agosto 31, 2004

PROTESTO CONTRA A PROIBIÇÃO DA ENTRADA EM PORTUGAL DO BARCO WOMAN ON WAVES

"Os cidadãos e as cidadãs abaixo-assinados, vêm por este meio apresentar a sua total discordância e perplexidade perante a decisão do governo de proibir a entrada em Portugal do barco da Women on Waves, que pretendia atracar no porto da Figueira da Foz, no âmbito de um projecto visando a defesa da saúde sexual e reprodutiva das mulheres, do direito à escolha responsável e da defesa da descriminalização do aborto."

Todos aqueles que estiverem a favor desta ideia cliquem no link e assinem a petição.

http://www.petitiononline.com/1959c11/petition.html

Chega disto:

Publicado por void em 07:30 AM | Comentários (2) | TrackBack

VIVE, DIZES, NO PRESENTE


(Fotografia de José Marafona)

Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao presente e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

(Alberto Caeiro- POESIA)

Publicado por void em 06:41 AM | Comentários (0) | TrackBack

QUE TUDO SE APAGUE

Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela.
Sabe, apenas, que por instantes uma incandescência terrível cresce dentro de si, ergue-se, nomeia as coisas e o mundo, apaga sombras, revela os ossos muito antigos das palavras... de resto, mais nada.
É no escuro das casas que se debruça para o papel e escreve, como se fosse o último homem a fazê-lo.
O deserto alastra em seu redor. Está só, tudo esqueceu.
A pouco e pouco o seu olhar reinventa um rosto, devassa um coração- a noite põe-se a pulsar, sangra- e a precária escrita ensina-lhe como alcançar o definitivo silêncio.

Apenas deseja que no momento em que parar o coração- e num movimento derradeiro se confundir ao estrume da terra- tudo se apague: manuscritos, livros impressos, fotografias, cartas, bilhete de identidade, registo de nascimento, etc.
E da sua passagem nada reste, absolutamente nada. Nem mesmo a impressão digital sobre o rosto que o acaso da paixão o fez tocar.

(Al Berto- O ANJO MUDO. Fotografia de Margarida)

Publicado por void em 06:40 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 30, 2004

IS THIS A WAR?

Fotografia constante no site "Women on Waves" com a legenda- Is This a War?


(29-08-04, 17:15 hours: The Portuguese Navy circles the Women on Waves ship and orders the captain to stop approaching Portugal. Photo: Nadya Peek for Women on Waves.)

E então, estamos em guerra?

Publicado por void em 08:35 PM | Comentários (4) | TrackBack

PORTUGAL VENCE OLIMPÍADAS DA HIPOCRISIA

Tenho acompanhado o que se tem passado em torno do barco holandês "Women on Waves". Evidentemente que, pela minha posição pessoal face à questão do aborto, não me sinto satisfeita com as posições tomadas pelo governo português. Lamento-as profundamente. Espero que tão rápido quanto possível se retome o assunto e sejam feitas alterações à legislação: pela urgente razão de dignidade das mulheres e por razões de saúde pública. Por outro lado, Portugal tem que sair da medievalidade que o caracteriza nesta matéria. É inconcebível tanta hipocrisia!

Li no Causa Nossa o texto que edito, seguidamente, da autoria de Ana Gomes (postado a 29/08). Pela admiração que tenho pela pessoa em questão e pela concordância absoluta com o que é escrito, apresento-o aqui. Aconselho-vos a leitura.
Ei-lo:

"Navios estrangeiros a violar a soberania nacional para fazer campanha pela legalização do aborto?! Era o que faltava no reino dos heróis do mar. Longe vãos os tempos em que bastou o ditador Suharto pestanejar para o «Lusitania» dar meia volta e zarpar! Aqui temos no comando Santana e Portas, lusitanos de barba rija, devotos, intrépidos a proibir meia dúzia de amazonas de terras baixas e nórdicas de vir, usando a liberdade de circulação da UE, ameaçar a paz social distribuindo panfletos subversivos e pilulazinhas abortivas..
Nem a Irlanda, nem a Polónia tiveram coragem de proibir o navio holandês «Women on Waves» de entrar nos seus portos. Mas aqui puseram-se de prevenção capitanias, a Marinha e a Força Aérea, tocou-se a rebate para beatas e fundamentalistas da direita, e sobretudo mobilizaram-se os escribas para fazerem constar que está pronta a partir em direcção à esquadra invasora uma armada de fragatas, corvetas, patrulhões, futuros submarinos, helicópteros, homens-rãs, todos ungidos pela Virgem do «Prestige», de canhões oleados e fervor patriótico em riste. Comandados pelo destemido Ministro da Defesa e dos Assuntos do Mar, Paulo Portas. Que, modesto - como convém aos heróis - se dispensa de aparecer. Fez avançar um jovem Secretário de Estado para explicar que a proibição da entrada da esquadra invasora vinha das «competentes autoridades portuárias e marítimas» (que, como a Virgem, parece também engravidarem de decisões destas sem ser fecundadas pelo Governo). Entre perdigotos, o SE frisou que não está em causa a moral, mas a legalidade e a saúde pública - as holandesas vinham para aí achincalhar-nos a Constituição e até, talvez, o PGR, além de nos pregarem vírus terríveis para nos dizimar a raça.
Claro que se a moral pública estivesse em causa, o heróico Ministro Portas não hesitaria em dar corpo e cara, na dianteira contra a esquadra invasora. Dizem que até já fez o reconhecimento do Parque Eduardo VII, jardins de Belém e outros pontos do país suspeitos de serem instrumentais para actos de pedofilia, decerto antecipando ter de mandar tropas, aviões e submarinos para defender a moral pública se o julgamento do caso Casa Pia confirmar os mais alarmantes rumores.
Mas, neste caso, estão apenas em causa a legalidade e a saúde pública: uma lei que nunca foi cumprida nem respeitada, mas que é essencial para defender a saúde da indústria do aborto clandestino e para dar trabalho a agentes da PJ e do MP, que em vez de perderem tempo atrás de traficantes de droga, criminosos vários e empresários que fogem ao fisco e defraudam o Estado, se esfalfam a perseguir cidadãs que não podem ir abortar a Badajoz ou Vigo ou pagar os preços das respeitáveis clínicas de aborto «espontâneo» que para aí pululam.
Com estas diferenciações semânticas, Santana e Portas pretendem mostrar que fazem o que podem, mas mais não podem: a culpa não é deles, mas sim dos malandros desses agentes do Estado, que deviam fazer funcionar essas «autoridades competentes», que deveriam intervir. Portas e Santana agem assim apenas para consumo (mínimo) da sua base de apoio na orla da Opus Dei. Para a da Copus Night, a música é outra - e é ver o CDS até já a admitir mudar a lei!
Na realidade, temos de agradecer a Santana e Portas: - ninguém daria muito pelo «Women on Waves», em Portugal e lá fora, se o Governo não reagisse assim (Durão Barroso nunca cairia em deixar Portas à solta nesta, mesmo que não tivesse Bruxelas no horizonte). Ao «barco do aborto» iriam sobretudo mulheres sem medo de dar a cara na luta pela legalização da IGV. As outras, as que verdadeiramente necessitam, sentir-se-iam intimidadas. Mas, agora, temos muito pano para mangas, para prolongar e aprofundar o debate político na sociedade portuguesa, e até para meter Bruxelas ao barulho.
Cá dentro, cada dia ficará mais claro que os Drs. Portas e Santana se estão nas tintas para a saúde pública, para a legalidade e para os «princípios de defesa da vida» que apregoam defender - a menos que posicionem desde já batalhões de policias e ginecologistas a investigar toda e qualquer mulher em idade fértil que saia as fronteiras nacionais e que ordenem às alfândegas que apreendam todos os frascos de pílulas que encontrem na bagagem de quem venha de fora. Internacionalmente, graças a Paulo Portas, campeão da duplicidade, temos Portugal no pódio das olimpíadas da hipocrisia e da violação dos direitos das mulheres.

