junho 30, 2004

OS CENTO E VINTE DIAS DE SODOMA- APRESENTAÇÃO EDITORIAL

Disponibilizada no mercado pelas Edições Antígona, a obra:

OS CENTO E VINTE DIAS DE SODOMA
Marquês de Sade

Tradução: Manuel João Gomes
Ano da Edição: 2000
576 páginas


"Sade, n'Os 120 Dias de Sodoma, porventura a sua melhor obra, prova ser, no estilo, na alegria, na violência das paixões, um dos mais subversivos escritores de sempre.
As verdades amargas e sardónicas, reveladas na viagem ao fim da noite do ser humano, constituem um absoluto fora do qual não existe realidade. O valor supremo de Sade reside na capacidade de nos perturbar ao longo de quase 600 páginas dos cento e vinte dias, conduzindo-nos à consciência de si. Trata-se, segundo o autor, «da narração mais impura que já se fez desde que o mundo é mundo».
Sade detém-se a contemplar imagens do pecado e de actos libidinosos e proibidos, visando a sondagem de um mistério que os homens e as mulheres inacessivelmente encerram.
A Antígona, que publicou anteriormente A Verdade (livro que inclui, para além do poema, quase todos os textos de Sade contra Deus) e a Filosofia na Alcova, tenciona dar continuidade a tão actual autor".


Na sequência da apresentação feita ao filme "Saló ou os 120 dias de Sodoma", de Pier Paolo Pasolini (post de 25 de Junho), irei proceder à edição de excertos da obra de Sade onde o mesmo se inspirou. Tal edição far-se-á a partir da próxima Sexta-feira e versará partes da totalidade do escrito, naquela que é a sua considerável extensão.
Num 1º post (após este), será feita a apresentação de algumas das personagens tal como concebidas pelo autor, assim como considerações em torno da própria obra. A partir dai, editarei excertos da história, propriamente dita.
Com estes posts, mais aquele editado relativo ao filme, desejo contribuir para a motivação (ou acréscimo da motivação) quer para a leitura do livro, quer para a visualização da obra cinamatográfica. Ambos valem certamente a pena, até pelas comparações que podem ser estabelecidas. A atender da mesma forma, as épocas históricas de desenvolvimento dos acontecimentos.


Publicado por void em 04:53 PM | Comentários (4) | TrackBack

I DON'T BELONG HERE


(Fotografia de José Marafona)

quero. penso. sou. sinto. desejo. dói-me. a 1ªpessoa de um cometa assassinado. não há fim para os golpes sangrentos da solidão. o interior corrompido das palavras que não são mais do que palavras. os livros a serem queimados. os papéis que deixei à porta de casa foram levados pelo vento. os segredos relembram-se entre suspiros envelhecidos. a alma do anjo putrificou na história que deixou de ser ouvida. escutais o rumor do peregrino ao vento? solto as amarras da terra sobre o meu corpo machucado. violo as ondas nas esquinas de pôr-do-sol e envolvo-me nos restantes pedaços do coração fragilizado. can you hear me? as praças cinzentas do fog incontrolado espetam-se desgraçadamente nas correntes de passageiros apressados. observo, quieta, a conspurcação maldita dos que-choram-sem-saber-porquê. não esqueço os momentos de exílio, de destruição, de sofrimento, de ignorância... erguia os meus olhos para o céu longínquo e sabia I don't belong here e quem chorava dentro de mim? quem gritava entre lamentações de amargura, as mágoas de diferença na altura das ruas se calarem? quem corria entre as lâminas de chuva no momento em que as portas se fechavam?


quem?!?............................

quem?

(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

Publicado por void em 12:13 AM | Comentários (2) | TrackBack

NEVOEIRO DE PALAVRAS


(Autor desconhecido)

ditar as palavras à semelhança de uma marcha fúnebre mal coordenada. instrumentos possuídos por loucos músicos sentimentais, abandonados ao desprezo dos mortos. uma história desenrolada pelas notas desconexas de destruídas emoções baralhadas. cartas e cartas perdidas de seus jogadores. o momento gira à volta das palavras. as palavras que expelem sentimentos como as mandíbulas das serpentes que expelem o seu veneno de modo a ofuscar as vitimas e a entorpecer-lhes os movimentos. palavras mortíferas. palavras assassinas. volto a pisar os meus pés num caminho já percorrido. sentir-me re-repetida. clones e abortos de misérias desconhecidas e tão bem concebidas. são contextualizados em vidrinhos de vitrinas sujas, em personagens-fantasmas expostas ao público das cadeiras vazias. um espectáculo que decorre sem espectador. quem poderá mastigar o que vem do eu? e se não pode ser mastigado como pode sobreviver o eu? o eu morre, o eu vive em conquistas de receptores, o eu mata e o eu morre novamente. entretanto, as palavras. as palavras dentro do eu vivo e o eu dentro da palavras mortas.

um nevoeiro de palavras a perseguir-me. estou isolada em mim.

(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

Publicado por void em 12:09 AM | Comentários (2) | TrackBack

junho 29, 2004

DÁ-ME A TUA

cada segundo que morre eu desejo vivê-lo contigo e cada dia que passa eu desejo morrê-lo connosco. este amor sufoca-me o corpo, deixa-me louca, estrangula-me de incoerência e leva-me ao estado febril do sentimento. já não sei o que fazer ao amor que guardo para to dar, às horas que me concedo a viver-nos secretamente num futuro realista e deveras impossível. há alturas em que penso que mais vale arrastar-me a um enterro rápido do que deslumbrar o que tenho cá dentro sem poder partilhá-lo com mais ninguém. nefastas horas de silêncio onde as interrogações são a única cantiga perfurante no ar negro e irrespirável do quarto. sinto-me uma flor a florescer no meio de um deserto decadente e tu és a miragem da frescura que aos poucos me abandona e que sempre quis para mim. no meio daqueles rostos pintados, daqueles corpos cambaleantes já alcoolizados, daquela gente que cantava o seu sangue português, daquelas ruas dançarinas de desejos apertados, daquelas essências libidinosas das ervas místicas e daquele contacto de gerações numa batalha de sentidos, eu parei no presente medonho e abracei-nos. eu parei quando a movimentação era mais exigida e apertei o meu peito de encontro ao teu reflexo ilusório nesse tempo que não pertence ao presente ilógico e ergui a minha mão que te chamou:
- dá-me a tua.

(Texto da autoria de "ela". Editado, originalmente, em Memória Futura)


Publicado por void em 06:47 AM | Comentários (2) | TrackBack

À LEITURA DE ...

DANIEL FARIA


Estranho é o sono que não te devolve

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.


Como reporás a terra arrastada

Como reporás a terra arrastada
Para a boca?

Foges e foges
E repousas à sombra da velocidade.

E ao extinguires-te dizes
Tudo
O que podia ser dito
Sobre a luz.


