julho 31, 2004

MP3za: SEMANA "JAMES BOND"

Desde o ano de 1962 que a personagem de James Bond, famoso agente secreto, faz parte do imaginário de todos aqueles que apreciam cinema, sendo tal imaginário constantemente reforçado naquele que é o acompanhamento das múltiplas aventuras e relações amorosas do herói. Interpretações excelentes tem vindo a ser feitas ao longo de todos estes anos por Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton e, ultimamente, Pierce Brosnan.
Os cartazes que se seguem, não ilustrando todos os filmes produzidos, dão uma ideia das muitas aventuras já pensadas, passadas para argumento e feitas chegar às salas de cinema:

Mas os filmes de James Bond caracterizam-se, também, pelas músicas que enriquecem as aventuras apresentadas, criando ambientes e reforçando a acção das personagens. Nomes como Matt Munro (1963), Shirley Bassey (1964, 1971, 1979), Tom Jones (1965), Nancy Sinatra (1967), Louis Armstrong & Nina (1969), Paul McCartney & Wings (1973), Lulu (1974), Carly Simone (1977), Sheena Eston (1982), Rita Coolidge (1983), Duran Duran (1985), A-ha (1987), Gladys Knight (1989), Tina Turner (1995), Sheryl Crow (1997), Garbage (1999) e Madonna (2002), contribuíam, pois, para que tal fosse uma realidade.

Objectivando recordar alguns destes filmes, assim como as vozes cantantes que a eles ficaram ligadas (ou com eles relacionadas pelas produções específicas verificadas), o blog MP3za na semana de 1 a 8 de Agosto, vai proporcionar-nos a audição de canções que, na história do cinema "bondiano", são uma inequívoca referência.

Convido todos a passarem por lá e a usufruirem, o mais possível, das tais referências que nos vão ser feitas chegar.


[Informação complementar àquela disponibilizada no blog Zen, no dia de hoje.]

Publicado por void em 11:06 AM | Comentários (6) | TrackBack

PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA


(Fotografia de José Marafona)

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

(Alberto Caeiro- POESIA)

Publicado por void em 09:10 AM | Comentários (4) | TrackBack

EXPOSIÇÃO DE PINTURA NAIF: AIMO KATAJAINEN (1)

Entramos na 2ª sala da nossa Exposição de Pintura Naif. O artista é, desta vez, Aimo Katajainen, nascido no ano de 1948 em Valkeala, na Finlândia.
Os seus trabalhos representam paisagens e realidades muito próprias do país a que pertence. Muito presente, o Inverno... a neve... e o que de ambos decorre em termos de ambientes e entretenimentos. Mas, também, outros aspectos e vertentes da vida quotidiana, noutras épocas do ano.
Atentemos, pois, no 1º conjunto de pinturas:


Pintura 1

Pintura 2

Pintura 3

Pintura 4

Pintura 5

Pintura 6

Pintura 7

Pintura 8

Pintura 9

Pintura 10

Pintura 11

Pintura 12

Pintura 13


Até breve, com o 2º conjunto de pinturas!

Publicado por void em 12:03 AM | Comentários (0) | TrackBack

julho 30, 2004

NOÇÃO DA INDIVIDUALIDADE VERDADEIRA


(Representação de Fernando Pessoa em azulejo, por Júlio Pomar)

De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tinha feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.

(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

Publicado por void em 11:15 AM | Comentários (0) | TrackBack

POEMAS DO AMOR FURTIVO DA ÍNDIA ANTIGA (4)

Com os poemas que se seguem, dou por concluída a edição de um conjunto de escritos onde o Erotismo é o tema dominante, particularizando-se naquela que é a produção de conteúdos e imagens de si resultantes, relativos a um tempo e espaço específicos. Procurei com estas 4 edições, antecedidas de outras publicadas na obra em questão (ver referência bibliográfica), divulgar poesia diferente daquela que é mais comum apresentar, enriquecendo-a/complementando-a com pinturas/iluminuras que, baseadas em realidades (ou melhor, suas representações/sugestões) espaciais do mesmo âmbito, sugerissem ambientes que, de facto, estão subjacentes. Registo que foi uma experiência interessante pelo que de mais-valia veio trazer aqui ao blog.
Mas... sem mais delongas... atentemos no que ai vem:


37.

Mesmo agora o meu espírito regressa
Ao seu leito Rio e danço entre as suas
Companheiras estreitando os seus corpos
Graciosos perdendo-me por fim
Entre as coxas da minha amada


38.

Mesmo agora ignoro se ela é parecida com Xiva
Ou alguma criatura criada pela maldição de Indra
Ou a esposa de Krisna ou se Brahma
Lhe deu vida para enfeitiçar o mundo
Ou para ver entre as jovens um clarão


39.

Mesmo agora ignoro se alguém neste mundo
Poderia descrever esse corpo
Que só a mim se desvendou Quem
Quisesse descrever essas formas voluptuosas
Só se conhecesse alguém que a igualasse


40.

Mesmo agora vejo os seus olhos
Escurecidos pelo antimónio
Os lábios ardentes os brincos
Agitando-se nas orelhas o corpo
Curvado devido ao peso dos seios
Sem que eu a possa possuir


41.

Mesmo agora se pudesse
Beijaria sem cessar esse rosto transparente
Como a lua de Outono capaz de roubar
O coração dum eremita Como não
De ter roubado o meu


42.

Mesmo agora sacrificaria tudo
Se me fosses permitido regressar
A esse santuário de prazer
Perfumado com essência de flores de lótus
Húmido ainda de esperma perante
O qual se prostrou o deus do amor


43.

Mesmo agora neste mundo
Onde os sinais de beleza se defrontam
Encarniçadamente o meu coração
Acredita que ninguém conseguirá
Eclipsar a beleza da minha amada


44.

Mesmo agora sobre as ondas frementes
Do rio do meu espírito a minha amada desliza
Como um cisne real imputando
Às carícias fugidias dos grãos de pólen
A sua ligeira fadiga


45.

Mesmo agora sonho com essa princesa
Filha do mais nobre dos reis
Com os seus olhos ardentes de desejo
Criança que um dia desceu dos céus
Filha dos músicos celestes dos génios dos cantores
Divinos dos deuses e da serpente-virgem


46.

Mesmo agora não consigo esquecê-la
Ao acordar curvando-se perante o altar
Os seios como cântaros cheios de néctar
O corpo com adornos coloridos



47.

