Iniciamos com este post uma Mostra de Cartoons que irá ter lugar, aqui no Void, durante as próximas semanas. Serão apresentados alguns trabalhos de cartonistas nacionais e estrangeiros, no sentido de valorizar uma área de trabalho, de tratamento e exploração da realidade ainda não suficientemente conhecida em Portugal (particularmente, para além de um público específico).
Os cartoons que se seguem são da autoria de Sergei, pseudónimo de Paulo Teixeira.
Relativamente ao autor: nasceu em 1970, sendo actualmente criativo numa agência de publicidade em Lisboa.
Alguns exemplos do seu trabalho:
1. O buraco

2. "Estou pronto!"

3. O santo

4. De perder a cabeça

5. Clones

6. O blog

7. Ossos do ofício

8. Se beber não voe

Esta Mostra de Cartoons terá continuação todas as Segundas-feiras. Até para a semana!
Menos de um ano depois de estar em exibição nas salas de cinema, agora também em DVD:
Escrito e realizado por Lars von Trier e contando com uma excelente (também porque diferente) interpretação de Nicole Kidman, um filme que nos coloca, com imenso realismo e crueza, perante a hipocrisia e falsidade a que pode chegar o Ser Humano.
Defendendo eu que o Homem não é bom por natureza (e aqui distingo-me de Rousseau), em Dogville (espaço onde vive um conjunto de pessoas) isso é claramente notório no tipo de relações desenvolvidas entre quem está e quem chega/permanece, num contexto determinado.
A ebulição de sentimentos, os interesses em causa e em jogo, os receios/medos, as fragilidades, as cegueiras e as frustrações individuais são trazidas à cena, sempre, de forma problematizante, levando-nos por isso a um questionar permanente em frente ao ecrã.
Em termos de concepção: um filme muito bem conseguido. Originalidade e arrojo são uma evidência. A harmonia conseguida entre um cenário de Teatro e a concretização/desenvolvimento/forma de comunicação das personagens como no Cinema, é uma realidade.
Uma imensa inteligência em tudo o que é feito e apresentado. Uma brilhante execução no retratar de vidas e relações humanas.
- Argumento:
"Em fuga de um grupo de gangsters, a bela Grace chega à isolada povoação de Dogville. Com a ajuda de Tom, o auto-nomeado porta-voz da aldeia, a pequena comunidade decide esconder Grace e, em troca, ela aceita trabalhar para eles. No início ninguém lhe dá trabalho e a sua estadia fica posta em causa, mas depois começam a aparecer pequenos serviços.
Contudo, quando a população sabe que Grace é procurada, apercebe-se da importância da pessoa que escondem e exige um acordo mais rentável. Grace vai então descobrir da pior forma quão relativo é o conceito de bondade em Dogville. Mas ela também esconde um segredo muito perigoso que fará Dogville arrepender-se das suas exigências".
- Duração: 199'
- DVD:
Entrevistas com Nicole Kidman e Lars von Trier (entre outros). Ainda: depoimentos dos actores durante a rodagem.
(Opinião expressa: da blogger Sandra)
Eis-nos, agora, na galeria seguinte das fotografias de Misha Gordin. Situamo-nos, em termos de período de trabalho desenvolvido, nos anos de 1994-1995. A grande temática envolvente de tudo o que é apresentado: "Doubt".
Façamos o percurso:
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Próxima galeria: "The New Crowd", subdividida em 3 secções: anos 1996-1998, 1999-2000 e 2001-2002.

(Fotografia de Bruno Espadana)
e depois o homem entrou no meu quarto e disse-me: queres mexer? e mostrou uma mão cheia de dinheiro a ranger de ódio na minha inocência. eu queria o dinheiro. eu desejava que o homem explodisse com a força da minha vergonha. queres mexer-me no sexo? eu não digo a ninguém. podes fechar os olhos, se quiseres. podes beijá-lo, se queres. não havia ninguém. eu ia dormir no quarto. os pais dormiam. o homem estava acordado e tinha bebido. estava nu e sujo de sexo. tinha-se masturbado. estava sujo e a pingar. podes ter este dinheiro todo. posso ter este ódio todo. a minha vida estava amordaçada naquelas palavras. fazer o homem feliz. fazê-lo vir-se na minha mão. eu estava sentada na cama. tinha medo da cama. o sono era um medo a lutar comigo na minha mente. pedi ajuda ao silêncio. silêncio toma conta de mim. protege-me de ouvir mais uma palavra. o homem não parava de falar. sexo mão boca tesão beijo. o quarto andava à roda das pessoas que dormiam. as portas eram paredes negras e fechadas pelas palavras. o dinheiro é teu. guarda-o. mexe no meu sexo. e depois o silêncio eram palavras apagadas pelo meu pensamento. o homem não podia estar ali a insistir num desejo só para ele. já não gosto das pessoas. o homem fez-me não gostar de ser desejada. não quero que digam amo-te. mentirosos. eu olhei aquele sexo sujo e insistente durante muito tempo. toda a vida o mesmo sexo a pedir para ser tocado. friccionado. estimulado. eu podia tê-lo beijado. talvez o mundo não soubesse. talvez eu aceitasse o dinheiro com prazer. eu e o homem no quarto escuro. não digas a ninguém. mas o silêncio conhece esta história. eu disse que sim com o silêncio dos meus olhos. não conto a ninguém. nem aos pais que dormem num tempo separado do meu.
(Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA)
Entremos, pois, na segunda galeria onde estão expostos os trabalhos de Misha Gordin. Desta vez, fotografias situadas temporalmente entre 1987 e 1991. "Crowd" remete-nos para as ideias de repetição, conjunto, aglomerado, humanos equivalentes no ser, no estar e no fazer. Remete-nos para a cor e a forma multiplicadas várias vezes.
Olhemos e vejamos:
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Próxima galeria: "Doubt"- fotografias situadas entre 1994-1995.

