Desde o ano de 1962 que a personagem de James Bond, famoso agente secreto, faz parte do imaginário de todos aqueles que apreciam cinema, sendo tal imaginário constantemente reforçado naquele que é o acompanhamento das múltiplas aventuras e relações amorosas do herói. Interpretações excelentes tem vindo a ser feitas ao longo de todos estes anos por Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton e, ultimamente, Pierce Brosnan.
Os cartazes que se seguem, não ilustrando todos os filmes produzidos, dão uma ideia das muitas aventuras já pensadas, passadas para argumento e feitas chegar às salas de cinema:










Mas os filmes de James Bond caracterizam-se, também, pelas músicas que enriquecem as aventuras apresentadas, criando ambientes e reforçando a acção das personagens. Nomes como Matt Munro (1963), Shirley Bassey (1964, 1971, 1979), Tom Jones (1965), Nancy Sinatra (1967), Louis Armstrong & Nina (1969), Paul McCartney & Wings (1973), Lulu (1974), Carly Simone (1977), Sheena Eston (1982), Rita Coolidge (1983), Duran Duran (1985), A-ha (1987), Gladys Knight (1989), Tina Turner (1995), Sheryl Crow (1997), Garbage (1999) e Madonna (2002), contribuíam, pois, para que tal fosse uma realidade.
Objectivando recordar alguns destes filmes, assim como as vozes cantantes que a eles ficaram ligadas (ou com eles relacionadas pelas produções específicas verificadas), o blog MP3za na semana de 1 a 8 de Agosto, vai proporcionar-nos a audição de canções que, na história do cinema "bondiano", são uma inequívoca referência.
Convido todos a passarem por lá e a usufruirem, o mais possível, das tais referências que nos vão ser feitas chegar.
[Informação complementar àquela disponibilizada no blog Zen, no dia de hoje.]

(Fotografia de José Marafona)
Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
(Alberto Caeiro- POESIA)
Entramos na 2ª sala da nossa Exposição de Pintura Naif. O artista é, desta vez, Aimo Katajainen, nascido no ano de 1948 em Valkeala, na Finlândia.
Os seus trabalhos representam paisagens e realidades muito próprias do país a que pertence. Muito presente, o Inverno... a neve... e o que de ambos decorre em termos de ambientes e entretenimentos. Mas, também, outros aspectos e vertentes da vida quotidiana, noutras épocas do ano.
Atentemos, pois, no 1º conjunto de pinturas:
Pintura 1

Pintura 2

Pintura 3

Pintura 4

Pintura 5

Pintura 6

Pintura 7

Pintura 8

Pintura 9

Pintura 10

Pintura 11

Pintura 12

Pintura 13

Até breve, com o 2º conjunto de pinturas!

(Representação de Fernando Pessoa em azulejo, por Júlio Pomar)
De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tinha feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Com os poemas que se seguem, dou por concluída a edição de um conjunto de escritos onde o Erotismo é o tema dominante, particularizando-se naquela que é a produção de conteúdos e imagens de si resultantes, relativos a um tempo e espaço específicos. Procurei com estas 4 edições, antecedidas de outras publicadas na obra em questão (ver referência bibliográfica), divulgar poesia diferente daquela que é mais comum apresentar, enriquecendo-a/complementando-a com pinturas/iluminuras que, baseadas em realidades (ou melhor, suas representações/sugestões) espaciais do mesmo âmbito, sugerissem ambientes que, de facto, estão subjacentes. Registo que foi uma experiência interessante pelo que de mais-valia veio trazer aqui ao blog.
Mas... sem mais delongas... atentemos no que ai vem:
37.
Mesmo agora o meu espírito regressa
Ao seu leito Rio e danço entre as suas
Companheiras estreitando os seus corpos
Graciosos perdendo-me por fim
Entre as coxas da minha amada
38.
Mesmo agora ignoro se ela é parecida com Xiva
Ou alguma criatura criada pela maldição de Indra
Ou a esposa de Krisna ou se Brahma
Lhe deu vida para enfeitiçar o mundo
Ou para ver entre as jovens um clarão
39.
Mesmo agora ignoro se alguém neste mundo
Poderia descrever esse corpo
Que só a mim se desvendou Quem
Quisesse descrever essas formas voluptuosas
Só se conhecesse alguém que a igualasse
40.
Mesmo agora vejo os seus olhos
Escurecidos pelo antimónio
Os lábios ardentes os brincos
Agitando-se nas orelhas o corpo
Curvado devido ao peso dos seios
Sem que eu a possa possuir
41.
Mesmo agora se pudesse
Beijaria sem cessar esse rosto transparente
Como a lua de Outono capaz de roubar
O coração dum eremita Como não
De ter roubado o meu

42.
Mesmo agora sacrificaria tudo
Se me fosses permitido regressar
A esse santuário de prazer
Perfumado com essência de flores de lótus
Húmido ainda de esperma perante
O qual se prostrou o deus do amor
43.
Mesmo agora neste mundo
Onde os sinais de beleza se defrontam
Encarniçadamente o meu coração
Acredita que ninguém conseguirá
Eclipsar a beleza da minha amada
44.
Mesmo agora sobre as ondas frementes
Do rio do meu espírito a minha amada desliza
Como um cisne real imputando
Às carícias fugidias dos grãos de pólen
A sua ligeira fadiga
45.
Mesmo agora sonho com essa princesa
Filha do mais nobre dos reis
Com os seus olhos ardentes de desejo
Criança que um dia desceu dos céus
Filha dos músicos celestes dos génios dos cantores
Divinos dos deuses e da serpente-virgem
46.
Mesmo agora não consigo esquecê-la
Ao acordar curvando-se perante o altar
Os seios como cântaros cheios de néctar
O corpo com adornos coloridos

47.
Mesmo agora recordo a beleza doirada
Do seu corpo sugerindo fadiga
Para não parecer impudica
Perturbada pelos meus beijos apaixonados
E pelo contacto das nossas coxas
Ela deixava- como uma planta por onde
Sobe a seiva- que o desejo a possuísse
48.
Mesmo agora recordo como era implacável
Na batalha sem armas do amor
Como nós apesar de enlaçados
Nos conseguíamos levantar e deitar
Sem o apoio das mãos Recordo
O sangue das mordeduras nos seus lábios
E dos arranhões nas suas coxas
49.
Mesmo agora não consigo imaginar
Como poderia suportar a dor da separação
Só a morte- que ela chegue depressa-
Poderá dissipar essa dor
50.
Mesmo agora Xiva não rejeita o negro veneno
A tartaruga transporta no dorso a terra
O mar alberga terríveis fogos
A mim só me resta cumprir o prometido
[Jorge Sousa Braga (Introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]

(Autor desconhecido)
tenho medo. de noite, quando não consigo dormir, a morte
ressuscita mortes. deitado sobre a cama, uma mão negra
desce do tecto para me tocar no peito. tenho medo. silêncio
e frio sobre o meu corpo. olho para dentro de mim e não
vejo nada. tenho medo. todos os que me chamam de dentro
da escuridão sabem que há uma casa com paredes antes
de mim, sabem que eu não sou aquele que ilumina o mundo.
tenho medo. quando não consigo dormir e prolongo as
noites, a culpa envolve-me de medo e frio, o silêncio diz-me
para esperar, pois o descanso virá com a noite maior,
a noite em que a manhã nunca chegará.
(José Luís Peixoto- A CASA, A ESCURIDÃO)

(Autor desconhecido)
hoje vi a noite tornar-se dia. podia ser ontem mas foi hoje. e eu tive frio. tive muito frio mas soube que tinha de aproveitar
todos os momentos
pois amanhã, podia já não estar ali. e eu vi. vi as ruas indistintas a nascerem da claridade. vi os céus negros de tempestade e a negrura anoitecida a verterem clarões de azul esbranquiçado que lembravam os dias das viagens longas, quando na madrugada acordávamos com os pássaros e com os padeiros. vi uma noite de verão a morrer para o dia. e foi fresco. não foi a podridão súbita dos corações daqueles a quem a solidão visita mas a frescura do rebentar da luz. uma luz que ao principio tremeluzia, ténue e humedecida, e que depois cresceu e cresceu, varrendo o mistério das ruas, entre os becos sem saída e os caixotes de lixo derrubados, e que inundou os corpos daqueles que acordavam ainda ensonados para a vida na terra sem a lua. eu observei e como se pela primeira vez, entrei dentro do tempo e tornei-me parte dessa morte, desse renascer, dessa transformação magnífica que se repetia interminavelmente, todas as vezes como se fosse a primeira vez, até alguém fechar a luz e o mundo acabar para quem o vê.
but not for me yet.
desviei o olhar daquele céu esburacado pelos focos luminosos de uma lividez divinal e olhei para o meu lado. o lado das pequenas coisas. e percebi que, por vezes, precisamos de olhar para as pequenas coisas para descobrirmos a nossa verdadeira grandeza.
naquele momento não houve lágrimas, não houve o peso no coração que molesta o que temos cá dentro mas sim a grandeza de crescer, de acabar, de pertencer, de ser, de poder, de viver. de viver. de sentir as veias a arroxear devido ao frio e os pêlos a eriçarem-se pelo corpo acima e a ponderada expiração entre golfadas de brisa matinal e o silêncio. um silêncio que não possuía palavras porque estas seriam demasiado impuras para a sua magnitude, para a sua dimensão sobrenatural.
vai à procura e permita-me que te diga: escuta o silêncio. escuta o silêncio da vida.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

Um projecto nascido este Verão e que nos permite ter verdadeiros momentos de evasão. Um espaço para entrar, explorar, ficar e voltar. Voltar, sempre.

SUSO DE TORO
Na madrugada
Acordou a meio da noite com aqueles latejos, sentia-se como se estivesse deitado sobre um animal vivo. Com horror constatou que o colchão latia e todo ele tinha a consistência de um animal vivo, mole e subtilmente móvel. Uma coisa viva debaixo de si. E ser-lhe-ia hostil? Envolvê-lo-ia aquela coisa branda para devorá-lo parcimoniosamente? O terror era um suor frio que ensopava o colchão e o alimentava, ali imóvel a escutar aquele animal debaixo de si na madrugada.
Se calhar, dava-se próximo do amanhecer.
E ali estava aquele homem
O dinossauro contemplava com curiosidade aquele homem que estava a dormir placidamente. Então o homem acordou e berrou aterrorizado, vendo-o ali a olhar para ele. O dinossauro assustou-se muito com os seus berros e esmagou-o com a sua pata uma vez e mais outra até que o homem parou de agir e voltou à sua imobilidade. Logo o dinossauro voltou a contemplá-lo com curiosidade.
(Textos editados na revista Periférica, Inverno 2004, p. 53)

(Autor desconhecido)
os calafrios esquartejados pelo corpo. as pontinhas afiadas das agulhas nos segundos de pele arranhada. os GRITOS flamejantes da loucura a perfurarem os poros dilatados da mente
estrago físico. estrago emocional
as unhas com restos de carne a fecharem-se sobre as pálpebras ressequidas. o velho sangue a escorrer pelo canto dos olhos até às gretas dos lábios. esmurrar-se incontrolavelmente na esperança de que o sofrimente cesse
voltas e voltas sobre os membros cansados
- quando é que isto parará?!?...
frio
frio a estremecer o resto de luz existente. frio a percorrer as veias, o interior desconcertante. um martelo a debater-se contra as teclas do piano
- POM. PLIM. PLIM. PLUM. POMMM. PUMMMMMMMMMMMMMM
nunca mais acaba. nunca mais acaba. as vozes estridentes a subirem pelas goelas estranguladas. um tumor a enegrecer as janelas e o chão do quarto lâminas esmagadas a esfolarem as paredes da caixa toráxica
e tu agarras os ossos do peito, sufocas entre os soluços agoniantes e gritas até não haver mais um som vitorioso
o silêncio
- quem está aí?
pensamentos a sacudirem a cabeça com força. dores e dores em todo a parte mas não consegues chegar a lado nenhum
os dias a morrerem lá fora. as noites a morrerem cá dentro
- não aguento mais. não aguento mais. não aguento mais. mais não. não. não.
não aguento mais. NÃO AGUENTO MAISSSSSSSS
o desejo de retornar ao que antes se tinha
a loucura
o desespero
a impossibilidade do confronto
a saída.
(Texto da autoria de "Execrável". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

