Disponibilizada no mercado pelas Edições Antígona, a obra:

OS CENTO E VINTE DIAS DE SODOMA
Marquês de Sade
Tradução: Manuel João Gomes
Ano da Edição: 2000
576 páginas
"Sade, n'Os 120 Dias de Sodoma, porventura a sua melhor obra, prova ser, no estilo, na alegria, na violência das paixões, um dos mais subversivos escritores de sempre.
As verdades amargas e sardónicas, reveladas na viagem ao fim da noite do ser humano, constituem um absoluto fora do qual não existe realidade. O valor supremo de Sade reside na capacidade de nos perturbar ao longo de quase 600 páginas dos cento e vinte dias, conduzindo-nos à consciência de si. Trata-se, segundo o autor, «da narração mais impura que já se fez desde que o mundo é mundo».
Sade detém-se a contemplar imagens do pecado e de actos libidinosos e proibidos, visando a sondagem de um mistério que os homens e as mulheres inacessivelmente encerram.
A Antígona, que publicou anteriormente A Verdade (livro que inclui, para além do poema, quase todos os textos de Sade contra Deus) e a Filosofia na Alcova, tenciona dar continuidade a tão actual autor".
Na sequência da apresentação feita ao filme "Saló ou os 120 dias de Sodoma", de Pier Paolo Pasolini (post de 25 de Junho), irei proceder à edição de excertos da obra de Sade onde o mesmo se inspirou. Tal edição far-se-á a partir da próxima Sexta-feira e versará partes da totalidade do escrito, naquela que é a sua considerável extensão.
Num 1º post (após este), será feita a apresentação de algumas das personagens tal como concebidas pelo autor, assim como considerações em torno da própria obra. A partir dai, editarei excertos da história, propriamente dita.
Com estes posts, mais aquele editado relativo ao filme, desejo contribuir para a motivação (ou acréscimo da motivação) quer para a leitura do livro, quer para a visualização da obra cinamatográfica. Ambos valem certamente a pena, até pelas comparações que podem ser estabelecidas. A atender da mesma forma, as épocas históricas de desenvolvimento dos acontecimentos.

(Fotografia de José Marafona)
quero. penso. sou. sinto. desejo. dói-me. a 1ªpessoa de um cometa assassinado. não há fim para os golpes sangrentos da solidão. o interior corrompido das palavras que não são mais do que palavras. os livros a serem queimados. os papéis que deixei à porta de casa foram levados pelo vento. os segredos relembram-se entre suspiros envelhecidos. a alma do anjo putrificou na história que deixou de ser ouvida. escutais o rumor do peregrino ao vento? solto as amarras da terra sobre o meu corpo machucado. violo as ondas nas esquinas de pôr-do-sol e envolvo-me nos restantes pedaços do coração fragilizado. can you hear me? as praças cinzentas do fog incontrolado espetam-se desgraçadamente nas correntes de passageiros apressados. observo, quieta, a conspurcação maldita dos que-choram-sem-saber-porquê. não esqueço os momentos de exílio, de destruição, de sofrimento, de ignorância... erguia os meus olhos para o céu longínquo e sabia I don't belong here e quem chorava dentro de mim? quem gritava entre lamentações de amargura, as mágoas de diferença na altura das ruas se calarem? quem corria entre as lâminas de chuva no momento em que as portas se fechavam?
quem?!?............................
quem?
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

(Autor desconhecido)
ditar as palavras à semelhança de uma marcha fúnebre mal coordenada. instrumentos possuídos por loucos músicos sentimentais, abandonados ao desprezo dos mortos. uma história desenrolada pelas notas desconexas de destruídas emoções baralhadas. cartas e cartas perdidas de seus jogadores. o momento gira à volta das palavras. as palavras que expelem sentimentos como as mandíbulas das serpentes que expelem o seu veneno de modo a ofuscar as vitimas e a entorpecer-lhes os movimentos. palavras mortíferas. palavras assassinas. volto a pisar os meus pés num caminho já percorrido. sentir-me re-repetida. clones e abortos de misérias desconhecidas e tão bem concebidas. são contextualizados em vidrinhos de vitrinas sujas, em personagens-fantasmas expostas ao público das cadeiras vazias. um espectáculo que decorre sem espectador. quem poderá mastigar o que vem do eu? e se não pode ser mastigado como pode sobreviver o eu? o eu morre, o eu vive em conquistas de receptores, o eu mata e o eu morre novamente. entretanto, as palavras. as palavras dentro do eu vivo e o eu dentro da palavras mortas.
um nevoeiro de palavras a perseguir-me. estou isolada em mim.
(Texto da autoria de "voz_perdida". Editado, originalmente, em Virgens Suicidas.)

cada segundo que morre eu desejo vivê-lo contigo e cada dia que passa eu desejo morrê-lo connosco. este amor sufoca-me o corpo, deixa-me louca, estrangula-me de incoerência e leva-me ao estado febril do sentimento. já não sei o que fazer ao amor que guardo para to dar, às horas que me concedo a viver-nos secretamente num futuro realista e deveras impossível. há alturas em que penso que mais vale arrastar-me a um enterro rápido do que deslumbrar o que tenho cá dentro sem poder partilhá-lo com mais ninguém. nefastas horas de silêncio onde as interrogações são a única cantiga perfurante no ar negro e irrespirável do quarto. sinto-me uma flor a florescer no meio de um deserto decadente e tu és a miragem da frescura que aos poucos me abandona e que sempre quis para mim. no meio daqueles rostos pintados, daqueles corpos cambaleantes já alcoolizados, daquela gente que cantava o seu sangue português, daquelas ruas dançarinas de desejos apertados, daquelas essências libidinosas das ervas místicas e daquele contacto de gerações numa batalha de sentidos, eu parei no presente medonho e abracei-nos. eu parei quando a movimentação era mais exigida e apertei o meu peito de encontro ao teu reflexo ilusório nesse tempo que não pertence ao presente ilógico e ergui a minha mão que te chamou:
- dá-me a tua.
(Texto da autoria de "ela". Editado, originalmente, em Memória Futura)

DANIEL FARIA
Estranho é o sono que não te devolve
Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.
Como reporás a terra arrastada
Como reporás a terra arrastada
Para a boca?
Foges e foges
E repousas à sombra da velocidade.
E ao extinguires-te dizes
Tudo
O que podia ser dito
Sobre a luz.
Guarda a manhã
Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar
Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão
O meu projecto de morrer é o meu ofício
O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
Rendição
Deponho as armas:
Primeiro a voz
Depois a luz
Por fim as mãos
E então posso morrer
Se não for noite
Braços abertos
Separei os braços
E exilei o peito
Doeu-me tanto
Que não sei chorá-lo
(Poemas extraídos da obra: POESIA)

Com realização e argumento de Ingmar Bergman, o filme "O Sétimo Selo" (1957) é um marco no cinema sueco, escandinavo e internacional.
Podendo ser adquirido presentemente em DVD quer avulso, quer em "pack", encontramo-nos perante uma obra e um conjunto cujo(s) conteúdo(s) pretende(m) transmitir, para épocas e contextos diferenciados, a relação do Homem com Deus (sendo que no caso deste filme, e especificamente, a Morte é uma referência de relevo).
"O Sétimo Selo" é um filme que merece ser visto. É um filme onde a Morte surge como personagem (considerar a imagem supra-apresentada), permitindo isso um percepcionar acentuado sobre aquela que é a sua realidade e a impotência dos homens quando consigo, de facto, se deparam. A Morte é. A Morte vive. A Morte existe. A Morte joga, finta e atrasa. Atrasa para poder ser ainda mais imperiosa. Atrasa para se permitir, depois, comandar uma macabra "Dança da Morte".

Ingmar Bergman consegue um trabalho final muitíssimo significativo. O facto de incidir o argumento deste filme sobre uma época específica da História, com uma catástrofe que foi efectivamente enorme em termos de destruição da vida humana- a Peste Negra-, o realizador cria um cenário (ou a soma de cenários) particularmente aflitivo(s), onde consta(m) auto-flagelações, marchas dos penitentes, queixumes, o encarar claro da perenidade da Vida e da impotência perante tal e onde o Medo impera, assim como regista o aproveitamento que o Homem sempre tenta fazer da desgraça, em particular roubando para, a partir dai, adquirir vantagem individual. E em tudo isto a presença e intervenção da instituição-Igreja.

De considerar da mesma forma, em particular na figura do cavaleiro, o confronto entre a aquisição de Conhecimento que se pretende o mais racional e consubstanciado na experiência, possível, e o que vem simplesmente da Fé, sem contestação e, por isso, com um grande peso do dogmático.
Um filme "de época", mas inequivocamente, com muita matéria recuperável para o mundo de hoje e para as vivências quotidianas que nele temos.
A acrescentar, tendo em conta o DVD:
- ARGUMENTO:
"Um cavaleiro desiludido, que regressa a casa depois das cruzadas, encontra o seu país vivendo um ambiente de terror ocasionado pela peste negra, que ataca as populações sem piedade. Vive-se o pavor colectivo do fim do mundo, onde todas as desgraças são interpretadas como maus agouros e como castigo de Deus infligido aos homens pelos seus pecados. A Igreja aproveita-se desta situação, para ganhar poder sobre o povo, que se lança nos seus braços para salvação da alma.
Max von Sydow interpreta o cavaleiro que tenta resolver os mistérios da vida e da fé enquanto dura um jogo de xadrez com a própria morte".
- PARA ALÉM DO FILME:
Conteúdos adicionais: Índice das cenas, filmografia e biografia de Ingmar Bergman.
- DURAÇÃO:
c. 100 '

Na sequência da edição já feita de "outros poemas eróticos da Índia antiga" apresento, hoje, o primeiro conjunto de 12 poemas, da totalidade de 50 daqueles relativos a "Poemas do Amor Furtivo", constantes na publicação abaixo indicada.
Em posts futuros continuarei a apresentação de conjuntos, todos, acompanhados por imagens do género das agora constantes.
Atentemos, então, no que se segue:
1.
Mesmo agora que tudo se desmoronou
Recordo a minha amada luminosa
Como uma grinalda de douradas flores
A pelugem negra que desaguava no seu umbigo
O corpo fremente do desejo ao acordar
2.
Mesmo agora se uma vez mais pudesse ver
O seu rosto jovem e fresco como a lua cheia
Os seios opulentos o corpo
Que as flechas do amor deixaram a arder
Saberia como debelar essas chamas
3.
Mesmo agora se a visse de novo
A essa rapariga de olhos de lótus
O corpo soçobrando devido ao peso dos seios
Estreitá-la-ei entre os meus braços
E beberia da sua boca como um louco
Como uma abelha insaciável sugando uma flor

4.
Mesmo agora recordo o seu corpo
Rendido ao cansaço depois do amor
Sobre as pálidas maçãs do rosto
Caíam os anéis dos seus cabelos
E como que para ocultar o nosso segredo
As ternas lianas dos seus braços
Entrelaçavam-se ao redor do meu pescoço
5.
Mesmo agora recordo os seus olhos enormes
As pupilas frementes depois de uma noite de prazer
Um cisne real no lago de lótus da paixão
Despertando ao amanhecer cabisbaixa de vergonha
6.
Mesmo agora se pudesse contemplar
Esse corpo esbelto consumido pela separação
Os olhos dilatados quase até às orelhas
Cingiria as suas coxas entre as minhas
Cerraria os olhos e não afrouxaria nem
Por um instante o abraço prolongado

