
Looking out the door i see the rain fall upon the funeral mourners
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe i'm too young to keep good love from going wrong
But tonight you're on my mind so you never know
When i'm broken down and hungry for your love with no way to feed it
Where are you tonight, child you know how much i need it
Too young to hold on and too old to just break free and run
Sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that really, he has no-one
So i'll wait for you... and i'll burn
Will I ever see your sweet return
Oh will I ever learn
Oh lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that will never come
It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever
Well maybe i'm just too young
To keep good love from going wrong
Oh... lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Well I feel too young to hold on
And i'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love well i'm waiting for you
Lover, you should've come over
'Cause it's not too late
(Jeff Buckley- Do álbum/compilação "Grace")
"Grace," (Legacy Edition) um conjunto de 2 cd's e 1 dvd ("The making of Grace", "The Grace videos", "Jeff Buckley discography") saídos agora para o mercado. Um excelente trabalho global a provar a qualidade das canções/músicas de Jeff Buckley. Sem dúvida Buckley tinha um dom: um dom para compôr canções belíssimas, todas elas, impregnadas de uma sensibilidade enorme, de um intimismo imenso, de uma sonoridade embriagante.
Pessoalmente adoro "Grace". Dá vontade de ouvir sempre mais...outra e outra vez. Se não conhecem, procurem e desfrutem. Se já conhecem: sorte a vossa!
Eis a edição de mais um texto destacado pelo DN Jovem. Mais uma abordagem de uma realidade tão presente. Mais uma visão pessoal. Mais uma criação.
Atentem:
Antecipar a dor, dor maior que a dor.
Sofrer por imaginar que o sofrimento se aproxima, dar passos de medo porque já se conhece ou pensa que se conhece o que aí vem –pesadelo intrínseco ao humano que pensa, que mede o que faz, o que os outros fazem, o que mundo faz, e termina enrolado, frustrado por ser quem é, por uma das faculdades que tem, sem nunca a ter pedido a quem que seja, ser uma lâmina imparável que fere as entranhas, rasgando cada minúsculo tecido como plástico fino, incapaz, capado de força.
Uma tarde, chuvosa, de trevas cerradas, em que a ausência é dita, é uma tarde, são muitas tardes, muitas noites, muitas manhãs em que a ausência é sentida, mesmo que ela, a ausência, ainda não seja, ainda não exista, seja ainda presença, presente, é a ausência que já governa o que somos, é a ausência que manda na presença – a ausência parece ser a única que à partida consideramos, ou admitimos, que pode ser eterna, tememos que a presença não volte, que se resigne a ser ausente, e por isso, quando deixamos que a presença seja ausência quando ainda é presença, estamos dentro de nós a lutar contra o terror de imaginarmos que a volatilidade é um fato que só serve à ausência, demasiado dispendioso para algo, alguém, tão humilde como a presença. E enquanto a presença existe, enquanto temos o que a tarde nos disse que íamos perder, nem que seja temporariamente, não conseguimos estar absorventes perante o que temos, estamos desligados de nós, da realidade que vivemos, e desperdiçamos o tempo já pouco, entregando-o sem resistência nos braços do tempo que ainda não é mas que é tanto como se já fosse.
Sou assim, mas não perante o tempo temporário, antes perante o tempo final, a vida que vai ser morte. O mecanismo é o mesmo: um momento, indefinido e variável, em que a partida fica destinada – nós sabemo-lo, não há como fugir. Um dia, a presença vai ser ausência, a vida torna-se morte, nós tornamo-nos nada. E depois, quando esse dia já é passado, quando essa notícia já circula pelo vento, é a certeza de que nada vale a pena, nada, se está destinado a terminar – projectar é criar, imaginar, dar vida, que sentido faz desenhar futuro quando é um futuro a prazo?
Sofro pela presença, por ser, e não pela ausência, porque se nunca tivesse presença, vida, jamais sentiria a ausência, seria uma ausência, somente – e as ausências não sofrem por ausência, como as mortes não sofrem por mortes, só as vidas soçobram sob as tenazes da morte.
Antecipamos a saudade, antecipamos a dor – a coerência diria que teríamos de antecipar igualmente a morte, e morrer em vida tal como sentimos saudade na presença de quem sabemos que vai ficar ausente.
Sou ausência, presente. Sou morte, vivo.
(Pedro Chagas Freitas, 24 anos, jornalista, Guimarães)

Pois é! É mesmo! Uma compilação, em CD(s), das sonoridades dos filmes de James Bond... das origens até ao presente. Uma viagem no tempo!
Uma compilação que inclui dois cd's: o primeiro com as canções, o segundo só de instrumentais. Um trabalho global excelente que, para os verdadeiros apreciadores dos filmes e fãs do agente secreto, vale a pena adquirir. É algo que fica e que permite reforçar a ideia de que, tal como os filmes, as suas sonoridades também não morrem.
Deixo-vos com a compilação (desdobrada):
CD1: Main Themes
1. James Bond Theme
2. Goldfinger
3. Nobody Does It Better
4. A View To A Kill
5. For Your Eyes Only
6. We Have All The Time In The World
7. Live And Let Die
8. All Time High
9. The Living Daylights
10. Licence To Kill
11. From Russia With Love
12. Thunderball
13. You Only Live Twice
14. Moonraker
15. On Her Majesty's Secret Service
16. The Man With The Golden Gun
17. Diamonds Are Forever
18. Goldeneye
19. Tomorrow Never Dies
20. The World Is Not Enough
21. Die Another Day
CD2: Instrumental Bond
1. James Bond Theme
2. From Russia With Love
3. Goldfinger
4. Thunderball
5. You Only Live Twice
6. On Her Majesty's Secret Service
7. We Have All The Time In The World
8. Diamonds Are Forever
9. Live And Let Die
10. The Man With The Golden Gun
11. Nobidy Does It Better
12. Moonraker
13. For Your Eyes Only
14. All Time High
15. A View To A Kill
16. The Living Daylights
17. Licence To Kill
18. Goldeneye
19. Tomorrow Neves Dies
20. The World Is Not Enough
Independentemente de gostar bastante do CD 1, considero muito bem conseguido o CD de instrumentais. A apresentação dos temas está muito, muito boa. Será que tenho razão? Bom... comprovem!
Deixo-vos com mais acção. Bastante acção... em outros dois filmes das aventuras de James Bond. Desta vez, "The man with the golden gun" (1974) e "The spy who loved me" (1977).
Vejam (disponível em DVD):

Aqui "James Bond encontra um rival à altura: Francisco Scaramanga, um assassino profissional cuja característica é utilizar uma pistola dourada. Quando Scaramanga captura um conversor de energia, o Agente 007 tem que recuperar o aparelho e confrontar este assassino num impressionante duelo até à morte."
Participações: Roger Moore, Christopher Lee, Britt Ekland.
Opções especiais: Comentários audio do realizador Guy Hamilton, elenco e equipa técnica; Documentário "Inside The man with the golden gun" e outras.
Duração: c. 120'

Aqui "James Bond e a bela Agente Soviética Anya Amasova juntam-se para investigar o desaparecimento de submarinos nucleares, quer Aliados quer Russos. Pistas mortais levam-nos ao bilionário Karl Stromberg. Depressa, Bond e Anya tornam-se a última esperança de conseguir acabar com um plano que irá levar o mundo a um Juízo Final nuclear."
Participações: Roger Moore, Barbara Bach, Curt Jurgens.
Opções especiais: Comentários audio do realizador Lewis Gilbert, elenco e equipa técnica; Documentário "Inside The spy who loved me" e outras.
Duração: c. 120'
Divirtam-se! Volto com mais dois filmes em breve.

