
Virou-se mais uma vez na cama, estava quente e húmida. O calor gotejava-lhe do corpo em suor. Pela janela aberta não entrava nem uma brisa.
Ouvia nitidamente o ranger da cama dos vizinhos do 5ºandar, metódico, rotineiro. Sentia um vago sentimento de inveja e tentou recordar-se da ultima vez que lhe tinham tocado. Acho que foi o Paulo, pensou, mas afastou rápidamente o pensamento, não tinha sido propriamente "satisfatório".
Olhou para o tecto e tentou imaginar os vizinhos a fazerem amor mas não conseguia imaginar aquelas duas pessoas com quem se cruzava ocasionalmente, nuas e a contorcerem-se uma na outra.
Mas a imagem do acto ficou, a imagem de dois corpos nus, suados, tornou-a consciente do seu proprio sexo. Desceu a mão pelo corpo e tocou o sexo, sentia-o latejar, abriu as pernas quase inconscientemente uma mão abrindo os labios vaginais para melhor se acariciar.Tocou-se devagar ao ritmo do colchão que rangia, levantou e baixou as ancas como se também nela entrasse aquele sexo, duro, hirto, que penetrava a vizinha. Soltou um gemido de prazer, mordeu o lábio,contraiu as coxas quando o ritmo que vinha do tecto se tornou mais rápido e premente. O corpo seguia agora os corpos que adivinhava...Num espasmo, num gemido, num rangido final atingiram o orgasmo.
(Ana- EROTISMO NA CIDADE)
[A quem passar por aqui, recomendo o blog da autora. Ana: ... não digo nada. ;) Sandra]

A pressa
com que te despes
Nem na alma te apetece
qualquer veste
A pressa
com que te despes
Até da carne e da pele
se pudesses
(David Mourão-Ferreira- MÚSICA NA CAMA)

O corpo dela é uma página em branco estendida na minha frente. Branca,
inerte, sem oposição, sem luta, sem ódios, sem traços, sem marcas do tempo
nem passado, à espera dum tempo que marque com traços de fogo, cicatrizes de sangue o rasto da minha caneta.
A minha mão pega na caneta e treme. Treme de fúria, de força e vigor, de
ânsia e de incertezas. Treme, mas escreve. Escreve como se traçasse caminhos
num espaço vazio de sombras, com se rasgasse montanhas e vales na escuridão dos desejos por realizar, das esperanças prometidas, dos projectos
guardados, do amor contido dentro da alma que deseja e sofre.
Escrevo e a caneta é lâmina marcando na sua pele sedosa caracteres pessoais
que só eu entendo, que só eu sei o que dizem, que só eu sei o que significam. Caracteres indecifráveis a quem não ama, a quem nunca amou com
paixão.
Contorno com a minha mão as formas do seu corpo com curvas de desejo
rasgando sentidos e escrevo na sua carne a força da minha carne. Escrevo a
realidade em retalhos de sonho e pedaços de sexo e hesito naquilo que
escrevo primeiro. Sonho ou sexo? Sem saber o que me move com mais força,
mais pressa, mais urgência. Sem saber o que vem primeiro, o sonho o sexo o
amor? Ou será o sonho, a paixão, o amor e sexo? Não importa!... não importa
o que escrevo, nem porque escrevo, nem para quem escrevo. Escrevo. Com os
meus lábios desenho o desejo no corpo dela, nos lábios dela que se estendem
e oferecem aos meus lábios, aos meus dedos, à minha caneta que os escreve.
Escrevo o meu corpo no corpo dela como prensa que imprime um texto indelével que o tempo
não apagará.
Escrevo no seu corpo a minhas paixões, as minhas vaidades, as minhas volúpias,
os meus erros, os meus medos, as minhas ânsias a máscara da vida e da morte, antes que morte me interrompa,
e a escrita inacabada deixe o texto na escuridão da noite que se consome no tempo do espaço vazio.
Escrevo nos seus olhos o brilho da luz que me alumia o caminho que não sei
percorrer na noite sem escrever. Escrevo como quem percorre a casa ligando
as lâmpadas, abrindo as portas, estendendo tapetes para que o vento empurre
a alma, liberte o corpo
e deixe o espírito vaguear no espaço sem limite, e o
sonho correr para lá do horizonte, para lá do possível.
Na sua boca escrevo as palavras sentidas, deixadas cair em momentos de
paixão sem controle, em que o sangue nos corre nas veias fervendo, queimando os sentidos. Escrevo os silêncios. Escrevo o vento, companheiro da nossa aventura, porta-voz do nosso sofrimento.
Escrevo as palavras que ela não pediu, que a fazem sofrer porque as cala
dentro de si sem resposta, tapando as feridas com a gaze da existência
conformada.
Escrevo no seu ventre inchado a semente que continuará a nossa existência
como prémio duma paciência muda e resignada, um objectivo, uma obra que
também é dela, e que eu não posso reclamar só para mim.
(João Norte- INTRO.VERTIDO)
[Texto do meu amigo João, companheiro do gosto pela escrita- com a diferença que escreve- que aqui trago, pelo merecimento de divulgação da sua Prosa (ou "Prosa póetica"). Obrigada pela autorização de (re)edição.]

O reconhecimento das almas pode ser imediato. Um sentimento súbito de familiaridade, a sensação de conhecer esta nova pessoa a uma profundidade muito para além daquela que a consciência poderia conhecer. A uma profundidade geralmente reservada aos familiares mais íntimos. Ou ainda mais do que isso. Saber intuitivamente o que dizer, como vão reagir. Um sentimento de segurança e confiança muito maior que aquele que alguma vez poderia ser conquistado num dia, numa semana ou num mês.
O reconhecimento de almas pode também ser lento e subtil. Uma alvorada gradual à medida que o véu é gentilmente removido. Nem todos estão preparados para o reconhecimento imediato. Há que dar tempo ao tempo, e muita paciência pode ser necessária para aquele que vê primeiro.
Pode despertar para a presença de uma alma companheira através de um olhar, um sonho, uma memória ou um sentimento. Pode despertar pelo toque das suas mãos ou dos seus lábios, e a sua alma é reanimada de volta à vida plena.
...
O encontro pode ocorrer numa vida passada. Pode ocorrer num estado espiritual entre duas vidas. Ou pode ter lugar num contexto místico, para além dos limites do corpo e do ambiente físico.
Quer sejam reais ou imaginários, os encontros espirituais possuem um poder que é vividamente sentido pelo paciente. Com ele as vidas são alteradas.
A delicada e frequentemente detalhada recordação de vidas passadas não é o cumprir de um desejo. As imagens não são meramente invocadas porque um paciente necessita delas ou porque estas o podem fazer sentir melhor. O que é relembrado é o que aconteceu de facto.
A especificidade e precisão dos detalhes relembrados, a profundidade das emoções expostas, a cura de sintomas clínicos e o poder que tais memórias têm de transformar vidas apontam para a realidade das recordações.
(Brian Weiss- SÓ O AMOR É REAL. A HISTÓRIA DO REENCONTRO DE ALMAS GÉMEAS)

Palavras perdidas no meio do silêncio.
Sem sentido.
Sem uma história que as una.
Só uma respiração e um suspiro.
Abro a janela.
Estendo as mãos.
Deixo voar as mágoas.
(Morgatha- NIGHTWRITINGS)
[A capacidade de síntese/precisão da autora é imensa no que respeita à apresentação de "coisas" existentes tão dentro de todos nós. Obrigada pela autorização de (re)edição.]

(Pedro Abrunhosa)
Quando veio
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais".
E dançou,
Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.
Uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite sou
Dono do céu,
Eu não sei quem te perdeu.
Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.
E partiu
Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.
Uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite sou
Dono do céu,
Eu não sei quem te perdeu.
(Pedro Abrunhosa- PALCO)