7.
Mesmo agora recordo a minha amada
Na dança selvagem do amor
Curvada devido ao peso dos seios
O corpo esguio consumido pelo desejo
O rosto transparente como a lua cheia
Submersa pelos seus longos cabelos
8.
Mesmo agora recordo a minha amada
Deitada no leito o perfume que exalava
A mistura do almíscar e do sândalo
Sobre os seus lindos olhos o bater dos cílios
Assemelhava-se aos beijos de dois pássaros
Durante o acasalamento
9.
Mesmo agora recordo esses olhos lascivos
E os lábios enrubescidos de vinho
No momento da penetração
O corpo gracioso oleado com açafrão e almíscar
E o sabor a betél e cânfora na sua boca

10.
Mesmo agora que o fim se aproxima
Recordo o rosto da minha amada
Perlado de gotas de suor o corpo
Lustroso da cor do açafrão brilhando
No disco lunar liberto do demónio do eclipse
11.
Mesmo agora recordo a minha amada
Cavalgando por cima de mim
O seu esforço de vaivém constelava
A sua pele de cachos de pérolas
Gotas claras e espessas de suor
Recordo o pendente de ouro
Roçando as suas maçãs do rosto
12.
Mesmo agora não me sai do espírito
Aquela noite em que enquanto a possuía
Espirrei Agastada absteve-se de me desejar
"Longa vida" Recordo todavia como silenciosa
colocou na orelha um amuleto de ouro
[Jorge Sousa Braga (introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]
Encontramo-nos finalmente na 3ª Galeria de trabalhos de Urs Kahler. Pelas fotos que a compõem será fácil perceber a continuidade relativamente à galeria anterior. Prosseguimos com corpos. Com corpos em várias posições. Prosseguimos, da mesma forma, com corpos trabalhados e cuidados para o usufruir de quem com eles contacta. O fotógrafo sublinha isto. E regista variantes na composição. Surgem traços... ondulações... padrões... e dá-se a variedade no âmbito da generalidade.
Vejamos:
1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10.

11.

12.

Exposição encerrada!
Para todos os que por aqui passaram e gostaram, o nosso obrigada e voltem sempre, pois mais profissionais da fotografia serão aqui dados a conhecer.
Para os que não gostaram, o nosso agradecimento, também, e um pedido para que regressem para novas apreciações.
Para todos: este espaço é vosso e as vossas opiniões são preciosas.

Grotesco!
É, sem dúvida, esta a 1ª palavra que encontro para caracterizar o filme "Saló ou os 120 dias de Sodoma", de Pier Paolo Pasolini, agora disponível em DVD (separadamente ou incluído em "pack").
Dando sequência aos trabalhos integrantes da denominada "Trilogia da Vida" ("Decameron", "Os Contos de Canterbury" e "As Mil e Uma Noites") Pasolini, no ano de 1975, avança na sua história de cineasta com mais uma obra de relevo, na época, e como já vinha sendo hábito com as suas produções, imensamente criticada e censurada.



Em "Saló," Pasolini continua a materializar uma concepção muito particular do Sexo. Este, surge-nos num contexto perverso/subversivo/doentio de exercício do poder, de domínio e subjugação de uns relativamente a outros, sendo que a sua manipulação surge como a fronteira que separa os que podem e os que não podem, os que mandam e os que obedecem, os que querem e os que se resignam.


As perversões em seu torno- como antecedentes, aquando dos actos ou de si derivadas- são registos muito significativos, susceptíveis de provocar reacção acentuada no espectador. Tudo, ao ponto de originar um resultado final (para além dos resultados que se vão sucedendo), absolutamento grotesco, onde o horror e o vício têm um lugar por demais evidente.
Presente em todo o filme, influências de Dante e Sade, naquela que é a criação de conteúdos e cenários onde surgem, movem e evoluem as personagens.



Particularizemos:
- ARGUMENTO:
"Na província italiana de Saló no norte de Itália que estava controlada pelos nazis em 1944, quatro altos dignitários reúnem dezasséis exemplares perfeitos de jovens e levam-nos para um palácio perto de Marzabotto juntamente com guardas, criados e garanhões.
Além deles, há quatro mulheres de meia-idade: três delas contam histórias provocantes enquanto a quarta as acompanha ao piano. A história passa-se enquanto relatam as histórias de Dante e de Sade: o Círculo das Manias, o Círculo da Merda e o Círculo do Sangue.
Depois disso, os jovens são executados enquanto cada libertino toma o seu lugar como voyeus".
- DVD (conteúdos adicionais):
Índice das cenas; Filmografia e biografia de Pasolini; Trailer; Promo; Fotos de cena; As crianças de Saló; Saló de ontem e hoje.
- DURAÇÃO:
c. 112'

(Fotografia de José Marafona)
pensaram que era normal. normal. não é isso que eles querem que tu sejas??? N-O-R-M-A-L. só desejam isso de ti. a normalidade. viro-lhes as costas. as costas da solidão. as costas dos vales de amarguras, os mares de florbela espancada, as melodias dos prantos milenares, todos encalhados algures por aí, aqui dentro. sorrio e alguém chora por mim num vácuo de lamentações mudas. os ecos incompreensíveis da transparência emocional. venham eles com as suas mochilas pré-fabricadas e os seus sorrisos “leve três pague um” e os seus olhares de desprezo trivial e as suas conversas de concorrência existencial, os seus abrigos de moda etiquetada com as suas preferências assinaladas pelos preços ou pela escolha mais afamada. venham eles com as suas despreocupações ignorantes e os seus namorados seleccionados tal como as loja frequentadas, com a sua biografia memorizada da selecção portuguesa, a sua tentação para o seguimento do caminho mais partilhado, os seus vícios daquilo que mata mais rápido ou daquilo que os faz fazer coisas mais estúpidas.
não serei normal. não seguirei quem for seguidor nem tornar-me-ei seguido. não alimentarei as expectativas dos outros. não partilharei o mesmo trilho. não perseguirei quem deseja ser perseguido. não falarei o que outros quiserem escutar. não escutarei o que eles querem que eu escute. não obedecerei às guerras dos ditadores e não guiar-me-ei pelos cegos do povo. não serei o que é suposto ser. não serei normal.
"se não te agrada a forma d'eu falar acorda e vê que eu cago pró teu não gostar"
(De uma amiga que admira e regista na sua escrita influências de Sarah Kane. Este texto é um exemplo. Outros serão aqui editados. Um beijo grande para ela- "a voz_perdida").

(Fotografia de José Marafona)
luzes e luzes de conversa. abrir-te o sonho e mostrar-te o amor sem tempo. o amor não tem tempo. não essas horas e idades das civilizações humanas. amor é uma palavra imortal. é o silêncio ouvido na lâmina do punhal aceso. é a união de dois seres que se tornam um só. um só mas não estão sozinhos. nunca a solidão. porque a solidão é fria e queima como o amor mas como um fogo diferente. um fogo frio que assola as entranhas. um incêndio que devasta o espaço interior. pedaços de mobília que se devoram interiormente. às vezes somos todos peças mobiliárias a envelhecer num espaço interior e a julgar que somos belos e que decoramos a vida quando a podridão da casa onde nos encontramos, fede a morte e a restos de sentimentos decompostos. o homem encurva-se sobre o seu trabalho insatisfeito da condição humana. escreve contra os outros e por isso escreve sozinho. eu digo-lhe que o mundo não é assim tão mau e a gente é que tem medo. medo de sofrer. não sofras tu também. os livros gemem. gemem a ausência de quem não os lê e a presença de quem não os compreende. este sentimento actualizado é de solidão, de falta, de espaço vazio onde a aragem fria trespassa as teias da alma. quero aquecer-me junto aos teus lábios. lábios de porcelana inquebrável. gostava que me ouvisses. estar longe de nós assusta qualquer página de escrita esfarrapada. parece que deixo entrever a tua falta através desta saudade. vidro embaciado de saudade. gosto de ti.
(Texto de uma amiga que já foi blogger aqui no Void. É um texto de "ela", editado originalmente em Memória Futura)
De edição datada de Março deste ano pela editora Assírio & Alvim, a obra intitulada Os cinquenta poemas do amor furtivo e outros poemas eróticos da Índia antiga, com introdução e versão de Jorge Sousa Braga.
Recuperados da sua escrita original- o sâncrico-, a disponibilização no mercado de um conjunto de poemas reveladoras da concepção do sexo na Índia Antiga, onde este não era considerado em oposição à espiritualidade. Sendo que ao acto sexual era atribuído um lugar de honra, a transposição do erotismo para escrita foi uma realidade, como aliás também o foi, no que respeita à sua representação em termos arquitectónicos, nomeadamente baixos-relevos em templos.
Desta compilação começamos por apresentar os "... outros poemas eróticos", num total de 15, reservando para posts posteriores a edição dos 50 "Poemas do amor furtivo".
A acompanhar estes trabalhos, obviamente, imagens do Kama Sutra.

1.
Esta mesma lua ilumina a minha amada
O vento acariciou já o seu rosto
A lua impregnou-se da sua beleza
E o vento do seu perfume
Quem ama de verdade pouco lhe basta
Para suportar a separação
Que ela e eu respiremos o mesmo ar
E que os nossos píes pisem o mesmo chão
2.
Suspiro por vê-la quando estamos separados
Anseio por abraçá-la quando a vejo
E quando abraço essa beleza de olhos rasgados
Fundir-me com ela é o meu único desejo
3.
Não pode o lótus florir de noite
Nem a lua brilhar durante o dia
Apenas o teu rosto
Consegue realizar essa magia

4.
A lua tenta todos os meses em vão
Captar a beleza do teu rosto
Descontente com o resultado
Destrói tudo e começa de novo
5.
Se a floresta negra dos seus cabelos
Te convida a explorar os vales
E os seios essas abruptas montanhas
Acordam o montanhista que há em ti
O melhor é parares antes que seja tarde
Escondido como se fosse um salteador
Jaz à espera o amor
6.
Embora não tenham limites as minhas conquistas
Para mim há apenas uma cidade
E nessa cidade um palácio
E nesse palácio um quarto
E nesse quarto uma cama
E nessa cama uma mulher
Adormecida
A jóia mais valiosa
De toda a minha coroa

7.
- Aonde vais na noite escura?
- Ao encontro daquele por quem o meu coração anseia
- E sendo formosa e jovem e insegura
não tens medo de ir sozinha?
- Sozinha? Não Armado de arco e de flechas
O amor faz-me companhia
8.
Quando verei de novo firmas as tuas coxas
Que em defesa se cerram uma contra a outra
Para depois se entreabrirem ao desejo obedientes
E aos cair do vestido de súbito revelarem
Como um selo de lacre sobre um segredo obscuro
Húmidas ainda as marcas das minhas unhas
9.
A beleza não está no que dizem as palavras
Mas no que dizem sem dizê-lo
Mais desejáveis são os seios entrevistos
Através das madeixas do teu cabelo

10.
Proibido completamente indecente...
Anseia no entanto o meu coração
Por essa rapariga adornada com
As flores vermelhas da primeira menstruação
11.
O desejo a impele ao encontro do amante
O receio a detém por um momento
Parece a seda de um estandarte
Que ora se abandona ora se furta ao vento
12.
As manchas vermelhas de betél
As negras marcas de aloés
O aroma dos cremes perfumados
As pegadas de laca
As flores caídas das suas tranças
Nos lençóis em desalinho
Deixam supor as diversas posições
Que adoptou a amada
Com o seu amante enquanto faziam amor

13.
Quando o meu amante se deitou ao meu lado
Por si só se desprendeu o meu cinto
E mal suspenso da cintura
O vestido deslizou-me pelos quadris
É a única coisa que sei
Pois mal senti o contacto do seu corpo
De tudo me esqueci
De quem era ele
De quem era eu
De como foi o nosso prazer
14.
Esmagados contra o meu peito
Os seus seios estremecem Entre as suas
Coxas flui a seiva doce do amor
"Não outra vez não... Deixa-me descansar..."
E aos sussurros sucedem-se as súplicas
E às súplicas os suspiros
E aos suspiros o silêncio...
Terei adormecido? Estarei a agonizar?
Ou será que estou a sonhar?
15.
Neste vão e flutuante mundo
O que resta a um homem?
Pode dedicar-se à oração
Mas se isso porventura não resulta
O melhor é refugiar-se entre os seios duma mulher
Acariciar as suas coxas quentes
E possuir o que entre elas se oculta
[Jorge Sousa Braga (introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]
Pois é, o brevemente é... agora.
Apresentamos a 2ª Galeria de fotografias de Urs Kahler, incidindo estas, desta vez, sobre corpos (para além do rosto). Mas não corpos vistos na sua "naturalidade". Encontramo-nos perante corpos modificados, trabalhados, feitos destacar em brilho e em cor para a pose. Corpos compostos. Corpos feitos sobressair para serem mostrados e apreciados, especialmente. Corpos preparados para serem, ainda mais, Arte.
Atentemos ao que se segue. Registe-se a sequência:
Posição 1.