Mesmo agora recordo a beleza doirada
Do seu corpo sugerindo fadiga
Para não parecer impudica
Perturbada pelos meus beijos apaixonados
E pelo contacto das nossas coxas
Ela deixava- como uma planta por onde
Sobe a seiva- que o desejo a possuísse


48.

Mesmo agora recordo como era implacável
Na batalha sem armas do amor
Como nós apesar de enlaçados
Nos conseguíamos levantar e deitar
Sem o apoio das mãos Recordo
O sangue das mordeduras nos seus lábios
E dos arranhões nas suas coxas


49.

Mesmo agora não consigo imaginar
Como poderia suportar a dor da separação
Só a morte- que ela chegue depressa-
Poderá dissipar essa dor


50.

Mesmo agora Xiva não rejeita o negro veneno
A tartaruga transporta no dorso a terra
O mar alberga terríveis fogos
A mim só me resta cumprir o prometido


[Jorge Sousa Braga (Introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]

Publicado por void em 12:02 AM | Comentários (2) | TrackBack

julho 29, 2004

A ESCURIDÃO


(Autor desconhecido)

tenho medo. de noite, quando não consigo dormir, a morte
ressuscita mortes. deitado sobre a cama, uma mão negra
desce do tecto para me tocar no peito. tenho medo. silêncio
e frio sobre o meu corpo. olho para dentro de mim e não
vejo nada. tenho medo. todos os que me chamam de dentro
da escuridão sabem que há uma casa com paredes antes
de mim, sabem que eu não sou aquele que ilumina o mundo.
tenho medo. quando não consigo dormir e prolongo as
noites, a culpa envolve-me de medo e frio, o silêncio diz-me
para esperar, pois o descanso virá com a noite maior,
a noite em que a manhã nunca chegará.

(José Luís Peixoto- A CASA, A ESCURIDÃO)

Publicado por void em 02:46 PM | Comentários (1) | TrackBack

TRÍPTICO

Fotografia 1 (um lado)

Fotografia 2 (meio)

Fotografia 3 (outro lado)

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TODOS OS MOMENTOS AO AMANHECER


(Autor desconhecido)

hoje vi a noite tornar-se dia. podia ser ontem mas foi hoje. e eu tive frio. tive muito frio mas soube que tinha de aproveitar

todos os momentos

pois amanhã, podia já não estar ali. e eu vi. vi as ruas indistintas a nascerem da claridade. vi os céus negros de tempestade e a negrura anoitecida a verterem clarões de azul esbranquiçado que lembravam os dias das viagens longas, quando na madrugada acordávamos com os pássaros e com os padeiros. vi uma noite de verão a morrer para o dia. e foi fresco. não foi a podridão súbita dos corações daqueles a quem a solidão visita mas a frescura do rebentar da luz. uma luz que ao principio tremeluzia, ténue e humedecida, e que depois cresceu e cresceu, varrendo o mistério das ruas, entre os becos sem saída e os caixotes de lixo derrubados, e que inundou os corpos daqueles que acordavam ainda ensonados para a vida na terra sem a lua. eu observei e como se pela primeira vez, entrei dentro do tempo e tornei-me parte dessa morte, desse renascer, dessa transformação magnífica que se repetia interminavelmente, todas as vezes como se fosse a primeira vez, até alguém fechar a luz e o mundo acabar para quem o vê.

but not for me yet.

desviei o olhar daquele céu esburacado pelos focos luminosos de uma lividez divinal e olhei para o meu lado. o lado das pequenas coisas. e percebi que, por vezes, precisamos de olhar para as pequenas coisas para descobrirmos a nossa verdadeira grandeza.
naquele momento não houve lágrimas, não houve o peso no coração que molesta o que temos cá dentro mas sim a grandeza de crescer, de acabar, de pertencer, de ser, de poder, de viver. de viver. de sentir as veias a arroxear devido ao frio e os pêlos a eriçarem-se pelo corpo acima e a ponderada expiração entre golfadas de brisa matinal e o silêncio. um silêncio que não possuía palavras porque estas seriam demasiado impuras para a sua magnitude, para a sua dimensão sobrenatural.

vai à procura e permita-me que te diga: escuta o silêncio. escuta o silêncio da vida.

(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

Publicado por void em 09:04 AM | Comentários (7) | TrackBack

julho 28, 2004

MP3za

Um projecto nascido este Verão e que nos permite ter verdadeiros momentos de evasão. Um espaço para entrar, explorar, ficar e voltar. Voltar, sempre.

Publicado por void em 12:01 PM | Comentários (0) | TrackBack

DOIS MICROCONTOS DE...

SUSO DE TORO

Na madrugada

Acordou a meio da noite com aqueles latejos, sentia-se como se estivesse deitado sobre um animal vivo. Com horror constatou que o colchão latia e todo ele tinha a consistência de um animal vivo, mole e subtilmente móvel. Uma coisa viva debaixo de si. E ser-lhe-ia hostil? Envolvê-lo-ia aquela coisa branda para devorá-lo parcimoniosamente? O terror era um suor frio que ensopava o colchão e o alimentava, ali imóvel a escutar aquele animal debaixo de si na madrugada.
Se calhar, dava-se próximo do amanhecer.


E ali estava aquele homem

O dinossauro contemplava com curiosidade aquele homem que estava a dormir placidamente. Então o homem acordou e berrou aterrorizado, vendo-o ali a olhar para ele. O dinossauro assustou-se muito com os seus berros e esmagou-o com a sua pata uma vez e mais outra até que o homem parou de agir e voltou à sua imobilidade. Logo o dinossauro voltou a contemplá-lo com curiosidade.

