
"Os cidadãos e as cidadãs abaixo-assinados, vêm por este meio apresentar a sua total discordância e perplexidade perante a decisão do governo de proibir a entrada em Portugal do barco da Women on Waves, que pretendia atracar no porto da Figueira da Foz, no âmbito de um projecto visando a defesa da saúde sexual e reprodutiva das mulheres, do direito à escolha responsável e da defesa da descriminalização do aborto."

Todos aqueles que estiverem a favor desta ideia cliquem no link e assinem a petição.
http://www.petitiononline.com/1959c11/petition.html
Chega disto:


(Fotografia de José Marafona)
Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma cousa relativa ao presente e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
(Alberto Caeiro- POESIA)
Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela.
Sabe, apenas, que por instantes uma incandescência terrível cresce dentro de si, ergue-se, nomeia as coisas e o mundo, apaga sombras, revela os ossos muito antigos das palavras... de resto, mais nada.
É no escuro das casas que se debruça para o papel e escreve, como se fosse o último homem a fazê-lo.
O deserto alastra em seu redor. Está só, tudo esqueceu.
A pouco e pouco o seu olhar reinventa um rosto, devassa um coração- a noite põe-se a pulsar, sangra- e a precária escrita ensina-lhe como alcançar o definitivo silêncio.

Apenas deseja que no momento em que parar o coração- e num movimento derradeiro se confundir ao estrume da terra- tudo se apague: manuscritos, livros impressos, fotografias, cartas, bilhete de identidade, registo de nascimento, etc.
E da sua passagem nada reste, absolutamente nada. Nem mesmo a impressão digital sobre o rosto que o acaso da paixão o fez tocar.
(Al Berto- O ANJO MUDO. Fotografia de Margarida)
Fotografia constante no site "Women on Waves" com a legenda- Is This a War?

(29-08-04, 17:15 hours: The Portuguese Navy circles the Women on Waves ship and orders the captain to stop approaching Portugal. Photo: Nadya Peek for Women on Waves.)
E então, estamos em guerra?

Tenho acompanhado o que se tem passado em torno do barco holandês "Women on Waves". Evidentemente que, pela minha posição pessoal face à questão do aborto, não me sinto satisfeita com as posições tomadas pelo governo português. Lamento-as profundamente. Espero que tão rápido quanto possível se retome o assunto e sejam feitas alterações à legislação: pela urgente razão de dignidade das mulheres e por razões de saúde pública. Por outro lado, Portugal tem que sair da medievalidade que o caracteriza nesta matéria. É inconcebível tanta hipocrisia!
Li no Causa Nossa o texto que edito, seguidamente, da autoria de Ana Gomes (postado a 29/08). Pela admiração que tenho pela pessoa em questão e pela concordância absoluta com o que é escrito, apresento-o aqui. Aconselho-vos a leitura.
Ei-lo:
"Navios estrangeiros a violar a soberania nacional para fazer campanha pela legalização do aborto?! Era o que faltava no reino dos heróis do mar. Longe vãos os tempos em que bastou o ditador Suharto pestanejar para o «Lusitania» dar meia volta e zarpar! Aqui temos no comando Santana e Portas, lusitanos de barba rija, devotos, intrépidos a proibir meia dúzia de amazonas de terras baixas e nórdicas de vir, usando a liberdade de circulação da UE, ameaçar a paz social distribuindo panfletos subversivos e pilulazinhas abortivas..
Nem a Irlanda, nem a Polónia tiveram coragem de proibir o navio holandês «Women on Waves» de entrar nos seus portos. Mas aqui puseram-se de prevenção capitanias, a Marinha e a Força Aérea, tocou-se a rebate para beatas e fundamentalistas da direita, e sobretudo mobilizaram-se os escribas para fazerem constar que está pronta a partir em direcção à esquadra invasora uma armada de fragatas, corvetas, patrulhões, futuros submarinos, helicópteros, homens-rãs, todos ungidos pela Virgem do «Prestige», de canhões oleados e fervor patriótico em riste. Comandados pelo destemido Ministro da Defesa e dos Assuntos do Mar, Paulo Portas. Que, modesto - como convém aos heróis - se dispensa de aparecer. Fez avançar um jovem Secretário de Estado para explicar que a proibição da entrada da esquadra invasora vinha das «competentes autoridades portuárias e marítimas» (que, como a Virgem, parece também engravidarem de decisões destas sem ser fecundadas pelo Governo). Entre perdigotos, o SE frisou que não está em causa a moral, mas a legalidade e a saúde pública - as holandesas vinham para aí achincalhar-nos a Constituição e até, talvez, o PGR, além de nos pregarem vírus terríveis para nos dizimar a raça.
Claro que se a moral pública estivesse em causa, o heróico Ministro Portas não hesitaria em dar corpo e cara, na dianteira contra a esquadra invasora. Dizem que até já fez o reconhecimento do Parque Eduardo VII, jardins de Belém e outros pontos do país suspeitos de serem instrumentais para actos de pedofilia, decerto antecipando ter de mandar tropas, aviões e submarinos para defender a moral pública se o julgamento do caso Casa Pia confirmar os mais alarmantes rumores.
Mas, neste caso, estão apenas em causa a legalidade e a saúde pública: uma lei que nunca foi cumprida nem respeitada, mas que é essencial para defender a saúde da indústria do aborto clandestino e para dar trabalho a agentes da PJ e do MP, que em vez de perderem tempo atrás de traficantes de droga, criminosos vários e empresários que fogem ao fisco e defraudam o Estado, se esfalfam a perseguir cidadãs que não podem ir abortar a Badajoz ou Vigo ou pagar os preços das respeitáveis clínicas de aborto «espontâneo» que para aí pululam.
Com estas diferenciações semânticas, Santana e Portas pretendem mostrar que fazem o que podem, mas mais não podem: a culpa não é deles, mas sim dos malandros desses agentes do Estado, que deviam fazer funcionar essas «autoridades competentes», que deveriam intervir. Portas e Santana agem assim apenas para consumo (mínimo) da sua base de apoio na orla da Opus Dei. Para a da Copus Night, a música é outra - e é ver o CDS até já a admitir mudar a lei!
Na realidade, temos de agradecer a Santana e Portas: - ninguém daria muito pelo «Women on Waves», em Portugal e lá fora, se o Governo não reagisse assim (Durão Barroso nunca cairia em deixar Portas à solta nesta, mesmo que não tivesse Bruxelas no horizonte). Ao «barco do aborto» iriam sobretudo mulheres sem medo de dar a cara na luta pela legalização da IGV. As outras, as que verdadeiramente necessitam, sentir-se-iam intimidadas. Mas, agora, temos muito pano para mangas, para prolongar e aprofundar o debate político na sociedade portuguesa, e até para meter Bruxelas ao barulho.
Cá dentro, cada dia ficará mais claro que os Drs. Portas e Santana se estão nas tintas para a saúde pública, para a legalidade e para os «princípios de defesa da vida» que apregoam defender - a menos que posicionem desde já batalhões de policias e ginecologistas a investigar toda e qualquer mulher em idade fértil que saia as fronteiras nacionais e que ordenem às alfândegas que apreendam todos os frascos de pílulas que encontrem na bagagem de quem venha de fora. Internacionalmente, graças a Paulo Portas, campeão da duplicidade, temos Portugal no pódio das olimpíadas da hipocrisia e da violação dos direitos das mulheres.
PS - A propósito, o Presidente Sampaio foi ouvido e concordou com a proibição, ou já não é preciso passar-lhe cartão, nem sequer adoçar-lhe a pílula?
Ana Gomes"
Para o Luís e para o Manel, os amigos de sempre...

Um excelente CD revelador de um trabalho muitíssimo bem sucedido: a adaptação para canções de vários poemas de Al Berto (1948-1997), ou seja, a exploração sonora da Poesia.
"Wordsong" é um projecto que resulta do esforço de três músicos: Pedro d'Orey, Alexandre Cortez e Nuno Grácio. Conjuntamente com o CD, um livro com os poemas cantados, assim como a Ficha Técnica de cada uma das interpretações. Compondo este livro, fotografias do poeta em várias fases da sua vida. Um conjunto (CD+ livro) muito bem conseguido.
Quanto aos poemas cantados/reinterpretados:
1- A Casa
2- Cintilações
3- Les Mots
4- Telegrama.Stop
5- Ouve-me
6- 14 de Janeiro
7- 5 Fotografias
8- Cais
9- Em Cio
10- Silêncio
11- A Cabeça de Vidro
12- Roma
13- Horto de Incêndio
14- Amor, Amar-te
15- Hotel de la Gare
16- Não Cantes

Projecto da Editora 101 Noites, a louvar. Procurem ouvir o CD, se ainda não o fizeram. É muito bom.
Concluo, hoje, a exposição de fotografias de Henri Cartier-Bresson. Trago-vos, desta vez, trabalhos constantes em dois livros. Relativamente às realidades fotografadas, aquelas que já estamos habituados no fotógrafo: o quotidiano, as pessoas, as situações... os momentos ou instantes decisivos.
Quanto aos livros:
- Paris à vue d'oeil (Editions du Seuil, Paris, 1994):
Fotografia 1:

(Paris, 1951)
Fotografia 2:

(Paris, 1953)
Fotografia 3:

(Ile de France, 1955)
Fotografia 4:

(Paris, O "Jardin des Plantes", 1959)
Fotografia 5:

(Paris, 1969)
Fotografia 6:

(Paris, Campos Elísios, 14 de Julho, 1969)
- The decisive moment (Editions Verve, Paris, 1952):
Fotografia 1:

(Espanha, Andaluzia, Sevilha, 1933)
Fotografia 2:

(Itália, Latium, Tivoli, perto de Roma, 1933)
Fotografia 3:

(México, Cidade do México, Vendedoras de jornais, 1934)
Fotografia 4:

(Grã-Bretanha, Inglaterra, Hyde Park, 1937)
Fotografia 5:

(EUA, Illinois, Chicago, 1947)
Fotografia 6:

(Paquistão, Duas mulheres num bazar, 1948)
Agradeço-vos todo o acompanhamento que ao longo deste mês fizeram desta exposição. O trabalho de Cartier-Bresson mereço-o!
Caso ainda não tenham visto e estejam interessados, encontra-se em cartaz no Millenium Alvaláxia, em Lisboa: O GRANDE DITADOR, de Charles Chaplin (EUA, 1940, Preto e Branco, c. 123').

ARGUMENTO:
"Uma sátira burlesca de Charles Chaplin a Hitler e ao nacional-socialismo, apesar de Chaplin ter acabado por declarar que se, na altura da rodagem, tivesse ideia da verdadeira extensão das atrocidades nazis "nunca poderia ter gozado com tal insanidade homicida". O filme, rodado em segredo no final dos anos 30, estreou na América em 1940, em plena II Guerra Mundial.

A história tem como protagonista um soldado-barbeiro judeu que, no final de uma batalha, perde a memória e vai parar a um asilo. O barbeiro tem uma grande semelhança com o ditador Adenoid Hynkel que ganha poder e se prepara para invadir o país vizinho Osterlich. Para isso, tenta arranjar financiamento junto da comunidade judaica, mas esta recusa-se a ajudá-lo. Por essa razão, Hynkel reprime-os violentamente e o barbeiro vai parar a um campo de concentração. Uma das grandes obras de Charles Chaplin e a sua primeira com som, 13 anos após o fim do mudo, com a qual conquistou o prémio de melhor actor (que recusou) atribuído pelo Círculo de Críticos de Cinema de Nova Iorque. O filme foi ainda nomeado para cinco Óscares, entre os quais o de melhor filme."
(Informação disponibilizada em PUBLICO.PT)


"Espaço: 1999" estreou em Portugal no ano de 1976. Foi a primeira grande série de Ficção Científica passada na televisão nacional. O êxito foi imenso, reflectindo-se isso nas notícias saídas nos jornais (ex: Capital, Diário de Lisboa e Diário de Notícias), para além, evidentemente, das saídas nas revistas. De Inglaterra vinha pois algo que agarrava os portugueses ao écrã.
Na altura em que estrearam os primeiros episódios (1ª Série- 24 episódios) tinha eu 5 anos. Recordo que assistia à série na televisão, em particular, a episódios já pertencentes ao segundo conjunto, onde passou a figurar uma personagem que me atraia particularmente: Maya! É verdade! O meu entusiasmo era grande, sobretudo quando ela se transformava em monstros enormes que combatiam os inimigos dos nossos heróis. Maya fascinava-me. Enfim, percebe-se... Engraçado, também: na altura, o ano de 1999 parecia-me imensamente longínquo. Parecia-me algo que nunca chegaria. Por outro lado, a tecnologia: era tudo incrivelmente sofisticado, muito avançado... e, no entanto, hoje, pelas evoluções havidas e usufruidas por mim (e por todos nós), tudo é tão mais relativo. É incrível como recordar certas coisas nos permite acentuar factos, sublinhar consciencializações e perceber em nós próprios imensas modificações. Acho isto fantástico e absolutamente fascinante.
Quanto às personagens, aqueles que viram a série, quem não se lembra de (e agora seguindo a ordem das fotos):







Comandante John Koenig (Martin Landau), Dra Helen Russell (Barbara Bain), Sandra Benes, Prof. Victor Bergman, Maya, Paul Morrow e Alan Carter? De facto, foram rostos que sempre me ficaram na memória, sendo que hoje, tantos anos depois ao rever a série, um sorriso não poderia deixar de manifestar-se no meu rosto. Tantas e tantas aventuras... problemas e obstáculos ultrapassados... contactos com outros seres... com outros planetas...



E assim é! Encontro-me realmente a rever todos os episódios da 1ª Série (para já), sendo que isso se tornou possível devido à recente edição, em DVD, de "Espaço: 1999" (1ª + 2ª Série). Mas de que tratam estes episódios? O que abordam? Porquê o nome da série? Registo só isto:
"No dia 13 de Setembro de 1999 os resíduos nucleares armazenados na Lua explodem. O astro sai da sua órbita e é projectado para o espaço. Os habitantes de Alfa (base lunar com 311 membros) têm que sobreviver, não podem subsistir na sua base".
E a partir daqui uma nova fase de vida para toda esta gente começa. Os vários episódios são, pois, esse período de tempo novo e revelador para cada um dos elementos.
São os seguintes os episódios da 1ª Série (distribuídos por 6 cd's):
1º- A separação; 2º- Uma questão de vida e morte;
3º- Sol negro; 4º- O anel lunar;
5º- Rumo à Terra; 6º- Noutra era, noutro local;
7º- O elo da cadeia; 8º- Guardião de Piri;
9º- Força de vida; 10º- O filho de Alfa;
11º- O último crepúsculo; 12º- O regresso da voyager;
13º- Rota de colisão; 14º- O último domínio da morte;
15º- O círculo; 16º- Fim da eternidade;
17º- Jogos de guerra; 18º- O último inimigo;
19º- O espírito perturbado; 20º- Cérebro espacial;
21º- Máquina infernal; 22º- Missão dos darians;
23º- O domínio do dragão; 24º- Testamento de Arcadia.
Como podem à partida constatar, há muito para acompanhar. Se vocês (ou alguns de vocês) forem como eu, a partir do momento em que iniciarem cada um dos episódios deixam de estar aqui na Terra... e juntam-se a todas aquelas personagens, por este universo fora. Ou seja, o espaço torna-se ainda mais vosso.
Usufruam! Recordem!