Posição 2.

Posição 3.

Posição 4.

Posição 5.

Posição 6.

Posição 7.

Posição 8.

Posição 9.

E ainda:
Posição 10.

Posição 11.

Muito bem! Cá temos mais trabalhos para serem devidamente apreciados/usufruidos. Mas ainda falta a 3ª Galeria...

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Chamei por mim quando cantava o mar
Chamei por mim quando cantava o mar
Chamei por mim quando corriam fontes
Chamei por mim quando os heróis morriam
E cada ser me deu sinal de mim.
Dia do mar no ar, construído
Dia do mar no ar, construído
Com sombras de cavalos e de plumas.
Dia do mar no meu quarto- cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.
Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.
Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade
Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade
medindo o equilíbrio dos meus passos.
Mas as coisas têm máscaras e véus com que me enganam,
e, quando eu um momento espantada me esqueço, a força
perversa das coisas ata-me os braços e atira-me,
prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio
horror das voltas do caminho.
Apesar das ruínas e da morte
Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Pudesse eu não ter laços nem limites
Pudesse eu não ter laços nem linites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.
Tudo me é uma dansa em que procuro
Tudo me é uma dansa em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.
À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar...
Senti que estava às portas do meu reino
Senti que estava às portas do meu reino,
Entre as sombras brilhavam as paisagens
Que os meus sonhos antigos desejavam.
Mas o terror expulsou-me das imagens
Onde já os meus membros penetravam.
(Poemas extraídos das obras: CORAL e POESIA)
Dando continuidade às exposições de fotografia que ultimamente têm sido apresentadas, eis uma outra que agora se inicia, desta feita, com trabalhos de um fotógrafo austríaco de nome Urs Kahler (1939- ).
Nesta 1ª Galeria, saliento um conjunto de fotografias incidindo sobre rostos. O rosto feminino. Rostos femininos. O tratamento fotográfico é imenso, sendo que a ideia/realização de colagem e manipulação é o que mais sobressai, registando-se por isso uma originalidade naquele que é o produto final.
Os nove exemplares que se seguem são, pois, a melhor prova documental do estilo do autor, neste particular. Sem mais delongas, passe-se já à sua visualização:
1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.

A 2ª Galeria com trabalhos do autor será editada brevemente. Estejam atentos!
Faço esta semana uma interrupção na "Mostra de Cartoons" que tenho vindo a apresentar aos longo das últimas segundas-feiras para, embora consigo relacionado, registar algo em moldes diferentes. Pois é! Hoje trago aqui a recomendação de aquisição e/ou leitura de uma publicação de quase 600 páginas, editada pela Bertrand Editora (Chiado, 2003), que compila a obra de Quino relativa à sua personagem mundialmente mais conhecida: MAFALDA.
Quino, cujo nome real é Joaquín Salvador Lavado, nasceu em 1932, na Argentina. Não fazendo aqui referência àquele que foi o seu percurso de vida, também como humorista, destaco que nos anos 1963-1964 tinha já as suas primeiras ideias para aquela que viria a ser a sua grande personagem humorística.
De facto, Mafalda, é "a" grande contestatária. Mafalda é a criança precoce, atenta ao mundo que a rodeia, discutindo-o e procurando interpretá-lo (quer a nível de política nacional, quer internacional, mas também ao nível da evolução científica e tecnológica) com a sua família e amigos. Mafalda é também uma defensora das mulheres livres, autónomas, não presas à casa e sem perspectivas para além dos encargos domésticos. Mafalda é uma insatisfeita, pois quer sempre saber mais. Mafalda quer entender. Em tudo isto faz também propostas. À sua maneira, mas faz. Evidentemente que se considera um tanto ao quanto incompreendida. E detesta sopa!
Bem... eis-vos agora perante uma excelente oportunidade para se perderem/deliciarem com o dia-a-dia desta fascinante personagem e dos seus amigos: Filipe, Susanita, Manelito, Miguelito e Guille:

Nesta obra, para além das tiras da Mafalda, um conjunto de textos, incluindo testemunhos, de grande interesse e importância para o conhecimento do autor e do trabalho por si desenvolvido. Também uma excelente cronologia.
Vale sem dúvida a pena, adquirir!
Já agora, a heroina do dia em várias perspectivas... e humores:
1.

2.

3.

4.

5.

Exemplos de tiras/"imagem individual":
1.

2.

3.

Não falei contigo
com medo que os montes e vales que me achas
caíssem a teus pés...
Acredito e entendo
que a estabilidade lógica
de quem não quer explodir
faça bem ao escudo que és...
Saudade é o ar
que vou sugando e aceitando
como fruto de Verão
nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também
que num dia maior serás trapézio sem rede
a pairar sobre o mundo
em tudo o que vejo...
É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é folha de papel
Nela te pinto nua... nua
numa chama minha e tua.
Desconfio que ainda não reparaste
que o teu destino foi inventado
por gira-discos estragados
aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico
de sincronização do coração
são leis como paredes e tetos
cujos vidros vais pisando...
Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números
raízes quadradas de somas subtraídas
sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida
um ciclo vicioso
harmonioso ao teu gesto mimado
e à palma da tua mão...
É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
e a minha bola de cristal é folha de papel
Nela te pinto nua... nua
Numa chama minha e tua.
Desculpa se te fiz fogo e noite
sem pedir autorização por escrito
ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos
que voltei a encontrar em ti...
É que hoje acordei e lembrei-me
Que sou mago feiticeiro...
...nela te pinto nua... nua
Numa chama minha e tua.
Ainda magoas alguém
O tiro passou-me ao lado
Ainda magoas alguém
Se não te deste a ninguém
magoaste alguém
A mim... passou-me ao lado.
(Toranja- do album ESQUISSOS)
Uma canção lindíssima e muitíssimo bem interpretada. Um grupo que certamente proporcionará muitos mais momentos de prazer.

(Quadro: A persistência do pintor. Autor: Marti Carbonell)
A mim mesmo volto a perguntar, porém, por que razão, sendo S. esta detestação que descrevi, se instalou em mim a obsessão de compreendê-lo, de descobri-lo, quando outra gente mais interessante, entre mulheres e homens que retratei, me passou pelos olhos e pelas mãos ao longo de todos estes anos de medíocre pintura: não encontro mais explicações que a volta da idade em que estou, que a humilhação subitamente descoberta de ficar aquém da necessidade, dessa outra e mais ardente humilhação de ser olhado por cima, de não ser capaz de responder à ironia com o desprezo ou com sarcasmo. Tentei destruir este homem quando o pintava, e descobri que não sei destruir. Escrever não é outra tentativa de destruição mas antes a tentativa de reconstruir tudo pelo lado de dentro, medindo e pesando todas as engrenagens, as rodas dentadas, aferindo os eixos milimetricamente, examinando o oscilar silencioso das molas e a vibração rítmica das moléculas no interior dos aços. Além disso, não posso impedir-me de detestar S. por aquele olhar frio com que relanceou o meu atelier na primeira vez que aqui entrou, por aquele fungar desdenhoso, pelo modo displicente com que me atirou a mão. Sei muito bem quem sou, um artista de baixa categoria que sabe do seu ofício mas a quem falta génio, sequer talento, que não tem mais que uma habilidade cultivada e que percorre sempre os mesmos sulcos, ou pára junto das mesmas portas, mula puxando a carroça duma qualquer costumada distribuição, mas, dantes, quando eu chegava à janela, gostava de ver o céu e o rio, tal como Giotto gostaria, ou Rembrandt, ou Cézanne. (...)
O meu trabalho vai agora ser outro: descobrir tudo na vida de S. e tudo relatar por escrito, distinguir entre o que é verdade de dentro e pele luzidia, entre a essência e a fossa, entre a unha tratada e a apara caída da mesma unha, entre a pupila azul-baço e a secreção seca que o espelho matinal denuncia no canto do olho. Separar, dividir, confrontar, compreender. Perceber. Exactamente o que não pude alcançar enquanto pintei.
(José Saramago- MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA)
Para quem gostar tanto de histórias para crianças como eu e se disponha a adquirir livros, aconselho uma viagem pelas imagens...
proporcionadas pelo mundo de:
Acompanhem o site e procurem as obras. Deliciem-se!
Sandra

(Fotografia de José Marafona)
(1º momento)
O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante da manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.
(2º momento)
Eram as trinta páginas mais importantes da minha vida. Ao escrever, tinha vivido. Eram trinta páginas que eram o meu amor todo e a minha esperança. Sentado à escrivaninha onde os anos passavam, olhávamo-nos muito: ela dentro de mim e o meu olhar dentro de mim, junto dela. O meu braço tremia e, com a esferográfica, escrevia em folhas brancas cada uma das palavras que a diziam. Ela sentia as palavras a tocarem-na. Ela fechava lentamente os olhos. E o tempo em que mantinha as pálpebras fechadas era tocar-me, era tocar o sol e, na pele, absorver toda a sua luz. Eu, que não podia ter nos braços aquela vida interior que era a minha vida toda, que não podia dar-lhe a mão, que não podia sequer passar-lhe os dedos devagar pelo rosto, fazia tudo isso escrevendo. Nas palavras escritas tocávamo-nos realmente. Como duas pessoas sobre a terra. Nas palavras, existiam os nossos olhares enternecidos. Dentro de cada uma das palavras, existiam mil palavras, e também cada uma dessas mil palavras tinha dentro de si mil palavras. E mesmo essas palavras que existiam dentro de outras palavras eram enormes, porque também elas tinhas dentro de si mil palavras que tinham dentro de si mil palavras. Nas palavras escritas, éramos possíveis. O nosso amor. Tudo. O mundo. Por isso, aquelas eram as trinta páginas mais importantes da minha vida.
(José Luís Peixoto- UMA CASA NA ESCURIDÃO)