De facto, o descontentamento popular é muito grande. Houve alguém que não entendeu assim e preferiu conduzir Santana Lopes a 1º Ministro, chegando a política portuguesa ao ponto em que está.
Segundo notícia de "A Capital", foi assim, ontem, no Pavilhão Atlântico:
"O primeiro-ministro, Santana Lopes, recebeu ontem à noite a sua primeira grande vaia pública, desde que assumiu o cargo no Governo da maioria de direita. O líder do Governo deslocou-se ao Pavilhão Atlântico para assistir ao primeiro concerto da cantora norte-americana Madonna, e, quando se instalou no camarote, os espectadores que ali se encontravam, dando conta da sua presença, assobiaram fortemente e patearam o primeiro-ministro.
Santana Lopes, que se instalou num camarote, situado no lado esquerdo da sala de espectáculos de Lisboa, estava acompanhado por, entre outros, Pedro Pinto, vereador da Câmara Municipal de Lisboa - e um dos seus braços-direitos enquanto assumiu a presidência da autarquia -, e por um dos seus filhos.
Recorde-se que já Durão Barroso havia sido recebido com uma monumental vaia colectiva quando se deslocou ao Estádio da Luz para assistir, na época passada, à inauguração do novo recinto, numa partida entre o Benfica e o Nacional de Montevideu. Foi a primeira e mais ruidosa manifestação pública de desagrado da população pelas medidas do Governo por si liderado. Ontem foi a vez de Santana Lopes enfrentar a reacção popular."
Logo mais

Correm turvas as ideias no meu ser
O sentimento escapa-se
Em farta escuma gelada
Que se afasta
Da inspiração que me foi dada
Quero versejar
Corporizar poesia
Mas correm turvas as ideias no meu ser
E escrever sem sentir
Rabiscar e não o desejar
Não é reflexo de criar
Correm turvas as ideias no meu ser
E nada mais tenho para amar
Paro
E ouço os silêncios
Que me rugem dentro
E me rasgam o corpo
Sedento de elementos
Paro uma vez mais e espero
Inspiro e transpiro
Grito e vagueio
E sempre
Sempre este maldito vazio
Desisto
[É irrisório agora tentar]
Logo mais saberei criar.
Nada

Amor
Dor
Morte
Vida
Ser
Cor
Devoção
Razão
Som
Paixão
Silêncio
Sedução
Calor
Desejo
Luz
Pavor…
Nada…
Não sinto enredo.
Decidi-me!
Hoje não escrevo.
(Luís Miguel- VERTENTES. Fotografias: autor desconhecido.)
Deixo-vos com mais um texto concorrente ao DN Jovem e cujo destaque foi merecido:
A nossa casa era uma sólida mansão que ficava num campo que se cobria de papoila sanguíneas. O meu irmão encontrava diversão nos pássaros do vale, a minha mãe bordava enxovais com motivos campestres para noivas rosadas, o meu pai embalsamava na cave escura os cadáveres que aqueles campos produziam, enquanto a minha mãe recebia alternadamente as bonitas noivas ou os chorosos familiares das vítimas com biscoitos e chá. Os campos providenciavam tudo o que necessitávamos para sobreviver: o sol, os pássaros, as flores, as frutas, os mortos. Eu, como era o mais introvertido e a minha natureza não me permitia encontrar beleza no mundo exterior, ficava na cave com o meu pai observando. Aprendi como mascarar a palidez, o fedor, as cicatrizes, e o meu pai instintivamente tomou-me como o seu natural percursor, ensinando-me os truques e trâmites da arte de transformar algo sórdido numa obra prima. Com o tempo, o meu pai morreu e fui eu que o preparei, deitando-o num acetinado caixão preto e assim, tomando o seu lugar.
A morte era a grande janela para universos que de outro modo nunca desvendaria porque era reservado e não tinha amigos para além daqueles que me confiavam os seus corpos no seu pior momento, e eu sussurrava-lhe coisas que sabia que só eles poderiam compreender. Nunca as noivas poderiam entender na sua candura virginal o que a dor significava e por isso eu desprezava-as e assim a própria cidade, com os seus cafés movimentados e raparigas desenvoltas, fechou-me as suas portas, catalogando-me de bizarro, que só teria lugar no campo, fechado numa cave negra, que é como um limbo, mas na Terra.
Pelo menos até à Dora, e a Dora apareceu linda toda de branco, mas esta noiva tinha em si a alegria campestre que eu só vira nas flores e a vida pulsava nela como um campo magnético. Foi esta vivacidade que me atingiu e eu tropecei, mas nela havia uma doçura inegável e quando me estendeu a mão, toda ela era quente e elástica, tão diferente do toque pegajoso e frio dos corpos que eu antes conhecia.
Não acredito que tenha pensado que aquilo era amor porque nunca experimentara nada que exigisse a colaboração de outro ser humano vivo. Ao casarmos, Dora insistiu para que eu me desfizesse da casa mortuária na cave e foi isto que me fez ter pesadelos à noite, porque os mortos eram os meus fieis amigos e sem eles principiei a sentir um vazio incomensurável. Bebia para dormir e como não dormia, tornava-me febril e o calor do corpo dela enlouquecia-me. Depressa, talvez logo na semana seguinte a entaipar a porta da cave, eu soube o que ia suceder. Era a ideia do calor dela à noite na cama que me obcecava.
Dora e o peito cálido como rosas na minha mesa e a beleza tenra dela um crime de deixar o tempo consumir. Ela bebera o láudano todo ao jantar sem desconfiar e morreu durante o sono o que lhe permitiu manter as cores saudáveis e assim o meu trabalho foi mais simples e o resultado final mais natural. Vesti-lhe o vestido de noiva que lhe fora despido há só umas noites e inspirei o familiar cheiro do formol que vinha do corpo embalsamado dela, o toque quente das suas mãos substituído pela gélida caricia da morte, que tanto me acalmava.
Carreguei-a para o nosso quarto nos meus braços, tal como a carregara na nossa recente noite de núpcias, mas desta vez ela não se ria , a sua cabeça loura tombava contra o meu ombro solene e serena. Deitei-a no leito e tombei exausto sobre o seu peito onde mais nenhum retumbar irritante me mantinha acordado, onde mais nenhum respirar ondulante me desconcertava, onde mais nenhum calor corporal me perturbava e dormi um sono solto até ao outro dia de manhã, quando tive de a depositar num bonito caixão negro e enterrá-la debaixo do campo cheio de papoilas.
(Lore Lei, 21 anos, Estudante de Letras, Abrantes)

