maio 31, 2004

MOSTRA DE CARTOONS: SERGEI

Iniciamos com este post uma Mostra de Cartoons que irá ter lugar, aqui no Void, durante as próximas semanas. Serão apresentados alguns trabalhos de cartonistas nacionais e estrangeiros, no sentido de valorizar uma área de trabalho, de tratamento e exploração da realidade ainda não suficientemente conhecida em Portugal (particularmente, para além de um público específico).
Os cartoons que se seguem são da autoria de Sergei, pseudónimo de Paulo Teixeira.
Relativamente ao autor: nasceu em 1970, sendo actualmente criativo numa agência de publicidade em Lisboa.
Alguns exemplos do seu trabalho:

1. O buraco

2. "Estou pronto!"

3. O santo

4. De perder a cabeça

5. Clones

6. O blog

7. Ossos do ofício

8. Se beber não voe


Esta Mostra de Cartoons terá continuação todas as Segundas-feiras. Até para a semana!

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maio 30, 2004

DOGVILLE

Menos de um ano depois de estar em exibição nas salas de cinema, agora também em DVD:

Escrito e realizado por Lars von Trier e contando com uma excelente (também porque diferente) interpretação de Nicole Kidman, um filme que nos coloca, com imenso realismo e crueza, perante a hipocrisia e falsidade a que pode chegar o Ser Humano.
Defendendo eu que o Homem não é bom por natureza (e aqui distingo-me de Rousseau), em Dogville (espaço onde vive um conjunto de pessoas) isso é claramente notório no tipo de relações desenvolvidas entre quem está e quem chega/permanece, num contexto determinado.
A ebulição de sentimentos, os interesses em causa e em jogo, os receios/medos, as fragilidades, as cegueiras e as frustrações individuais são trazidas à cena, sempre, de forma problematizante, levando-nos por isso a um questionar permanente em frente ao ecrã.

Em termos de concepção: um filme muito bem conseguido. Originalidade e arrojo são uma evidência. A harmonia conseguida entre um cenário de Teatro e a concretização/desenvolvimento/forma de comunicação das personagens como no Cinema, é uma realidade.
Uma imensa inteligência em tudo o que é feito e apresentado. Uma brilhante execução no retratar de vidas e relações humanas.

- Argumento:

"Em fuga de um grupo de gangsters, a bela Grace chega à isolada povoação de Dogville. Com a ajuda de Tom, o auto-nomeado porta-voz da aldeia, a pequena comunidade decide esconder Grace e, em troca, ela aceita trabalhar para eles. No início ninguém lhe dá trabalho e a sua estadia fica posta em causa, mas depois começam a aparecer pequenos serviços.
Contudo, quando a população sabe que Grace é procurada, apercebe-se da importância da pessoa que escondem e exige um acordo mais rentável. Grace vai então descobrir da pior forma quão relativo é o conceito de bondade em Dogville. Mas ela também esconde um segredo muito perigoso que fará Dogville arrepender-se das suas exigências"
.

- Duração: 199'

- DVD:

Entrevistas com Nicole Kidman e Lars von Trier (entre outros). Ainda: depoimentos dos actores durante a rodagem.


(Opinião expressa: da blogger Sandra)

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MISHA GORDIN: DOUBT

Eis-nos, agora, na galeria seguinte das fotografias de Misha Gordin. Situamo-nos, em termos de período de trabalho desenvolvido, nos anos de 1994-1995. A grande temática envolvente de tudo o que é apresentado: "Doubt".
Façamos o percurso:

1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10.

11.


Próxima galeria: "The New Crowd", subdividida em 3 secções: anos 1996-1998, 1999-2000 e 2001-2002.

Publicado por void em 07:38 AM | Comentários (2) | TrackBack

maio 29, 2004

MENTIROSOS


(Fotografia de Bruno Espadana)

e depois o homem entrou no meu quarto e disse-me: queres mexer? e mostrou uma mão cheia de dinheiro a ranger de ódio na minha inocência. eu queria o dinheiro. eu desejava que o homem explodisse com a força da minha vergonha. queres mexer-me no sexo? eu não digo a ninguém. podes fechar os olhos, se quiseres. podes beijá-lo, se queres. não havia ninguém. eu ia dormir no quarto. os pais dormiam. o homem estava acordado e tinha bebido. estava nu e sujo de sexo. tinha-se masturbado. estava sujo e a pingar. podes ter este dinheiro todo. posso ter este ódio todo. a minha vida estava amordaçada naquelas palavras. fazer o homem feliz. fazê-lo vir-se na minha mão. eu estava sentada na cama. tinha medo da cama. o sono era um medo a lutar comigo na minha mente. pedi ajuda ao silêncio. silêncio toma conta de mim. protege-me de ouvir mais uma palavra. o homem não parava de falar. sexo mão boca tesão beijo. o quarto andava à roda das pessoas que dormiam. as portas eram paredes negras e fechadas pelas palavras. o dinheiro é teu. guarda-o. mexe no meu sexo. e depois o silêncio eram palavras apagadas pelo meu pensamento. o homem não podia estar ali a insistir num desejo só para ele. já não gosto das pessoas. o homem fez-me não gostar de ser desejada. não quero que digam amo-te. mentirosos. eu olhei aquele sexo sujo e insistente durante muito tempo. toda a vida o mesmo sexo a pedir para ser tocado. friccionado. estimulado. eu podia tê-lo beijado. talvez o mundo não soubesse. talvez eu aceitasse o dinheiro com prazer. eu e o homem no quarto escuro. não digas a ninguém. mas o silêncio conhece esta história. eu disse que sim com o silêncio dos meus olhos. não conto a ninguém. nem aos pais que dormem num tempo separado do meu.

(Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA)


Publicado por void em 05:21 PM | Comentários (0) | TrackBack

MISHA GORDIN: CROWD

Entremos, pois, na segunda galeria onde estão expostos os trabalhos de Misha Gordin. Desta vez, fotografias situadas temporalmente entre 1987 e 1991. "Crowd" remete-nos para as ideias de repetição, conjunto, aglomerado, humanos equivalentes no ser, no estar e no fazer. Remete-nos para a cor e a forma multiplicadas várias vezes.
Olhemos e vejamos:

1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.


Próxima galeria: "Doubt"- fotografias situadas entre 1994-1995.

Publicado por void em 08:03 AM | Comentários (1) | TrackBack

maio 28, 2004

THE DAY AFTER TOMORROW

A ver e a perceber paralelamente aos efeitos especiais:

- GLOBALMENTE

. a intervenção do filme-catástrofe no todo dos EUA, nomeadamente no pós-11 de Setembro

. o assumir do envolvimento na reflexão/debate em torno das problemáticas ambientais.

- ESPECIFICAMENTE:

. o imperativo de ver as relações mundiais de forma contrária, em particular com o pedido de ajuda dos EUA aos vizinhos pobres do sul

. o registo de um Poder que não sabe ouvir, embrenhado que está em interesses de outra ordem (lembremos, por exemplo, a administração Bush que se recusou/recusa a assinar a Convenção de Quioto)

. o congelamanto de parte de um mundo onde se concentra a riqueza e que em função da mesma condiciona, em muito, o destino da outra parte

. a revolta (ou vingança) de um mundo natural de quem dele abusou, destruindo-o ou desequilibrando-o ao nível dos mais variados recursos.

A registar

Os efeitos especiais não visam a mera espectacularidade, antes a transmissão de mensagens. Cada caso procura fazer-nos reflectir sobre algo, do qual, não nos devemos eximir: porque não somos (ou não devemos ser) meros espectadores, porque somos habitantes deste planeta, porque a passividade ou inércia mental mata, mumifica... congela.

Publicado por void em 07:37 PM | Comentários (0) | TrackBack

OS INOCENTES


(Fotografia de Bruno Espadana)

Detesto a inocência. A inocência fingida. Odeio todos aqueles que se resguardam na inocência para poupar a tristeza dos outros. Detesto-te quando queres fugir ao julgamento de tudo o que sentem por ti. Nunca estamos sós. Pensa nisso, nunca estamos a sós com a nossa vida. Existem sempre os outros, o sentimento deles a construir vedações à volta do que sentimos também por eles. Há uma troca de vidas, palavras que não são margens nem são pontes; palavras que são tudo o que nos resta para morrermos. Lê o que eu escrevo. Não sei onde vou buscar tudo isto, não sei. E se eu te disser que o sofrimento é uma atracção daqueles seres profundos onde não os atingimos nem a gritar? Temo que sejas uma criatura assim. Alimentas-te do teu próprio eco. Muitas vezes agi de cabeça quente de criança a desmontar peças existenciais porque não sei onde começa o humano e acaba a monstruosidade do que sinto pelo mundo das pessoas. Não acredito em inocências. Não há farsa maior e bem construída que os sentimentos que se ocultam numa verdade inocentemente fingida. Se eu te dissesse tudo o que sinto, tudo a respeito da tua inocência, teria de me destruir para dar um sentido à minha honestidade. Os humanos vivem no subconsciente das suas próprias verdades, e tudo o que expõem de positivo são ruínas que se erguem debaixo dos nossos dias.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)


Publicado por void em 05:45 PM | Comentários (4) | TrackBack

"ESTOU CANSADA DA VIDA, A MINHA MENTE QUER MORRER"


(Sarah Kane)

[1º registo]

- Fizeste planos?
- Tomar comprimidos, cortar os pulsos, depois enforcar-me.
- Tudo ao mesmo tempo?
- De certeza que não podia ser reconstituído como um grito de ajuda.

(Silêncio.)

- Não ia resultar.
- Claro que ia.
- Não ia resultar. Sentias-te sonolenta dos comprimidos e não tinhas energia para cortar os pulsos.

(Silêncio.)

- Se ficares sozinha achas que podes fazer mal a ti própria?
- Acho que sim e isso assusta-me.
- Pode ser uma espécie de protecção?
- Sim. É o medo que me afasta da linha do comboio. Só espero, por amor de Deus, que a morte seja a merda do fim. Sinto-me com oitenta anos. Estou cansada da vida, a minha mente quer morrer.
- Isso é uma metáfora, não a realidade.
- É um símile.
- Não é a realidade.
- Não é uma metáfora, é um símile, mas mesmo que fosse, aquilo que define uma metáfora é ela ser real.

(Um longo silêncio.)

- Não tens oitenta anos.

(Silêncio.)

- Tens?

(Um silêncio.)

Ou tens?

(Um longo silêncio.)

- Desprezas todas as pessoas infelizes ou sou só eu em particular?
- Não te desprezo. A culpa não é tua. Tu estás doente.
- Não acho.
- Não?
- Não. Estou deprimida. A depressão é ira. Foi o que tu fizeste, quem lá estava e quem culpas.
- Quem é que tu estás a culpar?
- A mim.

[2º registo]

- Epá, o que é que te aconteceu ao braço?
- Cortei-o.
- Isso é para chamar a atenção, que coisa tão infantil. Aliviou-te?
- Não.
- Aliviou-te?

(Silêncio.)

Aliviou-te?
- Não.
- Não percebo por que é que fizeste isso?
- Então pergunta.
- Aliviou a tensão?

(Um longo silêncio.)

Posso ver?
- Não.
- Gostava de ver, para ver se está infectado.
- Não.

(Silêncio.)

- Sabia que podias fazer isso. Há muitas pessoas que fazem. Alivia a tensão.
- Já alguma vez fizeste?
- ...
- Não. És sensível e são demais merda. Não sei onde é que tu leste isso, mas não alivia a tensão.

(Silêncio.)

Por que é que não me perguntas porquê?
Por que é que eu cortei o braço?
- Queres dizer-me?
- Quero.
- Então diz-me.
- PERGUNTA.
ME.
PORQUÊ.

(Um longo silêncio.)

- Por que é que cortaste o braço?
- Porque me sinto muito bem merda. Porque me sinto fantástica merda.
- Posso ver?
- Podes ver. Mas não toques.
- (Olha) Achas que estás doente?
- Não.
- Eu acho. A culpa não é tua. Mas tens de responsabilizar-te pelas tuas acções. Por favor não voltes a fazê-lo.

[3º registo]

Vim ter contigo à espera de ser curada.

És o meu médico, o meu salvador, o meu juiz omnipotente, o meu padre, o meu deus, o cirurgião da minha alma.