A ver e a perceber paralelamente aos efeitos especiais:
- GLOBALMENTE
. a intervenção do filme-catástrofe no todo dos EUA, nomeadamente no pós-11 de Setembro
. o assumir do envolvimento na reflexão/debate em torno das problemáticas ambientais.
- ESPECIFICAMENTE:
. o imperativo de ver as relações mundiais de forma contrária, em particular com o pedido de ajuda dos EUA aos vizinhos pobres do sul
. o registo de um Poder que não sabe ouvir, embrenhado que está em interesses de outra ordem (lembremos, por exemplo, a administração Bush que se recusou/recusa a assinar a Convenção de Quioto)
. o congelamanto de parte de um mundo onde se concentra a riqueza e que em função da mesma condiciona, em muito, o destino da outra parte
. a revolta (ou vingança) de um mundo natural de quem dele abusou, destruindo-o ou desequilibrando-o ao nível dos mais variados recursos.
A registar
Os efeitos especiais não visam a mera espectacularidade, antes a transmissão de mensagens. Cada caso procura fazer-nos reflectir sobre algo, do qual, não nos devemos eximir: porque não somos (ou não devemos ser) meros espectadores, porque somos habitantes deste planeta, porque a passividade ou inércia mental mata, mumifica... congela.

(Fotografia de Bruno Espadana)
Detesto a inocência. A inocência fingida. Odeio todos aqueles que se resguardam na inocência para poupar a tristeza dos outros. Detesto-te quando queres fugir ao julgamento de tudo o que sentem por ti. Nunca estamos sós. Pensa nisso, nunca estamos a sós com a nossa vida. Existem sempre os outros, o sentimento deles a construir vedações à volta do que sentimos também por eles. Há uma troca de vidas, palavras que não são margens nem são pontes; palavras que são tudo o que nos resta para morrermos. Lê o que eu escrevo. Não sei onde vou buscar tudo isto, não sei. E se eu te disser que o sofrimento é uma atracção daqueles seres profundos onde não os atingimos nem a gritar? Temo que sejas uma criatura assim. Alimentas-te do teu próprio eco. Muitas vezes agi de cabeça quente de criança a desmontar peças existenciais porque não sei onde começa o humano e acaba a monstruosidade do que sinto pelo mundo das pessoas. Não acredito em inocências. Não há farsa maior e bem construída que os sentimentos que se ocultam numa verdade inocentemente fingida. Se eu te dissesse tudo o que sinto, tudo a respeito da tua inocência, teria de me destruir para dar um sentido à minha honestidade. Os humanos vivem no subconsciente das suas próprias verdades, e tudo o que expõem de positivo são ruínas que se erguem debaixo dos nossos dias.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