Durante meses, fui uma forma sem forma que ocupava espaço na tua vida, mas sem que a esta ocupação de espaço correspondesse uma sombra- não existia além de ti, quero dizer.
Para os teus colegas amigos familiares, não existia, ou pelo menos não enquanto a verdadeira dimensão de mim e de ti. Toda a gente sabia quem eu era, o que fazia, o que tinha sido, mas não o que significava realmente.
Durante meses, suportei ser um ser amorfo, isento de extensão. Mas isso foi durante meses. Nesses meses, enquanto namorado (seja lá o que isso for), aceitei não o ser. Mas como amigo, aquilo que tu dizes que vamos ser, não consigo. Na ideia de amigo, no meu conjunto de atributos que qualificam a palavra amigo, não consigo compreender a ausência.
Por isso não a vou aceitar.
É o fim, disse-te, aliás escrevi-te. Agora recordar-te-ei apenas.
É o fim.
E é mesmo.
(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA)
Termino, com este conjunto de pinturas, a exposição de trabalhos de Bert-Hage Haveros. Fecha-se, pois, esta 1ª sala. Mas a apresentação de pinturas continua, com outros autores. Um registo adiantado: o próximo artista pertence, também, a um dos países do Norte da Europa. Mas... apreciemos, agora, o que se segue:
Pintura 37

Pintura 38

Pintura 39

Pintura 40

Pintura 41

Pintura 42

Pintura 43

Pintura 44

Pintura 45

Pintura 46

Pintura 47

Pintura 48

Até breve, então, com um outro artista... numa outra sala.

(Fotografia de Urs Kahler)
a fazer nada como sempre [como se faz nada? não se fazendo algo, eu acho] cuspo-me para dentro de uma taça de gelado. há mãos encarquilhadas, esguias e monstruosas a penetrarem a solução viscosa de pedaços nus. meus lábios gretados a engolirem-se depravadamente num acto de canibalismo sexual. uma janela aberta sobre uma parede negra. negra e lisa. húmida e cavernosa. a hora de adormecer. quando me deito, os ossos entrelaçam-se numa comunhão bastarda de ideias decompostas. um puzzle de peças incombináveis a insultarem-me a razão [sei - não sei] um espanta-espíritos que nada faz pelos mortos racionais. labaredas de palavras loucas a conspurcarem-me as viragens do sono entre o descanso da mente. não há descanso. viravoltas pegajosas nos pesados pensamentos insolentes. estafadas luas em torno de minha criatura desassossegada. hediondos vermes de sussurros a maldizer o meu estado espiritual. horas de um tempo que me entorpece a alma e me cansa o corpo. um hórrido momento de evocação que me assombra o peito e que me empalidece o rosto e que me encurva a visão para a escuridão tenebrosa de um inferno alucinante. o aperto do sangue nas veias saltitantes a desejar-me mórbidos episódios de destruição [destruir-lhes ou destruir-me?] enquanto pequenas cápsulas de instantes fotográficos, ganham vida e infiltram-se pelos meus ouvidos como gumes de punhais a despenharem-se num abismo, estilhaçando-se pela minha mente, pelo meu cérebro que fervilha à procura do verde. o verde idílico dos pastos nas tardes amenas de verão. o vento que se aloja nas tenras folhagens verdes dos carvalhos, das bétulas e dos castanheiros e que espalha as suas essências mágicas pelas terras virgens de ninguém. existe um lugar, dentro dos outros lugares, liberto do tempo e da mão emporcalhada do homem, onde a pastagem cresce rápida e desordenada, livre de qualquer naifa assassina, e onde os rios namoram os galhos de árvores e satisfazem as bocas sedentos de seus visitantes, onde a água reflecte os focinhos dos mais atrevidos e por onde os raios de luz deliciam até aos mais afastados e aos mais fracos cantinhos de terra isolada. um lugar que visualizo por entre as sombras demoníacas do delírio, tentando atenuar a angústia e por fim repousar.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)
(Fotografias de Sally Russ)
as sombras roedoras dos teus passos pela casa vazia. deixas os sorrisos em cada passagem silenciosa e as palavras pregadas às paredes nuas. a casa alucina-se. a tua mente desfila pelos corredores assombrados à procura das memórias. quantas estrelas vês cair no parapeito da janela quando o lento respirar dos inocentes atravessa o quarto? apanhas as estrelas na tua mão a guardar um espaço para o meu colo. eu olho-te da chama invisível que embate no luar invasor, entre as cortinas soluçantes, e vigio o teu sono agitado, pecando contra a fragilidade existencial do João-pestana.
deixas-te a sós com as marionetas de papel teatral e cercas-te nos muros do tempo para que este não custe tanto a morrer. trazes para dentro da casa os depósitos de restos emocionais e as minhas mãos crescem dentro do teu peito, envolvendo-o, apertando-o, esmagando-o, afogando-o nas labaredas ardentes da querença. querer-te forma palpável a preencher as falhas corroídas da presença até esquecer o sabor amargo da ausência.
os consistentes murmúrios da cidade ainda vagueiam pelos cantos ocos das divisões. os teus pés descalços gelam de encontro às lajes rijas, uma frieza inconsolável. a camisa alarga-se pelas esquinas dos móveis e deixa-te um espaço incorrigível, junto ao peito, onde eu perdi o meu coração.
corto a insónia no instante em que me deito sobre o teu corpo e a minha figura se estende pelos teus dedos dos pés até aos dedos das mãos e os meus cabelos se soltam na concavidade fofa da tua almofada e toda a minha pele veste a tua, os meus lábios beijam os teus, o teu ar solta-se pelas minhas narinas, a minha visão inunda-se pela tua íris e os nossos sonhos entornam-se uns aos outros. estamos em uníssono na mesma barca do sono. fechamos os olhos e por fim a casa adormece enlaçada nas nossas mãos vazias.
o silêncio.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Fotografia de José Marafona)
vejo deus acenando os dias ao
dorso do mundo e acredito
na sua exactidão e
salvo-me de qualquer
pecado. porque deus dá pequenos
diabos a quem não tem
santos. e aceito a sua
natureza divina como divino
o seu segredo. não me
acossam a boca os
enganos. abrigo-me na caso que abro e
range, e calo-me.
(Valter Hugo Mãe- ESTOU ESCONDIDO NA COR AMARGA DO FIM DA TARDE)

(Fernando Pessoa)
Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isso mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.
Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo melhor. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência... Vejo-me no quarto andar da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mato-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui, eu, assim!...
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
(Fotografias de Sally Russ)
as sombras roedoras dos teus passos pela casa vazia. deixas os sorrisos em cada passagem silenciosa e as palavras pregadas às paredes nuas. a casa alucina-se. a tua mente desfila pelos corredores assombrados à procura das memórias. quantas estrelas vês cair no parapeito da janela quando o lento respirar dos inocentes atravessa o quarto? apanhas as estrelas na tua mão a guardar um espaço para o meu colo. eu olho-te da chama invisível que embate no luar invasor, entre as cortinas soluçantes, e vigio o teu sono agitado, pecando contra a fragilidade existencial do João-pestana.
deixas-te a sós com as marionetas de papel teatral e cercas-te nos muros do tempo para que este não custe tanto a morrer. trazes para dentro da casa os depósitos de restos emocionais e as minhas mãos crescem dentro do teu peito, envolvendo-o, apertando-o, esmagando-o, afogando-o nas labaredas ardentes da querença. querer-te forma palpável a preencher as falhas corroídas da presença até esquecer o sabor amargo da ausência.
os consistentes murmúrios da cidade ainda vagueiam pelos cantos ocos das divisões. os teus pés descalços gelam de encontro às lajes rijas, uma frieza inconsolável. a camisa alarga-se pelas esquinas dos móveis e deixa-te um espaço incorrigível, junto ao peito, onde eu perdi o meu coração.
corto a insónia no instante em que me deito sobre o teu corpo e a minha figura se estende pelos teus dedos dos pés até aos dedos das mãos e os meus cabelos se soltam na concavidade fofa da tua almofada e toda a minha pele veste a tua, os meus lábios beijam os teus, o teu ar solta-se pelas minhas narinas, a minha visão inunda-se pela tua íris e os nossos sonhos entornam-se uns aos outros. estamos em uníssono na mesma barca do sono. fechamos os olhos e por fim a casa adormece enlaçada nas nossas mãos vazias.
o silêncio.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)
Eduarda
E, de cada vez que tentavas fugir, eu agarrava-te. Voltavas a ficar em cima de mim. Voltavas a pôr o desejo em marcha. Fiquei viciada na tua pele. Inesperadamente. No teu olhar na cama. Nessa tua incapacidade de dizeres não. Nessa tua vontade de me levares para outro lado, um lado melhor. Com todo o prazer. A tua segurança e a maneira como desvias os olhos quando a conversa se torna mais séria. Olho para ti e pergunto-me o que sou. O que estou aqui a fazer. O que tu me estás a fazer. Há mais de um ano que não sei nada disto. Que não sei quando esconder as minhas coisas, o meu ser. Quando mostrar. Mas tu és uma mulher e tudo parece diferente. Dizes que estás numa ordem diferente do resto, que já nada se encaixa aqui. Queres dar-me palavras novas. Eu aceito-as, porque tu me dás contentamento. Porque me puxas e eu vou. Porque se soltam as coisas cá dentro e eu vibro. Pasmas-me. Pasmo-me. E tudo se mistura no prazer. Não quero sair do quarto. Não quero sair do teu corpo. Quero ficar aqui e quero que estejas comigo. É maravilhoso. De onde isto surgiu? Esta capacidade de renovação que não sabia possível. Este leve esquecimento de tudo o que me atormentou e, por certo, ainda me atormenta. Para onde me levas?