PS - A propósito, o Presidente Sampaio foi ouvido e concordou com a proibição, ou já não é preciso passar-lhe cartão, nem sequer adoçar-lhe a pílula?

Ana Gomes"

Publicado por void em 02:46 PM | Comentários (2) | TrackBack

WORDSONG

Para o Luís e para o Manel, os amigos de sempre...

Um excelente CD revelador de um trabalho muitíssimo bem sucedido: a adaptação para canções de vários poemas de Al Berto (1948-1997), ou seja, a exploração sonora da Poesia.
"Wordsong" é um projecto que resulta do esforço de três músicos: Pedro d'Orey, Alexandre Cortez e Nuno Grácio. Conjuntamente com o CD, um livro com os poemas cantados, assim como a Ficha Técnica de cada uma das interpretações. Compondo este livro, fotografias do poeta em várias fases da sua vida. Um conjunto (CD+ livro) muito bem conseguido.
Quanto aos poemas cantados/reinterpretados:

1- A Casa
2- Cintilações
3- Les Mots
4- Telegrama.Stop
5- Ouve-me
6- 14 de Janeiro
7- 5 Fotografias
8- Cais
9- Em Cio
10- Silêncio
11- A Cabeça de Vidro
12- Roma
13- Horto de Incêndio
14- Amor, Amar-te
15- Hotel de la Gare
16- Não Cantes

Projecto da Editora 101 Noites, a louvar. Procurem ouvir o CD, se ainda não o fizeram. É muito bom.

Publicado por void em 06:34 AM | Comentários (0) | TrackBack

HENRI CARTIER-BRESSON: EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA (7)

Concluo, hoje, a exposição de fotografias de Henri Cartier-Bresson. Trago-vos, desta vez, trabalhos constantes em dois livros. Relativamente às realidades fotografadas, aquelas que já estamos habituados no fotógrafo: o quotidiano, as pessoas, as situações... os momentos ou instantes decisivos.
Quanto aos livros:

- Paris à vue d'oeil (Editions du Seuil, Paris, 1994):

Fotografia 1:


(Paris, 1951)

Fotografia 2:


(Paris, 1953)

Fotografia 3:


(Ile de France, 1955)

Fotografia 4:


(Paris, O "Jardin des Plantes", 1959)

Fotografia 5:


(Paris, 1969)

Fotografia 6:


(Paris, Campos Elísios, 14 de Julho, 1969)


- The decisive moment (Editions Verve, Paris, 1952):

Fotografia 1:


(Espanha, Andaluzia, Sevilha, 1933)

Fotografia 2:


(Itália, Latium, Tivoli, perto de Roma, 1933)

Fotografia 3:


(México, Cidade do México, Vendedoras de jornais, 1934)

Fotografia 4:


(Grã-Bretanha, Inglaterra, Hyde Park, 1937)

Fotografia 5:


(EUA, Illinois, Chicago, 1947)

Fotografia 6:


(Paquistão, Duas mulheres num bazar, 1948)


Agradeço-vos todo o acompanhamento que ao longo deste mês fizeram desta exposição. O trabalho de Cartier-Bresson mereço-o!

Publicado por void em 06:33 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 29, 2004

O GRANDE DITADOR

Caso ainda não tenham visto e estejam interessados, encontra-se em cartaz no Millenium Alvaláxia, em Lisboa: O GRANDE DITADOR, de Charles Chaplin (EUA, 1940, Preto e Branco, c. 123').

ARGUMENTO:

"Uma sátira burlesca de Charles Chaplin a Hitler e ao nacional-socialismo, apesar de Chaplin ter acabado por declarar que se, na altura da rodagem, tivesse ideia da verdadeira extensão das atrocidades nazis "nunca poderia ter gozado com tal insanidade homicida". O filme, rodado em segredo no final dos anos 30, estreou na América em 1940, em plena II Guerra Mundial.

A história tem como protagonista um soldado-barbeiro judeu que, no final de uma batalha, perde a memória e vai parar a um asilo. O barbeiro tem uma grande semelhança com o ditador Adenoid Hynkel que ganha poder e se prepara para invadir o país vizinho Osterlich. Para isso, tenta arranjar financiamento junto da comunidade judaica, mas esta recusa-se a ajudá-lo. Por essa razão, Hynkel reprime-os violentamente e o barbeiro vai parar a um campo de concentração. Uma das grandes obras de Charles Chaplin e a sua primeira com som, 13 anos após o fim do mudo, com a qual conquistou o prémio de melhor actor (que recusou) atribuído pelo Círculo de Críticos de Cinema de Nova Iorque. O filme foi ainda nomeado para cinco Óscares, entre os quais o de melhor filme."

(Informação disponibilizada em PUBLICO.PT)

Publicado por void em 01:16 PM | Comentários (4) | TrackBack

ESPAÇO: 1999

"Espaço: 1999" estreou em Portugal no ano de 1976. Foi a primeira grande série de Ficção Científica passada na televisão nacional. O êxito foi imenso, reflectindo-se isso nas notícias saídas nos jornais (ex: Capital, Diário de Lisboa e Diário de Notícias), para além, evidentemente, das saídas nas revistas. De Inglaterra vinha pois algo que agarrava os portugueses ao écrã.
Na altura em que estrearam os primeiros episódios (1ª Série- 24 episódios) tinha eu 5 anos. Recordo que assistia à série na televisão, em particular, a episódios já pertencentes ao segundo conjunto, onde passou a figurar uma personagem que me atraia particularmente: Maya! É verdade! O meu entusiasmo era grande, sobretudo quando ela se transformava em monstros enormes que combatiam os inimigos dos nossos heróis. Maya fascinava-me. Enfim, percebe-se... Engraçado, também: na altura, o ano de 1999 parecia-me imensamente longínquo. Parecia-me algo que nunca chegaria. Por outro lado, a tecnologia: era tudo incrivelmente sofisticado, muito avançado... e, no entanto, hoje, pelas evoluções havidas e usufruidas por mim (e por todos nós), tudo é tão mais relativo. É incrível como recordar certas coisas nos permite acentuar factos, sublinhar consciencializações e perceber em nós próprios imensas modificações. Acho isto fantástico e absolutamente fascinante.
Quanto às personagens, aqueles que viram a série, quem não se lembra de (e agora seguindo a ordem das fotos):


Comandante John Koenig (Martin Landau), Dra Helen Russell (Barbara Bain), Sandra Benes, Prof. Victor Bergman, Maya, Paul Morrow e Alan Carter? De facto, foram rostos que sempre me ficaram na memória, sendo que hoje, tantos anos depois ao rever a série, um sorriso não poderia deixar de manifestar-se no meu rosto. Tantas e tantas aventuras... problemas e obstáculos ultrapassados... contactos com outros seres... com outros planetas...