(Sarah Kane)
[1º registo]
- Fizeste planos?
- Tomar comprimidos, cortar os pulsos, depois enforcar-me.
- Tudo ao mesmo tempo?
- De certeza que não podia ser reconstituído como um grito de ajuda.
(Silêncio.)
- Não ia resultar.
- Claro que ia.
- Não ia resultar. Sentias-te sonolenta dos comprimidos e não tinhas energia para cortar os pulsos.
(Silêncio.)
- Se ficares sozinha achas que podes fazer mal a ti própria?
- Acho que sim e isso assusta-me.
- Pode ser uma espécie de protecção?
- Sim. É o medo que me afasta da linha do comboio. Só espero, por amor de Deus, que a morte seja a merda do fim. Sinto-me com oitenta anos. Estou cansada da vida, a minha mente quer morrer.
- Isso é uma metáfora, não a realidade.
- É um símile.
- Não é a realidade.
- Não é uma metáfora, é um símile, mas mesmo que fosse, aquilo que define uma metáfora é ela ser real.
(Um longo silêncio.)
- Não tens oitenta anos.
(Silêncio.)
- Tens?
(Um silêncio.)
Ou tens?
(Um longo silêncio.)
- Desprezas todas as pessoas infelizes ou sou só eu em particular?
- Não te desprezo. A culpa não é tua. Tu estás doente.
- Não acho.
- Não?
- Não. Estou deprimida. A depressão é ira. Foi o que tu fizeste, quem lá estava e quem culpas.
- Quem é que tu estás a culpar?
- A mim.
[2º registo]
- Epá, o que é que te aconteceu ao braço?
- Cortei-o.
- Isso é para chamar a atenção, que coisa tão infantil. Aliviou-te?
- Não.
- Aliviou-te?
(Silêncio.)
Aliviou-te?
- Não.
- Não percebo por que é que fizeste isso?
- Então pergunta.
- Aliviou a tensão?
(Um longo silêncio.)
Posso ver?
- Não.
- Gostava de ver, para ver se está infectado.
- Não.
(Silêncio.)
- Sabia que podias fazer isso. Há muitas pessoas que fazem. Alivia a tensão.
- Já alguma vez fizeste?
- ...
- Não. És sensível e são demais merda. Não sei onde é que tu leste isso, mas não alivia a tensão.
(Silêncio.)
Por que é que não me perguntas porquê?
Por que é que eu cortei o braço?
- Queres dizer-me?
- Quero.
- Então diz-me.
- PERGUNTA.
ME.
PORQUÊ.
(Um longo silêncio.)
- Por que é que cortaste o braço?
- Porque me sinto muito bem merda. Porque me sinto fantástica merda.
- Posso ver?
- Podes ver. Mas não toques.
- (Olha) Achas que estás doente?
- Não.
- Eu acho. A culpa não é tua. Mas tens de responsabilizar-te pelas tuas acções. Por favor não voltes a fazê-lo.
[3º registo]
Vim ter contigo à espera de ser curada.
És o meu médico, o meu salvador, o meu juiz omnipotente, o meu padre, o meu deus, o cirurgião da minha alma.
E sou tua partidária na sanidade.
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para atingir objectivos e ambições
para superar obstáculos e atingir altos padrões
para aumentar a auto-avaliação pelo bem sucedido
exercício do talento
para superar a oposição
para ter controlo e influência sobre os outros
para me defender
para defender o meu espaço psicológico
para justificar o ego
para receber atenção
para ser vista e ouvida
para excitar, surpreender, fascinar, chocar, intrigar,
divertir, entreter ou atrair os outros
para estar livre de restrições sociais
para resistir à coacção e à constrição
para ser independente e agir de acordo com o desejo
para desafiar a convenção
para evitar a dor
para evitar a vergonha
para apagar as humilhações passadas recapitulando as
acções
para manter o auto-respeito
para reprimir o medo
para superar a fraqueza
para pertencer
para ser aceite
para nos aproximarmos e nos relacionarmos agradavelmente
com o outro
para conversar de maneira amigável, para contar histórias,
trocar sentimentos, ideias segredos
para comunicar, para conversar
para rir e contar piadas
para conquistar a afeição do Outro desejado
para aderir e mantermo-nos fiéis ao Outro
para gozarmos experiências sensuais com o Outro
projectado
para alimentar, ajudar, proteger, confortar, consolar,
apoiar, cuidar ou curar
para ser alimentada, ajudada, protegida, confortada,
consolada, apoiada, cuidada ou curada
para construir uma relação agradável, durável, cooperante e recíproca com o Outro, com um ideal
para ser perdoada
para ser amada
para ser livre
(Sarah Kane- 4:48 PSICOSE)
[Os "registos" apresentados são da nossa responsabilidade, para efeitos de exposição dos excertos da peça de Sarah Kane.]
Nesta primeira Galeria de apresentação de trabalhos de Misha Gordin, intitulada "Shadows of the Dream", editamos (alguns) daqueles situados temporalmente entre 1972 e 1983:
1. Confession
2. Inspiration in Black
3. Saturation
4. Renunciation
5. The Mole

6. Prophesy

7. The Liquid Shadow
8. Echo
9. The Fifth Column
10.
Sieg
Mental Door
11. Prisoner of Memory

Próxima galeria: "Crowd"- trabalhos situados entre 1987 e 1991.
Insonia

Ouço a sua respiração já distante da realidade.
Tem pequenas convulsões como se fizesse um movimento ao qual o corpo não conseguisse corresponder.
Continuo a escutar o silêncio dos adormecidos e a insónia da apaixonada noite. Solitária dos condenados, a insonolência dos pensamentos imortais enlouquece qualquer um.
Já te aconteceu ficares acordado a pensar que deverias dormir e não o fazes?
Espero

Não quero viver no medo.
Dói ler-te no medo do sangue a espalhar-se, o medo do silêncio reinar sobre nós.
O vidro enevoado onde as palavras se embaciam nos gritos da escrita. Vem resgatar-me às sombras emudecidas da morte, os pensamentos funestos da loucura.
O abismo vazio do meu corpo afogando-se no teu.
Espero.
Abrigo

Respiro contra as marés da solidão. Receio estes sentimentos incompletamente sentidos, estas palavras que soam distantes da realidade.
Se escreveres sorrisos, estarei mais perto de chorar.
Os sussurros da casa indefesa de nosso abrigo.
(Textos da autoria de uma das bloggers do Void. Editados, também, em Memória Futura. Fotografias de José Marafona. A ele, um agradecimento especial.)

Misha Gordin:
«Em vez de fotografar realidades existentes, decidi fotografar as minhas próprias realidades imaginárias. Comecei a fotografar conceitos.
O processo é semelhante à encenação de uma peça de teatro. Começa com uma ideia (argumento) e depois é preciso encontrar o local (palco) e os modelos (actores) apropriados; há que tomar decisões quanto à iluminação e ao guarda-roupa, tirar fotografias preliminares (ensaios) antes do dia da verdadeira sessão fotográfica (a noite de estreia).
Tem muitas semelhanças não só com o teatro, mas também com o cinema, a poesia, a pintura, a escultura e a música. Todos começam por um conceito e depois seguem-se o guião ou a composição, os esboços, as afinações... E todos reflectem possíveis respostas às maiores questões que se colocam a alguém: nascimento, vida e morte.
Mas a fotografia tem uma vantagem: a sua verosimilhança. Nós temos uma tendência subconsciente para acreditar que aquilo que vemos fotografado tem de existir.»
(Depoimento do fotógrafo in: Periférica, Verão 2003)
Misha Gordin nasceu em 1946 em Riga (Letónia). Em 1974 fugiu para os EUA, onde vive.
Com este post chamamos a atenção para uma exposição de trabalhos do autor (necessariamente seleccionados) que iremos apresentar. Até lá, a interiorização daquela que é sua ideia sobre o trabalho fotográfico desenvolvido.