(Fotografia de José Marafona)
... de amor. do amor que se sente. do amor que foi. do amor que também é possível sentir. do que partiu. da ausência. do retorno. do estar adicional. da opção por simplesmente estar e ser e viver feliz assim. a construção permanente e eterna da verdade. em tudo: a imensa força do tempo. do constante, mas também daquele que regista a perenidade e o efémero...
Fragmentos de Amor:
Este amor...
Que revoluciona,
Que transformou por complecto as nossas vidas.
Que nos fez e faz correr riscos.
Que nos sujeita às maiores provações...
Este amor,
Teimoso e forte,
que originou uma força devastadora,
que nos desafia constatemente,
Este amor,
que me faz viver...
Canto...
.... há alturas em que as palavras perdem o sentido, e a voz se cala...
Mas, mesmo aí, nessa altura, quando a voz me falhar, continuarei a cantar para ti, no silêncio de todas as palavras...
Quando...
Hoje o teu sorriso, quando chegaste, teve algo de mágico. A sardinheira rosa do parapeito abriu mais uma flor. E o Sol, a quem uma nuvem tapava, disparou um raio que te alcançou em cheio no teu olhar mais doce.A Natureza a saudar a primavera de cada regresso.
Apetece-me agarrar-te e sussurrar-te ao ouvido tanta coisa que não sei por onde começar. Fica para mais logo. Agora preciso apenas do teu abraço. Antevejo momentos de paz e palavras doces…
Quando chegas, tudo é perfeito, tudo é cor….
Tempo...
Não me bastam, restos do teu tempo…
Mas são eles que me mantêm,
E para que o tempo sem ti seja menos saudade…
Quando estou contigo reservo sempre uma parte da tua presença para servir de ponte
Sobre o abismo da tua ausência…
Se...
Se não estivesses aqui comigo, iria à tua procura até ao fim do mundo.
Já não imagino a minha vida, sem a tua presença...
Sem ti...
Cada acto da minha vida perderia o sentido,
Deixar-me-ia à deriva, sem rumo e sem porto,
porque, apesar de não seres responsável
pelos meus sonhos, és a razão última de todos eles...
Sem ti que faria eu com o futuro,
com o dia a dia por chegar,
Com a minha vida passada e as minhas recordações...
Sem que me ouças,
por vezes digo baixinho:
Por favor, fica a meu lado,
nunca te vás embora.
(Texto introdutório- a itálico-: Sandra Almeida. Textos subsequentes da autoria de Maria Branco- UM POUCO MAIS/(RE)CRIANDO)
[Maria, Maria... para ti, e com a junção destes teus trabalhos... o resultado de umas notas para piano. Enfim, sabes o que quero dizer. Beijo muito grande. Sandra]

(Fotografia de Bruno Espadana)
Benjamim
As pessoas continuam a aparecer. Na rua, em minha casa, por todo o lado. E, principalmente nos sonhos. Aparecem-me em sonhos sem serem chamadas, sem desejá-las lá. Vêm e dominam a parte de mim que pensava já ter controlado. Sem pudor, sem inibição, atacam-me e deixam-me assim. Será a vida a insistir comigo? Ruídos que tentam anular a minha voz. Estou a tentar o silêncio. Assim, não consigo dormir. Não posso dormir. Ela, às vezes, também aparece. Depois acordo como um adolescente e não sei o que pensar. Talvez chorar, mas não. Fico embaraçado comigo mesmo, envergonhado, mesmo achando que não devo sentir vergonha. As pessoas estão aí. Quero controlar o que nelas me motiva. Também elas morrem, partem, mentem. São como tudo o que aqui há. O que, em mim, é comum a elas desperta ferozmente durante a noite. Ninguém me ensinou o que fazer com isso. Suponho que tenho de aguentar. Ficar parado, não mexer, não respirar.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

(Fotografia de Bruno Espadana)
Daniela
Estar a olhar para ti, só a olhar para ti, já é suficiente. Tu olhas-me de soslaio e continuas a fazer o que tens a fazer. Ao computador, a comer, a ver televisão, o que for. Eu fico a olhar a ti. Tu não pareces incomodado, mas nem entusiasmado. Suponho que, no fundo, te irrite um pouco. Quando estou a olhar para ti, tenho medo. Fico com um medo profundo, que passa ao fim de uns momentos, de te perder. Mas não te digo, porque não te quero distrair. Só quando dormes é que te digo. Porque uma vez disse-te quando estavas acordado e tu ficaste com lágrimas nos olhos e disseste "é inevitável". Depois beijámo-nos e fizemos amor e eu fiquei tranquila de novo. Porque alguém que me ama dessa maneira não pode deixar-me de um momento para o outro. Mas de qualquer forma, já não te digo. Chamas-me doce e dizes que sou uma mulher maravilhosa. Eu acredito. Nada de mal acontecerá. Porque tudo de bom me está a acontecer.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

(Fotografia de Bruno Espadana)
Clarissa
Inevitavelmente, a pergunta há-de surgir. És feliz? E, então, não há saída. És confrontada com a pergunta sobre a felicidade. Fim de relação, eventualmente. Ou, de outro modo, evitar a todo o custo pensar na resposta. Ou melhor, evitar pensar na pergunta. Porque a resposta não se dá porque se tem medo. Suponho que haja muita gente feliz que tem medo de responder porque tem medo de não ser feliz. E nunca ficam a saber que são realmente felizes. É preciso arriscar a pergunta, há quem diga. Eu prefiro não arriscar e lamento profundamente quando alguém ma faz. Não digas nada. Aquelas frases que começam com "não precisas responder já, mas..." só dão mau resultado! Evita-as a todo o custo. E se alguém tas fizer, finge que é uma brincadeira. Nunca leves a sério as declarações de amor e, principalmente, os pedidos de declaração.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

FERREIRA GULLAR
Meu povo, meu poema
Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova
No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar
No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro
Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil
Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta.
A bomba suja
Introduzo na poesia
a palavra diarréia.
Não pela palavra fria
mas pelo que ela semeia.
Quem fala em flor não diz tudo.
Quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.
No dicionário a palavra
é mera idéia abstrata.
Mais que palavra, diarréia
é arma que fere e mata.
Que mata mais do que faca,
mais que bala de fuzil,
homem, mulher e criança
no interior do Brasil.
Por exemplo, a diarréia,
no Rio Grande do Norte,
de cem crianças que nascem,
setenta e seis leva à morte.
É como uma bomba D
que explode dentro do homem
quando se dispara, lenta,
a espoleta da fome.
É uma bomba-relógio
(e relógio é o coração)
que enquanto o homem trabalha
vai preparando a explosão.
Bomba colocada nele
muito antes dele nascer;
que quando a vida desperta
nele, começa a bater.
Bomba colocada nele
pelos séculos de fome
e que explode em diarréia
no corpo de quem não come.
Não é uma bomba limpa:
é uma bomba suja e mansa
que elimina sem barulho
vários milhões de crianças.
Sobretudo no nordeste
mas não apenas ali,
que a fome do Piauí
se espelha de leste a oeste.
Cabe agora perguntar
quem é que faz essa fome,
quem foi que ligou a bomba
ao coração desse homem.
Quem é que rouba a esse homem
o cereal que ele planta,
quem come o arroz que ele colhe
se ele o colhe e não janta.
Quem faz café virar dólar
e faz arroz virar fome
é o mesmo que põe a bomba
suja no corpo do homem.
Mas precisamos agora
desarmar com nossas mãos
a espoleta da fome
que mata nossos irmãos.
Mas precisamos agora
deter o sabotador
que instala a bomba da fome
dentro do trabalhador.
E sobretudo é preciso
trabalhar com segurança
pra dentro de cada homem
trocar a arma da fome
pela arma da esperança.
Coisas da terra
Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso
a palavra solidária
minha mão aberta
onde este esquecido cheiro de cabelo
que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio.
Todas as coisas de que falo são de carne
como o verão e o salário.
Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem.
São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes do trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.
Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
ainda em estado de soluços e esperança.
(Poemas extraídos de: OBRA POÉTICA)
Com as 16 fotografias que se seguem damos continuidade ao conjunto de trabalhos da galeria "Nymphes bleues/Blue nymphs", concluindo simultaneamente a exposição. Procurámos com a mesma fazer uma ruptura, ou seja, apresentar algo completamente diferente do que proporcionamos na exposição do autor anterior. O objectivo é e será, editar a maior diversidade de sugestões de ideias, histórias e conceitos, possível. Esperamos, efectivamente, atingir tal objectivo, até para alargarmos o leque do que é proporcionado para usufruto.
Mas quanto a Joseph Angilella-Auquier, apreciemos o que se segue:
1.

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14.

15.

16.

Para a semana: uma outra exposição, um outro fotógrafo, um outro país em destaque.

(José Saramago)
(1º excerto/1º momento)
Mal vai porém ao pintor, ou dizendo mais rigorosamente, pior vai porém ao pintor, se, tendo de pintar um retrato, descobre que tudo quanto lançou na tela é cor anárquica e desenho louco, e que o conjunto de manchas só reproduz do modelo uma semelhança que a este satisfaz, mas ao pintor não. Creio que isto acontece na maior parte dos casos, mas, porque a semelhança lisonjeia e justifica o pagamento, o modelo transporta para casa aquela sua imagem supostamente ideal e o pintor suspira de alívio, liberto da assombração irónica que lhe estava queimando as noites e os dias. Quando o quadro já pronto se demora, é como se girasse no seu eixo vertical e virasse para o pintor os olhos acusativos: poderia chamar-se-lhe fantasma se não tivesse ficado já dito que é assombração. Em geral, o pintor, se sabe do ofício o bastante, reconhece que segue caminho errado logo ao primeiro esboço. Mas porque daria muito trabalho explicar ao modelo esse erro, e porque o modelo quase sempre se agrada de si mesmo logo de entrada, receoso de que outro curso e outro apanhamento de si o mostrem sob menos favorável luz, ou, pelo contrário, o voltem de dentro para fora, em dedo de luva (...), o retrato continua a deixar-se pintar, cada vez menos necessário. É como se (...) se estabelecesse entre o pintor e o modelo uma cumplicidade para a destruição do retrato (...). A morte, quando tirar do mundo o pintor e o modelo; o incêndio, se por feliz acaso reduzir o retrato a cinzas- apagarão alguma mentira e deixarão o lugar vago para outras tentativas e para um novo bailado, para o novo pas-de-deux que inevitavelmente outros recomeçarão.
(2º excerto/2º momento)
Observo-me a escrever como nunca me observei a pintar, e descubro o que há de fascinante neste acto: na pintura, vem sempre o momento em que o quadro não suporta nem mais uma pincelada (mau ou bom, ela irá torná-lo pior), ao passo que estas linhas podem prolongar-se infinitamente, alinhando parcelas de uma soma que nunca será começada, mas que é, nesse alinhamento, já trabalho perfeito, já obra definitiva porque conhecida. É sobretudo a ideia do prolongamento infinito que me fascina. Poderei escrever sempre, até ao fim da vida, ao passo que os quadros, fechados em si mesmos, repelem, são eles próprios isolados na sua pele, autoritários, e, também eles, insolentes.
(José Saramago- MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA)
[Dedico este post a uma amiga pintora. Ela merece. Sandra]

(Gonçalo M. Tavares)
A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.
(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)
Mais um conjunto de significativos cartoons de uma autora nacional. Desta feita, Cristina Sampaio, que tem exercido actividade no jornal "Público" e no jornal "O Independente" e tem apresentado trabalhos no âmbito das mais diversas iniciativas. Nasceu em Lisboa em 1960.
Os temas abordados são vários, sendo os exemplos aqui editados prova disso mesmo. Temos, pois, abordagens à política internacional, a situações verificadas no quotidiano, ao amor, à clonagem, à globalização, ao terrorismo. A ordem de apresentação dos cartoons respeita a data de criação da autora.
Assim:
1. THREE CULTURES, ONE FUTURE (1993)

2. FORBIDEN LOVE (1993)

3. BRIBERY, CORRUPTION AND TAXES (1995)

4. IS THE INTERNET A DRUG? (1998)

5. BUREAUCRACY (1998)

6. SMOKING (1998)

7. JUST TO SAY I LOVE YOU (1999)

8. CLONING TO SURVIVE (2000)

9. GLOBALIZATION YES! GLOBALIZATION NO! (2001)

10. THE THREAT (2001)

11. CLONING ETHICS (2001)

A Mostra continua na próxima Segunda-feira.