E sou tua partidária na sanidade.
---------
para atingir objectivos e ambições
para superar obstáculos e atingir altos padrões
para aumentar a auto-avaliação pelo bem sucedido
exercício do talento
para superar a oposição
para ter controlo e influência sobre os outros
para me defender
para defender o meu espaço psicológico
para justificar o ego
para receber atenção
para ser vista e ouvida
para excitar, surpreender, fascinar, chocar, intrigar,
divertir, entreter ou atrair os outros
para estar livre de restrições sociais
para resistir à coacção e à constrição
para ser independente e agir de acordo com o desejo
para desafiar a convenção
para evitar a dor
para evitar a vergonha
para apagar as humilhações passadas recapitulando as
acções
para manter o auto-respeito
para reprimir o medo
para superar a fraqueza
para pertencer
para ser aceite
para nos aproximarmos e nos relacionarmos agradavelmente
com o outro
para conversar de maneira amigável, para contar histórias,
trocar sentimentos, ideias segredos
para comunicar, para conversar
para rir e contar piadas
para conquistar a afeição do Outro desejado
para aderir e mantermo-nos fiéis ao Outro
para gozarmos experiências sensuais com o Outro
projectado
para alimentar, ajudar, proteger, confortar, consolar,
apoiar, cuidar ou curar
para ser alimentada, ajudada, protegida, confortada,
consolada, apoiada, cuidada ou curada
para construir uma relação agradável, durável, cooperante e recíproca com o Outro, com um ideal
para ser perdoada
para ser amada
para ser livre

(Sarah Kane- 4:48 PSICOSE)

[Os "registos" apresentados são da nossa responsabilidade, para efeitos de exposição dos excertos da peça de Sarah Kane.]

Publicado por void em 06:44 AM | Comentários (4) | TrackBack

maio 27, 2004

MISHA GORDIN: Shadows of the Dream

Nesta primeira Galeria de apresentação de trabalhos de Misha Gordin, intitulada "Shadows of the Dream", editamos (alguns) daqueles situados temporalmente entre 1972 e 1983:

1. Confession

2. Inspiration in Black

3. Saturation

4. Renunciation

5. The Mole

6. Prophesy

7. The Liquid Shadow

8. Echo

9. The Fifth Column

10.

Sieg

Mental Door

11. Prisoner of Memory


Próxima galeria: "Crowd"- trabalhos situados entre 1987 e 1991.

Publicado por void em 07:06 AM | Comentários (7) | TrackBack

maio 26, 2004

SEQUÊNCIAS

Insonia

Ouço a sua respiração já distante da realidade.
Tem pequenas convulsões como se fizesse um movimento ao qual o corpo não conseguisse corresponder.
Continuo a escutar o silêncio dos adormecidos e a insónia da apaixonada noite. Solitária dos condenados, a insonolência dos pensamentos imortais enlouquece qualquer um.
Já te aconteceu ficares acordado a pensar que deverias dormir e não o fazes?

Espero

Não quero viver no medo.
Dói ler-te no medo do sangue a espalhar-se, o medo do silêncio reinar sobre nós.
O vidro enevoado onde as palavras se embaciam nos gritos da escrita. Vem resgatar-me às sombras emudecidas da morte, os pensamentos funestos da loucura.
O abismo vazio do meu corpo afogando-se no teu.
Espero.

Abrigo

Respiro contra as marés da solidão. Receio estes sentimentos incompletamente sentidos, estas palavras que soam distantes da realidade.
Se escreveres sorrisos, estarei mais perto de chorar.
Os sussurros da casa indefesa de nosso abrigo.

(Textos da autoria de uma das bloggers do Void. Editados, também, em Memória Futura. Fotografias de José Marafona. A ele, um agradecimento especial.)

Publicado por void em 06:24 AM | Comentários (1) | TrackBack

maio 25, 2004

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA: MISHA GORDIN (1)

Misha Gordin:

«Em vez de fotografar realidades existentes, decidi fotografar as minhas próprias realidades imaginárias. Comecei a fotografar conceitos.

O processo é semelhante à encenação de uma peça de teatro. Começa com uma ideia (argumento) e depois é preciso encontrar o local (palco) e os modelos (actores) apropriados; há que tomar decisões quanto à iluminação e ao guarda-roupa, tirar fotografias preliminares (ensaios) antes do dia da verdadeira sessão fotográfica (a noite de estreia).

Tem muitas semelhanças não só com o teatro, mas também com o cinema, a poesia, a pintura, a escultura e a música. Todos começam por um conceito e depois seguem-se o guião ou a composição, os esboços, as afinações... E todos reflectem possíveis respostas às maiores questões que se colocam a alguém: nascimento, vida e morte.

Mas a fotografia tem uma vantagem: a sua verosimilhança. Nós temos uma tendência subconsciente para acreditar que aquilo que vemos fotografado tem de existir.»

(Depoimento do fotógrafo in: Periférica, Verão 2003)

Misha Gordin nasceu em 1946 em Riga (Letónia). Em 1974 fugiu para os EUA, onde vive.

Com este post chamamos a atenção para uma exposição de trabalhos do autor (necessariamente seleccionados) que iremos apresentar. Até lá, a interiorização daquela que é sua ideia sobre o trabalho fotográfico desenvolvido.

Publicado por void em 12:27 PM | Comentários (4) | TrackBack

O HOMEM QUE SABIA DEMAIS

A PIOR BANDA DO MUNDO, de José Carlos Fernandes

Filosofia + Literatura = BD?

José Carlos Fernandes é o caso mais sério da BD nacional. Tendo começado algo tardiamente, tem uma produção já vasta, fruto de uma capacidade de trabalho incomum. A sua obra mais aclamada é A Pior Banda do Mundo, série de rara perspicácia e de uma ironia quase cruel, em que referências literárias e filosóficas se conjugam de forma estranhamente harmoniosa com a narrativa gráfica. Publicada simultaneamente em Portugal, Espanha e Brasil (coisa única num autor português), está prevista a expansão a outros mercados (o que, se não é único, é raro). Em 2002 o primeiro volume d' A Pior Banda, com o título O Quiosque da Utopia, foi considerado o melhor álbum do ano no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora; no ano seguinte, igual distinção para O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante, segundo volume da série. Entretanto saiu As Ruínas de Babel. Quanto ao quarto, A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto (de onde foi retirada a história "A Insuspeitada Beleza do Teorema de Tutte", pré-publicada ao virar desta página [não disponível na edição online]), tem lançamento previsto para os próximos dias. FG

(In: Periférica, Primavera 2004)

Publicado por void em 12:13 PM | Comentários (0) | TrackBack

GARNER, NC


(Fotografia de João Redondo)

suponhamos que ele tem 30 e ela 17
música de tom jones os dois dançando muito juntos
no centro da pista suponhamos que decidem

que ela se entrega no wc dos homens

que passam três dias e três noites fechados
no holly day inn casa-de-banho piscina vistas para a estrada
que ele é um maníaco que ela faz coisas em frente a uma handycam sony de 8mm
coisas que ao princípio doem e depois doem mais

que acorda na valeta da nacional 95
aturdida pelo efeito dos soníferos quase nua
como os filhos do mar

e que espera o autocarro nalgum ponto do mapa depois de caminhar toda a
noite com os sapatos brancos na mão encadeada pelos faróis de todos
os camionistas

(Pablo García Casado- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004)

Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (1) | TrackBack

DESENCONTROS


(Kafka)

Na verdade tinhas tantas vezes razão contra mim que era surpreendente; nada mais natural quando isso se passava em palavras, porque raras vezes íamos até à conversação, mas tinhas razão até nos factos. Contudo, não havia, também neste caso, nada de especialmente incompreensível: estava pesadamente comprimido por ti em tudo o que se referia ao meu pensamento, mesmo e sobretudo onde ele não se ajustava ao teu. O teu juízo negativo pesava desde início sobre todas as minhas ideias independentes de ti na aparência; era quase impossível suportá-lo até ao remate total e duradouro da ideia. Aqui, não falo de não sei que ideias superiores, mas de pequenos casos infantis, seja ele qual for. Bastava simplesmente estar feliz a propósito de coisa qualquer, de estar pleno, de voltar para casa e dizê-lo, e recebia-se à guisa de resposta um sorriso irónico, um maneio de cabeça, um bater de dedos em cima da mesa (...). Não será necessário dizer que não te podíamos pedir entusiasmo por cada uma das nossas bagatelas infantis, enquanto estavas mergulhado em preocupações e desgostos. Aliás não se tratava disso. O importante é antes que, em virtude da tua natureza oposta à minha, e por princípio, eras sempre levado a preparar decepções deste género à criança, que a oposição se agravava constantemente graças à acumulação do material, que se manifestava por hábito, mesmo quando eras por acaso da minha opinião e que a tua pessoa fazia autoridade em tudo, as decepções da criança não eram decepções da vida corrente, mas iam direitas ao coração. A coragem, o espírito de decisão, a confiança, a alegria de fazer tal ou tal coisa não podiam ir até ao fim quando te opunhas ou até quando se podia suspeitar da tua hostilidade: e esta suposição, podia tê-la a propósito de quase tudo o que eu empreendia.
Isso aplicava-se tanto às ideias como às pessoas. Bastava-te que alguém me inspirasse algum interesse (...) para intervires brutalmente pela injúria, a calúnia, as falas aviltantes, sem a menor consideração pela minha afeição e sem respeito pelo meu juízo. Seres inocentes e infantis foram obrigados a padecer.

(Kafka- CARTA AO PAI)

Publicado por void em 06:31 AM | Comentários (0) | TrackBack

maio 24, 2004

VÉNUS


(Pintura de Fernando Esteves Pinto)

Um grande beijo para o autor, também escritor. Um homem das artes.

Publicado por void em 03:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

SUSSURRAR

de fora. quero ficar de fora para o vento. libertar-me das amarras do controlo e voar sobre o impacto de gritar.
gritar.
gritar.
não controlo este sentimento.
consegues mitigar a dor da petrificação sobre as palavras mal vividas?
hoje quero prantear a tua demora, a tua opacidade, a putrefacção da realidade dentro das coisas palpáveis, teclados de sonhos em visões desesperadas de desejo, muito além dos trocadilhos amorosos. lês-me e desenterras, sulcas e afogas-te entre rios de amarguras, ódios disfarçados em velhos espelhos partidos que cortam, oscilando pelo sangue enxuto e o sangue imaculado, fresco que pulsa, esperando, procurando, descobrindo, atentando.
o perigo está nos dias da loucura, nos versos de esperanças que vergastam o tempo e incendeiam as estreitas ligações de sanidade temporária, pois que não é esse verbo de negação que acompanha a minhas acções no dia-a-dia da coerente ausência?
perco-me na infelicidade feliz por quem, cujos braços se estendem ao mundo, tão distantes de alguma vez alcançarem esta cova de suspiros abandonados.
sussurra outra vez o amor a encostar-se à pele, as labaredas a incutirem-se pelos lábios salgados do gemido abafado, diz-me novamente os cabelos a soltarem-se pelo soalho despido, os tecidos a fugirem da carne efervescente enquanto as curvas se esculpem nos dedos de escritor. toca-me as sonatas de pintor, escreve-me nos quadros de acrílico e esvazia-me no barro que escorre pela tua sombra. deixa a respiração ecoar pela realidade perturbante. deixa os gritos acharem-se em gemidos silenciosos. deixa o momento sonhar-nos.

(Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura).

Publicado por void em 08:48 AM | Comentários (2) | TrackBack

O HOMEM: SEMPRE DESCONHECIDO


(Fotografia de Alberto Monteiro)

É provavelmente verdade que um homem nos fica sempre desconhecido, e que nele sempre subsiste qualquer coisa de irredutível que nos escapa. Mas, praticamente conheço os homens e reconheço-os pela sua conduta, pelo conjunto dos seus actos, pelas consequências que a sua passagem suscita na vida. Da mesma maneira posso praticamente definir, praticamente apreciar todos esses sentimentos irracionais que a análise não consegue captar. Para tanto me basta reunir a soma das suas consequências na ordem da inteligência, surpreender-lhes e fixar-lhes a face, delimitar-lhes o universo. É certo que, aparentemente, lá por ter visto cem vezes o mesmo actor, nem por isso o conheço pessoalmente melhor. No entanto, se eu adicionar os heróis que ele encarnou e disser que o conheço um pouco mais, por ocasião da centésima personagem recenseada, sente-se que há aqui uma parte de verdade. Porque este paradoxo aparente é também um apólogo. Tem uma moralidade. Ensina que um homem se define bem através das suas comédias como através dos seus impulsos sinceros. Assim acontece, um tom abaixo, com os sentimentos, inacessíveis no coração, mas parcialmente traídos pelos actos que eles animam e pelas atitudes de espírito que pressupõem. (...)
O método que aqui defino confessa o sentimento de que todo o verdadeiro conhecimento é impossível. Só as aparências podem enumerar-se e o clima fazer-se sentir.

(Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO)

Publicado por void em 06:52 AM | Comentários (0) | TrackBack

A ALEGRIA


(Ferreira Gullar)

O sofrimento não tem
nenhum valor.
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.

(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)

Publicado por void em 12:14 AM | Comentários (0) | TrackBack

MEU CORAÇÃO ESTÁ TRISTE


(Fotografia de Marta Veríssimo)

Meu coração está triste
E sente-se bastante solitário
Resolveu que deve seguir
O seu destino sozinho
Pois não quer mais dividir
Suas emoções
Não quer mais estar com...
Pois, não consegue viver
Numa vida de subterfúgios
Nem trabalhar
Com momentos mendigados
Prefere antes estar só
Meu coração
Procura abrigo
Mas, não com certeza
Dessa forma
Quer ser livre
E poder amar e viver livremente
Não consegue viver
Num mundo
Onde reina a hipocrisia
O falso moralismo
É o que é
Chegou a hora de
Quabrarmos as correntes
E assumo
Basta de silêncio.

(Lília Trajano- INÉDITO)

[Conta comigo no acompanhamento deste teu projecto. Acima de tudo: com amizade e sem os tais falsos moralismos. Sandra]

Publicado por void em 12:04 AM | Comentários (3) | TrackBack

maio 23, 2004

ENXOVAL

Em tempos, o enxoval representava um quinto da erótica feminina, que nele empregava desejos, fantasias e até as funções mais abissais do tédio. Os bordados, as bainhas, as rendas aplicadas, as cambraias e os linhos, tinham um significado ligeiramente bestial; um significado de rogo e praxe amorosa que roça pela obscenidade. Fazer ilhós e abrir os riscos de folhagem em volta duma haste em cordão perlé tinha quase o significado dum himeneu. Ema já não estava senão na orla final dessa praxe de gineceu, mas tinha ainda nos ouvidos as recomendações de dona Augusta, ela própria uma dama dos enxovais, que arrumava em armários altos como oratórios; nunca se casou, mas o enxoval cumpriu o seu simbolismo, deu-lhe as alegrias fabulosas do encontro dos corpos e a sensual presença no noivado aromatizado de camoesa e lavanda. Ema percebeu que quanto mais o casamento desagradava e tinha espinhos que feriam de maneira profunda, mais as mulheres voltavam para esse enxoval as suas atenções quase libidinosas. No tempo de Ema, a roupa interior tomou a dianteira sobre o enxoval da casa; fez-se subtil ardente e requintada. Cumpriu com a missão de encobrir desejos sem os deixar de ouvir. Ema teve uma das maiores colecções de camisas de noite, de seda e de algodão fino. Vestia-as, e sentia-se outra: uma deusa na sua concha, embalada pelo mar.

(Agustina Bessa-Luís- VALE ABRAÃO)

Para além do livro, recomendamos:

Argumento:

"Vale Abraão" é a história de Ema, uma mulher de uma beleza ameaçadora. Para Carlos, o marido com quem se casou sem amor, "um rosto como o seu pode justificar a vida de um homem". O seu gosto pelo luxo, as ilusões que tem na vida, o desejo que inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de "A Bovarinha". Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um sentimento crescente de desilusão que a leva a definir-se como nada mais que "um estado de alma em balouço". Ema morrerá- "acidentalmente? Quem sabe?"- num dia de sol radioso, depois de se ter vestido como se fosse para ir a um baile."

Actores:
- Leonor Silveira
- Luís Miguel Cintra
- Cecile Sanz de Alba
- Rui de Carvalho
- Glória de Matos
- Luís Lima Barreto
- João Perry
- Diogo Dória
- Isabel Ruth
- Micheline Larpin

O DVD:
- Entrevistas com Agustina Bessa-Luís e Leonor Silveira

Duração do filme:
210'

Publicado por void em 05:23 PM | Comentários (3) | TrackBack

(OUTROS) QUOTIDIANOS FEMININOS

Enfim... seja a Maitena, sejamos cada uma de nós, ainda andamos muito assim... nos inícios do Século XXI (não, isto não é Feminismo, é a realidade):

(Trabalhos de Maitena)

Publicado por void em 04:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

(ALGUNS) QUOTIDIANOS FEMININOS

(Trabalhos de Maitena)

[Pelo imenso carinho da minha parceira, pelo "abanão", "bofetada" e "carta" do Fernando, acabei por voltar. Vamos lá ver como vou conciliar este e outros projectos. Que raio de vida!! ... Sandra ;)]

Publicado por void em 03:42 PM | Comentários (3) | TrackBack

one dollar


não se venda ao silêncio por uma nota de papel

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maio 21, 2004

COMO ME QUEREM?


(Pintura de Karina Gallo)

como me querem?
de frente, não?
talvez de lado.
de frente não fico bem
nota-se mais a tristeza
funda que sobre as coisas
deita o meu olhar parado

então está assente:
para não perturbar a paz dos dias
fico de lado como um disfarce
nessa penumbra da gente
que não tem onde agarrar-se

(Maria Costa- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)


Publicado por void em 03:13 PM | Comentários (5) | TrackBack

FORA DO LUGAR

A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar. Saberemos tomar um caminho
por essa floresta escura? Poderemos sequer recuperar a pequena bússola partida,
a caneta e o papel, as nossas certezas de trazer no bolso?

Não nos avisaram contra o medo,
não nos disseram que pode chegar
a qualquer hora, deslealmente,
enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas
se levantam para receber o Verão. E agora
que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido
que nos sirva, o nosso único guia é o amor
dos que nos esperam numa sala branca
onde o chão nos falta e não há estações.

(Rui Pires Cabral- poema publicado na revista Periférica, Verão 2003.)

Publicado por void em 08:47 AM | Comentários (0) | TrackBack

AMOR EM VERMELHO


(Fotografia de Christian Coigny)

Juan, ainda cansado, e suado, disse a Irene:
- Acho que deveríamos experimentar algo novo, não sei, tentar outras experiências que nos impeçam de cair na rotina...
Depois de dois segundos de um silêncio premeditado, Irene procurou- e encontrou- com um olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão...
- Eu acho que não corremos esse risco, que somos uma parelha divertida, ou será que já te cansaste de mim?
Juan engoliu saliva e deixou-se hipnotizar, uma vez mais, pelo verniz de unhas de Irene. “É tão verde como a erva”, pensou e calou.
- Nunca me cansarei de ti... muito pelo contrário. Tenho medo de que tu o faças. Temo-o...
Irene arqueou as sobrancelhas como uma malvada preceptora suiça de conto infantil- animação de produção japonesa.
- Enquanto me aguentares, não temas nada.
- Aguentarei tudo- disse Juan. Mentia, o coração latia assustado, recordando outros momentos similares, próximos no tempo.
- Poderias aguentá-lo hoje?- perguntou Irene, entregue de novo ao jogo.
Juan engoliu saliva, mas já não se deixou hipnotizar pelo verniz verde-erva das suas unhas.
- Acho que sim...- respondeu sem convicção.
E foderam de novo, até que ela disse basta.
Então, meio asfixiada, satisfeita, bêbada de adrenalina, procurou- e encontrou- com aquele olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão e o sangue de Juan correndo em direcção à porta. Decepcionada, abandonou o apartamento sem dizer adeus.
E decidiu não voltar a utilizar esse verde para as unhas, nem esse corpete de couro que lhe assava o peito, nem umas facas tão rudimentares, nem um apartamento tão fatela. E decidiu também Sandra não voltar a chamar-se Irene, nem procurar os seus amantes em bares de beira de estrada.

(Salvador Gutiérrez Solís- texto publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)


Publicado por void em 07:15 AM | Comentários (0) | TrackBack

UN PAS DE DEUX

- sabes dançar?
- não. ensinas-me?
- sente. sente até tu, eu e a música sermos um só.
- assim?


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 06:55 AM | Comentários (0) | TrackBack

KISS

mais que um beijo, fusão.


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (1) | TrackBack

maio 20, 2004

E TE DIZIA EU COMO O CALOR TRANSTORNA


(Fotografia de Mário Filipe Pires)

e te dizia eu como o calor transtorna
a nítida visão das coisas
é que não tenho outra explicação
então não me dizias tu que o carro que havíamos de ter
seria era todo azul com os estofos encarnados
e que os girassóis cresciam na minha janela
e que eram os mais lindos que alguma vez se vira
e que as açucenas mais brancas eram as minhas mãos
coladas às tuas- puríssima comunhão
então- e os olhos mais doces que mel
o jeito de rir os lábios em botão
o meu corpo criado no céu
etc. e tal

só pode ter sido o calor que tudo transtorna

quando no inverno a seguir
me confessavas já frio e sem rir
que nada era assim era tudo doutra forma
ora eu fiquei com a voz engasgada
porque me parecias um ser de virtudes
vá-se lá a gente fiar-se
não há nada como ter um pé-de-meia
contra as vicissitudes e
guardar-se

(Maria Costa- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)

Publicado por void em 04:16 PM | Comentários (5) | TrackBack

AFERROLHADOS NO HORROR


(Fotografia de Christian Coigny)

O amante de Cholen habituou-se à adolescência da rapariga branca até se perder nela. O gozo que tira dela todas as noites comprometeu o seu tempo, a sua vida. Já quase não lhe fala. Talvez ele julgue que ela já não compreenderia o que lhe diria dela, daquele amor que ele ainda não conhecia e de que não sabe dizer nada. Talvez ele descubra que nunca se falaram ainda, salvo quando chamam um pelo outro nos gritos do quarto à noite. Sim, acho que ele não sabia, que descobre que não sabia.
Ele olha-a. Com os olhos fechados ainda a olha. Respira o rosto dela. Respira a menina, de olhos fechados respira a sua respiração, esse ar quente que sai dela. Discerne cada vez menos claramente os limites desse corpo, aquele não é como os outros, não está acabado, cresce ainda no quarto, não tem ainda formas definitivas, faz-se a cada momento, não está apenas ali onde ele o vê, também está algures, estende-se para lá da vista, para o jogo, a morte, é elástico, parte inteiro para o gozo como se fosse grande, em idade, sem malícia, duma inteligência assustadora.
Eu observava o que ele fazia de mim, como se servia de mim e nunca pensara que se pudesse fazê-lo daquela maneira, ia além da minha esperança e conforme com o destino do meu corpo. Assim tinha-me tornado sua filha. Ele também se tinha transformado noutra coisa para mim. Começava a reconhecer a suavidade inexprimível da sua pele, do seu sexo, para além dele mesmo. (...)
Tudo ia ao encontro do seu desejo e o fazia possuir-me. Tinha-me tornado sua filha. Era com a filha que fazia amor todas as noites. E às vezes fica com medo, de repente preocupa-se com a sua saúde como se descobrisse que ela era mortal e o trespassasse a ideia de que a podia perder. (...)
Possuía-a como possuiria a sua filha. Era assim que possuiria a sua filha. Brinca com o corpo da filha, volta-a, cobre com ele o rosto, a boca, os olhos. E ela, ela continua a abandonar-se na direcção exacta que ele tomou quando começou a brincar. E de súbito é ela que lhe pede, não diz o quê, e ele, ele grita-lhe que se cale, grita-lhe que já não a quer, que já não quer ter prazer com ela, e ei-los de novo presos, aferrolhados entre si no horror, e eis que esse horror se desfaz mais uma vez, que lhe cedem mais uma vez, em lágrimas, no desespero, na felicidade.

(Marguerite Duras- O AMANTE)

[Para alguém que me pediu para trazer novamente aqui Marguerite Duras. Sandra]

Publicado por void em 07:58 AM | Comentários (3) | TrackBack

SAUDADES

P: tinhas saudades minhas?

R:


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 07:20 AM | Comentários (2) | TrackBack

ÉS ASSIM


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 07:14 AM | Comentários (2) | TrackBack

PAZ


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 07:10 AM | Comentários (4) | TrackBack

maio 19, 2004

COMPETÊNCIA PARA AMAR


(Clã)

Vieste comigo
Nesse jeito pós-moderno
De não querer saber nada
De não fazer perguntas
Essa pose cansada
Tão despida de emoção
De quem já viu tudo
E tudo é uma imensa repetição

Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Quase já não conta

Depois quase ias embora
Desse modo
Evanescente
Não soubesse eu ver-te tão transparente
E teria sido apenas
Um encontro acidental
Uma simples vertigem
Dum desporto radical

Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Já quase não conta

(Clã- ROSA CARNE)

Publicado por void em 08:56 AM | Comentários (8) | TrackBack

PARA TI

P: quando pensas em mim, és feliz?