(Textos editados na revista Periférica, Inverno 2004, p. 53)

Publicado por void em 11:49 AM | Comentários (0) | TrackBack

A SAÍDA


(Autor desconhecido)

os calafrios esquartejados pelo corpo. as pontinhas afiadas das agulhas nos segundos de pele arranhada. os GRITOS flamejantes da loucura a perfurarem os poros dilatados da mente
estrago físico. estrago emocional
as unhas com restos de carne a fecharem-se sobre as pálpebras ressequidas. o velho sangue a escorrer pelo canto dos olhos até às gretas dos lábios. esmurrar-se incontrolavelmente na esperança de que o sofrimente cesse
voltas e voltas sobre os membros cansados
- quando é que isto parará?!?...
frio
frio a estremecer o resto de luz existente. frio a percorrer as veias, o interior desconcertante. um martelo a debater-se contra as teclas do piano
- POM. PLIM. PLIM. PLUM. POMMM. PUMMMMMMMMMMMMMM
nunca mais acaba. nunca mais acaba. as vozes estridentes a subirem pelas goelas estranguladas. um tumor a enegrecer as janelas e o chão do quarto lâminas esmagadas a esfolarem as paredes da caixa toráxica
e tu agarras os ossos do peito, sufocas entre os soluços agoniantes e gritas até não haver mais um som vitorioso
o silêncio
- quem está aí?
pensamentos a sacudirem a cabeça com força. dores e dores em todo a parte mas não consegues chegar a lado nenhum
os dias a morrerem lá fora. as noites a morrerem cá dentro
- não aguento mais. não aguento mais. não aguento mais. mais não. não. não.
não aguento mais. NÃO AGUENTO MAISSSSSSSS
o desejo de retornar ao que antes se tinha
a loucura
o desespero
a impossibilidade do confronto
a saída.

(Texto da autoria de "Execrável". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

Publicado por void em 10:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

FANTASMA

Durante meses, fui uma forma sem forma que ocupava espaço na tua vida, mas sem que a esta ocupação de espaço correspondesse uma sombra- não existia além de ti, quero dizer.

Para os teus colegas amigos familiares, não existia, ou pelo menos não enquanto a verdadeira dimensão de mim e de ti. Toda a gente sabia quem eu era, o que fazia, o que tinha sido, mas não o que significava realmente.

Durante meses, suportei ser um ser amorfo, isento de extensão. Mas isso foi durante meses. Nesses meses, enquanto namorado (seja lá o que isso for), aceitei não o ser. Mas como amigo, aquilo que tu dizes que vamos ser, não consigo. Na ideia de amigo, no meu conjunto de atributos que qualificam a palavra amigo, não consigo compreender a ausência.

Por isso não a vou aceitar.

É o fim, disse-te, aliás escrevi-te. Agora recordar-te-ei apenas.
É o fim.
E é mesmo.

(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA)

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julho 27, 2004

EXPOSIÇÃO DE PINTURA NAIF: BERT-HAGE HAVEROS (4)

Termino, com este conjunto de pinturas, a exposição de trabalhos de Bert-Hage Haveros. Fecha-se, pois, esta 1ª sala. Mas a apresentação de pinturas continua, com outros autores. Um registo adiantado: o próximo artista pertence, também, a um dos países do Norte da Europa. Mas... apreciemos, agora, o que se segue:

Pintura 37

Pintura 38

Pintura 39

Pintura 40

Pintura 41

Pintura 42

Pintura 43

Pintura 44

Pintura 45

Pintura 46

Pintura 47

Pintura 48


Até breve, então, com um outro artista... numa outra sala.

Publicado por void em 03:58 PM | Comentários (0) | TrackBack

DELÍRIOS


(Fotografia de Urs Kahler)

a fazer nada como sempre [como se faz nada? não se fazendo algo, eu acho] cuspo-me para dentro de uma taça de gelado. há mãos encarquilhadas, esguias e monstruosas a penetrarem a solução viscosa de pedaços nus. meus lábios gretados a engolirem-se depravadamente num acto de canibalismo sexual. uma janela aberta sobre uma parede negra. negra e lisa. húmida e cavernosa. a hora de adormecer. quando me deito, os ossos entrelaçam-se numa comunhão bastarda de ideias decompostas. um puzzle de peças incombináveis a insultarem-me a razão [sei - não sei] um espanta-espíritos que nada faz pelos mortos racionais. labaredas de palavras loucas a conspurcarem-me as viragens do sono entre o descanso da mente. não há descanso. viravoltas pegajosas nos pesados pensamentos insolentes. estafadas luas em torno de minha criatura desassossegada. hediondos vermes de sussurros a maldizer o meu estado espiritual. horas de um tempo que me entorpece a alma e me cansa o corpo. um hórrido momento de evocação que me assombra o peito e que me empalidece o rosto e que me encurva a visão para a escuridão tenebrosa de um inferno alucinante. o aperto do sangue nas veias saltitantes a desejar-me mórbidos episódios de destruição [destruir-lhes ou destruir-me?] enquanto pequenas cápsulas de instantes fotográficos, ganham vida e infiltram-se pelos meus ouvidos como gumes de punhais a despenharem-se num abismo, estilhaçando-se pela minha mente, pelo meu cérebro que fervilha à procura do verde. o verde idílico dos pastos nas tardes amenas de verão. o vento que se aloja nas tenras folhagens verdes dos carvalhos, das bétulas e dos castanheiros e que espalha as suas essências mágicas pelas terras virgens de ninguém. existe um lugar, dentro dos outros lugares, liberto do tempo e da mão emporcalhada do homem, onde a pastagem cresce rápida e desordenada, livre de qualquer naifa assassina, e onde os rios namoram os galhos de árvores e satisfazem as bocas sedentos de seus visitantes, onde a água reflecte os focinhos dos mais atrevidos e por onde os raios de luz deliciam até aos mais afastados e aos mais fracos cantinhos de terra isolada. um lugar que visualizo por entre as sombras demoníacas do delírio, tentando atenuar a angústia e por fim repousar.

(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

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A CASA VAZIA


(Fotografias de Sally Russ)

as sombras roedoras dos teus passos pela casa vazia. deixas os sorrisos em cada passagem silenciosa e as palavras pregadas às paredes nuas. a casa alucina-se. a tua mente desfila pelos corredores assombrados à procura das memórias. quantas estrelas vês cair no parapeito da janela quando o lento respirar dos inocentes atravessa o quarto? apanhas as estrelas na tua mão a guardar um espaço para o meu colo. eu olho-te da chama invisível que embate no luar invasor, entre as cortinas soluçantes, e vigio o teu sono agitado, pecando contra a fragilidade existencial do João-pestana.
deixas-te a sós com as marionetas de papel teatral e cercas-te nos muros do tempo para que este não custe tanto a morrer. trazes para dentro da casa os depósitos de restos emocionais e as minhas mãos crescem dentro do teu peito, envolvendo-o, apertando-o, esmagando-o, afogando-o nas labaredas ardentes da querença. querer-te forma palpável a preencher as falhas corroídas da presença até esquecer o sabor amargo da ausência.
os consistentes murmúrios da cidade ainda vagueiam pelos cantos ocos das divisões. os teus pés descalços gelam de encontro às lajes rijas, uma frieza inconsolável. a camisa alarga-se pelas esquinas dos móveis e deixa-te um espaço incorrigível, junto ao peito, onde eu perdi o meu coração.
corto a insónia no instante em que me deito sobre o teu corpo e a minha figura se estende pelos teus dedos dos pés até aos dedos das mãos e os meus cabelos se soltam na concavidade fofa da tua almofada e toda a minha pele veste a tua, os meus lábios beijam os teus, o teu ar solta-se pelas minhas narinas, a minha visão inunda-se pela tua íris e os nossos sonhos entornam-se uns aos outros. estamos em uníssono na mesma barca do sono. fechamos os olhos e por fim a casa adormece enlaçada nas nossas mãos vazias.

o silêncio.