Guarda a manhã

Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar

Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão


O meu projecto de morrer é o meu ofício

O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo


Rendição

Deponho as armas:

Primeiro a voz
Depois a luz
Por fim as mãos

E então posso morrer
Se não for noite


Braços abertos

Separei os braços
E exilei o peito

Doeu-me tanto
Que não sei chorá-lo

(Poemas extraídos da obra: POESIA)


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junho 28, 2004

O SÉTIMO SELO

Com realização e argumento de Ingmar Bergman, o filme "O Sétimo Selo" (1957) é um marco no cinema sueco, escandinavo e internacional.
Podendo ser adquirido presentemente em DVD quer avulso, quer em "pack", encontramo-nos perante uma obra e um conjunto cujo(s) conteúdo(s) pretende(m) transmitir, para épocas e contextos diferenciados, a relação do Homem com Deus (sendo que no caso deste filme, e especificamente, a Morte é uma referência de relevo).
"O Sétimo Selo" é um filme que merece ser visto. É um filme onde a Morte surge como personagem (considerar a imagem supra-apresentada), permitindo isso um percepcionar acentuado sobre aquela que é a sua realidade e a impotência dos homens quando consigo, de facto, se deparam. A Morte é. A Morte vive. A Morte existe. A Morte joga, finta e atrasa. Atrasa para poder ser ainda mais imperiosa. Atrasa para se permitir, depois, comandar uma macabra "Dança da Morte".

Ingmar Bergman consegue um trabalho final muitíssimo significativo. O facto de incidir o argumento deste filme sobre uma época específica da História, com uma catástrofe que foi efectivamente enorme em termos de destruição da vida humana- a Peste Negra-, o realizador cria um cenário (ou a soma de cenários) particularmente aflitivo(s), onde consta(m) auto-flagelações, marchas dos penitentes, queixumes, o encarar claro da perenidade da Vida e da impotência perante tal e onde o Medo impera, assim como regista o aproveitamento que o Homem sempre tenta fazer da desgraça, em particular roubando para, a partir dai, adquirir vantagem individual. E em tudo isto a presença e intervenção da instituição-Igreja.



De considerar da mesma forma, em particular na figura do cavaleiro, o confronto entre a aquisição de Conhecimento que se pretende o mais racional e consubstanciado na experiência, possível, e o que vem simplesmente da Fé, sem contestação e, por isso, com um grande peso do dogmático.
Um filme "de época", mas inequivocamente, com muita matéria recuperável para o mundo de hoje e para as vivências quotidianas que nele temos.

A acrescentar, tendo em conta o DVD:

- ARGUMENTO:

"Um cavaleiro desiludido, que regressa a casa depois das cruzadas, encontra o seu país vivendo um ambiente de terror ocasionado pela peste negra, que ataca as populações sem piedade. Vive-se o pavor colectivo do fim do mundo, onde todas as desgraças são interpretadas como maus agouros e como castigo de Deus infligido aos homens pelos seus pecados. A Igreja aproveita-se desta situação, para ganhar poder sobre o povo, que se lança nos seus braços para salvação da alma.
Max von Sydow interpreta o cavaleiro que tenta resolver os mistérios da vida e da fé enquanto dura um jogo de xadrez com a própria morte".

- PARA ALÉM DO FILME:

Conteúdos adicionais: Índice das cenas, filmografia e biografia de Ingmar Bergman.

- DURAÇÃO:

c. 100 '

Publicado por void em 12:02 AM | Comentários (11) | TrackBack

junho 27, 2004

POEMAS DO AMOR FURTIVO... DA ÍNDIA ANTIGA (1)

Na sequência da edição já feita de "outros poemas eróticos da Índia antiga" apresento, hoje, o primeiro conjunto de 12 poemas, da totalidade de 50 daqueles relativos a "Poemas do Amor Furtivo", constantes na publicação abaixo indicada.
Em posts futuros continuarei a apresentação de conjuntos, todos, acompanhados por imagens do género das agora constantes.
Atentemos, então, no que se segue:


1.

Mesmo agora que tudo se desmoronou
Recordo a minha amada luminosa
Como uma grinalda de douradas flores
A pelugem negra que desaguava no seu umbigo
O corpo fremente do desejo ao acordar


2.

Mesmo agora se uma vez mais pudesse ver
O seu rosto jovem e fresco como a lua cheia
Os seios opulentos o corpo
Que as flechas do amor deixaram a arder
Saberia como debelar essas chamas


3.

Mesmo agora se a visse de novo
A essa rapariga de olhos de lótus
O corpo soçobrando devido ao peso dos seios
Estreitá-la-ei entre os meus braços
E beberia da sua boca como um louco
Como uma abelha insaciável sugando uma flor



4.

Mesmo agora recordo o seu corpo
Rendido ao cansaço depois do amor
Sobre as pálidas maçãs do rosto
Caíam os anéis dos seus cabelos
E como que para ocultar o nosso segredo
As ternas lianas dos seus braços
Entrelaçavam-se ao redor do meu pescoço


5.

Mesmo agora recordo os seus olhos enormes
As pupilas frementes depois de uma noite de prazer
Um cisne real no lago de lótus da paixão
Despertando ao amanhecer cabisbaixa de vergonha


6.

Mesmo agora se pudesse contemplar
Esse corpo esbelto consumido pela separação
Os olhos dilatados quase até às orelhas
Cingiria as suas coxas entre as minhas
Cerraria os olhos e não afrouxaria nem
Por um instante o abraço prolongado


7.

Mesmo agora recordo a minha amada
Na dança selvagem do amor
Curvada devido ao peso dos seios
O corpo esguio consumido pelo desejo
O rosto transparente como a lua cheia
Submersa pelos seus longos cabelos


8.

Mesmo agora recordo a minha amada
Deitada no leito o perfume que exalava
A mistura do almíscar e do sândalo
Sobre os seus lindos olhos o bater dos cílios
Assemelhava-se aos beijos de dois pássaros
Durante o acasalamento


9.

Mesmo agora recordo esses olhos lascivos
E os lábios enrubescidos de vinho
No momento da penetração
O corpo gracioso oleado com açafrão e almíscar
E o sabor a betél e cânfora na sua boca


10.

Mesmo agora que o fim se aproxima
Recordo o rosto da minha amada
Perlado de gotas de suor o corpo
Lustroso da cor do açafrão brilhando
No disco lunar liberto do demónio do eclipse


11.

Mesmo agora recordo a minha amada
Cavalgando por cima de mim
O seu esforço de vaivém constelava
A sua pele de cachos de pérolas
Gotas claras e espessas de suor
Recordo o pendente de ouro
Roçando as suas maçãs do rosto


12.

Mesmo agora não me sai do espírito
Aquela noite em que enquanto a possuía
Espirrei Agastada absteve-se de me desejar
"Longa vida" Recordo todavia como silenciosa
colocou na orelha um amuleto de ouro


[Jorge Sousa Braga (introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]

Publicado por void em 09:21 AM | Comentários (3) | TrackBack

junho 26, 2004

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA: URS KAHLER (3)

Encontramo-nos finalmente na 3ª Galeria de trabalhos de Urs Kahler. Pelas fotos que a compõem será fácil perceber a continuidade relativamente à galeria anterior. Prosseguimos com corpos. Com corpos em várias posições. Prosseguimos, da mesma forma, com corpos trabalhados e cuidados para o usufruir de quem com eles contacta. O fotógrafo sublinha isto. E regista variantes na composição. Surgem traços... ondulações... padrões... e dá-se a variedade no âmbito da generalidade.
Vejamos:

1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10.