Vi o filme no cinema e logo me chamaram a atenção as músicas inerentes. Revi-o em DVD e reforçou-se em mim a qualidade do que me era dado a ouvir em termos melódicos. Escutar calmamente o CD foi o auge. Acreditem: a beleza é imensa! Posso mesmo dizer: o que de melhor ouvi nos últimos tempos. E interiormente toca tanto... tanto... a mistura do que se sente é algo de perturbador. Tendo presente o filme, ouvir as músicas é como que um exercício reforçado de introspecção e de reflexão sobre o Mundo em geral e sobre o Outro em particular... Acho mesmo que para quem não se confrontou com as imagens, a indiferença ao que é disponibilizado em CD é impossível... É tudo tão profundo... tão profundo...
Muito a sério: procurem ouvir! A beleza é extrema.
Quanto às faixas:
1. The Olive Garden
2. Bearing The Cross
3. Jesus Arrested
4. Peter Denies Jesus
5. The Stoning
6. Song Of Complaint
7. Simon Is Dismissed
8. Flagellation / Dark Choir / Disciples
9. Mary Goes To Jesus
10. Peaceful But Primitive / Procession
11. Crucifixion
12. Raising The Cross
13. It Is Done
14. Jesus Is Carried Down
15. Resurrection
Música(s) por: John Debney

(Autor desconhecido)
Coração quebrado
Perdido
Dúbio.
Coração suspenso
Descrente
Devoluto…
Tu. Entra!
Vens dar cor ao meu luto?
(Luís Miguel- VERTENTES)
Hoje dancei à chuva. Olhei os céus e os meus pensamentos foram levados pelo vento. Senti as gotas de chuva limpar as minhas mágoas, não havia deuses maus, nem problemas que não fossem resolvidos. Havia sim, uma beleza sem dimensões naquele céu cinzento. Uma luz que não se via, mas que se sentia, inundava-me a mim, e à cidade numa paz sem limites... E a chuva a cair, as nuvens a brilhar, os meus olhos a amar cada pedaço de beleza daquele momento. Dentro de mim, o mundo não perecia. Havia esperança, sim. Em cada gotícula de chuva, eu via uma gota de esperança que me fazia sorrir.

Hoje dancei à chuva. E tu não estavas lá. Ninguém precisava de estar lá. Só eu, eu, eu precisava de ver. De abrir os meus olhos para as coisas simples da vida. Porque sim, a banalidade também é importante. Porque sim, a simplicidade faz-nos felizes. Pode não ser por muito tempo, mas são os bons momentos que precisamos de guardar.
Sorrio à vida e agradeço à chuva.
(Texto da autoria de "Lost_Words." Editado, originalmente, em Palavras Perdidas. Fotografia: autor desconhecido.)
Deixo-vos com mais um texto concorrente ao DN Jovem e por si premiado. Desta vez, uma muito jovem autora. Leiam o texto, leiam! Atentem à mensagem transmitida.
Perguntei-te um dia se conhecias o guardador de rebanhos, aquele pequeno moço, olhos amêndoa e cabelo mestiço, um cheiro a amora no ar de um vestígio de prado longínquo, mergulhado no profundo silêncio de um rosto que se perde a leste, num horizonte desconhecido. Disseste-me que raramente o vias. No caminho que fazias, de casa ao trabalho, de nada te davas conta senão do andamento dos teus próprios pés, do ritmo a que se moviam os músculos de um corpo ágil, quase perfeito.
Perguntei-te pelas flores que sorriam ao vento, num balouçar quase angelical, e tu disseste que não tinhas tempo sequer para olhá-las. De uma outra vez, num outro dia, tentarias fazê-lo, prestar-lhes mais atenção. Quis dizer-te que essa outra vez poderia nunca chegar, e perguntar-te se aquilo em que te baseavas para pensar que sim valeria tanto quanto aquele momento em que poderias ter parado e escutado o vento. Ter-me-ias respondido, não fosse um outro assunto não mais relevante ter-te preenchido o tempo, aquele tempo cuja preciosidade aumentava a cada minuto que deixavas escapar.
Comecei por explicar-te a estranheza que me causava, por cada vez que atravessava o prado e o encontrava a ele: o pequeno pastor. Falei-te da roupa que normalmente envergava mas mesmo assim não consegui avivar-te a memória. Continuavas, certamente, perdido algures entre o riso que te provocavam as minhas palavras e o assunto de há pouco – trabalho, disseste. Questionei-me se algum dia terias pensado em algo mais que estivesse para além de ti, uns poucos metros à tua frente, à tua esquerda, em teu redor. Os meus olhos devem ter denunciado o meu pensamento porque automaticamente te ouvi dizer que não tinhas tempo para pequenas coisas; como se a importância das coisas pudesse ser medida com régua e esquadro, traçando as linhas de um desenho desigual, ímpar na perfeição. Disseste-me que importante, sim, era viver em forma de hélice, numa rotação constante pelos espaços cosmopolitas, num ciclo de vícios banais, fazendo questão de frisar que vício não seria, obrigatoriamente, sinónimo de destruição – como se não existissem outras formas de destruição, para além de um qualquer vício.
Disseste que o pouco tempo que te sobrava, não deveria ser gasto – e sublinho gasto com a mesma prepotência que a mim fizeste chegar – a admirar vozes que não existiam, como a do vento, nem sons mudos, como o silêncio em murmúrios transcendentais. Todo o tempo deveria centrar-se em ti, no que te dava prazer de fazer, ou não, naquilo que fazia os outros admirarem-te, sem conhecerem, no entanto, que por debaixo de um homem de sucesso estava o vazio de uma alma decadente, ainda que, aparentemente, todos os teus alicerces te sustivessem no auge.
Desisti de tentar fazer-te compreender que existia um mundo para além de ti, e que a tua vida só era possível porque todos os outros tinham existido, ou existiam ainda; até mesmo as flores que não sabias possuírem um canto próprio.
Então, despedi-me com a mesma sensação com que havia chegado: âncora largada algures em águas profundas, a tua alma era estagnação e desencanto, que acabaria por te devastar a ti, enquanto corpo. Nada que não se passasse com comuns mortais, teus semelhantes, tão cúmplices de ti por isso.
(Inês Alves, 17 anos, estudante, Moita)

(Autor desconhecido)
Sou poeta desvairado
Irascível
Insano
Mal amado
Sou a maçã acre
Do pecado
A serpente
Do engano
(Luís Miguel- VERTENTES)
Miguel: um beijo grande para ti e um agradecimento especial por esta partilha de poesia. Imprimes um cunho de beleza muito grande ao que escreves. Com este teu poema estou, apenas, a fazer o arranque da divulgação. O ainda melhor está para vir...

