
(Fotografia de Jorge Garcia)
Por momentos pensei ter que pensar,
Por momentos sonhei ter de sonhar,
Mas os pensamentos de mim se foram
E os sonhos, esses, aqui dentro choram;
Que fuga cruel, que choro terrível!
São as peripécias de um ser frustrado,
Alguém que nunca por ti foi amado,
Alguém para quem tudo é susceptível.
É assim a vida, é assim a solidão,
Tudo está envolto numa agonia,
Não escuto mais a voz do coração!
As sombras encerraram-se no escuro,
Já não paira no ar essa magia
Que em tempos me entregou à Fantasia!
(Teresa Sousa- INÉDITO)
[Mais um exemplo do que escreveste e mais um estímulo, meu, para que voltes a fazer exercícios destes. Abraço muito fechado. Sandra]

Palavras e mais palavras
carregadas,
de tantas outras palavras,
das memórias passadas.
Partilha das partilhas
neste gesto de olhar rasgado,
pela língua sôfrega,
que rodopia
de encontro ao agora.
(ccc- SÔFREGA)
[O primeiro de outros poemas da autora que espero editar. Para ti, o meu obrigada. Sandra]

(Fotografia de Luís Raposo)
dá-me alguma da tua pele terra
tu que não me pedes nada e
me apareces de noite vestida de
nudez pele terra e me abres caminhos
para que te conheça dá-me algum
do silêncio que me dás para que
nele te diga pele terra se de noite
me apareces iluminada de muitos
pássaros a nascer e a voar a
nascer e a voar silêncio pele terra
para que te conheça dá-me o que
dás a todos e nunca deste senão
a mim pele terra tu que me dás
os gestos das minhas mãos
a música das minhas palavras que
me dás pele terra esconde-te
dentro de mim
(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUÍNAS)

(Gonçalo M. Tavares)
Em comparação com a administração de um país, individualmente, em tempo de guerra, cada homem, por si, como que fundava um Ministério da Normalidade, que impunha, essencialmente, repetições. Porque só as repetições acalmavam, só as repetições permitiam a cada indivíduo voltar a encontrar-se humano no dia seguinte. Repetições de actos ou de pequenos gestos, de palavras ou de frases banais- repetições até de actos não visíveis, mas registáveis pelos outros, como imagens e memórias do cérebro, tudo isso permitia a cada um sobreviver no meio da confusão, resistir no meio do reino da desordem, no meio daquilo que Klober costumava designar como século da imprevisibilidade, século não apenas contrário mas inimigo da repetição. Este não é um século normal, costumava dizer Klober, mas os homens deste século continuam a ser o que sempre foram. E era esta, a mistura: Homens que repetiam os actos essenciais das gerações anteriores e que eram invadidos- e esta é uma utilização exacta do termo pois descreve o fluxo e a velocidade dos movimentos- eram invadidos, então, ao mesmo tempo, por fenómenos absolutamente novos.
(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)

(Fotografia de José Silva Pinto)
Sei bem que não se pode passar sem dominar ou ser-se servido. Todo o homem tem necessidade de escravos como de ar puro. Mandar é respirar, não é dessa opinião? E até os mais deserdados chegam a respirar. O último na escala social tem ainda o cônjuge ou o filho. Se é celibatário, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se sem que outrem tenha o direito de responder. "Ao pai não se responde", conhece a fórmula? Em certo sentido, ela é singular. A quem se responderia neste mundo senão a quem se ama? Por outro lado, ela é convincente. É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão, a toda a razão pode opor-se outra: nunca mais se acabava. A força, pelo contrário, resolve tudo. Levou tempo, mas conseguimos compreendê-lo. Por exemplo, deve tê-lo notado, a nossa velha Europa filósofa, enfim, da melhor maneira. Já não dizemos, como nos tempos ingénuos: "Eu penso assim. Quais são as objecções?" Tornámo-nos lúcidos. Substituímos o diálogo pelo comunicado. "Esta é a verdade, dizemos. Podem ainda discuti-la, isso não nos interessa. Mas dentro de alguns anos, lá estará a polícia para lhes mostrar que tenho razão."
(...)
Cá entre nós, a servidão, de preferência sorridente, é pois inevitável. Mas não o devemos reconhecer. Quem não pode fugir a ter escravos, não valerá mais que os chame homens livres? Por princípio, em primeiro lugar, e depois para os não desesperar. É-lhes bem vinda esta compensação, não acha? Deste modo, eles continuarão a sorrir e nós manter-nos-emos de consciência tranquila. Sem o que, seríamos forçados a voltar-nos sobre nós mesmos, ficaríamos loucos de dor, ou até modestos, tudo é de temer.
(Albert Camus- A QUEDA)

(Trabalho de Miguel Ângelo Costa)
escrever os dias difíceis. não sei por onde começar. parecem fotografias desfocadas as horas a explodirem numa escuridão mental. escrevo como se o pensamento ardesse num corpo estranho. a ausência dá-me isto: um fio de silêncio a enrolar-se à volta do meu rosto. consigo ver estas coisas. consigo sentir estas imagens, micro-filmes a fabricar a decomposição dos dias difíceis. é um esforço de me entregar à morte feliz do tempo que uma palavra devora para ser escrita. estou confuso. estou a ser escrito pela loucura. faço um exercício de vida durante a tua imagem. é possível fotografar a felicidade na perspectiva da ilusão. li as tuas palavras e estavam nítidas. eram tristes e ausentes. tinham imagens dentro de imagens num infinito de sofrimento. foi isso que eu senti: uma caixa negra no coração.
(Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA)
[Mais uma prova da excelência do autor. Para ler outros textos ver aqui. Obrigada pela tua escrita, Fernando. Sandra]

- As máquinas de guerra vêm aí, mas não tenha medo. O problema não são as máquinas que se aproximam da cidade, são as máquinas que já aqui estão.
As diferentes gerações mecânicas, a sua História, Walser: progridem. Tal como as nossas ideias. Mas as máquinas começam a ter autonomia, as ideias não.
As máquinas interferem já na História do país e também na nossa biografia individual. Elas não têm já apenas um percurso material ou de factos. Têm também uma História do espírito, um caminho já realizado no mundo do invisível, no mundo daquilo que se sente e se pensa. Acredita-se até que as máquinas levam o Homem para sítios mais próximos da Verdade.
E também pode ser reduzida a um sistema binário, a alegria. A um sim ou a um não, a 0 ou a 1: existe ou não existe. E essa eficácia, meu caro, essa eficácia fundamental, essa eficácia primeira, depende já, também, em grande parte, das máquinas, da rapidez com que elas transformam causas e necessidades em efeitos benéficos.
A felicidade foi já reduzida a um sistema que as máquinas entendem, e no qual podem participar e intervir. Já nenhuma felicidade individual é independente da tecnologia, amigo, Walser. Se quiser números, podemos brincar aos números: a felicidade individual de um dia depende, vá lá, 70% da eficácia material das máquinas. Que a felicidade invisível esteja submetida a uma felicidade concreta, a uma felicidade de materiais em diálogo, de peças metálicas que encaixam umas nas outras e resolvem problemas fazendo determinadas tarefas, como tal pode parecer estranho; mas é o século.
Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos à palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo.
(Gonçalo T. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)

(Fotografia de Jorge Tam)
Ó noite sombria e gélida escuta
Este meu silêncio mortificado,
Este singelo som enfeitiçado
Sepultado na mais escura gruta;
Sente esta profunda dor que em mim mora,
Esta imensa saudade que em mim chora
Ao recordar momentos de opulência
Na derradeira idade da inocência;
Vê estes olhos que nada vêem,
Pobres, caíram na eterna cegueira
E entregaram-se à mais suja poeira!
Fala-me dos teus felizes horrores,
Desses teus castos e honrosos temores…
Como eu te invejo minha noite amiga!
(Teresa Sousa- INÉDITO)
[Pela amizade, pelo carinho, pela ternura, pelo respeito... por tudo o que tenho cá dentro, apresento mais um poema teu. Abraça-te, Sandra.]

(Fotografia de Cristina Carriconde)
Haverá um país de regresso
ou um corpo
ao qual se volte
sem que nos sintamos estrangeiros.
Ao qual se regresse num suspiro.
No espaço exato entre
a inspiração e a expiração.
Como se este movimento
fosse o mergulho que precisávamos,
que desejávamos,
que urgia.
(Eugénia Fortes- EUGENIAINTHEMEADOW)
[Um outro exemplo do quanto bem escreve a Eugénia. O seu lugar está, por isso, garantido aqui. Sempre. Beijo. Sandra.]