11.

12.


Exposição encerrada!
Para todos os que por aqui passaram e gostaram, o nosso obrigada e voltem sempre, pois mais profissionais da fotografia serão aqui dados a conhecer.
Para os que não gostaram, o nosso agradecimento, também, e um pedido para que regressem para novas apreciações.
Para todos: este espaço é vosso e as vossas opiniões são preciosas.

Publicado por void em 12:02 AM | Comentários (5) | TrackBack

junho 25, 2004

SALÓ OU OS 120 DIAS DE SODOMA

Grotesco!
É, sem dúvida, esta a 1ª palavra que encontro para caracterizar o filme "Saló ou os 120 dias de Sodoma", de Pier Paolo Pasolini, agora disponível em DVD (separadamente ou incluído em "pack").
Dando sequência aos trabalhos integrantes da denominada "Trilogia da Vida" ("Decameron", "Os Contos de Canterbury" e "As Mil e Uma Noites") Pasolini, no ano de 1975, avança na sua história de cineasta com mais uma obra de relevo, na época, e como já vinha sendo hábito com as suas produções, imensamente criticada e censurada.

Em "Saló," Pasolini continua a materializar uma concepção muito particular do Sexo. Este, surge-nos num contexto perverso/subversivo/doentio de exercício do poder, de domínio e subjugação de uns relativamente a outros, sendo que a sua manipulação surge como a fronteira que separa os que podem e os que não podem, os que mandam e os que obedecem, os que querem e os que se resignam.

As perversões em seu torno- como antecedentes, aquando dos actos ou de si derivadas- são registos muito significativos, susceptíveis de provocar reacção acentuada no espectador. Tudo, ao ponto de originar um resultado final (para além dos resultados que se vão sucedendo), absolutamento grotesco, onde o horror e o vício têm um lugar por demais evidente.
Presente em todo o filme, influências de Dante e Sade, naquela que é a criação de conteúdos e cenários onde surgem, movem e evoluem as personagens.


Particularizemos:

- ARGUMENTO:

"Na província italiana de Saló no norte de Itália que estava controlada pelos nazis em 1944, quatro altos dignitários reúnem dezasséis exemplares perfeitos de jovens e levam-nos para um palácio perto de Marzabotto juntamente com guardas, criados e garanhões.
Além deles, há quatro mulheres de meia-idade: três delas contam histórias provocantes enquanto a quarta as acompanha ao piano. A história passa-se enquanto relatam as histórias de Dante e de Sade: o Círculo das Manias, o Círculo da Merda e o Círculo do Sangue.
Depois disso, os jovens são executados enquanto cada libertino toma o seu lugar como voyeus".


- DVD (conteúdos adicionais):

Índice das cenas; Filmografia e biografia de Pasolini; Trailer; Promo; Fotos de cena; As crianças de Saló; Saló de ontem e hoje.


- DURAÇÃO:

c. 112'

Publicado por void em 10:02 AM | Comentários (11) | TrackBack

NORMALIDADE


(Fotografia de José Marafona)

pensaram que era normal. normal. não é isso que eles querem que tu sejas??? N-O-R-M-A-L. só desejam isso de ti. a normalidade. viro-lhes as costas. as costas da solidão. as costas dos vales de amarguras, os mares de florbela espancada, as melodias dos prantos milenares, todos encalhados algures por aí, aqui dentro. sorrio e alguém chora por mim num vácuo de lamentações mudas. os ecos incompreensíveis da transparência emocional. venham eles com as suas mochilas pré-fabricadas e os seus sorrisos “leve três pague um” e os seus olhares de desprezo trivial e as suas conversas de concorrência existencial, os seus abrigos de moda etiquetada com as suas preferências assinaladas pelos preços ou pela escolha mais afamada. venham eles com as suas despreocupações ignorantes e os seus namorados seleccionados tal como as loja frequentadas, com a sua biografia memorizada da selecção portuguesa, a sua tentação para o seguimento do caminho mais partilhado, os seus vícios daquilo que mata mais rápido ou daquilo que os faz fazer coisas mais estúpidas.

não serei normal. não seguirei quem for seguidor nem tornar-me-ei seguido. não alimentarei as expectativas dos outros. não partilharei o mesmo trilho. não perseguirei quem deseja ser perseguido. não falarei o que outros quiserem escutar. não escutarei o que eles querem que eu escute. não obedecerei às guerras dos ditadores e não guiar-me-ei pelos cegos do povo. não serei o que é suposto ser. não serei normal.


"se não te agrada a forma d'eu falar acorda e vê que eu cago pró teu não gostar"


(De uma amiga que admira e regista na sua escrita influências de Sarah Kane. Este texto é um exemplo. Outros serão aqui editados. Um beijo grande para ela- "a voz_perdida").

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junho 24, 2004

GOSTO DE TI


(Fotografia de José Marafona)

luzes e luzes de conversa. abrir-te o sonho e mostrar-te o amor sem tempo. o amor não tem tempo. não essas horas e idades das civilizações humanas. amor é uma palavra imortal. é o silêncio ouvido na lâmina do punhal aceso. é a união de dois seres que se tornam um só. um só mas não estão sozinhos. nunca a solidão. porque a solidão é fria e queima como o amor mas como um fogo diferente. um fogo frio que assola as entranhas. um incêndio que devasta o espaço interior. pedaços de mobília que se devoram interiormente. às vezes somos todos peças mobiliárias a envelhecer num espaço interior e a julgar que somos belos e que decoramos a vida quando a podridão da casa onde nos encontramos, fede a morte e a restos de sentimentos decompostos. o homem encurva-se sobre o seu trabalho insatisfeito da condição humana. escreve contra os outros e por isso escreve sozinho. eu digo-lhe que o mundo não é assim tão mau e a gente é que tem medo. medo de sofrer. não sofras tu também. os livros gemem. gemem a ausência de quem não os lê e a presença de quem não os compreende. este sentimento actualizado é de solidão, de falta, de espaço vazio onde a aragem fria trespassa as teias da alma. quero aquecer-me junto aos teus lábios. lábios de porcelana inquebrável. gostava que me ouvisses. estar longe de nós assusta qualquer página de escrita esfarrapada. parece que deixo entrever a tua falta através desta saudade. vidro embaciado de saudade. gosto de ti.

(Texto de uma amiga que já foi blogger aqui no Void. É um texto de "ela", editado originalmente em Memória Futura)

Publicado por void em 07:26 PM | Comentários (4) | TrackBack

15 POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA

De edição datada de Março deste ano pela editora Assírio & Alvim, a obra intitulada Os cinquenta poemas do amor furtivo e outros poemas eróticos da Índia antiga, com introdução e versão de Jorge Sousa Braga.
Recuperados da sua escrita original- o sâncrico-, a disponibilização no mercado de um conjunto de poemas reveladoras da concepção do sexo na Índia Antiga, onde este não era considerado em oposição à espiritualidade. Sendo que ao acto sexual era atribuído um lugar de honra, a transposição do erotismo para escrita foi uma realidade, como aliás também o foi, no que respeita à sua representação em termos arquitectónicos, nomeadamente baixos-relevos em templos.
Desta compilação começamos por apresentar os "... outros poemas eróticos", num total de 15, reservando para posts posteriores a edição dos 50 "Poemas do amor furtivo".
A acompanhar estes trabalhos, obviamente, imagens do Kama Sutra.

