
(Caricatura de Mário Henrique Leiria)
Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
(Mário Henrique Leiria- in A Única Real Tradição Viva
Perfecto E. Cuadrado
Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa)

Tornamo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas- agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
(Pintura de "PilantraX")
[Trabalho editado, originalmente, a 28/01/04 no blog Samartaime. O nosso profundo agradecimento pela autorização de re-edição.]

(Egito Gonçalves)
Tudo vai bem, amor! Aqui estamos longe!
Aqui malogra-se a abordagem dos terrores,
ninguém descarna o sonho ou a esperança,
não há fantasmas de espingarda ao ombro,
ninguém agoniza chicoteado pelas sombras...
Aqui não há ditadores nem guilhotinam os oráculos,
ninguém encobre estrelas com areia,
não cortam com navalhas os seios das mulheres,
nem se incendeiam ghetos com corpos de crianças:
é tudo útil, simples, como um campo de trigo
- a Esfinge é um animal de pedra muito gasta.
Os poetas podem passear nas ruas; a paz
não é uma aranha sobre a terra árida.
O sono não se povoa de estátuas de ameaça,
o amor não de faz de coração crispado:
o leito do amor é a simples terra nua.
(Egito Gonçalves- poema extraído da antologia A ARGAMASSA DOS POEMAS)

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
(Sidónio Muralha- poema incluído na antologia A ARGAMASSA DOS POEMAS)

(Manuel Alegre)
Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Seus braços, são como o vento
Ninguém os pode amarrar
Quando chega à minha beira
Todo o meu sangue é um rio
Onde o meu amor aporta
Seu coração- um navio
Meu amor disse que eu tinha
Na boca, um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos, e a liberdade
Meu amor é marinheiro
Quando chega à minha beira
Acende um cravo na boca
E canta desta maneira
Eu vivo, lá longe, longe
Onde moram os navios
Mas um dia, hei-de voltar
Às águas dos nossos rios
Hei-de passar nas cidades
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias
Assim falou, meu amor
Assim falou-me ele um dia
Desde então, eu vivo à espera
Que volte... como dizia!
(Poema de Manuel Alegre, cantado por Amália Rodrigues.
O nosso imenso agradecimento à Valéria Mendez que dele nos deu conhecimento, sempre, com a sua dedicação e carinho ao que é/foi cantado por Amália.)

Canções. Lembraste das nossas canções?
Este espaço de tempo que intercalou a tua ausência, transforma-se num centro de recordações, de palavras que quis contigo partilhar. Os sóis abandonaram a nossa casa mas tenho sempre este lugar, o nosso lugar.
Não vale a pena perguntar se me ouves pois sei que é aqui que a pele do teu corpo me serve de abrigo, o silêncio dos teus beijos a minha cantiga e os caminhos que outrora percorremos são novamente pisados.
It’s all coming back
O murmurar das águas a desdobrarem-se nos meus braços, a guerra de sombras e luzes na aurora relembrada, o desafogo da minha culpa contra o teu peito defensor.
O vazio, o buraco esfarrapado do meu coração, aquele que ressuscitou o amor que julgara perdido, enche-se de amargura, de desencanto e de falsa expectativa. Só tu, ainda por debulhar, nas frescas e alegres manhãs de primavera, quando os débeis raios de luz brincavam nos lençóis e tu de pé, a figura despida de um guerreiro glorioso diante da cidade conquistada.
Desta torre negra consigo pertencer-te,
tal como nos oferecemos no 1ºdia que aprendemos a soletrar a palavra amor.