Depois do sucesso nas bilheteiras dos cinemas, agora, a versão em DVD.
Está para muito breve a saída no mercado português deste filme da responsabilidade de Mel Gibson. A edição nacional encontra-se a cargo da editora Lusomundo.
Este foi um fime que gostei muitíssimo. Nunca lhe fiquei indiferente desde que foi anunciado. Vê-lo foi particularmente marcante para mim, quer em termos de confronto com as imagens, quer em termos de assimilação da(s) mensagem(ns) transmitida(s). Evidentemente que por isto a sua disponibilização em DVD não me pode(ria) deixar indiferente. Aguardo a sua saída. A aquisição é uma certeza.
Para aqueles que como eu gosta(ra)m do filme e têm particular prazer em ir construindo a sua "DVDteca", também, com filmes que de alguma forma foram marcantes na sua vida, esta é mais uma oportunidade.
Fiquem atentos... o filme está novamente ai!
Voltarei a ele aqui no blog, após a sua aquisição e nova visualização. Para "falarmos"... mais.
Ora cá estou com mais dois filmes da série de aventuras de James Bond! Estava previsto, não é? Pois...
Eis, então, aqueles que se seguem na ordem de realização/exibição:"Goldfinger" (1964) e "Thunderball" (1965). Gostei! Aliás, tem sido sempre assim, desde que vejo as missões importantíssimas do famoso agente secreto (desde há uns anos). Sean Connery é um actor excelente. Tenho-o como referência de outros filmes, sendo que por isso, não seria difícil manter-me fiel ao seu profissionalismo e charme. Claro que, com James Bond, a faceta sedutora aparece em todo o seu explendor.
Estamos, pois, face a mais duas aventuras que prendem e permitem ficar "de olho arregalado" em frente ao ecrã da televisão. A emoção é bastante e a acção surge de forma sempre crescente.
Quanto às histórias propriamente ditas e outros aspectos incluídos em DVD:
Neste filme "O agente especial 007 está face a face com um dos mais conhecidos vilões de todos os tempos. E agora ele terá de superar a esperteza e poder deste terrível magnata, de forma a impedi-lo de realizar um maquivélico plano para assaltar o Fort Knox e obliterar a economia mundial".
Participações: Sean Connery, Gert Frobe, Honor Blackman, Shirley Eaton.
Opções especiais: Comentário audio do realizador Guy Hamilton; Comentário audio do elenco e equipa; Documentário "Making of Goldfinger; Documentário "The Goldfinger Phenomenon", "Documentário de rádio original com Sean Connery", entre outros.
Duração: c. 105'

Neste filme "As emoções são constantes com o agente especial 007 que desta vez vai para além do dever- e ao fundo do oceano- para encontrar um criminoso vilão que mantém reféns milhões e ameaça mergulhar o mundo num holocausto nuclear!"
Participações: Sean Connery, Claudine Auger, Adolfo Celi, Luciana Paluzzi.
Opções especiais: Comentário audio com o realizador Terence Young; Comentário audio elenco e equipa; Documentário "Making of Thunderball"; Documentário "The Thunderball Phenomenon"; Documentário "Inside Thunderball", entre outros.
Duração: c. 125'
_________________
Como vos disse, vi e gostei. Espero que ao verem ou reverem gostem ou continuem a gostar, também. Divirtam-se!

Lembram-se: Espaço 1999... Base Lunar Alpha... Maya... etc, etc, etc...?
Se estiverem na casa dos 30, como eu, tenho a certeza que sim. Afinal, nós somos a "Geração Espaço 1999"!
Bom... este fim-de-semana aqui no blog vai ser totalmente dedicado ao Cinema/Séries de TV. "Espaço: 1999" vai constar... no Domingo...
Apareçam por cá!

(Al Berto)
Permaneço deitado, ignoro o dia, não me mexo, recuso-me a pensar. Durmo como se nunca mais acordasse, e ao acordar já é novamente noite. Como abundantemente, fumo muitos cigarros e bebo pelo menos meio litro de café.
Mas, apesar de tudo, e com a prática de muitas ressacas, nem sempre consigo evitar a dor provocada por essa mesma ressaca- a ressaca mental.
Sempre bebi em quantidade, violentamente, para perder a noção de mundo, e do mundo. Nunca bebi por paixão, nem por desgosto de amor, não, nunca bebi dramaticamente. E no dia seguinte a ter bebido muito, é como se os sentidos e a memória tivessem sido passados a esfregona e lixívia.
E dos sentidos surgem então sensações estranhas. Por exemplo, um órgão qualquer desata a arder, ou perco a visão- cego por instantes, e sou obrigado a tactear-me para me certificar de que existo.
Nada disto é agradável ou desagradável, é um outro estado de singular lucidez que pode prolongar-se horas a fio, entre uma espécie de escuridão primordial e a fulguração dum tempo ainda por vir, ou já eterno.
Fico assim, perdido no fundo de mim mesmo, sem nome, sem olhar para o que me rodeia, sem corpo que me transporte, sem pensamentos.
Quanto à memória, é terrível. Umas vezes vai buscar imagens distantes de acontecimentos que, em geral, ainda virão a suceder. Outras, pura e simplesmente não há memória de nada. Um pouco como se eu começasse a ser a cada fracção de segundo, e levo um tempo infinito, desumano, para erguer de novo, peça a peça, o que sou.
A embriaguez é um momento de vida incendiada, ou suspensa, e a ressaca um tempo de lenta e demorada reconciliação com o mundo, e comigo mesmo.
Mas, um dia, tenho a certeza, não terei forças para me reconciliar com o mundo, nem vontade de regressar de onde estiver. Continuarei a beber ininterruptamente e não haverá mais ressaca, nem dor.
Seduz-me a ideia de vir a morar num corpo que já não sente, etílico talvez, transparente, e com uma leveza de cinzas.
(Al Berto- O ANJO MUDO)

No âmbito da minha "cdteca" tenho um pequeno núcleo de Música Antiga, em particular, relativo a Portugal. Situando-se tal música entre a Idade Média, nomeadamente séculos XIII-XIV e o século XIX, julguei interessante ir fazendo aqui a sua divulgação, em especial em dias de edição de textos de cariz mais filosófico, como por exemplo, acontece hoje. Neste sentido, e não atendendo a uma rigidez de carácter cronológico, trago-vos o meu 1º CD naquela que é a proposta de divulgação que objectivo concretizar. Diz ele respeito a parte da obra do compositor Carlos Seixas (1704-1742), em particular, aquela relativa a Sonatas para Cravo.
Carlos Seixas foi, pois, compositor, cravista e organista da corte de D. João V. Nasceu em Coimbra, em 11 de Junho de 1704, veio com 16 anos para Lisboa e aqui morreu em 25 de Agosto de 1742. Foi um brilhante improvisador e as cerca de 150 composições da sua autoria que chegaram até nós (tocatas, minuetes, fugas, peças religiosas) colocam-no entre os maiores compositores portugueses, nomeadamente no domínio da música de tecla. Da sua arte refinada se diz que o célebre italiano Domenico Scarlatti, quando esteve em Portugal como mestre de música dos filhos do Rei Magnânimo, afirmou, após ouvir Carlos Seixas, que " ele (Seixas) é que me pode dar lições" e "é dos maiores professores que tenho ouvido".
Quanto a este CD, tem a seguinte composição (com o registo musical de José Luis Uriol):
1. Sonata no. 9 em Dó Maior [ 5,29 ]
2. Sonata no. 15 em dó menor [ 6,42 ]
3. Sonata no. 1 em Dó Maior [ 3,56 ]
4. Sonata no. 14 em dó menor [ 3,42 ]
5. Sonata no. 22 em ré menor [ 2,26 ]
6. Sonata no. 24 em Ré Maior [ 2,40 ]
7. Sonata no. 19 em Ré Maior [ 4,48 ]
8. Sonata no. 25 em ré menor [ 5,34 ]
9. Sonata no. 6 em Dó Maior [ 3,20 ]
10. Sonata no. 13 em dó menor [ 12,20 ]
Se ouvirem, espero que gostem. Quanto a mim... gosto e viajo no tempo... e o século XVIII é meu!

(Friedrich Nietzsche)
Uma obrigação para com Deus: esta ideia foi porém o instrumento de tortura. Imaginou-se Deus como um contraste dos seus próprios instintos animais (do homem) e irresistíveis e deste modo transformou estes instintos em faltas para com Deus, hostilidade, rebelião contra o «Senhor», «Pai» e «Princípio do mundo», e colocando-se galantemente entre «Deus» e o «Diabo» negou a Natureza para afirmar o real, o vivo, o verdadeiro Deus, Deus santo, Deus justo, Deus castigador, Deus sobrenatural, suplício infinito, inferno, grandeza incomensurável do castigo e da falta. Há uma espécie de demência da vontade nesta crueldade psíquica. Esta vontade de se achar culpado e réprobo até ao infinito; esta vontade de ver-se castigado eternamente; esta vontade de tornar funesto o profundo sentimento de todas as coisas e de fechar a saída deste labirinto de ideias fixas; esta vontade de erigir um ideal, o ideal de «Deus santo, santo, santo», para dar-se melhor conta da própria indignidade absoluta... Oh, triste e louca besta humana!
A que imaginações contra natura, a que paroxismo de demência, a que a bestialidade de ideia se deixa arrastar, quando se lhe impede ser besta de acção!... Tudo isto é muito interessante, mas quando se olha para o fundo deste abismo, sentem-se vertigens de tristeza enervante. Não há dúvida de que isto é uma doença, a mais terrível que tem havido entre os homens e aquele cujos ouvidos sejam capazes de ouvir, nesta negra noite de tortura e de absurdo, o grito de amor, o grito de êxtase e de desejo, o grito de redenção por amor, será presa de horror invencível... Há tantas coisas no homem que infudem espanto! Foi por tanto tempo a terra um asilo de dementes!
(Friedrich Nietzsche- A GENEALOGIA DA MORAL)
Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer. O existencialista não crê na força da paixão. Não pensará nunca que uma bela paixão é uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos actos e por conseguinte, tal paixão é uma desculpa. Pensa, sim, que o homem é responsável por essa sua paixão. O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que o há-de orientar; porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver. Pensa portanto que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem.
(Jean-Paul Sartre- O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO)
A 1ª abordagem que fiz aos Anathema aqui no blog, foi a propósito do seu último álbum. Volto hoje a eles para vos dar mais uma sugestão que é, inequivocamente, o reflexo de uma preferência minha. Tal sugestão é "Resonance", um outro trabalho de grande qualidade. Letras interessantes e musicas excepcionais. O que permite: excelentes momentos de evasão.
Quanto às faixas:
1. Scars of the old stream
2. Everwake
3. J'fait une promesse
4. Alone
5. Far away (acoustic)
6. Eternity (part 2)
7. Eternity (part 3) (acoustic)
8. Better off dead
9. One of the few
10. Inner silence
11. Goodbye cruel worl
12. Destiny
13. The silent enigma (orchestral)
14. Angelica (live Budapest 1997)
15. Horses
Vale a pena!

(Fotografia de Margarida)
Cais várias vezes em determinadas situações.
No meio de uma sala.
Quando percorres a distância entre uma palavra e outra palavra.
Cais simplesmente perante uma pessoa.
Eu sei que este acto da tua vida não depende de qualquer contacto físico,
de um golpe menos humano, de uma insistência corporal.
Está muito longe de ser tudo isso.
Está no fim de todos os teus pensamentos.
A queda é uma espécie de recusa face a um determinado momento.
Perante ti sou capaz de cair como um objecto
que escorregasse das tuas mãos.
É possível cair assim.
Quando fechamos os olhos, hás-de experimentar,
temos a sensação de perdermos o equilíbrio.
É preciso apertar os olhos, fazer com que o rosto fique pesado.
Riscar da penumbra o que ainda é legível, anular todos os sinais.
Não nos sabemos orientar se perdermos o sentido de tudo o que nos rodeia.
Não temos nada à nossa disposição que torne o vazio mais suportável.
Tudo o que existe, existe como se estivesse suspenso no tempo,
indiferente a qualquer presença.
Nada passa através das palavras. Tudo tem início nas tuas mãos,
para substituir a falta de uma luz, de uma razão, de um prazer.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
Tête à tête, edições Guillimard, Paris, 1998, é a publicação que reúne, entre muitas outras, as fotografias que seguidamente editamos de Henri Cartier-Bresson. O que temos? Pois bem, estamos perante trabalhos que fazem registo, em imagem, das mais variadas personalidades do mundo do Cinema, Teatro, Pintura, Escultura, Arquitectura, Literatura, Política, Ciência, Fotografia e de outras áreas.
Sigam:
Fotografia 1:

(Paris, Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo francês, 1946)
Fotografia 2:

(EUA, Massachusetts, Edmund Wilson, escritor americano com o seu filho, 1947)
Fotografia 3:

(Itália, Roma, Pier Luigi Nervi, arquitecto italiano, 1959)
Fotografia 4:

(EUA, Arthur Miller, escritor americano, 1961)
Fotografia 5:

(França, Paris, Coco Chanel, Fashion designer francesa, 1964)
Fotografia 6:

(França, Alpes-Marítimos, Pablo Picasso, 1967)
Fotografia 7:

(Jean Renoir, Director de cinema francês, 1967)
Fotografia 8:

(Bárbara Hepworth, escultora britânica, 1971)
Fotografia 9:

(Harold Pinter, dramaturgo britânico, 1971)
Fotografia 10:

(França, Paris, Susan Sontag, escritora americana, 1972)
Fotografia 11:

(Japão, Hiroshi Hamaya, fotógrafo japonês e sua mulher, 1978)
Fotografia 12:

(França, Dalai Lama, 1991)
Até às próximas fotografias!
Encontro-me em plena fase de desenvolvimento da colecção, em DVD, dos filmes do famoso agente secreto britânico, James Bond. De momento tenho já todos aqueles em que participou Sean Connery e George Lazenby. Estas aquisições juntam-se a outras que tenho vindo a fazer e que incluem, também, séries que fizeram parte da minha infância e adolescência e que, na altura me agradaram bastante, continuando hoje a ter esse mesmo efeito. Com o correr do tempo aqui trarei essas minhas referências de vida. Para já, e começando, especifico os filmes da personagem destacada. E começo pelos dois primeiros, por ordem de produção/exibição: "Dr. No" (1962) e "From Russia With Love" (1963).
Concretizando o argumento e outras referências, registadas em DVD:

Aqui "... o Agente 007 defronta o misterioso Dr. No, um génio científico inclinado em destruir o programa espacial dos Estados Unidos. À medida que a contagem para a destruição começa, Bond terá de viajar até à Jamaica onde vai encontrar a bela Honey Ryder e confrontar o megalómano vilão na ilha do seu maciço quartel-general".
Participações: Sean Connery, Ursula Andress, Joseph Wiseman, Jack Lord, Barnard Lee.
Opções especiais (em DVD): Comentário audio com o realizador Terence Young, o elenco e a equipa; Documentário "Inside Dr. No"; Documentário "Terence Young: Bond Vivant", entre outros.
Duração: c. 105'

Aqui "James Bond enfrenta a maligna organização SPECTRE, numa corrida impressionante para obter o sistema de descodificação soviético, Lektor. A sua missão leva-o por uma perseguição alucinante de barco, um brutal ataque feito por helicóptero e um combate mortal a bordo do Orient Express, provando uma vez mais que o Agente 007 é imparável".
Participações: Sean Connery, Pedro Armendariz, Lotte Lenya, Robert Shaw, Bernard Lee, Daniela Bianchi.
Opções especiais (em DVD): Comentário audio com os actores e a equipa técnica; Documentário "Inside From Russia With Love"; Documentário "The Music Of 007", entre outros.
Duração: c. 110'
____________________
Sendo as histórias de 007 da autoria de Ian Fleming seria uma falha da minha parte não lhe fazer referência. Optei, contudo, por apresentar-vos algo mais substancial, por forma a ficarem a conhecer esta personalidade (porque o foi!). Neste sentido, reservarei um ou dois posts para a si dedicar, em particular no que concerne à vida, obra literária e sua relação com o cinema, nomeadamente com os filmes relativos a James Bond.
Para já, e enquanto tal não acontece, vão registando os filmes e preparem a sua aquisição ou o seu recordar de uma ou outra forma. E, claro, divirtam-se!