E assim é! Encontro-me realmente a rever todos os episódios da 1ª Série (para já), sendo que isso se tornou possível devido à recente edição, em DVD, de "Espaço: 1999" (1ª + 2ª Série). Mas de que tratam estes episódios? O que abordam? Porquê o nome da série? Registo só isto:
"No dia 13 de Setembro de 1999 os resíduos nucleares armazenados na Lua explodem. O astro sai da sua órbita e é projectado para o espaço. Os habitantes de Alfa (base lunar com 311 membros) têm que sobreviver, não podem subsistir na sua base".
E a partir daqui uma nova fase de vida para toda esta gente começa. Os vários episódios são, pois, esse período de tempo novo e revelador para cada um dos elementos.

São os seguintes os episódios da 1ª Série (distribuídos por 6 cd's):

1º- A separação; 2º- Uma questão de vida e morte;
3º- Sol negro; 4º- O anel lunar;
5º- Rumo à Terra; 6º- Noutra era, noutro local;
7º- O elo da cadeia; 8º- Guardião de Piri;
9º- Força de vida; 10º- O filho de Alfa;
11º- O último crepúsculo; 12º- O regresso da voyager;
13º- Rota de colisão; 14º- O último domínio da morte;
15º- O círculo; 16º- Fim da eternidade;
17º- Jogos de guerra; 18º- O último inimigo;
19º- O espírito perturbado; 20º- Cérebro espacial;
21º- Máquina infernal; 22º- Missão dos darians;
23º- O domínio do dragão; 24º- Testamento de Arcadia.

Como podem à partida constatar, há muito para acompanhar. Se vocês (ou alguns de vocês) forem como eu, a partir do momento em que iniciarem cada um dos episódios deixam de estar aqui na Terra... e juntam-se a todas aquelas personagens, por este universo fora. Ou seja, o espaço torna-se ainda mais vosso.

Usufruam! Recordem!

Publicado por void em 07:30 AM | Comentários (14) | TrackBack

agosto 28, 2004

A PAIXÃO DE CRISTO

Depois do sucesso nas bilheteiras dos cinemas, agora, a versão em DVD.
Está para muito breve a saída no mercado português deste filme da responsabilidade de Mel Gibson. A edição nacional encontra-se a cargo da editora Lusomundo.
Este foi um fime que gostei muitíssimo. Nunca lhe fiquei indiferente desde que foi anunciado. Vê-lo foi particularmente marcante para mim, quer em termos de confronto com as imagens, quer em termos de assimilação da(s) mensagem(ns) transmitida(s). Evidentemente que por isto a sua disponibilização em DVD não me pode(ria) deixar indiferente. Aguardo a sua saída. A aquisição é uma certeza.
Para aqueles que como eu gosta(ra)m do filme e têm particular prazer em ir construindo a sua "DVDteca", também, com filmes que de alguma forma foram marcantes na sua vida, esta é mais uma oportunidade.

Fiquem atentos... o filme está novamente ai!
Voltarei a ele aqui no blog, após a sua aquisição e nova visualização. Para "falarmos"... mais.

Publicado por void em 10:31 AM | Comentários (0) | TrackBack

JAMES BOND: OS FILMES (2)

Ora cá estou com mais dois filmes da série de aventuras de James Bond! Estava previsto, não é? Pois...
Eis, então, aqueles que se seguem na ordem de realização/exibição:"Goldfinger" (1964) e "Thunderball" (1965). Gostei! Aliás, tem sido sempre assim, desde que vejo as missões importantíssimas do famoso agente secreto (desde há uns anos). Sean Connery é um actor excelente. Tenho-o como referência de outros filmes, sendo que por isso, não seria difícil manter-me fiel ao seu profissionalismo e charme. Claro que, com James Bond, a faceta sedutora aparece em todo o seu explendor.
Estamos, pois, face a mais duas aventuras que prendem e permitem ficar "de olho arregalado" em frente ao ecrã da televisão. A emoção é bastante e a acção surge de forma sempre crescente.
Quanto às histórias propriamente ditas e outros aspectos incluídos em DVD:

Neste filme "O agente especial 007 está face a face com um dos mais conhecidos vilões de todos os tempos. E agora ele terá de superar a esperteza e poder deste terrível magnata, de forma a impedi-lo de realizar um maquivélico plano para assaltar o Fort Knox e obliterar a economia mundial".

Participações: Sean Connery, Gert Frobe, Honor Blackman, Shirley Eaton.

Opções especiais: Comentário audio do realizador Guy Hamilton; Comentário audio do elenco e equipa; Documentário "Making of Goldfinger; Documentário "The Goldfinger Phenomenon", "Documentário de rádio original com Sean Connery", entre outros.

Duração: c. 105'

Neste filme "As emoções são constantes com o agente especial 007 que desta vez vai para além do dever- e ao fundo do oceano- para encontrar um criminoso vilão que mantém reféns milhões e ameaça mergulhar o mundo num holocausto nuclear!"

Participações: Sean Connery, Claudine Auger, Adolfo Celi, Luciana Paluzzi.

Opções especiais: Comentário audio com o realizador Terence Young; Comentário audio elenco e equipa; Documentário "Making of Thunderball"; Documentário "The Thunderball Phenomenon"; Documentário "Inside Thunderball", entre outros.

Duração: c. 125'

_________________

Como vos disse, vi e gostei. Espero que ao verem ou reverem gostem ou continuem a gostar, também. Divirtam-se!

Publicado por void em 08:25 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 27, 2004

LEMBRAM-SE?

Lembram-se: Espaço 1999... Base Lunar Alpha... Maya... etc, etc, etc...?
Se estiverem na casa dos 30, como eu, tenho a certeza que sim. Afinal, nós somos a "Geração Espaço 1999"!
Bom... este fim-de-semana aqui no blog vai ser totalmente dedicado ao Cinema/Séries de TV. "Espaço: 1999" vai constar... no Domingo...

Apareçam por cá!