(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

Publicado por void em 08:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

julho 26, 2004

VEJO DEUS ACENANDO OS DIAS


(Fotografia de José Marafona)

vejo deus acenando os dias ao
dorso do mundo e acredito
na sua exactidão e
salvo-me de qualquer
pecado. porque deus dá pequenos
diabos a quem não tem
santos. e aceito a sua
natureza divina como divino
o seu segredo. não me
acossam a boca os
enganos. abrigo-me na caso que abro e
range, e calo-me.

(Valter Hugo Mãe- ESTOU ESCONDIDO NA COR AMARGA DO FIM DA TARDE)

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PEDI TÃO POUCO À VIDA


(Fernando Pessoa)

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isso mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.

Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo melhor. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência... Vejo-me no quarto andar da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mato-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui, eu, assim!...

(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

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julho 25, 2004

A CASA VAZIA


(Fotografias de Sally Russ)

as sombras roedoras dos teus passos pela casa vazia. deixas os sorrisos em cada passagem silenciosa e as palavras pregadas às paredes nuas. a casa alucina-se. a tua mente desfila pelos corredores assombrados à procura das memórias. quantas estrelas vês cair no parapeito da janela quando o lento respirar dos inocentes atravessa o quarto? apanhas as estrelas na tua mão a guardar um espaço para o meu colo. eu olho-te da chama invisível que embate no luar invasor, entre as cortinas soluçantes, e vigio o teu sono agitado, pecando contra a fragilidade existencial do João-pestana.
deixas-te a sós com as marionetas de papel teatral e cercas-te nos muros do tempo para que este não custe tanto a morrer. trazes para dentro da casa os depósitos de restos emocionais e as minhas mãos crescem dentro do teu peito, envolvendo-o, apertando-o, esmagando-o, afogando-o nas labaredas ardentes da querença. querer-te forma palpável a preencher as falhas corroídas da presença até esquecer o sabor amargo da ausência.
os consistentes murmúrios da cidade ainda vagueiam pelos cantos ocos das divisões. os teus pés descalços gelam de encontro às lajes rijas, uma frieza inconsolável. a camisa alarga-se pelas esquinas dos móveis e deixa-te um espaço incorrigível, junto ao peito, onde eu perdi o meu coração.
corto a insónia no instante em que me deito sobre o teu corpo e a minha figura se estende pelos teus dedos dos pés até aos dedos das mãos e os meus cabelos se soltam na concavidade fofa da tua almofada e toda a minha pele veste a tua, os meus lábios beijam os teus, o teu ar solta-se pelas minhas narinas, a minha visão inunda-se pela tua íris e os nossos sonhos entornam-se uns aos outros. estamos em uníssono na mesma barca do sono. fechamos os olhos e por fim a casa adormece enlaçada nas nossas mãos vazias.

o silêncio.

(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

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DO LADO DE LÁ DO VIDRO...


(Autor desconhecido)

Publicado por void em 03:27 PM | Comentários (3) | TrackBack

CAPACIDADE DE RENOVAÇÃO

Eduarda

E, de cada vez que tentavas fugir, eu agarrava-te. Voltavas a ficar em cima de mim. Voltavas a pôr o desejo em marcha. Fiquei viciada na tua pele. Inesperadamente. No teu olhar na cama. Nessa tua incapacidade de dizeres não. Nessa tua vontade de me levares para outro lado, um lado melhor. Com todo o prazer. A tua segurança e a maneira como desvias os olhos quando a conversa se torna mais séria. Olho para ti e pergunto-me o que sou. O que estou aqui a fazer. O que tu me estás a fazer. Há mais de um ano que não sei nada disto. Que não sei quando esconder as minhas coisas, o meu ser. Quando mostrar. Mas tu és uma mulher e tudo parece diferente. Dizes que estás numa ordem diferente do resto, que já nada se encaixa aqui. Queres dar-me palavras novas. Eu aceito-as, porque tu me dás contentamento. Porque me puxas e eu vou. Porque se soltam as coisas cá dentro e eu vibro. Pasmas-me. Pasmo-me. E tudo se mistura no prazer. Não quero sair do quarto. Não quero sair do teu corpo. Quero ficar aqui e quero que estejas comigo. É maravilhoso. De onde isto surgiu? Esta capacidade de renovação que não sabia possível. Este leve esquecimento de tudo o que me atormentou e, por certo, ainda me atormenta. Para onde me levas?

Nenhuma de nós confessa, mas estamos atrapalhadas. Atrapalhadas, depois do amor, atrapalhadas nas palavras que se devem dizer. Que se querem e não se querem dizer. Atrapalhadas. Não sabes bem onde pôr as tuas mãos ao dormir. Uns minutos antes de adormeceres, quando já estás mesmo quase, quase a dormir, deixas de ficar atrapalhada. Abraças-me por completo. Pões a tua perna por cima das minhas. Eu rio-me. Quer dizer que sou tua? E falas, dizes coisas, baixinho, que não etendo. Eu beijo-te. E tu sorris. Quando estou contigo assim, sinto-me maravilhada. Não compreendo o que me está a acontecer e apetece-me ficar para sempre assim. Dás-me novas direcções, mas tu própria pareces não conhecê-las. E penso que nada será alguma vez comparável a isto, aconteça o que acontecer. Nem ele, que lá está, como uma dor já minha. Preso à minha identidade. Nem ele pode afectar-nos. Pergunto-me porquê. Se serás tu, com essa tua generosidade mascarada de pretensão. Se será este momento, com o renascer para o amor, o fim da dor. Se será por seres mulher, com toda a novidade e surpresa que isso implica. Pergunto-me. E não chego a nenhuma conclusão.