R:


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 06:51 AM | Comentários (1) | TrackBack

COLO

P: como se escreve carinho, conforto, descanso, ternura, meiguice, aconchego?

R:


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 06:45 AM | Comentários (1) | TrackBack

ALMA GÉMEA

sinto em ti um eco de mim.


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 06:38 AM | Comentários (3) | TrackBack

maio 18, 2004

A MORTE DO POETA

De volta surge o poeta
Triste e frio
Surge, mas, não principia
Acredita que já não há vida em si
Poeta morto
Vagueia feito fantasma
Caminha por entre orvalhos
Silencia com seu suspiro
Dilacerado de dor
Dor, que tormenta dor
Dor cheia
Que aguenta e arrebenta dor
Em plena lua cheia, minguante
No sal da terra de quem não sabe
E não sabe mesmo, pensa o poeta:
Que vivo não pode amar
E o poeta só e morto prossegue
Segue sem saber
Que seu saber
Que seu corpo já não mais pertence ao mundo
Seu corpo flutua no imenso Tejo
Flutua com sua angústia
Com sua fome de não ser amado
Nada é ou será como dantes
Basta olharmos o céu para vermos
Que de azul se tornou cinzento
Já não há esperança
A guerra segue no seu curso matando
E quem morreu foi o pobre do poeta
Que nada tinha a ver com a guerra
Mas foi atingido pela hipocrisia do amor
O poeta tentou olhar no mirante
Do alto da porta do sol
Mas a chuva não deixou
O poeta está morto
Morreu por ter amado
E de tanto amar foi esquecido
O poeta não soube fingir
Não soube disfarçar sua dor
Foi definhando devagar
Devagar e pra sempre
Agora seu corpo jaz sobre o Tejo.

(Lilia Trajano- INÉDITO)

[Um poema espectacular este, Lília. Beijo grande para ti, amiga. Sandra]

Publicado por void em 09:02 AM | Comentários (7) | TrackBack

DESEJO

quando te deitas
pensas em mim?


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 06:59 AM | Comentários (6) | TrackBack

DEVANEIOS

o que é que ainda te falta experimentar?


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 06:53 AM | Comentários (2) | TrackBack

ABRAÇO AO VENTO

abraçar-te como quem abraça o vento
segurar-te como quem segura o tempo.


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (4) | TrackBack

maio 17, 2004

ROSTO DESTRUÍDO


(Marguerite Duras)

Muito cedo na minha vida foi tarde de mais. Aos dezoito anos era já tarde de mais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezassete anos aquando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezanove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído.

(Marguerite Duras- O AMANTE)

Publicado por void em 05:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

CORPO

quando te debruças e te ofereces assim...


(Trabalho do autor)

Publicado por void em 07:00 AM | Comentários (6) | TrackBack

A METAMORFOSE DO ENCONTRO

ansiando:

tocando:

(Trabalhos do autor)

Publicado por void em 06:49 AM | Comentários (1) | TrackBack

INSTANTE

deslizando pelo teu corpo, a minha mão encontrou a tua. aberta, dedos em riste, tal qual sentidos. ansiando... apertaram-se em uníssono e contraíram-se assim, imitando os corpos num crescendo de prazer. eis o instante:


(Trabalho do autor)

[Com este post iniciamos a apresentação semanal do trabalho de Alves, blogger do "Abstracto Concreto". Os conjuntos por si construídos merecem, desta forma, o nosso conhecimento, atenção e sentir de significado. Fiquemos, pois, com eles. Sandra]

Publicado por void em 06:38 AM | Comentários (2) | TrackBack

maio 16, 2004

A DOR TRANSFORMADA EM GOZO

Tenho ainda a dizer-vos que tenho quinze anos e meio. (...)
Aconteceu muito depressa nesse dia, uma quinta-feira. Ele veio todos os dias buscá-la ao liceu para a levar ao pensionato. E depois, uma vez, veio uma quinta-feira à tarde ao pensionato. Levou-a no automóvel preto.
É em Cholen. É do lado oposto às avenidas que ligam a cidade chinesa ao centro de Saigão, essas grandes estradas à americana percorridas pelos eléctricos, os riquexós, os carros. É logo no começo da tarde. Ela escapou ao passeio obrigatório das raparigas do pensionato.
É um apartamento no sul da cidade. O sítio é moderno, dir-se-ia que mobilado de qualquer maneira, com móveis a atirar para o moder style. (...)
Ela diz-lhe: preferia que não me amasse. Mesmo que me ame gostaria que fizesse como habitualmente faz com as mulheres. Ele olha-a como que apavorado, pergunta: é isso que quer? Ela diz que sim. Ele começou a sofrer ali, no quarto, pela primeira vez, já não mente acerca disso. Diz-lhe que já sabe que ela não o amará nunca. Ela deixa-o dizer. Primeiro diz que não sabe, depois deixa-o dizer.
Ele diz-lhe que está só, atrozmente só, com esse amor que tem por ela. Ela diz-lhe que também está só. Não diz com quê. Ele diz: seguiu-me até aqui como teria seguido outro qualquer. Ela respondeu que não pode saber, que nunca seguiu ninguém a quarto nenhum. (...)
Ele arrancou o vestido, arrancou as calcinhas de algodão branco e levou-a assim nua até à cama. E depois volta-se para o outro lado da cama e chora. E ela, lenta, paciente, vira-o para si e começa a despi-lo. De olhos fechados, despe-o. Lentamente. Ele quer fazer gestos para a ajudar. Ela pede-lhe que não se mexa. Deixe-me. Ela diz que quer ser ela a fazê-lo. Fá-lo. Despe-o. (...)
A pele é duma sumptuosa suavidade. O corpo. O corpo é frágil, sem força, sem músculos, poderia ter estado doente, estar em convalescença, é imberbe, sem outra virilidade que a do sexo, é muito fraco, parece à mercê de um insulto, débil. Ele não a olha no rosto. Não o olha. Toca-o. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a desconhecida novidade. Ele geme, chora. Está num estado de amor abominável.
E a chorar fá-lo. Primeiro há a dor. E depois esta dor é por sua vez possuída, transformada, lentamente arrancada, levada até ao gozo, abraçada a ele. O mar, sem forma, simplesmente incomparável. (...)
Não sabia que se deitava sangue. Ele pergunta-me se me doeu, digo-lhe que não, ele diz ainda bem.
Ele limpa o sangue, lava-me. Olho-o enquanto o faz. Insensivelmente ele torna a ser desejável. (...)
Olhamo-nos. Ele beija-me o corpo. (...)

(Marguerite Duras- O AMANTE)

Publicado por void em 08:39 AM | Comentários (7) | TrackBack

OS SONHADORES


(Fotografia de Marta Veríssimo)

Os sonhadores odeiam a realidade da vida. Odeiam aqueles que se apresentam como construtores de ideais que só fazem sentido num compartimento ingénuo da existência. A loucura dos meus actos é uma ameaça para aqueles que me amam. As minhas palavras constituem o perigo de viver com os outros, os reais. Quando comecei a escrever, houve por certo alguém que perguntou: escrever porquê? Escrever contra quem? Sempre soube que escreveria contra mim. Na minha casa em Cascais escrevi contra a família. Nunca fui impulsionado pelas virtudes protectoras da inspiração literária. Escrever era viver tudo outra vez. Era sofrer como se não tivesse já sofrido. Escrever a primeira palavra de um muro que se apresentava em duplicado: um muro erguido pela força da minha escrita; um muro derrubado pelo medo de leitura a meu respeito. Os sonhadores escrevem as histórias de medo que sempre desprezaram. Na minha vida nunca tive nada que pudesse perder enquanto escrita, isto é, nada do que eu escrevi o devo à perda que poderia significar algumas situações da minha própria existência. Eu sabia que o sofrimento do que escrevia se transformava na felicidade dos que me liam. Compreendi que só podia escrever como se estrangulasse os sentimentos daqueles que esperavam de mim um choro poético que os tranquilizassem da ameaça mental que eu constituía na sua forma de viver. Enganaram-se todos. Se havia um relâmpago a rasgar os dias das suas vidas, isso era o meu pensamento a autopsiar os comportamentos dos que me rodeavam. Não acredito na inspiração, sentar-me para escrever e aguardar serenamente que um deus pensativo me ofereça uma guloseima literária que se adapte sem angústia ao meu pensamento. Nunca foi assim. Quando vou para escrever também vou para morrer. Levo tudo destruído. O meu campo de escrita é uma melodia fulminante. Ouço a música da morte que extermina as palavras que se perdem no interior onde são pensadas. E no fim de tudo o que escrevo, só eu sinto que existe em mim uma sepultura de palavras humanas.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

[Com este post damos por concluída a edição semanal de textos do autor. A ele o nosso imenso agradecimento e o reforço da exteriorização daquela que é a nossa admiração pela sua escrita. Sandra]

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maio 15, 2004

VOU SER VIOLENTO CONTIGO


(Fotografia de Bruno Espadana)

Hoje li uma história que começava mal. Fez-me pensar em ti. Agora que estou a pensar em tudo o que li nessa história, tenho uma ideia para ser escrita. Porque será que as histórias tristes são assim tão lindas? Eu penso que seja porque existe muito amor dentro delas. Eu sei que sou suspeito pelo sofrimento que te faço sentir. Destruo-te pelas palavras. É a minha forma de escrever. Começar uma frase pela destruição. O meu pensamento és tu num quarto fechado. Não sei amar as multidões. O meu amor por ti é tudo aquilo que escrevo sobre esse quarto onde vives por mim. Não me odeies por isso. Não acredito nas pessoas. Tu sabes que eu fecho os olhos ao mundo. Eu estou a escrever talvez sem o teu mundo. O esquecimento é uma perturbação do não sentir. Tu escutas o meu pensamento como um vazio que sentes dentro da tua vida. Eu escrevo nesse tempo destruído onde abandonas todos os teus sentimentos. Não sei amar, não fossem as palavras. Nunca te dei viagens, apenas te fiz sentir no centro do teu próprio corpo. Uma frase minha não paga bilhete para qualquer lugar do mundo. Sou um amante habitacional. A minha inspiração és tu numa cama aberta. O meu amor nunca foi disperso. Não gosto de passear numa cidade com desejo de possuir-te. Sou um cão humano. Gosto de viajar sem tesão. Às vezes ponho a mão na cabeça e escrevo sem pensar. Oiço uma música que me risca a memória. Diz-me tu porque é que as histórias tristes são salvas pelos sentimentos mais belos. É como querer recuperar o amor daqueles que já não amam? Não esperes que eu escreva para resolver a tua vida. Ensina-me a odiar-te humanamente. Eu farei o mesmo com as palavras. A história que eu li falava do amor que se sente para sempre perdido. A escrita é uma boa razão emocional para evitar certas afectividades artificiais.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

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IMPRESSÕES


(Trabalho de Paulo Gonçalves)

Entras na minha casa. Na minha escrita. Estou sentado a um canto da sala. Vens por trás de mim e eu sinto o teu silêncio. Não digas nada. Não quero escrever as tuas palavras. Hoje não. Respiras no meu pensamento. Tem cuidado. Senta-te e observa a imagem que lês de mim. Queres fazer amor? Escrevi o teu sexo entre a luz. Uma luz insuficiente. Não me apetece pensar. Aproxima-te. É o teu teatro de viver as coisas que me acontecem. Não me beijes, ainda não. Escrevi um poema. Tu lês, não podes fazer outra coisa. O que sentes? Em todo o caso a minha poesia ficaria bem no teu desespero. Estive para escrever a tua dor. Havemos de nos odiar. Não quero saber esse dia, não me perguntes. Agora podes amar-me. Sim, eu deixarei de escrever. Gostaria que a escrita não precisasse de mim. Sinto-me fraco na forma de não teres de me amar ainda. Tens medo do que eu escrevo? Eu sei que sim. Eu também tenho medo. O meu coração encostado ao teu silêncio. Queres ler a minha loucura quando sinto o teu olhar nas palavras que eu não sei recuperar? Não sou assim tão forte, meu amor. Há tanta coisa que tu não sabes. Faz-me impressão, mas escrevo na ignorância de existir. Não posso continuar contigo na minha presença. Sempre desconfiei das minhas verdades. Não te quero como escrita do que sinto por ti. Deixa-me pensar como chegaremos ao prazer deste amor. Acaricia-me o tempo da minha escrita. Não te peço mais do que esse gesto. É difícil olhar para trás. Tu olhas. Estou sempre a destruir-me no que vês. Existes tanto no que escrevo, tanto, que agora quase nada sinto do que és. Sabes, a escrita é sempre uma repetição diferente. Podemos começar por aí. Despe-te enquanto as palavras não vivem a nossa vida. Agora é tarde para escrever.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)