(Fotografia de Mel Figueiredo)
A noite estava reservada a uma sessão de sexo. Instalados na sala, com a atenção fixa numa série que passava na televisão, raramente se olhavam ou dirigiam a palavra um ao outro a comentar qualquer assunto. Não havia um sinal que denunciasse que daí a pouco tempo se iniciaria um programa sexual entre os dois. Nada fazia prever que eles eram um casal apaixonado. Nenhum acto de conquista de parte a parte ilustrava um ambiente amoroso e sensual. É precisamente isso que acontece aos casais que sobrevivem numa relação duradoura e contaminada por rotinas emocionais. O planeamento sexual num casal com estas características é uma ideia inevitavelmente inteligente e benéfica do ponto de vista da ruptura. Deixando para trás os tempos de juventude em que um simples olhar era apontado como um precoce orgasmo; agora o facto de pensarem em sexo, fazendo contas no calendário do desejo mútuo (desejo cada vez menos coincidente entre ambos), deixava-os num à vontade relaxante, livre de todo o tipo de encenação erótica. Em vez de sexo espontâneo e atemporal, a prática do amor é orientada pelas regras da obrigatoriedade sexual. Mas não se pense que existe uma impostura do desejo que prevalece sobre o companheiro. O sexo nestes termos é adoptado como um comportamento de defesa. O sexo programado funciona como um filtro que protege do desgaste e do massacre emocional. Os dias em que não há actividade sexual são os mais intensamente sensuais e cheios de imagens renovadas. É nesses dias que se ensaia a pornografia doméstica que se põe em prática de acordo com a fantasia de cada um. O sexo programado é a garantia do corpo infalivelmente presente; mas também garante a frieza e o amor distante. Na sala ou no quarto, eles haveriam mais uma vez de comprovar as mentiras que o sexo impõe.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
[Mais um retrato interessantíssimo da vida real. Mais um daqueles que o autor escreve com muitíssima qualidade. Com reconhecimento, Sandra]

Saio de casa sem destino.
A aparente calma deste dia
Grita a solidão de dois corpos
Que não conseguem viver separados,
Mas juntos nada criam.
Páro no meio da paisagem
E guardo no bolso a chave
Que um dia foi tua...
(Morgatha- NIGHTWRITINGS)
[Mais um exemplo de qualidade. Beijo para ti. Sandra]

(Trabalho de José Pedro Pinto da Costa)
Amigo, estás longe. E a tua vida
está envolta em cores que eu não vejo.
E a minha vida está envolta em cores
que eu não vejo.
(Sandro Penna- NO BRANDO RUMOR DA VIDA)

(Boris Vian)
Já não me apetece muito
Escrever pohesias
Se fosse como dantes
Fá-las-ia abundantes
Mas sinto-me muito velho
Sinto-me muito sério
Sinto-me consciencioso
Sinto-me preguicioso
(Boris Vian- CANÇÕES E POEMAS)

(Albert Camus)
Nunca tive necessidade de aprender a viver. Nesse ponto, já tudo eu sabia ao nascer. Há pessoas cujo problema consiste em resguardarem-se dos homens, ou, pelo menos, acomodarem-se a eles. Quanto a mim, a acomodação estava feita. Familiar quando era preciso, silencioso se necessário, capaz de desenvoltura como de gravidade, estava sempre ao nível. Era por isso grande a minha popularidade, e os meus êxitos na sociedade nem se contavam. Tinha boa figura, revelava-me simultaneamente bailarino infatigável e discreto erudito, chegava a amar ao mesmo tempo, o que não é nada fácil, as mulheres e a justiça, dedicava-me aos desportos e às belas-artes, enfim, não digo mais, não vá suspeitar que me envaideço. Mas imagine, peço-lhe, um homem na força da idade, de perfeita saúde, generosamente dotado, hábil nos exercícios do corpo como nos do intelecto, nem pobre nem rico, de sono fácil, e profundamente satisfeito consigo mesmo, sem que o mostrasse, a não ser por uma feliz sociabilidade. (...) O meu acordo com a vida era total, eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões. Particularmente a carne, a matéria, o físico, numa palavra, que desaponta ou desanima tantos homens no amor ou na solidão, dava-me, sem me escravizar, alegrias iguais. Tinha sido feito para ter um corpo. Daí esta harmonia em mim próprio, este autodomínio sem esforço que as pessoas sentiam, e que, segundo confessavam por vezes, as ajudava a viver. Buscavam, pois, a minha companhia. Muitas vezes, por exemplo, julgavam ter-me já encontrado. A vida, os seus seres e os seus dons vinham ao meu encontro; eu aceitava estas homenagens como uma benévola altivez. Na verdade, à força de ser homem, com tanta plenitude e simplicidade, achava-me um pouco super-homem. (...) Não, à força de ser cumulado, sentia-me, hesito em confessá-lo, um eleito.
(Albert Camus- A QUEDA)

(Mafalda Veiga)
há gente que espera de olhar vazio
na chuva, no frio, encostada ao mundo
a quem nada espanta
nenhum gesto
nem raiva ou protesto
nem que o sol se vá perdendo lá ao
fundo
há restos de amor e de solidão
na pele, no chão, na rua inquieta
os dias são iguais já sem saudade
nem vontade
aprendendo a não querer mais do que o
que resta
e a sonhar de olhos abertos
nas paragens, nos desertos
a esperar de olhos fechados
sem imagens de outros lados
a sonhar de olhos abertos
sem viagens e regressos
a esperar de olhos fechados
outro dia lado a lado
há gente nas ruas que adormece
que se esquece enquanto a noite vem
é gente que aprendeu que nada urge
nada surge
porque os dias são viagens de ninguém
a sonhar de olhos abertos
nas paragens, nos desertos
a esperar de olhos fechados
sem imagens de outros lados
a sonhar de olhos abertos
sem viagens e regressos
a esperar de olhos fechados
outro dia lado a lado
aprende-se a calar a dor
a tremura, o rubor
o que sobra de paixão
aprende-se a conter o gesto
a raiva, o protesto
e há um dia em que a alma
nos rebenta nas mãos.
(Mafalda Veiga- TATUAGEM)

(Fotografia de Telmo Azevedo)
Quase gosto da vida que tenho. Não foi fácil habituar-me a mim. Tive de me desfazer das coisas mais preciosas, entre elas de ti. Sim, meu amor, tive de escolher um caminho mais fácil. O dinheiro também tem a sua poesia. E tenho tido sorte.
Deixei para trás a obrigação de mudar o mundo. Já cometi corrupções. Só ainda sinto dificuldades em mentir, mas também aqui vejo melhoras. Trata-se só de deformar ligeiramente o que vai acontecendo, não de inventar tudo de novo. Tenho mais alguns anos diante de mim e depois quero acabar de repente. Não sei se valeu a pena mas também não me pergunto se valeu a pena. Há muitas coisas assim.
Não é desistir, é só dar demasiada importância a coisas que não a têm. A vida é uma delas. Ganha um valor particular quando deixamos de a encarar como o centro de tudo. É só por acaso que gostamos das flores e do mar. E, claro, que é um bom acaso. Mas mais do que isso não.
Quase gosto da vida que tenho. Quando a quis toda não gostava de mim. Agora há dias em que aceito que o tempo passe por mim e me leve para onde só ele sabe.
...
Vivo sozinho. Passam pessoas, mas nunca ficam por muito tempo. A partir de certa altura intrometem-se tédios por entre as frases e não sabemos continuar. Não insisto. Há muitas pessoas. Não vale ter medo. Há muito que o amor mostrou ser um fracasso. No dia seguinte, no escritório, esperam-me problemas por resolver e decisões que valem dinheiro. Não posso sofrer.
Claro que por vezes me sinto triste como toda a gente. Mas é uma tristeza doce, como um descanso. E como não espero nada, não faço nada. De uma maneira ou de outra também acabarei por adormecer esta noite.
(Pedro Paixão- A NOIVA JUDIA)

(Trabalho de Rui Manuel Macedo Nabais)
A percepção espiritual deve ser uma busca individual, ou não terá significado. Somos muitíssimo influenciados pela nossa realidade imediata e podemos agir sobre ela, dando apenas um passo de cada vez, sem necessidade de um horizonte muito dilatado. Até os passos na direcção errada nos proporcionam uma visão interna dos muitos caminhos concebidos para nos ensinar. Para harmonizarmos o Eu espiritual com o ambiente físico que nos envolve foi-nos concedida a liberdade de escolha com o propósito de exercitarmos o livre-arbítrio na procura dos motivos por que aqui estamos. Na estrada da vida é necessário que assumamos a responsabilidade pelas nossas decisões, sem culparmos os outros pelos problemas da vida que nos tornam infelizes. (...)
(...) sermos proprietários ausentes na nossa própria casa também faz de nós pessoas ineficazes. O corpo de que dispomos não nos foi concedido por um acaso da natureza. (...) Assim, não podemos julgar-nos vítimas das circunstâncias. Não somos meros espectadores, pois, juntamente com o nosso corpo, fomos incumbidos de participar activamente na vida. (...)
A energia da nossa alma foi criada por uma autoridade mais elevada do que aquela que podemos imaginar no nosso actual estado de desenvolvimento. Consequentemente, devemos concentrar-nos em quem somos, como pessoas, para podermos encontrar esse fragmento de divindade que está em nós. As únicas limitações que existem à visão interna pessoal são impostas por nós próprios. Se os caminhos espirituais dos outros não significam nada para nós, isso não significa que o caminho concebido para as nossas necessidades não existe. A razão de sermos quem somos é uma das grandes verdades da vida. O lugar onde um aspecto dessa verdade se manifesta para nós não será o mesmo onde se manifestará para outra pessoa. (...)
A vida é uma transformação constante em direcção á realização. O lugar que ocupamos hoje no mundo pode não ser o que ocuparemos amanhã. Temos o dever de aprender a adaptar-nos a essas perspectivas diferentes que surgem na vida, porque isso também faz parte do plano para o nosso desenvolvimento. (...)
A vida está recheada de conflitos, e a luta, a dor e a alegria que experimentamos são os motivos para a nossa estada neste lugar. Cada dia é um novo começo.
(Michael Newton- O DESTINO DAS ALMAS. REVELAÇÕES SOBRE A VIDA ENTRE VIDAS)

(Fotografia de António Manuel P. da Silva)
Significado.
Significado.
Significado.
Significado(s).
Tu. Lá. Aqui. Junto.
Sempre...
[Também por ti e para ti. Beijo. Sandra]

(Fotografia de Erik Reis)
8 meses depois...
Estás permanentemente aqui. No meio de nós. Agora que te passei a conhecer, não posso deixar de me lembrar do dia em que fisicamente te ausentas(-te)... mas passas(te) a estar comigo.
Cada dia. Cada mês. Em cada uma das vezes que falo e estou com ela. Sim, com ela. Tu sabes quem. Porque ela é tudo para nós.
[Para ti... um beijo muito especial. Hoje. Sandra]