Olho para a Nossa Senhora fluorescente na mesinha de cabeceira. Uma miniatura sagrada esquecida. Uma luz que me faz sentir feliz. O meu corpo é empurrado bruscamente para a frente. Agarro-me aos lençóis da cama, a pressão é violenta, tento deitar-me de barriga para baixo, mordo a almofada, um movimento exaltado a bater-me nas nádegas, humidade, pele a chapinhar na pele. O meu corpo a bater no chão, ao lado da cama. A figura sagrada a luzir em muitas direcções. Tapo-me com uma ponta do lençol, cubro os seios por pudor. É nestes momentos que sentimos apagar-se uma luz qualquer sobre as nossas vidas. O chão encerado a devolver um rascunho da minha imagem. Fiz um esforço para olhar para cima, a superfície da cama ficava a uma altura tormentosa, consegui ver uma perna ossuda a enrolar-se no lençol, o som do colchão a aceitar a comodidade do corpo dele, respirações convulsivas a fazerem o registo da situação. Sentia uma mão húmida a sangrar, um fragmento de Nossa Senhora a iluminar a minha pele. Olhei para as minhas cuecas rotas, lassas entre as pernas, manchas magoadas de vermelho nas coxas. E depois havia aquela paz que escorre do silêncio, uma espécie de suspensão, vazio luminoso, talvez um caminhar à deriva pela própria consciência, uma sala povoada de imagens familiares, nunca felizes, como se algumas sementes de felicidade se transformassem em bagos venenosos, mas mesmo assim comestíveis. Ali estava o meu homem, estilhaçado de ódio sobre a cama, doente do seu tesão, a acumular-se de argumentos para a defesa dos seus próprios actos, provavelmente a delirar silenciosamente na cegueira das suas emoções. Possuía o rosto duro das pedras afiadas e impulsivas, um rosto que se apresentava como um depósito de explosivos. Nenhuma palavra como mensagem artificiosa, apenas o silêncio a servir de guarda-roupa ao meu sofrimento. Tentei erguer-me sem fazer ruído e gatinhei dorida até à porta do quarto. A sensação que tive foi como se desligasse o interruptor num aparelho onde passasse um fragmento incompreensível da minha vida. É incrível como a dor que sentimos nestes momentos só tem reais consequências com a autorização do tempo. É " ele " que nos faz consultar as folhas da nossa vida e nos obriga a pôr o destino em dia.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
[O primeiro exemplo aqui editado em como o Fernando é o tal escritor "feminino". Sandra]
Eis-nos na 2ª galeria de trabalhos de Joseph Angilella- Anquier, intitulada "Nymphes bleues/Blue nymphs". Seguem-se 12 fotografias como arranque desta (continuação de) mostra. Outras terão aqui lugar, completando a exposição no espaço em questão. Tal como os trabalhos da galeria anterior, podemos vislumbrar uma história... ou várias histórias. Podemos vislumbrar ideias de vária ordem, de acordo com a nossa percepção do exposto. A nossa liberdade deve, pois, ser total. Uma realidade: o fotógrafo dá-nos imensa matéria para criação individual. Pensemos, desta forma, no explícito e no possível subjacente. Pensemos nas evidências e nas subtilezas. Pensemos nas alusões.
Viajemos:
1.

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A(s) história(s) continua(m)...
Coragem

não tenho coragem. o amor não me dá coragem. é uma armadilha atenta. tenho um labirinto de vidas a construir-se sobre pensamentos movediços. hoje não existe escrita. só este esforço terrível de dizer que não tenho coragem. o amor perturba. o amor como ideia de alguém distante. silencioso. vou tentar. é preciso tirar todo o amor às palavras. não posso tocar o corpo que a palavra escreve. o teu corpo sentado num banco de jardim. vens? um dia. haverá um dia como uma página perdida entre as tuas lágrimas. quase sinto a tua dor que espera impaciente para devorar o meu coração. tenho cuidado. levo muito tempo para escrever o nada que avança no futuro. esta incerteza de alguém esperar por nós no fim de cada frase. posso estar a falar de coisas perdidas e sem luz. a solidão, podes pensar. o desespero que nos leva a abandonar também as palavras. as pessoas. quero também dizer as pessoas. as que nos lêem neste vazio vertiginoso. isto é um livro, o amor. um livro que se ama a si próprio e que se destrói em todos os sentidos da vida. como posso amar diante do que não existe? a vida tem esta vulgaridade. angustiante. como posso escrever no medo que vigia a escrita? olhos violentos a acender fogos e gritos no pensamento. esta casa é silenciosa. esquecida e infeliz. escrevo tudo nesta casa, como sinto tudo neste amor de viver fechado. perdi a coragem nos lugares inocentes desta casa. nunca fui capaz de partir.
(ele)
Esperar-te-ei

ouve-me: partirás. um dia partirás. um belo dia demasiado intenso para sobreviver em tamanha realidade. mas acredita em mim. ouve-me: partirás. acredita porque eu acredito. e quando acreditamos a tela nasce no esplendor de sua inspiração efémera e única. tu és único. nós somos únicos pois, depois de tantas palavras, existirão palavras que ainda não foram pronunciadas. eu dir-tas-ei como quem enche o coração de cerejas rubras e lábios pintados, como quem abraça o vento sem olhar ao que não pode ser feito e como quem esculpe, apalpando as teclas do piano resplandecente e como quem acompanha os passos da alma, nas sombras desvairadas da noite estival. eu esperar-te-ei na essência de meu solitário ser e todo os segundos em que eu suspirei por ti, transformar-se-ão em promessas cumpridas, em sonhos realizados, em sorrisos pela 1ª vez desenhados a cor-de-verdade porque será verdade, será real, será o dia, o presente, o imbatível e o insuperável hoje e é maravilhoso escrevê-lo, agora, porque nunca mais poderá ser escrito no futuro.
venço-te com minhas asas de cristal e abro-te a janela. deixa o sol entrar nessa casa fechada a palavras. deixa-me sorrir-te e oferecer-te um par de asas corajosas. talvez não as minhas, mas porque não as tuas? neste momento, quero que me ouças. ouças além destas palavras silenciosas. ouças e compreendas: partirás. um dia partirás. um dia repleto de sol. e eu esperar-te-ei.
(ela)
[Textos de dois amigos do Void que partilham, também, o prazer pela escrita e o fazem sobressair num trabalho conjunto de indiscutível particularidade e imensa qualidade. Edição original em MEMÓRIA FUTURA. Complemento visual: fotografias de José Marafona]

DAVID MOURÃO-FERREIRA
Sobre mim cavalgas
Sobre mim cavalgas
cingindo-me os flancos
Colhes à passagem
a luz do instante
De dentes cerrados
ondulas avanças
retesas os braços
comprimes as ancas
Depois para a frente
inclinas-te olhando
o que entre dois ventres
ocorre entretanto
e o próprio galope
em que vais lançada
Que lua te empolga
Que sol de embriaga
Lua e sol tu és
enquanto cavalgas
amazona e égua
de espora cravada
no centro do corpo
Centauresa alada
com os seios soltos
como feitos de água
Queria bebê-los
quando mais te dobras
Os cabelos esses
sorvê-los agora
Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a língua
A de nos teus olhos
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu
Galopam cavalos
Galopam cavalos
por dentro do sangue
Em dunas resvalam
a boca e as mãos
Crisparam-se as pálpebras
os dedos se inflamam
ao mais leve toque
na tua garganta
assim que de costas
te deito na cama
Uma ave alucinada
Uma ave alucinada
nasce debaixo de mim
As pontas de suas asas
sobre meus ombros se fincam
enquanto o ventre já parte
para a viagem mais íntima
Negros lenços se desfazem
Túnicas brancas se pisam
Nesta abóbada encarnada
a saliva sabe a sangue
Gemendo moves as asas
Mas sou eu quem vai voando
Depois de tudo ser tudo
Depois de tudo ser tudo
quando a pele é mais que pele
toda velada e veludo
só me pedes que te vele
(Poemas extraídos da obra: MÚSICA DE CAMA)
Com as 12 fotografias que se seguem, damos por terminada a mostra da 1ª galeria de trabalhos de Joseph Angilella-Auquier. Evidentemente que "Reve en bleu/Dream in blue" mantém o seu estilo. A história, se assim quisermos considerar, continua, quase como numa espécie de floresta da "Ilha dos Amores". Ou como numa floresta, num espaço onde impera o divino.
A Mulher está. A Mulher está e reage com outra. Mulher/Mulheres. Mulher com a Natureza. Mulher com outra Mulher e ambas com a Natureza. Conjunto. Conjuntos. En bleu. In blue.
Ou seja:
1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10.

11.

12.

Para não muito distanciadamente no tempo, uma 2ª galeria com trabalhos do fotógrafo. Título enquadrador: "Nymphes bleues/Blue nymphs".
Dois filmes, dois realizadores, duas formas de representar/retratar a adolescência. Mas que adolescência?, impõe-se perguntar. Representação(ões) em que circunstâncias? Em que contextos? E adolescência, assim, por quê? Poderemos ou deveremos falar em culpados? Se sim, quem? E o que fazer para ultrapassar os problemas? O que fazer para evitar o que não é bom ou pouco recomendável?
Apresento dois enredos passados nas salas de cinema, agora em DVD, que nos permitem fazer um conjunto de considerações e colocar uma série de questões. Foi, pois, com este exercício, que iniciei o post. Muito ligeiramente, no entanto. Para não fechar possibilidades, diria.
Pessoalmente formei opiniões, que foram evoluindo e ainda estão em ebulição. As considerações são uma constante diária, num percurso de vida onde a juventude tem um peso muito grande. Quem viu tais filmes, certamente terá também passado pelo processo que lhes deu origem (às considerações e às opiniões). Quem os vai ver pela primeira vez, tem ainda o caminho aberto.
Mas nada é ou tem que ser definitivo. O nosso embate perante estes filmes pode ser variável, caso se dê mais do que uma vez. Por questões de maturidade individual. Porque o Ser Humano é complexo. Porque as situações encontram-se imbuídas de causas, de variantes e os efeitos podem nem sempre ser iguais ou nem sempre ter resultados equivalentes.
Uma vez que nos encontramos perante trabalhos de Larry Clark ("Ken Park") e de Gus Van Sant ("Elephant"), o substracto para desenvolvermos raciocínios é o mesmo, sendo que estes podem abranger aspectos com uma imensa generalidade ou com uma imensa particularidade, ou mesmo amalgamando-se os dois por (quase) inevitáveis complementaridades.
As obras cinematográficas então ai! Vejamo-las e (flexivelmente) posicionemo-nos.
Para além do conteúdo temos igualmente a vertente plástica, ou seja, da imagem. O registo pela câmara e as sensações visuais variam em ambos os filmes originando, no espectador, registos diferenciados. Mais uma vez: a forma como a(s) mensagem(ns) pretende(m) ser transmitida(s). São, pois, através destas variantes, que a nossa viagem a tal mundo (o da juventude/adolescência) se faz de forma tão peculiar. E gosta-se ou não!
Vejamos:
KEN PARK: quem és tu?