Publicado por void em 05:13 PM | Comentários (3) | TrackBack

RESSACA PARA UMA AUTOBIOGRAFIA


(Al Berto)

Permaneço deitado, ignoro o dia, não me mexo, recuso-me a pensar. Durmo como se nunca mais acordasse, e ao acordar já é novamente noite. Como abundantemente, fumo muitos cigarros e bebo pelo menos meio litro de café.
Mas, apesar de tudo, e com a prática de muitas ressacas, nem sempre consigo evitar a dor provocada por essa mesma ressaca- a ressaca mental.
Sempre bebi em quantidade, violentamente, para perder a noção de mundo, e do mundo. Nunca bebi por paixão, nem por desgosto de amor, não, nunca bebi dramaticamente. E no dia seguinte a ter bebido muito, é como se os sentidos e a memória tivessem sido passados a esfregona e lixívia.
E dos sentidos surgem então sensações estranhas. Por exemplo, um órgão qualquer desata a arder, ou perco a visão- cego por instantes, e sou obrigado a tactear-me para me certificar de que existo.
Nada disto é agradável ou desagradável, é um outro estado de singular lucidez que pode prolongar-se horas a fio, entre uma espécie de escuridão primordial e a fulguração dum tempo ainda por vir, ou já eterno.
Fico assim, perdido no fundo de mim mesmo, sem nome, sem olhar para o que me rodeia, sem corpo que me transporte, sem pensamentos.
Quanto à memória, é terrível. Umas vezes vai buscar imagens distantes de acontecimentos que, em geral, ainda virão a suceder. Outras, pura e simplesmente não há memória de nada. Um pouco como se eu começasse a ser a cada fracção de segundo, e levo um tempo infinito, desumano, para erguer de novo, peça a peça, o que sou.
A embriaguez é um momento de vida incendiada, ou suspensa, e a ressaca um tempo de lenta e demorada reconciliação com o mundo, e comigo mesmo.
Mas, um dia, tenho a certeza, não terei forças para me reconciliar com o mundo, nem vontade de regressar de onde estiver. Continuarei a beber ininterruptamente e não haverá mais ressaca, nem dor.
Seduz-me a ideia de vir a morar num corpo que já não sente, etílico talvez, transparente, e com uma leveza de cinzas.

(Al Berto- O ANJO MUDO)

Publicado por void em 04:37 PM | Comentários (1) | TrackBack

CARLOS SEIXAS- SONATAS PARA CRAVO

No âmbito da minha "cdteca" tenho um pequeno núcleo de Música Antiga, em particular, relativo a Portugal. Situando-se tal música entre a Idade Média, nomeadamente séculos XIII-XIV e o século XIX, julguei interessante ir fazendo aqui a sua divulgação, em especial em dias de edição de textos de cariz mais filosófico, como por exemplo, acontece hoje. Neste sentido, e não atendendo a uma rigidez de carácter cronológico, trago-vos o meu 1º CD naquela que é a proposta de divulgação que objectivo concretizar. Diz ele respeito a parte da obra do compositor Carlos Seixas (1704-1742), em particular, aquela relativa a Sonatas para Cravo.

Carlos Seixas foi, pois, compositor, cravista e organista da corte de D. João V. Nasceu em Coimbra, em 11 de Junho de 1704, veio com 16 anos para Lisboa e aqui morreu em 25 de Agosto de 1742. Foi um brilhante improvisador e as cerca de 150 composições da sua autoria que chegaram até nós (tocatas, minuetes, fugas, peças religiosas) colocam-no entre os maiores compositores portugueses, nomeadamente no domínio da música de tecla. Da sua arte refinada se diz que o célebre italiano Domenico Scarlatti, quando esteve em Portugal como mestre de música dos filhos do Rei Magnânimo, afirmou, após ouvir Carlos Seixas, que " ele (Seixas) é que me pode dar lições" e "é dos maiores professores que tenho ouvido".

Quanto a este CD, tem a seguinte composição (com o registo musical de José Luis Uriol):

1. Sonata no. 9 em Dó Maior [ 5,29 ]
2. Sonata no. 15 em dó menor [ 6,42 ]
3. Sonata no. 1 em Dó Maior [ 3,56 ]
4. Sonata no. 14 em dó menor [ 3,42 ]
5. Sonata no. 22 em ré menor [ 2,26 ]
6. Sonata no. 24 em Ré Maior [ 2,40 ]
7. Sonata no. 19 em Ré Maior [ 4,48 ]
8. Sonata no. 25 em ré menor [ 5,34 ]
9. Sonata no. 6 em Dó Maior [ 3,20 ]
10. Sonata no. 13 em dó menor [ 12,20 ]

Se ouvirem, espero que gostem. Quanto a mim... gosto e viajo no tempo... e o século XVIII é meu!


Publicado por void em 06:27 AM | Comentários (0) | TrackBack

A IMAGINAÇÃO DE DEUS COMO CONTRASTE AO HOMEM


(Friedrich Nietzsche)

Uma obrigação para com Deus: esta ideia foi porém o instrumento de tortura. Imaginou-se Deus como um contraste dos seus próprios instintos animais (do homem) e irresistíveis e deste modo transformou estes instintos em faltas para com Deus, hostilidade, rebelião contra o «Senhor», «Pai» e «Princípio do mundo», e colocando-se galantemente entre «Deus» e o «Diabo» negou a Natureza para afirmar o real, o vivo, o verdadeiro Deus, Deus santo, Deus justo, Deus castigador, Deus sobrenatural, suplício infinito, inferno, grandeza incomensurável do castigo e da falta. Há uma espécie de demência da vontade nesta crueldade psíquica. Esta vontade de se achar culpado e réprobo até ao infinito; esta vontade de ver-se castigado eternamente; esta vontade de tornar funesto o profundo sentimento de todas as coisas e de fechar a saída deste labirinto de ideias fixas; esta vontade de erigir um ideal, o ideal de «Deus santo, santo, santo», para dar-se melhor conta da própria indignidade absoluta... Oh, triste e louca besta humana!
A que imaginações contra natura, a que paroxismo de demência, a que a bestialidade de ideia se deixa arrastar, quando se lhe impede ser besta de acção!... Tudo isto é muito interessante, mas quando se olha para o fundo deste abismo, sentem-se vertigens de tristeza enervante. Não há dúvida de que isto é uma doença, a mais terrível que tem havido entre os homens e aquele cujos ouvidos sejam capazes de ouvir, nesta negra noite de tortura e de absurdo, o grito de amor, o grito de êxtase e de desejo, o grito de redenção por amor, será presa de horror invencível... Há tantas coisas no homem que infudem espanto! Foi por tanto tempo a terra um asilo de dementes!

(Friedrich Nietzsche- A GENEALOGIA DA MORAL)

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O HOMEM É LIBERDADE

Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer. O existencialista não crê na força da paixão. Não pensará nunca que uma bela paixão é uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos actos e por conseguinte, tal paixão é uma desculpa. Pensa, sim, que o homem é responsável por essa sua paixão. O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que o há-de orientar; porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver. Pensa portanto que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem.