(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM. Fotografia de Christian Coigny)

Publicado por void em 10:05 AM | Comentários (4) | TrackBack

EXPOSIÇÃO DE PINTURA NAIF: BERT-HAGE HEVEROS (3)

E eis-nos perante mais um conjunto de 12 pinturas do artista que temos vindo a apresentar: o sueco Bert-Hage Haveros:

Pintura 25

Pintura 26

Pintura 27

Pintura 28

Pintura 29

Pintura 30

Pintura 31

Pintura 32

Pintura 33

Pintura 34

Pintura 35

Pintura 36


Para breve, mais uma outra dúzia de pinturas.

Publicado por void em 09:20 AM | Comentários (6) | TrackBack

julho 24, 2004

VERTIGENS NA NOITE

Gritos embalsamados
(Execrável)

o pesadelo retoma a realidade noctívaga. as vestes moribundas do luar ocultam-se nas sombras matreiras da cidade. o cheiro ácido da chuva sobre a relva domesticada, os passos rastejados dos que caminham para o dia, os copos das cerveja partidos no chão de beatas pisadas. o crescente soluçar da morte em cada esquina desafortunada. as lamúrias doentes dos que se fecham dentro das quatro paredes infernais da alma. os corpos a chocalharem uns contra os outros. a noite a sufocar, a sufocar, estrangulada. gritos amarrados ao céu-da-boca. estrelas que caiem sem que alguém faça um desejo.
as estrelas estão aprisionadas na escuridão dos céus e só na morte encontram uma escapatória ao buraco negro do infinito. quem fará um desejo por elas quando estas rasparem a superfície dos sonhos?


A noite chega...
(D. Quixote)

A noite chega e com ela a escuridão. A fobia de mais uma noite de tormento, o confronto com os meus demónios. O vazio desta cama solitária, a claridade incómoda do pensamento, e os ruidos negros do silêncio do meu quarto, as trevas... estas trevas que me rodeiam, que se infiltram em mim e me fazem temer os monstros que guardo dentro do meu peito pesado e comprimido.

Tudo é um silêncio insano, violado apenas por um tiquetaquear insolente e endoidecedor de relógio de parede e pelos gritos na minha cabeça. O meu desassossego dá lugar aos fantasmas que me visitam. Sombras e vultos desconhecidos fitam-me estarrecidos aos pés da minha cama, como a morte que me espera, inevitavel um dia, uma noite.

A noite chega e nunca mais acaba. Com ela a minha alma perde-se aos poucos, a minha sanidade já cá não está. O meu ser liquidesfaz-se putrefacto num leite negro sobre um manto de folhas secas e terra preta em que a minha cama se tornou, os gritos esvoaçam à minha volta como fumo que me envolve e intoxica cortando o ar e a respiração... e noite parece não ter mais fim.

Acordo... mais uma noite, mais um pesadelo...

(Textos editados, originalmente, em Nox Scriptum. Fotografias: autor desconhecido e Val, respectivamente.)

Publicado por void em 06:38 AM | Comentários (2) | TrackBack

julho 23, 2004

ISTO TUDO...

... uma merda...

Revolto-me com a vitória da mediocridade, da imbecilidade, da afronta à inteligência.
Revolto-me com o infantilismo estúpido, com o dar espaço para o assalto à "coisa pública".
Revolto-me pela não possibilidade que tive de exercício do direito de uma vertente da cidadania...

Revolto-me porque me tratam sem consideração.
Revolto-me porque me querem atirar, descaradamente, areia pelos olhos dentro.
Revolto-me pela falta de coragem de quem não teve força para impedir isto... e para pôr termo ao que vinha de trás.

Revolto-me porque estamos a viver um período de circo... sim, porque nem condições para o pão há.

Uma merda!

Publicado por void em 06:36 PM | Comentários (12) | TrackBack

BONITO DE SE OUVIR



- Sabes o que é realmente bonito de se ouvir? mesmo muito bonito?
- Diz.
- Prometes que não gozas?
- Prometo, diz.
- A sério?
- Sério. Diz.
- A coisa mais bonita de se ouvir, mais melodiosa, doce, que nos faz sentir bem e em paz, sentindo a comunhão e paixão, desejo em comum e partilha.
- diz
- que nos explica porque viemos a este mundo e nos comprova que pertencemos a ele.
- Desembucha
- que ao primeiro sopro nos mostra estarmos vivos, e que, acima de tudo, somos importantes, pelo menos para alguém somo-lo, é...
- Diz, fala, fala de uma vez...
- tão só... em pequenas partículas de existência e ser
- diz diz
- de forma tão singela
- ...
- a respiração de outra pessoa ao nosso lado.

(Paulo Ferreira- CARTAS A MÓNICA)

Publicado por void em 12:50 PM | Comentários (6) | TrackBack

PALAVRAS DE CARVÃO

o sol e a lua a caírem juntos.

o sol. o sol. o sol sobre as angústias de carvão.

depois as trevas.

tenho frio.

o frio vem sempre depois do sol.

tenho medo.

as minhas sombras de carvão.


(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

Publicado por void em 12:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

EXPOSIÇÃO DE PINTURA NAIF: BERT-HAGE HAVEROS (2)

Continuo a edição de pinturas de Bert-Hage Haveros. Mais um conjunto de 12 trabalhos a dar sequência ao que disse aquando da sua apresentação. Mais um reforço das ideias. Mais um sublinhar.
Continuemos o percurso:

Pintura 13

Pintura 14

Pintura 15

Pintura 16

Pintura 17

Pintura 18

Pintura 19

Pintura 20

Pintura 21

Pintura 22

Pintura 23

Pintura 24


Desejando bastante que estejam a gostar, despeço-me com um novo "Até breve!"


Publicado por void em 07:34 AM | Comentários (2) | TrackBack

julho 22, 2004

VOO

Uma foto que adorei e que fui buscar "emprestada" aqui.

Publicado por void em 02:53 PM | Comentários (4) | TrackBack

PENSAMENTOS DE... OSCAR WILDE


(Oscar Wilde)

1. Se alguém diz a verdade, esse alguém será, seguramente, tarde ou cedo, apanhado.

2. Nada que realmente tenha acontecido tem a menor importância.

3. A maldade é um mito inventado pelos sensaborões para diminuir a capacidade de sedução dos outros.

4. Se os pobres apenas tivessem perfis, não seria difícil resolver o problema da miséria.

5. O Prazer é a única coisa para que se deve viver. Nada envelhece tão bem como a felicidade.

6. Só os superficiais se conhecem a si mesmos.

7. Deve ser-se sempre um bocadinho improvável.

8. Aqueles que vêem alguma diferença entre a alma e o corpo é porque não possuem nenhuma das duas.

(Oscar Wilde- POEMAS EM PROSA)

Publicado por void em 01:33 PM | Comentários (5) | TrackBack

CONSCIÊNCIA DO DESESPERAR

CESÓNIA: Choras?