Reforçando as edições que já fiz extraídas de "O amor natural", deixo-vos com mais alguns poemas. A qualidade da obra justifica uma mais alargada divulgação. Confirmem:
O CHÃO É CAMA
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para repousar do amor, vamos à cama.
A LÍNGUA LAMBE
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
SEM QUE EU PEDISSE, FIZESTE-ME A GRAÇA
Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.
Adorando.
Nunca pensei ter entre as coxas um deus.
QUANDO DESEJOS OUTROS É QUE FALAM
Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.
Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.
(Carlos Drummond de Andrade- O AMOR NATURAL)
Quem nos visse pensaria. Um dia.
Colocava a cabeça no teu colo e esperava que me cofiasses o cabelo. Fechava os olhos e abria o meu coração para ti. Tu não censuravas nada do que eu dizia e escutavas-me até eu não ter nada mais no peito para contar.
Idealizavas, com as unhas sobre o meu pescoço, desenhos- sonhos imperfeitos e dizias adoro-te, que nos meus braços morrerias: eu pensava que de qualquer outra forma também eu morreria, que queria e gostava de um dia sucumbir no teu regaço. Uma estúpida e deprimente canção de amor percorria-nos cada veia do nosso corpo e nós quietos, em surdina a escutá-la, quase enganávamos quem nos visse: talvez pensassem que nos amaríamos. Um dia.

Flor
Queria passar esta noite contigo, minha flor. Ter-te junto ao peito e inalar o teu cheiro: averiguar se este é signo de desejo, saudade ou descoberta. Sentir-te desde as pequenas raízes e acariciar cada pétala: catalogar cada uma delas para lhes dar o meu nome em latim. Registar a patente para que todos saibam que espécie de homem sou. E assim encontrar-me em teu corpo para fazer da tua beleza a minha imortalidade nas gerações que hão-de vir.
(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA. Fotografia de Bruno Espadana.)

(Fotografia de José Marafona)
Imagina o que significa seguir em frente e sentir que deixas trás de ti mutilações humanas. Pessoas da tua vida, num estado entre a destruição e o desespero; tudo ruínas que ignoras na marcha impiedosa que te propões para sentires a salvação do que elegeste apropriado para se viver. Claro que não podes imaginar a realidade se sentires poesia em tudo o que te acontece. A verdade é que estás cansado. E o silêncio tomou a forma de uma cadeira onde te deixaste cair para dar descanso à tua mente. Escrever nunca resolveu destino algum; apenas acrescenta enredos teatralizados pela poesia dos enganos e ilusões. Agora estás de partida e a guerra ainda nem começou. Penso que já sentes lágrimas correrem debaixo dos teus pés; e cada passo teu é uma ferida a obstruir o caminho dos outros.
(Texto editado, originalmente, em Memória Futura.)

Do conjunto das compilações existentes, e que aqui tenho vindo a divulgar, registo uma outra que adquiri: buddha-bar III, datada de 2001. Estamos perante um conjunto de trabalhos reunidos por Ravin que imprimem, mais uma vez, grande qualidade ao projecto. Constantes, entre outras, faixas musicais ou de canções de John Kaizan Neptune, Yorgos Kazantzis, Manuel Franjo, Adrian Enescu, Amr Ram, Jesse Cook, Gotan Project, Osman Ismen, Anna Visi, Nacho Sotomayor. Todos estes nomes encontram-se distribuídos por 2 cd's (1º- "Dream", 2º- "Joy"), organizados de acordo com uma estrutura devidamente concebida, onde as sonoridades se harmonizam de acordo com o pretendido.
Mais um trabalho ao nível das compilações que aqui recomendo. Deliciem-se!
Concluo, hoje, a apresentação de trabalhos de Guerriero Burchi. Mais um conjunto que consolida a temática rural da preferência do artista.
Vejamos:
Pintura 17:

Pintura 18:

Pintura 19:

Pintura 20:

Pintura 21:

Pintura 22:

Pintura 23:

Pintura 24:

Pintura 25:

Pintura 26:

Pintura 27:

Até ao(à) próximo(a) pintor(a)!

(Fotografia de José Marafona)
há quem acredite que mal a aragem forasteira agite os pedaços simbólicos e melódicos do espanta-espíritos e produza o som cristalino da serenidade, o mau espírito é derrubado e permanecido fora das quatro paredes da casa para que assim possamos viver em harmonia. o vento dá forma aos tecidos azulados das cortinas. envolve-se nelas e trá-las para dentro, para logo depois as puxar para fora. o quinto elemento que é, geralmente, mais comprido e situado no meio dos quatro, dá vida aos outros enquanto é empurrado e levado a acariciar os que o rodeiam.
quero ter muitos deles na nossa casa.
um espaço musical de reflexão onde nos sintamos em paz com a natureza. saber infiltrar-me pelos canos melodiosos da essência universal e escutar o silêncio cantado da vida.
escrever e amar sobre os tectos vazios da casa.
uma casa somente.
uma casa nua, despida, onde o sol da tarde se deita espalmando-se pelo soalho tingido de vermelho dourado, e por onde a areia entra deixando à vista o corpo do mar.
tocar-te e saber-me a mar.
descobrir a tua pele branca sobre o luar cintilante.
uma lua cheia que nos enche o peito.
deslizar os meus dedos pelos teus lábios como se pintasse o pôr de sol sangrento.
rastejar-me pelas dunas macias de teu ser constelar e embalar-me tempestuosamente dentro de ti como as furiosas ondas apaixonadas de encontro às muralhas rochosas numa noite de tempestade.
noite secreta.
uma praia deserta.
uma casa que pertence ao mar.
(Texto da autoria de Dina Costa Reis editado, originalmente, em Memória Futura.)

Finalmente em DVD um filme que sempre me fascinou e que já vi várias vezes. Finalmente! "O Nome da Rosa", um filme excelente e com excelentes interpretações. Evidentemente, de destacar, o trabalho de realização de Jean-Jacques Annaud.
A HISTÓRIA...
No longínquo ano de 1327 (Século XIV), William de Baskerville (Sean Connery), um monge franciscano, e Adso von Melk (Christian Slater), um noviço que o acompanha, chegam a um remoto mosteiro (ou abadia) no norte da Itália. William de Baskerville pretende participar de um conclave para decidir se a Igreja deve doar parte de suas riquezas, mas a atenção é desviada devido à ocorrência de várias mortes em locais diversos do mosteiro. William de Baskerville começa a investigar o caso, que se mostra bastante complicado e enigmático. Os monges que habitam o mosteiro acreditam que é obra do Demónio, mas William de Baskerville mostra-se relutante quanto a essas opiniões/interpretações, prosseguindo as suas investigações tendo como metodologias a observação e a dedução. Contudo, antes que conclua as investigações, Bernardo Gui (F. Murray Abraham), o Inquisidor-Mor, chega ao local e está pronto para torturar qualquer suspeito de heresia que tenha cometido assassinatos em nome do Diabo. Considerando que o Inquisidor não gosta de Baskerville (atendendo a quarelas havidas no passado entre ambos), é inclinado a colocá-lo no topo da lista dos que são diabolicamente influenciados. Esta batalha, junto com uma guerra ideológica entre Franciscanos e Dominicanos, é travada enquanto o motivo dos assassinatos é lentamente solucionado. Em tudo isto a importância extrema da biblioteca do mosteiro... e os livros...
O DVD é composto por 2 cd's: um, para o filme, outro, para os extras.
DURAÇÃO:
C. 126'
Filme baseado na obra com o mesmo nome de Umberto Eco e que começa assim- Primeiro dia-:
(Narração feita por Adso, o noviço)
"Era uma bela manhã de fim de Novembro. De noite tinha nevado um pouco, mas a fresca camada que cobria o terreno não era superior a três dedos. Às escuras, logo depois de laudas, tínhamos ouvido missa numa aldeia do vale. Depois tínhamo-nos posto a caminho para as montanhas, ao despontar o Sol.
Como trepávamos pelo carreiro íngreme que serpenteava em torno do monte, vi a abadia. Não me espantaram as muralhas que a cingiam por todos os lados, semelhantes a outras que vi em todo o mundo cristão, mas a mole daquilo que depois soube que era o Edifício. (...)"
O livro é excelente. Também já o li. Se ainda não o fizeram, aconselho.

Ela é absolutamente fantástica. Uma cantadeira que encanta, quer em Portugal, quer além fronteiras. A atribuição a 24 de Março de 2003 no Teatro Ocean, em Londres, do prémio "Melhor Artista da Europa de World Music" pela BBC Radio 2, é prova disso mesmo.
Mariza é, inequivocamente, um nome de referência da nova geração de fadistas que se encontra em fase de plena ascensão e, simultaneamente, consolidação.
Mariza dá voz aos poetas portugueses (Fernando Pessoa, Florbela Espanca, António Botto, Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira). Mariza canta fados que Amália cantou e que foram escritos para ela. Mas Mariza é original nessa interpretação como o é, também, interpretando letras de artistas contemporâneos (Rui Veloso, Jorge Fernando, Gil do Carmo)
Mariza é uma cantadeira que se impõe em palco. E impõe-se na dupla faceta de fadista, com todo o sentimento a tal inerente, mas não esquece uma postura moderna, simpática, onde o visual é muitíssimo bem cuidado. Mariza sabe isso e orgulha-se disso. Mariza investe nisso. Que o digam, por exemplo, Carlos Rôlo (Fashion designer) e Eduardo Beauté (Hair dressing).

Depois de muito ver e ouvir avulsamente Mariza por aí, adquiri finalmente os seus 2 álbuns: "Fado em mim" (2001) e "Fado curvo" (2003). São dois trabalhos excepcionais... fascinantes... que nos fazem sentir orgulho do nosso Fado. Interpretações brilhantíssimas, qualidade das letras/poemas e beleza nas músicas, é isto que temos nos 3 cd's ("Fado em mim" compõe-se por 2 cd's). Estamos, perante, de facto, duas verdadeiras obras de arte.
Deixo-vos estas referências. Deixo-vos, hoje, algo diferente do que tem acontecido ao nível dos meus registos musicais, mas deixo-vos o nome de alguém que vale a pena conhecer e ouvir. E vale a pena, tendo não só em conta a situação presente, mas também aspirando a mais e mais qualidade no futuro. E isso porque é a dignificação de algo muito nosso que está em causa, naquela que é a excelência de quem interpreta.
Apresento-vos um outro conjunto de fotografias de Henri Cartier-Bresson, desta vez, publicadas no livro De qui s'agit-il?, Edições Gallimard/Bibliothèque Nationale de France, Paris, 2003. A variedade é uma realidade, provando que o fotógrafo tinha preocupações com todas as vertentes do quotidiano, onde quer que fosse. Atentem, pois:
Fotografia 1:

(Polónia, Cracóvia, 1931)
Fotografia 2:

(Hungria, Janela de loja, 1931)
Fotografia 3:

(França, Ile-de-France, 1932)
Fotografia 4:

(México, Juchitan, 1934)
Fotografia 5:

(Cuba, Havana, 1934)
Fotografia 6:

(Grã-Bretalha, Inglaterra, Londres, Funeral de Jorge VI, 1952)
Fotografia 7:

(Irlanda, Dublin, Procissão de Corpus Christi, 1952)
Fotografia 8:

(Itália, Roma, 1952)
Fotografia 9:

(Espanha, Castela, 1953)
Fotografia 10:

(Roménia, No comboio, 1975)
Até breve, então, com mais uma publicação e fotografias inerentes!

O registo musical que vos deixo, hoje, respeita ao último álbum (2003) da banda metal americana, Dream Theater.
Compõem este trabalho as seguintes canções:
1. As I Am
2. This Dying Soul
3. Endless Sacrifice
4. Honor Thy Father
5. Vacant
6. Stream Of Consciousness
7. In The Name Of God
Neste álbum o que me agrada, particularmente, é a harmonia conseguida entre o núcleo duro da canção e verdadeiros exercícios musicais de si decorrentes ou mesmo que o antecedem. Julgo que o resultado é bastante positivo. Sendo que o Metal não é todo igual, atendendo às variantes existentes no âmbito do género, registo que a vertente instrumental deste álbum não é de todo muito "áspera". Aqueles que eventualmente sejam mais avessos a sons fortes, poderão aventurar-se nas sonoridades que aqui nos são trazidas.
Fica, pois, o registo. Fica a ideia. A proposta para audição está lançada. Aventurem-se! (Quem ainda não conhece, obviamente).
Site oficial da banda: http://www.dreamtheater.net

(Fotografia de Margarida)
sinto-me mal, disse ela. juro que me sinto como se estivesse numa estação de comboios, mas à espera da morte. e no entanto tenho este sol todo a aquecer o meu cabelo selvagem. tenho este mar a enrolar-se de espuma a meus pés. estás a ver aqueles dois barcos a chocarem um no outro? somos nós. eu digo qualquer coisa e tu destrois o que eu digo. estou farta de ti. que maneira é essa de me olhares? não sou eu que estou dentro dos teus olhos. põe os óculos e esconde a mentira desse brilho que me atinge. à noite vais brincar com o meu corpo. beijas-me os seios e sentes-te voar num balão renovado de amor. vai para longe, homem. procura o irreal. ama o falso. estou a ficar seca e impaciente. estou farta de esperar nesta estação abandonada onde nada acontece de novo. as palavras são sempre as mesmas para dizerem coisas esquecidas ou sem importância.
(Texto editado, originalmente, em Memória Futura.)