(Trabalho de Sandra Silva)
Uma alma gémea que esteja disponível, mas adormecida, é uma figura trágica e pode causar grande angústia. Adormecida significa que ele ou ela não vê a vida claramente, não está consciente dos vários níveis de existência. Adormecido significa não saber nada sobre almas. Geralmente é a consciência prática do quotidiano que impede o despertar.
Ouvimos as desculpas da mente todo o tempo. Sou demasiado jovem; necessito de mais experiência; ainda não estou pronto para assentar; és de uma religião diferente (ou raça, região, estrato social, nível intelectual, base cultural e assim sucessivamente). Isto são desculpas, pois as almas não possuem nenhum destes atributos.
A pessoa pode reconhecer a química. A atracção está lá em definitivo, mas a origem da química não é compreendida. É ilusório acreditar que essa paixão, esse reconhecimento da alma, essa atracção sejam facilmente encontrados de novo com outra pessoa. Não se tropeça numa alma gémea todos os dias, talvez só mais uma ou duas vezes numa vida. A graça divina pode recompensar um bom coração, uma alma cheia de amor.
...
Nunca nos devemos preocupar em encontrar a alma gémea. Tais encontros são coisa do destino. Ocorrerão. Depois do encontro, reina o livre arbítrio de ambas as partes. Que decisões são ou não tomadas é uma questão de livre arbítrio, de escolha. Os mais adormecidos tomarão decisões baseadas na mente e em todos os medos e preconceitos. Infelizmente, isto muitas vezes resulta em corações partidos.
(Brian Weiss- SÓ O AMOR É REAL. A HISTÓRIA DO REENCONTRO DE ALMAS GÉMEAS)

(Fotografia de Paulo Moura)
Não há sol senão o sol que crio,
em artifícios,
se não estás.
Não há artifícios que me salvem
da minha lucidez,
se não estás.
Não há poema que substitua o desejo.
Não há redenção na tua ausência.
Há apenas este corpo de mulher,
exilado de mim,
se não estás.
(Eugênia Fortes-EUGENIAINTHEMEADOW)
[A mesma qualidade de sempre. A obrigatoriedade de visitar o reduto da escrita é cada vez mais uma realidade. Beijo. Sandra]

Hoje não há poemas
Só letras
Pilhas de letras
Um amontoado de letras
Sem significado ou sentido
Sem garra nem emoção.
Hoje não há poemas
Só letras soltas
Quebradas, cansadas
Que não se juntam em palavras
Porque nascem já castradas
E estéreis morrem aqui.
Hoje não há poemas
Só cansaço…
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
[Ana: tu tens o que há de mais belo- para mim- no acto de escrever. Não te esqueças disto. Beijo. Sandra]

I've got my head but my head is unraveling
Can't keep control, can't keep track of where it's traveling
I've got my heart but my heart's no good
And you're the only one that's understood
I come along but I don't know where you're taking me
I shouldn't go but you're wretching, dragging, shaking me
Turn off the sun pull the stars from the sky
The more i give to you the more i die
and i want you
and i want you
and i want you
and i want you
you are the perfect drug…the perfect drug…the perfect drug
you are the perfect drug…the perfect drug…the perfect drug
You make me hard when i'm all soft inside
I see the truth when i'm all stupid eyed
The arrow goes straight through my heart
(Without you everything just falls apart)
My blood wants to say hello to you
My fears want to get inside of you
My soul is so afraid to realize
(How very little there is left of me)
and i want you
and i want you
and i want you
and i want you
you are the perfect drug…the perfect drug…the perfect drug
you are the perfect drug…the perfect drug…the perfect drug
take me with you
take me with you
take me with you
take me with you
without you…without you everything falls apart
without you…it's not as much fun to pick up the pieces
without you…without you everything falls apart
without you…it's not as much fun to pick up the pieces
it's not as much fun to pick up the pieces
it's not as much fun to pick up the pieces
without you…without you everything falls apart
without you…it's not as much fun to pick up the pieces
Perfect Drug - Nine Inch Nails

Imagem de Bloody Chuckles (Xianex)
Cortei-me da realidade e parti-me no sonho que guardaste para nós.
Os farrapos de liberdade ainda por respirar no corpo que teci para mim. O nosso pacotinho de mágoas encerrado no coração de lâminas venenosas. O bonequinho de porcelana ainda está arrastado nos momentos quebrados de solidão que se recolheram no interior deste eu. Não voltarei a sangrar pelo o que não se realizou. O teu sangue ferve na folha de ferro velho da tesoura e as minhas mãos ainda estão quentes da fúria que depositei na verdade que não quis receber. Os risos abraçam entre arrepios a nossa casa de fantasmas sozinhos. Não te vistas assim, como a tua falta se reveste na minha demência, e tenta amar-me agora que morreste.
Imagem de Afficial
Escutai o árido e estéril chamamento da impiedade quando no sacrifício humano se entende a morte.

a pressão do tempo a roubar-nos a sanidade e as crenças de criança a serem esquecidas pelos segundos que nos são roubados. os ponteiros do destino a marcarem-nos os dias de morte numa espera interminável para que o relógio quebre as barreiras que nos unem à vida que não entende ser vivida.
a esperança enferrujada nas correntes da infância - prendem-me o corpo num asfixiar de carris cadentes e juro que não voltarei a sonhar - as massas cardíacas da cidade a esfumarem-se em desesperanças assassinas e o homem cego de esconder a fé debaixo da cama chora abandonado na noite sem lua pois não cabe em si tamanha tristeza - sonhar é para os insolentes, os que ainda não se tornaram homens e mulheres - e os dogmas inscritos nas pedras que carregamos às costas da liberdade mentirosa - mentirosa! - e a doutrina de um penhasco percorrido por todo o mundo para encontrar o âmago das incertezas e das fragilidades que tentamos em vão riscar da rotina que nos guia - guiar para onde? - as lágrimas rasgadas de tentativas. os segredos humanos de homens que de tudo aquilo que aprenderam não lhes foi dito como se espera acabar - morrer como? com o mesmo modelo de sorriso encrostado ao caixão? a mesma frase de mentiras cuspidas no tão célebre túmulo de nome?
o que fazer quando o ar faltar? digam-me agora o que fazer quando as pálpebras se fecharem sobre a alma estrangulada e a força faltar sobre os membros treinados e o medo outrora abafado entre os lençóis da cama reclamar para si a vitória sobre o homem?
os segundos a contarem. as palavras a fugirem de serem lidas. os olhares a morrerem no tempo perdido. não saberás porque não arrancaste o relógio à mente controlada pelo medo e não saberás porque não acabaste de ler este texto.
talvez não houvesse tempo. talvez fosse o medo.

(Fotografia de Ana Isa da Fonseca)
Não quero viver no medo.
Dói ler-te no medo do sangue a espalhar-se, o medo do silêncio reinar sobre nós.
O vidro enevoado onde as palavras se embaciam nos gritos da escrita. Vem resgatar-me às sombras emudecidas da morte, os pensamentos funestos da loucura.
O abismo vazio do meu corpo afogando-se no teu.
Espero.
(Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.)

(Fotografia de Jaime Amilcar Manso)
O livro está a ser escrito na impossibilidade de existir. E no entanto é em ti que a nudez da noite inaugura a palavra pensamento.
Tu um animal oculto quando a vida arde no que dizes.
Tu um instrumento de claridade a alimentar-se da fragilidade do tempo.
Ignoro o espaço que ocupa o teu corpo. Esse instante de sombras onde nenhuma boca ainda.
O imperativo é sentir o mundo numa palavra que se perde. Em qualquer lugar da vida encontro a urgência que incendeia a luminosa respiração do que é escrito.
Todo o livro é um desejo destruído. Um encontro demasiado ausente.
(Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA)
[É imensa a sensibilidade transposta para o que aqui está escrito. Será possível ficar indiferente? Obrigada pelas palavras/frases que ofereces. Sandra]

(Fotografia de Sérgio Rodrigo)
Acontece por vezes não encontrar um olhar
que sirva de depósito para os meus sentimentos.
Um rosto que aguardasse o tempo obscuro da minha vida.
Ou um campo corporal que resgatasse o que é verdade nos meus actos.
Escuto sempre o movimento de alguém a gotejar na minha direcção,
como se as palavras que indicam os seus passos enlouquecidos
não encontrassem o meu coração.
Porque há palavras que se perdem na forma de as pensar.
E porque um olhar sem distância é a cegueira natural da humanidade.
Rostos exaustivos, granulados em consequência da proximidade da alma.
O meu olhar homicida a justificar uma falta de vida.
Como se eu me transformasse num animal parecido com os olhos de quem escrevo.
Um animal cego que transporta o perfume de uma palavra no interior do teu olhar.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
[O nosso trabalho conjunto continua, Fernando. Mais uma produção tua. Beijo. Sandra]

(Ferreira Gullar)
Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso
a palavra solidária
minha mão aberta
ou este esquecido cheiro de cabelo
que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio.
Todas as coisas de que falo são de carne
como o verão e o salário.
Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hóteis de viagem.
São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes do trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.
Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
ainda em estado de soluços e esperança.
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)

(Fotografia de Paulo Pires)
gosto de ti porque me entendes.
porque é fácil entender-te.
nas proximidades.
nas diferenças.
nos defeitos. meus e teus.
porque posso ser eu.
porque não receio confessar-te os meus anseios.
porque me apercebo dos teus.
e sinto prolongar-me quando estou contigo.
(aNa- MEIA VOLTA)
[Ana: trouxe aqui este teu pensamento (transformado em poema?), porque ao lê-lo senti um eco de mim. Enfim: reflexo do que sinto, hoje- no presente-. Beijo. Sandra]