Nenhuma de nós confessa, mas estamos atrapalhadas. Atrapalhadas, depois do amor, atrapalhadas nas palavras que se devem dizer. Que se querem e não se querem dizer. Atrapalhadas. Não sabes bem onde pôr as tuas mãos ao dormir. Uns minutos antes de adormeceres, quando já estás mesmo quase, quase a dormir, deixas de ficar atrapalhada. Abraças-me por completo. Pões a tua perna por cima das minhas. Eu rio-me. Quer dizer que sou tua? E falas, dizes coisas, baixinho, que não etendo. Eu beijo-te. E tu sorris. Quando estou contigo assim, sinto-me maravilhada. Não compreendo o que me está a acontecer e apetece-me ficar para sempre assim. Dás-me novas direcções, mas tu própria pareces não conhecê-las. E penso que nada será alguma vez comparável a isto, aconteça o que acontecer. Nem ele, que lá está, como uma dor já minha. Preso à minha identidade. Nem ele pode afectar-nos. Pergunto-me porquê. Se serás tu, com essa tua generosidade mascarada de pretensão. Se será este momento, com o renascer para o amor, o fim da dor. Se será por seres mulher, com toda a novidade e surpresa que isso implica. Pergunto-me. E não chego a nenhuma conclusão.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM. Fotografia de Christian Coigny)
E eis-nos perante mais um conjunto de 12 pinturas do artista que temos vindo a apresentar: o sueco Bert-Hage Haveros:
Pintura 25

Pintura 26

Pintura 27

Pintura 28

Pintura 29

Pintura 30

Pintura 31

Pintura 32

Pintura 33

Pintura 34

Pintura 35

Pintura 36

Para breve, mais uma outra dúzia de pinturas.
Gritos embalsamados
(Execrável)

o pesadelo retoma a realidade noctívaga. as vestes moribundas do luar ocultam-se nas sombras matreiras da cidade. o cheiro ácido da chuva sobre a relva domesticada, os passos rastejados dos que caminham para o dia, os copos das cerveja partidos no chão de beatas pisadas. o crescente soluçar da morte em cada esquina desafortunada. as lamúrias doentes dos que se fecham dentro das quatro paredes infernais da alma. os corpos a chocalharem uns contra os outros. a noite a sufocar, a sufocar, estrangulada. gritos amarrados ao céu-da-boca. estrelas que caiem sem que alguém faça um desejo.
as estrelas estão aprisionadas na escuridão dos céus e só na morte encontram uma escapatória ao buraco negro do infinito. quem fará um desejo por elas quando estas rasparem a superfície dos sonhos?
A noite chega...
(D. Quixote)

A noite chega e com ela a escuridão. A fobia de mais uma noite de tormento, o confronto com os meus demónios. O vazio desta cama solitária, a claridade incómoda do pensamento, e os ruidos negros do silêncio do meu quarto, as trevas... estas trevas que me rodeiam, que se infiltram em mim e me fazem temer os monstros que guardo dentro do meu peito pesado e comprimido.
Tudo é um silêncio insano, violado apenas por um tiquetaquear insolente e endoidecedor de relógio de parede e pelos gritos na minha cabeça. O meu desassossego dá lugar aos fantasmas que me visitam. Sombras e vultos desconhecidos fitam-me estarrecidos aos pés da minha cama, como a morte que me espera, inevitavel um dia, uma noite.
A noite chega e nunca mais acaba. Com ela a minha alma perde-se aos poucos, a minha sanidade já cá não está. O meu ser liquidesfaz-se putrefacto num leite negro sobre um manto de folhas secas e terra preta em que a minha cama se tornou, os gritos esvoaçam à minha volta como fumo que me envolve e intoxica cortando o ar e a respiração... e noite parece não ter mais fim.
Acordo... mais uma noite, mais um pesadelo...
(Textos editados, originalmente, em Nox Scriptum. Fotografias: autor desconhecido e Val, respectivamente.)
... uma merda...
Revolto-me com a vitória da mediocridade, da imbecilidade, da afronta à inteligência.
Revolto-me com o infantilismo estúpido, com o dar espaço para o assalto à "coisa pública".
Revolto-me pela não possibilidade que tive de exercício do direito de uma vertente da cidadania...
Revolto-me porque me tratam sem consideração.
Revolto-me porque me querem atirar, descaradamente, areia pelos olhos dentro.
Revolto-me pela falta de coragem de quem não teve força para impedir isto... e para pôr termo ao que vinha de trás.
Revolto-me porque estamos a viver um período de circo... sim, porque nem condições para o pão há.
Uma merda!

- Sabes o que é realmente bonito de se ouvir? mesmo muito bonito?
- Diz.
- Prometes que não gozas?
- Prometo, diz.
- A sério?
- Sério. Diz.
- A coisa mais bonita de se ouvir, mais melodiosa, doce, que nos faz sentir bem e em paz, sentindo a comunhão e paixão, desejo em comum e partilha.
- diz
- que nos explica porque viemos a este mundo e nos comprova que pertencemos a ele.
- Desembucha
- que ao primeiro sopro nos mostra estarmos vivos, e que, acima de tudo, somos importantes, pelo menos para alguém somo-lo, é...
- Diz, fala, fala de uma vez...
- tão só... em pequenas partículas de existência e ser
- diz diz
- de forma tão singela
- ...
- a respiração de outra pessoa ao nosso lado.
(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA)

o sol e a lua a caírem juntos.
o sol. o sol. o sol sobre as angústias de carvão.
depois as trevas.
tenho frio.
o frio vem sempre depois do sol.
tenho medo.
as minhas sombras de carvão.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)
Continuo a edição de pinturas de Bert-Hage Haveros. Mais um conjunto de 12 trabalhos a dar sequência ao que disse aquando da sua apresentação. Mais um reforço das ideias. Mais um sublinhar.
Continuemos o percurso:
Pintura 13

Pintura 14

Pintura 15

Pintura 16

Pintura 17

Pintura 18

Pintura 19

Pintura 20

Pintura 21

Pintura 22

Pintura 23

Pintura 24

Desejando bastante que estejam a gostar, despeço-me com um novo "Até breve!"

(Oscar Wilde)
1. Se alguém diz a verdade, esse alguém será, seguramente, tarde ou cedo, apanhado.
2. Nada que realmente tenha acontecido tem a menor importância.
3. A maldade é um mito inventado pelos sensaborões para diminuir a capacidade de sedução dos outros.
4. Se os pobres apenas tivessem perfis, não seria difícil resolver o problema da miséria.
5. O Prazer é a única coisa para que se deve viver. Nada envelhece tão bem como a felicidade.
6. Só os superficiais se conhecem a si mesmos.
7. Deve ser-se sempre um bocadinho improvável.
8. Aqueles que vêem alguma diferença entre a alma e o corpo é porque não possuem nenhuma das duas.
(Oscar Wilde- POEMAS EM PROSA)

CESÓNIA: Choras?
CALÍGULA: Sim, Cesónia.
CESÓNIA: Enfim, mudou alguma coisa? Se amavas Drusilla, também me amavas a mim e a muitas outras. Não havia razão para que a sua morte te fizesse correr três dias e três noites pelos campos e te trouxesse agora com esse ar hostil.
CALÍGULA, voltando-se: Quem fala de Drusilla, doida? Não podes imaginar que um homem chore por outra coisa, a não ser por amor?
CESÓNIA: Perdão, Caius. Procuro compreender.
CALÍGULA: Os homens choram porque as coisas não são como deviam ser. (Ela avança para ele.) Não me toques. (Ela recua.) Mas fica ao pé de mim.
CESÓNIA: Farei o que quiseres. (Senta-te.) Na minha idade, já se sabe que a vida não é boa. Mas se o mal está na Terra, para quê torná-la ainda pior?
CALÍGULA: Não podes compreender. Que importa? Talvez encontre uma saída. Mas sinto que estão a crescer em mim seres sem nome. Que farei contra eles? (volta-se para ela.) Oh! Cesónia, eu sabia que podíamos desesperar, mas ignorava o que essa palavra queria dizer. Acreditava, como toda a gente, que estar desesperado era uma doença da alma. Estava enganado, o corpo é que sofre. Doem-me, os membros, a pele, o peito. Tenho a cabeça vazia e o coração sobressaltado. Mas, o mais horrível é este gosto na boca. Não a sangue, nem a morte, nem a febre, e a tudo isso ao mesmo tempo. Basta que mexa a língua para que tudo se torne negro, para que os seres me repugnem. Como é duro, como é amargo a gente tornar-se um homem!
CESÓNIA: Precisamos de dormir, dormir muito. Deixarmo-nos levar, sem reflectir. Velarei pelo teu sono. O Mundo recuperará para ti o gosto, quando acordares. Faz com que o teu poder sirva, então, para melhor amares o que puder sê-lo ainda. O possível também merece ter a sua oportunidade.
CALÍGULA: Mas é preciso o sono, o abandono. E isso não é possível.
CESÓNIA: É o que pensamos quando o cansaço se torna insuportável. Mas acabamos sempre por recuperar o equilíbrio, por encontrar de novo a antiga mão firme.
CALÍGULA: Pois é, apenas não sabemos onde pousá-la. Que me interessa ter firmeza nas mãos, para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem? Não, Cesónia, não podendo agir sobre a ordem do mundo, é indiferente que durma ou continue acordado.
CESÓNIA: Mas isso é querer igualar-se aos deuses. Não há pior loucura.
CALÍGULA: Também tu me julgas louco. E, no entanto, o que é um deus, para que deseje igualar-me a ele? Está para além dos deuses o que hoje desejo, com todas as minhas forças. Tomo de assalto um reino, onde impera o impossível.
CESÓNIA: Não poderás obrigar o céu a não ser o céu, um rosto belo a ser feio, nunca tornarás insensível um coração humano.
CALÍGULA, com exaltação crescente: Quero misturar a Terra com o Céu, confundir a beleza com a fealdade, fazer explodir o riso, do sofrimento.
CESÓNIA, de pé, diante dele, suplicante: Há o bom e o mau, o que é grande e o que é baixo, o justo e o injusto. Juro-te que tudo o que possas fazer não alterará nada.
CALÍGULA, no mesmo estado de exaltação: Darei a este século o dom da igualdade. E, quando tudo estiver nivelado, o impossível, enfim, sobre a Terra, quando a Lua for minha, então talvez eu próprio mude e, comigo, o mundo inteiro se transforme, os homens deixem de morrer, e todos sejam felizes.
CESÓNIA, num grito: Nunca poderás negar o amor.
CALÍGULA, explodindo, raivosamente: O amor, Cesónia! (Agarra-a pelos ombros e sacode-a.) Aprendi que não é nada. O outro é que tem razão: o Tesouro público! Ouviste-o, não é verdade? Tudo começa por aí. Ah, é agora que vou começar a viver. Viver, Cesónia- o contrário de amar. Sou eu que to digo. E convido-te [para] uma festa sem par, a um processo geral, ao mais belo dos espectáculos. Mas é-me preciso gente, espectadores, culpados.
(Salta para o lado do gongo e começa a bater-lhe ininterruptamente, em golpes cada vez mais fortes. Golpeando sempre.)
CALÍGULA: Farei entrar os culpados. Preciso de culpados. E todos eles o são. (Sempre batendo.) Quero que façam entrar os condenados à morte. Público, quero o meu público! Juízes, testemunhas, acusados de antemão condenados! Ah!, Cesónia, mostrar-lhes-ei o que nunca viram, o único homem livre deste Império!
(Ao som do gongo, o Palácio vai-se a pouco e pouco enchendo de rumores, que aumentam e se aproximam. Vozes, tilintar de armas, passos. Calígula ri e continua a bater no gongo. Alguns guardas entram, depois saem. Batendo no gongo).
(Albert Camus- CALÍGULA)
Pelo significado do dia de hoje...

Registo-o aqui no Void, apenas assim... com um profundo silêncio. É tudo... E muitíssimo...
Abro, com este post, uma exposição de Pintura Naif, que contempla no seu programa um leque de pintores internacionais e, obviamente, portugueses. Não farei a sua revelação prévia, no sentido de manter a vossa expectativa/curiosidade quanto aquelas que serão as possibilidades e potencialidades deste projecto. Esta é também uma aposta que, como blogger faço, analisando e avaliando os resultados.
Inicio pois este percurso, com os primeiros 12 trabalhos de Bert-Hage Haveros, artista sueco, nascido em Stockholm, no ano de 1932. Com as suas pinturas Bert-Hage mergulha (e faz-nos mergulhar) no coração do povo sueco, representando o que este tem de mais profundo e genuíno, no âmbito daquelas que são as suas vivências quotidianas, também geograficamente localizadas.
Ganhador de vários prémios o autor é, para mim, uma excelente escolha para atrair e fixar, no acompanhamento deste projecto, todos aqueles que gostem de pintura em geral, e de pintura naif em particular.
Usufruamos:
Pintura 1

Pintura 2

Pintura 3

Pintura 4

Pintura 5

Pintura 6

Pintura 7

Pintura 8

Pintura 9

Pintura 10

Pintura 11

Pintura 12

Para breve, mais um conjunto de 12 trabalhos. Até lá!