1.

Esta mesma lua ilumina a minha amada
O vento acariciou já o seu rosto
A lua impregnou-se da sua beleza
E o vento do seu perfume

Quem ama de verdade pouco lhe basta
Para suportar a separação
Que ela e eu respiremos o mesmo ar
E que os nossos píes pisem o mesmo chão


2.

Suspiro por vê-la quando estamos separados
Anseio por abraçá-la quando a vejo
E quando abraço essa beleza de olhos rasgados
Fundir-me com ela é o meu único desejo


3.

Não pode o lótus florir de noite
Nem a lua brilhar durante o dia
Apenas o teu rosto
Consegue realizar essa magia


4.

A lua tenta todos os meses em vão
Captar a beleza do teu rosto
Descontente com o resultado
Destrói tudo e começa de novo


5.

Se a floresta negra dos seus cabelos
Te convida a explorar os vales
E os seios essas abruptas montanhas
Acordam o montanhista que há em ti
O melhor é parares antes que seja tarde

Escondido como se fosse um salteador
Jaz à espera o amor


6.

Embora não tenham limites as minhas conquistas
Para mim há apenas uma cidade
E nessa cidade um palácio
E nesse palácio um quarto
E nesse quarto uma cama
E nessa cama uma mulher
Adormecida
A jóia mais valiosa
De toda a minha coroa



7.

- Aonde vais na noite escura?
- Ao encontro daquele por quem o meu coração anseia
- E sendo formosa e jovem e insegura
não tens medo de ir sozinha?
- Sozinha? Não Armado de arco e de flechas
O amor faz-me companhia


8.

Quando verei de novo firmas as tuas coxas
Que em defesa se cerram uma contra a outra
Para depois se entreabrirem ao desejo obedientes
E aos cair do vestido de súbito revelarem
Como um selo de lacre sobre um segredo obscuro
Húmidas ainda as marcas das minhas unhas


9.

A beleza não está no que dizem as palavras
Mas no que dizem sem dizê-lo
Mais desejáveis são os seios entrevistos
Através das madeixas do teu cabelo



10.

Proibido completamente indecente...
Anseia no entanto o meu coração
Por essa rapariga adornada com
As flores vermelhas da primeira menstruação


11.

O desejo a impele ao encontro do amante
O receio a detém por um momento
Parece a seda de um estandarte
Que ora se abandona ora se furta ao vento


12.

As manchas vermelhas de betél
As negras marcas de aloés
O aroma dos cremes perfumados
As pegadas de laca
As flores caídas das suas tranças
Nos lençóis em desalinho
Deixam supor as diversas posições
Que adoptou a amada
Com o seu amante enquanto faziam amor



13.

Quando o meu amante se deitou ao meu lado
Por si só se desprendeu o meu cinto
E mal suspenso da cintura
O vestido deslizou-me pelos quadris
É a única coisa que sei
Pois mal senti o contacto do seu corpo
De tudo me esqueci
De quem era ele
De quem era eu
De como foi o nosso prazer


14.

Esmagados contra o meu peito
Os seus seios estremecem Entre as suas
Coxas flui a seiva doce do amor
"Não outra vez não... Deixa-me descansar..."
E aos sussurros sucedem-se as súplicas
E às súplicas os suspiros
E aos suspiros o silêncio...
Terei adormecido? Estarei a agonizar?
Ou será que estou a sonhar?


15.

Neste vão e flutuante mundo
O que resta a um homem?
Pode dedicar-se à oração
Mas se isso porventura não resulta
O melhor é refugiar-se entre os seios duma mulher
Acariciar as suas coxas quentes
E possuir o que entre elas se oculta


[Jorge Sousa Braga (introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]

Publicado por void em 12:02 AM | Comentários (8) | TrackBack

junho 23, 2004

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA: URS KAHLER (2)

Pois é, o brevemente é... agora.
Apresentamos a 2ª Galeria de fotografias de Urs Kahler, incidindo estas, desta vez, sobre corpos (para além do rosto). Mas não corpos vistos na sua "naturalidade". Encontramo-nos perante corpos modificados, trabalhados, feitos destacar em brilho e em cor para a pose. Corpos compostos. Corpos feitos sobressair para serem mostrados e apreciados, especialmente. Corpos preparados para serem, ainda mais, Arte.
Atentemos ao que se segue. Registe-se a sequência:

Posição 1.

Posição 2.

Posição 3.

Posição 4.

Posição 5.

Posição 6.

Posição 7.

Posição 8.

Posição 9.


E ainda:

Posição 10.

Posição 11.


Muito bem! Cá temos mais trabalhos para serem devidamente apreciados/usufruidos. Mas ainda falta a 3ª Galeria...

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junho 22, 2004

À LEITURA DE...

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Chamei por mim quando cantava o mar

Chamei por mim quando cantava o mar
Chamei por mim quando corriam fontes
Chamei por mim quando os heróis morriam
E cada ser me deu sinal de mim.


Dia do mar no ar, construído

Dia do mar no ar, construído
Com sombras de cavalos e de plumas.

Dia do mar no meu quarto- cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.

Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.


Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade

Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade
medindo o equilíbrio dos meus passos.

Mas as coisas têm máscaras e véus com que me enganam,
e, quando eu um momento espantada me esqueço, a força
perversa das coisas ata-me os braços e atira-me,
prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio
horror das voltas do caminho.


Apesar das ruínas e da morte

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.


Pudesse eu não ter laços nem limites

Pudesse eu não ter laços nem linites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.


Tudo me é uma dansa em que procuro

Tudo me é uma dansa em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar...


Senti que estava às portas do meu reino

Senti que estava às portas do meu reino,
Entre as sombras brilhavam as paisagens
Que os meus sonhos antigos desejavam.
Mas o terror expulsou-me das imagens
Onde já os meus membros penetravam.

(Poemas extraídos das obras: CORAL e POESIA)

Publicado por void em 08:06 PM | Comentários (4) | TrackBack

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA: URS KAHLER (1)

Dando continuidade às exposições de fotografia que ultimamente têm sido apresentadas, eis uma outra que agora se inicia, desta feita, com trabalhos de um fotógrafo austríaco de nome Urs Kahler (1939- ).
Nesta 1ª Galeria, saliento um conjunto de fotografias incidindo sobre rostos. O rosto feminino. Rostos femininos. O tratamento fotográfico é imenso, sendo que a ideia/realização de colagem e manipulação é o que mais sobressai, registando-se por isso uma originalidade naquele que é o produto final.
Os nove exemplares que se seguem são, pois, a melhor prova documental do estilo do autor, neste particular. Sem mais delongas, passe-se já à sua visualização:


1.