Publicado por void em 10:44 AM | Comentários (0) | TrackBack

maio 14, 2004

AMOR LIXO


(Fotografia de Christian Coigny)

O amor é um produto do terrorismo dos afectos. Mata-se, morre-se e odeia-se por amor. É o fingimento mais sincero que alguém sente pelo outro. Sente-se amor por alguém somente quando se está a viver numa agonia existencial. Não se admirem de confirmar que o sentimento amoroso vai buscar alimento ao desespero e ao fracasso. O sofrimento é uma condição dos que amam. Se não estiveres disponível para sofrer, também não saberás amar. Depois tens a mentira a enfeitar as promessas do amor. E depois tens a ilusão que parece uma janela alta de onde te deixas cair. E depois tens o lixo e o amor anda no lixo a envenenar-se. E os ridículos que nunca amaram como se bebessem de uma fonte pura, assustam-se com os sentimentos que esgravatam nos livros dos outros, e perguntam assustados: será que estamos todos sujos de amor? sim, escrevo. Leio o que escrevi sobre o amor ao longo da vida como se me afundasse numa lixeira de palavras inúteis e falsas e agressivas. Tens a ausência, estúpido. Tens a perda, amante sem qualidades. Queres maior quantidade de lixo que o amor que não sabes sentir pelos outros? Nem a ler és um ser humano limpo. A tua atenção contamina o que eu escrevo. Posso escrever que o amor é um símbolo postiço; plástico emocional que nos protege da virgindade do desejo. Nem os teus beijos. Nem o teu olhar dá vida às flores que adoecem no meio do lixo amoroso. O medo de amar é que é o grande amor de ser sincero e verdadeiro com aquele que nos ama sempre a destruir-nos. Tudo o resto é uma reza de sofrimento que se ajoelha no coração.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

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ESTA HISTÓRIA NÃO É MINHA


(Fotografia de Michelle Preuss)

Foi isso que me fizeste durante toda a vida, amar na ilusão de nunca perder, e agora eu compreendo que corajoso é aquele que renúncia ao amor, mas a imagem que se tem daquele que renuncia é também a imagem da cobardia. O amor é um sentimento tão poderoso que destrói a pessoa que ama, e eu nunca senti que amasse pelas palavras dos outros, e amo todos os dias porque aquele que ama é quem perde nesse absoluto de amar, ama-se sempre no futuro de ainda haver amor, ama-se no tempo que se perde a amar uma vida. Se soubesses as palavras que o amor consome para ser tempo e amar para sempre, deixa-me dizer o tempo como uma mentira que eu sentisse pelo amor que está perdido, talvez eu amasse o tempo das tuas palavras, ou o medo de as dizer como um acto luminoso a fingir o teu amor. Os meus sentimentos são uma pele envelhecida, mas nunca senti isso como uma destruição, porque esta história não é minha, podemos ainda viver num cenário de existência em que o amor será apenas uma ideia decorativa, a emoção estaria nesse jogo odiosoo em que cada um de nós seria uma disponibilidade do outro, tu na tua ilusão a corroer o tempo que me cria distâncias afectivas. Não escrevas mais sobre mim, peço-te, no teu silêncio a afastar os dias com palavras que nunca serviram para me dizer nada, nada nesse amor que só serve de imagem para sentirmos o quanto já não amamos, não escrevas porque o amor é a linguagem do próprio tempo, e o amor que tu perdes a escrever é a minha presença no teu pensamento.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

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maio 13, 2004

DESORDEM


(Fotografia de Fabrício Cardoso)

Posso dizer que te amo. E depois?
Será o meu amor uma desordem sentimental?
Hoje não tenho nada. Nem esta ideia de escrever contra o tempo.
Poderia sentir-me vazio, mas tu ainda em tudo o que sinto.
Apetece-me roubar a vida dos que amam sem ambições.
Tenho as tuas palavras. Leio o que a vida te dá.
Há a escrita que impressiona a minha vida.
Disse vazio e é espantoso o que sinto nesta viagem para escrever apenas os meus sentimentos.
Estou tanto tempo parado. É o silêncio a fabricar pedras na solidão.
Também tens os livros. A tua casa.
Sinto que é possível amar uma ideia.
Estou sempre a esconder-me do amor.
Amor, e o que resta das nossas palavras?
A escrita de um olhar sobre a vida.
Estou inquieto e a escrita alimenta-se desses momentos.
Há frases que devo perseguir eternamente.
E depois amo-te mas tenho medo.
Também quando escrevo tenho medo.
Posso apagar tudo, esquecer a tua vida.
O tempo, este tempo branco que já não existe.
Poderá alguém amar para além do amor?
A loucura de sentir mais do que o coração permite.
A desgraça de escrever no profundo corpo insuportável.
Leio o que tu escreves e é magnífico o sentido que te atribuo na leitura da minha inconsciência.
Uma dor vazia a falar-me de amor.
Como se amar fosse escrever com o teu pensamento.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

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VIDA ESCRITA


(Fotografia de Tiago Morgado Paulino)

Amor estúpido. Quando podemos dizer alguma coisa é quando estamos calados. Não penses muito. O amor não se pensa. Fingida. Há coisas mais interessantes do que amar o que não se conhece. O amor é uma prova de vida. É um impresso que não sabes preencher. A saudade não tem palavras. Não acredito no que dizes ou escreves mal o que sentes. Agora sou amigo do tempo. Conversamos muito sobre ti. É claro que eu estou a sofrer, mas isso também é uma religião. Estou a construir vazios como se fosse possível fugirmos do tempo. Tenho uma imagem para te dizer: estamos sentados numa esplanada a ver a multidão. Se não fosse o silêncio, podes ter a certeza, o amor seria um atentado ao coração. Se eu seguisse o que escrevo, se eu experimentasse o que sinto para além do que posso viver, não sei se a felicidade me reservaria um estado emocional que desencadeasse o extermínio dos meus sentimentos. Nunca estive tanto em silêncio. Escrever fechado, dia e noite, num tempo destruído. Escrever para um fim. Se pensar bem, também se vive para um fim. O caminho é o mesmo. Vida escrita. Se imaginasses os pensamentos que eu sepulto na tua imagem, se sentisses as modificações afectivas que eu sinto para te modificar e tornar mais próxima do real, a vida apresentar-te-ia a minha própria destruição.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

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maio 12, 2004

APRENDIZADO


(Fotografia de Ana Pinto)

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)

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FOTOGRAFIAS


(Fotografia de Fabrício Cardoso)

parece que o cenário da nossa vida é uma cama desfeita. depois da destruição com palavras. depois do silêncio amarrotado deste espaço branco. eu estou sentado no frio e olho o meu sexo inútil. penso que o amor representa esta nudez triste deste lado da cama. nunca há um rosto visível para dizer a verdade nestes momentos em que abandonamos o corpo numa luz fotográfica.
contra os ferros da cama. contra o teu corpo a soluçar dentro dum tempo amargo. se eu soubesse ser pior que todas as maldades beijava-te essa dor que transpira na tua pele. mas tenho medo e não vejo a noite a ser transportada pela tua respiração humilde. o amor já não reconhece o nosso lugar nesta cama. vivemos num palco de palavras odiosas. já não somos nós mas as palavras que nos ferem neste acto último da nossa vida. o silêncio ensina-te a sofrer.

(Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA)

Publicado por void em 12:18 AM | Comentários (12) | TrackBack

UM AMOR QUASE LONGE


(Fotografia de Marta Gonçalves)

E depois deixei de te sentir. Mesmo estando na tua presença todos os dias por causa do corpo, do amor que se perde num corpo que não existe como coisa vivida, sexual. Agora só sabemos destruir-nos e não precisamos de falar muito. Se pudesse empurrava-te para trás no tempo. Fazer-te mal, não, nada de violência. Apresentava-te um tempo vazio só para sentires tudo o que não soubemos ser um para o outro. Queres voltar ao inferno de me ouvires escrever à volta da tua vida? Não sei porque estás comigo, não sei, é preciso escrever esse sentimento muito belo que se apaga quando sentimos o sofrimento de viver ao lado de alguém incomparável. E depois fodíamos só por foder, porque as noites eram pesadas e obscuras. Sempre entendi isso como uma viagem que fizesse nos lugares irreconhecíveis da tua vontade. Amas o sofrimento, eu sei, tiras prazer talvez da minha miséria emocional. Não importa, escuta o que eu te digo, sempre precisei de uma mulher que sofresse. Também a minha infância reclama o amor de uma mulher assim. Também o tempo me incomoda como se fosse uma pessoa a estrangular-me de cada vez que escrevo iludido. Tudo o que ficou escrito dependeu unicamente de nós. Não te sinto. Não há noite numa só palavra que eu pudesse agora escrever para recuperar os sentimentos perdidos. Já pensaste como te sentes em relação ao nosso caso? E se eu te disser que um homem e uma mulher são sempre um caso destruído? Por vezes penso que só tu me fazes escrever estas coisas, mais ninguém, tu sabes. Depende inquestionavelmente do que me disseste em toda a vida. Escrevo palavras como se abrisse feridas. Gosto de foder-te zangado. Também é assim com a escrita possível sobre o teu corpo. Ainda me lembro, quero dizer, ainda desejo essa forma de nos envolvermos nesse instante de maldade e prazer. Se soubesses, meu amor, como é terrível sentir as palavras em nenhum instante de as escrever num tempo sem imagem como se tudo estivesse acabado entre nós. Um amor quase longe.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

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maio 11, 2004

DIÁRIO


(Fotografia de Christian Coigny)

estendo-te a minha mão e os dedos tremem sobre o silêncio azul do teu corpo. é o silêncio dos muros, limite da solidão, sono, água, folha seca, ombro, orvalho na tua boca, e eu não procuro nas coisas senão o desejo de te encontrar.
o amor nasce na força das coisas que ambos amamos.
está uma lâmina dentro dum prato e luz. apenas uma lâmina e o dia voltará a mentir-te.
um dia vermelho em decomposição. nas minhas, as tuas mãos escorrem uma doçura oleosa, sufocada de longa rotina. viajar no teu silêncio, no teu sangue. emergir do crepúsculo numa revoada de mil lembranças. vivemos acaso? tenho os meus olhos cheios das tuas lágrimas.
nenhuma lágrima poderá apagar qualquer palavra dita ou algum acto cometido.
deslizas. deslizo nas curvas enigmáticas do passado. as memórias acendem-se. os pensamentos circulam. os jardins são de cimento e as flores sabem-no. deslizas. é o cenário do teu corpo. as flores no perfume da tua pele. o musgo do teu ventre. o espaço branco-vale dos teus seios. sonho-te vida, segredo, luz, sangue, azul, sonho. e agora a sombra é vazia e a linguagem é gestual. a água no tanque corre em borbotões. a luz escorre de vidros. a terra treme. e no entanto eu sei. amanhã um outro dia.
todos os dias são dias deste próprio dia.
no primeiro dia que entrei no teu quarto falaste de ódio.
o ódio nasce assim como nasce uma rebelia contra os sentidos. ignoramos a dor ao afirmar que no coração de uma criança não se infiltra o ódio.
por sobre a cómoda a jarra de flores desbotadas.
o passado numa moldura antiga.
o amor num retrato amarelecido.
cortinas de pó e silêncio.
escorre a luz morna pelas paredes.
a cama ao fundo desfeita.
desfeitos os sonhos também.
concreto o amor apenas de quem ama.
longe na distância final.
toda esta ausência que dizes haver em mim é feita do que somos e nada te oculto enquanto percorro a chama adormecida do teu corpo. silenciosamente, os teus lábios fecham-se de pó, ardor, vermelho. até no vazio nós caímos entre a separação do que é secreto em ti. as palavras.
só a luz pode desiludir a beleza, não achas?
a luz desilude a beleza.
nesse tempo a noite dormia ainda nos teus olhos e a imaginação era um pensamento aberto. a noite chama-nos e as palavras esquecem-se por momentos. nem o vento de cordeis desgrenhados sacode o profundo desejo. emoldurada nos meus braços, como uma janela engolida pelas heras, escutas o silêncio que é a luz e é de pedra.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