CALÍGULA: Sim, Cesónia.

CESÓNIA: Enfim, mudou alguma coisa? Se amavas Drusilla, também me amavas a mim e a muitas outras. Não havia razão para que a sua morte te fizesse correr três dias e três noites pelos campos e te trouxesse agora com esse ar hostil.

CALÍGULA, voltando-se: Quem fala de Drusilla, doida? Não podes imaginar que um homem chore por outra coisa, a não ser por amor?

CESÓNIA: Perdão, Caius. Procuro compreender.

CALÍGULA: Os homens choram porque as coisas não são como deviam ser. (Ela avança para ele.) Não me toques. (Ela recua.) Mas fica ao pé de mim.

CESÓNIA: Farei o que quiseres. (Senta-te.) Na minha idade, já se sabe que a vida não é boa. Mas se o mal está na Terra, para quê torná-la ainda pior?

CALÍGULA: Não podes compreender. Que importa? Talvez encontre uma saída. Mas sinto que estão a crescer em mim seres sem nome. Que farei contra eles? (volta-se para ela.) Oh! Cesónia, eu sabia que podíamos desesperar, mas ignorava o que essa palavra queria dizer. Acreditava, como toda a gente, que estar desesperado era uma doença da alma. Estava enganado, o corpo é que sofre. Doem-me, os membros, a pele, o peito. Tenho a cabeça vazia e o coração sobressaltado. Mas, o mais horrível é este gosto na boca. Não a sangue, nem a morte, nem a febre, e a tudo isso ao mesmo tempo. Basta que mexa a língua para que tudo se torne negro, para que os seres me repugnem. Como é duro, como é amargo a gente tornar-se um homem!

CESÓNIA: Precisamos de dormir, dormir muito. Deixarmo-nos levar, sem reflectir. Velarei pelo teu sono. O Mundo recuperará para ti o gosto, quando acordares. Faz com que o teu poder sirva, então, para melhor amares o que puder sê-lo ainda. O possível também merece ter a sua oportunidade.

CALÍGULA: Mas é preciso o sono, o abandono. E isso não é possível.

CESÓNIA: É o que pensamos quando o cansaço se torna insuportável. Mas acabamos sempre por recuperar o equilíbrio, por encontrar de novo a antiga mão firme.

CALÍGULA: Pois é, apenas não sabemos onde pousá-la. Que me interessa ter firmeza nas mãos, para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem? Não, Cesónia, não podendo agir sobre a ordem do mundo, é indiferente que durma ou continue acordado.

CESÓNIA: Mas isso é querer igualar-se aos deuses. Não há pior loucura.

CALÍGULA: Também tu me julgas louco. E, no entanto, o que é um deus, para que deseje igualar-me a ele? Está para além dos deuses o que hoje desejo, com todas as minhas forças. Tomo de assalto um reino, onde impera o impossível.

CESÓNIA: Não poderás obrigar o céu a não ser o céu, um rosto belo a ser feio, nunca tornarás insensível um coração humano.

CALÍGULA, com exaltação crescente: Quero misturar a Terra com o Céu, confundir a beleza com a fealdade, fazer explodir o riso, do sofrimento.

CESÓNIA, de pé, diante dele, suplicante: Há o bom e o mau, o que é grande e o que é baixo, o justo e o injusto. Juro-te que tudo o que possas fazer não alterará nada.

CALÍGULA, no mesmo estado de exaltação: Darei a este século o dom da igualdade. E, quando tudo estiver nivelado, o impossível, enfim, sobre a Terra, quando a Lua for minha, então talvez eu próprio mude e, comigo, o mundo inteiro se transforme, os homens deixem de morrer, e todos sejam felizes.

CESÓNIA, num grito: Nunca poderás negar o amor.

CALÍGULA, explodindo, raivosamente: O amor, Cesónia! (Agarra-a pelos ombros e sacode-a.) Aprendi que não é nada. O outro é que tem razão: o Tesouro público! Ouviste-o, não é verdade? Tudo começa por aí. Ah, é agora que vou começar a viver. Viver, Cesónia- o contrário de amar. Sou eu que to digo. E convido-te [para] uma festa sem par, a um processo geral, ao mais belo dos espectáculos. Mas é-me preciso gente, espectadores, culpados.
(Salta para o lado do gongo e começa a bater-lhe ininterruptamente, em golpes cada vez mais fortes. Golpeando sempre.)

CALÍGULA: Farei entrar os culpados. Preciso de culpados. E todos eles o são. (Sempre batendo.) Quero que façam entrar os condenados à morte. Público, quero o meu público! Juízes, testemunhas, acusados de antemão condenados! Ah!, Cesónia, mostrar-lhes-ei o que nunca viram, o único homem livre deste Império!
(Ao som do gongo, o Palácio vai-se a pouco e pouco enchendo de rumores, que aumentam e se aproximam. Vozes, tilintar de armas, passos. Calígula ri e continua a bater no gongo. Alguns guardas entram, depois saem. Batendo no gongo).

(Albert Camus- CALÍGULA)

Publicado por void em 12:12 AM | Comentários (0) | TrackBack

julho 21, 2004

HOJE

Pelo significado do dia de hoje...

Registo-o aqui no Void, apenas assim... com um profundo silêncio. É tudo... E muitíssimo...

Publicado por void em 08:47 AM | Comentários (5) | TrackBack

EXPOSIÇÃO DE PINTURA NAIF: BERT-HAGE HAVEROS (1)

Abro, com este post, uma exposição de Pintura Naif, que contempla no seu programa um leque de pintores internacionais e, obviamente, portugueses. Não farei a sua revelação prévia, no sentido de manter a vossa expectativa/curiosidade quanto aquelas que serão as possibilidades e potencialidades deste projecto. Esta é também uma aposta que, como blogger faço, analisando e avaliando os resultados.
Inicio pois este percurso, com os primeiros 12 trabalhos de Bert-Hage Haveros, artista sueco, nascido em Stockholm, no ano de 1932. Com as suas pinturas Bert-Hage mergulha (e faz-nos mergulhar) no coração do povo sueco, representando o que este tem de mais profundo e genuíno, no âmbito daquelas que são as suas vivências quotidianas, também geograficamente localizadas.
Ganhador de vários prémios o autor é, para mim, uma excelente escolha para atrair e fixar, no acompanhamento deste projecto, todos aqueles que gostem de pintura em geral, e de pintura naif em particular.