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7.

8.

9.


A 2ª Galeria com trabalhos do autor será editada brevemente. Estejam atentos!

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junho 21, 2004

UMA RECOMENDAÇÃO PARA O RISO: O MUNDO DE MAFALDA

Faço esta semana uma interrupção na "Mostra de Cartoons" que tenho vindo a apresentar aos longo das últimas segundas-feiras para, embora consigo relacionado, registar algo em moldes diferentes. Pois é! Hoje trago aqui a recomendação de aquisição e/ou leitura de uma publicação de quase 600 páginas, editada pela Bertrand Editora (Chiado, 2003), que compila a obra de Quino relativa à sua personagem mundialmente mais conhecida: MAFALDA.
Quino, cujo nome real é Joaquín Salvador Lavado, nasceu em 1932, na Argentina. Não fazendo aqui referência àquele que foi o seu percurso de vida, também como humorista, destaco que nos anos 1963-1964 tinha já as suas primeiras ideias para aquela que viria a ser a sua grande personagem humorística.
De facto, Mafalda, é "a" grande contestatária. Mafalda é a criança precoce, atenta ao mundo que a rodeia, discutindo-o e procurando interpretá-lo (quer a nível de política nacional, quer internacional, mas também ao nível da evolução científica e tecnológica) com a sua família e amigos. Mafalda é também uma defensora das mulheres livres, autónomas, não presas à casa e sem perspectivas para além dos encargos domésticos. Mafalda é uma insatisfeita, pois quer sempre saber mais. Mafalda quer entender. Em tudo isto faz também propostas. À sua maneira, mas faz. Evidentemente que se considera um tanto ao quanto incompreendida. E detesta sopa!
Bem... eis-vos agora perante uma excelente oportunidade para se perderem/deliciarem com o dia-a-dia desta fascinante personagem e dos seus amigos: Filipe, Susanita, Manelito, Miguelito e Guille:


Nesta obra, para além das tiras da Mafalda, um conjunto de textos, incluindo testemunhos, de grande interesse e importância para o conhecimento do autor e do trabalho por si desenvolvido. Também uma excelente cronologia.
Vale sem dúvida a pena, adquirir!

Já agora, a heroina do dia em várias perspectivas... e humores:

1.

2.

3.

4.

5.


Exemplos de tiras/"imagem individual":

1.

2.

3.

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junho 20, 2004

A HORA DOS FANTASMAS


(Pintura de Jacek Yerka)

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CARTA

Não falei contigo
com medo que os montes e vales que me achas
caíssem a teus pés...
Acredito e entendo
que a estabilidade lógica
de quem não quer explodir
faça bem ao escudo que és...

Saudade é o ar
que vou sugando e aceitando
como fruto de Verão
nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também
que num dia maior serás trapézio sem rede
a pairar sobre o mundo
em tudo o que vejo...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é folha de papel
Nela te pinto nua... nua
numa chama minha e tua.

Desconfio que ainda não reparaste
que o teu destino foi inventado
por gira-discos estragados
aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico
de sincronização do coração
são leis como paredes e tetos
cujos vidros vais pisando...

Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números
raízes quadradas de somas subtraídas
sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida
um ciclo vicioso
harmonioso ao teu gesto mimado
e à palma da tua mão...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
e a minha bola de cristal é folha de papel
Nela te pinto nua... nua
Numa chama minha e tua.


Desculpa se te fiz fogo e noite
sem pedir autorização por escrito
ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos
que voltei a encontrar em ti...

É que hoje acordei e lembrei-me
Que sou mago feiticeiro...

...nela te pinto nua... nua
Numa chama minha e tua.

Ainda magoas alguém
O tiro passou-me ao lado
Ainda magoas alguém
Se não te deste a ninguém
magoaste alguém
A mim... passou-me ao lado.

(Toranja- do album ESQUISSOS)


Uma canção lindíssima e muitíssimo bem interpretada. Um grupo que certamente proporcionará muitos mais momentos de prazer.

Publicado por void em 08:20 AM | Comentários (4) | TrackBack

O PINTOR E O MODELO (UM PINTOR E UM MODELO)


(Quadro: A persistência do pintor. Autor: Marti Carbonell)

A mim mesmo volto a perguntar, porém, por que razão, sendo S. esta detestação que descrevi, se instalou em mim a obsessão de compreendê-lo, de descobri-lo, quando outra gente mais interessante, entre mulheres e homens que retratei, me passou pelos olhos e pelas mãos ao longo de todos estes anos de medíocre pintura: não encontro mais explicações que a volta da idade em que estou, que a humilhação subitamente descoberta de ficar aquém da necessidade, dessa outra e mais ardente humilhação de ser olhado por cima, de não ser capaz de responder à ironia com o desprezo ou com sarcasmo. Tentei destruir este homem quando o pintava, e descobri que não sei destruir. Escrever não é outra tentativa de destruição mas antes a tentativa de reconstruir tudo pelo lado de dentro, medindo e pesando todas as engrenagens, as rodas dentadas, aferindo os eixos milimetricamente, examinando o oscilar silencioso das molas e a vibração rítmica das moléculas no interior dos aços. Além disso, não posso impedir-me de detestar S. por aquele olhar frio com que relanceou o meu atelier na primeira vez que aqui entrou, por aquele fungar desdenhoso, pelo modo displicente com que me atirou a mão. Sei muito bem quem sou, um artista de baixa categoria que sabe do seu ofício mas a quem falta génio, sequer talento, que não tem mais que uma habilidade cultivada e que percorre sempre os mesmos sulcos, ou pára junto das mesmas portas, mula puxando a carroça duma qualquer costumada distribuição, mas, dantes, quando eu chegava à janela, gostava de ver o céu e o rio, tal como Giotto gostaria, ou Rembrandt, ou Cézanne. (...)
O meu trabalho vai agora ser outro: descobrir tudo na vida de S. e tudo relatar por escrito, distinguir entre o que é verdade de dentro e pele luzidia, entre a essência e a fossa, entre a unha tratada e a apara caída da mesma unha, entre a pupila azul-baço e a secreção seca que o espelho matinal denuncia no canto do olho. Separar, dividir, confrontar, compreender. Perceber. Exactamente o que não pude alcançar enquanto pintei.

(José Saramago- MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA)

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junho 19, 2004

O BICHINHO DE CONTO

Para quem gostar tanto de histórias para crianças como eu e se disponha a adquirir livros, aconselho uma viagem pelas imagens...

proporcionadas pelo mundo de:

Acompanhem o site e procurem as obras. Deliciem-se!

Sandra

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O AMOR (EM 30 PÁGINAS)


(Fotografia de José Marafona)

(1º momento)

O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante da manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.