(Caricatura de Fernando Pessoa)
Verdade, mentira, certeza, incerteza...
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho.
Verdade, mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade- os meus joelhos e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.
(Alberto Caeiro- POESIA)
Retomo a exposição de pintura naif que tenho montada, abrindo-vos agora a entrada para a apreciação do 1º grupo de trabalhos de um pintor italiano: Guerriero Burchi. Dele só vos posso dizer o que é possível detectar na sua obra: um grande interesse por aquela que é a vida no campo. As suas pinturas mostram-nos várias vertentes desse quotidiano rural, desde os trabalhos realizados, passando pelas técnicas e recursos, modos de vida, formas de convívio, tipos de paisagem, etc. De tudo se procura fazer registo, utilizando determinado género de pintura como forma de expressão.
Iniciemos, então, o percurso:
Pintura 1:

Pintura 2:

Pintura 3:

Pintura 4:

Pintura 5:

Pintura 6:

Pintura 7:

Pintura 8:

Pintura 9:

Pintura 10:

Pintura 11:

Pintura 12:

Pintura 13:

Pintura 14:

Pintura 15:

Pintura 16:

Para breve o próximo conjunto de pinturas. Aguardem e acompanhem para ficarem a conhecer, mais completamente, o trabalho de Guerriero Burchi.

Apresentei no dia 19 "Dance of Death", o último álbum dos Iron Maiden. Hoje, e no sentido de concretizar um pouco as minhas palavras, deixo-vos a letra da canção de abertura. O seu conteúdo enquadra-se muito bem na sequência dos dois posts que editei anteriormente, pelo tipo de abordagem feita. Ora vejam:
WILDEST DREAMS
I'm gonna organise some changes in my life
I'm gonna exorcise the demons of my past
I'm gonna take the car and hit the open road
I'm feeling ready to just open up and go
And I just feel I can be anything
That all i might ever wish to be
and fantasize just what I want to be
Make my wildest dreams come true
I'm on my way
Out on my own again
I'm on my way
Out on the road again
When I remember back to how that things just used to be
And I was stuck inside a shroud of misery
I felt I'd dissapeared so deep inside myself
I couldn't find a way to break away the hell
When I'm feeling down and low
I vow I'll never be the same again
I just remember what I am
And visualize just what I'm gonna be
I'm on my way
Out on my own again
I'm on my way
Out on the road again
I'm on my way
Out on my own again
I'm on my way
I'm gonna breakaway
(2003)
Que vos sirva, pois, de inspiração para a audição. A música é, igualmente, muito boa.

(Fotografia de Ezequiel Lozada)
Elevo-me no ar,
Pairo,
cerro o meu punho com toda a força do mundo,
toda a raiva de uma vida,
todo o sofrimento de um coração partido.
Cerro o punho até aos dedos cravarem a carne
vazarem a pele,
jorrando gotas de sangue ,
frio,
pesado,
negro.
E caio inerte no chão
tombo dos céus
como um anjo caído
fulminado pelo pecado.
A minha face aterra na lama,
na terra húmida e negra,
polvilhada de sangue
onde cabelos e unhas soltas
se misturam com raízes e ervas...
amanhece...
O horizonte aclara em tons avermelhados...
...será a chama do Inferno que por fim me reclama?
Ou apenas o amanhecer de mais um dia?
Mais um dia de condenação...
Levanto-me...
Abro os braços...
Entrego-me à luz que me açambarca,
como um soldado rendido
vencido pela guerra
mais do que pela batalha.
A luz cega-me,
estonteia-me,
ofusca-me.
Tudo é luz.
Acordo
na minha cama...
Acordo a chorar,
lagrimas varrem-me o rosto
como gotas de chuva
latentes na janela...
Foi um sonho...
A minha mão tem a marca das minhas unhas cravada...
Foi um sonho...
Enxugo as lagrimas...
As mãos ficam sujas...
Tinha lama na cara...
Lama...
(Texto da autoria de "D. Quixote". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

(Fotografia de Michel Bayard)
Passavam 7 anos mas ele não esquecia. A dor ainda amargava atroz no peito subindo à cabeça, tornando-a cheia e pesada. Como um travo amargo no fundo da boca seca. Faziam sete longos anos desde o dia em que ela partiu. E desde esse dia em que ele correu revoltado para o meio da floresta, nunca mais voltou. Sentou-se a chorar num tronco. Negou tudo o que conhecia. Negou o tempo que passava, os dias que corriam com o sol a gratinar-lhe a face. Negou a chuva, os insectos que o mordiam, chupando o pouco sangue que ia mantendo, negou a dor das feridas que o tempo abria e a dor das feridas que o tempo não fechava. Negou a sanidade mental.
Saciava a sede com as lágrimas que vertia, matava a fome com as folhas que o vento lhe atirava à cara.
Com o tempo, coisas estranhas se passaram. Algures um dia acabou por deixar de ser homem sem saber ao certo quando foi que morreu, ou até se morreu. As raizes das arvores cresceram nele, aproveitando a sua imobilidade insana. Todos aqueles anos sentado na mesma posição onde um dia se sentou a chorar até as lagrimas na face secarem. Nele as raizes penetraram, sugando o sangue para viver, misturando-o com a seiva. Cresceram ervas nas suas cavidades, os ramos das arvores vazavam-lhe o corpo e o olhar ficou vidrado numa expressão estranha de agonia e paz... de abandono.
(Texto da autoria de "D. Quixote". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

"Rosa Carne", dos Clã, é um trabalho particularmente bem conseguido. É um álbum maduro, que denota evoluções relativamente aos outros que o antecederam ("LusoQualquerCoisa"- 1996; "Kazoo"- 1997; "Lustro"- 2000; "Afinidades"- 2001). É um passo em frente na carreira do grupo! Não seria isso, afinal de esperar, num trabalho que reúne a colaboração de letristas de reconhecido mérito? De facto, para este cd contribuíram Carlos Tê, Sérgio Godinho, Arnaldo Antunes, Regina Guimarães e Adolfo Luxúria Canibal. O resultado é o que se vê!
Compõem o álbum as seguintes canções:
1 - Competência para Amar
2 - Fio De Ariane
3 - Madalena Em Contrição
4 - Eu Ninguém
5 - Uma Mulher Da Vida
6 - Topo De Gama
7 - Carrossel Dos Esquisitos
8 - Gordo Segredo
9 - Pas De Deux
10 - Lágrima de Moça
11 - Aqui Na Terra
12 - Crime Passional
13 - Canção de Cabeceira
14 - Seja Como For
Quanto à sua filosofia, àquela que é a sua essência e ao que espelha, deixo-vos com as esclarecedoras palavras de Manuela Azevedo, vocalista do grupo, cujo trabalho desenvolvido em termos vocais, é absolutamente excepcional:
«Não houve vontade em fazer um disco temático, mas muitas canções falavam de uma coisa em comum: mulheres.» (O Independente)
"É um mistério para nós. Algumas coincidências podem ter surgido do facto de haver grande unidade em termos de composição. Muitas vezes isso acaba por conduzir a determinado universo. Mas essa coisa assim tão absoluta já foi um golpe de sorte." (Público)
"Houve uma coincidência curiosa: sendo feitas de forma dispersa e por vários autores, as letras das canções traziam quase todas uma mulher ou o universo feminino como personagem. «Rosa Carne» é uma expressão muito feminina. Gera um certo apelo que nos agrada. Cruza a analogia das flores com as mulheres e reflecte-se nos temas abordados no disco." (Disco Digital)
"Um disco muito feminino, cheio de mulheres, violento, e também carnal, sexual até nalgumas coisas, com um certo sabor a peça só, a peça inteira." (Público)
"Talvez seja também uma questão de idade, mas acho que tem mais a ver com o disco ter esta coisa feminina, e de as mulheres estarem habituadas a escarafunchar as coisas, a pôr muito em causa os sentimentos, a pesar tudo, se estamos bem, se estamos mal, se estamos pior do que éramos quando começamos, se estamos no bom caminho, se tu me entendes, se eu te entendo, se o que tu disseste é aquilo que eu percebi. A partir de uma certa idade, as pessoas dão mais passos arriscados na análise dos sentimentos. E nós sentimos finalmente que podíamos encarar essa dimensão do discurso e falar das coisas de maneira mais profunda." (Público)
"Exigia-se por um lado profundidade e por outro contenção para as coisas não parecerem histéricas ou histriónicas, e esse equilíbrio foi difícil. Tive de encontrar uma voz especial para cada mulher - e que parecesse natural, e que parecesse a minha também." (Público)
Enfim, um álbum para ouvir... ouvir... e cada vez que isso acontece, ir-se aprofundado a descoberta de si.
Estamos perante a qualidade, em português!

(Fotografia de Christian Coigny)
Abre o incêndio
que se esconde em ti,
para que se ilumine o céu,
o fogo a lamber
colinas da tua pele.
A cabeça mergulhada
no pensamento do mundo,
deixa virem todos os medos.
Porque nada há a temer,
o tempo come-nos a alma.
E é isso que interessa :
ser alma.
E ser corpo,
absolutamente corpo,
projetado feito flecha
a romper o espaço .
Desveste a armadura,
não ocultes o que se constrói,
minucioso,
no teu olhar atilado para tudo.
Despe a sensibilidade travestida
de ironia afiada,
no teu sorriso, na voz,
e deixa-a vir à luz .
Abre estas chamas,
asas do teu corpo,
ao vôo ou precipício.
Estarei lá, contigo,
todos os minutos.
(Eugênia Fortes- EUGENIAINTHEMEADOW)

(Fotografia de Christian Coigny)
Uma das amigas de M é virgem. Não haveria especial importância nesse facto não fosse a rapariga ter trinta e dois anos e não se conhecer um único homem na sua vida. A amiga passa os dias em casa a tomar conta de crianças, apoiada pela mãe, prepotente e controladora - uma espécie de Ferreira Leite das finanças afectivas da filha. Quem a conheceu aos quinze anos, diria que nada mudou nela. As conversas sobre sexualidade inspiram-lhe um incómodo ainda mais acentuado com o passar do tempo. A ingenuidade com que escuta as histórias das amigas e os comentários que se esforça por debitar sobre sonhos e paixões fazem dela uma pessoa frágil e transparente. Afinal, não há mistério nenhum numa virgem. A virgindade é o grande plano consciente do seu carácter. Na adolescência, nesse tempo recreativo onde os jovens se iniciam na aprendizagem do prazer, a amiga de M era superprotegida pela mãe que via na filha um apêndice do seu próprio sexo. Aquela mãe não poderia ter uma filha ( e durante a gravidez desejou intensamente que lhe nascesse um rapaz ), porque seria a filha a assegurar um sentimento de pudor na mãe por se sentir projectada maternalmente num corpo que haveria de experimentar as delícias do sexo. A mãe sentia horror de ser possuída sexualmente através da filha. A amiga de M sofria de uma dupla virgindade, uma vez que a educação transmitida pela mãe era o cinto de castidade que não tolerava transgressões. Mas não se julgue que a pobre virgem não olha para os homens à sua volta. A inocência num caso destes poderá sexualizar-se na interioridade intocável da rapariga. M servia-lhe um chá e riam muito da pretensa inteligência sexual dos homens. Será que a amiga adoptava para si as histórias de M e masturbava-se a imaginar finais mais felizes? O que é certo é que um dia a virgem lhe confessou que: " o carteiro toca-me sempre uma vez..."
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

Eis o último álbum dos Iron Maiden! O estilo é o que se conhece, continuando as letras a revelar as mesmas preocupações: a morte, as angústias pessoais, o descrédito no sistema, as injustiças, a guerra. É tudo muito forte. É tudo muito intenso. A música envolve-nos numa sensação perturbadora, pelas mensagens transmitidas. Com Iron Maiden é impossível ficar indiferente ao mundo real de que fazemos parte. Somos obrigados a olhar realmente para ele. Somos levados ao abismo que essa intenção proporciona, arrastando-nos no que de pior pode ser provocado e vivido pelo Homem. O Homem no mundo e o Homem consigo-- é isto que está em causa. Mas está em causa, também, a capacidade do Homem pensar e pensar-se. Pensar (pensando-se) e, de alguma forma, actuar em função disso.
Temos neste trabalho os seguintes temas:
1. Wildest Dreams
2. Rainmaker
3. No more lies
4. Montségur
5. Dance of death
6. Gates of tomorrow
7. New frontier
8. Paschendale
9. Face in the sand
10. Age of innocence
11. Journeyman
Uma nota final para chamar a atenção para a brochura inerente ao próprio CD: grafica/plasticamente muito conseguida, com fotos do grupo e de cada um dos seus elementos, assim como com as letras de todas as canções.
Sobre o grupo, se quiserem saber mais, consultem: http://www.ironmaiden.com

O mais obscuro dos meus amores com minha mãe é o equívoco que neles introduziram alguns, poucos, episódios arriscados, de acordo com a libertinagem que constituiu a vida inteira de minha mãe e que, a pouco e pouco, se apoderou da minha. É verdade que, por duas vezes pelo menos, deixámos que o delírio nos ligasse mais profundamente e de uma maneira mais indefensável do que poderia consegui-lo a união carnal. Minha mãe e eu tivemos consciência disso, e mesmo no esforço desumano que tivemos que fazer para evitar o pior, reconhecemos, rindo, o desvio que nos permitiu ir mais longe e alcançar o inacessível. Mas não teríamos suportado fazer o que os amantes fazem. (...)
Estaria eu mesmo enamorado de minha mãe? Eu adorei minha mãe, não a amei. Para ela, por sua vez, eu era o menino dos bosques, o fruto de uma volúpia inaudita: esse fruto tinha-o ela alimentado na sua devoção infantil, avesso da louca ternura, angustiada e alegre, que ela me transmitia raramente, mas que me extasiava. (...) O que ela amou foi sempre o fruto das suas entranhas. Nada lhe foi mais estranho do que ver em mim um homem que ela poderia amar. Jamais homem algum no seu pensamento, jamais a penetrou senão para saciá-la, no deserto em que ardia, onde teria querido que, com ela, a silenciosa beleza dos seres, anónima e indiferente, se destruísse nojentemente. Teria havido nesse reino libidinoso lugar para a ternura? Os tíbios são banidos desse reino, para o qual a palavra do evangelho convida: violenti rapiunt illud. Minha mãe destinava-me a essa violência, na qual ela reinava. Havia nela, e para mim, um amor semelhante àquele que, no dizer dos místicos, Deus reserva à criatura, um amor que atrai a violência, nunca deixando lugar ao repouso.
(Georges Bataille- MINHA MÃE)
Fotografias que versam sobre o quotidiano dos EUA, eis o que nos apresenta Henri Cartier-Bresson no livro América in passing, Editions du Seuil, Paris, 1991. Edito um conjunto de 10 trabalhos objectivando abarcar alguns dos registos feitos pelo fotógrafo. Nestes, sublinho a atenção dada à população negra, na época em questão, com direitos não plenamente usufruidos ou de todo coarctados. Em outras fotografias aqui não editadas, Cartier-Bresson aprofunda as vertentes e complexidades da sociedade americana, como já dá para perceber pelo que a seguir se visualiza.
Assim:
Fotografia 1:

(Nova Iorque, incêndio em Hoboken, 1946)
Fotografia 2:

(Nevada, Las Vegas, 1947)
Fotografia 3:

(Mississipi, Vicksburg, 1947)
Fotografia 4:

(Washington DC, manifestação pelos direitos civis, 1957)
Fotografia 5:

(Texas, 1957)
Fotografia 6:

(Manhattan, Park Avenue, 1959)
Fotografia 7:

(Nova Iorque, Manhattan, chegada de Khrushchev. Manifestação anti-soviética, 1960)
Fotografia 8:

(Carolina do Sul, plantação de algodão, 1960)
Fotografia 9:

(Carolina do Norte, Raleigh, bairro negro, 1960)
Fotografia 10:

(Florida, Cabo Kennedy, Centro espacial, 1967)
Conto convosco para visualização das próximas fotografias. Até lá!
Deixo-vos neste dia já em estado avançado, com uma proposta... porque não dizer (?)... apropriada para a hora e para a luminosidade que vai estando cada vez mais ténue:

Este é, para mim, um trabalho de grande qualidade de Vangelis. Não sendo de todo fácil categorizar este compositor grego, posso dizer que neste álbum a mistura de texturas é uma realidade. Com presença relevante, os sintetizadores. E acreditem, a envolvência provocada pelas sonoridades é... muitíssimo grande.
Quanto às faixas:
1. The motion of stars
2. The wil of the wind
3. Metallic rain
4. Elsewhere
5. Dial out
6. Glorianna (Hymn a la femme)
7. Rotation's logic
8. The oracle of Apolo
9. Message
10. Ave
11. First approach
12. Intergalactic radio station
O que temos no álbum: "New age"? "Progressiv rock"? "Symphonic rock"? "Space music"? ... Provavelmente um ou outro. Ou este e aquele, mas não aquele outro. Tudo. Nada. Enfim... Vangelis vale pela excelência do que nos faz chegar. Para uns, isso poderá bastar. Para outros tal não será suficiente... bom... assim sendo, recorram à pesquisa... e avaliem!
Uma garantia: vale a pena!