Usufruamos:

Pintura 1

Pintura 2

Pintura 3

Pintura 4

Pintura 5

Pintura 6

Pintura 7

Pintura 8

Pintura 9

Pintura 10

Pintura 11

Pintura 12


Para breve, mais um conjunto de 12 trabalhos. Até lá!

Publicado por void em 12:01 AM | Comentários (4) | TrackBack

julho 20, 2004

GÁRGULA

E o amor dos homens esvaiu-se nele como areia na ampulheta. Como tempo que acaba e se acaba finda, sem voltar nunca para trás. Os seus olhos ficaram duros, ausentes do que o rodeava, a sua boca seca e as expressões mirradas.
Sentou-se no topo do edíficio mais alto que encontrou, anichou-se curvo e pensativo, abstraído do frio e da chuva, do vento cortante e do sol abrasador, que lhe chicoteavam ferozmente com escárnio e desdém.
Trocou os sonhos por asas de pedra, trocou as mãos vazias de amor por garras cruéis incapazes de acariciar alguem, agarrou-se ao chão sedento de pertença e transformou-se em pedra aos nossos olhos.

Rezam as lendas que ainda se mexe, quando o vento passa e traz na brisa, o aroma fresco do seu perfume. Por ela se tornou uma estátua, fria e morta, inanimada. Por ela renasce na sua monstruosidade mórbida, e tenta voar com as asas de pedra, em noites que a lua ainda quase, o faz sonhar.

(Texto da autoria de "D. Quixote". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

Publicado por void em 08:43 AM | Comentários (5) | TrackBack

A VIDA COMO UMA ESTALAGEM


(Fernando Pessoa)

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderei considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

Publicado por void em 08:16 AM | Comentários (2) | TrackBack

julho 19, 2004

ANGEL OF SORROW


(Autor desconhecido)

Embrace me my angel, who's eyes enlightens my world.
Let me feel your golden hair, so soft so beautiful.
Take my hand and follow me, to the realms of silence.
Let the ligth of all lights devour us.
Spread out your wings, and take me to this paradise.
Spread out your wings and let us fly,.......

(Arcana- Dark Age of Reason)

Publicado por void em 11:39 AM | Comentários (3) | TrackBack

TU COMO UMA FACA (1)


(Autor desconhecido)

Uma brisa ergue-se do interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim. Não passou muito tempo desde que a manhã nasceu. Passou muito tempo desde que me deixaste sozinho entre as sombras que se confundiam com a noite. Noutras noites, olhámos para a lua. Nesta noite, não olhámos para a lua. Noutras noites, olhámos para a lua e enchemo-nos de desejos. Nesta noite, não olhámos para a lua e sofremos. Noutras noites, olhámos para a lua e não sabíamos o que era sofrer. Escuridão e esperança. Na lua, víamos mais do que o reflexo daquilo que queríamos inventar: os nossos sonhos. Víamos um futuro que era maior do que os nossos sonhos e que nos envolvia e que nos puxava para dentro de si. Nós sabíamos que nos esperava algo muito maior do que aquilo com que podíamos sonhar. Estávamos enganados. Aqui, sobre estas pedras que brilham, sob estas lágrimas no meu rosto, sei que nos enganámos e sei a lâmina infinita de uma faca.

(José Luís Peixoto- ANTÍDOTO)

Publicado por void em 08:09 AM | Comentários (0) | TrackBack

julho 18, 2004

À MINHA ILUSÃO

Escuto o cair da água, límpida e cristalina, vinda do deserto; vejo um mar de rosas oriundo de profundos e cruéis espinhos; balbucio doces e suaves palavras no cair de uma noite tempestuosa e abismática; acaricio afavelmente o teu pensamento frio e distante e sinto o leve e gentil toque dos meus sentimentos que repousam na dúvida e no imprevisível.

(Texto da autoria de Teresa Sousa. Editado, originalmente, em Zen.)

Publicado por void em 01:40 PM | Comentários (1) | TrackBack

CARGA ENERGÉTICA


(Trabalho da autoria de Lucio Valerio Pini)

eu não quero saber da pele cheia de piquinhos como a barba cortada. não escrevas os defeitos perfeitos destes seres imperfeitos como se fossem inadequados à sua condição. eu sobreviria à custa de uma só palavra que brotasse de teus lábios brincalhões e tu nunca a dirás vezes suficientes para que consiga viver do silêncio. sou uma miúda insatisfeita e dos meus dedos incansáveis surge uma necessidade insaciável de exprimir a minha afecção, a que nasceu contigo, por ti.
uma magia sedutora no olhar apagado da memória. entre o teu corpo abandonado e o tremor sôfrego do meu, largam-se teias douradas de imagens incertas, um amor que se tece à luz exibicionista da noite. uma espera que não tem asas para acabar. é no bailado fantasmagórico das palavras, quando a lua chama para si o último amante inebriado que erra às vestes de seu luar, é que o meu amor escreve sobre o dia em que o seu barco foi levado por uma misteriosa corrente até às minhas águas de sais espinhosos. enquanto ele se enrosca nos peitos escritos da sua apaixonada, abrindo o coração às paginas inquietas do ecrã, eu cumpro-me no silêncio, encerrada ao mundo exterior. espero e ganho crosta. solidifico os canais da agitação citadina e fecho as minhas veias palpitantes à passagem do calor. de repente o coração pára como se tivesse sido abalado por um corte de energia. não encontro mais palavras. nada mais que reste para restaurar a fonte de potência desligada. são nessas alturas que temo pela escuridão. um frio sepulcral no abismo onde dou caras comigo própria e tudo o que descubro é o nada que alimento. não escutas e eu sei que é porque não falo. porque não estás aqui.
segundos. o texto acabou. nós voltamos e contigo a carga energética.

(Texto da autoria de "ela". Editado, originalmente, em Memória Futura.)