(2º momento)

Eram as trinta páginas mais importantes da minha vida. Ao escrever, tinha vivido. Eram trinta páginas que eram o meu amor todo e a minha esperança. Sentado à escrivaninha onde os anos passavam, olhávamo-nos muito: ela dentro de mim e o meu olhar dentro de mim, junto dela. O meu braço tremia e, com a esferográfica, escrevia em folhas brancas cada uma das palavras que a diziam. Ela sentia as palavras a tocarem-na. Ela fechava lentamente os olhos. E o tempo em que mantinha as pálpebras fechadas era tocar-me, era tocar o sol e, na pele, absorver toda a sua luz. Eu, que não podia ter nos braços aquela vida interior que era a minha vida toda, que não podia dar-lhe a mão, que não podia sequer passar-lhe os dedos devagar pelo rosto, fazia tudo isso escrevendo. Nas palavras escritas tocávamo-nos realmente. Como duas pessoas sobre a terra. Nas palavras, existiam os nossos olhares enternecidos. Dentro de cada uma das palavras, existiam mil palavras, e também cada uma dessas mil palavras tinha dentro de si mil palavras. E mesmo essas palavras que existiam dentro de outras palavras eram enormes, porque também elas tinhas dentro de si mil palavras que tinham dentro de si mil palavras. Nas palavras escritas, éramos possíveis. O nosso amor. Tudo. O mundo. Por isso, aquelas eram as trinta páginas mais importantes da minha vida.

(José Luís Peixoto- UMA CASA NA ESCURIDÃO)


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junho 18, 2004

FRAGMENTOS...


(Fotografia de José Marafona)

... de amor. do amor que se sente. do amor que foi. do amor que também é possível sentir. do que partiu. da ausência. do retorno. do estar adicional. da opção por simplesmente estar e ser e viver feliz assim. a construção permanente e eterna da verdade. em tudo: a imensa força do tempo. do constante, mas também daquele que regista a perenidade e o efémero...
Fragmentos de Amor:

Este amor...
Que revoluciona,
Que transformou por complecto as nossas vidas.
Que nos fez e faz correr riscos.
Que nos sujeita às maiores provações...
Este amor,
Teimoso e forte,
que originou uma força devastadora,
que nos desafia constatemente,
Este amor,
que me faz viver...


Canto...

.... há alturas em que as palavras perdem o sentido, e a voz se cala...

Mas, mesmo aí, nessa altura, quando a voz me falhar, continuarei a cantar para ti, no silêncio de todas as palavras...


Quando...

Hoje o teu sorriso, quando chegaste, teve algo de mágico. A sardinheira rosa do parapeito abriu mais uma flor. E o Sol, a quem uma nuvem tapava, disparou um raio que te alcançou em cheio no teu olhar mais doce.A Natureza a saudar a primavera de cada regresso.
Apetece-me agarrar-te e sussurrar-te ao ouvido tanta coisa que não sei por onde começar. Fica para mais logo. Agora preciso apenas do teu abraço. Antevejo momentos de paz e palavras doces…
Quando chegas, tudo é perfeito, tudo é cor….


Tempo...

Não me bastam, restos do teu tempo…
Mas são eles que me mantêm,
E para que o tempo sem ti seja menos saudade…
Quando estou contigo reservo sempre uma parte da tua presença para servir de ponte
Sobre o abismo da tua ausência…


Se...

Se não estivesses aqui comigo, iria à tua procura até ao fim do mundo.
Já não imagino a minha vida, sem a tua presença...


Sem ti...
Cada acto da minha vida perderia o sentido,
Deixar-me-ia à deriva, sem rumo e sem porto,
porque, apesar de não seres responsável
pelos meus sonhos, és a razão última de todos eles...
Sem ti que faria eu com o futuro,
com o dia a dia por chegar,
Com a minha vida passada e as minhas recordações...
Sem que me ouças,
por vezes digo baixinho:
Por favor, fica a meu lado,
nunca te vás embora.

(Texto introdutório- a itálico-: Sandra Almeida. Textos subsequentes da autoria de Maria Branco- UM POUCO MAIS/(RE)CRIANDO)

[Maria, Maria... para ti, e com a junção destes teus trabalhos... o resultado de umas notas para piano. Enfim, sabes o que quero dizer. Beijo muito grande. Sandra]


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junho 17, 2004

SEMPRE POSSÍVEIS PENSAMENTOS QUOTIDIANOS (3)


(Fotografia de Bruno Espadana)

Benjamim

As pessoas continuam a aparecer. Na rua, em minha casa, por todo o lado. E, principalmente nos sonhos. Aparecem-me em sonhos sem serem chamadas, sem desejá-las lá. Vêm e dominam a parte de mim que pensava já ter controlado. Sem pudor, sem inibição, atacam-me e deixam-me assim. Será a vida a insistir comigo? Ruídos que tentam anular a minha voz. Estou a tentar o silêncio. Assim, não consigo dormir. Não posso dormir. Ela, às vezes, também aparece. Depois acordo como um adolescente e não sei o que pensar. Talvez chorar, mas não. Fico embaraçado comigo mesmo, envergonhado, mesmo achando que não devo sentir vergonha. As pessoas estão aí. Quero controlar o que nelas me motiva. Também elas morrem, partem, mentem. São como tudo o que aqui há. O que, em mim, é comum a elas desperta ferozmente durante a noite. Ninguém me ensinou o que fazer com isso. Suponho que tenho de aguentar. Ficar parado, não mexer, não respirar.

(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

Publicado por void em 12:24 AM | Comentários (7) | TrackBack

SEMPRE POSSÍVEIS PENSAMENTOS QUOTIDIANOS (2)


(Fotografia de Bruno Espadana)

Daniela

Estar a olhar para ti, só a olhar para ti, já é suficiente. Tu olhas-me de soslaio e continuas a fazer o que tens a fazer. Ao computador, a comer, a ver televisão, o que for. Eu fico a olhar a ti. Tu não pareces incomodado, mas nem entusiasmado. Suponho que, no fundo, te irrite um pouco. Quando estou a olhar para ti, tenho medo. Fico com um medo profundo, que passa ao fim de uns momentos, de te perder. Mas não te digo, porque não te quero distrair. Só quando dormes é que te digo. Porque uma vez disse-te quando estavas acordado e tu ficaste com lágrimas nos olhos e disseste "é inevitável". Depois beijámo-nos e fizemos amor e eu fiquei tranquila de novo. Porque alguém que me ama dessa maneira não pode deixar-me de um momento para o outro. Mas de qualquer forma, já não te digo. Chamas-me doce e dizes que sou uma mulher maravilhosa. Eu acredito. Nada de mal acontecerá. Porque tudo de bom me está a acontecer.

(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)


Publicado por void em 12:19 AM | Comentários (2) | TrackBack

SEMPRE POSSÍVEIS PENSAMENTOS QUOTIDIANOS (1)


(Fotografia de Bruno Espadana)

Clarissa

Inevitavelmente, a pergunta há-de surgir. És feliz? E, então, não há saída. És confrontada com a pergunta sobre a felicidade. Fim de relação, eventualmente. Ou, de outro modo, evitar a todo o custo pensar na resposta. Ou melhor, evitar pensar na pergunta. Porque a resposta não se dá porque se tem medo. Suponho que haja muita gente feliz que tem medo de responder porque tem medo de não ser feliz. E nunca ficam a saber que são realmente felizes. É preciso arriscar a pergunta, há quem diga. Eu prefiro não arriscar e lamento profundamente quando alguém ma faz. Não digas nada. Aquelas frases que começam com "não precisas responder já, mas..." só dão mau resultado! Evita-as a todo o custo. E se alguém tas fizer, finge que é uma brincadeira. Nunca leves a sério as declarações de amor e, principalmente, os pedidos de declaração.