A história:
Um homem e duas mulheres, que partilham um segredo inconfessável. Uma história de sedução e mentira em que todos ficarão a perder. É a história de duas mulheres : uma é casada, burguesa; a outra trabalha numa casa de alterne. Catherine paga a Marlène para dormir com o marido dela que a engana. E ela quer saber todos os detalhes. Catherine transforma Marlène em Nathalie, aquela que mente. Esse é o segredo delas, a sua história.
Realização:
ANNE FONTAINE
Argumento:
ANNE FONTAINE & JASCQUES FIESCHI
Com a colaboração de:
FRANÇOIS-OLIVIER ROUSSEAU
Baseado numa história de:
PHILIPPE BLASBAND
Uma co-produção:
LES FILMS ALAIN SARDE - FRANCE 2 CINÉMA - D.D. PRODUCTIONS - VERTIGO FILMS ESPANHA
Com o apoio de:
CANAL + E SOFICA STUDIO IMAGES 9
FRANÇA/ESPANHA | 2003 | 105' | COR | DOLBY DIGITAL
Vou ver! Apetece-me... Estou curiosa relativamente à abordagem feita do tema. Questão interessante aquela sobre a qual o filme versa. Sim, vou ver!
(Nota: Resumo da história e ficha técnica: Atalanta Filmes)
Com este post inicio a apresentação de textos concorrentes ao DN Jovem e por si divulgados pelo reconhecimento especial conseguido, concretizando, desta forma, o que há dias (08/09) foi anunciado.
Desejo que esta iniciativa vos agrade e que os trabalhos aqui editados sejam um ponto de partida não só para reflexões como também para possíveis criações.
Mas... vamos ao texto:
Eu sou um poço. Um poço negro. E, daqui a alguns dias, quando alguém içar um balde de dentro de mim, activando o mecanismo que faz passar uma corda por esta roldana, hei-de secar por completo, até a última partícula líquida se evaporar no meu interior.
A derradeira gota de água. Parada. Morta. Como eu. Daqui, desta janela, divisa-se um outro poço, parecido comigo, ao qual as pessoas recorrem diariamente para se abastecerem de água.
Ao contrário dos habitantes da cidade onde nasci, aqui, no campo, as pessoas ignoram a funcionalidade das torneiras. Há mesmo quem jure a pés juntos nunca ter sentido necessidade de instalar tal engenhoca na sua morada.
Por vezes, torna-se bizarro assistir à procissão de aldeãos que aqui vêm buscar baldes e baldes de água, tanto para ser utilizada na cozinha como na sua higiene diária. O mais estranho nisto tudo, penso, é o facto de todos eles ignorarem a minha existência, contentando-se em retirar água de dentro do poço que dista apenas alguns metros da minha casa. Há quem me mire de soslaio, por entre os caixilhos da janela, onde passo a maior parte do tempo. Parado. Morto. Como um poço.
Mas, até há algum tempo atrás, jamais alguém se dignara a requerer os meus préstimos, ou seja, nenhum dos moradores que aqui acorrem para encher selhas e vasilhas com água alguma vez se lembrara de desviar a tábua que me sela a boca e se servir da complexidade de canais que, antigamente, afluíam nas minhas entranhas. Até surgires tu, tão negra e profunda quanto eu, apta a esvaziar o conteúdo da minha solidão de pedra. Agora, porém, mais não comporto do que um mero vazio circular, ladeado por mosaicos de tijolos, tingidos de musgo e verdete, sobrepostos uns aos outros, formando um poço sem fundo. Profundo. Negro. Como eu.
(Miguel Marques, 25 anos, Psicólogo, Lisboa)

Já trouxe aqui várias compilações buddha-bar, não já? Pois, de facto, é verdade. Mas não resisti repetir a "façanha" agora com a primeira de todas, com trabalhos compilados por Claude Challe. Mas... trabalhos (músicas e canções) de quem? Por exemplo de Craig Armstrong, Deepak Ram, Zohar, Aria, Tulku, Etti Ankry, Malik Adouane. Mas há mais, muitos mais.
As sonoridades proporcionadas permitem viajar, esquecer o tempo e o espaço de agora e ir por ai... ir espiritualmente por ai...
Na brochura inerente à compilação o espírito que lhe dá vida é reforçado através dos seguintes pensamentos:
"Love in the past is only a memory. Love in the future is only fantasy. It is only here and now that we can truly love."
"The heart is like a garden: it can grow compassion, fear, resentment or love. What seeds will you plant there?"
"There are no holy places, and no holy people, only holy moments, only moments of wisdom."
"Generosity procures joy, honesty procures peace. The more fully we give our energy, the more it returns to us."
"If you take care of each instant, you will take care of all time. There is only one time when it is essential to aweken. That time is now."
E então o que acham? Tal como relativamente às outras compilações aqui trazidas: recomendo. Recomendo, mesmo! Dois excelentes CD's...

Sendo que no dia de hoje Manoel de Oliveira vai novamente subir ao Palazzo del Cinema no Lido, para receber mais um prémio do Festival de Veneza, deixo-vos com a data da passagem de filmes da sua responsabilidade (ao nível da realização) a verificar-se no cinema King (Lisboa), até ao próximo dia 15:
SEXTA-FEIRA, 10
Francisca, 1981
15h00; 18h15; 21h30
SÁBADO, 11
Non ou a vã glória de mandar, 1990
14h00; 16h30; 19h00; 21h30
DOMINGO, 12
Vale Abraão, 1993
14h00; 17h50; 21h40
SEGUNDA, 13
Vou para casa, 2001
14h00; 16h30; 19h00; 21h30
TERÇA, 14
A carta, 1999
14h00; 16h30; 19h00; 21h30
QUARTA, 15
Palavra e utopia, 2000
14h00; 16h30; 19h00; 21h30
Quanto ao preço dos bilhetes: 3,80 €

(Fotografia de Bruno Espadana)
Cultivo o ódio à acção como uma flor de estufa. Gabo-me para comigo da minha dissidência de vida.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