E o amor dos homens esvaiu-se nele como areia na ampulheta. Como tempo que acaba e se acaba finda, sem voltar nunca para trás. Os seus olhos ficaram duros, ausentes do que o rodeava, a sua boca seca e as expressões mirradas.
Sentou-se no topo do edíficio mais alto que encontrou, anichou-se curvo e pensativo, abstraído do frio e da chuva, do vento cortante e do sol abrasador, que lhe chicoteavam ferozmente com escárnio e desdém.
Trocou os sonhos por asas de pedra, trocou as mãos vazias de amor por garras cruéis incapazes de acariciar alguem, agarrou-se ao chão sedento de pertença e transformou-se em pedra aos nossos olhos.
Rezam as lendas que ainda se mexe, quando o vento passa e traz na brisa, o aroma fresco do seu perfume. Por ela se tornou uma estátua, fria e morta, inanimada. Por ela renasce na sua monstruosidade mórbida, e tenta voar com as asas de pedra, em noites que a lua ainda quase, o faz sonhar.
(Texto da autoria de "D. Quixote". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

(Fernando Pessoa)
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderei considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

(Autor desconhecido)
Embrace me my angel, who's eyes enlightens my world.
Let me feel your golden hair, so soft so beautiful.
Take my hand and follow me, to the realms of silence.
Let the ligth of all lights devour us.
Spread out your wings, and take me to this paradise.
Spread out your wings and let us fly,.......
(Arcana- Dark Age of Reason)

(Autor desconhecido)
Uma brisa ergue-se do interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim. Não passou muito tempo desde que a manhã nasceu. Passou muito tempo desde que me deixaste sozinho entre as sombras que se confundiam com a noite. Noutras noites, olhámos para a lua. Nesta noite, não olhámos para a lua. Noutras noites, olhámos para a lua e enchemo-nos de desejos. Nesta noite, não olhámos para a lua e sofremos. Noutras noites, olhámos para a lua e não sabíamos o que era sofrer. Escuridão e esperança. Na lua, víamos mais do que o reflexo daquilo que queríamos inventar: os nossos sonhos. Víamos um futuro que era maior do que os nossos sonhos e que nos envolvia e que nos puxava para dentro de si. Nós sabíamos que nos esperava algo muito maior do que aquilo com que podíamos sonhar. Estávamos enganados. Aqui, sobre estas pedras que brilham, sob estas lágrimas no meu rosto, sei que nos enganámos e sei a lâmina infinita de uma faca.
(José Luís Peixoto- ANTÍDOTO)

Escuto o cair da água, límpida e cristalina, vinda do deserto; vejo um mar de rosas oriundo de profundos e cruéis espinhos; balbucio doces e suaves palavras no cair de uma noite tempestuosa e abismática; acaricio afavelmente o teu pensamento frio e distante e sinto o leve e gentil toque dos meus sentimentos que repousam na dúvida e no imprevisível.
(Texto da autoria de Teresa Sousa. Editado, originalmente, em Zen.)
(Trabalho da autoria de Lucio Valerio Pini)
eu não quero saber da pele cheia de piquinhos como a barba cortada. não escrevas os defeitos perfeitos destes seres imperfeitos como se fossem inadequados à sua condição. eu sobreviria à custa de uma só palavra que brotasse de teus lábios brincalhões e tu nunca a dirás vezes suficientes para que consiga viver do silêncio. sou uma miúda insatisfeita e dos meus dedos incansáveis surge uma necessidade insaciável de exprimir a minha afecção, a que nasceu contigo, por ti.
uma magia sedutora no olhar apagado da memória. entre o teu corpo abandonado e o tremor sôfrego do meu, largam-se teias douradas de imagens incertas, um amor que se tece à luz exibicionista da noite. uma espera que não tem asas para acabar. é no bailado fantasmagórico das palavras, quando a lua chama para si o último amante inebriado que erra às vestes de seu luar, é que o meu amor escreve sobre o dia em que o seu barco foi levado por uma misteriosa corrente até às minhas águas de sais espinhosos. enquanto ele se enrosca nos peitos escritos da sua apaixonada, abrindo o coração às paginas inquietas do ecrã, eu cumpro-me no silêncio, encerrada ao mundo exterior. espero e ganho crosta. solidifico os canais da agitação citadina e fecho as minhas veias palpitantes à passagem do calor. de repente o coração pára como se tivesse sido abalado por um corte de energia. não encontro mais palavras. nada mais que reste para restaurar a fonte de potência desligada. são nessas alturas que temo pela escuridão. um frio sepulcral no abismo onde dou caras comigo própria e tudo o que descubro é o nada que alimento. não escutas e eu sei que é porque não falo. porque não estás aqui.
segundos. o texto acabou. nós voltamos e contigo a carga energética.
(Texto da autoria de "ela". Editado, originalmente, em Memória Futura.)
Já disponível para o mercado o nº de Verão da revista:

Conteúdos:
EDITORIAL
(Nº 10- Verão de 2004)
«São rosas, Senhor»
12 INDOMÁVEIS PATIFES
Apresentação dos novos colaboradores e dos convidados
JANELA INDISCRETA
Pinturas de Ricardo Leite
A OESTE NADA DE NOVO
Comentários do trimestre
AS PALAVRAS QUE NUNCA TE DIREI
Fotografias de Miguel Mealha
O PADRINHO
Carta para XXX, de J. Rentes de Carvalho
[ ilustração de Alain Voss ]
OS 400 GOLPES
«Da aparência dos mortos-vivos», por Rui Bebiano
[ ilustração de Francisco Legatheaux ]
LICENÇA PARA MATAR
«Islão: sete reflexões +/– avulsas», por Fernando Gouveia
[ ilustração de Rui Lúcio Carvalho ]
«Está por verificar a compatibilidade entre uma sociedade islâmica sem influência ocidental e os conceitos básicos de Democracia e Direitos Humanos.»QUO VADIS?
«Black Sun: um sui generis lugar ao sol», por Rui Ângelo Araújo
O IMPÉRIO DOS SENTIDOS
«A paisagem viva», por Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste
«O desejo era erigir as suas obras, mas, também, vê-las envelhecer, ganhar rugas: que as árvores cresçam, que as pedras se cubram de musgo, que a obra de arquitectura desenvolva uma vida própria.»O OITAVO PASSAGEIRO
Fotografias de Robert & Shana ParkeHarrison
NO CÉU TUDO É PERFEITO
«Livros, colecções e outros artifícios», por José Ferreira Borges
A LISTA DE SCHINDLER
«A América onírica», por Maria João Cantinho
«Fábula metafísica ou apresentação simbólica de um mundo novo, O Desaparecido contém uma dimensão messiânica inegável [...], na sua íntima articulação entre a literatura e uma felicidade irrecusável, mesmo se a melancolia aperta o seu cerco.»OS CANHÕES DE NAVARONE
«A amizade é bela — e a inimizade enternecedora», por Rui Ângelo Araújo
PULP FICTION
«O riso», por Filipa Melo
[ ilustração de Pedro Vieira ]
«O colchão da Mongólia», por Ondjaki
[ ilustrações de Hugo Muesli ]
«o miúdo, desses na rua, não tinha nome, só atendia pela alcunha imposta: pêcêgê!, assim, tão velozmente dito que às vezes resultava somente em gêtinho, não vale a pena querer pôr correctos portugueses nas falas do miúdo..»«Crónica», por Diana Almeida
[ ilustração de João Pinto ]
«Rasguei o envelope e um canto da carta. no papel espraiava-se a letra angulosa de Dulce. no papel espelhavam-se os sinais estabelecidos: o tempo ao canto superior direito, cinco linhas de intervalo e a fórmula introdutória. "Querido José", querido José, crescia assim meu nome envolto em falso, antigo afecto, por mão dela. onde dormiam os limites da verdade, dobrando-se a mão a jugo falso.»«Círculos», por Florêncio Moniz
[ fotografia de Alberto Monteiro ]
NOS LIMITES DO SILÊNCIO
«Cartografia» (1), por Rikardo Arregi
Dois poemas de Harkaitz Cano
Lançamentos:
- FNAC Almada, 30 de Julho (sexta-feira), 21:30 horas.
- FNAC Colombo, 31 de Julho, 17:00 horas.
Versão electrónica da publicação:

(Autor desconhecido)
nada do que vivi conseguiu reavivar os dias presentes.
situo-me à frente dum ecrã branco, luminoso. a sala está escura. o calor não deve entrar, disse alguém. esqueci-me quem. aos poucos os nomes vão-se misturando, os rostos perdem a noção de identidade, as coisas são destituídas de seus significados e a barafunda de pensamentos introduz-se por entre as vias de sanidade fazendo com que as mãos comecem o trabalho. pisam as letras do teclado à procura de uma razão, de um sentido e julgo não precisar de quem me carregue os dedos apesar de saber que caio. caio sem retorno.
a pauta continua numa trapalhice de notas musicas e compassos alterados, uma música que só o compositor escuta, dentro de si, onde algo lhe diz que não há esperanças.
não há esperanças que lhe valham o regresso.
auto-desconheço-me.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Autor desconhecido)
outro sol que expulso do meu quarto, outra luz que desgosta as minhas trevas, outro dia que me mata o ser. vagueio escondida nas dobras da escrita encarquilhada e novamente será novamente a palavra mais odiada. cortar-me a vida como se corta o queijo. pequenas fatias a fervilhar na tosta rica. cortar-me o sangue como se corta a raiz deste renascer sangrento. tantas foram as vezes em que vi a minha vida repetida num grande ciclo merdoso onde a morte é a única saída possível. só de pensar que outra lua esperará por inundar o meu refúgio louco entre apalpadelas cegas de luar e que por aqui permanecerá na noite mais longa do mundo onde o tempo é uma palavra inexistente a juntar à vida e onde a solidão é um segundo a voar para o seguinte, exaspera-me os sentidos, desespera-me os restos de sanidade deploráveis e bate-me na cabeça como se ondas mortíferas eclodissem de encontro às rochas afiadas da vertente que é a minha racionalidade.
pensar em escapar?
outro dia que arranha as grades da casa que se tornou a alma a entornar as minhas palavras na reinvenção de um tubo de escape para a escuridão mais tenebrosa da existência que segue com a morte do sol.
despejar a vida com a luz que adormece no horizonte e saber que nunca parará.
(Texto da autoria de "Execrável". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

(Fotografia de Ashley Massey)
Diário da tua ausência – vale a pena?
A noite afaga-me sempre. Cobre-me carinhosa como uma mãe atenta. E eu sinto-me sempre tão bem nos seus braços, apesar de tudo, apesar da minha solidão, apesar do meu vazio imenso de gente até quando estou em grupo.
Hoje saio com amigos, daqueles que conheço há anos e mal conheço ou nem sei se tenho, e é nessa companhia mais ocasional e provocada que habitual que mergulho na noite em direcção à aventura. Copos, farra e diversão, sem amarras e sem consciências, livre, apenas livre.
O local escolhido é escolhido por alguém que não eu. É um lugar sombrio de luzes pesadas, com música ambiente. O ar que se respira é fumo de tabaco e perfume barato. É uma casa de ócio e pecado, onde as fronteiras se esbatem e os riscos se ultrapassam quase sem consciência disso. Sentei-me a um canto sorvendo lentamente um copo de absinto com maracujá.
Ela veio ter comigo. Atiçada pelo grupo que me acompanhava numa tentativa desesperada de me animar e atirada pelo ímpeto predatório de facturar. Sentou-se no banco a meu lado e disse:
“- Não pagas nada?”
Eu fiz um gesto aberto com a mão ao barman dando indicação de lhe servir o que quisesse, contudo continuei mudo e sério sem esboçar reacção à investida.
“- Nunca te vi por estes lados... é a primeira vez?” Continuou tenazmente levando-me segura na conversa para onde queria.
“- Posso só fazer-te uma pergunta?” Respondi.
“ – Claro” Retorquiu algo estupefacta pela minha resistência.
“- Vale mesmo a pena?... isto tudo?... esta vida...?” Perguntei.
O olhar dela arquejou de surpresa e apreensão. Ficou por momentos introspectiva. Tirou da carteira de imitação barata de pele um maço de cigarros. Acendeu lentamente um, tirou uma passa e, como se regressasse a ela mesma naquele momento e respondeu:
“- Não... não vale...”
E a conversa evoluiu para sítios muito agradáveis. Falamos da sua infância, de como sempre tinha procurado independência, nem sempre enveredando pelos caminhos mais correctos. Falou-me que estudava, que escrevia poesia, que também sentia, também amava. Vi a pessoa por detrás da pintura, debaixo da mascara.
“- Obrigada, nunca tinha falado com ninguém assim... normalmente só me dizem palavras feias, insultos, caminhos directos para o que querem. Sexo. Nunca ninguém me tinha tratado assim... como uma pessoa... és uma boa pessoa.” Disse sorrindo.
“- Obrigado eu... por teres falado comigo... trata bem de ti... acaba os estudos e deixa isto...” respondi paternalista mas conscencioso, como um amigo que dá um simples conselho e parti deixando os meus “colegas” para trás e a nova “amiga” também.
Levei nessa noite uma triste figura no pensamento. Eu e ela éramos iguais de algum modo. Ela vendia o corpo por dinheiro e guardava a alma. Eu vendia a alma por amor e guardava apenas dor. Qual dos dois a maior puta?
Deitei-me essa noite sem conseguir dormir...
(Texto da autoria de João Natal. Editado, originalmente, em Poetry Café.)