A PIOR BANDA DO MUNDO, de José Carlos Fernandes
Filosofia + Literatura = BD?
José Carlos Fernandes é o caso mais sério da BD nacional. Tendo começado algo tardiamente, tem uma produção já vasta, fruto de uma capacidade de trabalho incomum. A sua obra mais aclamada é A Pior Banda do Mundo, série de rara perspicácia e de uma ironia quase cruel, em que referências literárias e filosóficas se conjugam de forma estranhamente harmoniosa com a narrativa gráfica. Publicada simultaneamente em Portugal, Espanha e Brasil (coisa única num autor português), está prevista a expansão a outros mercados (o que, se não é único, é raro). Em 2002 o primeiro volume d' A Pior Banda, com o título O Quiosque da Utopia, foi considerado o melhor álbum do ano no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora; no ano seguinte, igual distinção para O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante, segundo volume da série. Entretanto saiu As Ruínas de Babel. Quanto ao quarto, A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto (de onde foi retirada a história "A Insuspeitada Beleza do Teorema de Tutte", pré-publicada ao virar desta página [não disponível na edição online]), tem lançamento previsto para os próximos dias. FG
(In: Periférica, Primavera 2004)

(Fotografia de João Redondo)
suponhamos que ele tem 30 e ela 17
música de tom jones os dois dançando muito juntos
no centro da pista suponhamos que decidem
que ela se entrega no wc dos homens
que passam três dias e três noites fechados
no holly day inn casa-de-banho piscina vistas para a estrada
que ele é um maníaco que ela faz coisas em frente a uma handycam sony de 8mm
coisas que ao princípio doem e depois doem mais
que acorda na valeta da nacional 95
aturdida pelo efeito dos soníferos quase nua
como os filhos do mar
e que espera o autocarro nalgum ponto do mapa depois de caminhar toda a
noite com os sapatos brancos na mão encadeada pelos faróis de todos
os camionistas
(Pablo García Casado- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004)

(Kafka)
Na verdade tinhas tantas vezes razão contra mim que era surpreendente; nada mais natural quando isso se passava em palavras, porque raras vezes íamos até à conversação, mas tinhas razão até nos factos. Contudo, não havia, também neste caso, nada de especialmente incompreensível: estava pesadamente comprimido por ti em tudo o que se referia ao meu pensamento, mesmo e sobretudo onde ele não se ajustava ao teu. O teu juízo negativo pesava desde início sobre todas as minhas ideias independentes de ti na aparência; era quase impossível suportá-lo até ao remate total e duradouro da ideia. Aqui, não falo de não sei que ideias superiores, mas de pequenos casos infantis, seja ele qual for. Bastava simplesmente estar feliz a propósito de coisa qualquer, de estar pleno, de voltar para casa e dizê-lo, e recebia-se à guisa de resposta um sorriso irónico, um maneio de cabeça, um bater de dedos em cima da mesa (...). Não será necessário dizer que não te podíamos pedir entusiasmo por cada uma das nossas bagatelas infantis, enquanto estavas mergulhado em preocupações e desgostos. Aliás não se tratava disso. O importante é antes que, em virtude da tua natureza oposta à minha, e por princípio, eras sempre levado a preparar decepções deste género à criança, que a oposição se agravava constantemente graças à acumulação do material, que se manifestava por hábito, mesmo quando eras por acaso da minha opinião e que a tua pessoa fazia autoridade em tudo, as decepções da criança não eram decepções da vida corrente, mas iam direitas ao coração. A coragem, o espírito de decisão, a confiança, a alegria de fazer tal ou tal coisa não podiam ir até ao fim quando te opunhas ou até quando se podia suspeitar da tua hostilidade: e esta suposição, podia tê-la a propósito de quase tudo o que eu empreendia.
Isso aplicava-se tanto às ideias como às pessoas. Bastava-te que alguém me inspirasse algum interesse (...) para intervires brutalmente pela injúria, a calúnia, as falas aviltantes, sem a menor consideração pela minha afeição e sem respeito pelo meu juízo. Seres inocentes e infantis foram obrigados a padecer.
(Kafka- CARTA AO PAI)
(Pintura de Fernando Esteves Pinto)
Um grande beijo para o autor, também escritor. Um homem das artes.

de fora. quero ficar de fora para o vento. libertar-me das amarras do controlo e voar sobre o impacto de gritar.
gritar.
gritar.
não controlo este sentimento.
consegues mitigar a dor da petrificação sobre as palavras mal vividas?
hoje quero prantear a tua demora, a tua opacidade, a putrefacção da realidade dentro das coisas palpáveis, teclados de sonhos em visões desesperadas de desejo, muito além dos trocadilhos amorosos. lês-me e desenterras, sulcas e afogas-te entre rios de amarguras, ódios disfarçados em velhos espelhos partidos que cortam, oscilando pelo sangue enxuto e o sangue imaculado, fresco que pulsa, esperando, procurando, descobrindo, atentando.
o perigo está nos dias da loucura, nos versos de esperanças que vergastam o tempo e incendeiam as estreitas ligações de sanidade temporária, pois que não é esse verbo de negação que acompanha a minhas acções no dia-a-dia da coerente ausência?
perco-me na infelicidade feliz por quem, cujos braços se estendem ao mundo, tão distantes de alguma vez alcançarem esta cova de suspiros abandonados.
sussurra outra vez o amor a encostar-se à pele, as labaredas a incutirem-se pelos lábios salgados do gemido abafado, diz-me novamente os cabelos a soltarem-se pelo soalho despido, os tecidos a fugirem da carne efervescente enquanto as curvas se esculpem nos dedos de escritor. toca-me as sonatas de pintor, escreve-me nos quadros de acrílico e esvazia-me no barro que escorre pela tua sombra. deixa a respiração ecoar pela realidade perturbante. deixa os gritos acharem-se em gemidos silenciosos. deixa o momento sonhar-nos.
(Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura).