(Fotografia de Margarida)
Um lado do teu rosto
era sempre o estio.
Ondas, mansamente,
a boca, o mormaço.
Eu era um pássaro espiando
a luz e o grão. Sem pressa,
pousava: teus cabelos,
a restinga, a chuva da tarde.
Mas tua outra face não esperava
e nela estranhos bichos
subiam do mar fundo
à terra. Se tocados,
um líquido,
mijo ou lágrima,
queimava, repelia,
insultava.
Tudo em mim, então, era uma concha
que se fechou de susto
e os penhascos doíam
sem nenhum remédio.
Era quando, durante toda a noite,
eu queria apenas morrer.
E morria. Mais de uma vez,
fui um homem que se afogou na barra.
(Eucanaã Ferraz- DESASSOMBRO)

(Vinicius de Moraes)
De repente do riso fêz-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fêz-se espuma
E das mãos espalmadas fêz-se o espanto.
De repente da calma fêz-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fêz-se o pressentimento
E do momento imóvel fêz-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fêz-se de triste o que se fêz amante
E de sozinho o que se fêz contente.
Fêz-se do amigo próximo o distante
Fêz-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
(Vinicius de Moraes- O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO)

(Ferreira Gullar)
Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
parte de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
e seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)
Para acompanhar esta leitura de Gullar, uma sugestão musical que é, também, uma proposta para o conhecimento das produções para canções de:

Adriana Calcanhoto
Extrai esta letra do álbum "Perfil" (que recomendo vivamente, na medida em que reúne os maiores sucessos da cantora, sendo por isso uma referência.):
METADE
Eu perco o chão, eu não acho as palavras
Eu ando tão triste, eu ando pela sala
Eu perco a hora, eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco a chave de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos, eu estou ao meio
Onde será que você está agora?
Eis o que, para mim, há de melhor no Brasil, hoje: na Poesia e na Música. Fiquem bem!

(Fotografia de José Marafona)
Se eu souber que devo sofrer perpetuamente, poderei acabar com a minha vida.
(Séneca)
... existe em todos nós uma certa razão para morrer: uns antecipam-na, outros atrasam-na, mas há fraqueza e coragem em ambos os casos, embora seja necessária alguma discrição.
Existe um tempo certo para colher o fruto do cimo da árvore: se se demora a recolhê-lo, pode perder-se e apodrecer, havendo depois grande pena de o não ter apanhado a tempo.
(Pierre Charron)
[Citações constantes no livro Conversas terminais, de Fernando Esteves Pinto.]

Já seria de esperar! Como fã incondicional que fiquei das compilações "buddha-bar", não poderia demorar muito mais tempo para fazer uma nova aquisição. Isso seria impossível! Desta vez, a compilação V organizada, também, por David Visan. Sem dúvida que o excelente gosto deste músico, compositor..., me influenciou na escolha. Inequivocamente! E mais uma vez concluo que não me enganei. A recolha que é feita para este novo trabalho é absolutamente fabulosa. Melhor que para a compilação IV? A pergunta é legítima, acreditem, mas quanto à resposta... não sei. Pois, não sei... só posso falar em qualidade, em excelência, na vontade de ouvir e de sentir o que tal proporciona: um bem-estar e descontracção imensas.
Relativamente a esta compilação, dois destaques:
a participação/o envolvimento de David Visan em 4 temas e Mariza entre os artistas reunidos. É isso mesmo! Mariza consta nesta recolha com o fado "Loucura".
Enfim... definitivamente, a não perder. A não perder!

(Georges Bataille)
O riso é mais divino, é mesmo mais indecifrável do que as lágrimas.
(Georges Bataille- MINHA MÃE)

(Carlos Drummond de Andrade)
Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh... esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád... tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...
(Carlos Drummond de Andrade- O AMOR NATURAL)

(Fotografia de Bruno Espadana)
Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje- tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara-, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

(Gonçalo Tavares)
Só há um verdadeiro ser não colectivo, não social, como se diz por aí. E esse ser não é o que se isola, não é o que foge para a montanha ou para a floresta, esse ser é o que mata os outros, o que quer matar todos os outros para finalmente ficar sozinho, esse é o verdadeiro ser solitário.
(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)
Segue-se mais um conjunto de 12 fotografias de Henri Cartier-Bresson. Versam estas sobre a realidade do México, sendo absolutamente notória a atenção dada pelo fotógrafo à condição social de parte (que era a maioria) da população. Os exemplares que aqui apresento foram publicadas em livro pelas edições Hazan, Paris, 1995. Em título, o registo que tive em conta foi, Mexican Notebooks.
Façamos o percurso:
Fotografia 1:

(..., 1934)
Fotografia 2:

(Cidade do México, 1934)
Fotografia 3:

(Juchitan, 1934)
Fotografia 4:

(Cidade do México, 1963)
Fotografia 5:

(Cidade do México, 1963)
Fotografia 6:

(Oaxaca, 1963)
Fotografia 7:

(Puebla, 1963)
Fotografia 8:

(Los Remedios, perto da Cidade do México. Peregrinos, 1963)
Fotografia 9:

(Apizaco, perto de Tlaxcala, 1963)
Fotografia 10:

(Aguas Calientes. Festividades anuais, 1963)
Fotografia 11:

(Popocatepetl, Vulcão, 1963)
Fotografia 12:

(Xochimilco, 1963)
E já está mais um conjunto! Para muito breve, outro... Aguardem!

Um filme que prende. Uma história que vai acontecendo e em que as situações vão surgindo sem sobressaltos de maior. Existe um homem e uma mulher que se encontram. Repetidamente ao longo das semanas, encontram-se. E nesses encontros o cenário é sempre o mesmo. O seu estilo de contacto é o mesmo. Rotineiramente. Poder-se-á pensar em desprendimento generalizado, mas tal assim não é, como acabará por se constatar. O sexo é, mas para além dele, afinal, existe algo mais. Relativamente ao que se conhece: quem é um e quem é outro? Quem é um para o outro? De que vale esse conhecimento? Até quando é possível suportar o silêncio sobre o outro? E as vidas de cada um são o quê? Tocam-se em que vertentes?
Gostei deste filme. E gostei pelos problemas que levanta, sendo ou resultando estes das perguntas que formulo anteriormente. Gostei das interpretações de Kerry Fox e de Mark Rylance. Excelente o trabalho de ambos! Forma como a história é abordada e apresentada: com muita naturalidade, sobretudo tendo em conta as cenas de sexo. Patrice Chéreau, o realizador, não tem preconceitos quanto a estas. O que é, tem que ser mostrado. O que acontece é mostrado, com tudo o que isso implica de explicitez. Na minha opinião tal concepção torna o filme muitíssimo conseguido, pela não existência de subterfúgios. O realismo sente-se com maior intensidade. Atendendo ao estilo de filme e aos enquadramentos que se pretendem dar, o resultado é bastante bom.
Relativamente ao DVD, temos explicitado:
ARGUMENTO
"Ela vai a casa dele, todas as quartas-feiras ao fim da tarde, e fazem amor. Não falam, mas deve passar-se alguma coisa entre eles, porque continuam juntos e deitam-se junto à mesa, sem uma palavra.
Na semana seguinte, à mesma hora, ela está à porta dele. Despem-se imediatamente.
Se o sexo é uma forma de encontrar e conhecer pessoas o que é que ele sabe sobre ela?"
Quanto à DURAÇÃO:
c. 114'
Só uma nota final para sublinhar que Patrice Chéreau é mais um realizador francês sobre o qual me estou a debruçar em termos de conhecimento do trabalho desenvolvido. Vem, pois, juntar-se a outros que são já alvo da minha atenção.
Penso que é importante conhecermos o que se vai fazendo cinematograficamente, em termos europeus, e para além do mundo anglo-saxónico, em particular ao nível das temáticas abordadas e como o são. A este nível, a França, por exemplo, é um país que nos pode surpreender. Mas não só...

Pois é! Eis-me aqui com mais uma sugestão musical. Dando sequência à divulgação das minhas aquisições "cdgráficas" de ontem apresento-vos, agora, buddha-bar IV, uma excelente compilação de músicas e canções efectuada pelo músico, autor e compositor David Visan, datada de 2002.
Em todo este conjunto temos o espelhar dos gostos sonoro-musicais do compilador que incidem nos estilos asiático, mediterrâneo, europeu de leste, da África do Norte e da América do Sul. A variedade é, portanto, muito grande.
Quanto a buddha-bar IV, faz parte de uma série editorial de CD's (em conjuntos de 2) que já vai na 5ª compilação. A título informativo deixo-vos os nomes dos responsáveis pela junção das músicas e canções:
- buddha-bar I (1998): Claude Challe
- buddha-bar II (2000): Claude Challe
- buddha-bar III (2001): Ravin
- buddha-bar V (2003): David Visan
O nome da compilação resulta da extrapolação para registo musical do ambiente vivido num restaurante-bar em Paris (da zona da Concórdia), cujo espaço recriado é o de um templo asiático onde a figura de Buda se apresenta imponentemente.
Relativamente às restante compilações... só posso dizer que se tornou uma urgência a sua aquisição.

(Autor desconhecido)
"If you could save me..."
can you save me?
um rastejo de toque, um encosto de quentura, um sorriso trespassado, um rasgar de lábios tremeluzente, um corte de íris no espaço de um segundo milenar, o reflexo de um abraço na conquista da fé.
não creio nas palavras de uma louca.
está tudo distante de me alcançar. tudo distante de me revolucionar. tudo distante de amansar a batalha que se trava nos vestígios podres da alma. tenho um lugar novo a abolorecer na janela da mente. e pensar que sou alguém e pensar que sei chorar e pensar que estou alegre e pensar que tenho alguém e pensar que continuo a sofrer e pensar que ainda não sei morrer e pensar que só penso nesta MERDA.
fodam-se os meus sentimentos.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)
Os pesados horizontes carregam cinzentos a encobrir os céus azuis, afastam a luz entre pinceladas de negro, fortes rajadas de vento seco. Cheira a chuva. Não chove mas choverá. Choverá e as pessoas aceleraram o passo pois sabem que choverá. A tempestade não tarda e os bandos de aves dançam envoltos na carga eléctrica do ar, a investir nos mares de insectos viajantes. Cheira a chuva em todo o lado. Cheira a chuva e não chove. Os relâmpagos irrompem das trevas e os trovões ribombam nas montanhas do Bom Jesus, circundando esse vale metalizado onde a cidade avulta, inconstante, tropeçando nos rumores de gladiadores enfurecidos que julgam vencer a natureza.

Choverá e há imagens a cheirarem a chuva, pétalas de música que lembram o som da bátega contra as pedras do passeio e a sensação de peso atmosférico que esforça os pulmões, assola o corpo numa existência invisível. Chove. Chove e troveja. Caminho algures entre o destino e os pensamentos. Escuto o que a vida fala. Agora as ruas exalam a alcatrão molhado e o prometido aguaceiro descasca a pele despida dos meus ombros e escorre pela coluna abaixo entre arrepios demorados. A sujidade do chão escarrado é momentaneamente devastada e a transparência das cores eleva-se aos céus reluzentes que afugentaram as nuvens e levam aos poucos a chuva consigo.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas. Imagem: autoria desconhecida.)

Um álbum que adquiri hoje e que aconselho vivamente. A sonoridade é absolutamente fantástica!
Eis-nos perante o último trabalho discográfico dos "Anathema" (banda originalmente "Doom-metal" e de há um tempo a esta parte, em evolução). Quanto às canções:
1. Harmonium
2. Balance
3. Closer
4. Are you there?
5. Childhood dream
6. Pulled under at 2000 metres a second
7. A Natural Disaster
8. Flying
9. Electricity
10. Violence
E mais não digo nem pistas dou. Confiem!