"quem me ama tem de me adivinhar. não pode ficar à espera de ordens."
("Quaresma"- um filme de José Álvaro Morais, passado nas salas de cinema em finais de 2003, com a excelente interpretação de Beatriz Batarda-na fotografia-)

(Autor desconhecido)
I refuse to let you die...
ela despediu-se com as palavras, como da primeira vez que nos conhecemos. sempre as palavras de iguais ou diferentes significados. será que ao ler suas palavras senti o mesmo que ela ao escrevê-las? podia tudo ser mentira. uma grande prisão de sentimentos abafados. talvez não interessasse. ela já se foi e mesmo que eu a rodeasse com meus braços escritos e que a tivesse todos os dias na cadeira do meu quarto, ela já teria partido. partido. as suas palavras foram partidas. partidas em grandes silêncios que dizem: nunca mais. talvez, porque não, no futuro? as palavras arrastam pequenos passados que trazem futuros e ela levou consigo o nascer reencarnado e deixou-me o poente das palavras mortas. não contesto. não sei o que fazer mais. se lhe oferecesses palavras perdidas, ela não as encontraria. não é o acabar porque há coisas que não sei acabar. talvez porque nunca tenham realmente existido ou talvez porque não sei dizer adeus. o silêncio. sempre o silêncio. se compreendessem os vidros partidos que dilaceram o vazio do corpo no silêncio que se apoderou da mente e a levou à loucura. eu não sou louca. talvez o seja.
I’ll be waiting for to long, for you to be here.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Pintura de Magritte)
querer dizer que nos roubaram o tempo.
ver o presente
embrulhado num pedregulho
a transformar-se no depois
depois é morrer vivendo, assim, sem tudo
dizer-nos que escapar é impossível
beijar-te.
beijarmo-nos cegamente sem ninguém se pertencer
amar-te, ainda, alada aos sonhos
milhares de noites
a dançar os teus passos no peito
e a perseguir as sombras do luar
dizer-te que gosto de ti. gostas de mim?
perder os momentos, cantando a mesma canção
e abarcar-te no corpo
tal barco em seu porto
querer silenciar a escrita
e beijarmo-nos,
impossivelmente.
(Poema da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Pintura de Edvard Munch)
digo-te que ainda há coisas que teremos de dizer um ao outro quando a noite se prolongar sobre os nossos corpos, coisas que não podem ser escritas.
e tu dizes-me que sobre o meu corpo não terás mais palavras. eu silencio-me. mastigo esse segundo que atravessa o presente e me transporta para um dia em que todas as palavras serão desnecessárias. aproveito todos os pedacinhos iluminados das tuas mãos a perscrutarem o meu amor despido, a tua paixão a entornar-se sobre o meu peito assombrado, as sombras do tempo a movimentarem-se pelos cantos nus do nosso leito e a trespassarem a continuidade dos nossos sonhos. volta tudo ao recente. um recente velho estar que se familiarizou com o meu interior.
sinto os teus dedos à procura da minha mão, a transpiração das articulações, a pele macia dos teus dedos a aproximar-se da minha palma trémula. tens uns dedos finos de escritor, penso, com os meus olhos a vaguearem as lajes do caminho. sei que olhas para mim. estás a olhar para mim e as minhas pernas estremecem, os meus pés tropeçam e julgo estar prestes a cair mas logo a tua mão firme a enfrentar-me o tremor. sorris como se voltasses a ser o miúdo que encontra o seu primeiro amor e agarras-me como se tivesses medo de me perder.
um olhar. tudo vale esse olhar. nunca ninguém alguma vez poderá comprar esse olhar. o olhar que me ofereces quando eu nem sei que essas coisas podem ser dadas.
um olhar que vale uma vida inteira de espera.
tens de ter paciência comigo, digo-te
e tu acenas e dizes que não será agora que desistirás.
(Texto da autoria de "ela". Editado, originalmente, em Memória Futura.)

E Walser não pôde deixar naquele momento de ser capturado por um orgulho: ele, sim, era um grande Homem, um Homem, como defendia Klober, que conseguia estar separado de todos os outros, um homem verdadeiramente sozinho e individual. Porque precisamente os seus actos pareciam não ter qualquer ligação às outras pessoas- como se estas não existissem. Estavam separados- ele e os outros; os seus actos eram independentes, autónomos, e esta era a sua grandeza. Em suma, havia nele, Walser, afinal, um ódio generalizado, um ódio sereno, mas geral, um ódio dirigido a todos e a cada um dos indivíduos com quem a sua existência se cruzava.
Ele nunca seria um imperador; nunca, devido a si, a História relataria um extermínio brutal, mas ele, Walser, nunca se aproximara de ninguém. Ainda não era o verdadeiro Homem, como dizia Klober, o Homem que quando se aproxima se aproxima para matar; mas havia já nele algo de muito significativo: qualquer aproximação a outra existência, não sendo ainda para a eliminar, era já, e desde há muito, para não amar. Posso aproximar-me com segurança, pensava Walser, naquele momento em que recordava de novo o beijo dado a Clairie, posso aproximar-me sem medo de qualquer pessoa porque sei que não a vou amar. Já estou preparado para não amar ninguém- e esta frase dita assim, para si próprio, era sentida como a sua grande arma em tempo de guerra, a grande defesa em relação à agressividade do século. Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade!
(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)
[Um momento de introspecção. Momento 1.]
Diário da tua ausência – vinil gasto
A nossa música não toca mais, passou de moda. Os nossos dias já não são solarengos de passeios à beira mar. São antes tristes, chuvosos e cinzentos até no Verão. Tudo o que resta do amor de outrora, dos teus sorrisos abertos no escuro do cinema, do veludo da tua face morna na palma da minha mão, são os sons abafados num canto da memória, sons velhos, quase inaudíveis, como vinil gasto de discos esquecidos de 45 rotações.
Não é justo, eu sei. Mas também não há sitio nenhum no mundo onde esteja escrito que o amor tenha que ser justo ou condescendente com toda a gente que acredita nele. Mesmo assim esperei. Esperei o meu lugar na fila como qualquer outro espera. A minha vez havia de chegar inevitavelmente, pensava. E era a minha vez, acreditava… era a minha vez de tentar mostrar-te que o mundo não precisava de ser imperfeito, que o amor pode existir entre duas pessoas, apesar de diferentes e estranhas, apesar de serem seres alienígenas de mundos diferentes.
Mas o destino, Dalila, sabe mais de nós que nós sabemos dele. Brinca connosco de forma cruel, entrelaçando os nossos dias no quotidiano trivial, separando-nos depois como o dia e a noite separam o sol e a lua, fazendo com que estes amantes nunca se encontrem, mas para sempre se desejem, nesta dança eterna, nesta valsa ridícula do passar do tempo. E assim foste de mim. Os ingressos acabaram no momento de os comprar e a bilheteira fechou as portas deixando-me fora do show, fora de ti. Não é justo… era a minha vez… sabes… depois dos outros todos.
Mas a musica não toca mais. A nossa… sabes… saiu da playlist das rádios e já só é ouvida por quem gosta mesmo, por quem é apreciador, escutada por quem lhe dá sentido, amada por quem a vive e revive como um momento perdido atrás. Algo que já não volta. A nossa música já não toca mais… apenas se tu ou eu a quisermos recordar… apenas se ainda tivermos tempo para parar e escutar um pouco, aí ela toca, nos nossos corações.

[Outro momento de introspecção. Momento 2.]
Diário da tua ausência – amar é perder
Hoje pensei em ti, ao passar casualmente nos lugares comuns onde coexistíamos felizes. Tu à tua maneira e eu à minha. No jardim de betão que a tanto assistiu entre nós. Nos nossos sítios… sim, foram nossos.
Por breves segundos semicerrei os olhos e recordei-te. Serena e bela como nunca, num sonho perdido o meu sonho perdido. Mentalmente os meus dedos percorriam nos sulcos pequenos da tua face, aqueles que separam as maçãs perfumadas do teu rosto dos teus dentes alvos e brilhantes, aqueles que os sorrisos marcaram terna e lentamente em muitos anos vadios de juventude. Anos passados a sorrir, lembra-me.
Abri de novo os olhos para não chocar no trânsito borratado. Volto a mim, de novo lúcido nem que seja por um pouco. Mas continuo agora com o pensamento em ti reflectindo hipoteticamente todos os ses em nós, no passado, no presente, no não futuro.
Amar é perder Dalila, agora sei. Amar é amar tanto que não interessa com quem. Dizer “és livre como o vento para partir sem rumo, volta apenas quando te cansares do mundo e dos amantes, quando a vida não tiver mais segredos, quando te sentires velha e só, quando o teu coração pensar em mim e apertar, eu estarei por aqui… não serei uma amarra”.
Tiro uma passa mais prolongada, esmago o cigarro no desterro do cinzeiro, cheio de beatas e cinza, cinza desfeita como eu. Abro as janelas engreno a quinta e fujo à fila, encostado à faixa mais da direita fuzilando quem se atravessa com os máximos. Quem dera que os engarrafamentos da alma se pudessem furar assim. Quem me dera poder escolher a próxima saída e escolher melhor o percurso sem confusão. E tudo parece tão simples não é?
Mas o João que conheceste não era eu, esse não sabia. Amava demais até no degredo. Não pensava nos custos nem nas consequências, magoou-te tantas vezes que perdeu a conta… hoje cresceu e ainda te ama.
Amar é perder Dalila, agora sei.

(Textos da autoria de João Natal. Editados, originalmente, em Poetry Café. Fotografias: Momento 1- Peri Kazanci. Momento 2- Carlos Romero.)