(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)


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junho 16, 2004

À LEITURA DE...

FERREIRA GULLAR

Meu povo, meu poema

Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta.


A bomba suja

Introduzo na poesia
a palavra diarréia.
Não pela palavra fria
mas pelo que ela semeia.

Quem fala em flor não diz tudo.
Quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.

No dicionário a palavra
é mera idéia abstrata.
Mais que palavra, diarréia
é arma que fere e mata.

Que mata mais do que faca,
mais que bala de fuzil,
homem, mulher e criança
no interior do Brasil.

Por exemplo, a diarréia,
no Rio Grande do Norte,
de cem crianças que nascem,
setenta e seis leva à morte.

É como uma bomba D
que explode dentro do homem
quando se dispara, lenta,
a espoleta da fome.

É uma bomba-relógio
(e relógio é o coração)
que enquanto o homem trabalha
vai preparando a explosão.

Bomba colocada nele
muito antes dele nascer;
que quando a vida desperta
nele, começa a bater.

Bomba colocada nele
pelos séculos de fome
e que explode em diarréia
no corpo de quem não come.

Não é uma bomba limpa:
é uma bomba suja e mansa
que elimina sem barulho
vários milhões de crianças.

Sobretudo no nordeste
mas não apenas ali,
que a fome do Piauí
se espelha de leste a oeste.

Cabe agora perguntar
quem é que faz essa fome,
quem foi que ligou a bomba
ao coração desse homem.

Quem é que rouba a esse homem
o cereal que ele planta,
quem come o arroz que ele colhe
se ele o colhe e não janta.

Quem faz café virar dólar
e faz arroz virar fome
é o mesmo que põe a bomba
suja no corpo do homem.

Mas precisamos agora
desarmar com nossas mãos
a espoleta da fome
que mata nossos irmãos.

Mas precisamos agora
deter o sabotador
que instala a bomba da fome
dentro do trabalhador.

E sobretudo é preciso
trabalhar com segurança
pra dentro de cada homem
trocar a arma da fome
pela arma da esperança.


Coisas da terra

Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso
a palavra solidária
minha mão aberta
onde este esquecido cheiro de cabelo
que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio.

Todas as coisas de que falo são de carne
como o verão e o salário.
Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem.

São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes do trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.

Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
ainda em estado de soluços e esperança.

(Poemas extraídos de: OBRA POÉTICA)


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junho 15, 2004

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA: JOSEPH ANGILELLA-AUQUIER (4)

Com as 16 fotografias que se seguem damos continuidade ao conjunto de trabalhos da galeria "Nymphes bleues/Blue nymphs", concluindo simultaneamente a exposição. Procurámos com a mesma fazer uma ruptura, ou seja, apresentar algo completamente diferente do que proporcionamos na exposição do autor anterior. O objectivo é e será, editar a maior diversidade de sugestões de ideias, histórias e conceitos, possível. Esperamos, efectivamente, atingir tal objectivo, até para alargarmos o leque do que é proporcionado para usufruto.
Mas quanto a Joseph Angilella-Auquier, apreciemos o que se segue:

1.

2.

3.

4.

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Para a semana: uma outra exposição, um outro fotógrafo, um outro país em destaque.

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DO PINTOR E DA PINTURA


(José Saramago)

(1º excerto/1º momento)

Mal vai porém ao pintor, ou dizendo mais rigorosamente, pior vai porém ao pintor, se, tendo de pintar um retrato, descobre que tudo quanto lançou na tela é cor anárquica e desenho louco, e que o conjunto de manchas só reproduz do modelo uma semelhança que a este satisfaz, mas ao pintor não. Creio que isto acontece na maior parte dos casos, mas, porque a semelhança lisonjeia e justifica o pagamento, o modelo transporta para casa aquela sua imagem supostamente ideal e o pintor suspira de alívio, liberto da assombração irónica que lhe estava queimando as noites e os dias. Quando o quadro já pronto se demora, é como se girasse no seu eixo vertical e virasse para o pintor os olhos acusativos: poderia chamar-se-lhe fantasma se não tivesse ficado já dito que é assombração. Em geral, o pintor, se sabe do ofício o bastante, reconhece que segue caminho errado logo ao primeiro esboço. Mas porque daria muito trabalho explicar ao modelo esse erro, e porque o modelo quase sempre se agrada de si mesmo logo de entrada, receoso de que outro curso e outro apanhamento de si o mostrem sob menos favorável luz, ou, pelo contrário, o voltem de dentro para fora, em dedo de luva (...), o retrato continua a deixar-se pintar, cada vez menos necessário. É como se (...) se estabelecesse entre o pintor e o modelo uma cumplicidade para a destruição do retrato (...). A morte, quando tirar do mundo o pintor e o modelo; o incêndio, se por feliz acaso reduzir o retrato a cinzas- apagarão alguma mentira e deixarão o lugar vago para outras tentativas e para um novo bailado, para o novo pas-de-deux que inevitavelmente outros recomeçarão.


(2º excerto/2º momento)

Observo-me a escrever como nunca me observei a pintar, e descubro o que há de fascinante neste acto: na pintura, vem sempre o momento em que o quadro não suporta nem mais uma pincelada (mau ou bom, ela irá torná-lo pior), ao passo que estas linhas podem prolongar-se infinitamente, alinhando parcelas de uma soma que nunca será começada, mas que é, nesse alinhamento, já trabalho perfeito, já obra definitiva porque conhecida. É sobretudo a ideia do prolongamento infinito que me fascina. Poderei escrever sempre, até ao fim da vida, ao passo que os quadros, fechados em si mesmos, repelem, são eles próprios isolados na sua pele, autoritários, e, também eles, insolentes.

(José Saramago- MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA)

[Dedico este post a uma amiga pintora. Ela merece. Sandra]


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junho 14, 2004

MALDADE


(Gonçalo M. Tavares)

A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.

(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)

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MOSTRA DE CARTOONS: CRISTINA SAMPAIO

Mais um conjunto de significativos cartoons de uma autora nacional. Desta feita, Cristina Sampaio, que tem exercido actividade no jornal "Público" e no jornal "O Independente" e tem apresentado trabalhos no âmbito das mais diversas iniciativas. Nasceu em Lisboa em 1960.
Os temas abordados são vários, sendo os exemplos aqui editados prova disso mesmo. Temos, pois, abordagens à política internacional, a situações verificadas no quotidiano, ao amor, à clonagem, à globalização, ao terrorismo. A ordem de apresentação dos cartoons respeita a data de criação da autora.
Assim:

1. THREE CULTURES, ONE FUTURE (1993)

2. FORBIDEN LOVE (1993)

3. BRIBERY, CORRUPTION AND TAXES (1995)

4. IS THE INTERNET A DRUG? (1998)

5. BUREAUCRACY (1998)

6. SMOKING (1998)

7. JUST TO SAY I LOVE YOU (1999)

8. CLONING TO SURVIVE (2000)

9. GLOBALIZATION YES! GLOBALIZATION NO! (2001)

10. THE THREAT (2001)

11. CLONING ETHICS (2001)


A Mostra continua na próxima Segunda-feira.