(Autor desconhecido)
Vampiria, you are my destiny
My only Love and true destiny
Vampiria...
You're a beast, evil one
Above your head lays a Star
In your heart is buried the jewel
of a Serpent who wished to die
your red long tongue has her poison
And you will spread it as you breed
Conceiving the creed of all creeds
Vampiria, fly Vampiria
In your eye burn, defying
All those who in silence sleep
In a city once named Desire
Dreaming with the entombed dear
The lady has fallen in a blossom
Spread far away by undesirable winds
To females conspiring in gloom
Hiding your pearls from the pigs
So open your arms!
They were shaped as wings
A serenade of revenge draw on your lips
The sombre hill you're staying in
Is now defined
And your Star had start to shine
Depart now on your bright wings
The world envy
The skies have always seduced you
Precious Queen
and you know your time has come
To fly away with Me, so far...
(Letra de uma excelente... excelente... canção dos MOONSPELL.)
Parasita

Crescia por dentro, como um fogo em brasa ao vento. Lento comia pelas entranhas como vermes vivos festivos num banquete farto de carne putrefacta. Térmitas na madeira, acido na pele, lixívia no estômago. Queimava. Ora penetrava roendo nas paredes do coração, como subia pelo estômago deixando em ferida e carne viva as paredes intestinais. Rastejava lentamente num trilho de sangue, pela traqueia acima dificultando a fala, enrolando-se na língua e deixando-a seca. Por vezes entrava até no cérebro... onde furava a massa viscosa e mole do pensamento e se alojava no cerebelo junto às emoções mais primárias. Era um verme nojento, um parasita. Dominava o hospedeiro a seu bel-prazer, controlando os pensamentos, os movimentos, até o ritmo cardíaco.
Os infectados agiam todos da mesma forma, como máquinas programadas. Ficavam imbecis, dóceis e controláveis. Tinham um brilho estranho no olhar, e uma eloquência fluente no discurso. Tanta que ao falarem uns com os outros, o diálogo parecia erudita poesia ou mesmo musica. Quando o parasita não conseguia atingir o seu propósito o hospedeiro enlouquecia, entrava num processo de auto-destruição esquizofrénico, quase sempre irreversível.
O seu objectivo era simples, multiplicar-se desenfreadamente e tomar conta do mundo...
A ciência chamou-lhe amor.
Abraça-me amor, tenho frio

Abraça-me amor, tenho frio... dizia-te... e o teu olhar vazio atravessa-me sem fim. Os teus braços pálidos acolhiam-me inertes como o leito de um rio calmo e gelado. A tua pele mármore estava mais suave que nunca, os teus cabelos caídos sobre o rosto ocultavam-te o olhar e o teu corpo exalava um odor estranho, misto de terra seca e pó com perfume francês adocicado.
Murmuravas baixo palavras indizíveis que eu tentava perceber. Os teus lábios mexiam num movimento rápido de lábios intercalado com um pequeno esgar de sorriso, trocista e perturbador.
Abraça-me amor, tenho frio... que bom que voltaste para mim. Sentia-me tão só desde que foste embora. Agora que voltaste não te volto a deixar partir. Fica comigo nesta noite eterna. Fica!
E encostaste os teus lábios à minha face sem que te sentisse o respirar. O teu cabelo pendia para a frente deixando antever os teus olhos brancos e cegos, vazados pelo nada, olhos buracos. O teu sorriso continuava perturbador e intranquilo enquanto me sussurravas ao ouvido...
"Está na hora de partir... e levo-te comigo..."
Abraça-me amor, tenho frio... eu sei que já morreste mas não é por estares morta que vou deixar de te amar.
(Textos da autoria de "D. Quixote". Editados, originalmente, em Nox Scriptum. Imagens: autoria desconhecida.)

(Fotografia de Christian Coigny)
Não conheço o teu rosto de prazer, mas deve estar dentro desta frase.
Queres existir nesta folha do tempo que viaja dentro da minha mente?
Vou pôr um livro nas tuas mãos enquanto te despes.
Não quero que me ames se pensas que o amor é para sempre.
Tenho uma ideia da minha vida que nem sequer é verdadeira.
Uma história de amor.
E se eu te dissesse que amamos sempre pelas razões erradas?
Os erros eternos fazem grandes histórias de amor.
Mulher nua com livro. Chelsea Girls é tudo tristeza.
Não tenho uma imagem do teu sorriso. Não tenho um desenho da tua boca.
Desejas amar-me em que sentido?
Que tempo queres que exista para se dar o encontro?
Um nevoeiro corporal em tudo o que nos espera.
Tenho as tuas palavras mas esvaziei-as da emoção que traziam.
No fundo és uma luz no desejo de não existires.
E eu escrevo este tempo perdido no corpo que procuro.
Se eu deixasse de pensar e escrever, eu sei, tu não sentirias medo.
O espectáculo burlesco que vai na minha cabeça.
Esta manhã vi o teu rosto em todas as mulheres com quem me cruzei na rua.
É uma espécie de escrita em que vou abandonando pequenos pensamentos que não acho interessantes.
No fim fiquei sem nada, mulher nua com um livro a ser lido.
Tu amas o tempo e eu não vivo no teu tempo.
Tu amas as minhas palavras e eu não sou as palavras que escrevo.
O amor e a literatura são parecidos na mentira.
E é sempre triste não amar alguém porque se tem medo da mentira.
Tenho saudades dos teus dias passados longe da minha vida, é uma verdade.
Se isso não chega para se sentir o amor, nunca poderei amar a tua liberdade.
Mulher no tempo com livro aberto no coração nu.
Um dia encontrar-te-ei dentro duma frase que fale de amor.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

(Fotografia de José Marafona)
as noites são frias neste mar. mesmo assim enfrento as areias molhadas e sob o céu negro caminho a afundar-me no desespero de encontrar o fogo confortável das tuas mãos. mãos que escrevem o meu nome em palavras que pões a arder contra o tempo. palavras ateadas pela saudade como se o coração fosse uma boca a soprar essas folhas desenhadas na negra madrugada virada para o fim dos tempos. imaginas papeis que voam com o meu rosto impresso. imaginas braços de árvores frescas de sombras que te agarram numa carícia humana. imaginas a minha voz a acordar os teus pensamentos quando atravessas essas ruas longas e vazias. tens medo da minha distância. tenho medo do teu silêncio. se as palavras morressem nos teus lábios, perderia o sentido que me guiaria até esses lugares de solidão onde uma palavra está sempre a ser escrita. diz tu essa palavra.
(Texto editado, originalmente, em Memória Futura.)
Eis-nos perante mais um conjunto de fotografias de Henri Cartier-Bresson, desta feita, editadas no livro City and landscapes, Edições Delpire, Paris, 2001. São mais de 100 as fotos constantes nesta obra. Apresento 12, no sentido de dar uma pequena ideia do existente, objectivando igualmente estimular para a pesquisa/descoberta de outros trabalhos do fotógrafo.
Temos, pois:
Fotografia 1

(Indonésia, Bali, 1949)
Fotografia 2

(Irlanda, Província de Munster, 1952)
Fotografia 3

(Espanha, Castela, 1953)
Fotografia 4

(Portugal, Lisboa, 1955)
Fotografia 5

(EUA, Nova Iorque, Manhattan, 1959)
Fotografia 6

(Itália, Roma, 1959)
Fotografia 7

(França, Provence-Alpes-Côte-d' Azur, 1959)
Fotografia 8

(Grã-Bretanha, Inglaterra, Lancashire, Liverpool, 1962)
Fotografia 9

(Húngria, 1964)
Fotografia 10

(França, região de Ile de France, 1968)
Fotografia 11

(URSS, Rússia, Moscovo, 1972)
Fotografia 12

(Roménia, 1975)
Até breve, com mais um conjunto de fotografias!
não sei o que fazer. foi isso que ela disse. disse-o no meio da sala. também podia dizer de um lugar distante: não sei o que fazer. as palavras chegariam na mesma. intactas. feridas. sangrentas. mas chegariam inteiras para dar uma imagem do seu estado deformado. triste. sem beleza. e depois sentou-se no chão, sem conforto. abandonada. quem me dá uma injecção letal? eu estava a olhar pela janela a rua a nascer no movimento humano nessa manhã mortal e tão inconsciente. deixa-me ir ao pé de ti, assim, com todos os meus defeitos.

queres que te minta pela última vez? é quando levantas a questão da morte, quando te apetece dormir no gelo do tempo, que eu mais desejo amar-te. e depois fico a olhar a tua figura perdida. um monte de carne enrolado diante dos meus olhos. tento reconhecer o prazer que a imagem me dá: deixei de te sentir. estou muito longe de poder pensar no que seremos um sem o outro. recuso-me esse exercício de degradação. o tempo apodrece na minha mente. não sei o que fazer. tenho os meus pecados. construí uma obra cheia de defeitos. enganos. ilusões. foi assim que a vida correu contra mim. foi assim que eu vivi contra a tua vida. deixa-me ir até aí onde estás sentada. tenho uma coisa para dizer. não serve de muito, eu sei, sempre foi assim, inacabado. impossível. tudo adormecido na falta que o amor nos faz. agora os teus dias só dependem do que eu não poderei dizer-te. sempre estiveste nua na vida. nua de palavras. nua sem esse tecido que cobre o coração e nos protege contra o esquecimento.
(Texto editado, originalmente, em Memória Futura. Fotografia: autor desconhecido.)

(Autor desconhecido)
Morrer é a própria condição da existência. Junto-me a todos aqueles que disseram que é a morte que dá um sentido à vida, ao mesmo tempo que lhe retira esse sentido. O contra-senso que dá um sentido negando esse sentido. É o que mostra bem o papel da morte nas existências breves, ardentes, as existências muito curtas e devotas, qe devem à morte a sua força e a sua intensidade. É uma alternativa da qual não podemos sair. Desejaríamos simultaneamente o ardor da vida e também a eternidade, mas isso é impensável; é uma acumulação mais que humana e que supera a humanidade.
Assim, a alternativa que se nos coloca é a seguinte: ter uma vida curta, mas uma vida verdadeira, uma vida de amor, etc. Ou então, uma existência indefinida, sem amor, mas que não é de todo uma vida, antes parecendo uma morte perpétua. Penso que, se apresentássemos a alternativa sob essa forma, poucos homens escolheriam a segunda... Antes ter verdadeiramente vivido, nem que fosse apenas uma tarde ou um instante efémero. A esse respeito, o longo e o breve são equivalentes. Teria conhecido a vida. Teria pelo menos conhecido a vida, mesmo que tenha de a perder e, porque tenho de perdê-la, teria em todo o caso vivido.
(Vladimir Jankélévitch- PENSAR A MORTE)

(Autor desconhecido)
Uma pomba morta no chão da igreja.
Uma pomba morta no chão da igreja.
Há sangue no chão da igreja.
Sangue no chão da igreja.
SANGUE NO CHÃO DA IGREJA
Há penas no chão da igreja.
Penas soltas no chão da igreja.
E ninguém vê.
Ninguém vê as lágrimas.
NINGUÉM VÊ AS LÁGRIMAS
Ninguém vê o sangue.
Ninguém vê a morte.
Ninguém cheira a morte.
Ninguém ouve a morte.
Ninguém sente a morte.
A MORTE
Eu continuo. Eu continuo sempre.
Quem escreve o meu nome no vento?
Quem? Quem? Quem? Quem?
QUEM?
Olho os olhos enrugados do velho e digo-lhe:
Há sangue no chão da igreja.
E ele não vê.
E ele não ouve.
E ele não cheira.
E ele não sente.
Ele não sente o fim.
O FIM
E eu choro.
Eu continuo. Eu continuo sempre.
O coração pequeno da ave nas minhas mãos.
As penas brancas a cobrirem o sangue no chão da igreja.
E o sangue nas minhas mãos.
E as lágrimas no chão da igreja.
E eu vejo o sangue.
E eu ouço o sangue.
E eu cheiro o sangue
E eu sinto o sangue.
O sangue.
A morte.
O sangue e a morte.
O SANGUE E A MORTE
Eu aceno um adeus.
Adeus.
ADEUS
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Fotografia de José Marafona)
Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.
A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Dou então como aberta a exposição de fotografias de Henri Cartier-Bresson. Os trabalhos que se seguem são alguns daqueles constantes no livro Des images et des mots, trazido a público pelas Editions Delpire, Paris, 2003. Mais fotos desta publicação ficaram por apresentar, contudo, o meu objectivo é, fundamentalmente, chamar-vos a atenção para o fotógrafo e para algum do seu trabalho. Deixo-vos espaço para a pesquisa individual e para a descoberta. Penso que isso é, também, muito importante.
Mas agora atentem nos exemplos que se seguem:
Fotografia 1

(Alemanha, Berlim- 1931. Taxistas)
Fotografia 2

(Espanha, Madrid-1933)
Fotografia 3

(México, Cidade do México- 1934)
Fotografia 4

(EUA, Nova Iorque, Manhattan/Downtown- 1946)
Fotografia 5

(Índia, Kashmir. Srinagar. 1947-1948. Mulheres muçulmanas rezando.)
Fotografia 6

(Alemanha Ocidental, 1962. Início da construção do Muro de Berlim, que faria a separação com a parte leste da cidade.)
A exposição continua com o "folhear" de outro livro...
Faleceu no início deste mês de Agosto, no sul de França, um grande mestre da fotografia e do fotojornalismo: Henri Cartier-Bresson. H.C-B foi, no ano de 1947, juntamente com Robert Capa, fundador da agência de fotografia "Magnum", que tem ligada a si um conjunto vasto de profissionais que nos disponibilizam trabalhos de grande qualidade, sobre diversas realidades verificadas no mundo (e quotidianamente).
Cartier-Bresson destaca-se pelo vasto trabalho desenvolvido, todo num estilo a preto e branco, com recusa de "flash" ou da manipulação fotográfica. É o autor da tese do "instante decisivo" preconizadora de que o fotógrafo deve estar no local certo, à hora certa a fim de captar aquele momento que é único e irrepetível.
Viajou por mais de 23 países deixando registadas, dessas viagens, personalidades históricas, assim como a cobertura de acontecimentos. Vale a pena destacar, a título de exemplo, trabalhos versando sobre a Guerra Civil de Espanha, a libertação de Paris aquando da II Guerra Mundial, a morte de Mahatma Ghandi ou a queda de Pequim, provocada pelo Exército Vermelho de Mao Tsé Tung, em 1949. Mais tarde, já em 1954, é o primeiro fotojornalista ocidental a receber autorização para entrar na URSS (a morte de Estaline verificara-se um ano antes). Em particular antes do período da II Guerra Mundial, H. C-B exterioriza influências do Realismo Humanista, manifestando-se isso nas suas fotos retratando indivíduos em cenário urbano, captando instantes perfeitos da vida em movimento.
Deixou o fotógrafo uma série de livros publicados, com aquele que foi o trabalho por si desenvolvido ao longo dos anos. São, pois, algumas das fotos constantes nesses livros que irei trazer aqui ao Void, em formato de exposição fotográfica. Esta exposição iniciar-se-á já amanhã, prolongando-se pelos próximos dias até final do mês.
Conto com a vossa visita e participação registada, através de comentários!
Afogado