MENSAGEM INTERNACIONAL
Por FATHIA EL ASSAL
O Teatro é o pai de todas as Artes. Esta é uma verdade que ninguém pode contestar e, por esta razão, é a minha única e exclusiva paixão.
Sempre acreditei que os dramaturgos se distinguem pelos seus sentimentos de nobreza humana. A sua mensagem pode, então, ajudar as pessoas a erguerem-se acima de si próprias, a libertarem-se das suas frustrações, da exploração, e assim, serem capazes de ganhar um sentido de dignidade. Para que os dramaturgos consigam alcançar a sua missão e influenciar as pessoas, eles deviam dominar profundamente a sua profissão, e ter total controlo sobre a sua expressão artística. Caso contrário, a sua mensagem não deixará qualquer rasto, dispersando-se e fazendo que com que não atinja o seu alvo. Em toda a obra artística, a mensagem do artista procura sempre um sentido de justiça humana, de maturidade de expressão e de autenticidade. Seria errado pensar que um destes factores primasse sobre o outro.
Dizem que o teatro é uma arte baseada numa estrutura sólida, destituída de elementos supérfluos, e que os seus diálogos deveriam ser firmes, concisos e distantes da tagarelice. Dizem também que é por esta razão que o teatro é incompatível com a natureza feminina, que é incapaz de se dissociar do seu ego e, consequentemente, incapaz de se expressar com objectividade. Dizem! A isto eu respondo: a mulher que carrega no seu ventre uma nova vida durante nove meses é também capaz de criar uma peça sólida e coerente. Com uma condição: que ela seja uma verdadeira dramaturga.
Felizmente, o teatro moderno libertou-se das formas tradicionais, na sequência de diversas correntes renovadoras iniciadas por Pirandello, Bernard Shaw, Brecht e tantos outros, pelo teatro do absurdo, pela recusa e pela vanguardismo experimental. Actualmente é muito raro um dramaturgo escrever segundo um estilo tradicional.
Na minha primeira peça (“Women without Masks”) optei pelo “teatro dentro do teatro”, uma formula que se tornou familiar nas peças modernas. “Women without Masks” começou com um grito e uma questão, porque me sentia grávida de palavras com dezenas, talvez com centenas de anos.
Teria chegado o tempo para que as dores do parto, estrangulando o meu íntimo, fossem libertando e projectando a minha palavra até à existência? A minha palavra!... a minha paixão ... a minha infância ... a minha criança! Eu oiço a sua voz tão longe das queixas, dos suspiros. Uma voz que tinha sido esmagada e humilhada. Uma voz cujos ecos reverberaram geração após geração. A consciência, na história humana, suporta o peso pesado da perseguição e do cativeiro.
Eu recusei assentar no papel uma única frase que não emergisse da minha alma mais profunda. Nem uma linha que não expressasse a verdade sobre a mulher e sobre o seu poder de dádiva. É por isso que pedi à minha caneta que jurasse recusar escrever uma única linha se fosse para exprimir fraqueza ou frustração, bem como recusar obedecer-me se sentisse que me acobardava perante a verdade. Eu pedi-lhe, então, que me ajudasse a destacar o maior número de mulheres cujas vidas eu partilho, desenhando mais próximo delas e tornando-me na sua porta-voz.
Nós, assim, mostrar-nos-íamos completamente umas perante as outras, livrando-nos da ferrugem acumulada com a passagem do tempo. Nós gritaríamos contra todas as circunstâncias e eventos que nos privaram da explosão dos nossos poderes humanos. Por último, eu acredito que o teatro é a luz que ilumina o caminho da raça humana. Uma luz que assegura um elo orgânico com o espectador criando calor entre nós – seja através da comunicação feita pelo texto escrito ou pela exibição no palco.
[Tradução de Vanda Piteira e Nuno Moura - Instituto das Artes]
FATHIA EL ASSAL [Biografia]
Fathia El Assal escreveu 120 obras dramáticas para rádio (primeira peça: 1957), 57 séries de televisão, transmitidas em horário nobre, todas elas apresentadas nos mais importantes teatros egípcios. (Primeira peça: “The Seesaw”, 1969). Muitas destas peças expressam temáticas relacionadas com problemas sociais, religiosos e políticos, relacionados com a sociedade egípcia em geral, e com a mulher, em particular. Uma destas obras, “The Dumb Woman” foi representada no Cairo em 2003.
Fathia El Assal escreveu uma honesta e ousada autobiografia (em quatro volumes) intitulada “The Womb of Life”, onde se refere às suas dificuldades enquanto menina e mulher, bem como às dificuldades que as mulheres se deparam no seu país, desde 1943 até aos nossos dias.
[Mais informações: ITI - International Theatre Institute/ Unesco - http://iti.unesco.org]

(Albano Martins)
Somos ainda o limiar - espessa
nuvem embrionária. Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida
das ondas. Somos
o medo ou sua
improvável renúncia. O que
sabemos do
amor, da morte, é só
difusa,
opaca,
luminosa fábula.
(Albano Martins- ASSIM SÃO AS ALGAS)

D. Quixote de la Mancha e Sancho Pança.
O sonho...
A alucinação...
O perigo da leitura...

(Bruna Lombardi)
Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza
você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa
Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.
(Bruna Lombardi-extraído de POESIA ERÓTICA)

Já nada serve tentares enganar-te a ti próprio, jogares para a frente o destino. Acordas numa manhã igual a todas as outras com a certa certeza de ela não te amar e sabes bem que o amor não se repete. Que persistes na vida dela como uma espécie tolerada que insiste em continuar por ali, alguma coisa que ainda dá sinais de vida e já vai morto, erva arrancada ao caminho, que para algumas coisas ainda serve. Percebes, deitado de costas, com uma irrecusável nitidez que ela se quer ver livre de ti para sempre e só ainda tem a piedade ou a pena de não to dizer pelas palavras mais simples. Quer que o descubras por ti e partas por tua livre vontade. Como se tivesses lugar para onde ir. Não ousas tocar-lhe, não ousas dizer uma palavra sequer, choras baixinho para que ela não acorde. Já não te consegues esconder, tapar com um muro ou um écran de fantasia. Esta mulher deixou de te amar, uma coisa simples que pode sempre acontecer a quem quer que seja, está sempre a acontecer por todo o lado. Uma coisa irreversível e irreparável e estúpida como um desastre inesperado. Não ousas mexer-te, com receio de a acordares e ouvires as palavras temíveis. Gostavas que tudo fosse um sonho, um pesadelo, mas sabes bem que não. Sentes tanto medo que continuas imóvel. Não sabes para onde fugir, onde te esconderes. A mulher deitada ao teu lado é o teu perigo, e não tens qualquer esperança, nem vontade, de lhe sobreviver. Sentes só uma dor aguda no peito que vai e volta para se fazer melhor sentir, uma faca que te espetam devagar e com maldade. A mulher que te amou e deixou de te amar, que se enganou, uma coisa tão simples como isso, tão vulgar como esta, só que és tu que estás ali parado e ferido sem te poderes levantar, sem poderes acabar o que quer que seja ou recomeçar o que quer que seja, nesta manhã igual a todas as outras em que descobres o que já sabias e maldizes a vida que por instantes vos uniu e vos separou.
(Pedro Paixão- AMOR PORTÁTIL)

(Fotografia de Anders Blomqvist)
Sinto-me vazia, sem inspiração,
Devoro o pensamento com a ilusão,
Mas uma doce voz me diz baixinho:
“percorre as estrelas devagarinho…
solta essa magia que em ti existe,
mostra ao vento irado a lei do mais forte
e verás que em ti afinal persiste
essa fatal e desejada sorte!”.
Falou mais alto minh’alma guerreira,
Quisera ela minha mente exaltar,
Ensinando-me o coração a amar!
Fui derrotada, sou uma vencida
E mesmo a chorar estou convencida
Que numa vencedora me tornei!
(Teresa Sousa- INÉDITO)
[Da minha mana. Escrito por ela. Feito recordar. Por mim. Aqui e agora para lhe dizer: "É assim que eu te vejo, hoje. Tu conseguiste. Acredita. Tu conseguiste."]

Olho o nada pela janela
E o nada são ruas
Árvores e vida
Tem movimento, som e cor.
Sou o oposto
Aridez, silêncio, ausência de cor.
Afasto-me da janela.
Contemplar o nada lá fora
Acentua tudo
O que tenho em mim.
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
[Ana: não preciso de dizer nada pois não? Beijo. Sandra]