(Jean-Paul Sartre- O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO)

Publicado por void em 06:24 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 26, 2004

RESONANCE

A 1ª abordagem que fiz aos Anathema aqui no blog, foi a propósito do seu último álbum. Volto hoje a eles para vos dar mais uma sugestão que é, inequivocamente, o reflexo de uma preferência minha. Tal sugestão é "Resonance", um outro trabalho de grande qualidade. Letras interessantes e musicas excepcionais. O que permite: excelentes momentos de evasão.
Quanto às faixas:

1. Scars of the old stream
2. Everwake
3. J'fait une promesse
4. Alone
5. Far away (acoustic)
6. Eternity (part 2)
7. Eternity (part 3) (acoustic)
8. Better off dead
9. One of the few
10. Inner silence
11. Goodbye cruel worl
12. Destiny
13. The silent enigma (orchestral)
14. Angelica (live Budapest 1997)
15. Horses

Vale a pena!

Publicado por void em 02:50 PM | Comentários (1) | TrackBack

A QUEDA


(Fotografia de Margarida)

Cais várias vezes em determinadas situações.
No meio de uma sala.
Quando percorres a distância entre uma palavra e outra palavra.
Cais simplesmente perante uma pessoa.
Eu sei que este acto da tua vida não depende de qualquer contacto físico,
de um golpe menos humano, de uma insistência corporal.
Está muito longe de ser tudo isso.
Está no fim de todos os teus pensamentos.
A queda é uma espécie de recusa face a um determinado momento.
Perante ti sou capaz de cair como um objecto
que escorregasse das tuas mãos.
É possível cair assim.

Quando fechamos os olhos, hás-de experimentar,
temos a sensação de perdermos o equilíbrio.
É preciso apertar os olhos, fazer com que o rosto fique pesado.
Riscar da penumbra o que ainda é legível, anular todos os sinais.
Não nos sabemos orientar se perdermos o sentido de tudo o que nos rodeia.
Não temos nada à nossa disposição que torne o vazio mais suportável.
Tudo o que existe, existe como se estivesse suspenso no tempo,
indiferente a qualquer presença.
Nada passa através das palavras. Tudo tem início nas tuas mãos,
para substituir a falta de uma luz, de uma razão, de um prazer.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)


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HENRI CARTIER-BRESSON: EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA (6)

Tête à tête, edições Guillimard, Paris, 1998, é a publicação que reúne, entre muitas outras, as fotografias que seguidamente editamos de Henri Cartier-Bresson. O que temos? Pois bem, estamos perante trabalhos que fazem registo, em imagem, das mais variadas personalidades do mundo do Cinema, Teatro, Pintura, Escultura, Arquitectura, Literatura, Política, Ciência, Fotografia e de outras áreas.
Sigam:

Fotografia 1:


(Paris, Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo francês, 1946)

Fotografia 2:


(EUA, Massachusetts, Edmund Wilson, escritor americano com o seu filho, 1947)

Fotografia 3:


(Itália, Roma, Pier Luigi Nervi, arquitecto italiano, 1959)

Fotografia 4:


(EUA, Arthur Miller, escritor americano, 1961)

Fotografia 5:


(França, Paris, Coco Chanel, Fashion designer francesa, 1964)

Fotografia 6:


(França, Alpes-Marítimos, Pablo Picasso, 1967)

Fotografia 7:


(Jean Renoir, Director de cinema francês, 1967)

Fotografia 8:


(Bárbara Hepworth, escultora britânica, 1971)

Fotografia 9:


(Harold Pinter, dramaturgo britânico, 1971)

Fotografia 10:


(França, Paris, Susan Sontag, escritora americana, 1972)

Fotografia 11:


(Japão, Hiroshi Hamaya, fotógrafo japonês e sua mulher, 1978)

Fotografia 12:


(França, Dalai Lama, 1991)


Até às próximas fotografias!

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agosto 25, 2004

JAMES BOND: OS FILMES (1)

Encontro-me em plena fase de desenvolvimento da colecção, em DVD, dos filmes do famoso agente secreto britânico, James Bond. De momento tenho já todos aqueles em que participou Sean Connery e George Lazenby. Estas aquisições juntam-se a outras que tenho vindo a fazer e que incluem, também, séries que fizeram parte da minha infância e adolescência e que, na altura me agradaram bastante, continuando hoje a ter esse mesmo efeito. Com o correr do tempo aqui trarei essas minhas referências de vida. Para já, e começando, especifico os filmes da personagem destacada. E começo pelos dois primeiros, por ordem de produção/exibição: "Dr. No" (1962) e "From Russia With Love" (1963).
Concretizando o argumento e outras referências, registadas em DVD:

Aqui "... o Agente 007 defronta o misterioso Dr. No, um génio científico inclinado em destruir o programa espacial dos Estados Unidos. À medida que a contagem para a destruição começa, Bond terá de viajar até à Jamaica onde vai encontrar a bela Honey Ryder e confrontar o megalómano vilão na ilha do seu maciço quartel-general".

Participações: Sean Connery, Ursula Andress, Joseph Wiseman, Jack Lord, Barnard Lee.

Opções especiais (em DVD): Comentário audio com o realizador Terence Young, o elenco e a equipa; Documentário "Inside Dr. No"; Documentário "Terence Young: Bond Vivant", entre outros.

Duração: c. 105'

Aqui "James Bond enfrenta a maligna organização SPECTRE, numa corrida impressionante para obter o sistema de descodificação soviético, Lektor. A sua missão leva-o por uma perseguição alucinante de barco, um brutal ataque feito por helicóptero e um combate mortal a bordo do Orient Express, provando uma vez mais que o Agente 007 é imparável".

Participações: Sean Connery, Pedro Armendariz, Lotte Lenya, Robert Shaw, Bernard Lee, Daniela Bianchi.

Opções especiais (em DVD): Comentário audio com os actores e a equipa técnica; Documentário "Inside From Russia With Love"; Documentário "The Music Of 007", entre outros.

Duração: c. 110'

____________________

Sendo as histórias de 007 da autoria de Ian Fleming seria uma falha da minha parte não lhe fazer referência. Optei, contudo, por apresentar-vos algo mais substancial, por forma a ficarem a conhecer esta personalidade (porque o foi!). Neste sentido, reservarei um ou dois posts para a si dedicar, em particular no que concerne à vida, obra literária e sua relação com o cinema, nomeadamente com os filmes relativos a James Bond.
Para já, e enquanto tal não acontece, vão registando os filmes e preparem a sua aquisição ou o seu recordar de uma ou outra forma. E, claro, divirtam-se!

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O EROTISMO EM... CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Reforçando as edições que já fiz extraídas de "O amor natural", deixo-vos com mais alguns poemas. A qualidade da obra justifica uma mais alargada divulgação. Confirmem:

O CHÃO É CAMA

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.


A LÍNGUA LAMBE

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.


