas creio que uma amostra de grande, grande qualidade.
Não posso deixar de referir os comentários que ao longo destes dias todos vós aqui foram deixando. Agradeço-vos a excelente participação. Agradeço-vos o envolvimento que foram tendo comigo enquanto editora, e com a Alexandra enquanto autora. Só vocês dão significado e ainda mais força ao nosso trabalho.

Para ti, Alexandra, um muito obrigada por teres aceite participar nesta iniciativa e por toda a atenção que foste tendo com todos nós, com os teus comentários cuidados e reveladores de um imenso respeito por quem te lê. Agredeço-te, também, a autorização de edição das tuas fotos.

Caros amigos: conto com todos vós no acompanhamento deste blog. Conto com todos vós nas mais diversas participações. Conto com todos vós como reais e potenciais elementos de uma equipa de trabalho verdadeiramente coesa e aqui reunida com o objectivo de proporcionar crescimento individual a cada um dos seus membros.

Muito obrigada!

Sandra


Publicado por void em 12:01 AM | Comentários (25) | TrackBack

novembro 05, 2004

NO ABISMO COM... (3)

Dando continuidade às edições abísmicas aqui iniciadas, mais dois poemas da Alexandra. O Frágil é, para mim, uma fonte inesgotável de inspiração. As escolhas/selecções são difíceis... dá vontade de trazer tudo. De mostrar tudo. De pôr todos os textos e todos os poemas à discussão. Sublinho: é imensa a vontade de trazer aqui a autora para falar sempre mais e mais de cada uma das suas criações.
E fico-me por aqui. Apreciem!


COFRE DE VENTO

Guarda

Todas as palavras que te ofereço
Teu pensamento em mim se projecta
Na minha pele escreves em linha recta
Desenhas sentimentos que nunca esqueço

Guarda

Os esboços das minhas risadas
A magia dos gestos meus
Os abraços muito teus
A memória de nossas mãos entrelaçadas

Guarda

No teu paraíso interdito
Todos os sentimentos que em mim derramas
A imagem de nossos corpos por todas as camas
As palavras que antes não tinha dito


AO ENTRARES DENTRO DE MIM... SENTI-ME VIOLADA ATÉ HOJE...

Minha carne, teu pão
Foi assim que me violaste a carne
Meu sangue, teu vinho
Foi assim que me violaste as veias
Respira os meus suspiros
Assim violaste a minha respiração
Consome os meus soluços
O meu choro por ti foi violado
Perde-te no meu corpo
Não pares
Encontra-te no meu olhar
Violaste-me a visão
Mergulha no meu espírito
Foi assim que o violaste
Afoga-te na minha alma
Não pares
Volta à superfície
Agora vês como por ti fui violada
Perde-te na profundeza do meu abraço
Não pares
Suga a minha voz
Viola-a outra vez
Possuí o meu prazer,
Prazer que é teu.
Dá-me a tua mão
Leva-me mais uma vez
Leva-me para sempre
Perco-me contigo
Perdes-te também
Perdemo-nos os dois
No meu bosque assombrado
Perco-me na tua floresta aterrorizada.
Também te violei...
Não podes fazê-lo
Separar-te de mim
Não pares
És a minha sombra
Sou o teu reflexo
És a minha estrada
Sem fim
O meu eterno crepúsculo
És tu
Cega-me o olhar.
Viola-me sem fim

Nasceste de uma aurora
Iluminaste essa estrada
Por onde caminho
És tu.
Não pares
As tuas doces palavras
Embriagam-me os ouvidos
Sim! Sim!
Não pares de falar
Viola-me.


(Fotografias de Christian Coigny e José Marafona, respectivamente)


Caros amigos: muita mas muita atenção! Amanhã darei por encerrada a prestação semanal da Alexandra. Conto convosco. Conto com a vossa participação. E já agora, para estimular a vossa curiosidade: vai haver uma surpresa. Apareçam!