Não tenho ninguém a quem anunciar que não durmo. Aqueles que dantes se aproximavam para me dedicar um sorriso de compaixão, parecem agora definitivamente marcados pela minha tristeza e ficam à porta das luzes, enquanto permaneço na escuridão do corpo esquecido e dos meus gestos sombrios.
X-ato, meu amigo, corta-me uma vez mais, faz com que a minha destruição superficial faça esquecer o nada que sou por dentro. Sinto-me estranho, já não reconheço a própria voz, ouço-a mas não a alcanço, é o eco da minha fala de outros tempos. O espaço em que vivo é afinal o terreno em que o meu corpo, sem imagem, deixa de se ver.
Vivo à sombra das sombras, qual a imagem de mim próprio? Espreito-me de novo ao espelho e não me reconheço. Em volta dos muros da minha memória busco referências ao passado, encontro tecidos de desespero, animais feridos, águas escuras. Quero percorrer sem cessar o risco do absurdo e da morte, ficar de pé horas seguidas a olhar o vazio dentro e fora de mim, ouvir os meus passos na madrugada, esperar por ti. À boca de cada rua pressinto o teu olhar, sei que estás longe e tenho medo.
Leugim Aierroc, Miguel Correia, brinco com o meu nome, salivo as sílabas para que ele ganhe sentido, fico de novo perdido entre o silêncio e a voz. O sangue dos meus cortes arrefece agora, tudo permanece suspenso e sem destino.
Atravesso a cidade cheio de sede, procuro vestígios de mim nos sem-abrigo dos Anjos, oiço ao longe uma voz, uma língua estranha de alguém perdido como eu.
...
Leugim-Miguel, como entender que deixei de existir no exacto momento em que a Joana me deixou?, ando agora à procura de um sol que nunca nascerá, nomes vazios preenchem as minhas memórias, nu diante de mim próprio procuro um impulso para atingir alguma claridade.
E apesar da inquietação e do ciúme, fui feliz contigo. Conseguia arranjar tempo para te ver durante a semana, nas noites de sexta e sábado ficávamos juntos até de manhã. Como gostei de ver nos teus lábios a luz da madrugada!
Como fomos capazes de, em conjunto, amar o sol!
Todos os momentos livres eram para ti.
...
Um dia mandaste um mail:
"És capaz de descobrir uma fonte secreta que faça desaparecer as sombras e tire, para sempre, a sede do nosso amor?"
...
Não te perdoo não teres sido mais clara, não posso aceitar que não tivesses dito como eu te oprimia, como o meu amor obsessivo te cansava e te fazia querer fugir ou estar muito ocupada, como as minhas permanentes combinações te saturavam. Nunca vi um gesto de enfado, uma recusa a um programa, uma alternativa às minhas propostas. Pensava que te conhecia tão bem que quase adivinhava o que pretendias, tudo me parecia fácil na ânsia de estar contigo.
(Daniel Sampaio- LIÇÕES DO ABISMO)

(Trabalho de João Garcia)
Já o tempo voa para alem da memória residual do que éramos. Eu, tu, nós… tudo o que nos unia e por nós servia como dínamo do planeta. Chama-lhe egocentrismo cognitivo, chama-lhe romantismo exacerbado, chama-lhe o que quiseres. Mas a verdade singela é que assim eras para mim, a medida de todas as coisas. A referência humana de todas as medidas, a pessoa certa, apesar de todas as nossas incompatibilidades malucas.
Hoje passei perto de tua casa, naquela rua onde tantas vezes te esperei em vão por coisas fugazes, coisas triviais. O teu sorriso, um aceno, um simples vislumbrar repentino da tua passagem na rua, por vezes apenas o teu vulto delineado na sombra do cortinado da rua janela. Passamos bons momentos aqui, nestas ruas quadradas e mecânicas desta cidade suja. Onde os prédios simétricos eram gigantes de pedra que assistiam testemunhas do meu amor por ti. Hoje são apenas jazigos desmesuradamente grandes onde se enterram vidas de pessoas às dezenas. Tudo é demasiado desinteressante, demasiado mortiço, desprovido de vida, de cor, de alma. Sinto a tua falta… sabes?
É engraçado imaginar a quantidade de coisas vulgares que fazíamos juntos, sem nunca atribuir grande valor ou significado a essas mesmas, como se sempre as tomássemos como garantidas de parte a parte, como um casamento velho e gasto onde já nos tínhamos habituado um ao outro. Estranhamente hoje vejo a importância desperdiçada em cada momento não gasto contigo. Em cada gesto em que não te afaguei o cabelo, em que não te beijei as pálpebras fechadas sempre que sorrias, e como sinto saudade desse sorriso… sabes?
A vida é feita de coisas triviais, hoje sei… coisas insignificantes que juntas formam uma história, um passado, a razão de uma ausência, e a razão do peso dessa ausência. Essas pequenas coisas fazem-me o homem buraco que hoje sou, nas pequenas coisas que me assombram no pequeno homem que me tornei, na trivialidade da vida banal que me resta. Nos dias que tenho sem te ter. Na vida sem ti…
(Texto da autoria de João Natal)
[Para ti, o melhor. Sempre. Tu sabes. Sandra]

A ausência interminavelmente chicoteada no isolamento do corpo, o pranto da noite porque levaste a lua. O vazio em todas as palavras. A falta espinhosa que persegue o caminho de presente lembrança. A falta que me fazes.
O raciocínio ilógico de ter-te crucificado ao pensamento.
Enlouqueço.
O meu corpo sobre o teu. Vezes sem conta.
Não sei contar o amor. Se pudesse dividia-te em mil pedaços de anelo e multiplicava-os pelas incontáveis razões de sentir-me assim contigo.
A escrita tem o sabor embriagante do teu cheiro.
Enlouqueço.
(Texto editado, primeiramente, em Memória Futura. A autora é uma das responsáveis por este blog).

(Natércia Freire)
E assim tenho passado. Apenas entre.
Desconhecido o tempo que é de morte
E o Mistério que fui Eu no seu ventre.
Entre o Dia dos outros e o meu Dia
Se levanta a agonia
E canta como um galo, ainda Noite,
Anunciador do Mal. Vidente e estridente.
De mim, o sonho ausente.
Dos outros, o clarim que me asfixia.
Mas é na terra de outro Continente
Que o aviso dispara a linha fria.
E a minha Pátria vem, impaciente,
Mascarada de Grécias, de distâncias
Remotas como Vénus. Renuncia
Ao Presente. O Presente se adia. . .
E sempre fica entre.
(Natércia Freire- LIBERDADE SOLAR)

Miguel, quando uma noite disseste que eu era um caso perdido como mãe, tive a certeza de que iria caminhar todos os dias por entre quartos sombrios e mares de ruínas, o meu nome (Mena) como uma espécie de vazio, a minha voz enrouquecida, soprada por cordas tendinosas do meu coração até aí desconhecidas, o corpo abandonado como um registo no catálogo dos vivos.
Nestes últimos dias lembro muitas vezes essa noite de tempestade. Tinhas passado horas na casa de banho, como sempre acontecia quando estavas com problemas. Saíste com uma toalha à cintura, o que fazias desde que o teu corpo cresceu. Perguntei apenas que se podia ajudar (há semanas que quase não falavas, batias com as portas e passavas as noites a experientar jogos no computador), então ouvi a frase terrível. Três semanas depois fugias de casa.
Sinto-me envergonhada com a minha própria cobardia. Nessa noite devia ter gritado, ou então ido atrás de ti para o teu quarto. Como não o fiz, um deserto de trevas cresceu entre nós. Murmúrios que não identifico povoam os meus sonhos, e porquê, se dantes só havia o mar? A noite chega cedo e lembra o teu nome. Continuo à espera do que não terá fim. Sei que não voltarás.
E como houve sempre amor entre nós!
(Daniel Sampaio- LIÇÕES DO ABISMO)

(Susan Sontag)
De facto, há muitas utilizações das inumeráveis oportunidades que a vida moderna fornece de olharmos- à distância, através da fotografia- o sofrimento dos outros. As fotografias de uma atrocidade podem dar origem a respostas contraditórias. Um apelo à paz. Um grito de vingança. Uma apreensiva consciência, continuamente alimentada pela informação fotográfica, de terem acontecido coisas terríveis.
...
Durante muito tempo, houve pessoas que pensavam que se se pudesse dar uma imagem suficientemente vívida do horror, a maior parte das pessoas acabaria por tomar consciência da indignidade, da insanidade da guerra.
...
Imagens contínuas (televisão, vídeo, cinema) rodeiam-nos incessantemente, mas quando se trata de nos lembrarmos, a fotografia morde mais fundo. A memória congela as imagens; a sua unidade de base é a imagem individual. Numa era de sobrecarga de informação, a fotografia fornece um meio rápido de apreender uma coisa e uma forma compacta de memorização. A fotografia é como uma citação, uma máxima ou um provérbio. Todos nós armazenamos mentalmente centenas de fotografias, disponíveis para serem lembradas instantaneamente.
(Susan Sontag- OLHANDO O SOFRIMENTO DOS OUTROS)

(Trabalho de Ana Isa Fonseca)
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)

(Florbela Espanca)
16 de Março de 1930
Imagino-me, em certos momentos, uma princesinha, sobre um terraço, sentada num tapete. Em volta... tanta coisa! Bichos, flores, bonecos...brinquedos. Às vezes a princesinha aborrece-se de brincar e fica, horas e horas, esquecida, a cismar num outro mundo onde houvesse brinquedos maiores, mais belos e mais sólidos.
(Florbela Espanca- DIÁRIO)

(Fotografia de Hugo Almeida Firmino)
Fui menina um dia em teu olhar;
O seu brilho me elevava às estrelas
E me ensinava o coração a amar.
Como é bom recordar histórias belas,
Contos de fadas lindos de encantar!
Ondas que deleitam almas ociosas,
Brisas que vão em direcção ao mar…
Eram fábulas reais e engenhosas!
Saudades desses tempos? Sim, imensas,
São memorias de um passado que é meu,
Momentos que eu vivi no mundo teu.
E hoje que numa mulher me tornei,
Não perdi o sentimento de infância,
Não deixei de ser a tua Criança!