(Fotografia de Alberto Monteiro)
É provavelmente verdade que um homem nos fica sempre desconhecido, e que nele sempre subsiste qualquer coisa de irredutível que nos escapa. Mas, praticamente conheço os homens e reconheço-os pela sua conduta, pelo conjunto dos seus actos, pelas consequências que a sua passagem suscita na vida. Da mesma maneira posso praticamente definir, praticamente apreciar todos esses sentimentos irracionais que a análise não consegue captar. Para tanto me basta reunir a soma das suas consequências na ordem da inteligência, surpreender-lhes e fixar-lhes a face, delimitar-lhes o universo. É certo que, aparentemente, lá por ter visto cem vezes o mesmo actor, nem por isso o conheço pessoalmente melhor. No entanto, se eu adicionar os heróis que ele encarnou e disser que o conheço um pouco mais, por ocasião da centésima personagem recenseada, sente-se que há aqui uma parte de verdade. Porque este paradoxo aparente é também um apólogo. Tem uma moralidade. Ensina que um homem se define bem através das suas comédias como através dos seus impulsos sinceros. Assim acontece, um tom abaixo, com os sentimentos, inacessíveis no coração, mas parcialmente traídos pelos actos que eles animam e pelas atitudes de espírito que pressupõem. (...)
O método que aqui defino confessa o sentimento de que todo o verdadeiro conhecimento é impossível. Só as aparências podem enumerar-se e o clima fazer-se sentir.
(Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO)

(Ferreira Gullar)
O sofrimento não tem
nenhum valor.
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).
Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?
A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)

(Fotografia de Marta Veríssimo)
Meu coração está triste
E sente-se bastante solitário
Resolveu que deve seguir
O seu destino sozinho
Pois não quer mais dividir
Suas emoções
Não quer mais estar com...
Pois, não consegue viver
Numa vida de subterfúgios
Nem trabalhar
Com momentos mendigados
Prefere antes estar só
Meu coração
Procura abrigo
Mas, não com certeza
Dessa forma
Quer ser livre
E poder amar e viver livremente
Não consegue viver
Num mundo
Onde reina a hipocrisia
O falso moralismo
É o que é
Chegou a hora de
Quabrarmos as correntes
E assumo
Basta de silêncio.
(Lília Trajano- INÉDITO)
[Conta comigo no acompanhamento deste teu projecto. Acima de tudo: com amizade e sem os tais falsos moralismos. Sandra]
Em tempos, o enxoval representava um quinto da erótica feminina, que nele empregava desejos, fantasias e até as funções mais abissais do tédio. Os bordados, as bainhas, as rendas aplicadas, as cambraias e os linhos, tinham um significado ligeiramente bestial; um significado de rogo e praxe amorosa que roça pela obscenidade. Fazer ilhós e abrir os riscos de folhagem em volta duma haste em cordão perlé tinha quase o significado dum himeneu. Ema já não estava senão na orla final dessa praxe de gineceu, mas tinha ainda nos ouvidos as recomendações de dona Augusta, ela própria uma dama dos enxovais, que arrumava em armários altos como oratórios; nunca se casou, mas o enxoval cumpriu o seu simbolismo, deu-lhe as alegrias fabulosas do encontro dos corpos e a sensual presença no noivado aromatizado de camoesa e lavanda. Ema percebeu que quanto mais o casamento desagradava e tinha espinhos que feriam de maneira profunda, mais as mulheres voltavam para esse enxoval as suas atenções quase libidinosas. No tempo de Ema, a roupa interior tomou a dianteira sobre o enxoval da casa; fez-se subtil ardente e requintada. Cumpriu com a missão de encobrir desejos sem os deixar de ouvir. Ema teve uma das maiores colecções de camisas de noite, de seda e de algodão fino. Vestia-as, e sentia-se outra: uma deusa na sua concha, embalada pelo mar.
(Agustina Bessa-Luís- VALE ABRAÃO)
Para além do livro, recomendamos:

Argumento:
"Vale Abraão" é a história de Ema, uma mulher de uma beleza ameaçadora. Para Carlos, o marido com quem se casou sem amor, "um rosto como o seu pode justificar a vida de um homem". O seu gosto pelo luxo, as ilusões que tem na vida, o desejo que inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de "A Bovarinha". Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um sentimento crescente de desilusão que a leva a definir-se como nada mais que "um estado de alma em balouço". Ema morrerá- "acidentalmente? Quem sabe?"- num dia de sol radioso, depois de se ter vestido como se fosse para ir a um baile."
Actores:
- Leonor Silveira
- Luís Miguel Cintra
- Cecile Sanz de Alba
- Rui de Carvalho
- Glória de Matos
- Luís Lima Barreto
- João Perry
- Diogo Dória
- Isabel Ruth
- Micheline Larpin
O DVD:
- Entrevistas com Agustina Bessa-Luís e Leonor Silveira
Duração do filme:
210'


Enfim... seja a Maitena, sejamos cada uma de nós, ainda andamos muito assim... nos inícios do Século XXI (não, isto não é Feminismo, é a realidade):

(Trabalhos de Maitena)



(Trabalhos de Maitena)
[Pelo imenso carinho da minha parceira, pelo "abanão", "bofetada" e "carta" do Fernando, acabei por voltar. Vamos lá ver como vou conciliar este e outros projectos. Que raio de vida!! ... Sandra ;)]