Argumento:
"Provocante, polémico e intenso, "Ken Park" mostra a vida de 4 amigos de infância, três rapazes e uma rapariga, bem como as suas famílias e vizinhos, numa pequena cidade da Califórnia. As suas vivências são totalmente expostas sem tabus nem restrições, podendo-se assistir a cenas de violência, sexo e amor. Shawn aparenta ser o mais convencional. Tate está cheio de pensamentos psicopáticos. Claude é molestado sexualmente pelo seu pai e acarinhado de forma estranha pela mãe grávida. Peaches toma conta do seu religioso pai, mas anseia também pela liberdade.
Embora passem muito tempo juntos, nenhum deles parece ter noção da vida familiar de cada um dos outros. Esta estranha dicotomia sublinha as suas alienações, o resultado do tédio urbano e o melodrama dos adolescentes no ambiente dos seus lares."
DVD:
Entrevista com Larry Clark.
Duração:
c. de 96'
ELEPHANT

Argumento:
"Baseado parcialmente na tragédia de Columbine, em que dois adolescentes massacraram a tiro treze pessoas e depois se suicidaram, ELEPHANT desenrola-se num típico liceu norte-americano. É um belo dia de Outono. Eli, o fotógrafo, convence um casal punk a deixar-se fotografar a caminho da escola. John deixa as chaves do carro na secretaria para o irmão mais velho ir buscar o pai. Nathan termina o treino de futebol e vai encontrar-se com a namorada. Brittany, Jordan e Nicole coscuvilham nos corredores e comentam as chatas das mães que andam sempre a espreitar o que elas andam a fazer. Michelle corre para a biblioteca enquanto Eli tira uma fotografia a John. Parece um dia normal na escola. Mas afinal não é...".
DVD:
Entrevista com Gus Van Sant.
Duração:
79'
(Opinião da blogger Sandra)

hoje queria escrever sobre uma coisa completamente diferente. sobre o amor de duas mulheres. sobre as palavras que elas têm para se amarem. dizem que se amam de uma forma disfarçada. sentimentos objectos. dizem força e coragem como se isso fosse um acto sexual. acariciam-se com as flores que escrevem nos seios uma da outra. as putas mais doces do mundo. tocam-se com dedos de vidro e sentem um prazer de rasgar o corpo abandonado. amam como os animais domésticos a roçar os corpos pelos lugares visitados da paixão. amam como os homens presos em corpos de mulheres. ó grande puta da poesia possuída pelo desejo de ser amada por uma mulher. tens palavras que são o pronto-a-despir de todas as ilusões. e elas masturbam-se com os sentimentos que trocam como se odiassem um pénis natural. é tão doce a minha puta sem coragem de admitir que tem medo dos homens. e escreve-me cartas de ódio com imagens de amor pelas mulheres. hoje amei alguém e posso escrever o que sinto. posso destruir o teu encanto pelo feminino. quase te vejo a arrancares o coração para dares de comer a essa mulher tão apaixonada. abraça-a. deixa-te abraçar pelo medo do sexo. perfuma-te com o cheiro desse amor decorativo e impaciente. numa coisa estou de acordo contigo: não há nada como amar uma mulher, na perspectiva de quem escreve o próprio mal. que loucura. as tuas palavras entristecem-me como velas apagadas por uma corrente de ar. sopra-lhe no sexo e semeia o teu amor literário.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA/MEMÓRIA FUTURA)
[Tenho para mim o Fernando como um escritor muito "feminino". Que quer isto dizer? Quer dizer que transporta muitíssimo bem para a escrita os sentimentos e emoções das mulheres em contexto de relações amorosas ou em contexto de envolvimentos sexuais (o que para mim não é/pode não ser exactamente a mesma coisa). O Fernando é (quase) perfeito naquilo que escreve. A possibilidade de nos revermos em múltiplas situações é imensa. Quase parece que nos ouvimos ou nos lemos os pensamentos.
Serve este texto que hoje edito de pretexto para deixar aqui tal ideia. E para registar, também, que serão trazidos ao Void escritos que provam isso mesmo. Não demorará muito. Sandra]
Dando sequência ao projecto iniciado com a exposição faseada de fotografias de Misha Gordin, e conforme referido na altura, a continuação do mesmo, agora, com a edição de trabalhos de outros autores. Neste post, editamos o 1º grupo de fotografias da 1ª galeria por nós aberta, intitulada "Reve en bleu/Dream in Blue". Autoria: Joseph Angilella-Anquier, fotógrafo de origem francesa. Chamamos a atenção para o facto de J.A-A ser alguém que recorre ao corpo feminino para criar. Estas criações situam-se desde os domínios mais reais aos mais imaginários. Neste sentido, a visualização das fotografias implica este tipo de pressuposto. A Mulher é. A Mulher existe. A Mulher expõe-se. A Mulher comunica. A Mulher interaje. E sempre, sempre, o predomínio da linguagem corporal. Com o máximo que pode dar. Com tudo aquilo que pode tornar possível.
Mais alguns trabalhos existem para ser mostrados dentro desta temática. Ficamos, para já, com os primeiros 10.
Ei-los. Entremos no mundo do sonho:
1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10.

Para muito breve, o 2º grupo de fotografias. Aguardem!

JOSÉ LUÍS PEIXOTO
- entre mim e o meu silêncio há gritos de cores estrondosas
entre mim e o meu silêncio há gritos de cores estrondosas
e magias recortadas dos sonhos que acontecem naturalmente.
eu sou cama onde me deito, todas as noites diferente,
eu sou o sorriso estridente dos pássaros no céu todo,
eu sou o mar, o oceano velho a abrir a boca numa
gruta que assusta as crianças e os homens que conhecem
o mundo. eu sou o que não devia e rio, rio,
rio, porque sou puro, porque sou um pouco da alegria,
porque mil mãos e dez mil dedos me percorrem o corpo
e me beijam. entre mim e o meu silêncio há uma
confusão de equívocos que não entendo e não admito.
sou arrogante, porque sou do país em que inventaram
a arrogância. sou miserável. que sei eu? sou um viajante
com destino traçado, como o fumo deste cigarro que
desaparece indeciso e já esqueceu de onde veio. e rio,
rio, rio, perdido e desalmado, de dentes sujos e quase
doente, porque minha é esta esperança e esta vontade
de nascer cada manhã, em cada rosto, em cada
fósforo aceso, em cada estrela. rio, rio, rio, porque meu
é o amor e o luto e a fome e todas as coisas
que fazem esta vida que não entendo e persigo.
eu sou um homem vivo a sentir cada pedra,
eu sou um homem vivo a sentir cada montanha,
eu sou um homem vivo a sentir cada grão de areia.
desordenadamente, eu sou alguém que é eu sem o saber,
entre mim e o meu silêncio há um desentendimento
esculpido nas flores e nas nuvens, rio, rio, rio,
eu sou a vida e o sol a iluminar-me.
- como não tenho lugar no silêncio onde morrem as gaivotas
como não tenho lugar no silêncio onde morrem as gaivotas,
despeço-me no oceano e deixo que o céu me conheça.
talvez a serenidade possa ser as minhas mãos a serem uma
brisa sobre a terra e sobre a pele nua de uma mulher.
esse dia, esperança de amanhã, poderá chegar e estarei dormindo.
hoje, sou um pouco de alguma coisa, sou a água salgada
que permanece nas ondas que tudo rejeitam e expulsam
na praia. as gaivotas sobrevoam o meu corpo vivo. os meus
cabelos submersos convidam o silêncio da manhã, raios de sol atravessam
o mar tornados água luminosa. aqui, estou vivo e sou alguém
muito longe.
(Poemas extraídos da obra: A CRIANÇA EM RUÍNAS)

Do mesmo autor de “Saudades para Dona Genciana” (adaptado ao cinema por Eduardo Geada, em 1983), chega-nos agora a dramatização cinematográfica do romance de José Rodrigues Miguéis, “O Milagre segundo Salomé”. O romance, que permaneceu na gaveta até ao 25 de Abril de 1974 - foi interditado pela Censura e apreendido pela PIDE -, além de fazer uma leitura da génese e evolução dos acontecimentos de Fátima, das conexões da hierarquia religiosa com o poder político, apresenta um retrato cruel de Portugal dos inícios do século XX e da Primeira República: uma sociedade gangrenada por obscuras cumplicidades, interesses turvos, a burla do Angola e Metrópole, corrupções escandalosas, implicando membros do Governo e altos funcionários públicos, o quadro impiedoso de uma nação em derrapagem que fica enterrado na ditadura.
Título Original: “O Milagre segundo Salomé”
Realização: Mário Barroso (Portugal / França, 2003)
Produtor: Paulo Branco
Uma Produção de: Madragoa Filmes / Gemini Films / ICAM – Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia / RTP – Radiotelevisão Portuguesa / Eurimages
Intérpretes: Ana Bandeira, Nicolau Breyner, Paulo Pires, Ana Padrão e Ana Zanatti
Argumento: Carlos Saboga
Fotografia: Mario Barroso
Música: Bernardo Sassetti e Vasco Pearce de Azevedo
Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes
Género: Drama
Duração: 97 minutos
(In: http://www.estreia.online.pt)
Vi ontem o filme. Muito boa interpretação dos actores, excelente guarda-roupa, muito boas caracterizações. Exteriores bem conseguidos/enquadrados. Interiores igualmente muito bons. Quanto ao argumento, julgo que poderia ter havido uma maior exploração da História de Portugal da época, quer relativamente à situação vivida no país naquele ano (1917)- período da 1ª Guerra Mundial, na qual Portugal participou-, quer relativamente à própria questão religiosa. Por outro lado, poder-se-ia ter desenvolvido (bastante mais) a vertente do "Portugal rural" e tudo aquilo dai decorrente.
Considerando que um filme "de época" é sempre uma proposta, terei em conta as linhas que o argumentista e realizador quiseram seguir e as mensagens que pretenderam transmitir e a forma como o foram. Volto a dizer, contudo: poderia ter-se ido mais além. Uma questão de espessura do argumento.
(Opinião da blogger Sandra)
Continuando hoje a nossa "Mostra de Cartoons", trazemos mais um nome português: Pedro Alves, nascido em Lisboa no ano de 1975, desenvolvendo actualmente trabalho como freelancer.
Nos cartoons que aqui apresentamos facilmente se constatam as preocupações temáticas do autor. Mais exemplos poderiam ser aqui trazidos, de qualquer forma pelo exposto, é notória a abrangência de assuntos e aquilo que a partir dos mesmos é possível desenhar humoristicamente.
Atentemos, então, nos trabalhos que se seguem :
Política/acontecimentos nacionais
1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10.

Política/acontecimentos internacionais
1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

Para a semana há mais. Apareçam!