Tu partiste para lá do desconhecido e o meu coração ficou a chorar; parte de mim sucumbiu e tudo o que resta são estas lágrimas de um mar salgado que rolam pelo meu rosto sem parar. Não disseste "adeus", mas todos os dias escuto esta impiedosa palavra que certamente veio para ficar. Ainda tenho a vã esperança de te ver entrar por aquela porta... e então corro para os teus braços para te abraçar. Esta vida é tão cruel! Porque temos de nos separar das pessoas que amamos, ainda que temporariamente? Porque não nos concede Deus a graça de viver para sempre ao lados dos entes que nos são queridos?
Agora é tarde para lamentações... terei de aprender a viver com estes remorsos; remorsos pelo carinho e amor que não te dei, pelas palavras que não proferi, pela falta de compreensão, pelo egoísmo, pela imaturidade, pela ausência... Perdoa-me...
[No dia de hoje, e ainda mais do que tem acontecido, a minha alma está com a tua alma, no extremo da fusão que possa ser possível. Mana]

(António Gedeão)
Tudo é fácil quando se está brincando com a flor entre os dedos
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança, ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.
Desde que nasci que todos me enganam,
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades
mas com profundas, autênticas verdades.
E é tudo tão simples quando se rola a flor entre entre os dedos
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos,
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem
(António Gedeão- OBRA POETICA)

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dansa,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- POESIA)

De morte alguma se diga
que é apenas transitória. E talvez seja
melhor assim: sem a surda
dolência das palavras, dos acenos,
a querer atenuar
esta irremediável ausência
a mágoa mortal da partida.
Por mais difícil que seja
recordar-te é sempre aqui
entre medronhos e cálices vazios
que te sinto, que te sorvo
sem curar de saber
no mapa ou na geografia das datas
o rumo que tomas
o perfil com que surges
coberta de musgo e flores de Maio
em cada porta que se abre.
E que nunca em nós abrande
este amor que nos liga
aos frutos, às sementes, aos amigos,
este saber dar o que temos
dentro do peito aconchegado:
o sorriso, a carícia,
o imperceptível beijo
ao despertar. E assim
por nós vão passando os anos,
inumeráveis rugas e vestígios
deste tempo que se muda
para além do que sabemos.
E que neste jeito de mudança
nunca as mãos deixem
de sentir o mundo
alucinante e veloz
agitando-se em redor.
(José Jorge Letria- OS DIAS CONTADOS)

Esta chuva fustiga-me a cara,
Como vagas de mar bravio irado,
Quebrando em espuma a bruma da manhã
Na barra o molhe onde o barco amarra
Repara em mim o tempo não pára
Verto as lágrimas de um ser quebrado
No meu esgar de um sorriso que não há
Num triste fado a uma guitarra...
Pois as mãos frias que aqui repouso
O olhar que no horizonte deito
O meu ar contemplativo e triste
São as coisas que eu ainda ouso
O resíduo dentro do meu peito
De um amor que já não mais existe...
(João Natal- 23/12/03)
[Para o autor, um abraço muito especial.]
outra vez a mesma merda de solidão.
volta tudo de novo e de novo mais que velho às tão questionadas razões de tristeza.
consumir o ar até à asfixia impossível da morte cerebral.
encalhar na rede pérfida das indiferenças açoitadas no vazio.
chorar
nova
e
mente
nova
e
mente
sem saber porquê. PORQUÊ??????????
quebrar as águas onde nos afundamos e morrer de tanto querer viver.

(Amália Rodrigues)
Quem conseguir esquecer
Que veio cá p'ra morrer
Pode guardar ambições
Pode rir, pode viver
Se não pensar em morrer
Pode viver de ilusões.
Quem conseguir esquecer
Que veio cá p'ra morrer
É mais feliz do que eu
Faça eu o que fizer
Não posso deixar de ver
Morrer tudo o que nasceu.
(Poema escrito por Amália Rodrigues- não musicado)
[Um agradecimento muito especial à Valéria pela disponibilização do poema.]

(Adriana Calcanhoto)
Eu não gosto de bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é de bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é de bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto de bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
(Adriana Calcanhoto- PERFIL)

cobrem-se as mágoas de falsas risadas. dá-se ao corpo a mesma forma do sistema. sai à rua a ferramenta incontrolável. morre o dia sem a noite nascer.
calam-se as aves do horizonte. falam os cegos das mentiras. come a vida a morte. caga-se a história sem palavras.
fodem-se os desejos com laivos de merda. perde-se à escrita a lógica do futuro. corre o som despido na falta de pacote carnal.
escondem-se as putas debaixo da cama. soltam-se os carros à deriva da maré. mutila-se jesus aos pés da incompreensão.
- entendes?
- não.
afinal somos tudo pontos. pontos perdidos em busca de mais pontos.
Enfiamo-nos
Em Centros/Catedrais comerciais
Onde se consome
A roupa na moda
O livro
Do escritor na moda
A música
Do grupo na moda.
O gosto, o conceito de beleza
Estereotipado, padronizado,
Normalizado.
Eu não gosto da cor na moda
Detesto o escritor na moda
Não ouço a música na moda.
Centros comerciais
Só de longe e por fora.
E observo
Os carreiros de gente na moda
Que sem critério, nem controlo
Consomem toda a merda que lhes dão
Só…Porque é moda!
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
[O agradecimento habitual à colaboradora. Re-edição a partir do blog da autora.]

(Jacinto Lucas Pires)
Olho a cidade mas não olho a cidade, fumo um cigarro, ou um maço, e depois o dia acaba e é tudo ao contrário, quem se sentou levanta-se, quem subiu desce, quem estacionou arranca, quem abriu fechou. Fecho a porta da casa-de-banho à chave e fico presa. Sento-me num canto e sinto uma roda a avançar para mim, não é uma roda mas é assim que eu a vejo, uma roda pequena mas a avançar, a avançar, a ficar cada vez maior, uma roda sem nada, uma roda como uma mó de pedra branca, só que vazia, e eu num segundo perco as forças e sou uma menina sozinha e com medo e o que é isto meu deus, a roda roda na minha direcção e eu que nunca acreditei em deus dou por mim a dizer: meu deus por favor meu deus, e deus não existe ou é uma mó branca enorme que avança para nós com uma tristeza aaaa, grito na casa-de-banho, aaaa, sozinha, sem cara, com a boca aberta mais do que a cara por cima dos olhos a garganta as veias do pescoço no espelho aaaa e fecho-me de cabeça entre as pernas para me proteger daquilo tudo que vem com toda a força devagar, devagar, devagar, aquilo tudo que vem, uma roda feia branca e vazia cada vez mais próxima, uma roda que é uma mó cada vez maior oh meu deus aaaa, e eu de cara fechada e olhos mortos, como o cão amarelo na estrada, sem dar uma resposta, um sinal qualquer, eu sem me virar para ti, de olhos mortos, e deixar-me ir com o teu melhor amigo, a deixá-lo fazer-me tudo, coisas que nunca te deixei, e ele a entrar em mim e a entrar e a entrar e eu longe como uma coisa puta, e ele escuro, feio, bruto, criminoso, como quem fuma, como quem tem uma coisa na mão, e eu a chorar de prazer e horror porque vou morrer um dia e morro, ele a entrar em mim, contra mim, e a entrar e eu tão só as minhas coxas a tua cara aberta as mãos dele tão duras coisas que eu não percebo, coisas sobre as minhas pernas e o meu rabo e eu sem me voltar abro o maço e acendo o cigarro na boca e os carros contra mim, as luzes, o meu amor a minha vida e tudo ao mesmo tempo, e eu parada.
(Jacinto Lucas Pires- ABRE PARA CÁ)