(Fotografia de Rodolfo Costa)
Preciso do teu corpo, do sal das tuas mãos em mim, preciso de ti...
As tuas ausências despem-me os ombros nus ao luar. Hoje a luz da lua não me beija como antigamente. Hoje queima-me a pele branca. Porque está grávida de ti e da tua ausência.
Eu sei. Não o digas. Eu sei que a despedida é sempre inevitável. Eu sei tudo isso e porém nem por isso me dói menos quando te arrancas da minha carne e me deixas aqui.
(cubro-te os lábios com a fome dos meus)
Vou dormir todos estes dias em que não estás. Vou-me deitar quieta na minha cama, vou encolher o corpo, vou quedar-me na posição fetal (aquela em que sempre durmo, lembras?) e aguardar que a tua voz me desperte suavemente deste torpor e que com os teus braços me salves dos pesadelos particulares.
Vou esquecer que lá fora, fora do meu quarto, há pessoas a gritarem, há pessoas a viverem, há pessoas a parirem.
Nada me importa.
Quero apenas que quando ao chegares te debruces suavemente e me murmures ao ouvido: "cheguei amor" e me tomes nos teus braços como uma criança que se aninha no colo da mãe.
(Fairy_Morgaine- O GRITO DO SILÊNCIO)
[Mais um contributo para o enriquecimento do Void. E para o nosso sentir. E para a nossa reflexão. Obrigada à autora. Sandra]

não encontrou outras escolhas. os cortes escondidos para o envelhecimento da pele as negras memórias a assolar a repetida respiração do corpo abandonado à descrença. petrificadas esperanças num tempo morto sem lugar para existir e as razões esquecidas irreais sem espaço para a compreensão e os anos arrancados de certezas
- vem dizer-me que é mentira
e o vazio incapaz de se apagar num fim apodrecido e as merdas secas que se estrangulam num beco sem morte
- vem dizer-me que não é isto. diz-me que não é verdade. diz-me que não sou eu
e o senhor à procura de palavras entre o peito enterrado e o espectro sem vida sem alma em busca de uma visão além da impossibilidade presente. não há verbos nem saberes constantes nem sentimentos identificadores nem palavras e o senhor não sabe se ela não acredita ou se não o vê.
pesadelou e não volta mais.
- diz-me que não. diz-me que não. diz-me que não
e o nada por preencher num olhar vazio de gente.

(Fotografia de Sandra Damião)
Nunca mais a palavra inaudível. Agora, sons avassaladores que perpetuam na tua doce reminiscência e que crescem pelas mãos da fantasia, preenchendo um poço de vazio que julgara infindo. Os copos de vidro coloridos que reflectem as persuasivas doutrinas das coisas belas só por si, e o desejo de acompanhar os movimentos das águas que apagam as pegadas do que seremos. Desisti de magoar as verdades escritas e procuro o teu interior insatisfeito de prazeres escondidos, de amor adormecido à espera que eu o beije.
Acorda amor- num estrear de sentimentos mágicos e inatingíveis para o meu comum coração que nada se assemelha ao nosso, de espadas erguidas entre medos vencidos e de viagens a tempos sem história ainda.
Vem riscar o silêncio da distância com tuas mãos de artista traiçoeiras, rasgar as palavras da loucura e engolir-me na ausência de mais esperas, só com um olhar, visão do teu mundo a um passo de ser nosso.
(Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura)
Ela andava de um lado para o outro, não aceitava ainda a paz que ele lhe
oferecia com o olhar.
Estava encostado a uma parede, sabia que por enquanto era inútil tentar acalmá-la.
Ela olhou-o, perguntou:
- Não dizes nada?
Nem esperou resposta, continuou repisando chão e argumentos.
Parou, repetiu:
- Não dizes nada?
Estendeu o braço, puxou-a:
- Cala-te, chega. Faz amor comigo.
O corpo dela tremia de zanga, os braços caídos em recusa.
Encostou o corpo ao dela.
Calou-lhe com a boca, na boca, as palavras as recriminações.
Começaram a amar-se em zanga os corpos tensos, os gestos bruscos rápidos.
Cada gesto um golpe.
Arrancaram do corpo um do outro os gemidos. Ultrapassaram-se em carícias. Exigiram um ao outro o prazer.
Transpirados, exaustos afastaram-se.
Ele estendeu a mão… Ela aceitou.
(Ana- EROTISMO NA CIDADE)
[Já a epitetei de "Anais Nin", há uns tempos atrás. Não me contrariou, de todo. Afinal é uma questão de propósito. Entre um não diário e um diário que pode sempre ser, mais uma amostra de um excelente trabalho que tem vindo a ser divulgado na blogosfera. Para a já amiga, Ana, mais uma- mas sempre insuficiente- palavra de reconhecimento. Sandra]

(Fotografia de Stanislaw Trzaska)
Tinham discutido durante o dia inteiro. Nada de grave, apenas a má disposição matinal que é transportada da cama para o quarto de banho e que depois se propaga como um fogo lento e irritadiço na secção cerebral amorosa. Isto se ainda houver amor entre o casal. Mesmo que o amor se tenha transformado em novas imagens para cada um deles, ou que ela se comporte sexualmente enfadonha e inactiva espiritualmente, e que não olhe com amor intenso a figura repetida e enjoativa que ele representava, a noite pode transformar o cenário mais péssimo da vida duma mulher. Tem acontecido com ela, e por esse motivo já atribuiu o fenómeno à sua passividade sexual. Pensou ligeiramente se não seria uma marionete, ou o seu comportamento não estaria ao nível de uma boneca insufável. Para uma mulher que ao longo da sua vida de casada foi hipotecando o desejo e o prazer, uma mulher que em tempos de juventude e novidade pornográfica tentou cultivar o êxtase mais profundo e interior, enfrentava agora o acto sexual como um frete rotineiro semelhante ao compor as roupas da cama todas as manhãs. Mas ela sente-se triste e humilhada por isso? Sente-se mal amada pelo companheiro, esse que só a quer para se fazer representar no papel de amante? O jogo encantado da mulher está na recusa de se dar ao homem numa total abertura emocional. Havia um acto de vingança enfatizado na doce renúncia de se entregar e sentir prazer. A mulher amava no verso de si mesma. Amava com o negativo de se sentir amada numa revolta que não controlava. Sentia-se como se ele decalcasse no corpo dela um conjunto de selos raríssimos e valiosos; selos belos e atenciosos colados por cima de estampas desagradáveis e agressivas. Ele fazia o ritual da maquilhagem comportamental. A noite era a sala do arrependimento e da elevada compreensão. A noite, a luz farsante do ambiente nocturno, era o esquecimento. E eles envolviam-se sexualmente sem qualquer identidade.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
[O primeiro de uma série de textos que vale a pena recuperar. Pela escrita. Pelo conteúdo. Pelos significados. Por um tempo de conhecimento, troca de ideias e progressiva compreensão. Pelo crescimento da amizade verificada. Um grande beijo meu. Para ti, Fernando. Sandra]

(Fotografia de Ricardo Tavares)
Lâminas que rasgam os laços de silêncio num grito inconsolável. O vácuo da solidão acompanha-me a tua inexistência, a desditosa sombra à espera da execução.
sem ti não sou nada.
Abro-me na passagem das palavras, submergindo a noção da realidade. O sentimento não tem espaço dentro da alma e crucia-me violentamente o interior esfarrapado.
Escrita dilacerada no ventre, fazes-me falta.
(Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura)

(Fotografia de Luana Bernardo)
No espelho rosado do seio desabrocha a vastidão do teu luar. perde-se a face cortada da lua. desvanecemos em rubros de extasiar.
A secretária irrompe a escrita esquecida e soletro os teus lábios no meu ventre sedento à caça de um instante sem tempo de existir. Na miragem da nossa saudade os passos da demora consomem as nossas horas de palavras e gritamos num deserto de mágoas fatigantes. Constroem-se muralhas, cidades, amarguras mas como edificar o amor? Ganhar velocidade na manhã adormecida e enraizar as ânsias às narrativas abandonadas.
Cerzir-me ao longo da costa e recordar-te o eterno azul que partilhámos quando a noite amortecida deixou escapar o dia. Uma marcha descalça de janelas corroídas, horizontes rasgados no silêncio do teu peito.
(Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.)

(Fotografia de Mariana Afonso)
Escritor apaixonado de esperanças, anos de conquistas em batalhas ultrapassadas, derrubas-me com lábios já beijados, o raiar de um sol já esquecido.
Quero pertencer-te na memória futura, pintar o teu presente de ausências, vazios de sombras onde nos inventamos.
Sentir-te palavra já escrita na história da vida, no livro que começou por Era uma vez, e que nunca mais ninguém leu.
Agarra-me, agora, num abraço ao vento.
O mar está bravio, nossos pés descalços na areia quente, as nuvens de tempestade que se avizinham num futuro longínquo.
(Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.)