Publicado por void em 07:50 AM | Comentários (3) | TrackBack

julho 17, 2004

PERIFÉRICA

Já disponível para o mercado o nº de Verão da revista:


Conteúdos:

EDITORIAL
(Nº 10- Verão de 2004)

«São rosas, Senhor»

12 INDOMÁVEIS PATIFES

Apresentação dos novos colaboradores e dos convidados

JANELA INDISCRETA

Pinturas de Ricardo Leite

A OESTE NADA DE NOVO

Comentários do trimestre

AS PALAVRAS QUE NUNCA TE DIREI

Fotografias de Miguel Mealha

O PADRINHO

Carta para XXX, de J. Rentes de Carvalho
[ ilustração de Alain Voss ]

OS 400 GOLPES

«Da aparência dos mortos-vivos», por Rui Bebiano
[ ilustração de Francisco Legatheaux ]

LICENÇA PARA MATAR

«Islão: sete reflexões +/– avulsas», por Fernando Gouveia
[ ilustração de Rui Lúcio Carvalho ]

«Está por verificar a compatibilidade entre uma sociedade islâmica sem influência ocidental e os conceitos básicos de Democracia e Direitos Humanos.»QUO VADIS?

«Black Sun: um sui generis lugar ao sol», por Rui Ângelo Araújo

O IMPÉRIO DOS SENTIDOS

«A paisagem viva», por Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste

«O desejo era erigir as suas obras, mas, também, vê-las envelhecer, ganhar rugas: que as árvores cresçam, que as pedras se cubram de musgo, que a obra de arquitectura desenvolva uma vida própria.»O OITAVO PASSAGEIRO

Fotografias de Robert & Shana ParkeHarrison

NO CÉU TUDO É PERFEITO

«Livros, colecções e outros artifícios», por José Ferreira Borges

A LISTA DE SCHINDLER

«A América onírica», por Maria João Cantinho

«Fábula metafísica ou apresentação simbólica de um mundo novo, O Desaparecido contém uma dimensão messiânica inegável [...], na sua íntima articulação entre a literatura e uma felicidade irrecusável, mesmo se a melancolia aperta o seu cerco.»OS CANHÕES DE NAVARONE

«A amizade é bela — e a inimizade enternecedora», por Rui Ângelo Araújo

PULP FICTION

«O riso», por Filipa Melo
[ ilustração de Pedro Vieira ]

«O colchão da Mongólia», por Ondjaki
[ ilustrações de Hugo Muesli ]

«o miúdo, desses na rua, não tinha nome, só atendia pela alcunha imposta: pêcêgê!, assim, tão velozmente dito que às vezes resultava somente em gêtinho, não vale a pena querer pôr correctos portugueses nas falas do miúdo..»«Crónica», por Diana Almeida
[ ilustração de João Pinto ]

«Rasguei o envelope e um canto da carta. no papel espraiava-se a letra angulosa de Dulce. no papel espelhavam-se os sinais estabelecidos: o tempo ao canto superior direito, cinco linhas de intervalo e a fórmula introdutória. "Querido José", querido José, crescia assim meu nome envolto em falso, antigo afecto, por mão dela. onde dormiam os limites da verdade, dobrando-se a mão a jugo falso.»«Círculos», por Florêncio Moniz
[ fotografia de Alberto Monteiro ]

NOS LIMITES DO SILÊNCIO

«Cartografia» (1), por Rikardo Arregi

Dois poemas de Harkaitz Cano


Lançamentos:

- FNAC Almada, 30 de Julho (sexta-feira), 21:30 horas.

- FNAC Colombo, 31 de Julho, 17:00 horas.


Versão electrónica da publicação:

Periférica

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AUTO-DESCONHECER


(Autor desconhecido)

nada do que vivi conseguiu reavivar os dias presentes.

situo-me à frente dum ecrã branco, luminoso. a sala está escura. o calor não deve entrar, disse alguém. esqueci-me quem. aos poucos os nomes vão-se misturando, os rostos perdem a noção de identidade, as coisas são destituídas de seus significados e a barafunda de pensamentos introduz-se por entre as vias de sanidade fazendo com que as mãos comecem o trabalho. pisam as letras do teclado à procura de uma razão, de um sentido e julgo não precisar de quem me carregue os dedos apesar de saber que caio. caio sem retorno.

a pauta continua numa trapalhice de notas musicas e compassos alterados, uma música que só o compositor escuta, dentro de si, onde algo lhe diz que não há esperanças.

não há esperanças que lhe valham o regresso.

auto-desconheço-me.

(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)


Publicado por void em 11:22 AM | Comentários (0) | TrackBack

OUTRO DIA, OUTRA NOITE


(Autor desconhecido)

outro sol que expulso do meu quarto, outra luz que desgosta as minhas trevas, outro dia que me mata o ser. vagueio escondida nas dobras da escrita encarquilhada e novamente será novamente a palavra mais odiada. cortar-me a vida como se corta o queijo. pequenas fatias a fervilhar na tosta rica. cortar-me o sangue como se corta a raiz deste renascer sangrento. tantas foram as vezes em que vi a minha vida repetida num grande ciclo merdoso onde a morte é a única saída possível. só de pensar que outra lua esperará por inundar o meu refúgio louco entre apalpadelas cegas de luar e que por aqui permanecerá na noite mais longa do mundo onde o tempo é uma palavra inexistente a juntar à vida e onde a solidão é um segundo a voar para o seguinte, exaspera-me os sentidos, desespera-me os restos de sanidade deploráveis e bate-me na cabeça como se ondas mortíferas eclodissem de encontro às rochas afiadas da vertente que é a minha racionalidade.
pensar em escapar?
outro dia que arranha as grades da casa que se tornou a alma a entornar as minhas palavras na reinvenção de um tubo de escape para a escuridão mais tenebrosa da existência que segue com a morte do sol.
despejar a vida com a luz que adormece no horizonte e saber que nunca parará.

(Texto da autoria de "Execrável". Editado, originalmente, em Nox Scriptum.)

Publicado por void em 08:50 AM | Comentários (1) | TrackBack

julho 16, 2004

DIÁRIO(S)-2


(Fotografia de Ashley Massey)

Diário da tua ausência – vale a pena?

A noite afaga-me sempre. Cobre-me carinhosa como uma mãe atenta. E eu sinto-me sempre tão bem nos seus braços, apesar de tudo, apesar da minha solidão, apesar do meu vazio imenso de gente até quando estou em grupo.
Hoje saio com amigos, daqueles que conheço há anos e mal conheço ou nem sei se tenho, e é nessa companhia mais ocasional e provocada que habitual que mergulho na noite em direcção à aventu