(Fotografia de José Marafona)
A areia escorre-me por entre os dedos. Caminho pelo crepúsculo, em direcção ao horizonte.
Cada grão de areia está habitado pelo espírito do deserto. Cada poro da minha pele bebe a fria luminosidade das estrelas e o arrepio da noite.
Entre o corpo que se degrada e a morte- a grande morte, a última- deve haver, ou começar, outra coisa. Um lugar qualquer onde possa viver e morrer sem dor. Um lugar feliz.
Pensava eu que a felicidade deveria estar escondida naqueles momentos de perturbação em que me descobria no teu olhar. Enganei-me, passei a vida a enganar-me.
É tarde. Apago-me, vagarosamente.
Deus talvez esteja no fundo do mar, na claridade das águas.
Dentro de mim sinto a melancolia da areia lavada pelo seu movimento invisível, eterno.
(Al Berto- O ANJO MUDO)

(Balzac)
A acusação de imoralidade, que nunca faltou ao escritor corajoso, é aliás a última que resta a fazer quando não se tem mais nada a dizer a um poeta. Se fordes verdadeiro em vossas pinturas; se, à força de trabalhos diurnos e nocturnos, conseguirdes escrever a língua mais difícil do mundo, atiram-se-vos a palavra imoral ao rosto. Sócrates foi imoral, Jesus Cristo foi imoral; ambos foram perseguidos em nome das sociedades que derrubavam ou reformavam. Quando se quer matar alguém, acusam-no de imoralidade.
(Honoré de Balzac- PREFÁCIO À COMÉDIA HUMANA)

(Anais Nin)
Quais são os escritores que nos enriquecem? Penso que isso é diferente para todos. Penso que lemos muito subjectivamente. Lemos aquilo de que precisamos. Há quase uma força obscura que nos guia para determinado livro numa determinada altura; depois criamos problemas quando tentamos racionalizar isso e dizemos que este escritor é bom e aquele escritor é mau. Nunca fui capaz de dizer isso. Compreende, não posso dizer que Simone de Beauvoir seja má escritora, mas posso dizer que não me enriquece. O que é uma afirmação totalmente diferente. E penso que isso varia muito. Elaborei uma lista de escritoras e dos seus livros que me enriqueceram. Mas não é uma selecção literária. É uma selecção puramente subjectiva e a sua podia ser totalmente diferente.
Perguntam-me muitas vezes o que penso acerca de Simone de Beauvoir, o que penso acerca de The Golden Notebook, e é-me sempre difícil responder. Não os considero livros enriquecedores, porque me repetem incessantemente como as coisas estão, mas nunca me mostram como posso mudá-las. Logo, quando Simone de Beauvoir escreve um livro acerca do envelhecimento, ela está a curvar-se à idade cronológica e a dizer que em determinada altura ficamos velhos. Mas nós às vezes ficamos velhos aos vinte anos. A idade é outra coisa que temos de transcender e de encarar com outra atitude. Não é cronológica. E penso o mesmo em relação à descrição de coisas tal como elas são, sem uma abertura que nos diga para onde podemos ir a partir dali ou como podemos transcendê-las, que encontro naqueles que chamo os escritores enriquecedores. É por isso que, quando não estou apaixonada por escritores, digo sempre que posso respeitar as suas ideias, mas que não me dão o sentimento que me empurra para a vida.
(Anais Nin- FALA A MULHER)

(Henry Miller)
Ah, a palavra «moral»! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confusões que este termo engendrou abarcam quase toda a história das perseguições movidas pelo homem ao seu semelhante. Para além do facto de não existir apenas uma moral, mas muitas, é evidente que em todos os países, seja qual for a moral dominante, há uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo é permitido, tudo é perdoado. Ou seja, tudo o que de abominável e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode expiatório, «não têm moral».
Pensar-se-á que, se realmente glorificássemos a vida e não a morte, se déssemos valor à criação e não à destruição, se acreditássemos na fecundidade e não na impotência, a tarefa suprema em que nos empenharíamos seria a da eliminação da guerra. Pensar-se-á que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a indústria de material de guerra, material que hoje se tornou indescrivelmente diabólico. Digo «assassinos», porque em última análise esses homens não são outra coisa. A sangue-frio, anos antes de estalar qualquer conflito, preparam-se para obrigar os outros a obedecer-lhes; enumeram mentalmente todas as formas concebíveis de horror e destruição, e dedicam-se à tarefa calmamente, deliberadamente, implacavelmente, esperando apenas pelo momento certo para levarem à prática os seus planos.
(...) Confrontados com uma nova guerra - porque uma guerra engendra sempre outras - não poderemos esperar que estas «vítimas» se mostrem caridosas e magnânimas. Tendo sofrido contravontade, exigirão inevitavelmente que os seus filhos e filhas paguem o mesmo tributo... Portanto, o que eu digo é que, se esta escravidão de sacrifício e vingança não é imoral, se não é a forma mais absoluta da imoralidade, então esta palavra não tem sentido. Não estamos a ser destruídos e corrompidos pelos escritos pornográficos ou obscenos; estamos a ser destruídos e condenados, em todos os sentidos, pela guerra e pelo planeamento da guerra.
(Henry Miller- O MUNDO DO SEXO)

o que não me deixa cair
não é força física nem fé
mas há algo que me ampara
que me ajuda a resistir
e ser como as árvores
que morrem, sim, mas de pé.
(Desenho e texto da autoria de TCA.)
Têm sido vários os jovens que ao longo dos anos têm respondido aos desafios lançados pelo "DN Jovem", na área da produção escrita. Isto vem ocorrendo desde 1983 em suporte de papel e desde 1996 via Internet. Alguns desses jovens são hoje escritores com livros publicados.
Tendo em conta o trabalho que tem sido desenvolvido a este nível, assim como os talentos revelados propus-me, como responsável deste blog, fazer a divulgação de alguns desses textos. Tal acontecerá já a partir deste fim-de-semana, pelo que para tal iniciativa solicito a vossa atenção e acompanhamento.
Penso que ao efectivar esta ideia estou a dar o meu contributo para um maior conhecimento de pessoas que decidiram avançar com criações e nelas se empenharam no sentido da sua entrega para concurso, estimulando simultaneamente outros que desejem fazê-lo, mas que por qualquer motivo ainda não tiveram "coragem".
Fiquem, pois atentos, ao que por ai vem!
Deixo-vos com mais dois filmes das aventuras de James Bond. O primeiro deles, "You only live twice" (1967) com a participação especial de Sean Connery, o seguinte, "Live and let die" (1973), onde temos o início das participações de Roger Moore, dando corpo ao agente secreto.
Assim:

"Quando as cápsulas espaciais norte-americana e russa desaparecem da órbita terrestre, o Agente 007 terá de prevenir uma guerra nuclear entre as duas superpotências. A sua emocionante missão leva-o ao Japão, onde ele enfrenta a terrível organização SPECTRE e o seu diabólico líder Ernst Stavro Blofeld."
Participações: Sean Connery, Donald Pleasence entre outros.
Opções especiais: Comentários audio com o realizador Lewis Gilbert, o elenco e a equipa técnica; Documentário "Inside you only live twice", entre outros.
Duração: c. 112'

Aqui James Bond vê-se envolvido "... num empolgante e energético confronto com um infame barão da droga, que está determinado a [eliminá-lo] e conquistar o mundo."
Participações: Roger More, Yaphet Kotto, Jane Seymour.
Opções especiais: Comentários audio com o realizador Guy Hamilton; Documentário "Inside Live and let die"; Nos bastidores com Roger More: lições de asa delta e funeral, entre outros.
Duração: c. 116'
Mais uma vez: caso vejam ou revejam, espero que gostem e se divirtam. A acção continua...