Cabeças cambaleantes de gravatas no falo passeiam pelas ruas do cenário e representam a igualdade tão igualmente bem. As barbies de sexo rapado cortam as unhas nas máquinas imparáveis da reprodução em massa e sorriem gentilmente para a tela gigante do vazio. Crescem cidades, inundam-se os horizontes com macabros jogos de xadrez cinzento. Metal negro a cair do céu. Olhos incolores de meninos doutores responsáveis. Chupa apodrecido nas virilhas da masturbação e a espingarda erguida aos criadores dos pobres corações que de tão culpados são inocentes. As risadas das meninas prostitutas de auto-mutilação angustiante. Escondem a infância no penico das necessidades e cobrem-se de ideologias pertencentes ao acto seguinte.
Disparam-se as sementes pelo cano da culatra cobrindo-se-lhes a visão da já-não-se-sabe Guerra Mundial da Virgem em cima do Alá com o Sr. Hitler massacrado pelo mar de judeus e vómito de vingança dos crentes suicidas a ser comido pelo cowboy das munições, o Sr. arbusto mentalmente incapacitado.
O chocolate a ser devorado pelo racional que sente solidão mas sufoca com o círculo de clones que habitam em seu redor. Não é metal. É o céu que está a cair. É a terra que está a desabar.
O mundo a morrer.
Não há despedidas.
- Corta.
Eu adormeço-te, disse ele.
Aninhou-se nas coxas dele. Estavam quentes e húmidas do amor feito.
Os braços longos apertaram-na e ela ficou escondida, imóvel, segura.
O abraço dele era tão apertado que o corpo de um se confundia com o do outro, parecendo um só.
Achou que tinha adormecido, que ele tinha adormecido, não tinha a certeza.
Os braços apertavam-na mais ainda. Sentia as coxas dele que se apertavam contra as suas, movendo-se devagar. Apertou contra o peito a mão que procurava a sua.
A respiração dele era calma e lenta como se dormisse.
Aninhou-se mais no colo apertando com força a mão. Ele embalava-a assim numa cadência lenta, os dois semi-adormecidos, sem saberem bem se dormiam ou estavam acordados.
Entrou no sonho dele quando ele entrou no corpo dela...
(Ana- EROTISMO NA CIDADE)
[Um texto que, simplesmente, me deslumbrou. Por isso está aqui. Obrigada, Ana. Sandra]

(Fotografia de Bernardo Marques)
Serei eternamente sua pois,
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tu podes me magoar,
me fazer calar e,
ainda assim serei eternamente sua.
Deixarei que beijes outras bocas,
que toques outros corpos,
que sintas o prazer de outros gemidos
e que conheças o íntimo de outros seres.
Deixarei.
Para ter a certeza de que
voltarás e que entenderás que
quando beijaste outra boca
– era a minha que tu querias,
que quando tocaste outro corpo
– era o meu que querias tocar,
que quando sentiste o prazer de outro gemido
– era o meu que querias sentir e, que,
finalmente, quando conheceste
o interior de outro ser
– era o meu interior que tu buscavas
em tuas infinitas procuras.
Deixarei-te livre, para teres a certeza
de que és meu e, assim voltar
com a certeza de que ficarás.
E então, depois de tantas buscas infindas suas,
revelarei-te que estava a sua espera,
assim como sempre estive.
E seremos eternamente nós.
(Tatiana V. Mattos- extraído de POESIA ERÓTICA)

(Fotografia de Jorge Oliveira)
Clarissa
Está diferente, a minha menina. Está mais leve, menos rancorosa. Sorri para mim e pica-me descaradamente. Eu gosto. Aquela tristeza a descer toda para outro lado. Já lhe expliquei que a minha função é aproveitar-me da miséria dela. Ela ri-se, claro. Não, não é verdade, responde. Diz, eu é que estou claramente a usar-te. Eu rio-me, mas fico a pensar naquilo. De facto, as coisas também podem ser vistas assim. Nunca me tinha ocorrido. Ela insiste: a melhor maneira de não veres o que te acontece é pores-te por cima. E arremata: não penses que comigo vais ficar sempre por cima. A piada sexual tinha de lá estar, claro. É inteligente. Percebo que, afinal, é ainda mais difícil do que imaginei. Isso dá-me ainda mais ponta. Difícil no sentido que não é enquadrável, que me impõe novas estratégias, novos lances. Não é previsível nem monótona. Olho para ela e penso se devo dormir com ela. Se não será um desperdício perder este desafio, este picanço estimulante. Quero, quero muito, mas há qualquer coisa que se vai perder. Enão quero o que posso ganhar. Porque não me apetece. Não me apetece estar ao lado de alguém que acha que já perdeu o grande amor da sua vida. Quero sorrir-lhe e sentir esta coisa no sexo, na barriga, nos olhos.
...
Era inevitável, parece-me. Teria sido estúpido recuar. Foi inevitável. Telefonou-me, falámos um bocado. Depois disse para eu passar por casa dela para beber um café. Disse que sim e fui. Ela ainda não tinha jantado. Estava a fazer o jantar. Sentei-me no banco da cozinha e olhei-a. Tínhamos as duas um sorriso parvo. Ela estava embaraçada. Eu também mas disfarço melhor. Não sei o que foi. A presença dela, o seu corpo tão perto, o olhar. Tive de agarrá-la. Agarrei-a e beijei-a. Uma, duas, três, muitas vezes. E ela respondia. Com toda a intensidade. A comida a fazer no fogão. Nós a beijar-nos durante horas sem parar. Até decidirmos ir para o quarto. Com a pele dela a misturar-se com a minha. Conquistada.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)
Imortalizada pela crueza dos mortais, prendi-me à lua desde que a terra me abandonou nas minhas infelicidades de crescer humana.
Sempre agarrada ao luar, teci as utopias do louco amor impossível, dos castelos de princesas encantadas, as conquistas das estrelas nas batalhas contra as trevas do universo. Silenciosamente, sem que mais ninguém reparasse, fui sonhando, fui acreditando que uma noite a lua seria o meu castelo, o meu lar de beleza intocável e assim, fui angustiando, fui amargurando todos aqueles que caminhavam à luz do dia importuno e que falavam a língua dos mortais destruidores, os que pisavam as irrealidades que só eu tornara verdades.
Contornei o caminho deles e espelhei esse platónico glaciar de iluminação dentro do meu coração, gélido e cansado de esperar. Recebeu-me nos seus raios de vislumbramento ilusório e prometeu-me o infinito de astros candentes onde as minhas lágrimas congelariam no vazio de um buraco negro. Aceitei-a como uma alma perdida aceita o seu último pungente inspirar no restante tempo de sentidos.
Sorrirás, murmurou-me ela minguante enquanto eu me desvanecia numa eternidade de trevas ofuscantes.
Lamento, escrevo agora, e sorrirei depois, quando compreender a incomensurável tristeza que um pedaço de beleza pode suster em si.

(Fotografia de Ricardo Correia)
Assusto-me ao pensar que as noites são iguais e que vou ter de as atravessar, uma a uma, sozinho. Estranho só agora reparar numa coisa tão óbvia. Que uma noite antiquíssima se sucede igualzinha à outra desde sempre, que tenho diante de mim uma enorme massa informe e vazia onde tudo desaparece, em que eu nem sei quem sou, inconsciente. Faço conjecturas teológicas para me explicar esta escuridão, esta falta de sentido. Deus ter-se-á esquecido desta sua obra por ter começado outra? Ter-se-á fartado das suas pretensiosas criaturas e começado tudo de raíz noutro sítio? Sentir-se-á arrependido e triste e impotente depois de cometidos crimes tão monstruosos e sem coragem de nos dizer da sua fraqueza? Será bom e justo mas já incapaz de impor a sua justiça depois de muitas tentativas falhadas, um deus cansado e velho que os filhos ignoram e deixam de visitar num lar suburbano? De cada vez que começo a pensar nisto há sempre um ponto a partir do qual deixo de pensar no que quer que seja, em que os juízos se atrapalham uns aos outros, confundindo-me. Sinto invadir-me uma melancolia de outros tempos em que acreditar era mais fácil. Ou talvez não, talvez me engane, talvez tenha sido sempre assim, do mesmo modo absurdo. O que sei é que sozinhos nos invade um terror agudo que nos imobiliza os membros e a vontade a que os outros se encontrem na mesma situação não chega para dar o alento mínimo indispensável. Sozinhos numa solidão universal, que pavoroso panorama. Será certamente a causa por que a distracção deixou de ser um complemento agradável no decorrer dos dias para se tornar numa questão de sobrevivência e o seu valor monetário subir em flecha. Precisamos urgentemente de nos enganar com o que quer que seja, de fugir à brutal realidade das coisas, de entrar em zonas que nos poupem da lucidez. Adoecemos rapidamente se não formos entretidos. O amor entra aqui como água em terra seca, um substituto em tempos indigentes, de grande insuficiência, o que nos resta. Mas é um amor em sobressalto, fugidio, instável. Um amor que mete muito medo, medo de irremediavelmente nos perdermos, de não nos voltarmos a encontrar senão mais sozinhos, não podermos ou não querermos continuar e ficarmos pior do que estávamos no começo.
Não sei o que me deu para me pôr a pensar nisto. Se ao menos ajudasse. Os pensamentos convertem-se noutros meros pensamentos e em volta tudo se cala.
(Pedro Paixão- AMOR PORTÁTIL)

(Fotografia de Erik Reis)
um dia eu disse : dá-me tua mão. pois repito agora : dá-me tua mão. há vida por detrás das palavras. a literatura está sempre a correr atrás da vida. ainda que inisistamos no contrário.
assim, quando eu digo dá-me a tua mão, estou a dizer algo muito além disso.
o quarto é confortável e tem uma iluminação suave, podíamos conversar horas. tenho olhos, boca , ouvidos um cérebro e um coração. é o que basta.ainda que algumas vezes possa não parecer. ótica ilusão. o que digo é o que digo. e o que digo faço-o.
e depois, ouves a música no ar?
(Poema da autoria de Eugénia Fortes)
[À Eugénia, mais uma palavra de agradecimento pela existência da sua Poesia e pela sua boa vontade em relação a re-edições. Sandra]

(Fotografia de Mariana Afonso)
Também escrevo medo mas essa escrita é ultrapassada quando leio as tuas palavras de esperança, os sonhos que se evocam, subitamente, em nós.
Será demasiado pedir amor?
Hoje a saudade nostálgica. Os minutos a passarem e a vida a morrer nas minhas mãos e os momentos a trespassarem o tempo e a tua lembrança a repercutir-se no pensamento. O dia a nascer. O dia a morrer. A tua imagem intransponível que arquitectei para que a amargura desistisse de prevalecer sempre que fugia a possibilidade de encontro. Eu a enterrar-me nesse passado que julgara presente e um dia já passou? Parece que sim, como se tudo não fosse mais do que uma rememoração ou como se todos os segundos que existiram depois de desligar de ti fossem uma espera rasgada no quebrar do tempo que, na realidade, não existe.
Confusão. Sinto confusão mas recuperei o presente. Será sempre assim amar-te na distância?
Escreverei sempre o mesmo com tuas palavras transformando as minhas.
(Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.)