(Pintura de Karina Gallo)
como me querem?
de frente, não?
talvez de lado.
de frente não fico bem
nota-se mais a tristeza
funda que sobre as coisas
deita o meu olhar parado
então está assente:
para não perturbar a paz dos dias
fico de lado como um disfarce
nessa penumbra da gente
que não tem onde agarrar-se
(Maria Costa- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)

A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar. Saberemos tomar um caminho
por essa floresta escura? Poderemos sequer recuperar a pequena bússola partida,
a caneta e o papel, as nossas certezas de trazer no bolso?
Não nos avisaram contra o medo,
não nos disseram que pode chegar
a qualquer hora, deslealmente,
enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas
se levantam para receber o Verão. E agora
que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido
que nos sirva, o nosso único guia é o amor
dos que nos esperam numa sala branca
onde o chão nos falta e não há estações.
(Rui Pires Cabral- poema publicado na revista Periférica, Verão 2003.)

(Fotografia de Christian Coigny)
Juan, ainda cansado, e suado, disse a Irene:
- Acho que deveríamos experimentar algo novo, não sei, tentar outras experiências que nos impeçam de cair na rotina...
Depois de dois segundos de um silêncio premeditado, Irene procurou- e encontrou- com um olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão...
- Eu acho que não corremos esse risco, que somos uma parelha divertida, ou será que já te cansaste de mim?
Juan engoliu saliva e deixou-se hipnotizar, uma vez mais, pelo verniz de unhas de Irene. “É tão verde como a erva”, pensou e calou.
- Nunca me cansarei de ti... muito pelo contrário. Tenho medo de que tu o faças. Temo-o...
Irene arqueou as sobrancelhas como uma malvada preceptora suiça de conto infantil- animação de produção japonesa.
- Enquanto me aguentares, não temas nada.
- Aguentarei tudo- disse Juan. Mentia, o coração latia assustado, recordando outros momentos similares, próximos no tempo.
- Poderias aguentá-lo hoje?- perguntou Irene, entregue de novo ao jogo.
Juan engoliu saliva, mas já não se deixou hipnotizar pelo verniz verde-erva das suas unhas.
- Acho que sim...- respondeu sem convicção.
E foderam de novo, até que ela disse basta.
Então, meio asfixiada, satisfeita, bêbada de adrenalina, procurou- e encontrou- com aquele olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão e o sangue de Juan correndo em direcção à porta. Decepcionada, abandonou o apartamento sem dizer adeus.
E decidiu não voltar a utilizar esse verde para as unhas, nem esse corpete de couro que lhe assava o peito, nem umas facas tão rudimentares, nem um apartamento tão fatela. E decidiu também Sandra não voltar a chamar-se Irene, nem procurar os seus amantes em bares de beira de estrada.
(Salvador Gutiérrez Solís- texto publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)
- sabes dançar?
- não. ensinas-me?
- sente. sente até tu, eu e a música sermos um só.
- assim?

(Trabalho do autor)

(Fotografia de Mário Filipe Pires)
e te dizia eu como o calor transtorna
a nítida visão das coisas
é que não tenho outra explicação
então não me dizias tu que o carro que havíamos de ter
seria era todo azul com os estofos encarnados
e que os girassóis cresciam na minha janela
e que eram os mais lindos que alguma vez se vira
e que as açucenas mais brancas eram as minhas mãos
coladas às tuas- puríssima comunhão
então- e os olhos mais doces que mel
o jeito de rir os lábios em botão
o meu corpo criado no céu
etc. e tal
só pode ter sido o calor que tudo transtorna
quando no inverno a seguir
me confessavas já frio e sem rir
que nada era assim era tudo doutra forma
ora eu fiquei com a voz engasgada
porque me parecias um ser de virtudes
vá-se lá a gente fiar-se
não há nada como ter um pé-de-meia
contra as vicissitudes e
guardar-se
(Maria Costa- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)

(Fotografia de Christian Coigny)
O amante de Cholen habituou-se à adolescência da rapariga branca até se perder nela. O gozo que tira dela todas as noites comprometeu o seu tempo, a sua vida. Já quase não lhe fala. Talvez ele julgue que ela já não compreenderia o que lhe diria dela, daquele amor que ele ainda não conhecia e de que não sabe dizer nada. Talvez ele descubra que nunca se falaram ainda, salvo quando chamam um pelo outro nos gritos do quarto à noite. Sim, acho que ele não sabia, que descobre que não sabia.
Ele olha-a. Com os olhos fechados ainda a olha. Respira o rosto dela. Respira a menina, de olhos fechados respira a sua respiração, esse ar quente que sai dela. Discerne cada vez menos claramente os limites desse corpo, aquele não é como os outros, não está acabado, cresce ainda no quarto, não tem ainda formas definitivas, faz-se a cada momento, não está apenas ali onde ele o vê, também está algures, estende-se para lá da vista, para o jogo, a morte, é elástico, parte inteiro para o gozo como se fosse grande, em idade, sem malícia, duma inteligência assustadora.
Eu observava o que ele fazia de mim, como se servia de mim e nunca pensara que se pudesse fazê-lo daquela maneira, ia além da minha esperança e conforme com o destino do meu corpo. Assim tinha-me tornado sua filha. Ele também se tinha transformado noutra coisa para mim. Começava a reconhecer a suavidade inexprimível da sua pele, do seu sexo, para além dele mesmo. (...)
Tudo ia ao encontro do seu desejo e o fazia possuir-me. Tinha-me tornado sua filha. Era com a filha que fazia amor todas as noites. E às vezes fica com medo, de repente preocupa-se com a sua saúde como se descobrisse que ela era mortal e o trespassasse a ideia de que a podia perder. (...)
Possuía-a como possuiria a sua filha. Era assim que possuiria a sua filha. Brinca com o corpo da filha, volta-a, cobre com ele o rosto, a boca, os olhos. E ela, ela continua a abandonar-se na direcção exacta que ele tomou quando começou a brincar. E de súbito é ela que lhe pede, não diz o quê, e ele, ele grita-lhe que se cale, grita-lhe que já não a quer, que já não quer ter prazer com ela, e ei-los de novo presos, aferrolhados entre si no horror, e eis que esse horror se desfaz mais uma vez, que lhe cedem mais uma vez, em lágrimas, no desespero, na felicidade.
(Marguerite Duras- O AMANTE)
[Para alguém que me pediu para trazer novamente aqui Marguerite Duras. Sandra]