(Fotografia de Christian Coigny)
O dia nasce negro e o teu coração é a indicação emocional da posição do objecto solar. Agora, quando abrires a janela para respirar a primeira alimentação, podes observar um aparelho aéreo estacionado a uma distância comprometedora da tua razão.
Esta noite filtraste o essencial venenoso que conserva os teus sinais humanos. A tua posição sexual é controlada através do apetite. Nunca poderás evitar a masturbação salivar que a tua boca produz.
A festa estava perfeita para a alma. Os quadros do teu amigo artista deixavam de fora compreensíveis referências a ambientes de arte-sentimental e actos sexo-respiratórios.
Uma árvore não se ama, disse uma presença crítico-perigosa; e depositou na sala uma fumarada de palavras. Os teus pulmões accionaram a voz de alarme e o teu corpo seguiu a direcção da varanda azul. Neste espaço aéreo, encostada aos dentes de marfim do gradeamento, viste uma figura feminina que expunha o coração como um orgão genital.
A rapariga tirou o vaso com o arbusto de cima da mesa e colocou-o aos pés do seu amor.
Gostas? - perguntou-lhe.
É muito forte, disse o rapaz, prejudica-me o coração. Não estou habituado a ares tão violentos.
Hoje estás a sofrer de tristeza. É uma doença que implica com a arte da nostalgia, disse a rapariga.
Onde compraste esta árvore? - perguntou o rapaz.
Roubei-a no museu. Vou mastigar uma folha verde. A saudade tornou-se tão dependente como a droga. Os géneros alimentícios são factores decorativos. As questões de sobrevivência já não fazem sentido, disse a rapariga.
É tão ridículo falarmos sempre das mesmas coisas. O silêncio é tão perfeito que se transformou numa arte. O silêncio é muito dispendioso, disse o rapaz.
É desnecessário insistirmos no assunto.
(Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA)
[Mais um texto de um escritor que eu admiro muitíssimo e que já é um colaborador mais do que permanente neste blog. O Fernando já faz parte do Void... é uma espécie de "My Immortal". Sandra]

Disponível em DVD um outro excelente filme com realização e argumento do dinamarquês Lars von Trier. No seguimento de Dogville que aqui fiz referência, este Ondas de Paixão é mais um trabalho que confirma as imensas capacidades de Trier, incluindo estas, imensas originalidades na concepção dos seus filmes e apresentação/interpretação/movimentação das personagens que lhes dão vida.
Ondas de Paixão é um filme que vale a pena ver ou rever. Muitíssimo. Pela forma como o Amor é apresentado, pela entrega física e espirirual dos seres que se amam, pela luta individual numa relação a dois, pelo sentido posto no ultrapassar das dificuldades, pelo que existe de diálogo/relação com a divindade, pelo que cada personagem é. O Amor, a Resistência, a Entrega, a Partilha, o Desespero, a Dúvida, a Fé, a Morte, tudo está neste filme. E tudo é apresentado com uma força imensa que impossibilita uma postura calma perante o que é mostrado/visto. Mais: o espectador é levado ao máximo questionamento relativamente ao seu Ser e à(s) relação(ões) estabelecida (s) com os outros, naquela que é a multiplicidade de sentimentos, num embate constante com a Aceitação, o Querer, a Solidariedade, a Rejeição, a Incompreensão, o Preconceito, a Hipocrisia e a Exclusão.
Quanto a este filme- especificamente:
- Argumento:
"No início dos anos 70 uma rapariga ingénua, que vive numa pequena comunidade na costa noroeste da Escócia, apaixona-se por Jan, um homem mais velho que trabalha numa plataforma petrolífera.
Apesar da oposição das pessoas do meio, os dois casam-se. Jan volta ao seu trabalho na plataforma enquanto Bess conta os dias que a separam do seu regresso, convenciada de que o seu amor é abençoado por Deus. Jan, vítima de um acidente, fica paralisado. Receia então que Bess seja privada de uma vida normal. Imobilizado na cama, ele convence-a de que pode curá-lo dormindo com outros homens e relatando-lhe as suas relações sexuais."
- Conteúdo do DVD:
Filme, Capítulos, Comentários seleccionados de Lars von Trier e Anders Refn (Montagem).
- Duração:
153'
(Opinião da blogger Sandra)

(Pintura de Korneev Arkadiy)
Passei por ti na rua. Fingiste não me ver. O teu olhar seguiu as pedras da calçada como se só elas, no seu silêncio te merecessem atenção, te atraíssem, te prendessem. Deixei-te seguir o teu caminho, silenciosa, cabisbaixa, acabrunhada, virada par dentro de ti mesma, como se o mundo ao teu redor não existisse, não te interessasse, nada tivesse para te dizer. Como se apenas tu existisses na imensidão deste cosmo em que rodamos sem poder contrariar a sua velocidade e sua direcção. Não quis falar contigo naquele momento, porque sei que há momentos que precisamos estar sós para nos encontrarmos, para fazer as pazes com os nossos sentimentos que a vida perturba. Amamos, odiamos, sofremos e sentimos a nossa pequenez e nossa incapacidade de fazer com que o mundo se volte e siga o rumo que nós queríamos que ele seguisse. Não conseguimos que a nossa vontade comande o mundo. Queríamos que os outros seguissem o nosso caminho, viessem ao encontro dos nossos desejos, das nossas necessidades. Eles não vêm. Aquele que amamos ignora-nos. É cruel este mundo. Mas é assim. Esse outro que nós amamos é um ser igual a nós. Também ele não consegue mudar o mundo. Também ele ama e, talvez também não seja amado como gostaria e como tinha direito. Todos temos direito à satisfação dos nossos desejos, dos nossos sentidos, ao gozo e usufruto da beleza, da arte da música, da poesia, ao amor.
E o que fizeste tu para mudar este teu estado de sofrimento? Pensaste que não és a única?! Que também aqueles que passam por ti, mesmo aqueles que parecem ser felizes, também podem não o ser? O que fizeste para sair da tua solidão? O que fizeste para reparar, para minimizar a solidão dos outros? Ofereceste um sorriso ao teu vizinho? Telefonaste aquela tua amiga que já não vês há muito tempo? Convidaste os teus amigos, as tuas amigas para um chá, um café em tua casa ou na pastelaria onde passaram bons momentos? Lembraste-te de oferecer uma flor a quem está perto de ti.
Não!... não te lembraste disso. A tua solidão voltou os teus sentidos para dentro de ti.
Eu não quis dizer-te nada naquele momento. Digo-te agora. Os outros podem fazer alguma coisa por ti. Mas és tu....só tu... que podes fazer todo o bem por ti própria.
Sai de ti.... volta-te para o mundo, para os outros, sorri, fala, comunica, oferece, dá de ti tanto que tens para dar, e encontrarás o teu caminho, o remédio para a tua solidão.
Eu estou à espera do teu amor.
(João Norte-INTRO.VERTIDO)
Editada pela Companhia de Teatro "Artistas Unidos", com o apoio do Ministério da Cultura e do Instituto das Artes a excelente colecção "Livrinhos de Teatro", que aqui apresento.
Para quem gosta de ver e ler Teatro como eu, esta colecção é indispensável, não só porque permite reter peças já vistas com o repegar dos textos sempre que desejado, mas também porque permite ir construindo uma biblioteca de Teatro com os nomes mais representativos do Teatro/da Dramaturgia europeu/europeia (pelo menos até ao momento), mas também nacional.
Para já, a disponibilização das seguintes peças:
- De Spiro Scimone

- De António Onetti

- Dos Irmãos Presniakov

- De Jon Fosse

- De Joe Orton

- De José Maria Vieira Mendes

Entretanto, estejamos atentos ao mais que por ai vem. Quanto a estas e às próximas publicações podem ser adquiridas, actualmente, na livraria do Teatro Taborda (Lisboa), assim como nas Fnac's.
Sandra
Com a edição deste post damos por terminada a exposição de fotografias de Misha Gordin. Hoje, na galeria "The New Crowd", percorremos a secção de trabalhos situados entre 2001-2002. Quanto à(s) ideia(s) subjacente(s): a continuação do que temos vindo a apreciar.
Vejamos, então:
1.
2.
3.
4.
5.
6.
Depois desta, outras exposições de fotografias haverão aqui no Void. Aguardem que está para breve. Até lá!

(Fotografia de José Marafona)
Dentro da urna parecia dormir serenamente. Ali estava imóvel. Pareceu-me mais bela do que nunca. Pousei-lhe um beijo na testa gelada e com um gesto de desalento, coloquei a seus pés, as flores que tinha comprado ainda com tanta esperança.
Fechei os olhos e vi pontos de luz. Pequenos pontos que nos habitam quando fechamos os olhos. Pontos de luz que se aproximam e se afastam na escuridão cada vez mais negra, cada vez mais absoluta. Eu avançava naquela escuridão. Eu avançava na escuridão dela. Aquela mulher que eu amava, aquela mulher partira de dentro de mim, do lugar onde tinha estado durante muito tempo. E, nesse lugar tinha deixado um buraco negro que devorava, uma dor, um frio, uma escuridão. Agora, que eu sentia essa dor, que só via essa escuridão, nessa dor eu ouvia as palavras dela, as nossas palavras, ditas em momentos de amor. Agora fazíamos ambos parte de um infinito na escuridão. E, nesse infinito, era real cada um de nós. E as nossas palavras perdiam-se no vazio dessa escuridão.
Ouvi as palavras dela, as palavras de nós, que tinham sido ditas em momentos de amor, e senti culpa. Culpa e medo. Culpa porque fugira dela, fugira de mim, fugira do amor. O único que tivera. Medo das suas palavras doces e meigas que ressoavam na minha memória e me culpavam da sua perda, da perda do amor dela. Medo do castigo, da esperança que corria na minha frente sem se deixar alcançar. O espaço do medo infinito. O espaço da culpa era grande. Só a escuridão continuava, espessa e impenetrável.
Quis dizer-lhe tantas coisas que ficaram por dizer. Quis dizer-lhe que era mentira, que não estava ali no silêncio daquela sala de morte. Quis dizer-lhe que queria dançar com ela aquela música suave e alegre no clube da vida. Para toda a vida. Quis dizer que não haveria mais música sem a sua presença. Quis dizer-lhe que o gerente tinha fechado o clube.
Quis dizer-lhe a dor que sentia dentro de mim, que a sua imagem caminhava dentro de mim. O silêncio daquele lugar onde dormia o sono da morte caminhava dentro de mim. Tudo o que tinha estado antes daquele lugar avançava dentro de mim. A luz as sombras, os sons e os silêncios avançavam dentro de mim como facas cortantes. Quis dizer que errei, que fracassei. Quis dizer-lhe que também estava morto.
Recostei a cabeça e quis descansar da exaustão. Eu via uma estrada negra por onde ela caminhava e eu caminhava também nessa estrada negra. A sua beleza afastava-se. Devagar, muito devagar, para longe, para muito longe, até desaparecer sem lhe poder tocar.
(João Norte- INTRO.VERTIDO)
[No acompanhamento deste texto, mais um excelente trabalho fotográfico do amigo José Marafona. Um abraço para ele. Sandra]
Continuamos, hoje, o percurso iniciado na galeria "The New Crowd", agora, na secção com trabalhos situados entre 1999-2000.
Atentemos neles:
1.
2.

3.
4.

5.
6.
7.

8.

9.

Percurso seguinte: fotografias tiradas nos anos 2001-2002.

Pois é, o DVD está quase ai!
Para os apreciadores de desenhos animados, no geral, e de desenhos animados digitais, em particular, ai está para poder ver em casa, uma história muito colorida e com mensagens que têm interesse reter, assimilando-se ou sublinhando-se de forma diferenciada.
Não vou adiantar aqui a história, até para não tirar a graça junto daqueles que não a conhecem, nem viram o filme no cinema. Digo só que, nas tais mensagens que falei, temos ideias relativas:
- à protecção dos oceanos
- ao conflito de gerações
- à sobreprotecção exercida por alguns pais
- à necessidade que os filhos têm do acompanhamento dos pais, independentemente da construção progressiva da sua autonomia.