Deixei crescer dentro de mim um fascínio indeciso, queria estar com a Rita e afastar-me para sempre, o meu rosto encontrava à noite o dela em sonhos agitados que me deixavam esgotado. Estava quase sempre alerta, como a defender-me de um perigo que não conseguia concretizar, dominava a minha angústia com cigarros e álcool. Não a amo, não a posso amar, foi uma curte e um caso sexual, tenho dezassete anos e não sei o que é o amor, vou-me embora de vez, quero voltar ao colégio inglês e estar de novo com a Catherine, vou agradar aos meus pais e vencer o 12º ano, ser professor universitário de Literatura Portuguesa, talvez mais tarde publique um livro e seja célebre... por isso preciso de paz, arranjar uma miúda que não exija muito de mim, descansar.
"A Rita começou a andar atrás de mim e eu a fugir. Bem explicava ao telefone que tudo tinha corrido o melhor possível, mas que não gostava o suficiente para poder andar com ela.
...
"Uma semana depois daquela noite disse pela primeira vez que se ia matar.
"Naquele momento não liguei muito, agora vejo que a deveria ter levado a sério, o que me faz sentir cada vez pior.
...
"Lembro-me que em dia estava à minha espera à saída das aulas. Chamei logo pelos meus amigos para não a enfrentar sozinho. Achei-a mais magra e com ar abandonado...
"- Dá-me uma oportunidade, Nuno, dá-me só uma oportunidade. Não consigo esquecer-te, só me apetece morrer, se calhar é a última vez que estás a olhar para mim.
...
No dia seguinte a Leonor acordou-me pelo telemóvel. Tinha estado com a Rita e achava que ela precisava de ajuda. Um caderno da escola com o meu nome escrito dezenas de vezes, pedaços de letras de canções a falar de amor e de morte, pedidos insistentes para não contar a ninguém.
[... A mãe da Rita estava sentada de costas para a porta do café e tinha umas chaves na mão. Quando me sentei na sua frente vi que tinha estado a chorar, pois tinha os olhos inchados e um lenço de papel amarfanhado em cima da mesa.
- Nuno, a Rita suicidou-se ontem e foi tudo por tua causa. Deixou esta carta para ti...]
(Daniel Sampaio- TUDO O QUE TEMOS CÁ DENTRO)

(Fotografia de Filipa Mateus)
Clarissa
Falou-me, então, dele directamente. Sem fingir que era um gajo qualquer. Falou-me dele com rancor. Com uma mágoa clara, que tentava disfarçar, mas que não conseguia. Falou-me dele e eu escutei-a. Porque sei ouvir. Faz parte das minhas qualidades. Não me entusiasmei, claro. Mas ouvia-a com atenção. Interessam-me as feições no seu rosto, a mudança de tom, o olhar e as mãos. As alterações repentinas. Ela estava um pouco bêbada. Não costuma falar muito sobre isto, mas vê-se. Estabeleceu comigo uma relação de confiança, baseada exclusivamente no facto de não nos conhecermos bem. É tão habitual, mas nunca perde o encanto. Ouvir alguém, falar com alguém, que conhecemos tão pouco. Aquele pequeno olhar que mostra que nos queremos conhecer, que não conseguimos evitar desejar estar com essa pessoa. No final da conversa, talvez ela tenha percebido o que é que eu estou aqui a fazer. Sim, penso que sim. Olhou-me de soslaio, percebeu. De repente, deve ter-lhe passado pela cabeça. É neste momento que as coisas se tornam mais frágeis. É aqui que qualquer movimento em falso pode arremessar tudo para longe. E eu quero esta mulher. Portanto, não vou falhar. Vou deixar-me estar no meu canto, enquanto ela se martiriza com os seus pensamentos habituais. Até que, num instante, vai lembrar-se de mim, por qualquer coisa que pensou ou que viu, e vai pensar em mim um pouco mais. Porque já está na dúvida. E essa dúvida vai fazer com que ela me ligue e me procure. A curiosidade vai levá-la até mim várias vezes e de várias formas. Não, não sou convencida. Tenho a certeza do que estou a dizer, senão não o dizia. Elas gostam dessa coisa que lhes dou, essa leveza, essa ausência de penetração. Como se essa ausência significasse um menor risco, ou melhor, como se o facto de eu não ter pénis significasse uma menor invasão da minha parte. Se calhar têm razão, mas escapa-lhes o essencial. Além disso, não é uma coisa que me preocupe muito. Preocupam-me antes as mãos e as costas. Preocupa-me a suavidade e o encanto. Quero fazê-la feliz por uns momentos, dure o tempo que durar. Por isso, ela vem ter comigo mais do que pelo resto. Porque o resto não interessa assim tanto quando se trata de pele.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)
Seus olhos e seus olhares
Milhares de tentações
Meninas são tão mulheres
Seus truques e confusões
Se espalham pelos pêlos
Boca e cabelo
Peitos e poses de apelo
Me agarram pelas pernas
Certas mulheres como você
Me levam sempre onde querem

Seus dentes e seus sorrisos
Mastigam meu corpo e juízo
Devoram os meus sentidos
Eu já não me importo comigo
Então são mãos e braços
Beijos e abraços
Pele, barriga e seus laços
São armadilhas e eu
Não sei o que faço
Aqui de palhaço
Seguindo seus passos
(Letra cantada por Leoni, com fotografia de Mariana Afonso)
[Para a Mariana um grande beijinho e reconhecimento, aqui no Void, pelo seu excelente trabalho na área da fotografia. Sandra]

no meu túmulo escreverás que morreu alguém que não soube amar.
o corvo à espera. à espera que a morte leve o meu cadáver para o enterro.
- guiar-me-ás, nobre ave de fado cruel?
perscruto os teus olhos de lágrimas ainda por prantear. desiste de compreender, porra! não existem razões que leve à mutilação da vida e não será agora que as procurarei, velha e cansada deste porquê. falta a campa. a triste sólida pedra que seria negra se alma brilhasse nela ainda, tal memória recente de um passado tão longínquo.
- meu corvo, engole-me as entranhas e as vísceras podres deste corpo morto e diz-me que vomitas o vazio. diz-me que nada vês. dir-te-ei que estrangulei-me assim, acorrentada ao acto de bater do coração que se impedia de cessar devido ao marasmo da alma.
mataram-me o tempo da saudade. resta-me o tempo de acabar, por fim, só.
o meu nome amaldiçoado, execrado, repudiado, apedrejado a sangue na gélida lápide que alguém lembrou de cravar na terra. não podiam ter escrito o nome. não há nome que deva ser recordado como meu.
e o teu olhar infinito de tristeza certamente se perderá diante de outro amor, maior do que o nosso, maior do que este amor que era imortalizado nos meus lábios como se já tivesse morrido. tu não compreendes e eu desculpo-me ao corvo a demora desta partida.
Os morcegos batem asas contra a ténue e esvaecida claridade do poente. Acordaram para a noite que começa a respirar quando o dia acaba por morrer. Voam velozmente, ainda cegos de perspectivas, atentos aos cantares de pássaros que procuram ninho.
Cheira a Verão. Aquela delicada fragrância de calor e flores misturada com a essência inebriante do churrasco que está a ser feito nas varandas. Tenho a mente aberta para a vida. Escrevo numa vã tentativa de descrever o que vejo, cheiro, ouço e sinto. Está vento. Aquele vento que embala docemente as cortinas das janelas abertas. Diria noite de S. João mas estaria mais calor se assim fosse. E como todas as outras noites de S. João, não estaria aqui, sentada na varanda com a caneta erguida numa escrita ponderada, mas sim nos baloiços, lá, à beira da casa da minha avó. O ar saberia a churrascos ainda mais apetitosos do que estes e a lume de fogueiras e folhas de eucalipto queimadas. Alguém estaria a segurar os martelos de plástico leve enquanto eu subia e descia, rasgando o céu azul pontilhado de pequenos pontos cintilantes, a folhagem espessa dos cedros, as casinhas com pequenos jardins e as pessoas que já se abandonam à rua.
As luzes despontam aqui e ali em cada sala e cozinha habitadas. Os rapazes continuam a jogar à bola no terraço apesar de a mãe já os ter chamada para jantar. São jovens com espírito ainda possante e vibrante de desejo e de energia para ganhar. Escurece rapidamente e tenho de sair daqui antes que prejudique mais a minha visão. Os morcegos desapareceram dos céus e das suas brincadeiras de identificação. Preparam a caça. No céu azul escuro, descubro a primeira estrela da noite, a que brilha mais no azul profundo, a que avisa a chegada das trevas. Os rapazes já foram jantar. O cão já parou de latir. Os pássaros deixaram de barafustar, as persianas voltam a ser fechadas e começo a deixar de ver as linhas do meu caderno. Já é noite. Vou jantar.