(Clã)
Vieste comigo
Nesse jeito pós-moderno
De não querer saber nada
De não fazer perguntas
Essa pose cansada
Tão despida de emoção
De quem já viu tudo
E tudo é uma imensa repetição
Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Quase já não conta
Depois quase ias embora
Desse modo
Evanescente
Não soubesse eu ver-te tão transparente
E teria sido apenas
Um encontro acidental
Uma simples vertigem
Dum desporto radical
Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Já quase não conta
(Clã- ROSA CARNE)
P: como se escreve carinho, conforto, descanso, ternura, meiguice, aconchego?
R:

(Trabalho do autor)
De volta surge o poeta
Triste e frio
Surge, mas, não principia
Acredita que já não há vida em si
Poeta morto
Vagueia feito fantasma
Caminha por entre orvalhos
Silencia com seu suspiro
Dilacerado de dor
Dor, que tormenta dor
Dor cheia
Que aguenta e arrebenta dor
Em plena lua cheia, minguante
No sal da terra de quem não sabe
E não sabe mesmo, pensa o poeta:
Que vivo não pode amar
E o poeta só e morto prossegue
Segue sem saber
Que seu saber
Que seu corpo já não mais pertence ao mundo
Seu corpo flutua no imenso Tejo
Flutua com sua angústia
Com sua fome de não ser amado
Nada é ou será como dantes
Basta olharmos o céu para vermos
Que de azul se tornou cinzento
Já não há esperança
A guerra segue no seu curso matando
E quem morreu foi o pobre do poeta
Que nada tinha a ver com a guerra
Mas foi atingido pela hipocrisia do amor
O poeta tentou olhar no mirante
Do alto da porta do sol
Mas a chuva não deixou
O poeta está morto
Morreu por ter amado
E de tanto amar foi esquecido
O poeta não soube fingir
Não soube disfarçar sua dor
Foi definhando devagar
Devagar e pra sempre
Agora seu corpo jaz sobre o Tejo.
(Lilia Trajano- INÉDITO)
[Um poema espectacular este, Lília. Beijo grande para ti, amiga. Sandra]
abraçar-te como quem abraça o vento
segurar-te como quem segura o tempo.

(Trabalho do autor)

(Marguerite Duras)
Muito cedo na minha vida foi tarde de mais. Aos dezoito anos era já tarde de mais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezassete anos aquando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezanove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído.
(Marguerite Duras- O AMANTE)
deslizando pelo teu corpo, a minha mão encontrou a tua. aberta, dedos em riste, tal qual sentidos. ansiando... apertaram-se em uníssono e contraíram-se assim, imitando os corpos num crescendo de prazer. eis o instante:

(Trabalho do autor)
[Com este post iniciamos a apresentação semanal do trabalho de Alves, blogger do "Abstracto Concreto". Os conjuntos por si construídos merecem, desta forma, o nosso conhecimento, atenção e sentir de significado. Fiquemos, pois, com eles. Sandra]

Tenho ainda a dizer-vos que tenho quinze anos e meio. (...)
Aconteceu muito depressa nesse dia, uma quinta-feira. Ele veio todos os dias buscá-la ao liceu para a levar ao pensionato. E depois, uma vez, veio uma quinta-feira à tarde ao pensionato. Levou-a no automóvel preto.
É em Cholen. É do lado oposto às avenidas que ligam a cidade chinesa ao centro de Saigão, essas grandes estradas à americana percorridas pelos eléctricos, os riquexós, os carros. É logo no começo da tarde. Ela escapou ao passeio obrigatório das raparigas do pensionato.
É um apartamento no sul da cidade. O sítio é moderno, dir-se-ia que mobilado de qualquer maneira, com móveis a atirar para o moder style. (...)
Ela diz-lhe: preferia que não me amasse. Mesmo que me ame gostaria que fizesse como habitualmente faz com as mulheres. Ele olha-a como que apavorado, pergunta: é isso que quer? Ela diz que sim. Ele começou a sofrer ali, no quarto, pela primeira vez, já não mente acerca disso. Diz-lhe que já sabe que ela não o amará nunca. Ela deixa-o dizer. Primeiro diz que não sabe, depois deixa-o dizer.
Ele diz-lhe que está só, atrozmente só, com esse amor que tem por ela. Ela diz-lhe que também está só. Não diz com quê. Ele diz: seguiu-me até aqui como teria seguido outro qualquer. Ela respondeu que não pode saber, que nunca seguiu ninguém a quarto nenhum. (...)
Ele arrancou o vestido, arrancou as calcinhas de algodão branco e levou-a assim nua até à cama. E depois volta-se para o outro lado da cama e chora. E ela, lenta, paciente, vira-o para si e começa a despi-lo. De olhos fechados, despe-o. Lentamente. Ele quer fazer gestos para a ajudar. Ela pede-lhe que não se mexa. Deixe-me. Ela diz que quer ser ela a fazê-lo. Fá-lo. Despe-o. (...)
A pele é duma sumptuosa suavidade. O corpo. O corpo é frágil, sem força, sem músculos, poderia ter estado doente, estar em convalescença, é imberbe, sem outra virilidade que a do sexo, é muito fraco, parece à mercê de um insulto, débil. Ele não a olha no rosto. Não o olha. Toca-o. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a desconhecida novidade. Ele geme, chora. Está num estado de amor abominável.
E a chorar fá-lo. Primeiro há a dor. E depois esta dor é por sua vez possuída, transformada, lentamente arrancada, levada até ao gozo, abraçada a ele. O mar, sem forma, simplesmente incomparável. (...)
Não sabia que se deitava sangue. Ele pergunta-me se me doeu, digo-lhe que não, ele diz ainda bem.
Ele limpa o sangue, lava-me. Olho-o enquanto o faz. Insensivelmente ele torna a ser desejável. (...)
Olhamo-nos. Ele beija-me o corpo. (...)
(Marguerite Duras- O AMANTE)