Ora bem... considerando a forma como o governo português se têm comportado relativamente ao epitetado "barco do aborto", o que fazer face aos anúncios supra-apresentados:
- fecha-se o jornal "Público" e processa-se o seu director, porque se está a instar à prática de um crime que, mesmo cometido fora do território nacional, é estimulado cá dentro?
ou
- ordena-se a ida do exército ou agentes da segurança (e aqui refiro-me à PSP e à GNR) para as fronteiras para impedir saídas com propósitos dentro da problemática em causa?
O que fazer?
Enfim, mais uma achegazita para denunciar o clima de hipocrisia em que vivemos.
Anúncios digitalizados buscados aqui.

(Fotografia de José Marafona)
as noites são frias neste mar. mesmo assim enfrento as areias molhadas e sob o céu negro caminho a afundar-me no desespero de encontrar o fogo confortável das tuas mãos. mãos que escrevem o meu nome em palavras que pões a arder contra o tempo. palavras ateadas pela saudade como se o coração fosse uma boca a soprar essas folhas desenhadas na negra madrugada virada para o fim dos tempos. imaginas papeis que voam com o meu rosto impresso. imaginas braços de árvores frescas de sombras que te agarram numa carícia humana. imaginas a minha voz a acordar os teus pensamentos quando atravessas essas ruas longas e vazias. tens medo da minha distância. tenho medo do teu silêncio. se as palavras morressem nos teus lábios, perderia o sentido que me guiaria até esses lugares de solidão onde uma palavra está sempre a ser escrita. diz tu essa palavra.
(Texto editado, originalmente, em Memória Futura.)

está escuro. nos teus dedos apagas o corpo. não procuro nenhum amor quando a noite. também as palavras o vazio e sim o silêncio nos lábios fechados da luz colada à pele. estou a guardar poemas para uma tarde arder na tua boca. agora acordas a manhã quando uma palavra toca no peito. quase sinto a tristeza agonizar dentro de ti. não sei lutar não por amor. adormeces na vida escura.
(Texto editado, originalmente, em Memória Futura.)

(Fotografia de Christian Coigny)
Há dias em que a humanidade complica com o meu sistema existencial. Não há simpatia que reponha os meus níveis normais de tolerância. Nada parece funcionar de acordo com as leis da vida. Sinto as regras do comportamento humano adulteradas. Nem um dia de sol ilumina qualquer esperança de amar alguém. Nem uma flor que eu arranque da terra num fim de tarde triste tem a habilidade de desenhar um sorriso de agradecimento por estar vivo. Sinto-me num excesso de existir que me impossibilita de sentir que os outros também existem.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
Eis-me retomando a exposição de pintura naif iniciada há já algum tempo neste blog. Para concluir esta mostra, uma pintora portuguesa. Trago, pois aqui, Elza Filipa de Sousa Lobato Monteiro. Nascida em Faro no ano de 1947, deslocou-se para Lisboa onde frequentou aulas de desenho na Sociedade Nacional de Belas Artes, frequentando também, no Palácio dos Coruchéus, um Curso de História de Arte Moderna. Vocacionada para a arte, desde jovem, executou vários trabalhos de decoração e pintura, utilizando diversos materiais, designadamente pedra, madeira, mosaico e azulejo. Descobre e ganha gosto pela pintura naif na Áustria, nos finais dos anos 70, sendo que a partir de então inicia a pintura sobre tela, participando pela primeira vez (1986), numa exposição de pintura, desenho e escultura no Palácio Foz - Lisboa e em 1990 realiza a sua primeira exposição individual no Casino de Vilamoura (Algarve).
Relativamente ao trabalho da autora deixo, para começar, as seguintes pinturas:
Pintura 1: Na loja do Mestre André

Pintura 2: Olha as malas

Pintura 3: Quanto pesa o gato da drogaria?

Pintura 4: É de se lhe tirar um chapéu

Pintura 5: Na montra da relojoaria

Pintura 6: Passando pelas brasas

Pintura 7: Há ratos na sacristia

Pintura 8: Preguiça

Pintura 9: O milagre sonhado por mim

Pintura 10: Banquete ao lusco fusco

Pintura 11: Nas malhas da rede

Espero que tenham gostado deste 1º conjunto de pinturas. As restantes estão para muito breve. Aguardem!

(Fotografia de José Marafona)
O tempo cobre-se de musgo.
O amigo morto ocupa cada vez menos espaço na cela do meu corpo. Desaparece na verocidade que a terra tem ao apagar qualquer vestígio de vida ou de morte.
Ele tem dificuldade em conservar a sua morte intacta. Sublima-se, a pouco e pouco, dilui-se no sangue inquieto- é o início do esquecimento; esse imenso limbo semi-escuro onde flutuarão rostos e gestos, corpos e palavras- e nada terá sentido.
Mas reconhecerei as ruínas daquilo que amei, daquilo que nomeei para entender o mundo. A vida já ali não estará, e eu lembro-me: nenhum recanto dos gestos me era desconhecido. Nenhuma sedução me era estranha.
A noite foi-se tornando cada vez mais pesada sobre os ombros.
As roupas deixaram de estilhaçar debaixo das carícias.
Os olhares foram-se fixando, horas a fio, por entre os papéis amachucados, atirados ao chão. A máquina de escrever parou.
Os livros encheram-se de poeira, fecharam-se para sempre com a nossa história dentro deles. Não voltaram a abrir-se.
(Al Berto- O ANJO MUDO)