Publicado por void em 06:38 AM | Comentários (18) | TrackBack

novembro 04, 2004

JAMES BOND: OS FILMES (8)

Eis mais dois filmes que registam/apresentam as aventuras de James Bond. Para cada um deles, dois novos actores, relativamente ao constante anteriormente. Temos então Timothy Dalton em "Licence to kill" (1989) e Pierce Brosnan em "GoldenEye" (1995).
Concretizo o que nos filmes se pode ver em termos de conteúdo/aventura/missão (registos em DVD):

Neste filme "James Bond parte para uma assombrosa aventura quando se afasta do departamento para enfrentar o líder do mais poderoso e brutal cartel de droga. Desta vez não está a lutar pelo seu país, mas por vingança."

Participações: Timothy Dalton, Carey Lowell, Robert Davi, Talisa Soto, Anthony Zerbe.

Opções Especiais: Comentários audio do realizador John Glen e elenco; Comentários audio do produtor Michael G. Wilson e equipa técnica; Documentário "Inside Licence to Kill"; Videoclip "Licence to Kill" de Gladys Knight, entre outras...

Duração: c. 127'

Neste filme... "Quando um poderoso sistema de satélites caí nas mãos erradas, apenas 007 pode salvar o mundo da ameaça de uma arma espacial que pode a qualquer momento destruir o planeta."

Participações: Pierce Brosnan, Sean Bean, Izabella Scorupco, Famke Janssen, Joe Don Baker.

Opções Especiais: Comentários audio do realizador Martin Campbell e do produtor Michael G. Wilson; Documentário "The GoldenEye Video Journal"; Documentário "The World of 007"; Videoclip "Goldeneye" de Tina Turner, entre outras...

Duração: c. 124'


Até aos próximos filmes! Suspendam as emoções bondianas até lá. Eheh...

Publicado por void em 06:50 AM | Comentários (5) | TrackBack

novembro 03, 2004

NO ABISMO COM... (2)

E eis-nos novamente com Alexandra Antunes, responsável pelo já nosso familiar Frágil. Deixo-vos hoje com dois poemas da autora que seleccionei com particular gosto. Leiam e perceberão as razões.

FRUTO – I

O teu sorriso não é um asterisco, é um astro flamejante!
A minha alma é uma chama, o Inferno de Dante!
Sou um fantasma material
E a minha carne, um Pecado Original!

A inspiração rompe-me as barreiras da mente
Sobrepõe-se e confunde-se com a tua
Tudo volta ao antigamente
Abro-te a minha mão e tu estendes-me a tua...

Talvez tu consigas compreender
Que a felicidade não pertence a este mundo real
Aceita a minha mão que te estou a estender
Aceita a minha inspiração, minha flor do mal.

Coisas belas, coisas feias
A vida é feita de escolhas escabrosas
Afunda o teu corpo nas minhas movediças areias
Deixa o teu céu cobrir-se com as minhas nebulosas!

Coincidências?
De vidas estranhas
Quero as tuas incidências
Dentro das minhas entranhas.

E a ansiedade é tamanha!
Confusamente perfeita
Maior que a tua fantástica montanha
Deliciosa como a tua cama desfeita.

Os teus lençóis são fantasmas agoniados
Tal como eu sou
E chamam por mim desesperados
Desconhecendo que não estando, eu já lá estou...

Este mundo é errante
E as camas não deixam de igualmente o ser
Entramos noutras vidas de rompante
Mas indiferentes ao que nos possa acontecer.

Porque não temos propriamente a noção
E a noção não é propriamente a mais propositada
Deixamo-nos mover por instintos de paixão
Para mais tarde cairmos na verdade amargurada.

Mas tu és um doce pecado
Talvez mais original que a minha pessoa
Um Cristo crucificado
Nas teias de uma aranha predadora!

Que digo eu afinal?!
Que presa também sou
Na tua teia original
Presa eu também estou!

Por vezes as paixões são,
Ironicamente sumptuosas
Percebe desde já, minha paixão
As minhas entrelinhas escabrosas.

Entrelinhas estreladas
Num prato casca de ovo que se quebrou
E assim vou arrombando portas fechadas
E apanhando a próxima onda que rebentou!

Esta linha é torta
Mais uma que Deus escreveu
Volta a página para a próxima porta
Mas apressa-te porque a chave o Demo já me devolveu.