O telefone tocava há 5 minutos.
A necessidade de ouvir a tua voz
Era mais forte do que o orgulho.
O som parecia propagar-se pela alma
Que ao mesmo tempo
Tentava convencer-se a desistir.
Fechei os olhos e recolhi
Imagens que deixei perdidas
Num fim-de-semana chuvoso.
Esse sorriso,
Tendencialmente sério,
Mantém-se colorido na memória.
O brilho escondido no teu olhar
Ainda consegue iluminar o medo...
Falta-me o teu cheiro
Nos caracois do meu cabelo,
O toque das tuas mãos
No livro de poemas,
O abraço que adormece...
Suspiras a conversa
Com pausas longas,
Mas cobertas de sorrisos...
Sinto-os aqui perto de mim.
A atenção volta-se para o espaço
Que nos divide
Mas sem procurar soluções.
A despedida deixa um beijo
E um triste "Tenho saudades tuas".
(Morgatha- NIGHTWRITINGS)
[A tua escrita já se tornou indispensável. Aqui. Obrigada.]
são todas iguais. tudo igual. igual. não sou diferente de ninguém. não sou ninguém nem sou. não sou. não quero ser.
não quero isto aqui
agora.
não quero ser assim. não acredito. não acredito nisto. não acredito nestas palavras. nada. quando desistirás? não sou diferente de nada. sou igual. tudo é igual. isto é tudo o mesmo. repetido. repetido. repetido. repetido. repetido. repetido. não consigo. não consigo viver assim. morrer é igual. é tudo igual. não sei ser. não quero ser. não sinto nada por isto. dor. i-g-u-a-l-d-a-d-e. é tudo o mesmo repetido até à exaustão de nada ser. não sou ninguém.
não sou.
rocha sobre rocha. passado. futuro. o mesmo presente. a mesma merda. pulgas de merda. repetidas. isto é o mesmo. sou igual. não sou nada. não sei ser. estou cansada. repetir-me. repetir o repetir. é tudo igual. a mesma merda.
tudo igual. cansaço. não quero acordar. nunca mais.

(Fotografia de Luís Barros)
Sabes? ...passei por perto no outro dia, algo me puxou para o mesmo sitio onde repetidamente tantas vezes já fui. Segui o coração como um prego atraído na força quase mágica do magnetismo de um íman... pestanejo... esfrego os olhos... dou comigo na frente da montra do sítio onde trabalhas. O casaco negro que me abriga confunde-me com as sombras da noite, o que me permite observar-te recatado, furtivo, incógnito, quase invisível... (nada de novo portanto na nossa atípica relação...)
Lá dentro trabalhas, flutuas entre luzes e brilho de tarefa em tarefa, martelas no computador como um pianista concentrado, e o irritante barulho plástico delas torna-se música etérea para mim...
Nem reparas em mim, fico ali parado largos minutos, colado ao vidro, quieto, bebendo todos os teus movimentos como néctar divino, do licor que me embriaga, no êxtase da alegria até à agonia da ressaca.
Sinto-me uma criança pequena, colada à montra de uma loja de brinquedos em vésperas de Natal, de cabeça cheia de sonhos e olhos no que não posso ter.
Sempre assim foi... não? Tu como uma pequena boneca brilhante numa redoma de vidro e luz, como um pisa papeis cheio de brilhantes a esvoaçar... tu nesse pequeno mundo tão longe do meu... eu com as minhas mãos fortes e grotescas de volta dessa esfera, protegendo-te de tudo, tocando sempre e apenas no vidro frio que te cobre a afasta de mim. Querendo sempre fazer parte desse teu mundo bonito, nunca percebendo, estúpido como sou, que é lá que pertences e eu cá fora, longe de ti. Os nossos mundos são diferentes, e embora as barreiras que nos separem sejam invisíveis, vidros frios e desumanos... o teu mundo não é o meu, nunca será...
"- Merda... está frio cá fora... tanto que já deliro... só posso estar a delirar estando aqui..."
Afasto-me da montra, entro pela porta e dirijo-me a ti, movo-me como um criminoso audaz perpetrando o assalto da sua vida... levantas os olhos serenamente, arquejas as sobrancelhas de espanto e... sorris... sim... o teu sorriso novamente...
" - Olá..." (respondo)
" - Já tenho o que vinha buscar... obrigado..." (e parto)
(João Natal- POETRY CAFÉ)
[Mais um contributo meu. Que se valorize esse mundo; esse que está aí- o teu. Que a força e a vontade sejam sempre mais para as concretizações e para a realização de sonhos que te povoam, que te fazem viver e que dão sentido e prolongamento ao muito do que há e do que provém de ti. Abraço grande. Sandra]

(Trabalho de Cynthia Lamoglia)
Ser-te carícia no ar irrespirável, um arrepio fogoso na muralha que nos aparta.
Ver-te chegar entre efémeros pedaços de ilusão e morrer-te.
A janela fechada onde escrevo. O meu corpo à espera de ser afagado como a ressurreição de uma escrita manchada.
Tu.
Sempre a palavra seguinte à minha. A imensidão dos teus olhos afundando minhas lágrimas, o meu asilo dentro da tua paixão, a voracidade de momentos, uns atrás dos outros.
[Texto da autoria de uma das bloggers do Void editado, também, em Memória Futura.]

(Fotografia de Rod Costa)
Todas as palavras que eu disse deixaram de ser minhas.
Espalhei-as, lancei-as ao vento,
E o vento levou-as tão longe que não mais as alcancei.
Tomaram pernas e fugiram,
Tomaram asas e voaram,
Para lá dos montes
Para lá do horizonte.
As palavras eram tudo o que me restava.
As palavras eram as minhas armas.
As palavras eram o meu património.
As palavras eram a minha memória.
As palavras eram o meu passado.
As palavras eram tudo o que eu tinha.
As palavras eram eu próprio.
E, agora, as minhas palavras são de quem as leu,
De quem as ouviu,
De quem as utiliza novamente.
Anda na boca dos outros,
E na minha boca ficou a ausências
Das palavras.
Na minha boca restam apenas as tuas palavras.
As tuas palavras ditas com paixão.
Resta a tua palavra - Amor.
Essa mora no meu coração.
(João Norte- INTRO.VERTIDO)
[Do meu amigo, João. Para ele: um beijo e um imenso obrigada. Sandra]

(Fotografia de Mariana Afonso)
Atravesso a vida
Marcando-a de pegadas frívolas,
Que nada têm a contar...
Olho para trás,
Vejo os caminhos que criei...
Afanosos, fastidiosos,
Rodeados de detritos de dor inacabados...
Construídos para ocultar a minha indolência,
Servem-me de droga, agora,
Enquanto construo outros...
Sei que preciso de ajuda,
Tento refrear pensamentos perjuros,
Concentrando-me num objectivo...
Esse objectivo que leva demasiadas interrogações,
Que é construído sobre bases fracas,
Devido ao meu ser,
Que cresce timorato e drogado,
Desta substância que todos temem ter...
Não sei quanto tempo resta ainda...
Sei que o tempo nunca acaba,
Para a abrupta e receosa mudança,
Que chegará algum dia...
[Poema da autoria de uma das bloggers do Void.]

(Fotografia de Mauro Morais)
A psicolinguística do silêncio é tão rica como a da linguagem: nas relações amorosas, de amizade, hierárquicas, profissionais, em todos os momentos em que está envolvida a comunicação, a infinita variedade de silêncios revela-se plena de sentidos. De ouro, porque é verdadeira força activa.
O silêncio é a cor das ocorrências da vida: pode ser ligeiro, denso, cinzento, alegre, venerável, aéreo, triste, desesperado, feliz. Colora-se de todas as infinitas tonalidades das nossas vidas... Se o escutarmos, o silêncio fala-nos e elucida-nos constantemente acerca do estado dos lugares e dos seres, acerca da textura e da qualidade das situações que enfrentamos.
É o nosso companheiro íntimo, o âmago permanente do qual tudo se liberta.
Lugar da consciência profunda, estabelece o nosso olhar, o nosso escutar, as nossas percepções.
O silêncio interior: como é que poderemos, no tumulto dos pensamentos, dos fantasmas, das imagens que nos habitam, chegar a re-encontrar o silêncio em si? Artistas, poetas, filósofos e místicos sempre falaram disso e indicam meios úteis para o conseguir: todos eles sabem que é da atenção que se dá ao silêncio do pensamento que nasce toda a criatividade. Que é dele, tal como quando se pronuncia um koan zen, que se eleva o espírito imortal.
...
Num mundo cada vez mais ruidoso, o valor do silêncio tem de ser redescoberto. Talvez o tenhamos esquecido, nós somos seres portadores de toda a sabedoria imemoral do silêncio.
(Marc de Smedt-ELOGIO DO SILÊNCIO)

(Fotografia de Anselmo)
Ei!! Tu aí que me lês
Sei o que estás a pensar
Que tens problemas como eu
Que toda a gente sofre
Que não sou a única.
Mas estás enganado!
Sabes porque?
Porque o problema é meu!
Vivemos em mundinhos de merda
Perfeitos por fora,
Podres por dentro.
Exibimos máscaras
Que já são rosto.
A vida tornada passerelle.
É-se gentil, agradável, prestável
Quando apetece berrar
"Eh pá vai-te lixar"
A palavra hipócrita que se diz
A esconder a verdade que se sente
Ei! Tu aí que me lês
Hoje não vou fazer o correcto
Dizer o aceitável
Arranco a máscara que afivelei
Fica assim a carne exposta
O corpo a mostrar verdade.
Ei! Tu aí que me lês
A minha dor é maior que a tua
Porque a tua não a sinto
A minha aguento-a eu!
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
[É bom saber da existência de uma fonte para beber àgua que na composição tem o que de mais genuino há em nós. O PALAVRAS MUTANTES é uma dessas fontes. Uma fonte onde a água sai tão fresca, que faz despertar e/ou reforçar em nós muito daquilo que nem os espelhos nos permitem ver. Ana: obrigada por "matares" a sede. Sandra]
Já tiveram dias que são um grito?
Em que se fica hirto
O corpo interrogação?
Dias que são um sufoco
Em que se sai para a rua
Porque o corpo está tão cheio
Que nem sequer lá cabe ar?
Dias em que se quer dizer tudo
Contar tudo, falar de tudo.
Em que o sentir é náusea
Que se tem de vomitar.
Dias em que se é
Um exagero, um despropósito
E dentro há um vendaval
Que ou se solta
Ou nos mata.
Dias que nos afogam,
Nos flagelam, nos torturam.
Dias...
Já tiveram dias assim?
(Ana- EROTISMO NA CIDADE)
[Pois é, Ana. Pois é... Sandra]