(Soren Kierkegaard)
O homem que desespera tem um motivo de desespero, como por um breve momento se pensa; mas logo depois surge o verdadeiro desespero, o verdadeiro rosto do desespero. Ao desesperar duma coisa, no fundo, o homem desespera de si e, em seguida, quer libertar-se do seu eu. Assim, quando o ambicioso que diz "Ser César ou nada" não consegue ser César, desespera. É por não se ter tornado César que já não suporta ser ele próprio. Mas, no fundo, não é bem por não se ter tornado César que desespera, mas sim por não se ter tornado nesse eu.
Esse mesmo eu, que doutro modo teria motivado todo o seu júbilo- júbilo esse contudo não menos desesperado- ei-lo agora a coisa mais insuportável! Analisando o sujeito mais de perto, não é o facto de não se ter tornado César que lhe é insuportável, mas o facto de o eu não se ter tornado César; melhor dizendo, o que ele não suporta é não poder libertar-se do seu eu. Tê-lo-ia podido, tornando-se César, mas tal não sucedeu, e o nosso desesperado permanece insatisfeito.
...
O desespero será uma superioridade ou uma limitação? Uma coisa e outra, em pura dialéctica. A só considerarmos a ideia abstracta, sem pensar num caso determinado, deveríamos julgá-lo uma enorme superioridade. Sofrer dum mal destes coloca-nos acima do animal, progresso que nos distingue dele muito mais do que caminhar em pé, sinal da nossa verticalidade infinita ou da nossa espiritualidade sublime. (...) Assim, há uma infinita superioridade em poder desesperar e, contudo, o desespero não só é a pior das misérias, como a nossa perdição. (...) O desespero é a discordância interna duma síntese cuja relação diz respeito a si próprias. Mas a síntese não é a discordância, é apenas a sua possibilidade, ou então a sua implicação. (...) O desespero está portanto em nós; mas se não fossemos uma síntese, não poderíamos desesperar (...).
(Soren Kierkegaard- DESESPERO- A DOENÇA MORTAL)

a noite não virá
passará ao largo
entre o horizonte e a nuvem
no brancoamarelo da lonjura
estará muda e perplexa
vagueando entre a chuva e o assoprar do vento
sem se aproximar de nós
terá medo que a esventremos
perceberá pelo nosso olhar
que a tememos ainda
mas que ficaremos vigilantes
com os braseiros acesos até de madrugada
ninguém deixará apagar o fogo
passaremos a palavra a sílaba
que manterá o alerta
e a contida raiva atenta
bateremos com força as pedras
sem qualquer ritmo ritual
apenas para que sinta mais medo do que nós
a noite não virá
nem bruta nem serena
olhar-nos-á de longe sem esperança
e abalará silenciosa
(Henrique Ruivo- BRANCO AZUL OCRE)

(Boris Vian)
Gostaria
Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento
(Boris Vian- CANÇÕES E POEMAS)

Com estreia agendada para 18 de Março de 2004, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, Vagabundos de Nós é a primeira experiência do psiquiatra e autor Daniel Sampaio, naquela que é a adaptação da sua escrita para teatro.
Vagabundos de nós é a história de um jovem e da sua mãe, confrontados com a homossexualidade do rapaz. Diogo, o filho, e Luísa, a mãe, introduzem-nos no seu mundo muito próprio através de uma permuta de confidências para a qual o leitor é solicitado.
Diogo nasce. Diogo cresce. Luísa observa-o em permanente sobressalto porque Diogo é diferente nas atitudes, nos gostos, na sensibilidade e nas amizades que procura. Diogo não pertence a nenhum lugar, sente-se perdido, não se identifica.
Luísa apercebe-se do sofrimento e dos permanentes conflitos íntimos do filho, mas tem relutância em admitir aquilo que sabe e que sempre soube. O seu instinto de protecção leva-a a construir com o filho um mundo a dois, isolado do restante núcleo familiar, um mundo que ambos partilham e percorrem numa autêntica via dolorosa. No diálogo franco e livre que sempre mantiveram, só tardiamente as palavras cruamente descodificadoras de tanta amargura aconteceram: Mãe, sou homossexual.
Diogo, que fazer quando nos sentimos diferentes? Luísa, como gerir a tua frustração, a dor infinita que te consome ao tomares consciência de que este filho tão amado nunca te dará os netos que adorarias ter, e que cultural e socialmente sabes representarem o paradigma da continuidade da família? Será suficiente a tua quase inesgotável capacidade de compreensão, de paciência e de amor?
O elenco conta com Márcia Breia, actriz consagrada e membro da companhia Teatro da Cornucópia, e com Nuno Lopes, jovem actor que se notabilizou pela sua colaboração com Herman José e participação na telenovela “Esperança”, da TV Globo (Brasil).
Este segundo espectáculo do Mundo Perfeito procura solidificar um projecto de teatro que, na sua primeira temporada, faz uma aposta forte em inéditos da dramaturgia portuguesa.
Texto: Daniel Sampaio
Encenação e dramaturgia: Luís Osório
Interpretação: Márcia Breia e Nuno Lopes
Cenografia: Alexandra Cruz
Desenho de luz: Jorge Ribeiro
Imagem cartaz: Nuno Figueiredo
Fotografia: Magda Bizarro
Produção executiva: Magda Bizarro e Tiago Rodrigues
Direcção de produção: Mundo Perfeito [em colaboração com o Teatro Maria Matos ]
Teatro Municipal Maria Matos, Lisboa
De 18 Março a 18 de Abril de 2004
Horário:
Quarta a sábado às 21h00
Domingo às 17h00
(Informação extraída/adaptada de: indispensavel.net e Daniel Sampaio)

Parado e atento à raiva do silêncio
de um relógio partido e gasto pelo tempo
estava um velho sentado no banco de um
jardim
a recordar fragmentos do passado
na telefonia tocava uma velha canção
e um jovem cantor falava na solidão
que sabes tu do canto de estar só assim
só e abandonado como o velho no jardim?
o olhar triste e cansado procurando alguém
e a gente passa ao seu lado a olhá-lo com
desdém
sabes eu acho que todos fogem de ti pra não
ver
a imagem da solidão que irão viver
quando forem como tu
um velho sentado num jardim
passam os dias e sentes que és um perdedor
já não consegues saber o que tem ou não valor
o teu caminho parece estar mesmo a chegar
ao fim
pra dares lugar a outro no teu banco do jardim
o olhar triste e cansado procurando alguém
e a gente passa ao seu lado a olhá-lo com
desdém
sabes eu acho que todos fogem de ti pra não
ver
a imagem da solidão que irão viver
quando forem como tu
um resto de tudo o que existiu
quando forem como tu
um velho sentado num jardim
(Mafalda Veiga- PÁSSAROS DO SUL)

Velho preto que caminhas na berma da estrada
Os anos pesam mais que o caminho.
O teu passo é incerto e o teu rumo perdido
Não há futuro, só passado
E nem isso te incomoda...
Nada te envergonha...
A tua bengala é um pau,
Torto e arquejado,
Retorcido e decrépito como a tua aparência...
Os carros passam por ti como o tempo,
Indiferentes,
Frios,
Trocistas,
Desdenhando em sorrisos daquilo em que te tornaste...
Aquilo que és...
Encetas um dialogo com ti mesmo;
Barafustas e protestas,
Esbracejas agitando tua bengala no ar;
Nada no mundo é teu
Nem mesmo o teu mundo...
Velho preto que caminhas na beira da estrada
Continuas errante,
cambaleante por entre o transito,
divagas...
sem que mais ninguém repare,
sem que mais ninguém queira reparar
até que alinha do horizonte
te consuma
e suma
adeus velho preto...
(João Natal- 09/07/03)
[Para o autor, que cada vez mais se está a tornar numa pessoa especial- eu diria, da "família"- um beijo muito grande.]

Lá fora a chuva cai,
Cá dentro a minha alma chora.
Do mais ínfimo da terra se ouve um “ai”,
Onde a mais profunda dor mora.
As nuvens desprezam o céu,
As estrelas perdem o brilho,
O mar cobre-se com um negro véu,
A lua entra em delírio.
As montanhas gritam ao vento,
A morte tudo acalma,
Que mais se há-se pedir ao tempo,
A não ser uma intensa Chuva D’Alma!
Ao ver a pureza do céu,
O brilho do sol,
O sorriso da lua,
A imensidão das estrelas,
A liberdade de uma gaivota,
Descobri:
A pureza da tua alma,
O brilho do teu olhar,
Um sorriso que emerge de uns lábios delicados,
A tua grande capacidade de Amar
E uma liberdade tão desejada
Que um dia conseguirás alcançar!
(Teresa Sousa- INÉDITO)
[Para a minha mana, que adoro, um beijo muito grande. Este poema é teu...é nosso. Está aqui.]

(Albert Camus)
O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. Consiste a questão em saber se essa recusa o não pode conduzir a outra atitude que não seja a destruição dos outros e dele próprio, se toda a revolta deve terminar na justificação do morticínio universal ou se, pelo contrário, sem pretensões a uma inocência impossível, ela poderá descobrir o princípio de uma culpabilidade racional.
(Albert Camus- O HOMEM REVOLTADO)

Acendo um cigarro.
Sento-me aos pés da cama.
Faço um balanço deste dia:
Antigas vontades impedem-me de prosseguir.
(são amores que me prendem à terra fria)
Fujo de vidas que preciso junto a mim.
(almas que completam o meu olhar)
Procuro encontrar afinidades numa tempestade de sentimentos.
(apanho interrogações do chão)
(Morgatha- NIGHTWRITINGS)
[Mais uma vez o nosso obrigada à autora pela autorização de edição.]