Como será fácil de perceber, eu vou comprar o DVD e deliciar-me com personagens como Marlin, Dory, Moonfish, Coral, Peach, Crush, Gill, Nigel, Anchor e claro, Nemo. Por outro lado não poderei deixar de fazer constar na minha "DVDteca" um filme que é um marco no crescente mundo da animação digital.
Para quem gostar... acompanhe-me numa descida às profundezas dos mares e às aventuras nelas proporcionadas. Venham...
Sandra

(Fotografia de José Marafona)
Não existe uma verdade sobre mim próprio. A verdade é uma dor. Não me posso comparar a essa pureza, sentir a vida sem reclamar, permanecer intocável por essa luz que só diz a verdade. Construí a minha vida num campo minado de pequenas mentiras. Talvez fossem breves existências de alguém perto dos meus dias a contarem-me histórias cheias de erros. A verdade é que eu as oiço, como um vento que leva o lixo pelas ruas. A verdade é que eu entrego o meu pensamento a essas histórias de pessoas falsas. A mentira é o meu teatro. É uma ficção da própria vida. Nunca gostei de inventar histórias. Inventar a partir dos outros, sim. Escrever uma ameaça de medo sobre alguém que nos confronta. Ouvir dizer uma palavra que só pode ter nascido dum sentimento de fúria. Eu tenho um amigo que só diz mentiras. Não são mentiras comuns, habituadas a morrer no dia que passa. São mentiras verdadeiras de alguém a sofrer por uma verdade. A sua própria verdade. Eu achava estranho que o meu amigo se servisse dessas mentiras para me iludir no cenário verdadeiro das suas convicções. Mas foi o que aconteceu. E a verdade dele era tão importante para a sua vida, que ele insistia obsessivamente nas suas ideias irremediavelmente falsificadas. Os verdadeiros são pessoas construtivas com base nas mentiras do mundo em que vivem. Vejo por mim: escrever é mentir dentro da verdade. Estava um dia de sol. Falava-se de mentiras num assunto para acabar com todas as coisas verdadeiras. E depois ele foi buscar a vida para se sentir revoltado em face do silêncio que eu utilizava para defender a verdade. Nunca a minha verdade, mas a verdade do meu amigo que desesperava numa teia de mentiras.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
[Mais um excelente texto do autor. Inequivocamente. Um agradecimento especial também ao fotógrafo. Sandra]

(Fotografia de Bruno Espadana)
Odeio-te porque não me amas. Embora julgues o contrário. O contrário de tudo. Julgas que te amo só porque me deito contigo. És cega. Não distingues amor de desejo. Sim, eu desejo-te. Desejo-te porque te amei. Amei-te e criei em mim a ilusão que podia criar em ti o amor como se o amor se plantasse como quem planta legumes ou flores, as rega e as vê crescer. O amor não é uma planta, é um sentimento. Agora eu compreendo que em ti não há sequer sentimentos. O único sentimento que se podia dizer que possuis é da posse, mas isso não é um sentimento é um “ismo” uma força bruta que te arrasta e te faz arrastar os outros que queres possuir e chegas a confundir isso com amor. Também eu confundi. Confundi a realidade com os meus desejos. Eu queria amar-te e ser por ti amado. Queria sentir a tua presença mesmo na tua ausência. Queria que estivesses dentro de mim e que nada conseguisse expulsar-te. Que fizesses parte de todos os meus actos, de todas as minhas decisões, de todos os meus movimentos, como se fosse a tua inteligência a decidir com a minha numa só. Queria sentir o teu cheiro e o teu corpo em tudo o que tocasse, como se, na ponta dos meus dedos, estivesse sempre o veludo da tua pele.
Odeio-te pelo sangue das feridas que deixaste abertas e que eu lambo para te sentir. E não consigo expulsar-te porque enquanto as feridas sangram tu estás presente, sinto a dor como se te sentisse. Elas são o teu rasto, a tua obra, o sinal da tua presença, a tua modificação do meu sentir, do meu ser. Um ser que se acomodou à ilusão de te amar e se confunde como tu te confundiste. Odeio-te pela tua ausência, em cada recanto da casa, no frio dos lençóis, na mesa que não enfeitas. Odeio-te na pessoa da florista a quem já não compro flores, porque não há ninguém a quem as oferecer. Odeio-te na figura das outras que se parecem contigo. Odeio-te nos cigarros que fumo para matar o tempo infinito em que não existes, e não sei se são os cigarros que me vão matando se é a tua lembrança. Odeio o cheiro do perfume que te ofereci e que nunca desapareceu deste quarto onde os nossos corpos se abraçavam, se comprimiam, se misturavam, no tempo em que ambos julgávamos que o sexo era amor. Odeio lembrar-me de ti e não conseguir esquecer-te. Odeio esta necessidade do teu sexo esperando por mim.
Odeio-te porque talvez ainda te ame!
(João Norte- INTRO.VERTIDO)
Mais uma galeria, mais um percurso. Temos, desta feita, um conjunto de trabalhos datados entre 1996-1998. Tema enquadrador: "The New Crowd".
Novamente: os conjuntos, as repetições, o humano multiplicado.
Em particular: a amálgama, a mistura, a fusão.
A registar: o espreitar da diferença ou do que/quem quer ser diferente.
Mais uma vez: os conceitos, as ideias, o substracto possível para extrapolar.
E a cor... e a forma... e o desdobramento de si.
Caminhemos:
1.

2.

3.
4.

5.

6.

7.

8.

9.

Nesta mesma galeria, uma outra secção: fotografias dos anos 1999-2000. Para breve!

(Fotografia de Paulo Oliveira)
Não quero o teu silêncio. O teu silêncio é opressor dos nossos sentimentos. Quero que grites. Quando nos amamos não gritas. És egoísta. Guardas para ti aquilo que sentes ou não sentes nada. Eu quero partilhar aquilo que sentes. Tu não fazes amor comigo. Tu fodes em silêncio como se foder fosse uma obrigação, um acto banal, comezinho sem interesse e sem entusiasmo. Como uma refeição sem fome e sem tempero, em qualquer dia banal da vida quotidiana. O teu orgasmo é apenas físico, mera explosão de energia, mudo, contido, sem som, nem expressão do teu rosto. Fodes sem raiva, cada vez com menos raiva. Eu não quero foder sem amor nem raiva. Não quero ser passiva, abrindo as pernas como quem abre gavetas e se deixa encher das tuas vaidades imundas. Quero esse acto como acto de amor partilhado. Quero gritar bem alto o prazer e a dor, para que o prazer e a dor penetrem nas minhas veias, no meu inconsciente, no fundo do meu passado. Quero que o teu grito fique indelével, gravado na minha memória, percorra as minhas veias como o sangue que me alimenta. Não quero que o teu grito se perca no vazio do espaço silencioso, na penumbra das noites sem história, no fundo perdido da nossa memória. Quero que os nossos gritos de amor façam calar o ruído do mar, o uivo do vento que sopra nos montes gelados do inverno do nosso viver, o grito dos fantasmas que me atormentam. Que se calem os tambores, as flautas dos poetas falhados. Quero que este grito passe de geração em geração. Se transmita no meu sangue como o pecado que herdam todos os amantes.
(João Norte- INTRO.VERTIDO)
[Com este texto iniciamos a apresentação semanal de trabalhos do João. Para o autor: um beijo grande e um... "Até ao Alandroal". Sandra]

A violência familiar é, muito para lá da problemática social que impera com assiduidade na vida quotidiana, um escondido fantasma permanentemente oculto e espreitador nos mais recônditos vincos da alma e da consciência do homem. Os exemplos disso abundam tanto na realidade como na ficção, e a realizadora Iciar Bollain, uma cineasta tão hábil como sensível, inseriu o seu filosófico bisturi numa relação matrimonial que, a partir do amor e da desgastada convivência, se transforma num inferno que assesta com duras pancadas a vida de Pilar, uma mulher submissa e mãe dum rapazinho que observa com olhos lastimosos as brigas dos seus pais.
Apesar dos golpes e das humilhações que tem de suportar do seu marido, Pilar continua a acreditar na perenidade da paixão que a uniu a Antonio, esse homem ciumento e brutal a quem a realidade não consegue apaziguar a sua consciência alterada. As pequenas luzes de esperança dela estão centradas num futuro distinto, na sua atracção pelas obras de arte e no seu filho sempre disposto ao silêncio e à reunião. O início da história, quando Pilar decide, cansada e humilhada, deixar o seu lar para se estabelecer em casa da sua irmã, é também o início do seu dilacerante caminho para o abismo. A partir daí, intui-se à perfeição a dramática senda de que Pilar tem fugido sem necessidade de que as imagens ocasionem gratuitos elementos melodramáticos.
A realizadora, sem dúvida especialista em evitar desnecessários maniqueísmos e em cair em tragédias exacerbadas, consegue compor, com Alicia Luna, um argumento pleno de sugestão e de poéticas pinceladas de humor e dor. A atracção da história não necessita do apoio duma violência demasiado explícita nem se deixa cair em diálogos sentenciosos nem em situações altissonantes. Tudo se dá aqui para que o espectador reflicta acerca duma problemática, sempre muito mais sugerida que vista, duns personagens que encerram o amor e o ódio na mesma pequena caixa dos seus corações.
“Dou-te os Meus Olhos”, pois, afronta com valentia situações lamentavelmente quotidianas não desde a abstracção ou a generalização, mas desde a exposição dum caso concreto que, entre contradições e incoerências, vai discorrendo os negros cortinados da vítima e do agressor sem cair nunca na ambiguidade moral. O relato entronca-se fundamentalmente com o amor, com esse amor que todo o homem ou mulher pressente como perfeito e perene, mas que esconde, às vezes, as angústias daqueles que o padecem entre o martírio e o perdão.
Iciar Bollain, que já havia entrado nesta temática na sua curta-metragem “Amores que matan”, rodada em 2000, arrisca em “Dou-te os Meus Olhos” um porfiado inconformismo que o leva a aproximar-se a uma perspicácia quase documental através duma visão integradora e aberta a uma história que vai ganhando em tensão e atenção. Para isso teve também um excelente aporte nas interpretações de Laia Marull, notável na sua Pilar contida e sempre disposta à generosidade e à dor, e de Luis Tosar, um actor que compôs o seu personagem desde o mais fundo da sua encarnação. O resto do elenco demonstra, também, uma enorme e cálida força expressiva, tanto que a fotografia, que recria com talento tanto o dramatismo da acção como os exteriores de Toledo, e a música, de pausados acordes, fazem de “Dou-te os Meus Olhos”, que não por acaso ganhou o prémio Goya, um filme imperdível que pode magoar, mas, fundamentalmente, que obriga a relembrar.
Título Original: “Te Doy Mis Ojos”
Realização de: Icíar Bollaín (Espanha, 2003)
Produtor: Santiago García de Leániz
Uma Produção de Alta Producción S.L. / Producciones La Iguana S.L.
Intérpretes: Laia Marull, Luis Tosar, Candela Peña, Rosa María Sarda, Kiti Manver, Sergi Calleja, Nicolás Fernández Luna, Elisabet Gelabert, Chus Gutiérrez e Elena Irureta
Argumento: Icíar Bollaín e Alicia Luna
Fotografia: Carles Gusi
Música: Alberto Iglesias
Distribuição: Alta Producción S.L.
Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes
Género: Drama / Romance
Duração: 109 minutos
(In: http://www.estreia.online.pt)
Convidei a minha mãe para ver este filme comigo. Aconteceu ontem. Conversámos depois sobre o seu conteúdo. Apesar da nossa diferença de idade não ser muito grande, somos duas mulheres de gerações diferentes. Felizmente, sobre esta problemática- violência doméstica-, temos opiniões idênticas. Sentimo-nos incomodadas com o que vimos e evidentemente que não pudemos deixar de lamentar o verdadeiro terror em que tantas mulheres ainda hoje vivem e que se prolonga, em alguns casos, por anos e anos destruindo-as e anulando-as como seres humanos. Evidentemente que não pudemos deixar de considerar, também, o tipo de sociedade em que vivemos e o que pode proporcionar para que tais situações aconteçam ou que tragédias com estas não sejam minoradas.
Um filme imperdível. Um filme para reflectirmos bastante: sobre o que somos e sobre o que queremos ser.
Sandra