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junho 13, 2004

CENAS HUMANAS

Olho para a Nossa Senhora fluorescente na mesinha de cabeceira. Uma miniatura sagrada esquecida. Uma luz que me faz sentir feliz. O meu corpo é empurrado bruscamente para a frente. Agarro-me aos lençóis da cama, a pressão é violenta, tento deitar-me de barriga para baixo, mordo a almofada, um movimento exaltado a bater-me nas nádegas, humidade, pele a chapinhar na pele. O meu corpo a bater no chão, ao lado da cama. A figura sagrada a luzir em muitas direcções. Tapo-me com uma ponta do lençol, cubro os seios por pudor. É nestes momentos que sentimos apagar-se uma luz qualquer sobre as nossas vidas. O chão encerado a devolver um rascunho da minha imagem. Fiz um esforço para olhar para cima, a superfície da cama ficava a uma altura tormentosa, consegui ver uma perna ossuda a enrolar-se no lençol, o som do colchão a aceitar a comodidade do corpo dele, respirações convulsivas a fazerem o registo da situação. Sentia uma mão húmida a sangrar, um fragmento de Nossa Senhora a iluminar a minha pele. Olhei para as minhas cuecas rotas, lassas entre as pernas, manchas magoadas de vermelho nas coxas. E depois havia aquela paz que escorre do silêncio, uma espécie de suspensão, vazio luminoso, talvez um caminhar à deriva pela própria consciência, uma sala povoada de imagens familiares, nunca felizes, como se algumas sementes de felicidade se transformassem em bagos venenosos, mas mesmo assim comestíveis. Ali estava o meu homem, estilhaçado de ódio sobre a cama, doente do seu tesão, a acumular-se de argumentos para a defesa dos seus próprios actos, provavelmente a delirar silenciosamente na cegueira das suas emoções. Possuía o rosto duro das pedras afiadas e impulsivas, um rosto que se apresentava como um depósito de explosivos. Nenhuma palavra como mensagem artificiosa, apenas o silêncio a servir de guarda-roupa ao meu sofrimento. Tentei erguer-me sem fazer ruído e gatinhei dorida até à porta do quarto. A sensação que tive foi como se desligasse o interruptor num aparelho onde passasse um fragmento incompreensível da minha vida. É incrível como a dor que sentimos nestes momentos só tem reais consequências com a autorização do tempo. É " ele " que nos faz consultar as folhas da nossa vida e nos obriga a pôr o destino em dia.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

[O primeiro exemplo aqui editado em como o Fernando é o tal escritor "feminino". Sandra]

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EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA: JOSEPH ANGILELLA-AUQUIER (3)

Eis-nos na 2ª galeria de trabalhos de Joseph Angilella- Anquier, intitulada "Nymphes bleues/Blue nymphs". Seguem-se 12 fotografias como arranque desta (continuação de) mostra. Outras terão aqui lugar, completando a exposição no espaço em questão. Tal como os trabalhos da galeria anterior, podemos vislumbrar uma história... ou várias histórias. Podemos vislumbrar ideias de vária ordem, de acordo com a nossa percepção do exposto. A nossa liberdade deve, pois, ser total. Uma realidade: o fotógrafo dá-nos imensa matéria para criação individual. Pensemos, desta forma, no explícito e no possível subjacente. Pensemos nas evidências e nas subtilezas. Pensemos nas alusões.
Viajemos:

1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10.

11.

12.


A(s) história(s) continua(m)...

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junho 12, 2004

DIÁLOGOS

Coragem

não tenho coragem. o amor não me dá coragem. é uma armadilha atenta. tenho um labirinto de vidas a construir-se sobre pensamentos movediços. hoje não existe escrita. só este esforço terrível de dizer que não tenho coragem. o amor perturba. o amor como ideia de alguém distante. silencioso. vou tentar. é preciso tirar todo o amor às palavras. não posso tocar o corpo que a palavra escreve. o teu corpo sentado num banco de jardim. vens? um dia. haverá um dia como uma página perdida entre as tuas lágrimas. quase sinto a tua dor que espera impaciente para devorar o meu coração. tenho cuidado. levo muito tempo para escrever o nada que avança no futuro. esta incerteza de alguém esperar por nós no fim de cada frase. posso estar a falar de coisas perdidas e sem luz. a solidão, podes pensar. o desespero que nos leva a abandonar também as palavras. as pessoas. quero também dizer as pessoas. as que nos lêem neste vazio vertiginoso. isto é um livro, o amor. um livro que se ama a si próprio e que se destrói em todos os sentidos da vida. como posso amar diante do que não existe? a vida tem esta vulgaridade. angustiante. como posso escrever no medo que vigia a escrita? olhos violentos a acender fogos e gritos no pensamento. esta casa é silenciosa. esquecida e infeliz. escrevo tudo nesta casa, como sinto tudo neste amor de viver fechado. perdi a coragem nos lugares inocentes desta casa. nunca fui capaz de partir.

(ele)

Esperar-te-ei

ouve-me: partirás. um dia partirás. um belo dia demasiado intenso para sobreviver em tamanha realidade. mas acredita em mim. ouve-me: partirás. acredita porque eu acredito. e quando acreditamos a tela nasce no esplendor de sua inspiração efémera e única. tu és único. nós somos únicos pois, depois de tantas palavras, existirão palavras que ainda não foram pronunciadas. eu dir-tas-ei como quem enche o coração de cerejas rubras e lábios pintados, como quem abraça o vento sem olhar ao que não pode ser feito e como quem esculpe, apalpando as teclas do piano resplandecente e como quem acompanha os passos da alma, nas sombras desvairadas da noite estival. eu esperar-te-ei na essência de meu solitário ser e todo os segundos em que eu suspirei por ti, transformar-se-ão em promessas cumpridas, em sonhos realizados, em sorrisos pela 1ª vez desenhados a cor-de-verdade porque será verdade, será real, será o dia, o presente, o imbatível e o insuperável hoje e é maravilhoso escrevê-lo, agora, porque nunca mais poderá ser escrito no futuro.
venço-te com minhas asas de cristal e abro-te a janela. deixa o sol entrar nessa casa fechada a palavras. deixa-me sorrir-te e oferecer-te um par de asas corajosas. talvez não as minhas, mas porque não as tuas? neste momento, quero que me ouças. ouças além destas palavras silenciosas. ouças e compreendas: partirás. um dia partirás. um dia repleto de sol. e eu esperar-te-ei.

(ela)

[Textos de dois amigos do Void que partilham, também, o prazer pela escrita e o fazem sobressair num trabalho conjunto de indiscutível particularidade e imensa qualidade. Edição original em MEMÓRIA FUTURA. Complemento visual: fotografias de José Marafona]

Publicado por void em 06:38 AM