A chave é emprestada
Ainda que, paga às prestações
E perante mais esta jornada
Empresto-te um pouco da minha vida aos trambolhões.

E mais não é, se não um trambolhão
Mais um salto mortal no trampolim
Mais uma flor venenosa neste caramanchão
Mais um veneno no meu jardim.

Ela disse, para não comeres da flor proibida...
Corres o risco de ficares preso eternamente
Mas a tentação assalta-nos constantemente na vida...
E parece-me que o Demo também é omnipresente!


FRUTO – II

Escrevo desalmadamente
Com medo que a inspiração se varra
Da minha mente completamente
Qual Eva expulsa do Éden com ou sem parra.

Todos os dias ao olhar o meu reflexo
Vejo uma pessoa diferente
Dizendo coisas aos olhos alheios, sem nexo
Perdendo a cabeça lentamente.

Se te opões e te recusas
És expulso deste Paraíso Artificial
E se depois ainda te culpas, se te acusas
És tomado por anormal.

Mas não destruas dessa maneira
Os teus preciosos neurónios
Entre nós e eles existe uma barreira
Assombrada por demónios.

Todos os dias me olho ao espelho
E por vezes julgo que é a tua aparência
Tamanha metamorfose de escaravelho
Ou de borboleta estonteante, sem paciência.

Também tu, meu companheiro
Andas perdido e desencontrado
Buscas no ar o meu aroma, o meu cheiro
Buscas o bocado que na garganta te ficou encravado.

E dizem as más línguas que veneno era!
Talvez por isso morremos e nascemos vezes repetidas
E apesar de ser sempre Primavera
As flores estavam murchas e as árvores apodrecidas.

Era verdade, meu amor
Eu e tu no Paraíso
Um atentado ao pudor
Rasgando a monotonia com um sorriso.

Mas já nada disso importa
Não nos serve de lição
Nascemos certos e direitos, de raiz torta
Susceptíveis e condenados à tentação.

Meu amor, todos os dias observo
A tua imagem a reflectir-se
E todos os dias eu conservo
Este desejo a quebrar-se, a partir-se.

Somos duas gotas genuínas
Dois diferentes siameses
De inseparáveis tristes sinas
Cruzando-nos todos os dias algumas vezes.


(Fotografias de Christian Coigny)


Mais trabalhos da nossa amiga Alexandra serão aqui editados na Sexta-feira. Voltem! Voltem pois as justificações são mais que muitas.

Publicado por void em 06:25 AM | Comentários (19) | TrackBack

novembro 01, 2004

NO ABISMO COM... (1)

"No Abismo com..." é uma rúbrica hoje lançada que recupera uma ideia já concretizada num passado recente e que tem a ver com o destaque semanal de um conjunto de trabalhos de colaboradores deste blog. Sendo que ao longo destes dias nem só dos seus escritos se vai valer o Void, o que importa considerar é que eles vão ser o fio condutor/constante da semana em termos de edição de posts.

Abrindo as portas à iniciativa, Alexandra Antunes, blogger do Frágil, um espaço que tenho o prazer de frequentar pela qualidade do que lá é editado. Para apreciarem ao longo deste dia dois trabalhos diferentes, mas ambos reveladores do talento e potencialidades da autora. Um poema e um texto em prosa, este original, simpaticamente cedido pela mesma, fazem pois este arranque que espero e desejo seja tão fortemente sentido por vós como por mim.

Deixo-vos então, sem mais delongas, com os trabalhos da Alexandra que, para além de colaboradora é já uma grande amiga... e cá para nós que somos pouquitos... uma amiga linda de morrer. Eheheh... Vá, vamos ao que importa:


TU, A TOTALIDADE DO EU

Sim! Estou doente
Estou de cama
Sobe a temperatura
Expludo numa chama
De loucura
Descrente
Descontente
Amo a depressão
E desconheço a razão
Dos meus lamentos
Dos meus tormentos


Tomo comprimidos
Vou ao senhor doutor
Despedaço-me em gemidos
Amo a minha dor!
Ele diz-me, e com razão
Menina pare de se consumir
Ame-se a si própria
Deixe de beber água imprópria
Tome lá este Valium
E eu digo, não me chega apenas um
Tenho tendências suicidas
Bem vê que, já não me restam mais vidas