(Fotografia de Marta Veríssimo)
Os sonhadores odeiam a realidade da vida. Odeiam aqueles que se apresentam como construtores de ideais que só fazem sentido num compartimento ingénuo da existência. A loucura dos meus actos é uma ameaça para aqueles que me amam. As minhas palavras constituem o perigo de viver com os outros, os reais. Quando comecei a escrever, houve por certo alguém que perguntou: escrever porquê? Escrever contra quem? Sempre soube que escreveria contra mim. Na minha casa em Cascais escrevi contra a família. Nunca fui impulsionado pelas virtudes protectoras da inspiração literária. Escrever era viver tudo outra vez. Era sofrer como se não tivesse já sofrido. Escrever a primeira palavra de um muro que se apresentava em duplicado: um muro erguido pela força da minha escrita; um muro derrubado pelo medo de leitura a meu respeito. Os sonhadores escrevem as histórias de medo que sempre desprezaram. Na minha vida nunca tive nada que pudesse perder enquanto escrita, isto é, nada do que eu escrevi o devo à perda que poderia significar algumas situações da minha própria existência. Eu sabia que o sofrimento do que escrevia se transformava na felicidade dos que me liam. Compreendi que só podia escrever como se estrangulasse os sentimentos daqueles que esperavam de mim um choro poético que os tranquilizassem da ameaça mental que eu constituía na sua forma de viver. Enganaram-se todos. Se havia um relâmpago a rasgar os dias das suas vidas, isso era o meu pensamento a autopsiar os comportamentos dos que me rodeavam. Não acredito na inspiração, sentar-me para escrever e aguardar serenamente que um deus pensativo me ofereça uma guloseima literária que se adapte sem angústia ao meu pensamento. Nunca foi assim. Quando vou para escrever também vou para morrer. Levo tudo destruído. O meu campo de escrita é uma melodia fulminante. Ouço a música da morte que extermina as palavras que se perdem no interior onde são pensadas. E no fim de tudo o que escrevo, só eu sinto que existe em mim uma sepultura de palavras humanas.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
[Com este post damos por concluída a edição semanal de textos do autor. A ele o nosso imenso agradecimento e o reforço da exteriorização daquela que é a nossa admiração pela sua escrita. Sandra]

(Fotografia de Bruno Espadana)
Hoje li uma história que começava mal. Fez-me pensar em ti. Agora que estou a pensar em tudo o que li nessa história, tenho uma ideia para ser escrita. Porque será que as histórias tristes são assim tão lindas? Eu penso que seja porque existe muito amor dentro delas. Eu sei que sou suspeito pelo sofrimento que te faço sentir. Destruo-te pelas palavras. É a minha forma de escrever. Começar uma frase pela destruição. O meu pensamento és tu num quarto fechado. Não sei amar as multidões. O meu amor por ti é tudo aquilo que escrevo sobre esse quarto onde vives por mim. Não me odeies por isso. Não acredito nas pessoas. Tu sabes que eu fecho os olhos ao mundo. Eu estou a escrever talvez sem o teu mundo. O esquecimento é uma perturbação do não sentir. Tu escutas o meu pensamento como um vazio que sentes dentro da tua vida. Eu escrevo nesse tempo destruído onde abandonas todos os teus sentimentos. Não sei amar, não fossem as palavras. Nunca te dei viagens, apenas te fiz sentir no centro do teu próprio corpo. Uma frase minha não paga bilhete para qualquer lugar do mundo. Sou um amante habitacional. A minha inspiração és tu numa cama aberta. O meu amor nunca foi disperso. Não gosto de passear numa cidade com desejo de possuir-te. Sou um cão humano. Gosto de viajar sem tesão. Às vezes ponho a mão na cabeça e escrevo sem pensar. Oiço uma música que me risca a memória. Diz-me tu porque é que as histórias tristes são salvas pelos sentimentos mais belos. É como querer recuperar o amor daqueles que já não amam? Não esperes que eu escreva para resolver a tua vida. Ensina-me a odiar-te humanamente. Eu farei o mesmo com as palavras. A história que eu li falava do amor que se sente para sempre perdido. A escrita é uma boa razão emocional para evitar certas afectividades artificiais.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)