(Fotografia de José Marafona)
colho as tuas sementes de girassol mal tratadas. ouço dois velhos falarem sobre uma jovem rapariga que fugiu com um homem. eles dizem homem mas não vêem o coração de menino que traz enlaçado ao peito, como se todas as intenções fossem guiadas pelo chouriço. eles pedem o pão e riem-se quando dizem que já têm o chouriço. gente que se contenta com pouco, gente que se ri com muito menos e gente que grita sem razão, mas é por isso que o ignorante é feliz. vamos mendigar as horas de namoro que eles nos tiraram, que eles roubaram à nossa vida. quando chegar a altura de pagar as contas da água e da luz, dir-lhe-emos: e quem paga o tempo perdido? quem paga o amor furtado?
fechar-nos-emos em casas de papel reciclado e escreveremos contra os ladrões do tempo. esperaremos as noites para deleitar a poesia nos lençóis de caixotes empilhados e sacudiremos as mãos enrugadas aos olhares do povo infeliz. deixai-os rirem quando olharem para nós e deixai-os chorar quando se aperceberem do que temos. a inveja roerá as almas daqueles que se cobrem de ouro e se cercam de corpos na refeição de uma felicidade postiça e lhes gritará o que partilhamos cá dentro num universo preenchido que nunca lhes tocará o vazio.
um dia perguntei-te se o que me dizias era verdade, agora sei-o com a certeza que este sentimento sorri e digo-te sem ter medo de parecer maluca pois só são loucos aqueles que abafam as sensações dentro das camadas da poluição mental.
estou a passear pelas barracas e descubro-te na esquina de um espelho partido. estás de calças de ganga, dizes-me? eu deslizei sobre as minhas pernas de joelhos tortos um pano negro de linho estival que flutua, suavemente, pelas ondas do vento. estou a dançar para ti. olha. aproxima-te. deixa o silêncio ecoar sobre os gestos vagarosos da sensualidade que apresento perante o meu amor. o meu amor vale tudo. vale cada instante de luz sobre as sombras do tecido dançante e cada respirar ofegante de meus lábios para a tua boca ansiosa que espera, inquietante. olha o meu olhar prostrado numa fantasia invencível, olha os meus olhos percorrem o teu interior quando as pessoas passam e se tocam, indiferentes, com os saquinhos de bugigangas africanas, indianas ou chinesas, vê-me a movimentar o meu corpo numa dança invisível e a dizer-te o que sinto sem ligar à multidão ambulante. olha os meus olhos vagabundos a dizerem-te tudo o que tenho cá dentro, toda a alegria que tenho para partilhar contigo, todo o amor que guardo somente para ti. deixa-me dizer-to sem mais medo.
(Texto da autoria de "ela". Editado, originalmente, em Memória Futura.)
Continuo a edição de "Instantes de pensamento", naquela que é a harmonização, com a imagem, de textos da autoria de Teresa Sousa.
Com este post verifica-se o aprofundamento dos pensamentos já iniciados. Há um investimento inequívoco na viagem ou no mergulho interior que são feitos, no arrojar pela autora/personagem, da reflexão do vivido e do sentido, na mais ampla síntese que dai pode resultar.
A introspecção ganha terreno. O estado meditativo instala-se numa continuidade ininterrupta e o ser físico manifesta-se no que de mais transcendente pode ter.
O percurso acontece...

À minha ilusão
Escuto o cair da água, límpida e cristalina, vinda do deserto; vejo um mar de rosas oriundo de profundos e cruéis espinhos; balbucio doces e suaves palavras no cair de uma noite tempestuosa e abismática; acaricio afavelmente o teu pensamento frio e distante e sinto o leve e gentil toque dos meus sentimentos que repousam na dúvida e no imprevisível.
Sentimentos?!
Penso, muito, pouco?! Rio? Talvez. Choro, afogando a dor... mas como, se não tenho em quem pensar, por quem sorrir, por quem chorar? Não, minto; penso em mim, rio de mim, choro por mim... afinal a solidão existe, também ela mora aqui! Não quis acreditar e céptica me tornei. Hoje vagueio num mundo ilusório e transcendente, sem me iludir, sem me elevar... levanto o véu de um eu passado, e só a ti vejo, só a ti sinto. Oh, cruel memória, porque insistes em permanecer? Viveste num tempo em que o sol brilhava, os pássaros chilravam, a chuva caía subtil e cristalina em telhados de entes sonhadores; num tempo em que a lua entrara em delírio e as estrelas no imenso céu gentilmente sorriam... numa era em que a neve aquecera os corações mais frios e fugazes! Sim, desesperei a ponto de perder a esperança, mas logo descobri que sem ela padeceria. Procurei-me até me encontrar. Estou aqui, esta sou eu, sei o que quero e para onde vou. Acredito na dor, porque amei; acredito no amor, porque sofri... sentimentos?! Sim, ah sim! Não tão puros e ingénuos como foram um dia (a inédita síbila destruiu a súmula da purificação), mas verdadeiros... ela está lá; com ela me visto, com ela me alimento, com ela me expresso, com ela sofro... contudo, será para sempre verdade. É um silêncio gélido que me acalenta a alma, cega, queima, tira-me a calma! É a consequência da solidão. Mãe, irmã, madrasta, amiga? Não sei! Com ela dou sobras de mim à misteriosa vida. Com ela entendo o amor, esse sentimento simplesmente arrebatador que se neutraliza na dimensão da dor. Como eu te desejo encontrar, com a esperança de não mais te perder; como eu te desejo amar num inimaginável entardecer! É ela o reflexo das águas do mar salgado, a sombra da escuridão, apazigua minha mente amargurada, ajuda-me a enfrentar a cada passo uma nova e ardente madrugada!

Decisão
Hoje tomei a decisão forçada de não mais deixar de ter carácter, de não mais fingir que me desconheço, com o único pretexto de um subterfúgio inútil e cobarde. Com esta força que me envolve, sinto que poderei ser respeitada, amada e considerada; que os meus ideais poderão ser fortes, robustos e produtivos; que a humildade poderá emergir de dentro de mim como algo incrivelmente belo, incrivelmente mágico; que a verdade poderá ser a mais verosímil de todas; que o meu espírito poderá alcançar a luz que tanto anseia. No entanto, sou e continuarei a ser uma "ilha no meio da multidão" - é esta a única certeza de que a Força não se transformará em fraqueza!

(Texto introdutório: Sandra Almeida; Textos nucleares: Teresa Sousa; Textos nucleares editados originalmente em: Zen: Escolha e organização de fotografias: Sandra Almeida; Fotografias: José Marafona).
Vagueando
P: Por onde andaste mente vagabunda, que não conheço estes caminhos por onde o sonho te levou?
R:

Futuro
P: desenha o meu futuro
R:

acredito que se vai escrevendo
que se vive e se molda em cada dia
à tua! que sejas feliz!
Desespero

o tom estridente, perpétuo e repetitivo,
as mentiras banais,
a hipocrisia revoltante
desisto, desespero, não suporto.
(Trabalhos da autoria de Alves. A ti, caríssimo, mais uma prova do meu reconhecimento.)

(Fotografia de Christian Coigny)
tenho os olhos ardendo, o corpo dolorido e a alma perdida entre os minutos da noite. observam os minutos da noite de inverno de longe, como se fosse um filme.
tenho os olhos cansados de toda esta coisa de tentar valer-me deles para observar o tempo. os olhos pregados na curva do caminho. o tempo fatiado.
o tempo escoa-se devagar, posso senti-lo em cada gesto lento, durante o arrastar dos gestos. a cada incisão do corpo no espaço em torno, fende-se a hora. soando apenas um leve sussurrar de passos ou folhas. ao fundo uma lâmpada qualquer, ou o céu negro. a profundidade negra do céu, como se fosse uma caixa preta de teatro antes de colocado o cenário. os personagens andando a esmo, pequenos personagens olhados da distância.
tenho a face vazia de sorrisos. e ainda tantos deles encerrados no peito. temo que se deteriorem. presumo que o cansaço da noite desgasta sensibilidades, os segundos escalavrado-as aos poucos, tornando-as areia a escorrer pela ampulheta. levam com eles a ternura da minha cabeça deitada no teu peito. ou o desejo que brilha nos meus olhos, desliza pelos meus lábios. a memória. a verdade de cada ato.
no entanto este corpo é indomável. e a mente produz incessantemente perguntas e pensamentos. eles teimam e me ultrapassam.
o inverno aconchega apesar de tudo. e é como se eu abraçasse meu corpo, meus olhos que ardem.
(Trabalho da autoria de Eugênia Fortes- EUGENIAINTHEMEADOW)

"A Morte em Veneza": um filme onde a abordagem ao Belo se faz de forma particularíssima. Um filme onde o Belo tem uma vida própria imensa, quer no campo do mais abstracto, quer na personificação que de si se faz.
O filme é, inequivocamente, um hino à Beleza, ao Amor e à relação que entre os dois se pode desenvolver. Mas é também um explorar aprofundado do platonismo que pode existir no interesse pelo outro. O olhar é o que predomina. O olhar tudo determina. A contemplação resultante. O deslumbramento resultante.

Estamos perante um trabalho que faz uma séria abordagem da Vida. Uma abordagem da vida de um homem, que se pode transpôr para muitos outros homens. O percurso feito, os gostos, os interesses, os aprofundamentos em tudo isso. Mas também a necessidade de mudar, o que se altera e faz ruptura, as consequências dai resultantes. As aceitações que se vão dando. O saber conviver com o que surge como novo. Mas também a reflexão sobre as transformações interiores.

"A Morte em Veneza" mostra o Amor. O Amor que se vai tornando. O Amor que vai sendo. Que se vai desenvolvendo. O Amor apresentado na sua forma mais pura, mais filosófica, sem culpabilizações. Sem enegrecimentos dos sentimentos constantes. Um filme que vai revelando. Que vai mostrando. Que tem a preocupação de mostrar que é possível acontecer assim. Um trabalho que sublima.
Um filme que tem como ponto de partida um livro. Uma obra escrita. De um autor. Thomas Mann, o escritor. Thomas Mann a sombra de uma personagem. Thomas Mann o inspirador de Luchino Visconti, o realizador.
Do livro trago aqui três excertos. Três excertos que nada mais são do que três momentos de encontro. Três olhares. Três fases do sentir. De um sentir e de um sentir-se:
[1º encontro]
Um grupo de adolescentes e jovens adultos, confiados a uma perceptora ou dama de companhia, estavam reunidos à volta de uma mesinha de bambú: três jovens raparigas, aparentemente de quinze a dezassete anos e um rapaz de cabelos longos, de aproximadamente catorze anos. Aschenbach notou com espanto que o rapaz era de uma beleza perfeita. O seu rosto pálido e graciosamente circunspecto, emoldurado de caracóis cor-de-mel, com um nariz direito, uma boca aprazível e a expressão de uma afeiçoada e divinal seriedade, lembrava esculturas gregas nos tempos mais nobres. No mais puro acabamento da forma era tal o encanto pessoal, que o observador julgava nunca ter encontrado quer na natureza quer nas artes plásticas algo de semelhante perfeição.
[2º encontro]
Veio pela porta envidraçada e atravessou silenciosamente a sala, em diagonal até à mesa das irmãs. Tanto pela postura do seu tronco como pelo movimento dos joelhos, no pousar do pé calçado de branco, o seu andar era de uma graciosidade sublime, muito leve, ao mesmo tempo delicado e orgulhoso e ainda embelezado pelo pudor infantil que o faz levantar e baixar os olhos duas vezes enquanto voltava a cabeça para os presentes. Sorrindo e pronunciando uma palavra a meio-tom na sua língua suavemente confusa, tomou o seu lugar e nesse momento, pois que proporcionava ao observador a percepção do seu perfil preciso, este voltou a ficar admirado e até assustado com a beleza verdadeiramente divina daquela criatura.
[3º encontro]
Amava o mar por razões profundas: pela necessidade de calma do artista laborioso que procura refúgio da existente multiplicidade da sua imaginação no seio das coisas simples e grandiosas; e também por uma procura oposta à sua actividade e talvez por isso mesmo tão sedutora- do inorgânico, desmedido, eterno, do nada. Descansar junto do absoluto é a saudade daquele que procura a perfeição; e não será o nada uma forma de absoluto? Enquanto assim sonhava tão profundamente pelo vazio dentro, a linha horizontal da costa foi subitamente interrompida por uma figura humana e, quando recuperou o olhar perdido no infinito, viu o belo rapaz que, vindo da esquerda, passava na areia à sua frente. Preparado para banhar os pés, as esguias pernas desnudadas até cima do joelho, caminhava descalço, devagar, mas tão leve e orgulhoso como se estivesse habituado a andar sempre assim. (...)
Um sentimento de delicadeza ou de susto, uma espécie de consideração ou de pudor levou Aschenbach a desviar o olhar, como se nada tivesse visto; pois ao sério observador ocasional de uma reacção passional não agrada de modo nenhum tirar proveito das suas observações, nem que seja para si próprio. Mas sentia-se alegre e ao mesmo tempo abalado: sentia-se feliz. Este fanatismo infantil dirigido contra um pedaço de vida tão inofensivo deu à inexpressividade divina um toque de humano, transformou a preciosa obra-de-arte da natureza, que apenas servira para deleite do olhar, numa entidade digna de mais profunda compreensão. concedia àquele adolescente, cujo corpo se destacava pela beleza, uma dignidade que ultrapassava a sua idade.
(Thomas Mann- A MORTE EM VENEZA)
Do filme, registo o seu recente lançamento em DVD. Quanto a este:
- ARGUMENTO APRESENTADO:
"O compositor Gustav Aschenbach, de férias no estrangeiro, parece um homem reservado e civilizado. Mas o encontro inesperado com alguém de rara beleza vai-o inspirar a se entregar a uma paixão oculta que pressagia um trágico destino."
- OPÇÕES ESPECIAIS (entre outros):
* Documentário de bastidores: A Veneza de Visconti
* Galeria de Fotos A Tour of Venice
- DURAÇÃO:
C. 125'
De destacar a música de Gustav Mahler que percorre todo o tempo de duração do filme, dando-lhe uma ambiência efectivamente distinta.
São vários os pensamentos que a autora tem no seu blog. Pensamentos que reflectem estados de espírito que foram mas também estados de espírito que são. Pensamentos que podem, da mesma forma, ser ou acabar por ser devaneios. Temos, pois, vários instantes de pensamento que se foram sucedendo e registando no Tempo. Inicio com este post a compilação e tratamento desses mesmos pensamentos passados para a escrita. Procurarei, com a autora, fazer-vos chegar da melhor forma, ou pelo menos de forma diferente, o que teve e têm significado emocional. Esperamos, eu e ela, conseguir passar-vos mensagens significativas. Contamos convosco. Contamos com a vossa participação. Contamos, da mesma forma, com o vosso partilhar.
Assim:
1. O espaço exterior onde a autora se move. Um espaço alargado onde a autora está. Onde vai. Onde fica. Onde permanece:

2. A autora, transformada em personagem que também escreve. A escrita acontece num espaço próprio. Depois de um espaço geral, agora, um espaço particular. Um espaço de acolhimento. Um espaço escolhido para dar continuidade à reflexão. Um espaço de registo.:

Extractos de um Diário I
Devem ser umas tantas horas da tarde, embora ainda me sinta ameaçada pela depressão matinal. A velha solidão de guerra deu um ar da sua graça quando, às 10 da manhã, tentava incutir no meu subconsciente a conformação de mais um aprazível e inquietante dia.
Não poucas vezes tenho a sensação que a dor se converteu em prazer. Será?! Bem sei que tudo isto parece irónico de mais para ser credível, mas é assim que me sinto.
Este é um dos muitos dias em que o passado se transformou em presente e este, consequentemente, num futuro remoto. As lembranças cercam todo o meu ser, tomam conta de mim, como algo de maligno se tratasse. São fortes, vorazes e persistem indeterminadamente; reabrem feridas mal cicatrizadas por um tempo negligente. Com elas morro e com elas renasço para uma vida ilusória, repleta de fantasia. São elas que dão à minha própria vida o dinamismo que ainda lhe resta. Com todas estas recordações adquiro a esperança de reencontrar um dia a verdadeira felicidade.
Extractos de um Diário II
O silêncio de uma manhã fantasiada de nevoeiro e neblinas humedece o meu espírito imberbe e sonhador. Se não for a esperança de exuberantes e ardentes raios solares, certamente que mofará! Hoje, tenho a sensação de entender o verdadeiro mistério da vida. Mas como posso eu entender algo que não tem entendimento possível, ou mesmo universal? Não existirá um único entendimento, cada um de nós o entenderá como melhor lhe convier. Sinto vontade de fazer tudo aquilo que o meu pensamento timidamente meticula, talvez por estar plenamente convencida da minha mortalidade. Bem sei que não durarei para sempre, assim como também sei que os momentos não são eternos. Então, porque não libertar o meu espírito, emancipar-me de todos os conceitos e fantasmas?! O que tiver de ser será...
3. Entretanto... o ambiente no exterior. O Tempo que passa. O registo do Tempo. O Tempo que é na Natureza. O Tempo que envolve a personagem e a sua escrita:

(Autoria dos textos ("Extractos de um Diário"): Teresa Sousa; Publicação original em: Zen; Introdução e textos a itálico: Sandra Almeida; Escolha e organização de/das fotografias: Sandra Almeida; Fotógrafo: José Marafona)
Mais um conjunto de poemas a dar continuidade à obra já apresentada. Mais um conjunto definido. Mais um conjunto complementado com imagens. Mais um quadro, com pequenos quadros:
25.
Mesmo agora recordo o seu corpo
Ardendo de desejo a sua pele
Colada à minha como roupa molhada
Como poderia esquecê-la digna
Agora de compaixão privada do seu amante
26.
Mesmo agora sonho com ela
A mais bela entre as mais belas
Filha de rei criada para ser o receptáculo do amor
Incapaz de suportar a separação
27.
Mesmo agora sabendo que a cada
Instante a morte se aproxima
O meu espírito abandona o culto dos deuses
E persegue a minha amada

28.
Mesmo agora assalta-me a recordação
Desses olhos de corça assustada
Dessa voz trémula das lágrimas que lhe invadiam
A face da cabeça vergada sob o peso da amargura
Quando escutou a minha sentença
29.
Mesmo agora por mais que me esforce
Não me recordo de alguma vez ter contemplado
Um rosto como o seu A sua beleza
Eclipsa a da deusa do amor e a da lua
30.
Mesmo agora recordo o seu púbis
Os lábios dessa vulva que me protegiam
Da insolação do desejo Veneno
Na separação momentânea no reencontro
Uma taça cheia de néctar

31.
Mesmo agora atormenta-me o espírito
Recordar como os soldados do rei
Semelhantes aos mensageiros da morte
Com braços terríveis ma arrancaram do seu leito
E o que ela não fez para me defender
32.
Mesmo agora o meu coração sofre noite
E dia por nunca mais poder voltar
A ver nem que seja por um instante
Esse rosto belo como a lua cheia
Cuja frescura faz empalidecer os jasmins
33.
Mesmo agora o meu espírito vagueia
À procura da minha amada
Nunca ninguém colheu melhor
Os frutos dos seus verdes anos Que
Ela me possua em cada nova reincarnação

34.
Mesmo agora ressoa com força no meu
Espírito o tilintar das suas pulseiras
Nuvens de abelhas cobriam-lhe o rosto
Atraídas pelo lótus em flor da sua boca
Recordo o modo como com os dedos
Tentava afastá-las dos cabelos
35.
Mesmo agora recordo a embriaguez
Causada pelo mel que a minha língua
Sorvia da sua boca e as marcas das
Minhas unhas nos seus seios eriçados de prazer
Que ela guardava como um tesouro
36.
Mesmo agora recordo o seu ar agastado
Perante a eminência da minha partida
A impaciência com que em silêncio
Me oferecia os lábios Abraçava-a
E caía a seus pés como um escravo
[Jorge Sousa Braga (Introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA.]

(Obra Poética: 1976-2000)
durante meses vi amanhecer quando as aves brancas
chegavam em silêncio.
quantas madrugadas surgiram quando as luzes se apagavam no porto
quantas gerações de poetas obscuros se sentaram nessas
pedras cinzentas!
eu sempre amei os continentes longínquos
lugares estrangeiros e puros, a extrema desolação das
aldeias adormecidas, a nostalgia dos dias atlânticos.
mas já a minha vida fixara a mudança dos ventos
o ciclo das estações
a rigorosa inutilidade de tudo.
foi nesse tempo de meditação que li rilke e eliot e
sobretudo
os viajantes do cognac e da morfina.
incessantemente procurei um sentido para os dias e para
as noites
interroguei-me sobre as civilizações antigas
entreguei-me a surpreendentes ofícios.
eu guardara a desmedida fascinação dos planaltos
a clara alegria de algumas cidades marítimas
velhas canções do mundo imensas revoluções.
durante meses vi amanhecer quando as luzes se apagavam
no porto
e as aves brancas chegavam em silêncio;
incessantemente procurei um sentido para os dias e para
as noites
interroguei-me sobre as civilizações antigas,
entreguei-me a surpreendentes ofícios,
a rigorosa inutilidade de tudo.
( José Agostinho Baptista- Da obra "Deste lado onde", integrada na compilação BIOGRAFIA)
O amor é um sonho,
É filho da brisa cristalina
Que vai, de mansinho,
Sussurrar aos ouvidos
De pensamentos utópicos...
O amor não existe,
É fruto da imaginação
De entes frustrados,
Obcecados pela ideia
De um mundo melhor.
Amar?! Amar é dormir
E logo, de imediato, acordar;
É voar no imenso céu,
Acariciar sedosas nuvens
É cair em terra,
É uma queda cruel!

Também eu já sonhei,
E continuo a sonhar,
Assim como já acordei
E continuo a acordar
Num chão frio, desprotegido
Repleto de espinhos
Que me rasgam a carne...
O sangue é a reminiscência
De que, afinal, a realidade existe,
Sendo tantas e tantas vezes
Encoberta pelo sonho do verdadeiro amor!
(Poema da autoria de Teresa Sousa. Editado, originalmente, em Zen. Fotografia de Vangelis Beltzenitis)

(Autor desconhecido)
a letargia do tempo sobre o corpo humano. o rebentar da existência sobre os mantos velhos de areia. existirá um limite de tempo para os sentidos humanos?
enterro os meus pés descalços na lama de areia molhada. descanso a minha vista nos ilimitados limites da compreensão humana. existe só a compreensão de ser incompreendido. não me demoro no caudal de pensamentos imprecisos. em breve chegarei ao mar. quando sobreviver à morte, escaparei à escrita. ela trava-me os sentidos, os movimentos astrais no êxtase genuíno da união elementar. a união das coisas sem nome. porque ela nomeia o céu, os grãos de areia nos caminhos de terra, o pó dos ventos sobre a crosta universal, os fios de água no principio de toda a vida, as cores da aurora boreal às portas dos outros mundos. porque ela inferioriza e distingue tudo o que podemos ver e aquilo que a vista humana não alcança. porque devido à sua existência, eu dedico-me à exploração mental, tentando descobrir uma palavra que designe aquilo que sinto quando tudo o que sinto deve permanecer ao alcance da minha alma. porque ela envolve o meu tempo em pacotinhos de ausência corporal e devolve-me à solidão presente e porque sem ela, nunca estaria mais próxima de alguns seres inauditos como estou agora e porque com ela, sinto-me mais distante do amanhã.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas)
De

LARS VON TRIER
Mais um excelente filme. Desta vez:

Um filme que não possibilita a indiferença. Um filme claustrofóbico que, por isso mesmo, se torna incomodativo. Um filme em tons de cinzento, a branco e a preto, tal como a história que conta. Um filme, igualmente, com alguma falta de limpidez na imagem... propício àquela que é a sua mensagem.
Com "Epidemia", o autor remete-nos para o mundo da doença, do sofrimento consequente e da morte. Remete-nos para o desconhecido, para o incerto e para o incontrolável. Um filme que permite o recurso à História: para se tentar perceber, para se tentar escrever um argumento.
Encontramo-nos perante um filme dentro de um filme. O filme que é escrito- e, também, visualizado- e o filme que é, de facto, o filme.