(Fotografia de José Marafona)
Invejo a paz dos meus sepultados
A placidez a que se entregaram
Quando para o fecho caminharam
E daí se tornaram ultimados
Agora são destroços enterrados
Que os necrófagos já devoraram,
Onde ciprestes se enraizaram,
As velhotas tornaram visitados.
Ao contrário da necrofobia,
Eu tenho horror desta existência
A maldição de quem não sabe ser
Vivendo amar o que não podia,
A fantasiar minha desistência
Sem audácia para fenecer.
(Soneto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Autor desconhecido)
De repente tudo verde... verde relva de quando brincava no jardim da avó com os primos. Os risos frescos na brincadeira de Verão. O jogo da bola no recreio da manhã, refrescado com o leite achocolatado escolar. As idas à praia em dias de sol gastos a apanhar caranguejos nas rochas. E a areia... quente e fina a escorrer nos dedos pequenos de criança. Andar de bicicleta com os amigos. Trepar às arvores. Os aniversários passados em família com todos à volta do bolo a cantar felizes. Os Natais repletos de felicidade e presentes em redor da árvore de Natal. As correrias dos miudos mais novos por toda a casa tombando jarras. Toda a gente a rir e a celebrar naquele ambiente cheio de brilho. A ida para o liceu. O primeiro beijo. A primeira carta de amor. O primeiro charro. A primeira cerveja. A primeira bebedeira. A primeira queca. O primeiro amor. As baldas às aulas com os bons amigos. As tardes gastas a aperfeiçoar a carambola no bilhar com uma superbock gelada. O sabor da superbock gelada numa tarde quente de Verão. Os pêssegos gelados roubados do frigorifico da minha avó. O sabor dos pêssegos gelados trincados avidamente no meio de umas risadas. O sabor dos pêssegos. O sabor do sangue a escorrer pela boca entornando golfadas na camisa rasgada.
O sangue que me sai pela boca por entre os dentes partidos e a boca cheia de pequenos pedaços de vidro estilhaçado. Acordo e volto a mim...
O torso rasgado pela cintura, os intestinos fora deslizando para longe de mim... as pernas algures nos destroços retorcidos do carro. Um pedaço de metal fino entrando no meu olho direito que tento arrancar com a mão ensanguentada.
O barulho ensurdecedor dos pneus a chiar antes do choque frontal com o outro carro.
O barulho ensurdecedor dos carros a baterem, o metal a ceder e a ficar numa amalgama de ferros fumegantes e disformes. Os sons dos gemidos e lamúrias vindo do que resta do outro carro. O ruido dos bombeiros a tentarem retirar-me do carro. Tarde demais... eu já não estou no carro...
Os pêssegos... os pêssegos... o Verão... os pêssegos...
(Texto da autoria de "D. Quixote". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

É verdade! Tem estado a decorrer desde dia 02, com continuação até dia 08 deste mês no cinema S. Jorge, em Lisboa, o ciclo de cinema "Terror e Fantástico". Deixo-vos aqui a programação a partir do dia de hoje:
Sábado, 04
"O Exorcista - Director''s Cut", de William Friedkin
S1 - 15h30, 18h30, 21h30
"Freddy Contra Jason", de Ronny Yu
S2 - 15h15, 18h15, 21h15
"A Cabana do Medo", de Eli Roth
S3 - 15h, 18h, 21h
Domingo, 05
"Hellboy", de Guillermo del Toro
S1 - 15h30, 18h30, 21h30
"O Aviso", de Gore Verbinski
S2 - 15h15, 18h15, 21h15
"Terror na Escuridão", de Jonathan Liebesman
S3 - 15h, 18h, 21h
Segunda, 06
"Psico", de Gus Van Sant
Sala 1 - 15h30, 18h30, 21h30
"Willard - Mansão do Terror", de Glen Morgan
S2 - 15h15, 18h15, 21h15
"O Homem Transparente", de Paul Verhoeven
S3 - 15h, 18h, 21h
Terça, 07
"Massacre no Texas", de Marcus Nispel
S1 - 15h30, 18h30, 21h30
"Jeepers Creepers", de Victor Salva
S2 - 15h15, 18h15, 21h15
"Jeepers Creepers 2", de Victor Salva
S3 - 15h, 18h, 21h
Quarta, 08
"Exército das Trevas", de Sam Raimi
S1 - 15h30, 18h30, 21h30
"Nas Costas do Diabo", de Guillermo del Toro
S2 - 15h15, 18h15, 21h15
"O Renascer dos Mortos", de Zack Snyder
S3 - 15h, 18h, 21h
Vão até lá... fiquem agarrados à cadeira e cheios de meeeeedoooooo.