SEM QUE EU PEDISSE, FIZESTE-ME A GRAÇA

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.


QUANDO DESEJOS OUTROS É QUE FALAM

Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.

Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.

(Carlos Drummond de Andrade- O AMOR NATURAL)

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QUIETUDES

Quem nos visse pensaria. Um dia.

Colocava a cabeça no teu colo e esperava que me cofiasses o cabelo. Fechava os olhos e abria o meu coração para ti. Tu não censuravas nada do que eu dizia e escutavas-me até eu não ter nada mais no peito para contar.
Idealizavas, com as unhas sobre o meu pescoço, desenhos- sonhos imperfeitos e dizias adoro-te, que nos meus braços morrerias: eu pensava que de qualquer outra forma também eu morreria, que queria e gostava de um dia sucumbir no teu regaço. Uma estúpida e deprimente canção de amor percorria-nos cada veia do nosso corpo e nós quietos, em surdina a escutá-la, quase enganávamos quem nos visse: talvez pensassem que nos amaríamos. Um dia.

Flor

Queria passar esta noite contigo, minha flor. Ter-te junto ao peito e inalar o teu cheiro: averiguar se este é signo de desejo, saudade ou descoberta. Sentir-te desde as pequenas raízes e acariciar cada pétala: catalogar cada uma delas para lhes dar o meu nome em latim. Registar a patente para que todos saibam que espécie de homem sou. E assim encontrar-me em teu corpo para fazer da tua beleza a minha imortalidade nas gerações que hão-de vir.

(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA. Fotografia de Bruno Espadana.)

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agosto 24, 2004

SEGUIR EM FRENTE


(Fotografia de José Marafona)

Imagina o que significa seguir em frente e sentir que deixas trás de ti mutilações humanas. Pessoas da tua vida, num estado entre a destruição e o desespero; tudo ruínas que ignoras na marcha impiedosa que te propões para sentires a salvação do que elegeste apropriado para se viver. Claro que não podes imaginar a realidade se sentires poesia em tudo o que te acontece. A verdade é que estás cansado. E o silêncio tomou a forma de uma cadeira onde te deixaste cair para dar descanso à tua mente. Escrever nunca resolveu destino algum; apenas acrescenta enredos teatralizados pela poesia dos enganos e ilusões. Agora estás de partida e a guerra ainda nem começou. Penso que já sentes lágrimas correrem debaixo dos teus pés; e cada passo teu é uma ferida a obstruir o caminho dos outros.

(Texto editado, originalmente, em Memória Futura.)

Publicado por void em 05:15 PM | Comentários (2) | TrackBack

BUDDHA-BAR III

Do conjunto das compilações existentes, e que aqui tenho vindo a divulgar, registo uma outra que adquiri: buddha-bar III, datada de 2001. Estamos perante um conjunto de trabalhos reunidos por Ravin que imprimem, mais uma vez, grande qualidade ao projecto. Constantes, entre outras, faixas musicais ou de canções de John Kaizan Neptune, Yorgos Kazantzis, Manuel Franjo, Adrian Enescu, Amr Ram, Jesse Cook, Gotan Project, Osman Ismen, Anna Visi, Nacho Sotomayor. Todos estes nomes encontram-se distribuídos por 2 cd's (1º- "Dream", 2º- "Joy"), organizados de acordo com uma estrutura devidamente concebida, onde as sonoridades se harmonizam de acordo com o pretendido.

Mais um trabalho ao nível das compilações que aqui recomendo. Deliciem-se!

Publicado por void em 04:32 PM | Comentários (2) | TrackBack

EXPOSIÇÃO DE PINTURA NAIF: GUERRIERO BURCHI (2)

Concluo, hoje, a apresentação de trabalhos de Guerriero Burchi. Mais um conjunto que consolida a temática rural da preferência do artista.
Vejamos:

Pintura 17:

Pintura 18:

Pintura 19:

Pintura 20:

Pintura 21:

Pintura 22:

Pintura 23:

Pintura 24:

Pintura 25:

Pintura 26:

Pintura 27:


Até ao(à) próximo(a) pintor(a)!

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agosto 23, 2004

NOITE SECRETA


(Fotografia de José Marafona)

há quem acredite que mal a aragem forasteira agite os pedaços simbólicos e melódicos do espanta-espíritos e produza o som cristalino da serenidade, o mau espírito é derrubado e permanecido fora das quatro paredes da casa para que assim possamos viver em harmonia. o vento dá forma aos tecidos azulados das cortinas. envolve-se nelas e trá-las para dentro, para logo depois as puxar para fora. o quinto elemento que é, geralmente, mais comprido e situado no meio dos quatro, dá vida aos outros enquanto é empurrado e levado a acariciar os que o rodeiam.

quero ter muitos deles na nossa casa.
um espaço musical de reflexão onde nos sintamos em paz com a natureza. saber infiltrar-me pelos canos melodiosos da essência universal e escutar o silêncio cantado da vida.
escrever e amar sobre os tectos vazios da casa.
uma casa somente.
uma casa nua, despida, onde o sol da tarde se deita espalmando-se pelo soalho tingido de vermelho dourado, e por onde a areia entra deixando à vista o corpo do mar.
tocar-te e saber-me a mar.
descobrir a tua pele branca sobre o luar cintilante.
uma lua cheia que nos enche o peito.
deslizar os meus dedos pelos teus lábios como se pintasse o pôr de sol sangrento.
rastejar-me pelas dunas macias de teu ser constelar e embalar-me tempestuosamente dentro de ti como as furiosas ondas apaixonadas de encontro às muralhas rochosas numa noite de tempestade.
noite secreta.
uma praia deserta.
uma casa que pertence ao mar.

(Texto da autoria de Dina Costa Reis editado, originalmente, em Memória Futura.)


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O NOME DA ROSA

Finalmente em DVD um filme que sempre me fascinou e que já vi várias vezes. Finalmente! "O Nome da Rosa", um filme excelente e com excelentes interpretações. Evidentemente, de destacar, o trabalho de realização de Jean-Jacques Annaud.

A HISTÓRIA...

No longínquo ano de 1327 (Século XIV), William de Baskerville (Sean Connery), um monge franciscano, e Adso von Melk (Christian Slater), um noviço que o acompanha, chegam a um remoto mosteiro (ou abadia) no norte da Itália. William de Baskerville pretende participar de um conclave para decidir se a Igreja deve doar parte de suas riquezas, mas a atenção é desviada devido à ocorrência de várias mortes em locais diversos do mosteiro. William de Baskerville começa a investigar o caso, que se mostra bastante complicado e enigmático. Os monges que habitam o mosteiro acreditam que é obra do Demónio, mas William de Baskerville mostra-se relutante quanto a essas opiniões/interpretações, prosseguindo as suas investigações tendo como metodologias a observação e a dedução. Contudo, antes que conclua as investigações, Bernardo Gui (F. Murray Abraham), o Inquisidor-Mor, chega ao local e está pronto para torturar qualquer suspeito de heresia que tenha cometido assassinatos em nome do Diabo. Considerando que o Inquisidor não gosta de Baskerville (atendendo a quarelas havidas no passado entre ambos), é inclinado a colocá-lo no topo da lista dos que são diabolicamente influenciados. Esta batalha, junto com uma guerra ideológica entre Franciscanos e Dominicanos, é travada enquanto o motivo dos assassinatos é lentamente solucionado. Em tudo isto a importância extrema da biblioteca do mosteiro... e os livros...