Quanto ao ARGUMENTO:
"Um realizador e um argumentista estão há ano e meio a escrever o argumento de um filme de terror em que uma epidemia se espalha pelo mundo inteiro. Do que eles não se apercebem é que uma verdadeira epidemoa se está a desenvolver à sua volta."
No âmbito da sua disponibilização em DVD, temos em disco, também:
- CONTEÚDOS:
Capítulos- Trailers: "Ondas de Paixão", "Os Idiotas", "Dancer in the Dark" e "Dogville".
- DURAÇÃO:
c. de 102'
Inequivocamente, um trabalho que nos faz reflectir sobre/extrapolar para o que é o Mundo Contemporâneo, onde as doenças/epidemias continuam a ser bastante condicionadas pelas políticas dos estados, pelos jogos de interesses e pelo terrorismo (sem rosto).
Seja nas sociedades menos desenvolvidas, seja nas mais desenvolvidas o fenómeno paira e/ou existe, com as particularidades inerentes a cada uma delas. Tudo isso com os inevitáveis resultados em termos de movimentações humanas. Tudo isso submerso nos medos e nos receios. Tudo isso engolido pelas marcas nos corpos.

(1919-2004)
Há duas espécies de fadas: as fadas boas e as fadas más. As fadas boas fazem coisas boas e as fadas más fazem coisas más.
As fadas boas regam as flores com orvalho, acendem o lume dos velhos, seguram pelo bibe as crianças que vão cair ao rio, encantam os jardins, dançam no ar, inventam sonhos e, à noite, põem moedas de oiro dentro dos sapatos dos pobres.
As fadas más fazem secar as fontes, apagam a fogueira dos pastores, rasgam a roupa que está ao sol a secar, desencantam os jardins, arreliam as crianças, atormentam os animais e roubam o dinheiro dos pobres.
Quando uma fada boa vê uma árvore morta, com os ramos secos e sem folhas, toca-lhe com a sua varinha de condão e no mesmo instante a árvore cobre-se de folhas, de flores, de frutos e de pássaros a cantar.
Quando uma fada má vê uma árvore cheia de folhas, de flores, de frutos e de pássaros a cantar, toca-lhe com a sua varinha mágica do mau fado, e no mesmo instante um vento gelado arranca as folhas, os frutos apodrecem, as flores murcham e os pássaros caem mortos no chão.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- A FADA ORIANA)
Para a Sophia... uma fada muito boa. A minha homenagem.

Continuo a edição de excertos de "Os cento e vinte dias de Sodoma". Dado que vou apresentar várias partes (momentos) da obra, optei por não intervalar a continuação do exposto relativamente a ontem. A ideia é, pois, fazer entrar de imediato (o leitor) no conteúdo da história, para além da "Introdução". Sendo que isso está feito com os textos que se seguem, farei espaçamento, agora, relativamente ao que será editado posteriormente.
Para já, o começo da especificação do deboche/da libertinagem:
"O vinho da Borgonha veio a acompanhar os aperitivos, com as entradas foi servido o de Bordéus, Champagne com os assados, ermitage com os pratos seguintes, Tokay e Madeira com a sobremesa.
Pouco a pouca, as cabeças começaram a arder; os fornicadores [existiam 8, ao todo, chamando-se alguns deles: Hércules, Antínoo, Quebra-Cu, Entesa-Ao- Céu], a quem nesse momento foram dados todos os direitos sobre as esposas, iam-lhes dando alguns maus tratos. Constância chegou a ser empurrada e espancada por não ter trazido depressa um prato a Hércules, o qual, vendo-se nas melhores graças do duque, achou que podia levar a insolência ao ponto de bater e molestar a mulher dele, facto que a este só deu vontade de rir. Curval, à sobremesa, já muito bêbado, atirou com um prato à cara da mulher que, se não se tivesse desviado, ficaria com a cabeça partida. Durcet, ao ver que um dos seus vizinhos estava com tesão, sem quaisquer cerimónias pelo facto de estar à mesa, tratou de desapertar as calças e de pôr o cu mostra. O dito vizinho enfiou-lho e, terminada que foi a operação, puseram-se todos outra vez a beber, como se nada fosse. O duque não tardou a imitar, com Entesa-ao-Céu, a mesma porcaria que fizera o seu velho amigo e apostou em como, apesar de o caralho ser enorme, era capaz de, a sangue frio, beber três garrafas de vinho seguidas, ao mesmo tempo que era enrabado. Que habituação, que calma, que sangue-frio na libertinagem! Ganhou a aposta e, como já não estava em jejum, pois aquelas três garrafas iam cair em cima de mais quinze, levantou-se da mesa um tanto atordoado.
(...)
As três historiadoras, magnificamente vestidas ao modo das jovens de bom tom de Paris, sentaram-se aos pés do trono, num canapé ali colocado para o efeito e dona Duclos, narradora do mês, envergando um roupão muito leve e elegante, com muito carmim e diamantes, instalando-se em seu estrado, dessa guisa começou a contar os acontecimentos da sua vida, onde devia incluir a enumeração das cento e cinquenta primeiras paixões designadas pelo nome de paixões simples:"
(Marquês de Sade- OS CENTO E VINTE DIAS DE SODOMA)
Em próximo post editarei excertos do que foi narrado por Duclos.

Na sequência do post editado a 30 de Junho, apresento o 1º excerto da obra "Os cento e vinte dias de Sodoma", da autoria do Marquês de Sade (1740-1814).
Neste excerto o autor integra a obra no tempo e faz a apresentação das principais personalidades (e principais personagens), dinamizadoras dos acontecimentos. Refere, igualmente, algumas das mais relevantes actividades desenvolvidas e os gastos inerentes.
Entremos então naquela que é a "Introdução" da/à obra:
"As consideráveis guerras que Luís XIV teve de sustentar em todo o curso do seu reinado, esgotando as finanças do estado e as faculdades do povo, não deixaram de, ao mesmo tempo, trazer em si o segredo da riqueza para essas inúmeras sanguessugas que estão sempre à espreita das calamidades públicas, que elas próprias provocam em vez de minorarem, para daí retirarem lucros. O final deste reinado, por sinal tão sublime, é porventura uma das épocas do império francês em que apareceram mais fortunas obscuras, daquelas que se manifestam sempre em luxos e deboches tão surdos como elas próprias. Foi no final deste reino e pouco antes de o Regente ter tentado, mediante o famigerado tribunal conhecido pelo nome de Câmara de Justiça, obrigar a deitar tudo cá para fora a essa chusma de tratantes, que quatro deles congeminaram a singular sessão de deboche que aqui vamos descrever.
Errado estará quem pense que só a vilanagem recorria à prática dessas referidas pilhagens; à sua cabeça havia grandes senhores. O duque de Blangis e seu irmão, o bispo de..., que juntaram enormes fortunas, são a prova incontestável de que a nobreza, tal como os outros, não desdenhava enriquecer por esses ditos meios. Foram essas duas ilustres personagens, intimamente ligadas, seja nos prazeres, seja nos negócios, com o célebre Durcet e o presidente de Curval, que de início congeminaram o deboche cuja história vamos descrever e, depois de ambos terem dado parte dele aos seus dois amigos, vieram a ser todos os quatro os autores das afamadas orgias.
(...)
A referida sociedade possuía uma bolsa comum que cada um deles administrava sucessivamente durante seis meses; mas eram imensos os fundos dessa bolsa cuja serventia era somente o prazer. A excessiva fortuna permitia-lhes coisas muito singulares e não deverá o leitor espantar-se se lhe dissermos que, por ano, só em comezaina e lubricidade, despendiam eles dois milhões. (...) Faziam regularmente e em conjunto quatro ceias por semana, em quatro diferentes casas de campo em quatro diversas extremidades de Paris.
Na primeira dessas ceias, unicamente destinadas aos prazeres da sodomia, eram admitidos unicamente homens. (...) A segunda ceia era consagrada a meninas de bem, que, obrigadas a renunciar às suas orgulhosas pompas e à costumada insolência do seu porte, eram forçadas, mercê das somas recebidas, a submeter-se aos caprichos mais irregulares e, muitas vezes, até aos ultrajes que aos nossos libertinos aprouvesse fazer-lhes. (...) A terceira ceia era dedicada às criaturas mais vis e imundas que se pudessem encontrar. (...) A quarte ceia era reservada às virgens. Só eram admitidas com a idade máxima de quinze anos e mínima de sete. A sua condição não importava, só o que interessava era o seu aspecto: pretendiam que este fosse encantador e que a sua virgindade fosse certa: tinham que ser autênticas. Incrível requinte da libertinagem! (...)
As mulheres dos nossos libertinos compartilhavam quase sempre deste deboche e a sua extrema submissão, os seus cuidados, os seus serviços, tornavam-no sempre mais apetitoso."
(Marquês de Sade- OS CENTO E VINTE DIAS DE SODOMA)
A apresentação de partes da obra continuará, brevemente, com um outro excerto.
Continuo, com este post, a edição de mais um conjunto de 12 poemas daqueles relativos a "Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo".
Com eles dá-se continuidade ao trilho da insistência do recordar, da sensualidade, da criação de imagens ilustrativas de sentimentos e sensações, do prazer.
Com eles... mais... :
13.
Mesmo agora recordo os seus olhos
Suplicando que a possuísse os membros
Trémulos da intensidade do prazer
Recordo por detrás do véu caído
As curvas voluptuosas dos seios
E nos lábios as marcas dos meus dentes
14.
Mesmo agora recordo o seu lânguido
Porte de flamingo as pálidas maçãs
Do rosto iluminadas por um sorriso
Enigmático o colar de pérolas
Que lhe acariciava os mamilos
15.
Mesmo agora recordo aquela manhã
Em que lhe despi o sari e descobri
Nas coxas polvilhadas de purpurina
As marcas das minhas unhas e
Como cobrindo essas marcas com as mãos
Se afastou num acesso de pudor

16.
Mesmo agora recordo esses olhos inquietos
Enegrecidos pelo colírio as nádegas
E os seios firmes os braceletes
De ouro nos seus braços as pequenas
Pérolas dos dentes com manchas de carmim
As flores que ornavam os seus cabelos
17.
Mesmo agora recordo como
Na intimidade desatava os cabelos
E deixava cair as grinaldas de flores
Recordo esses lábios doces como o néctar
O olhar fremente e o colar de pérolas
Que lhe acariciava os mamilos
18.
Mesmo agora sonho com ela
No branco pavilhão cuja obscuridade
Era dissipada pelas lamparinas incrustadas
De jóias recordo os seus olhos transidos
De vergonha quando tentei despi-la
Para poder contemplá-la em toda a sua nudez

19.
Mesmo agora recordo esse cisne real
Esses olhos de corça assustada
A beleza dos dentes o corpo esguio
Torturado pelo fogo da separação
A taça em forma de vulva do meu prazer
20.
Mesmo agora recordo como sorria
Curvada devido ao peso dos seios
O colar de pérolas iluminando-lhe o pescoço
Semelhante ao estandarte florido e resplandecente
Desse deus cujas armas são flores
Flutuando sobre os montes da paixão
21.
Mesmo agora recordo a minha amada
Exausta depois duma noite de prazer
O discurso incoerente cheio de súplicas e rogos
As palavras que pronunciava entre suspiros

22.
Mesmo agora que a morte se aproxima
Sonho com os seus olhos cerrados
Depois duma noite de prazer com os seus membros
Enfraquecidos com a desordem das vestes e dos cabelos
Cisne real nos jardins de lótus da paixão
Possuir-me-ás nas minhas sucessivas reincarnações
23.
Mesmo agora se uma vez mais pudesse ver
Essa corça de olhos assustados
Oferecendo-me os seios transbordando de néctar
Renunciaria à coroa real
Renunciaria mesmo ao paraíso celeste
24.
Mesmo agora recordo a beleza
Incomparável do corpo da minha amada
Recordo-a excitada pelas flechas
Daquele cujas armas são flores
A sua vulva a taça perfeita
Para provar o néctar da paixão
[Jorge Sousa Braga (Introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]