Publicado por void em 12:28 AM | Comentários (27) | TrackBack

PERIGO SILÊNCIO


(Fotografia de Christian Coigny)

Nunca hei-de querer ler códigos. Mas custa-me não aceitar o teu silêncio. Também eu estou a codificar. É um perigo eu estar a pensar sobre o silêncio de quem não conheço. Havia ideias para serem discutidas num campo de batalha com cama e toalha branca. A paz do teu olhar traiu o meu pensamento. Nunca fui educado na paz, paciência. E não te peço perdão porque essa palavra nunca a encontrei entre os meus erros. Devo a minha maldade ao tempo onde a infância fabricava o homem que agora ama todos os silêncios. Amo para destrui-los nas palavras que me dizes. Eu sei que a tua escrita é um enredo de medos e desconfianças. Eu sei que o que escreves nunca fez parte da tua humanidade. Eu acho que as tuas palavras são a mentira do meu pensamento. Um dia aprendi a mentir com as palavras dos outros. Não basta um abraço para não dizer nada. As palavras fazem falta ao amor para ser escrita desse amor. O que eu escrevo é o pior que posso sentir no perigo do teu silêncio. Não compreendo como te sentes nesse nocturno dos dias agarrados ao corpo solitário. Tu também escreves, eu sei, tu escreves. Mas a tua escrita é o tempo a sofrer no silêncio de alguma palavra viver por ti ainda. Não é a solidão, nunca acredites. A solidão é a forma vazia de sentirmos que já não existimos para os outros. Eu tenho o teu silêncio e isso é diferente de não sentir onde estás. Uma coisa que não podes evitar é existires onde alguém te pensa. Um dia pensei que as palavras eram transportes sentimentais. Veículos carregados de sentimentos. Eu era uma criança leve e possuía poucas palavras. Era uma criança verdadeira que arrumava a vida com poucas palavras. Agora não existe nenhuma palavra que escreva em mim a verdade da vida. Tenho a escrita, eu sei. Mas não será a escrita a meditação codificada do que é verdadeiro em tudo o que eu escrevo? Penso que só o teu silêncio poderá responder perigo e silêncio.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)


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maio 10, 2004

CINCO MINUTOS DE AMOR (10)


(Fotografia de Cristina Martins)

Disseste-me ainda que o sexo era uma espécie de acto de vingança. Uma luta do desespero. Que a dor que se sente nesses momentos é o orgasmo da interioridade. Querias que eu mergulhasse na tua interioridade. Dizias-me: quero que ultrapasses a realidade da minha presença sob o teu domínio. Querias que eu permanecesse em ti como um castigo que alguém impusesse num acto diabólico. Eu pensava que era só assim que sentias prazer. Um ajuste de contas sexual. Um duelo erótico, agressivamente sensual. Um duelo entre duas pessoas que já não se amavam no espaço da vida normal. Duas pessoas que se confrontavam na sessão espectacular dos seus próprios corpos.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

Publicado por void em 12:22 AM | Comentários (4) | TrackBack

CENAS HUMANAS (1)


(Fotografia de Christian Coigny)

Lamento que seja desta forma que o nosso amor sobreviva. Tenho pena que seja assim. Eu faço os possíveis para evitar que sofras por minha causa. Eu sinto o teu sofrimento, mas não consigo controlar-me. Há qualquer coisa em ti que me desespera, provoca-me, põe-me à prova, ri-se de mim. Acho que estás sempre à espera de uma reacção minha, um desfecho violento, uma sensação forte, uma resposta que "dignifique" o nosso amor, desde que isso não fuja ao nosso controlo e não contamine os outros. Tens o dom da sensibilidade da vítima. Levei muito tempo a compreender essa tua capacidade para o sofrimento. Sempre distorceste os meus sentimentos de forma a explorares uma reacção da minha parte que te controlasse pela negativa. A degradação estimulava-te. Eu não sabia. Eu tinha uma ideia de comportamento completamente distinta. Uma ideia de relacionamento entre duas pessoas que se amam sem se atreverem a entrar nesse mundo louco da sexualidade vergonhosa e doentia. A naturalidade não nos basta. Tu eras tão normalizada. Tão passiva. Admirava a tua sobriedade sexual. Excitava-me a tua lentidão e resistência para a aprendizagem de novas sensações e outros prazeres. Até que um dia, na cama, durante uma amorfa sessão de sexo rotineiro, me incitaste para que te esbofeteasse durante o orgasmo. Estabelecia-se assim um capítulo erótico nas nossas vidas de odiosos e apaixonados amantes. O acto sexual passou a ser um " espaço de luta". Era nesse breve instante que nos odiávamos. Sob o meu domínio, fazias o teu balanço diário. Contabilizavas os valores positivos e negativos do meu comportamento. O teu rosto de prazer afigurava-se-me como um rosto de revolta. Imaginava o que poderia desfilar na tua mente. Nunca a minha boa imagem, isso seria utópico demais. Mas sentia a tua vingança em ebulição. Uma vingança eruptiva a consumir a minha honestidade.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

[Iniciamos, com este post, a (re)edição semanal de textos do autor, no âmbito do projecto lançado na Segunda-feira anterior. Encontra-se cada um destes trabalhos já editado em blogs onde o escritor toma parte, quer a título individual, quer em parceria. Da responsabilidade do Void, a escolha dos mesmos e a junção de fotografias. Sandra.]


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maio 09, 2004

LEI GERAL

REI
Porque pairam ainda essas nuvens sobre ti?

HAMLET
Não é assim, Senhor; estou bem exposto ao sol.

RAINHA
Bom Hamlet, expulsa essas cores da noite e pousa um olhar amigo sobre o rei da Dinamarca. Não procures para sempre, com os olhos baixos, o teu nobre pai no pó da terra. Sabes que é a lei geral. Tudo o que vive deve morrer, arrastado pela natureza para a eternidade.

HAMLET
Sim, senhora, é a lei geral.

RAINHA
Se o é, por que te parece tão especial?

HAMLET
"Parece", Senhora? Não; é! Não conheço "aparências". Não é apenas a minha capa cor de noite, boa mãe, nem o traje soturno dum negro solene, nem o sopro forte dum suspiro forçado, não, nem o rio que me corre nos olhos ou o aspecto tristonho do meu rosto, junto às formas, aspectos e moídos da dor, que verdadeiramente me revelam. Esses, realmente, "parecem"; porque são acções que um homem pode representar... Mas eu tenho dentro de mim o que não pode representar-se e não os trajes ou o cenário da dor.

REI
Só inaltece o teu carácter, Hamlet, prestar esses magoados preitos a teu pai. Mas tens de saber que teu pai perdeu um pai; que esse perdido pai perdeu o seu; e que é filial dever daquele que fica manter por algum tempo respeitoso luto. Porém, perseverar em cego nojo é acto de impiedoso desvario. É dor imprópria dum homem. É ser rebelde para Deus, prova dum coração sem força, dum espírito sem calma, dum entendimento simples, duma mente inculta. Pois, porque havemos de tomar a peito aquilo que sabemos ter de ser, que é vulgar como as coisas vulgares e é vontade de Deus? É um acto ímpio que ofende os céus, que ofende os mortos, que ofende a natureza, absurdo perante a razão, que sabe que o que "tem de ser", tem de ser. Suplico-te: afasta de ti essa dor vazia e olha-me um pouco como um pai. Pois, é preciso que o mundo saiba, és o mais próximo sucessor do trono e o nobre amor que por ti nutro iguala o que o mais amante dos pais tem por seu filho. Quanto a voltares para a escola em Wittenberg, é o que mais contraria o nosso desejo. E assim te suplico que aqui fiques, para a alegria dos nossos olhos, como nosso primeiro cortesão, nosso primo e nosso filho.

RAINHA
Que não sejam vãs as preces de tua mãe, Hamlet. Peço-te que fiques connosco. Não vás para Wittenberg.

HAMLET
Tudo farei para vos obedecer, Senhora.

REI
Eis uma linda e terna resposta. Fica na Dinamarca como nós próprios. Vamos, senhora. Este acordo gentil e natural de Hamlet sorri ao nosso coração; em louvor do que não há brinde alegre que o Rei hoje faça que o eco dos canhões não vá contar às nuvens e seja repetido pelo céu, eco do trovão terrestre. Vamo-nos.

Trombetas.
Saem todos. menos Hamlet

HAMLET
Ah! Não poder esta dura carne fundir-se, derreter e resolver-se em orvalho! Ah! Se não tivesse o Eterno apontado os seus canhões contra o suicídio! Meu Deus, meu Deus! Como parecem vãs, pesadas, estéreis e vulgares todas as alegrias deste mundo! Fora com ele, fora! É um jardim de ervas ruins, que crescem à toa. Só coisas grosseiras e imundas o invadem. Ao que chegamos! Há apenas dois meses que morreu, que digo?- Não, nem tanto!- O Rei tão excelente que ele era. Em relação a este, o que Hiperíon é para um sátiro; tão carinhoso para minha mãe, que nem aos ventos do céu permitiria que a face rudemente lhe tocassem. Ó Céus e ó terra, é preciso que eu o recorde? Ela abraçava-se a ele, como se o desejo aumentasse com o que o alimentava. E contudo, num só mês... Não quero pensar nisso. Fragilidade, o teu nome é mulher. Um mês apenas! E antes que se rompessem os sapatos com que seguiu o cadáver do meu pobre pai como Niobe, toda em prantos, pois ela, até ela... Oh, meu Deus! Uma fera sem entendimento teria carpido mais tempo... Casada com meu tio, com o irmão de meu pai, mas com ele tão parecido quanto eu com Hércules. Dentro de um mês, antes mesmo que o sal das lágrimas secasse nos seus olhos inflamados, voltou a casar-se. Oh perversa ansiedade que a fez correr com tal destreza ao leito incestuoso! Acção perversa, nada de bom pode vir dela. Mas pára, meu coração, pois é preciso que detenha a minha língua.

(Shakespeare- HAMLET)

Publicado por void em 03:49 PM | Comentários (4) | TrackBack

PRESENÇAS


(Trabalho de Almor Loucao)

Tanta gente partiu
Deixando lugares vazios
E criando espaços próprios
Dentro de mim,
Onde as recordo
E de onde nunca partirão

(Ana- PALAVRAS MUTANTES)

[Com este poema dou por concluída a (re)edição semanal de trabalhos da autora. Ana, para ti, um agradecimento muitíssimo especial pela possibilidade que me deste, de com a tua escrita, poder criar/compor cenários. Beijo grande, Sandra.]


Publicado por void em 10:59 AM | Comentários (1) | TrackBack

NITIDEZ


(Trabalho de Domenique Heidy)

A nitidez do dia
Torna mais claras
Todas as coisas.
A nitidez do dia
Acentua
Aprofunda
Este abismo em mim

(Ana- PALAVRAS MUTANTES)

Publicado por void em 10:43 AM | Comentários (3) | TrackBack

maio 08, 2004

TELL ME


(Trabalho da autoria de alvestc)

quando voamos
entregando-nos assim
que parte de nós
era parte de mim?

(alvestc- ABSTRACTO CONCRETO)

[Do amigo alves aqui para o Void, com aquilo que vai fazendo toda a diferença. Entre "mouros"... abraço. Sandra.]

Publicado por void em 07:28 PM | Comentários (3) | TrackBack

ABENÇOAR-TE-EI


(Fotografia de Marta Leitão Gonçalves)

Pede-me a escrita e eu escrever-nos-ei.
Pede-me que desobedeça e eu obedecer-te-ei.
Pede-me o silêncio e eu calar-me-ei.
Pede-me as palavras e eu falar-te-ei.
Pede-me o corpo e eu entregar-me-ei.
Pede-me um sorriso e eu mil vezes sorrir-te-ei.
Pede-me a solidão e eu ausentar-me-ei.
Pede-me calor e eu aquecer-te-ei.
Pede-me a morte e eu morrerei.
Pede-me a vida e eu beijar-te-ei.
Pede-me o fim e eu matar-me-ei.
Pede-me o sempre e eu eternizar-nos-ei.
Pede-me a repulsa e eu amar-te-ei.
Viola-me, escraviza-me, toma-me como puta e depois como virgem e eu não me importarei.
Aparta os meus membros e eu beijar-te-ei. Corta-me os lábios e eu contemplar-te-ei. Cose-me os olhos e eu ouvir-te-ei. Amputa-me a audição e eu sentir-te-ei com o coração. Arranca-me o coração e eu amar-te-ei com a alma. Amaldiçoa-me a alma e eu abençoar-te-ei.

[Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.]


Publicado por void em 06:16 PM | Comentários (1) | TrackBack

COISA REPELENTE


(Fotografia de Elsa Mota Gomes)

É certo que a infelicidade não depende apenas da dor, mas a alegria, essa, só devia depender da ausência de dor física. Vinte séculos inteiros e completos não inventaram uma explicação do sofrimento; sofre-se em comparação com o que é não sofrer, e nenhum homem saudável quer ser educado previamente para aquilo que é mau. Já não se treina a resistência à dor: evita-se, sim, a mistura com essa "coisa" repelente.

(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)


Publicado por void em 11:30 AM | Comentários (1) | TrackBack

PESADELO


(Trabalho de Sunblister)

Há um pesadelo
Ao som de um relógio
Com horas e minutos marcados.
Revivo-o
Sempre que a hora chega
O tempo pára na hora
Em que primeiro o vivi
Há um pesadelo
Sem tempo
Que é só meu.

(Ana- PALAVRAS MUTANTES)


Publicado por void em 08:30 AM | Comentários (2) | TrackBack

RETRATO


(Fotografia de Ana Isa F. Fonseca)

Mostro-me em glória
Vestindo-me de luzes e encantos
E por dentro amordaço-me.
Sou assim brilho e luz,
Sombra e escuridão.

(Ana- PALAVRAS MUTANTES)

Publicado por void em 08:19 AM | Comentários (1) | TrackBack

maio 07, 2004

DON'T LOOK BACK


(Pintura de Stroem Jette)

Publicado por void em 08:23 PM | Comentários (1) | TrackBack

VAZIO


(Fotografia de João Santiago)

Atravesso
Um corredor estreito, branco
Que me aperta e enclausura
Paredes feitas de memórias
Mãos
Que me prendem ali no instante
E me tocam e maltratam.
Sons, vozes, murmúrios
Gritos que ainda ecoam
Me penetram
E violam os sentidos
Anulando a vontade de ser.
Não há saída
Luz ao fundo
Porta ou janela
Por onde fugir
Só o branco que me rodeia
Que me atrai me prende e fascina
Com a promessa de não ser

(Ana- PALAVRAS MUTANTES)


Publicado por void em 06:00 PM | Comentários (2) | TrackBack

VIVER MAIS


(Albert Camus)

Se me persuado de que esta vida não tem outra face que não seja a do absurdo, se sinto que todo o seu equilíbrio depende dessa perpétua oposição entre a minha revolta consciente e a obscuridade onde ela se debate, se admito que a minha liberdade não tem sentido a não ser em relação ao seu destino limitado, então devo dizer que o que conta não é viver melhor, mas viver mais. Não preciso de perguntar a mim mesmo se isso é reles ou desagradável, elementar ou lamentável. De uma vez por todas, os juízos de valor são aqui afastados em proveito dos juízos de facto. Só tenho de tirar conclusões daquilo que posso ver e não arriscar nada que seja uma hipótese. Supondo que viver assim não era honesto, então, a verdadeira honestidade ordenar-me-ia que fosse desonesto.
Viver mais; em sentido lato esta regra de vida não significa nada. É preciso torná-la precisa. Parece de início que não aprofundámos o bastante essa noção de quantidade. Porque ela pode explicar uma grande parte da experiência humana. A moral de um homem, a sua escada de valores, não tem sentido senão pela quantidade e variedade de experiências que lhe foi dado acumular. Ora, as condições da vida moderna impõem à maioria dos homens a mesma quantidade de experiências e, portanto, a mesma experiência profunda. Claro que é preciso considerar também o que o indivíduo traz espontaneamente consigo, o que nele é "dado".

(Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO)

Publicado por void em 05:45 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 06, 2004

MARCAS


(Trabalho de Nando)

Tenho os passos tão leves
Que o meu andar
Quase não deixa marcas.
E ao olhar para trás
Nada vejo
Que assinale a minha presença.
Só um caminho vazio de passos.
E um presente
Onde não ficarão
No futuro
Marcas ou traços de mim.

(Ana- PALAVRAS MUTANTES)


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OS HOMENS MORREM E NÃO SÃO FELIZES

(A cena fica vazia durante alguns segundos. Calígula entra furtivamente pela esquerda. Tem um ar alucinado, está sujo, os seus cabelos estão empapados de água e as suas pernas enlameadas. Leva várias vezes a mão à boca. Caminha para o espelho e detém-se, assim que apercebe nele a sua própria imagem. Balbucia palavras indistintas, depois vai-se sentar à direita, os braços caídos entre os joelhos separados. Helicon entra pela esquerda. Vendo Calígula, pára na extremidade da cena e observa-o em silêncio. Calígula volta-se e vê-o. Pausa.)

HELICON, atravessando a cena
Bom dia, Caius.

CALÍGULA, naturalmente
Bom dia, Helicon.
(Silêncio)

HELICON
Pareces fatigado?

CALÍGULA
Andei muito.

HELICON
Sim, a tua ausência foi longa.
(Silêncio)

CALÍGULA
Era difícil de encontrar.

HELICON
O quê?

CALÍGULA
O que queria.

HELICON
E que querias tu?

CALÍGULA
A Lua.

HELICON
O quê?

CALÍGULA
Sim, eu queria a Lua.

HELICON
Ah!
(Silêncio. Helicon aproxima-se)

CALÍGULA
Bem!... É uma das coisas que não tenho.

HELICON
Claro. E agora, está tudo em ordem?

CALÍGULA
Não, não a posso ter.

HELICON
É aborrecido.

CALÍGULA
Sim, é por isso que estou cansado.
(Pausa)

CALÍGULA
Helicon!

HELICON
Diz, Caius.

CALÍGULA
Pensas que estou doido.

HELICON
Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.

CALÍGULA
Já sei. Enfim! Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível. (Pausa) As coisas, tal como são, não me parecem satisfatórias.

HELICON
É a opinião geral.

CALÍGULA
É a verdade. Até há pouco tempo, eu não a sabia. Agora, sei. (Sempre natural) Este mundo, tal como está feito, não é suportável. Tenho, portanto, necessidade da Lua, ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo.

HELICON
É uma razão de peso. Mas, geralmente, não podemos conservá-la até ao fim.

CALÍGULA, levantando-se com a mesma simplicidade
Que sabes tu disto? É porque nunca a conservamos até ao fim, que nada se alcança. Mas é possível que talvez baste continuarmos lógicos até ao fim.
(Olha Helicon)

CALÍGULA
Li o que estás a pensar. Quantas histórias por causa da morte de uma mulher! Não, não é isso. Suponho recordar-me, é verdade, de ter morrido há alguns dias uma mulher que amava. Mas o que é o amor? Pouca coisa. Juro-te que esta morte não quer dizer nada, apenas significa uma verdade que torna a Lua necessária. Uma verdade muito simples e muito clara, talvez um pouco estúpida, mas difícil de descobrir e pesada de suportar.

HELICON
E qual é, então, essa verdade, Caius?

CALÍGULA, lasso, num tom lento
Os homens morrem e não são felizes.

HELICON, depois de uma pausa
Ora, Caius, toda a gente passa bem sem essa verdade. Olha à tua volta. Não é ela que os impede de almoçar.

CALÍGULA, subitamente, numa explosão
Então, é porque tudo à minha volta é mentira, e eu, eu quero que se viva na verdade! E, justamente, tenho meios para os obrigar a viverem na verdade. Porque eu sei o que lhes falta, Helicon. Eles estão privados do conhecimento, porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina.

HELINCON
Não te ofendas com o que te vou dizer, Caius. Acho que, em primeiro lugar, devias ir repousar.

(...)

(Albert Camus- CALÍGULA)

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maio 05, 2004

INUMANIDADE


(Trabalho de Paulo Vaz)

Paredes que escorrem dor
A humanidade exposta
Em corredores/montras de sofrimento.
A indiferença de quem passa
E recusa o gesto.
A morte que se passeia livre
E escolhe o próximo.
E o medo de quem espera
De quem recusa o gesto
Não se permitindo
Nem um momento de distracção.
Para que depois a morte,
Puta que se passeia livre
Em corredores de sofrimento,
Não diga:
Estavas distraída
Não olhaste
Roubei-te a ti

(Ana- PALAVRAS MUTANTES)

Publicado por void em 06:09 PM | Comentários (3) | TrackBack

BIOGRAFIA DO HOMEM


(Fotografia de Manuel Jorge R. T. Inácio)

Para Walser, tornara-se evidente que uma existência era composta por uma sucessão de comportamentos dirigidos às coisas e aos outros homens, e que esses comportamentos, esse agir- por grosseiro que fosse- não era objectivamente, mais do que um conjunto de movimentos muscularmente bem definidos, localizados facilmente num mapa anatómico. A biografia de um homem era, no fundo, o que os seus músculos haviam feito.
Cada acontecimento individual poderia assim ser, não reduzido, mas assemelhado (...)- poderia ser assemelhado, então, a um somatório de gestos, tal como uma máquina, por mais complexa que fosse, e por mais espantosas que fossem as suas acções, não deixava de ser um somatório de peças que sob determinadas circunstâncias agiam. Ele não considerava justo que o Homem, apenas por conseguir reflectir sobre o mecanismo da sua existência, pudesse orgulhar-se de uma diferença absoluta em relação às máquinas. Conseguir distanciar-se do mecanismo que o constitui não faz o mecanismo deixar de existir. Uma existência humana era, assim, para Walser, um somatório simples. Era o sinal mais que predominava em qualquer ser vivo, e a morte era espantosamente assustadora precisamente porque representava a interrupção abrupta de um somatório que, a certa altura, todos eram levados a pensar ser interminável. Como se cada um, a dado momento, considerasse o seu corpo, por outras palavras: um somatório individual de comportamentos.

(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)

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maio 04, 2004

TERAPIAS


(Fotografia de Paulo Lopes)

Não andamos por aí a dizer
“Dói-me a alma
Tenho esta dor nem sei onde
Que me sufoca… ”
Ninguém compreenderia,
Ou pensariam que é asma.
Não dizemos a toda a gente
“Sinto que o corpo não chega
Os sonhos são grandes demais
Sou maior que este corpo
Ou esta realidade...”
Internavam-nos
E tentariam descobrir
Psicoses, neuroses,
Uma qualquer patologia.
Que é um poeta
Senão um contador
De dores que não se vêem?

(Ana- PALAVRAS MUTANTES)

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PLANÍCIE

o bando debandou
subindo do arvoredo
do vácuo que ficou
no fim do seu degredo
as asas abrem chagas
no acinzar do entardecer
e amansam a agonia
do dia a escurecer

ensombram a ribeira
e o verde da seara
e passam pela eira
em que o sol se pousara
nas gotas do orvalho
luarento e vacilante
refrescam o cansaço
e dormem um instante

pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
p'ra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria

no adejo da alvorada
oscila a minha mágoa
o céu à desgarrada
irrompe azul na água
e a passarada acorda
no sonhar de um camponês
e entrega-se no sul
do frio que à noite fez

é tempo da partida
e a côr no horizonte
adensa a despedida
e o borbotar da fonte
as asas abrem chagas
na poeira o sol acalma
num agitar inquieto
que me refresca a alma

pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
pra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria

(Mafalda Veiga- PÁSSAROS DO SUL)

[Em 1987, pela editora Valentim de Carvalho, Mafalda Veiga edita o seu 1º disco intitulado "Pássaros do Sul". Nessa altura eu tinha 16 anos e andava no 10º ano. De imediato me apaixonei pela canção "Planície" e desde ai a Mafalda é uma referência para mim. Já editei neste blog algumas das letras das suas canções... seria uma falha não registar esta. Foi aqui de tudo começou... Sandra]

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maio 03, 2004

CASULO


(Trabalho de Rui Veigas)

Gosto de gente interventiva,
Que mobiliza,
Salta para uma cadeira,
Estende o braço em desafio
E diz: Merda estou aqui.
Gosto de gente que se indigna,
Denuncia injustiças,
Bate na cara dos sacanas,
Dá o corpo ao manifesto,
Se mete no meio da briga
E defende quem precisa.
Gosto de gente que se levanta do sofá,
Faz as malas, vai para Angola,
Porque viu na televisão
Um puto com barriga de fome.
Gosto de gente que olha
A dor dos outros nos olhos,
Com um estender de mão a faz sua,
Não diz:
É só uma dor no meio de tantas,
Que raio posso fazer?
E eu??
Eu no meu casulo,
Gosto de gente assim...