O DVD é composto por 2 cd's: um, para o filme, outro, para os extras.

DURAÇÃO:

C. 126'

Filme baseado na obra com o mesmo nome de Umberto Eco e que começa assim- Primeiro dia-:

(Narração feita por Adso, o noviço)

"Era uma bela manhã de fim de Novembro. De noite tinha nevado um pouco, mas a fresca camada que cobria o terreno não era superior a três dedos. Às escuras, logo depois de laudas, tínhamos ouvido missa numa aldeia do vale. Depois tínhamo-nos posto a caminho para as montanhas, ao despontar o Sol.
Como trepávamos pelo carreiro íngreme que serpenteava em torno do monte, vi a abadia. Não me espantaram as muralhas que a cingiam por todos os lados, semelhantes a outras que vi em todo o mundo cristão, mas a mole daquilo que depois soube que era o Edifício. (...)"

O livro é excelente. Também já o li. Se ainda não o fizeram, aconselho.

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O FADO DE... MARIZA

Ela é absolutamente fantástica. Uma cantadeira que encanta, quer em Portugal, quer além fronteiras. A atribuição a 24 de Março de 2003 no Teatro Ocean, em Londres, do prémio "Melhor Artista da Europa de World Music" pela BBC Radio 2, é prova disso mesmo.
Mariza é, inequivocamente, um nome de referência da nova geração de fadistas que se encontra em fase de plena ascensão e, simultaneamente, consolidação.
Mariza dá voz aos poetas portugueses (Fernando Pessoa, Florbela Espanca, António Botto, Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira). Mariza canta fados que Amália cantou e que foram escritos para ela. Mas Mariza é original nessa interpretação como o é, também, interpretando letras de artistas contemporâneos (Rui Veloso, Jorge Fernando, Gil do Carmo)
Mariza é uma cantadeira que se impõe em palco. E impõe-se na dupla faceta de fadista, com todo o sentimento a tal inerente, mas não esquece uma postura moderna, simpática, onde o visual é muitíssimo bem cuidado. Mariza sabe isso e orgulha-se disso. Mariza investe nisso. Que o digam, por exemplo, Carlos Rôlo (Fashion designer) e Eduardo Beauté (Hair dressing).

Depois de muito ver e ouvir avulsamente Mariza por aí, adquiri finalmente os seus 2 álbuns: "Fado em mim" (2001) e "Fado curvo" (2003). São dois trabalhos excepcionais... fascinantes... que nos fazem sentir orgulho do nosso Fado. Interpretações brilhantíssimas, qualidade das letras/poemas e beleza nas músicas, é isto que temos nos 3 cd's ("Fado em mim" compõe-se por 2 cd's). Estamos, perante, de facto, duas verdadeiras obras de arte.

Deixo-vos estas referências. Deixo-vos, hoje, algo diferente do que tem acontecido ao nível dos meus registos musicais, mas deixo-vos o nome de alguém que vale a pena conhecer e ouvir. E vale a pena, tendo não só em conta a situação presente, mas também aspirando a mais e mais qualidade no futuro. E isso porque é a dignificação de algo muito nosso que está em causa, naquela que é a excelência de quem interpreta.

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HENRI CARTIER-BRESSON: EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA (5)

Apresento-vos um outro conjunto de fotografias de Henri Cartier-Bresson, desta vez, publicadas no livro De qui s'agit-il?, Edições Gallimard/Bibliothèque Nationale de France, Paris, 2003. A variedade é uma realidade, provando que o fotógrafo tinha preocupações com todas as vertentes do quotidiano, onde quer que fosse. Atentem, pois:

Fotografia 1:


(Polónia, Cracóvia, 1931)

Fotografia 2:


(Hungria, Janela de loja, 1931)

Fotografia 3:


(França, Ile-de-France, 1932)

Fotografia 4:


(México, Juchitan, 1934)

Fotografia 5:


(Cuba, Havana, 1934)

Fotografia 6:


(Grã-Bretalha, Inglaterra, Londres, Funeral de Jorge VI, 1952)

Fotografia 7:


(Irlanda, Dublin, Procissão de Corpus Christi, 1952)

Fotografia 8:


(Itália, Roma, 1952)

Fotografia 9:


(Espanha, Castela, 1953)

Fotografia 10:


(Roménia, No comboio, 1975)


Até breve, então, com mais uma publicação e fotografias inerentes!

Publicado por void em 06:42 AM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 22, 2004

TRAIN OF THOUGHT

O registo musical que vos deixo, hoje, respeita ao último álbum (2003) da banda metal americana, Dream Theater.
Compõem este trabalho as seguintes canções:

1. As I Am
2. This Dying Soul
3. Endless Sacrifice
4. Honor Thy Father
5. Vacant
6. Stream Of Consciousness
7. In The Name Of God

Neste álbum o que me agrada, particularmente, é a harmonia conseguida entre o núcleo duro da canção e verdadeiros exercícios musicais de si decorrentes ou mesmo que o antecedem. Julgo que o resultado é bastante positivo. Sendo que o Metal não é todo igual, atendendo às variantes existentes no âmbito do género, registo que a vertente instrumental deste álbum não é de todo muito "áspera". Aqueles que eventualmente sejam mais avessos a sons fortes, poderão aventurar-se nas sonoridades que aqui nos são trazidas.
Fica, pois, o registo. Fica a ideia. A proposta para audição está lançada. Aventurem-se! (Quem ainda não conhece, obviamente).

Site oficial da banda: http://www.dreamtheater.net


Publicado por void em 04:46 PM | Comentários (2) | TrackBack

DIÁRIO DA MESQUINHEZ


(Fotografia de Margarida)

sinto-me mal, disse ela. juro que me sinto como se estivesse numa estação de comboios, mas à espera da morte. e no entanto tenho este sol todo a aquecer o meu cabelo selvagem. tenho este mar a enrolar-se de espuma a meus pés. estás a ver aqueles dois barcos a chocarem um no outro? somos nós. eu digo qualquer coisa e tu destrois o que eu digo. estou farta de ti. que maneira é essa de me olhares? não sou eu que estou dentro dos teus olhos. põe os óculos e esconde a mentira desse brilho que me atinge. à noite vais brincar com o meu corpo. beijas-me os seios e sentes-te voar num balão renovado de amor. vai para longe, homem. procura o irreal. ama o falso. estou a ficar seca e impaciente. estou farta de esperar nesta estação abandonada onde nada acontece de novo. as palavras são sempre as mesmas para dizerem coisas esquecidas ou sem importância.