Odeio as palavras
Vê-las aqui
Dá-me vontade de esmurrá-las,
Exterminá-las.
Fazer uma pira de papeis
Cheios de palavras.
Incinerar todas as canetas.
Partir o teclado,
Para não ver letras
Que formam palavras.
Mas sei que o silencio
Não é senão um abismo
De palavras que se calam.
E vivo em guerra
Com as palavras ditas,
E as palavras caladas.
E agrido-as, sovo-as.
Porque as palavras
Me ferem muito mais a mim.
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
[Para a autora, subentendam-se umas palavras muito especiais.]

(Sidónio Muralha)
A minha lágrima salgada
Caiu no lenço da vida
Foi lembrança naufragada
E para sempre, perdida
Foi vaga despedaçada
Contra o cais de uma partida
Velhas pedras que pisei
Saiam da vossa mudez
Venham dizer o que sei
Venham falar português
Sejam duras como a lei
E puras, como a mudez
Visitei tantos países
Conheci tanto luar
Nos olhos dos infelizes
E, porque me hei-de gastar
Vou ao fundo das raízes
E hei-de, gastar-me a cantar.
(Sidónio Muralha- Poema musicado para Amália)
[Poema enviado por Valéria Mendez. Muitíssimo obrigada.]

(José Luís Peixoto)
Descansa, pai, dorme pequenino, que levo o teu nome e as tuas certezas e os teus sonhos no espaço dos meus. Descansa, não vou deixar que te aconteça mal. Não se aflija, pai. Sou forte nesta terra nos meus pés. Sou capaz e vou trabalhar e vou trazer de novo aqui o mundo que foi nosso. Vou mesmo, pai. O mundo solar. Reconhecê-lo-ei, porque não o esqueci. E também o tempo será de novo, e também a vida. Sem ti e sempre contigo. A tua voz a dizer orienta-te, rapaz. Não se apoquente, pai. Eu oriento-me. Pai, não se preocupe comigo. Eu oriento-me. E vou. Anoitece a estrada no que sobra da manhã. Chove sol luz onde está o que os meus olhos vêem. A carrinha grande que prometes-te, que planeas-te para nós, que ganhas-te a trabalhar meses, leva-me. Onde estás, pai, que me deixaste só a gritar onde estás? Na angústia, preciso de te ouvir, preciso que me estendas a mão. E nunca mais nunca mais. Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.
(José Luís Peixoto- MORRESTE-ME)

(Manuel A. Pina)
Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
(Manuel António Pina- POESIA REUNIDA)

(Florbela Espanca)
Passo triste na vida e triste sou,
Um pobre a quem jamais quiseram bem!
Um caminhante exausto que passou,
Que não diz onde vai nem donde vem.
Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém
A flor da minha boca desdenhou!
Solitário convento onde ninguém
A silenciosa cela procurou!
E eu quero bem a tudo, a toda a gente...
Ando a amar assim, perdidamente,
A acalentar o mundo nos meus braços!
E tem passado, em vão, a mocidade
Sem que no meu caminho uma saudade
Abra em flores a sombra dos meus passos!
(Florbela Espanca- RELIQUIAE)

(Oscar Wilde)
A vida moral do homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito dum meio imperfeito. Nenhum artista deseja provar o que quer que seja. Até as coisas verdadeiras se podem provar.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo.
O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
O pensamento e a linguagem são para o artista instrumentos de arte.
O vício e a virtude são para o artista materiais de arte.
...
Toda a arte é ao mesmo tempo superficie e símbolo.
Aqueles que descem da superficie fazem-no com risco seu.
O mesmo sucede àqueles que lêem o símbolo.
É o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte mostra que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.
Pode-se perdoar a um homem o fazer uma coisa útil, enquanto ele a não admira. A única desculpa que merece quem faz uma coisa inútil é admirá-la intensamente.
Toda a arte é absolutamente inútil.
(Oscar Wilde- O RETRATO DE DORIAN GRAY)

Caminho sem pés e sem sonhos
Só com a respiração e a cadência
Da muda passagem dos sopros.
Caminho como um remo que se afunda.
Os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
Para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
Avanço sem jugo e ando longe
De caminhar sobre as águas do céu.
(Daniel Faria- POESIA)
Distantes os amores que não foram,
Que deixaram de acontecer
Por não ter tido a hora certa.
Distantes os minutos que não acorreram,
Porque não tiveram tempo de existir.
Distantes as coisas que não nasceram,
Porque não lhes foi permitido
Escolher pela própria vida.
Distante eu de ser a poeta que sente tanto
Quanto qualquer outro que não teve
A oportunidade certa de acontecer.
Distantes os amores que foram diversos,
Que felicidade em si, por si, duraram pouco.
Distante as vidas dos amores que não aconteceram
Porque não acharem justo, eles amarem
E como tal crescer e se manifestar.
Distantes nós mesmos, que de um vazio, esquecemos
Que antes de sermos o que somos, não passamos
de meros seres humanos, que nascemos antes
e morremos logo depois que é nos dada à vida.
Por isso distantes somos mais ainda de sermos
amigos daquilo que um dia
nos poupou a vida e nos tirou
o último ar que existia.
Distantes de sermos o marido e a esposa perfeita,
na imperfeição da vida
que se esqueceu de nos ensinar
A alegria num mundo que acabou de nascer.
(Lilia Trajano- INÉDITO)
[À autora, colaboradora certa, o nosso muito obrigada.]

Suavemente, na penumbra, uma mulher canta para mim;
Fazendo-me voltar e descer o panorama dos anos, até que vejo
uma criança sentada debaixo do piano, na explosão do prurido das
cordas
E pressionando os pequenos, suspensos pés de uma mãe que sorri
enquanto ela canta.
Apesar de mim, a insidiosa mestria da canção
Atraiçoa-me fazendo-me voltar, até que o meu coração chora para
pertencer
Ao antigo entardecer dos domingos em casa, com o inverno lá fora
E hinos na aconchegada sala de visitas, o tinido do piano o nosso guia.
Por isso agora é em vão que a cantora irrompe em clamor
Com o appassionato do grandioso piano negro. A magia
Dos dias infantis está em mim, a minha masculinidade
É desencorajada no fluxo da lembrança, choro como uma criança
pelo passado.
(D.H. Lawrence- ROSA DO MUNDO. 2001 POEMAS PARA O FUTURO)

Há alguém dentro de mim
Que não eu.
Esse alguém tem garras
Dentes afiados,
Grita para ser ouvido
Não tem medo de levar na cara,
Vai à luta
Finca os pés no chão
E não desiste.
Há alguém dentro de mim
Que não eu
Que me ultrapassa.
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
[Mais uma re-edição do excelente trabalho de uma grande colaboradora. Obrigada a ti.]

Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve nunca será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o sentido do tacto: o único que pode alterar as coisas. Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem altamente inteligente, mas imóvel.
(Gonçalo Tavares- UM HOMEM: KLAUS KLUMP)

(Fotografia de João Santiago)
Eduarda
Os cabelos na minha mão. A doce vertigem. As palavras certas. O teu rosto. Amanhã deixo de vir. Amanhã, já não estou cá. Amanhã, deixo-te para sempre. Revejo tudo na minha cabeça. Há uma mentira intrínseca em tudo o que se passou. Tu dizes para não duvidar. Não duvidar do que fomos. Pedes-me para ver tudo como um engano, mas não como uma mentira. Não dizes assim, mas é isso que dizes. Independentemente de o perceberes ou não. Eu aceito, estive enganada. Tu também. Ficas contente? Logo, um engano é uma mentira. Uma doce mentira idiota, nas tuas mãos.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

(José J. Letria)
Bem sei que não é fácil
enfrentar o sonho
descobrir os seus brandos contornos
tomar-lhe o peso
conhecer-lhe a textura, a densidade.
Por vezes o sonho
é incómodo hóspede
visita que de tão longínqua
se tornara há muito inesperada.
Há quem o remeta
em carta selada, sem demora,
a qualquer vate lunar
fabricante de rimas sensuais
para que o dome
para que o enfeite com rendas
e por fim o sufoque
com lenços de brocado
e exóticos aromas.
Há quem crave no sonho
furiosos punhais,
setas e insultos
por temer o seu sorriso
a sua descomunal pureza.
Mas o sonho também é
acordar todos os dias
com os olhos postos
no trigo, no ferro incandescente
e fazer de cada hora
um tijolo, uma trave,
para inventar o amanhã.
Nesse caso o sonho é aqui
com luzes acesas
e festivas colchas nas varandas
onde quer que um homem sinta
que é urgente, inadiável,
o exercício de estar vivo.
(José Jorge Letria- OS DIAS CANTADOS)

(Ferreira Gullar)
No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)