E então
Volto para o meu aposento
Volto para a minha solidão
O meu único sustento
E bem me protejo
Bem me escondo de mim
Faço de conta que não me vejo
Imagino que não tenho princípio nem fim


Ah! quem me dera trabalhar
Noite e dia, noite e dia
Ter por médico a canseira
Afogar-me em falta de ar
Afogar-me em papéis e feliz morreria


E desta maneira
Esquecer-me de pensar
Na minha existência
Ter-te constantemente na consciência


Esquecer-me de tudo
Ser um ser
Cego, surdo e mudo
Porque a ciência
Para tudo tem cura
Menos para o amor
E para a loucura
E tu és tudo isso


NADA E NINGUÉM, COISA NENHUMA

Nada mais existe para te dizer. Eu meto as mãos nos bolsos em busca de uma ou outra palavra que possa ter ficado esquecida. É falso. O amor entre nós está em avançado estado de decomposição. Ainda que a minha vontade, de engolir outros mundos guardados na gaveta do teu quarto de solteiro, seja mais forte que eu.

Quero dizer-te. Já não consigo dizer. Ainda tenho as mãos enfiadas bolsos adentro. Hoje sinto-me vazia.

Tu pensas que me calo para sempre quando te digo estas coisas. Eu fico com duvidas. O desejo de gritar suavemente as palavras consegue ter mais força que eu. É algo inexplicável. Esta vontade de comunicar com estátuas de carne e osso. E é doloroso. Dói-me sempre que escrevo. E a dor é mais cortante quando partilho sentimentos com quem quer que seja.

Hoje estou vazia. Nunca fui egoísta. Mas hoje descobri que não quero partilhar estas palavras que sangram dos meus dedos e percorrem as teclas de uma máquina que consegue ter mais sentimentos que uma estátua de ossos e vísceras.

Já chega. Porém, peço mais e mais e mais.

Não tenho palavras dentro dos bolsos. Porque tudo aquilo que digo tem a sua origem na dor e no sangue e em coisas que já não respiram. Em coisas que todos apontam as garras afiadas e prontas a descarnar sentimentos quando eu apenas tento dizer que te amo de maneiras infinitas.

Quando só temos coisas feias e tristes para dizer não existe mais nada. É por isso que hoje te digo. Nada mais existe para te dizer.

Um dia, acordo. Digo e escrevo. Está um lindo dia e os pássaros cantam no parapeito da janela do meu quarto. E é falso. Jamais o direi. Não é isso que sinto quando acordo e por mais que o sol brilhe além da janela do meu quarto a minha casa será sempre assombrada.

Os pássaros são belos, vivos ou mortos. Tudo aquilo que voa e que voou nunca perderá a beleza do seu voo.

Estou a ser sincera não nas minhas palavras mas naquilo que sinto. Não quero ser uma estátua de carne e osso. Eu quero chorar até perder os olhos. Quero gritar até perder a voz. E quis amar-te até perder todos os sentidos e deixar de existir. Ainda hoje o quero apesar de não ter nada mais para te dizer.

Espalhar palavras pelas ruas por onde caminhas é a mesma coisa que sentir a anulação dos teus pensamentos. E os teus caminhos, independentemente de serem iguais ou diferentes, já estão gastos. O amor é o contrário disso tudo ainda que se bata na mesma porta todos os dias. E é indiferente se ela se abre ou se se mantém fechada. Não é isso que nos faz desistir do amor.

E a porta fecha-se. As palavras acabam. Perdem-se dentro de uma algibeira desgastada e descosida. Atravessam o tecido. Deslizam pelas tuas pernas em direcção ao chão, na direcção de caminhos gastos. E é por isso que nada mais existe para te dizer.

É como gritar no meio da multidão e ninguém te ouve. Ninguém. Só. Comigo. E apenas eu posso abandonar-me.


(Fotografias de Bruno Espadana e Margarida, respectivamente)

Publicado por void em 07:25 AM | Comentários (11) | TrackBack