Tinha os olhos afogados no medo. Como se neles só restassem dúvidas.
E quase, sempre quase, fazia o gesto que o redimiria.
Mas eram incertas as coisas. Uma vida insensata, cheia de perguntas sem respostas. A vida era uma incerteza só. À exceção da morte.
Nunca a reconheceu quando ela surgiu na sua vida. Apesar de todos os sinais.
Do rio de palavras naturalmente partilhadas, subitamente acesas as idéias.
Dos olhos de ambos a sorrirem.
Do estremecer da pele quando a via.
Do desejo a caminhar-lhe os membros.
Da ocultíssima ereção até, que o ameaçava, ao olhar o seu decote.
Não a reconheceu.
Nem com a lava de ternura a invadir-lhe o peito.
Ou o impulso de deitar nas coxas dela.
Ou aquele perfume que parecia saber desde o início dos tempos.
E a vontade de aninhar-se nela.
Não a reconheceu ainda assim.
Nem com o sonho a despertar-lhe todos os sentidos e todas as palavras. Cada momento a abrir uma fissura na pedra que carregava em si.
Nada foi suficiente para movê-lo de onde estava.
Era um homem descrente. Não acreditava na verdade mesmo que a vivesse.
Um homem vencido pelas dúvidas.
Quando ela dobrou a esquina, pensou que talvez estivesse chorando. Que talvez seu corpo doesse porque era ela a ir-se. Contemplou longamente o corpo de mulher a desaparecer, sentindo esvairem-se todas as esperanças. Como se fosse ele a cair com a chuva miúda pela rua. Mas não esboçou gesto ou som.
E olhou com aqueles olhos afogados a paisagem em torno. Mergulhados na água, nenhuma nitidez.
a modo de reflexão

a noite – talvez também o dia – é um suceder de interrogações penduradas nos olhos que olham surpresos a profundidade do céu.
a noite é o espaço mais fecundo do desejo. nela as sombras são mais sombras e as silhuetas menos precisas; precisam do toque para saber que existem.
à noite – talvez também de dia – penso em ti. na razão pela qual o meu corpo encaminhou-se para o teu. sendo dois corpos tão estranhos um ao outro.
não tenho justificativa senão essa coisa obscura : desejar que me desejes.
enganamo-nos sempre às voltas com uma espécie de ética – ou estética – que justifique o desejo. como se ele não fosse parte inerente nossa. a questão está sempre na escolha. por que tu ?
na noite há muitas vezes em que essa pergunta não me surpreende, não me interessa. e o corpo e todas as razões além do corpo, toda a ternura, fundem-se. é quando tenho os olhos quase fechados e a tua boca , a tua voz – o desejo tatuado nelas - a dizer-me o que também quero ouvir.
noite ou dia sentir a tua falta é inexplicável. porque ainda que não estejas, não devias mesmo estar . e tudo é um total absurdo.
(Poemas da autoria de Eugênia Fortes. Editados, originalmente, em EUGENIAINTHEMEADOW. Fotografias de Christian Coigny.)
(Autor desconhecido)
eu pensava que podia ser alguém. eu acreditava que podia ser alguém mas era ninguém. era algo dentro de coisa nenhuma. era o nada fora de ninguém , não sendo o nada dentro de alguém. era o que não podia ser. era não ser, sendo.
era uma solidão só. estava tão só dentro do que não era. estava tão só fora do que era. estava tão só porque nem a solidão existia, porque não era coisa alguma.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Fotografia de Margarida)
- Gosto muito de ti, disseste.
- Eu também.
- Também gostas muito de ti, é?
- Não. De ti.
- E de ti, não gostas?
- Nem por isso...
- ...
- Bom... talvez goste da parte que gosta de ti!
(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA)
(Ilustração de Milton DaCosta)
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda.
(Carlos Drummond de Andrade- O AMOR NATURAL)

(Ary dos Santos)
Serei tudo o que disserem
Por inveja ou negação:
Cabeçudo dromedário
Fogueira de exibição
Teorema corolário
Poema de mão em mão
Lãzudo publicitário
Malabarista cabrão.
Serei tudo o que quiserem:
Poeta castrado, não!
Os que entendem como eu
As linhas com que me escrevo
Reconhecem o que é meu
Em tudo quanto lhes devo:
Ternura como já disse
Sempre que faço um poema;
Saudade que se partisse
Me alagaria de pena;
E também uma alegria
Uma coragem serena
Em renegar a poesia
Quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
A força que tem um verso
Reconhecem o que é seu
Quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
-É tão vulgar que nos cansa-
Mas que dizer de uma bala
Num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
-a morte é branda e letal-
Mas que dizer da memória
De uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
O poema dia a dia?
-Um bisturi a crescer
Nas coxas de uma judia;
Um filho que vai nascer
Parido por asfixia?!
-Ah não me venham dizer
Que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
Por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
Falso médico ladrão
Prostituta proxeneta
Espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!
(Poema da autoria de Ary dos Santos)

(Autor desconhecido)
olho-vos diante de quem não tem pés e sei de cor as sombras das árvores sobre o peso do céu azul, os carreiros de guerreias sanguíneas que pululam pelos cantos de vegetação rasteira. fizeram seus fortes algures, onde o olhar humano não alcança pois eleva-se a outras aspirações que, actualmente, resumem-se a disparates mal falados.
quero acreditar no que ainda não foi feito. quero sentir que um dia não serei eu a procurar mas sim a encontrada. que um dia, viajante se faça à estrada, e que desvie o destino para descobrir alguém que espera.
eu esperava, despida a quem dos olhos da alma visse o túnel da minha
e naquele momento eles fizeram-se à vida e levavam consigo os planos do dia
as palavras decoradas e os rostos largados à fotografia
ausentes dos enigmáticos olhares da vida, seguiam em linha.
e eu esperava, parada na margem da foz, que levava e trazia a minha voz.
dizer-vos imagens gravadas a arte no espírito sem nome. não há nome para isto. para quem se multiplica, há números; para quem se divide há túmulos; e para quem se abandona, há uma escrita sem dona. há sempre uma hora.
deixai-me roubar-vos a íris, por segundos, por momentos, por instantes que perduram o tudo ou o nada que alguma vez existiu nas vossas pegadas. e deixai-me respirar-vos por vidas inteiras o que ainda virá e o que já veio.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Autor desconhecido)
Saio à noite para caçar. Os tempos estão diferentes mas a fome continua igual. A imortalidade tem um preço e o meu pago-o todos dias, todas as noites em que sobrevivo de forma estranha, anti natura, obscurecida. Pois estou condenado a isto, a esta semi-existência. A esta vida de sombra e sangue. Semi-deus e semi-nada, abençoado com uma maldição.
Sou um predador, vivo no topo da cadeia alimentar. Sou dono da escuridão na noite que me abraça, aqui governo nas trevas de quem espera, no silêncio de quem aguarda, no meio do nevoeiro fino que me envolve como teias de aranha. Contudo... sinto-me tão vazio como os corpos que deixo, tão impotente como aqueles de quem me alimento.
Espero na esquina de sempre, com um ar sereno e calculista, olhar frio e fixo. As pessoas passam indistintas na multidão e eu predo atento aqueles que se destacam, os que ficam para trás na manada. Há sempre um mais fraco, tanta gente sem ânimo nem vontade, sem razões para viver. Esses são os mais fáceis, quase que se entregam de livre vontade à absorção mortal da minha faminta busca.
Prefiro esses, esses que não querem viver atenuam o meu dilema moral. Mato para viver sem estar sequer vivo. E nem sei se o quero estar. Não gosto de viver nesta imortalidade postiça, mas também tenho medo do nada para além disto que possa me esperar. Prefiro esses, sem duvida... já tenho tantos dilemas... sabem-me bem esses corpos mornos inanimados onde sorvo pausadamente o que resta das suas não-vidas, vidas inconsequentes de empregozinho insignificante, vidas tristes, vidas sozinhas... como os tempos mudam, a solidão é a doença deste século.
Eu também vivo só.
(Texto da autoria de "D. Quixote". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

Catherine Breillat, realizadora francesa nascida em 1948, é a responsável directa por "Romance". Estamos perante um filme que pode ser considerado por alguns como polémico e por outros como uma abordagem particular(íssima) de uma determinada realidade. E perante que realidade estamos? Estamos, de facto, perante uma abordagem que a realizadora tanto preza nos seus trabalhos: a sexualidade da Mulher. Mas estamos perante um tratamente temático profundamente introspectivo pela parte de Breillat, visualizado naquela que é a interpretação de Caroline Ducey, a personagem feminina central do filme.
Estamos igualmente perante um filme que pode levantar discussões em torno do conceito de "Pornografia". Por isto, também, é importante que seja visto. Aliás sobre a problemática em questão considera a realizadora:
" A pornografia não existe. O que existe é a censura que define a pornografia e a separa do resto do cinema. A menos que as pessoas achem que, como raça, nós somos pornográficos- caso em que precisaríamos de uma operação!
A pornografia é o acto sexual tirado completamente do seu contexto, e feito um produto de consumo, usando os mais baixos sentimentos ou emoções das pessoas, quando na realidade na vida diária o acto sexual está rodeado de emoções, respeito pelo parceiro, prazer, etc, o que não existe na pornografia. Portanto a pornografoa enquanto indústria é uma prostituição das mais normais e válidas emoções e actos humanos, que as pessoas experimentam na sua vida do dia-a-dia.
O cinema pornográfico não existe- não há cinema nos filmes pornográficos. Não há actores, porque eles não veiculam nenhuma emoção, nenhum personagem. São apenas carne."
Relativamente ao filme, disponível em DVD:
- ARGUMENTO
"Romance" conta a história do périplo sexual de uma jovem mulher francesa, professora que, de corpo em corpo- primeiro o marido, que se recusa a ter relações sexuais com ela; depois um estranho e, finalmente, um iniciado aos prazeres sado-masoquistas-, procura uma espécie de redenção espiritual.
Com uma precisão fria e uma intimidade invulgar, "Romance" desenha um retrato provocante de Marie, do seu percurso para recuperar o controlo da sua vida, no qual vai testar os seus limites físicos e emocionais."

- DURAÇÃO
C. 95'

(Fotografia de José Marafona)
Quando ainda era mesmo de noite e estavas ao meu lado disseste: não podemos ser felizes. Eu desejava-te tanto. Eu via os teus olhos através do ar da noite, sabia que estavas a meu lado e sabia que nos íamos separar. Vi-te partir. Os teus passos a afastarem-se de mim. Eu estava parado perante o horror, o medo. Tu afastavas-te de mim. Entravas em casa, como se saísses para sempre de mim. Saías para sempre de mim. O momento em que fechaste a porta: eu soterrado por todo o negro, todo o veneno negro. Uma faca fechada dentro dessa casa. Nunca, nunca mais poderás sair. A noite, a rodear-me, era o lugar negro onde existiam certezas terríveis: a morte, a morte de tudo. Entre as paredes das casas, a tua casa. Os vidros das tuas janelas fechadas reflectiam a escuridão do mundo. Os meus olhos derramavam escuridão sobre o mundo. Estavas ainda perto de mim, olhava para o lugar onde sabia que estavas, a casa que te continha e, no entanto, aquele casa era um lugar escuro, um poço, era como se tivesses mergulhado dentro da imensidão negra que existe dentro de cada um de nós. Eu sabia que nunca mais te voltaria a ver. Eu desejava-te ainda. Agora, desejo-te ainda. Sei que existem cemitérios. Sei que a casa onde estás, o lugar onde te imagino a fazer tantas coisas, a não te lembrares de mim, é um lugar de destroços. Vivemos rodeados de cemitérios. Aquilo que fomos está enterrado à nossa volta e nunca poderemos saber onde deixámos tudo aquilo que não voltaremos a ver. No céu, a lua é a mesma que existia quando, deitando-te, caminhei pelas ruas desertas. Os meus passos na noite. Os meus passos e, lentamente, o dia a nascer sobre as coisas da noite.
(José Luís Peixoto- ANTÍDOTO. Excerto que dá continuidade àquele editado a 19/07.)

(Jean-Paul Sartre)
Que significará aqui o dizer-se que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. O homem é, não apenas como ele se concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz. (...) Porque o que nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou seja, que o homem antes de mais nada é o que se lança para um futuro, e o que é consciente de se projectar no futuro. O homem é antes de mais um projecto que se vive subjectivamente, em vez de ser um creme, qualquer coisa podre ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a este projecto; nada há no céu inteligível, e o homem será antes de mais o que tiver projectado ser. (...) Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo o homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência. E, quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável pela sua restrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens. (...) Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda a humanidade.
(Jean-Paul Sartre- O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO)

(Homenagem a Fernando Pessoa por Dora Carillo)
Regra é da vida que podemos, e devemos, aprender com toda a gente. Há coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlatães e bandidos, há filosofias que nos ministram os estúpidos, há lições de firmeza e de lei que vêm no acaso e nos que são do acaso. Tudo está em tudo.
Em certos momentos muito claros de meditação, como aqueles em que, pelo princípio da tarde, vagueio observante pelas ruas, cada pessoa me traz uma notícia, cada casa me dá uma novidade, cada cartaz tem um aviso para mim.
Meu passeio calado é uma conversa contínua, e todos nós, homens, casas, pedras, cartazes e céu, somos uma grande multidão amiga, acotovelando-se de palavras na grande procissão do Destino.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

(Autor desconhecido)
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do inverno -
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar -
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural
inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o inverno da minha pessoa e da minha vida?
O inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do verão
E o frio da terra no cimo do inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o mundo.
(Alberto Caeiro- POESIA)
Mais um conjunto de pinturas e... mais uma sala que fica para trás. Mister Denham continua a impôr-se com o seu mundo rural, no âmbito daquele que é o seu conjunto de trabalhos. Nada de diferente, portanto, relativamente ao que já disse aquando da sua apresentação. Uma obra, sem dúvida, para considerar e para reter ao nível do "New British Naives".
Façamos o percurso:
Pintura 13

Pintura 14

Pintura 15

Pintura 16

Pintura 17

Pintura 18

Pintura 19

Pintura 20

Pintura 21

Pintura 22

Pintura 23

Pintura 24

Pintura 25

Pintura 26

Agradeço a atenção que têm estado a demonstrar ao longo destas salas. Mas... venham comigo... continuemos... ainda não acabou.

(Fotografia de José Marafona)
Sobre algumas campas apenas musgo,
sinal do cuidadoso esquecimento.
Sobre outras campas, flores murchas,
vigilante a recordação descuidada,
nem todos os mortos são iguais.
E le pauvre Apollinaire, que faz aqui,
e que faz aqui le pauvre Thierry,
que fazem aqui misturados os mortos e os vivos,
sempre diferentes e sempre iguais.
Ao tomar ar, junto com o odor do cemitério,
aspiramos até ao fundo os desejos de todos nós.
As rosas desfizeram-se sobre as lápides,
não assim essas humildes flores silvestres que passaram o inverno
adormecidas em pequenos prados, insignificantes florzinhas,
mas vivas: amarelas, diminutas.
E, depois, recordarei estes céus,
a chuva de hoje, estas horas e, por que não,
os corpos hospitaleiros que ainda continuam vivos.
Ridículos os consolos dos lábios,
e os olhos não vêem senão palavras,
dúvidas que não são dúvida, comentou alguém.
E, de imediato, os rectos ciprestes
apanharam um taxi e foram para a cidade,
em busca de quê, em busca de quê?
Sobre a folhagem vejo frequentemente
restos vivos de todos nós
e nas pedras partidas
sujos rostos de desconhecidos,
cadáveres formosos em nenhum lugar.
Como se fossem as linhas doridas de uma mão
atravesso, tudo está já adivinhado,
os estreitos e húmidos caminhos entre as campas.
A vida quotidiana aproxima-se correndo.
(Poema da autoria de Rikardo Arregi editado na revista Periférica, Verão 2004, p. 56)

(Fotografia de José Marafona)
Compreendi o sofrimento de repente, como se descobrisse um homem suspenso, imóvel, perdido e imóvel dentro de ser só o sofrimento e o mundo. Poucos momentos no céu e tudo tem sentido. O medo e o sofrimento como um gesto desse mundo de sonhos esquecidos e de rostos inúteis. Compreendi que no sofrimento existe um espelho com todo o tempo, um espelho que é concreto e invisível. Tudo é concreto e invisível: dentro de mim e longe de mim. Longe do toque dos meus dedos e dentro do meu peito. Compreendi que o fumo e o vento existem dentro do sofrimento. Quem conhece o fumo e o vento conhece o respeito pelo terror. O medo existe dentro do terror, muito perto do terror, como os homens existem muito perto de perder tudo. O medo, muito perto do terror, é um silêncio de homens e mulheres que existe no momento em que todos, homens e mulheres, percebem que existem muito perto de perder tudo. Dor e sofrimento nos olhos. Conheci o sofrimento de repente e foi muito cedo. O medo como um crepúsculo de nuvens. O medo incrível e impossível. O medo entre muros de medo. O medo é um segredo que só o silêncio de um rosto conhece. O medo entre muros de medo. Mulheres e homens, todos sozinhos, suspensos e imóveis num segredo único: o medo muito perto do terror.
(José Luís Peixoto- UMA CASA NA ESCURIDÃO)