Não limpes os anjos que os anjos ainda não se começaram a sujar.
Claro que começaram- disse o outro.- Nós ainda não começámos a limpar, o que é completamente diferente. Mas ninguém permanece limpo: a guerra dura há tempo de mais.
O homem sorriu.
Agora, quando falamos de sujidade rimo-nos- disse-, porque a única higiene que nos importa é sobreviver. E para sobreviver fazemos o que for necessário, excepto começar a limpar.
Ninguém se vai salvar assim. Aperfeiçoámos certos gestos como se faz no trabalho. E aperfeiçoámos principalmente algo a que não sei se chamo gesto, que é sobreviver. Não é tanto um gesto, mas um plano, um sistema de gestos: sobreviver, sobreviver, sobreviver.
O dia é dividido em vários momentos, como numa folha um quadrado desenhado a lápis que se vai cortando em quadrados cada vez mais pequenos. E em cada quadrado o mesmo objectivo. E isso significa apenas que não foi feita nenhuma separação: enquanto estamos vivos o dia é igual. É isto. Sobreviver. Continuar a querer estar vivo.
(Gonçalo Tavares- UM HOMEM: KLAUS KLUMP)

Aquilo que sou, não sei
Se barco à deriva ou nada
Serei remoinho de vento
em trovas de setas e espadas
Aquilo que sou, não sei
Se amor em pedra bruta
Ou fado fechado em canto
De angústia, negrume e pesar
Dum resto que existe no pranto
Aquilo que sou, não sei
serei uma pedra caída
ignorada, pisada, partida
Pelos monstros da tristeza
Sem regresso...sem volta...sem ida
(Valéria Mendez)
[Letra de fado da autoria de Valéria Mendez. Para ela, uma palavra sempre especial e um espaço sempre conseguido, aqui, junto de muitos dos melhores, como faz questão de salientar.]

(Al Berto)
noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se
onde se pode - num vocabulário reduzido e
obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial
(Al-Berto- HORTO DE INCÊNDIO)

Escuro. A luz aumenta. Uma sala, um sofá, uma poltrona e uma mesa baixa à frente, ligeiramente para a direita. Atrás, um pouco à esquerda, uma grande janela, lá fora claridade. À direita da janela, um pouco acima, está um relógio de parede que indica um quarto para as três horas. Um pouco abaixo do relógio, ligeiramente à direita, está pendurada uma foto de bebé. À esquerda da janela está um enorme aparador. Uma porta na parede lateral esquerda, uma porta na parede lateral direita. O Jovem está deitado no sofá a ler um livro.
A Jovem
Entra pela porta da direita
Eu não posso mais
Pausa curta
Não eu não aguento
Não podemos viver assim
O Jovem ergue-se lentamente, fecha o livro, mas entala o indicador entre as páginas, a marcar
Tu ficas para aí deitado a ler
Não sais
Não fazes nada
Debita de enfiada
Não temos dinheiro
Tu não tens trabalho
Nada
Não temos nada
Vai sentar-se na poltrona
E tu sais cada vez menos
Antes em todo o caso ainda ias às compras
Ainda ias ao correio
Nunca quiseste ir passear
Eu sempre gostei de dar passeios
Sim antes de te conhecer
eu dava sempre grandes passeios
Todos os domingos dava um passeio
E muitas vezes até nos outros dias
E tinha amigos
Podiam não ser muitos
Mas pronto tinha amigos
e amigas
Mas elas nunca mais cá vieram
Já nem sequer a Marta aqui vem
Ela pode tocar à porta
e ficar lá fora a falar comigo
mas entrar é que ela não quer
Porque tu ficas para aí sentado
e transpiras mal-estar
As minhas amigas vieram cá algumas vezes
mas tu ficaste para aí sentado
rígido e tenso
sem dizer palavra
Ri, abatida
Que ambiente
Não
Era insuportável
e por isso
olha para ele
é claro que elas não vêm mais vezes
Ninguém vem
Pausa curta
Tu estás doente
É
Tu já nem as pessoas suportas
O Jovem suspira, olha para ela
Não eu já não aguento mais
O Jovem acena que sim com a cabeça. Pausa
E depois quando finalmente alguém vem visitar-nos
têm logo de ser os teus pais.
(...)
A Jovem
Eu não posso ficar sempre aqui dentro
só porque tu ficas
Pausa
Eu não sou assim
Tem de acontecer alguma coisa
Tenho de ver pessoas
O Jovem
Sim
A Jovem
E se ainda viesse alguém
aqui a casa ver-nos
Mas não
Também isso não é possível
Porque mal alguém entra pela porta
tu vais-te logo esconder
Foges logo para o quarto
Não
não é possível
Nem posso eu sair
para encontrar pessoas
nem elas podem vir aqui
Porque se vem alguém
e tu não desapareces para o quarto
e ficas aqui sentado
ficas de tal modo
rígido e esquisito
que o ambiente
se torna insuportável
Quase se interrompe
Até os teus pais
Se foram logo embora
mal tinham chegado
Pausa curta
Tudo se torna tenso e horrível
Não
não é possível
Não suporto receber gente aqui
O Jovem
Não
A Jovem
Tu tens medo das pessoas
Não é possível viver assim

(Jon Fosse- A NOITE CANTA OS SEUS CANTOS)

(David Mourão-Ferreira)
Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morre
da vida que me dás todos os dias
(David Mourão-Ferreira- MÚSICA NA CAMA)

(Mário Dionísio)
Bastante tarde é que comecei a dar-me conta deste processo monstruoso que impende sobre as pessoas. Porque a morte é natural, se anda lá por longe. Que é assim. Que é o destino de todos. Mas quando foi dos meus pais, pareceu-me acabar-se o mundo, não estava ainda calejada, é difícil perceber, será que os jovens sofrem mais? Depois passou. Tudo passa, tudo esquece. E só nos últimos anos, já pesando a idade e começando a desaparecer, hoje um outro amanhã, velhos amigos ou simples conhecidos e, com ela, o meu tempo, a morte se tornou uma inimiga digamos que pessoal. Vai esvaziando tudo à minha volta, embora haja tanta gente, cada vez mais gente, novas e novas gerações, a que aliás me habituo sem grande dificuldade e não posso dizer que me rejeitem: “Não diga a ninguém a sua idade. Não parece. Está tão bem!” Amabilidades. Intrujices bem intencionadas, até pode acontecer que sejam. Mas de que é que isso serve? Engana por momentos. Como se diz: engana a fome. E a gente gosta. Ajuda-nos a ver a tal inimiga pessoal ainda lá longe, ocupada com outros, antes eles que eu, quem é que não sente isto?
Raro é o dia em que não ouço: “Então não sabes quem morreu? E eu: “Pode lá ser!” Mas já sem autêntica surpresa e com pouco, às vezes nenhum desgosto. Qualquer coisa se vai embotando em mim. É triste. Comecei a vê-los ir, amigos e conhecidos, neste misto de indiferença e de egoísmo muito particular, único e verdadeiro privilégio da velhice.
É um despegamento. De tudo. Até no que me diz respeito. “Tanto me faz morrer hoje ou amanhã, já cá tenho a minha conta.” Mas são frases. Hipocrisias copiadas. A verdade é que ainda escolho com algum interesse os meus vestidos, ainda me demoro ao espelho a compor o cabelo, com algumas brancas já, mas só algumas, com que tola alegria o verifico!, a retocar os lábios. Desapegamento, então, de quê?
(Mário Dionísio- A MORTE É PARA OS OUTROS)

não quero acordar para a mudança. a desolação daqueles que partem deixando um espeto de recordações no lugarzinho da memória.
não desejo ver os outros abandonarem o meu presente e não quero ver a casa a chorar, o latido do cão que continua desamparado.
fechar os olhos e adormecer no passado das coisas boas.
não quero acordar.

Sangue na alma de rosa amaldiçoada, o anátema dos crentes felizes.
- Soror da dor, vem à minha morte, infortúnio do destino, a tumular esperança dos já mortos.
Amigos vivos que me morreram,
amigos mortos cheios de vida (Florbela Espanca)
Arrancou-se o coração.
Apedrejou-se o vulto de mágoas.
Fugiram as estrelas do abismo, as candeias de um túnel fatal.
Nada pode extinguir a minha ira.
E nada pode repor a minha fé. (Sarah Kane)
Apodreço dentro da carcaça do não existir.
Esqueço o retorno a casa assim como desvaneço.
A rosa acorrentada na prisão dos moribundos,
os que não pertencem ao corpo despedaçado.
O hoje dilacerado num amanhã passado.

sinto como se pudesse escrever a morte no papel sem a viver.
vivendo a morte.
saber morrer.
palavras desprovidas de...?

Penso em ti onde quer que estejas.
sejas tu quem eu não sou
ou
sejas tu pedra
estalo
cabra
abalo
ladra
ninguém
lá no alto do infindo de não existirmos
sei inventar-te como sei morrer
hoje (extinguirmos)
perto de te viver

um caminho, uma via para a morte, o recomeço do fim.
perseguir-me-ás para sempre?
no destino, as interrogações derivam respostas, das respostas brotam mais questões.
a simplicidade de crescer é o complexo de viver.