(Texto editado, originalmente, em Memória Futura.)


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VERDADE, MENTIRA, CERTEZA, INCERTEZA...


(Caricatura de Fernando Pessoa)

Verdade, mentira, certeza, incerteza...
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho.
Verdade, mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade- os meus joelhos e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.

(Alberto Caeiro- POESIA)

Publicado por void em 08:27 AM | Comentários (0) | TrackBack

EXPOSIÇÃO DE PINTURA NAIF: GUERRIERO BURCHI (1)

Retomo a exposição de pintura naif que tenho montada, abrindo-vos agora a entrada para a apreciação do 1º grupo de trabalhos de um pintor italiano: Guerriero Burchi. Dele só vos posso dizer o que é possível detectar na sua obra: um grande interesse por aquela que é a vida no campo. As suas pinturas mostram-nos várias vertentes desse quotidiano rural, desde os trabalhos realizados, passando pelas técnicas e recursos, modos de vida, formas de convívio, tipos de paisagem, etc. De tudo se procura fazer registo, utilizando determinado género de pintura como forma de expressão.
Iniciemos, então, o percurso:


Pintura 1:

Pintura 2:

Pintura 3:

Pintura 4:

Pintura 5:

Pintura 6:

Pintura 7:

Pintura 8:

Pintura 9:

Pintura 10:

Pintura 11:

Pintura 12:

Pintura 13:

Pintura 14:

Pintura 15:

Pintura 16:


Para breve o próximo conjunto de pinturas. Aguardem e acompanhem para ficarem a conhecer, mais completamente, o trabalho de Guerriero Burchi.


Publicado por void em 07:58 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 21, 2004

WILDEST DREAMS

Apresentei no dia 19 "Dance of Death", o último álbum dos Iron Maiden. Hoje, e no sentido de concretizar um pouco as minhas palavras, deixo-vos a letra da canção de abertura. O seu conteúdo enquadra-se muito bem na sequência dos dois posts que editei anteriormente, pelo tipo de abordagem feita. Ora vejam:

WILDEST DREAMS

I'm gonna organise some changes in my life
I'm gonna exorcise the demons of my past
I'm gonna take the car and hit the open road
I'm feeling ready to just open up and go

And I just feel I can be anything
That all i might ever wish to be
and fantasize just what I want to be
Make my wildest dreams come true

I'm on my way
Out on my own again
I'm on my way
Out on the road again

When I remember back to how that things just used to be
And I was stuck inside a shroud of misery
I felt I'd dissapeared so deep inside myself
I couldn't find a way to break away the hell

When I'm feeling down and low
I vow I'll never be the same again
I just remember what I am
And visualize just what I'm gonna be

I'm on my way
Out on my own again
I'm on my way
Out on the road again

I'm on my way
Out on my own again
I'm on my way

I'm gonna breakaway


(2003)

Que vos sirva, pois, de inspiração para a audição. A música é, igualmente, muito boa.


Publicado por void em 09:47 AM | Comentários (1) | TrackBack

A NOITE DE TODAS AS TREVAS (UM SONHO...!?)


(Fotografia de Ezequiel Lozada)

Elevo-me no ar,
Pairo,
cerro o meu punho com toda a força do mundo,
toda a raiva de uma vida,
todo o sofrimento de um coração partido.
Cerro o punho até aos dedos cravarem a carne
vazarem a pele,
jorrando gotas de sangue ,
frio,
pesado,
negro.
E caio inerte no chão
tombo dos céus
como um anjo caído
fulminado pelo pecado.
A minha face aterra na lama,
na terra húmida e negra,
polvilhada de sangue
onde cabelos e unhas soltas
se misturam com raízes e ervas...
amanhece...
O horizonte aclara em tons avermelhados...
...será a chama do Inferno que por fim me reclama?
Ou apenas o amanhecer de mais um dia?
Mais um dia de condenação...
Levanto-me...
Abro os braços...
Entrego-me à luz que me açambarca,
como um soldado rendido
vencido pela guerra
mais do que pela batalha.
A luz cega-me,
estonteia-me,
ofusca-me.
Tudo é luz.
Acordo
na minha cama...
Acordo a chorar,
lagrimas varrem-me o rosto
como gotas de chuva
latentes na janela...
Foi um sonho...
A minha mão tem a marca das minhas unhas cravada...
Foi um sonho...
Enxugo as lagrimas...
As mãos ficam sujas...
Tinha lama na cara...
Lama...

(Texto da autoria de "D. Quixote". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

Publicado por void em 08:38 AM | Comentários (0) | TrackBack

ABANDONO


(Fotografia de Michel Bayard)

Passavam 7 anos mas ele não esquecia. A dor ainda amargava atroz no peito subindo à cabeça, tornando-a cheia e pesada. Como um travo amargo no fundo da boca seca. Faziam sete longos anos desde o dia em que ela partiu. E desde esse dia em que ele correu revoltado para o meio da floresta, nunca mais voltou. Sentou-se a chorar num tronco. Negou tudo o que conhecia. Negou o tempo que passava, os dias que corriam com o sol a gratinar-lhe a face. Negou a chuva, os insectos que o mordiam, chupando o pouco sangue que ia mantendo, negou a dor das feridas que o tempo abria e a dor das feridas que o tempo não fechava. Negou a sanidade mental.
Saciava a sede com as lágrimas que vertia, matava a fome com as folhas que o vento lhe atirava à cara.
Com o tempo, coisas estranhas se passaram. Algures um dia acabou por deixar de ser homem sem saber ao certo quando foi que morreu, ou até se morreu. As raizes das arvores cresceram nele, aproveitando a sua imobilidade insana. Todos aqueles anos sentado na mesma posição onde um dia se sentou a chorar até as lagrimas na face secarem. Nele as raizes penetraram, sugando o sangue para viver, misturando-o com a seiva. Cresceram ervas nas suas cavidades, os ramos das arvores vazavam-lhe o corpo e o olhar ficou vidrado numa expressão estranha de agonia e paz... de abandono.

(Texto da autoria de "D. Quixote". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

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agosto 20, 2004

ROSA CARNE

"Rosa Carne", dos Clã, é um trabalho particularmente bem conseguido. É um álbum maduro, que denota evoluções relativamente aos outros que o antecederam ("LusoQualquerCoisa"- 1996; "Kazoo"- 1997; "Lustro"- 2000; "Afinidades"- 2001). É um passo em frente na carreira do grupo! Não seria isso, afinal de esperar, num trabalho que reúne a colaboração de letristas de reconhecido mérito? De facto, para este cd contribuíram Carlos Tê, Sérgio Godinho, Arnaldo Antunes, Regina Guimarães e Adolfo Luxúria Canibal. O resultado é o que se vê!

Compõem o álbum as seguintes canções:

1 - Competência para Amar
2 - Fio De Ariane
3 - Mad