Não tendo sido, até ao presente, este blog particularmente voltado para a abordagem (directa) de determinadas realidades, tal pode vir a alterar-se, gradualmente, por necessidades de manifestação sentidas pela sua responsável. Há dias trouxe aqui a questão do aborto, através do registo de ideias e imagens em torno da vinda a Portugal do barco holandês "Women on Waves". Hoje, trago uma outra realidade que se tem desenrolado este Verão no nosso país e que desembocará na 1ª semana de Outubro com a eleição/confirmação de um novo Secretário-Geral para o Partido Socialista (PS). Como militante do PS que sou, não poderia deixar de tomar uma posição. Como cidadã, não posso deixar de me preocupar com o que se passa na cena política nacional, sendo que as eleições no PS são muitíssimo importantes neste contexto, inclusive pela forma como têm decorrido e pelo significado que isso tem junto de milhares de militantes, que vão ser chamados a pronunciar-se. Cada militante um voto. Cada voto, o resultado da consciência (íntima) de cada um. Este dar voz aos militantes, é um exercício de democracia inequívoco. O "povo socialista", vai poder pronunciar-se. Nem só de notáveis ou influentes nas estruturas vive(rá) o PS. Agora, o alargamento vai ser total, podendo dai advir resultados absolutamente inesperados.
Pessoalmente tenho um candidato à liderança. O meu candidato é Manuel Alegre. Identifico-me, em pleno, com as suas ideias e propostas. Entendo correctas as suas críticas. Partilho as suas chamadas de atenção. Junto-me, pois, a todos aqueles, que têm dado o seu contributo para a evolução desta campanha e que ajudaram a elaborar a Moção que vai ser apresentada ao Congresso e que já está disponível para todos os interessados.
No sentido de complementar esta minha posição, deixo um artigo escrito por Helena Roseta no jornal "Público", a 31 de Agosto, explicitamente revelador do que tem sido, é e significará, a candidatura de Manuel Alegre. Ei-lo:
"O que mudou no PS"- Helena Roseta faz balanço da campanha
1. A eleição de um novo Secretário-geral do PS parecia estar decidida quando José Sócrates confirmou a sua candidatura. Estava tudo no seu lugar. Um candidato da continuidade guterrista, escolhido por meia dúzia de pessoas à mesa de um almoço na Curia. Sócrates estava destinado a repor ordem no PS, depois do intervalo de Ferro Rodrigues, perseguido como nenhum outro político em Portugal, mal amado pelo partido, etiquetado de "líder a prazo" apesar dos sucessivos êxitos eleitorais. O candidato da oposição interna, João Soares, também era previsível. Já se tinha perfilado durante o tempo de Ferro Rodrigues sem suscitar entusiasmo. O calendário da sucessão estava definido: em finais de Agosto estaria tudo decidido, no recato interno, longe das polémicas da comunicação social. O voto directo dos militantes pouco mais seria que uma ratificação. Tudo se passaria durante as férias e com as secções do partido encerradas.
2. A candidatura de Manuel Alegre alterou os dados do problema. Começou-se por convencer a Comissão Nacional do PS a alargar os prazos processuais para garantir um mínimo de participação. Depois Manuel Alegre apresentou-se como uma candidatura de mudança, no PS e no país. Propôs-se combater a visão aparelhística do partido, insistiu nos debates abertos à comunicação social. Sócrates reagiu mal, mas teve que ceder. Alegre foi o primeiro a apresentar a sua moção. Nela avançou, entre muitas outras propostas para modernizar Portugal, duas ideias-força: uma nova visão do papel do Estado e uma nova maioria política para governar.
3. Ao Estado mínimo que a direita defende e aplica, contrapôs Manuel Alegre o Estado estratega, com um papel relevante na definição de objectivos nacionais para o crescimento económico. Crescimento que é inseparável da inovação, o que implica que o Estado estratega seja também o Estado da inovação, capaz de garantir um processo tranversal de abertura à inovação e ao risco em toda a sociedade, o que é muito mais vasto do que o plano tecnológico de que falou Sócrates. As novas missões do Estado na economia vão muito além do simples papel regulador dos mercados, a que na década de 90 se reduziu o discurso socialista na Europa e em Portugal.
4. Manuel Alegre também falou com toda a clareza contra o "centrão". É sabido que o centro sociológico vai atrás das dinâmicas de vitória. Face à crise económica e social, o centro sociológico em Portugal está a "pedir" uma alternativa à governação da direita, como se viu nas eleições europeias. Não se combate a direita com mais do mesmo ou com uma simples alternância de poder. A estabilidade, para Manuel Alegre, pode construir-se à esquerda e essa é a missão histórica do PS nos próximos anos.
5. A recusa do centrão, o cansaço das pessoas perante a "alternância sem alternativa" e a frustração com a deriva tacticista da fase final dos governos minoritários de Guterres criaram condições para que as posições de Alegre desencadeassem uma nova esperança, não só no PS mas no eleitorado de esquerda. Tristes ou mesmo zangados com a decisão de Sampaio de reconduzir a direita no poder sem eleições, os eleitores da esquerda ouviram pela primeira vez desde o 25 de Abril um potencial líder do PS afirmar aquilo que nunca foi experimentado em 30 anos: a possibilidade de construir uma alternativa em que toda a esquerda se reconheça e que por isso mesmo possa mobilizar a maioria social e política do país.
6. Foi por perceber isto que Sócrates, para quem a ideia do diálogo à esquerda era tabu, acabou por mudar de ideias e incorporar esse diálogo na sua moção, embora de forma sub-reptícia. A candidatura de Alegre conseguiu assim mudar a agenda do PS. E ao mudar a agenda do partido, criou condições para mudar o país.
7. Não se consegue mudar o país se não se mudarem os partidos que dominam o espaço da decisão política. Maus partidos fazem uma má democracia. E com má democracia não pode haver verdadeiro desenvolvimento económico, cultural e social. Por isso as propostas de Manuel Alegre para a reforma interna do PS são radicais. Lutar contra o aparelhismo, criar mecanismos de participação permanentes, aumentar a transparência interna, instituir a paridade de género a todos os níveis, pôr termo à acumulação de mandatos, obrigar os eleitos partidários a apresentar declarações de interesse, cortar com a cumplicidade ou mesmo promiscuidade entre comissões concelhias, autarquias e construção civil. São propostas que incomodam mas que estão a gerar uma onda de grande adesão junto de militantes e simpatizantes socialistas. Basta acompanhar as acções de Manuel Alegre no terreno para verificar isso. Salas cheias em todo o lado, entusiasmo e militância contrastam com a campanha morna do candidato "oficial".
8. Tudo isto faz prever que as eleições do PS possam trazer resultados surpreendentes. Maior participação, menor abstenção, podem alterar todos os cenários. Nenhuma vitória antecipada está garantida. A vitória a que Manuel Alegre se referia, ao dizer que a sua candidatura "já ganhou", é outra: já mudou a agenda e já fez renascer a esperança. Seja qual for o resultado do Congresso, Manuel Alegre já averbou um sucesso imprevisível há um mês atrás. Acabou com o tabu da impossibilidade de uma maioria de esquerda em Portugal. E isso pode vir a mudar tudo."
(Fotografia de Misha Gordin)
mentiras. mentiras embrulhadas em bytes encurralados de palavras desprezíveis. uma colher merdosa de hipocrisia junto com os sentimentos abafados de milhares. milhares de sonhos? não vejo nada a fazer pelas pessoas. deixem-se morrer, assim, com a boca atolada de omeletas mal passadas e sonhos pedrados e rasgados em cima de projectos arruinados. que futuro existe para a alma? o que resta da alma no interior desta lixeira humana? não vejo nada, além, onde a areia é ainda virgem no berço da água salgada. que fazer por essa visão, esse espaço ainda ausente? esperar?... esperar que eles venham, inundar o mar com os seus sórdidos dejectos sentimentais e os seus vómitos convencionais de uma cega justiça? esperar que atropelem o céu incontaminado com a sua urina carnal de corrupção humana? mentiras e mais mentiras. violam as asas que outrora possuíram e eu arrasto-me, só, deixando-me ficar.
hei-de morrer asfixiada nesta lixeira humana.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Fernando Pessoa)
Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso- em suma, é a nós mesmos- que amamos. Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois "amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma- de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Para ir com os amigos. Eu vou! De 24 de Setembro a 02 de Outubro lá estarei (com a malta) no S. Jorge.
Vejam mais aqui: http://www.indielisboa.com

E cá está mais uma compilação "buddha-bar"! Desta vez, a VI. A última de todas. Mais 2 CD's com escolhas de Ravin. Entre os compilados: Dolphin Boy, Deew, Cellar 55, Slow Train, Loopless, Sarah Vaughan, Afterlife. Mas há mais... muito mais...
Tal como vos disse relativamente às compilações anteriores: ouçam! Ouçam e evadam-se com momentos de tranquilidade, de bem estar e de alegria.
Estreou! Sem dúvida, a não perder. A Atalanta Filmes fez chegar até nós "O Tempo do Lobo" de Michael Haneke com representação, entre outras, de Isabelle Huppert. Digo-vos claramente: Haneke e Huppert, para mim, são suficientes. Sigo-os na certa. Ele, é um realizador que eu tenho muito em conta depois de ter visto "A pianista". Ela, que deu vida a essa mesma pianista é, tão só, a actriz. O seu brilhantismo é, de acordo com a minha opinião, imenso e evidente.
Assim sendo, um filme a ter em conta.

Síntese:
"Quando Ana (Huppert) e a sua família chegam à sua terra natal descobrem que esta está ocupada por estranhos. Esta é só a primeira de uma sé