(Ana- PALAVRAS MUTANTES)

[Iniciamos hoje, aqui no Void, o projecto que determina que, durante uma semana, seja garantido um espaço a todos aqueles que connosco têm colaborado, com a autorização de (re)edição dos seus trabalhos- textos em Poesia ou Prosa-. É com a Ana que arrancamos esta iniciativa. Durante esta semana- até Domingo- vamos estar diariamente com ela. Apreciem. Agradecimento especial à autora. Sandra]

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O ABSURDO E O SUICÍDIO


(Albert Camus)

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. (...)
O suicídio nunca foi tratado senão como fenómeno social. Aqui, pelo contrário, para começar, importa-nos a relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. O próprio homem o ignora. (...) Há muitas causas para um suicídio e, de um modo geral, as mais aparentes não têm sido as mais eficazes. As pessoas raramente se suicidam (a hipótese, no entanto, não se exclui) por reflexão. Aquilo que provoca a crise é quase sempre incontrolável. (...) Mas se é difícil fixar o momento preciso, o movimento subtil do espírito em que este se determinou pela morte, é mais fácil tirar do próprio gesto as consequências que ele implica. Matar-se, em certo sentido (...), é confessar. É confessar que se é ultrapassado pela vida e que a não compreendemos. (...) O suicídio é apenas a confissão de que a existência "não vale a pena". Viver, naturalmente, nunca é fácil. Continuamos a fazer os gestos que a existência ordena, por muitas razões, a primeira das quais é o hábito. Morrer voluntariamente implica reconhecermos, mesmo instintivamente, o carácter irrisório desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o carácter insensato dessa agitação quotidiana e a inutilidade do sofrimento. (...) Esse divórcio entre o homem e a sua vida, entre o actor e o seu cenário, é que é verdadeiramente o sentimento do absurdo. Como todos os homens sãos já pensaram no seu próprio suicídio, pode reconhecer-se, sem mais explicações, que há um elo directo entre tal sentimento e a aspiração ao nada. (...) As pessoas matam-se porque a vida não vale a pena ser vivida, eis uma verdade, sem dúvida- infecunda, no entanto, porque é truísmo. (...) Será que o seu absurdo exige que lhe escapemos, pela esperança ou pelo suicídio- eis o que é necessário aclarar, prosseguir e ilustrar, afastando todo o resto. Averiguar se o absurdo determina a morte, tal o problema a que se tem de dar primazia, fora de todos os métodos do pensamento e dos jogos do espírito desinteressado. (...) Consciência e revolta, estas recusas são o contrário da renúncia. Tudo o que há de irredutível e de apaixonado num coração humano anima-se, pelo contrário, com a sua vida. Trata-se de morrer irreconciliado e não de bom grado. O suicídio é um desconhecimento. O homem absurdo tem de esgotar tudo e esgotar-se. O absurdo é a sua tensão mais extrema, a que ele mantém constantemente com um esforço solitário, porque sabe que nessa consciência e nessa revolta do dia-a-dia testemunha a sua única verdade, que é o desafio.

(Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO)

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maio 02, 2004

JAMAIS TE QUIS MAGOAR


(Fotografia de Jones Moura do Amaral)

desejei não ser isto em mim. desejei que não fosse assim.
é difícil nadar contra a corrente de pessoas. é ainda mais difícil nadar contra o meu ser. quis abraçar-te e afogar o peso da minha alma no teu peito consolador. embalar-me na tua respiração profundamente calorosa e esquecer o que me fez tiritar.
quis dizer-te amor sem estremecer a voz. pintar-nos sem a ausência de cor.
e porque não?, perguntaste-me. porque não?
o mundo que escrevo enlouquece e esta vida tricota-me incoerente. as velhas mágoas sabem quando voltar e eu não lhes dei a chave. quero libertar-me em ti mas não consigo respirar nesta prisão. cortam-me aos bocadinhos e tu estás com eles entre essas grades malditas. perdoa-me se a minha vontade se tornou ruim e malvada. perdoa-me as ofensas, os silêncios e os gritos exaltados. perdoa-me esta quebra de sanidade.
jamais te quis magoar.

[Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.]

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POÇO DE VAIDADE

Devo humildemente reconhecê-lo, meu caro compatriota, fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão da minha querida vida e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Nunca pude falar senão gabando-me, sobretudo se o fazia com esta ruidosa discrição cujo segredo era meu. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, sentia-me liberto em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. Sempre me julguei mais inteligente do que ninguém, disse-lhe eu, mas também mais sensível e mais destro, atirador de escol, volante inigualável, e melhor amante. Mesmo em domínios onde me era fácil verificar a minha inferioridade, como o ténis, por exemplo, onde eu era apenas um parceiro razoável, era-me difícil não acreditar que, se tivesse tempo para me treinar, eu bateria as primeiras categorias. Não me reconhecia senão supe-rioridades, o que explicava a minha benevolência e a minha serenidade. Quando me ocupava de outrem, e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor a mim mesmo.

(Albert Camus- A QUEDA)

Publicado por void em 01:34 PM | Comentários (1) | TrackBack

NAPOLEÃO

Napoleão, seguido dos seus cães, subiu para a plataforma erguida no chão, lugar que antes pertencera ao Major, para fazer o seu discurso. Anunciou que, a partir de agora, as Assembleias das manhãs de domingo iam acabar. Eram desnecessárias, disse ele, e uma perda de tempo. De futuro, todas as questões relacionadas com o trabalho da quinta seriam resolvidas por um comité de porcos, presidido por ele. Estes reunir-se-iam em segredo e depois comunicariam as suas resoluções aos outros. Os animais continuariam a reunir-se aos domingos de manhã para saudar a bandeira, cantar Animais da Inglaterra e rebeber dos porcos as ordens para a semana; mas não haveria mais debates. (...), os animais ficaram desanimados com este anúncio. Alguns deles teriam protestado, se tivessem encontrado os argumentos certos. (...) Os próprios porcos ficaram apreensivos, mostrando, no entanto, que eram mais desembaraçados. Quatro leitões que estavam na fila da frente soltaram gritos agudos de desaprovação e levantaram-se, começando a falar. De súdito, os cães que rodeavam Napoleão largaram algumas rosnadelas fundas, ameaçadoras e os porcos calaram-se e sentaram-se de novo. (...)
Mais tarde, Squealer andou pela quinta a explicar aos outros as novas disposições.
- Camaradas- disse ele-, espero que todos vocês saibam apreciar o sacrifício que o camarada Napoleão fez, tomando à sua conta este trabalho extra. Não julguem, camaradas, que ser chefe é um prazer! Ninguém crê mais firmemente do que o camarada Napoleão que todos os animais são iguais. Ele ficaria até muito feliz se pudesse deixar-vos tomar as vossas próprias decisões. Mas as vossas resoluções poderiam ser erradas, camaradas, e então que nos aconteceria? (...)
Disciplina, camaradas, disciplina de ferro! Essa é hoje a palavra de ordem. Um passo em falso e os nossos inimigos cairiam em cima de nós. Certamente, camaradas, vocês não querem que Jones volte, pois não?

(George Orwell- O TRIUNFO DOS PORCOS)

Publicado por void em 09:54 AM | Comentários (0) | TrackBack

maio 01, 2004

A BATALHA

Nos princípios de Outubro, quando os cereais já estavam ceifados e empilhados e alguns até debulhados, um bando de pombos veio em turbilhão pelo ar e pousou no pátio da Quinta dos Animais, numa grande excitação. Jones e todos os seus homens e mais meia dúzia, de Foxwood e Pinchfield, tinham entrado pelo portão gradeado e vinham a subir a vareda que conduzia à quinta. Todos traziam paus, excepto Jones, que vinha à frente, com uma espingarda. Iam, obviamente, tentar reaver a quinta.
Há muito tempo que isto era esperado e todos os preparativos tinham sido feitos. (...)
Todos os pombos, trinta e cinco ao todo, voaram de um lado para o outro e, lá do alto, expeliram os seus excrementos sobre as cabeças dos homens; e, enquanto os homens tentavam escapar a isto, os gansos, que estavam escondidos atrás da sebe, avançaram velozmente e deram-lhes bicadas traiçoeiras nas barrigas das pernas. (...) Muriel e todos os carneiros, (...), investiram e começaram a marrar e a picar os homens por todos os lados, enquanto Benjamim se virava e desatava aos coices, chicoteando-os com os seus pequenos cascos. Mas, mais uma vez, os homens, com os paus e as suas botas ferradas, foram mais fortes do que eles, e, de repente, (...), todos os animais recuaram para o pátio, passando o portão.
Os homens soltaram um grito de triunfo. Viram, pensavam eles, os seus inimigos a fugir e avançaram sobre eles em triunfo. (...) Logo que os viram dentro do pátio, os três cavalos, as três vacas e o resto dos porcos, que tinham estado emboscados no estábulo, surgiram pela retaguarda, cortando-lhes a saída. (...)
Momentos depois, todos os animais corriam atrás deles, à volta do pátio. Eram escorneados, escoucinhados, mordidos, pisados. Não houve um único animal que não se vingasse deles à sua maneira. (...) Quando, por um momento, a saída ficou desimpedida, os homens conseguiram fugir do pátio e chegar à estrada. E assim, após cinco minutos de invasão, batiam vergonhosamente em retirada pelo caminho donde tinham vindo, com um bando de gansos a assobiar atrás deles e a picar-lhes as barrigas das pernas durante todo o percurso. (...)
Os animais tinham voltado a reunir-se muito excitados, cada um contando em altos gritos as suas façalhas na batalha. Em seguida, realizaram uma improvisada celebração da vitória; a bandeira foi içada e o hino Animais de Inglaterra foi entoado várias vezes (...).

(George Orwell- O TRIUNFO DOS PORCOS)

Publicado por void em 06:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

UM ESTRANHO SONHO

Constara, durante o dia, que o velho Major, o premiado porco "Middle White", tivera um estranho sonho na noite anterior e desejava transmiti-lo aos outros animais. Ficara acordado reunirem-se todos no celeiro grande, logo que estivessem livres do Sr. Jones. (...)
Quando Major viu que todos estavam confortavelmente instalados, esperando atentamente, aclarou a garganta e começou:
- (...) Não creio, camaradas, que esteja entre vós por muitos mais meses e, antes de morrer, sinto que é meu dever transmitir-vos a sabedoria que adquiri. (...) É acerca disto que quero falar-lhes. Camaradas: qual é o sentido desta nossa vida? Encaremos a realidade: a nossa vida é miserável, penosa e curta. Nascemos, somos alimentados apenas com a comida necessária para nos mantermos vivos, e aqueles de entre nós que têm capacidade para isso, são forçados a trabalhar até ao limite das suas forças; e no preciso momento em que a nossa utilidade chega ao fim, somos abatidos com terrível crueldade. Nenhum animal na Inglaterra, depois do primeiro ano de idade, conhece o significado da felicidade ou do ócio. Nenhum animal é livre na Inglaterra. A vida de um animal é angústia e escravidão; esta é a verdade nua e crua. Mas será que isto faz parte da lei da natureza? Será por esta nossa terra ser tão pobre que não possa dar uma vida decente àqueles que nela vivem? Não, camaradas, mil vezes não! (...) Então por que é que continuamos nestas condições miseráveis? Porque a quase totalidade do produto do nosso trabalho nos é roubado pelos seres humanos. Aí, camaradas, está a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se a uma simples palavra: o Homem. O homem é o único verdadeiro inimigo que temos. Retirando o Homem da cena, a causa principal da fome e do excesso de trabalho desaparecerá para sempre. O homem é a única criatura que consome sem produzir. (...) No entanto, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a trabalhar, retribui-lhes apenas com o mínimo indispensável para que não morram à fome e o resto guarda para si. O nosso trabalho lavra o solo, o nosso estrume fertiliza-o e, ainda assim, nenhum de nós possui mais do que a sua própria pele. (...)
Não está, pois, claro, camaradas, que todos os males desta nossa vida resultam da tirania dos seres humanos? Bastaria libertarmo-nos do Homem e o produto do nosso trabalho seria nosso. Praticamente de um dia para o outro ficaríamos ricos e livres. Que temos então de fazer? Trabalhar noite e dia, de corpo e alma, para derrubar a raça humana! Esta é a mensagem que vos dirijo, camaradas: Revolta!

(George Orwell- O TRIUNFO DOS PORCOS)

Publicado por void em 10:30 AM | Comentários (1) | TrackBack