Estou a chover sonhos.
Abrigo-me desse refúgio de utopias amaldiçoadas empunhando o guarda-sonhos no abismo de delírios que pecam contra a minha resistência física. Sabem eles que se ceder meu cadáver às quimeras dos mortos, tornar-me-ei a aspiração da irrealidade, a ilusão do concreto e todas as verdades que deixei construir diante de mim desmoronar-se-ão sem dó nem piedade.
Pequenas doses de silêncio despedaçam-se no horizonte de vidro. Estou a chover sonhos nas lágrimas que não consigo deixar de fugir e há medos no despertar de emoções.
No casulo do vazio abrem-se brechas de luz arrojadas que lentamente possuem o segredo do pavor, o esconderijo das almas podres para onde caminhei há uma infinidade de momentos, quando acreditei poder viver sem respirar.
Há um sol que se deita. Uma chuva que não pára. Uma alma purificada de realidades, as palavras de um Deus cego.
Um acreditar.
chocolate é bom
ler-me é estúpido
gostar é estranho
sorrir é indiferente
escrever?
...
não sei é fácil
I still remember the world
From the eyes of a child
Slowly those feelings
Were clouded by what I know now
Where has my heart gone
An uneven trade for the real world
I want to go back to
Believing in everything and knowing nothing at all

imagem de Kiállítás
I still remember the sun
Always warm on my back
Somehow it seems colder now
Where has my heart gone
An uneven trade for the real world
I want to go back to
Believing in everything
Where has my heart gone - Evanescence

A chuva insiste em derramar-se pelas vias da cidade.
Estranha situação da vida,
esta,
em que tenho um guarda-chuva fechado na mão e as gotas açoitam-me o rosto à procura da minha consciência enquanto sou obrigada a caminhar, espreitando esse mundo a preto e branco que, como se pela primeira vez, é surpreendentemente lavado.
As cores dos céus parecem cair numa desvario de ilusão sobre realidade, a essência da terra húmida, revolvida e renovada. O cheiro a bolos da pastelaria, a diluente da velha drogaria, a madeira nova da loja de decoração, a plástico da simpática lojinha do 1.50£, a café quentinho do pequeno bar, a laranja fresca dos cestos húmidos da mercearia, a gasolina dos carros apressados, a massa de pão acabada de ser cozida da padaria, a pessoas, a vida.
Inspiro mais uma vez, esforçando-me para cativar algum outro aroma disperso no movimento do ar. Os meus cabelos pouco molhados fogem-me das orelhas para a face e deixo-os brincarem.
As vozes, os sons, o baixo grito do miúdo que soletra satânica, teletransportando-me, por segundos, a um passado recente.
Sorrio e desfolho a minha existência na passagem do tempo sobre esta terra partilhada.
Novamente crucificada à vida.

(Manuel da Fonseca)
Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à falta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.
Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vontade. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, estavam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber- cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco do Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo o que a vida dava, quer fosse a valentia, ou a inteligência, ou a tristeza.
Os senhores da Vila desciam ao Largo e falavam de igual para igual com os mestres alvanéis, os mestres-ferreiros. E até com os donos do comércio, com os camponeses, com os empregados da Câmara. Até, de igual para igual, com os malteses, os misteriosos e arrogantes vagabundos. Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se.
Também era lá a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhando os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes, ou bêbados, ou vagabundos. Aprendiam qualquer coisa e tudo era vida. O Largo estava cheio de vida, de valentias, de tragédias. Estava cheio de grandes rasgos de inteligência. E era certo que a criança que aprendesse tudo isto vinha a ser poeta e entristecia por não ficar sempre criança a aprender a vida- a grande e misteriosa vida do Largo.
A casa era para as mulheres.
(Manuel da Fonseca- O FOGO E AS CINZAS)

Ouço a sinfonia tocada pela chuva
Nas pautas do meu telhado.
Embora bela é uma melodia triste
E o vento, com a sua voz deprimente, acompanha-a.
Fixo a pequena luz que brilha no relógio,
Tento fechar os olhos e sonhar
Mas com rapidez me perco em pensamentos
Que tornam este espectáculo pobre...
A Natureza em plena orquestração
E eu aqui... uma espectadora
Deste bailado de Inverno.
E mais uma vez suspiro.
O tempo voa... nada muda!
Os dias correm com velocidade,
Respiro e volto à azafama.
O corpo em movimento,
A cabeça na confusão,
O coração... vazio!
(Morgatha- NIGHTWRITINGS)
[Alguém que se vai tornando habitual. O nosso obrigada.]

Mais do que motivo
Estranha coincidência...
Despedida até,
Das nossas musas,
Até onde a vida se encaixa
Num mundo obcecado.
Aposta,
Não há uma como esta.
Passas, (?)
Mais do que motivo
Divida tua, contigo mesma.
(Carlos Veríssimo- TRAJECTÓRIAS)
[Muitas felicidades para o autor que, por aqui, já nos habituou à sua Poesia.]

(Pedro Abrunhosa)
Mais um dia que acaba
E a cidade parece dormir,
Da janela vejo a luz que bate
No chão
E penso em te possuir.
Noite após noite, há já muito
Tempo,
Saio sem saber para onde vou,
Chamo por ti, na sombra das
Ruas,
Mas só a lua sabe quem eu
Sou.
Lua, lua
Eu quero ver o teu brilhar,
Lua, lua, lua
Eu quero ver o teu sorrir.
Leva-me contigo,
Mostra-me onde estás,
É que o pior castigo
É viver assim, sem luz nem paz,
Sozinho com o peso do caminho
Que se fez para trás...
Lua, eu quero ver o teu brilhar,
No luar, no luar.
Homens de chapéu e cigarros
Compridos
Vagueiam pelas ruas com
Olhares cheios de nada,
Mulheres meio despidas
Encostadas à parede
Fazem-me sinais que finjo não
Entender.
Loucas são as noites,
Que passo sem dormir,
Loucas são as noites.
Os bares estão fechados já não
Há onde beber,
Este silêncio escuro não me
Deixa adormecer
Loucas são as noites.
Leva-me contigo,
Mostra-me onde estás,
É que o pior castigo
É viver assim, sem luz nem paz,
Sozinho com o peso do caminho
Que se fez para trás...
Lua, eu quero ver o teu brilhar,
No luar, no luar.
Não há saudade sem regresso
Não há noites sem
Madrugada,
Ouço ao longe as guitarras,
Nas quais vou partir,
Na névoa construo a minha
Estrada
Loucas são as noites,
Que passo sem dormir,
Loucas são as noites,
Loucas são as noites,
Que passo sem dormir,
Loucas são as noites...
(Pedro Abrunhosa- PALCO)

(O poeta-pintura de Isabel Maia Marques)
Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
(Eugénio de Andrade- OS SULCOS DA SEDE)

Um dia, Johana regressava da mercearia com três maçãs caríssimas, e escutou uma orquestra que no meio da rua interrompida, e quase vazia de pessoas, tocava músicas que ela não conhecia. Não havia palavras, mas a música não era do seu país. Esta música não é daqui, pensou Johana, e começou a correr muito, em direcção a casa, e enquanto corria, chorou.
A música é um sinal forte de humilhação. Se quem chegou impõe a sua música é porque o mundo acabou, e amanhã serás estrangeiro no sítio que antes era a tua casa. Ocupam a tua casa quando põem outra música.
Cada povo tem direito à sua música e ao silêncio. Tem direito a decidir de que modo quer interromper o silêncio. Direito a escolher que sons quer: que palavra e que nota musical. Mas, repara: não há silêncios populares. Como isso assusta.
(Gonçalo M. Tavares- UM HOMEM: KLAUS KLUMP)

havia apenas o mar nos olhos, uma vaga aflição e a espera, quando a lâmina tirou-lhe a voz da garganta e o oceano do peito. em um só golpe decepou-lhe a realidade.
todas as justificativas são injustificadas quando o amor grita, quando o amor é óbvio e olha com olhos de esperança.
recapitulados os dias perfeitos, impecáveis, indescritíveis dias de espanto, nada mudou. como se um furacão de surpresas não a tivesse surpreendido.
"entre as quatro paredes do meu peito, só eu sei. só eu sei o que espero e o que desespero": é a única pista uma rara vez sussurada a alguém.
no mais, permanece sentada à mesma janela de sempre. diz coisas incompreensíveis vez em quando. lê um livro. ouve as músicas. olha em torno como se acordasse do sono. entoa alguma canção, trabalha, vai e volta, sorri, diz coisas gentis, prováveis.
mas permanece lá. as noites inquietas, as conversas com ele que não está.
a espera, o desespero, raramente visíveis, na sala, no quarto, no corpo, os sinais do sonho. em todo lado.
(Eugénia Fortes)
[Autorização de edição gentilmente dada pela autora. A ela o nosso obrigada.]