(Fotografia de Cheri Pierce)
carraças agarram-se à pele do cadáver pestilento. uma pele roxa, mole e enrugada cobre o corpo nu que apodrece no seu interior. as vísceras são sugadas pelos mosquitos e devoradas pelos vermes. as formiguinhas fazem carreiro entre as axilas esburacadas e há abutres a arrancaram a carne putrefacta do peito. a cabeleira tornou-se numa pasta lamacenta e nauseabunda de detritos e cabelos emaranhados. é um covil de ratos que se alimenta da carne mais conservada, a do couro cabeludo, e que ficará por lá mais algum tempo devido às essências agradáveis da decomposição.
amanhece. os raios abrasadores do sol penetram no resto daquilo que outrora fora uma pessoa e aquecem o sangue estagnado que deixou de correr pelas veias dilaceradas, fazendo com que o corpo exale um cheiro a podridão ainda mais intenso do que anteriormente.
um homem e uma mulher aparecem no meio de nada. estão ofegantes e sentam-se violentamente à sombra da árvore mais próxima. têm os lábios ressequidos e vê-se que emagreceram rápido demais pois as peles encarquilhadas da barriga descoberta do homem, balançam desajeitadamente entre o espaço vazio onde antes existira sua pança e a mulher tem os braços flácidos, os peitos descaídos, murchos, e uma pele que ainda não se endireitou à nova forma corporal.
mal se sentam, a mulher levanta-se e atira pedras a um abutre. este não desiste do seu naco de carne apodrecido e a mulher salta para cima dele e tenta arrancar-lho do pico com os dentes enquanto suas mãos prendem as asas da ave e esmurram-lhe a cabeça. o abutre acaba por espernear e dar asas para longe. a mulher mastiga avidamente a carne podre que tem entre os dentes. um verme solta-se pelos lábios e ela vomita tudo. o homem, que assistira à cena toda de braços cruzados, aproxima-se dela pela primeira vez e dá-lhe um estalo chamando-a de parva. logo de seguida ajoelha-se a seus pés e lambe o vomitado da terra. a mulher olha em direcção ao horizonte. diz-lhe que mais virão. o homem pára e vira-se para o lugar onde os olhos dela se fixam. ergue o corpo e dirige-se aos restos mortos. começa por penetrar as unhas dentro do intestino delgado que ainda está fresco e em óptimas condições para os dias que ferveu sobre o sol escaldante. engole parte do intestino e um sangue vermelho escuro borra-lhe os lábios e o nariz. quando arrota a mulher chama-o. acolhe-se na sombra da árvore e o homem segue-a. está de pernas abertas e arfa selvaticamente. ele senta-se em cima dela e num repentino ataque de diarreia, caga-lhe no ventre. vira-se e fode-a de frente. a diarreia treme no ventre, de um lado para o outro, e desprende um cheiro horrendo a merda. ela grita de prazer e agarra-lhe as costas tirando-lhe pedaços de pele velha. agarram-se, beijam-se e ela morde-lhe o olho, arrancando-lhe parte da sobrancelha. cospe dentro da carne viva e depois trinca-lhe a bochecha, mais em baixo. o homem deita-se no chão de braços estendidos e ela agacha-se a seu lado, trincando-lhe bocados do rosto.
mais abutres aparecem. ela afasta-se dele a corre atrás dos necrófagos gritando sons indistintos e agitando os braços como as galinhas. o homem sem rosto volta a levantar-se e caminha até ao morto. ajoelha-se sobre ele e começa a balbuciar uma ladainha soturna e indecifrável levando as mãos aos céus e apontando em direcção ao horizonte. a sua face é um retalho de carne viva onde os poucos dentes deteriorados se movem vagarosamente de cima para baixo, emitindo ruídos indefinidos.
os abutres empoleiram-se numas árvores perto dali. o homem cai para trás esvaído em sangue e a mulher está de pé, com os braços erguidos, paralisados num movimento ofensivo, enquanto seus olhos perscrutam as árvores dos abutres. espera.
os ratos do morto rodeiam a face sangrenta do homem. ele treme com espasmos provocados pela dor atroz e, sem tempo a perder, os ratos atacam-lhe o rosto, mordendo a carne banhada em sangue. ele geme. leva as mãos à cabeça e tenta afastar os ratos mas tem nojo da própria cara despedaçada e grita, sem conseguir conter o sofrimento.
perturbada pelo grito, a mulher vira-se e achega-se ao homem. pega num pau e começa a sulcar a terra ao lado deste. o homem deixa de gritar. os ratos comem-lhe silenciosamente o rosto e a mulher continua a escavar. passado umas horas tem uma cova feita. ajeita-se, suada, e arrasta o homem que ainda está a ser devorado pelos ratos que agora atacam o pescoço. empurra-o para o buraco e ele geme. enterra-o. de seguida deita-se em cima do monte de terra e chora. por volta do amanhecer seguinte está às portas da morte. os abutres acercam-na, à espera.
cedo haverá almoço.
(Texto da autoria de "Execrável". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

Primeira Carta I
Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.
Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é paixão comum de exercícios diferentes, ou exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia, se vingança. Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício o seu sentido.
Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?
1/3/71
(Maria Isabel Berreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa- NOVAS CARTAS PORTUGUESAS)
As autoras (pela ordem de registo na obra) :

(Michel Meyer)
Os homens afirmam as suas diferenças através das suas paixões. Cada um é, em si mesmo, diferente do Outro e, nesse sentido, é-lhe idêntico. Isto não é contraditório, se considerarmos que, apesar de todos terem paixões, cada um exprime paixões diferentes. Um é mais colérico, outro mais benevolente, um terceiro é mais dado ao desprezo, etc. A paixão é, assim, não só o espelho do género humano mas também a sua fractura. Felizmente, as paixões tanto reflectem as complementaridades entre os homens como as suas dissonâncias. Mas, de qualquer modo, é preciso compreender as paixões humanas em vez de as negar, para procurar um equilíbrio na sociedade, uma espécie de denominador comum entre todos que nos permita viver em conjunto. A regulação das paixões implica o seu conhecimento.
(Michel Meyer- O FILÓSOFO E AS PAIXÕES- ESBOÇO DE UMA HISTÓRIA DA NATUREZA HUMANA)
Mais uma sala. Mais um artista. Mister Denham nasceu em 1946 e foi membro fundador do "New British Naives" (para complemento da informação registo como nomes que a si pertencem: Frank Smith, Frank Bentley, Lynne Walden, Derek Hower, Dean Williams, Eddie Bannister, Martine Genicot, Katy Edwards, Sandra Vanzant).
As suas pinturas têm muito presente a vida rural (ou a vida para além das grandes cidades) e o bucolismo a si inerente/dai decorrente ou que o pintor faz questão de salientar (curiosa, no entanto uma pintura, onde se abordam problemas de ordem social), nomeadamente relacionados com a efectivação de determinado tipo de valores.
Apresento, hoje, o 1º conjunto de pinturas. As restantes serão apresentadas posteriormente.
Para já:
Pintura 1

Pintura 2

Pintura 3

Pintura 4

Pintura 5

Pintura 6

Pintura 7

Pintura 8

Pintura 9

Pintura 10

Pintura 11

Pintura 12

Até breve, então!
Deixo-vos com um excelente conjunto de fotografias de Bruno Espadana.
Costumo dizer, por vezes, que "quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos animais". É verdade! E quando digo isso penso sempre neles, nos cães. Tenho um que adoro: é um Cão-de-Água e chama-se Picasso. Este post é dedicado a ele.
Fotografia 1

Fotografia 2

Fotografia 3

Fotografia 4

Fotografia 5

Fotografia 6

Fotografia 7

Fotografia 8

Fotografia 9

Fotografia 10

Fotografia 11

Fotografia 12

Fotografia 13

E já agora, até porque estamos em época de férias: NÃO OS ABANDONEM!

(Fotografia de José Marafona)
cá estou eu novamente a gritar as lamúrias de não saber o que sentir. quantos loucos estão agora a complicar as suas teias de abstracções com palavras incompreensíveis? compreenderei algum dia o que estou aqui a fazer? canso-me e descanso-me contra as páginas de outros mal-mortos seres, vasculhando os problemas ilógicos que são meus também. não inventaram nenhum remédio para a alma? não descobriram nenhum antídoto neste buraco furado do âmago onde o vírus se espalha, lentamente, em direcção à racionalidade? que mal é este, suportado pela fraqueza e pela sensibilidade doentia? mais e mais interrogações. tudo é questionado no calor sufocante da noite quando as queixosas vitimas do mundo adormecem nos seus lençóis de algodão fresco e as viúvas retornam aos seus prantos de meia-noite, quando os morcegos esgravatam suas asas ramificadas contra os céus arrebatados de luar e os nocturnos de chopin irrompem na escuridão do quarto incandescente e a minha irmã suspira pela última vez a sua realidade virtual penetrando no mundo de sonhos. Só aí, os pesadelos assomam à minha cama. Gemem e gritam silenciosamente violando os segredos mais íntimos e profundos da alma. debato as minhas ânsias, os meus medos e é tudo em vão. é tudo em vão quando a noite chama por nós, chicoteando-nos o corpo, o pensamento, como uma droga invisível que carece de seu consumidor. eu desejo desprender-me do ardor desses trapos e libertar-me nas orgias estelares de pureza que as trevas tecem ao anoitecer. Nunca mais acordar, nunca mais lutar pela ausência de coisa presente, nunca mais questionar o que já teve resposta, nunca mais perder o olhar no escriturário de gente plastificada, nunca mais avançar sozinha entre as multidões de leis universalizadas e nunca mais amar o sofrimento, sabendo-se a solidão.
ahhh…desisto.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)
o hoje foi triste como os hojes antigos. tropecei na esparguete de sonhos e o tecto da moralidade esburacou-se no porto-abrigo de amargura. ela olhou para mim e não viu nada. nada. tinha muito mais para oferecer do que esse vazio que ela absorveu sem amostras de interesse. nada mudou. nada mudou nos rostos da gentalha infeliz.
just five minutes of e-v-e-r-y-t-h-i-n-g
os pontos a picarem a folha como térmitas a espalharem-se pelo cadáver nauseante. o pontilhismo no amor, na incapacidade de esclarecimento. espeto-me dentro do branco de papel tentando esquecer o que sinto. o que sou. o seu olhar sério, frio e inacessível a fechar-me os olhos – vai-te vestir - como se fosse mais um de tantos outros. como se fosse ninguém. eu pensei em ti no momento da solidão angustiante. és alguém que não existe mas com quem eu falo. alguém que nunca beijei mas por quem suspiro. alguém por quem espero mas que nunca virá. estranho coração de vidro esmagado que me acompanha de dentro para fora de mim. estranho ser explorado no devaneio. estranho amigo que não faz perguntas.

as merdas a flutuarem na bacia do quarto e eu a escrever numa direcção suicida. uma suicida louca a afastar todos do caminho virgem. As palavras a foderem-se artificialmente e quero GRITAR quero esconder-me e sair nua à rua com um saco à cabeça. cabeça decepada. sexo primitivo. órgãos esventrados. corpo ventilado. rosto mutilado. tenho um caixão dentro do coração. as vértebras dos anjos quebradas. o filho da puta escrito a giz no alcatrão que cheira a chuva. a virgem que cheira a sexo. as palavras dela a entoarem na minha cabeça. as palavras dele a chacinar o meu interior.
Até quando você vai levando PORRADA PORRADA Até quando vai ficar sem fazer nada Até quando você vai levando PORRADA PORRADA Até quando vai ser saco de pancada
eu a encavalitar-me no irreal presente e a perder-me no azul do passeio. eu a lutar para alcançar as pedrinhas azuis. eram as únicas que me mantinham seguras. as que amava sem a censura humana. murmurava ingénua e ninguém morria. só tinha de existir e tentar sorrir. voar e jamais temer a queda. neste agora que já não me será presente, o tempo cai velozmente e eu nas suas asas de cristal. talvez um dia possa morrer sem pensar na vida.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas. Fotografia: autor desconhecido.)

(Fotografia de Alfred Eisenstaedt. Berlim, 1930)
Fotografia com que me deparei na Janela Indiscreta, blog que costumo visitar.

Se amar fosse o bastante, as coisas seriam simples de mais. Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida. Não é por falta de amor que Don Juan vai de mulher em mulher. É ridículo representá-lo como um iluminado, em busca do amor total. Mas é porque ele as ama com idêntico entusiasmo e sempre com inteireza, que lhe é necessário repetir esse dom e esse aprofundamento. Daí, todas esperarem ofertar-lhe aquilo que nunca ninguém lhe deu. De todas as vezes se enganam profundamente e só conseguem fazer-lhe sentir a necessidade de tal repetição. (...) Porque seria necessário amar raramente para amar muito? (...)
Don Juan domina, pelo contrário, a saciedade. Se deixa uma mulher, não é em absoluto porque já não a deseja. Uma mulher bela é sempre desejável. É, sim, porque deseja outra, e, de facto, não se trata da mesma coisa.
Esta vida satisfá-lo, nada é pior que perdê-la. Esse louco é um grande sábio. (...)
Há quem bastante se indigne (...) com os discursos de Don Juan e com essa mesma frase, que lhe serve para todas as mulheres. Mas para quem procura a quantidade das satisfações, só a eficácia conta. (...)
O que Don Juan põe em acto é uma ética da quantidade, ao contrário do santo, que tende para a qualidade. Não acreditar no sentido profundo das coisas é próprio do homem absurdo. Percorre esses rostos calorosos ou maravilhados, enceleira-os e queima-os. O tempo avança com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em "coleccionar" mulheres. Esgota-lhes o número e com elas esgota as suas possibilidades de vida. Coleccionar é ser capaz de viver do seu passado. Mas ele recusa a saudade, essa outra forma de esperança. Não sabe olhar os retratos. Será por isso egoísta? À sua maneira, sem dúvida. Mas ainda nesse ponto, temos de nos entender. Há aqueles que são feitos para viver e os que são feitos para amar.
(Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO)
Encerro, hoje, a sala de trabalhos de Aimo Katajainen. As pinturas que se seguem dão continuidade/aprofundam ao/o conteúdo da introdução que fiz no post de ontem. Permitem, pois, consolidar o conhecimento e a opinião sobre a obra do artista em questão.
Façamos, então, o percurso com o olhar:
Pintura 14

Pintura 15

Pintura 16

Pintura 17

Pintura 18

Pintura 19

Pintura 20

Pintura 21

Pintura 22

Pintura 23

Pintura 24

Pintura 25

A exposição continua, aqui ao lado, noutra sala, com...
Aguardem!