(Trabalho de Fábio Poço)
E se numa noite de Verão, insular,
encerrado num labirinto paradoxal,
Florence se vier sentar
nos meus joelhos pelo lobo occipital?
Azul, surpreendente, manifesta, bela,
embalando no colo com cuidados maternais
as minhas ferocidades pré-frontais.
- Sonhá-la-ei ou serei eu um sonho dela?
Virá com a minha alma, regressando ao corpo
de memórias antigas e disfuncionais,
ou estarei já morto,
habitante de lugares enfins reais?
(Manuel António Pina- OS LIVROS)

Quero beijar os teus lábios de pedra,
a água azul e profunda onde os teus
seios sem mácula se unem às minhas
mãos,
quero fundir-me em ti,
minha doce amante do desejo antigo,
quero mergulhar nos cabelos húmidos das
tuas raízes,
quero subir lentamente o teu corpo frio,
fendido,
quero fazer em ti,
nos teus jardins inclinados,
um país de filhos belos, de animais de
silêncio e bondade,
quero regressar a ti,
ao mistério das levadas, das falésias,
dos ventos que batem nos pássaros de aço
e nas tuas tranças,
quero que me toques amorosamente com
os teus dedos esguios,
com as tuas canas doces,
quero o mel, a estrelícia, o pão escuro sobre
as mesas de toalhas loucas bordadas pelas
mulheres de outrora,
senhoras nossas das dores e do entardecer,
quero levar-te comigo para além, para
sempre,
quero que deixes em mim o fruto das tuas
árvores da alegria,
todos os sinais da ternura que o tempo não
consumiu,
minha eterna amante junto ao mar,
quero morrer em ti,
e em ti nascer de novo.
(José Agostinho Baptista- ANJOS CAÍDOS)

(Fotografia de Maria Paula)
sequências
(O que será preciso fazer para mudar
para mudar não se sabe o quê.
(Do que se está à espera de chegar
para chegar não se sabe onde.)
O[um] anjo desencantou-se
Sumiu-se evaporou-se
Libertou o seu espirito
O anjo não era livre
As suas asas eram grilhetas.
O descanso, finalmente.
O anjo pode enfim dormir
Sentiu pela primeira vez prazer.
continuações
Desperto de corpo e de sentidos
Ouve e saí sem medos
Desde que saiba e sinta.
Saí por montes e vales,
De costas
Voltadas aos outros
E a si próprio
O que sente,
Só por poemas
Narrações da imaginação.
Por ferro e fogo,
Trovões,
Relâmpagos que ofuscam os olhos
Cegueiras, assumidas
Vidas sumidas
Esvaziadas,
Perdidas.
(Carlos Veríssimo- MO[VI]MENTOS)
[A tua poesia não é dispensável. Tu sabes. Sandra.]

Nas profundezas desse mar tempestuoso, escondem-se as desditosas lágrimas deste negror incondicional, o grito de uma alma aprisionada ao silêncio, as verdades atrás de mentiras continuadamente exploradas e violadas pelas mentes sórdidas do mundo infeliz.
Venham então dizer-me o que vêem nesses olhos apagados de tristeza inconsolável e eu dir-vos-ei que nada há para abraçar a não ser o abismo do vazio quando a vida acaba por não ser vivida e quando a morte não consegue ser abalizada.
Nos vossos olhos, pelos meus olhos, vejam a esperança a destruir-se, a alegria a corroer-se, a incompreensão a instalar-se e a eternidade a ser desejada como uma lâmina de luz num deserto incolor.
Se alguém conseguir trespassar a escrita sangrenta, descobrirá o abrigo das estrelas no pontilhado de céu negro, anoitecido, e que escrevam vocês quem sou, pois que nada serei mesmo nas palavras de ninguém.

Hold your ground, hold your ground. Sons of Gondor, of Rohan, my brothers.
I see in your eyes the same fear that would take the heart of me.
A day may come when the courage of men fails, when we forsake our friends and break all bonds of fellowship, but it is not this day.
An hour of wolves and shattered shields, when the age of men comes crashing down, but it is not this day.
This day we fight!!
For all that you hold dear on this good Earth, I bid you stand, Men of the West!
The Return Of The King - Lord Of The Ring§

continuo com as mesmas vestes da noite à espera do abandono impossível da solidão. tu não vens. eu compreendo-te querido luar machucado de prata.
nasceu frio nos cantos do espaço vazio que deixaste. há palavras sangrando nos lábios sem rosto. não sei de onde vem esta saudade tão minha como tua e só de nossa é verdade. não há razões para perguntar traços que já se vêem mesmo antes de existirem no pensamento.
lágrimas soltas pintadas pelas ruas esvaziadas de mim e os pedaços de tormento acorrentados aos silêncios de nada poder fazer.
as páginas diarísticas sem visão alguma de sanidade cospem-me violência de raios ultrapassados na memória. turvam-se sem escapatória de compreensão e fogem-lhe os dias da diferença como o sol insiste em morrer no lugar onde não sabe como nascer.
escrevo a tua ausência só como sei morrer com ela, sem ti.
[Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.]

(Fotografia de Mariana Afonso)
não quero afogar os nossos sonhos nessas algas escuras de ausência.
leva-me para perto dos caminhos de areia salgada mesmo que o pescador esteja tão longe de voltar a casa. não posso enfrentar as tempestades destes dias solitários a sós com a fúria do mar. tu sabes do meu medo. o medo de as palavras roubarem os últimos sussurrares do vento quando o embalar das ondas desenha a memória dos nossos corpos contra a praia.
preciso do silêncio do amor no momento em que o sol abraça o infinito da esperança. preciso que me olhes, nas profundezas de meu mar tumultuoso e que grites o medo de nos amarmos sem deixarmos nunca de acreditar. não podemos perder o voo da gaivota na eternidade do poente.
[Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.]

(Trabalho de Pedro Couto)
Se eu pudesse deixar de correr
Caminhava se eu pudesse deixar de caminhar
Sentava-me à sombra da nogueira azul do céu
Se eu pudesse deitar-me deitava-me
Numa cova com a forma do meu corpo em
Repouso se eu pudesse deixar de cantar
Fechava os olhos e olhava o alto vazio
Onde não acontece nada a não ser
A conciliação provisória do caos
E da luz que não se cansa de nascer.
(Casimiro de Brito- NA VIA DO MESTRE)

Faca no bosque ensanguentada. Perdidos caminhos sem retorno no tempo.
Lá e cá, procuro-te.
A morte espreita dos seus cabelos doirados de perfeição. Vestido de inocência manchada. Não há culpa. Não há remorsos.
Vem cá.
As suas costas lisas, arcos de divindade pura, lábios de um pecado traiçoeiro.
- Mataste-me?
- De tanto te querer, amor.
(Trabalho de Mário Martins)
Ela abre as portas de sombra numa estreita aplicação
de insustentável tristeza.
Não é o nocturno território da matéria urgente
que ele procura, mas o inocente nascimento
de um corpo longínquo.
Com a sua nobreza frágil e virgem ele saboreia
o fruto vivo de uma densa necessidade.
(Fernando Esteves Pinto- ENSAIO ENTRE PORTAS)
[Fernando: continuas a ser uma referência. Para mim. Para o Void. E a tua escrita está, por isso mesmo, sempre presente. Sandra]

Perco-me nas palavras. nos sonhos escritos de palavras. merda de palavras. sempre as mesmas vazias emoções de sentimentos. a mesma forma de amar na mentira.
quero escrever nunca mais. escrever que não sei escrever a escrita das não palavras. não quero escrever. doença. doença. doença. doença. tudo doenças malévolas ultrapassadas pela morte humana de não saber que não se sabe.
ler e entender. perceber. matar os dias para a compreensão. esquecer.
- estou morta.
por dentro. de fora para dentro. de dentro para fora. não desejo palavras.
não quero escrever mais.
leva-me daqui

(Rita Lee)
Amor é um livro
Sexo é esporte
Sexo é escolha
Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela
Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa
Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos
Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão
Amor é divino
Sexo é animal
Amor é bossa nova
Sexo é carnaval
Amor é para sempre
Sexo também
Sexo é do bom...
Amor é do bem...
Amor sem sexo,
É amizade
Sexo sem amor,
É vontade
Amor é um
Sexo é dois
Sexo antes,
Amor depois
Sexo vem dos outros,
E vai embora
Amor vem de nós,
E demora
Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão
Amor é divino
Sexo é animal
Amor é bossa nova
Sexo é carnaval
Amor é isso,
Sexo é aquilo
E coisa e tal...
E tal e coisa...
(Rita Lee- BALACOBACO)

(Fotografia de Jaime Duarte)
sempre pensei que com amor, tudo se resolvia.
e sem amor, não valia a pena insistir.
para ter uma amiga não precisava de ter uma relação.
bastava a própria amizade.
e se melhor pensei, melhor sempre agi.
o meu coração, como guia.
capaz dos amores e das paixões mais incompreendidas.
de me desdobrar em afectos, afectividades, emoções.. e contradições, desilusões, despaixões e milhares de outras questões.
descobri, desiludida, três anos depois, que só o amor não é timoneiro suficiente para pegar no leme de tal embarcação.
apercebi-me, talvez, que as histórias de amor não são contos tradicionais.
com direito até, a moral no fim.
que há histórias de amor, que quando acabam é que deveriam estar a começar.
mas faltava-me força para recomeçar...
(aNa- MEIA VOLTA)
[De alguém que escreve muito bem, aqui para o Void. A parceria começou hoje. Estou contente com isso. Julgo que estamos contentes com isso. Obrigada, Ana. Sandra]