(Sérgio Godinho)
Aos amores!
A vida que tudo arrasta os amores também
uns dão à costa, exaustos, outros vao mais além
navegadores só solitários dois a dois
heróis sem nome e até por isso heróis
Desde que o John partiu a Rosinha passa mal
vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
ainda em si mora a doce mentira do amor
tomou-lhe o gosto ao provar-lhe o sabor
Os amores são facas de dois gumes
têem de um lado a paixão, do outro os ciúmes
são desencantos que vivem encantados
como velas que ardem por dois lados
Aos amores!
No convento as noviças cantam as madrugadas
e a bela monja escreve cartas arrebatadas
"é por virtude tua que tu és o meu vício
por ti eu lanço os ventos ao precipício"
O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar
sopra na franja, maneira de se pentear
vai à posta restante para ver quem lhe escreveu
foi uma bela monja que nunca conheceu
Aos amores!
(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes
verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes
bicolores transgressores impostores cantadores)
A Marta, quinze anos, vê na televisão
um beijo igual ao que ontem deu junto do vulcão
faz baby-sitting à espera de parecer mulher
quando é que o amor lhe explica o que dela quer?
Depois da dor, como conservar a inocência?
leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência
e parta o vidro em caso de necessidade
deixe o seu coração ir em liberdade
Aos amores!
(Sérgio Godinho- Extraído de POESIA ERÓTICA)

Eu sei que eu tenho um jeito
Meio estúpido de ser
E de dizer coisas que podem magoar e te ofender
Mas cada um tem seu jeito
Todo próprio de amar e de se defender
Você me acusa e só me preocupa
Agrava mais e mais a minha culpa
Eu faço, e desfaço, contrafeito
O meu defeito é te amar de mais
Palavras são palavras
E a gente não percebe o que disse sem querer
E o que deixou pra depois
Mas o importante é perceber
Que a nossa vida em comum
Depende só e unicamente de nós dois
Eu tento achar um jeito de explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar
(Maria Bethânia- SIMPLESMENTE. O MELHOR DE MARIA BETHÂNIA)

(António Manuel Venda)
Catarina, se eu pudesse dar-te apenas mais um presente, seria não deixar que o medo te impedisse de seres feliz. Sim, o medo.
Quero falar-te do teu pai, do jovem escritor que conheci quando tinha a tua idade. O jovem escritor, como lhe chamava a professora de Alemão que organizou este pequeno livro de histórias, o jovem escritor que habitava um mundo de bruma e de sol, de florestas cerradas e de vastas planícies. Na verdade, ele ainda o habita, como se percebe por aquilo que escreve. Várias vezes, ao longo destes anos, me perguntei se o teu pai foi mesmo o grande amor da minha vida. Tenta compreender-me: aquilo que nos ensinam desde criança, a verdade de um grande amor, maior do que tudo, o verdadeiro amor, capaz de tudo vencer. Eu não sei, e possivelmente nunca o soube. Ou nunca acreditei nesse heroismo do amor. O amor verdadeiro? Tantas vezes me perguntei se não seriam verdadeiros todos os amores.
...
O teu pai abria-me os portões altos e dourados do seu mundo de bruma e de sol, de florestas cerradas e de vastas planícies. E levava-me pela mão entre seres por vezes tão estranhos e tão assustadores, muitos deles com marcas indeléveis de obsessão.
...
Eu amava o jovem escritor, o teu pai. Hoje tenho a certeza disso. Há certezas, assim como esta, que podem demorar anos até serem encontradas. Quase duas dezenas de anos, se calhar. Mas o teu pai não esperou por mim na estação dos comboios como tinha prometido. Não estava à minha espera quando regressei de uma viagem ao Norte da Alemanha, da primeira visita à tua avó desde que estava a estudar na Floresta Negra. Apenas um fim-de-semana fora, e o jovem escritor fugiu.
...
Será que me entendes? Compreender-me-ás e perdoar-me-ás se eu te disser que depois de o teu pai abandonar o programa onde estudávamos os dois eu acabei por não o querer procurar? Que escolhi sair daquele mundo fantástico para to poder oferecer verdadeiramente agora, tão fascinante como quando o conheci, o jovem escritor, no interior intocado do seu mundo dos portões dourados? Porque tu, tenho a certeza, saberás entrar nesse mundo e reconhecer cada um dos seres que o habitavam. Talvez até tratá-los pelo nome. Tu saberás como pisar esse chão. Sem medo.
(António Manuel Venda- O MEDO LONGE DE TI)

A casa gira nas mãos dos livros
e abate-se, sobre as estantes, destruindo as lombadas,
em busca dos títulos e dos nomes dos autores,
avançando, no devorar das badanas,
e das promessas aladas dos índices,
da ficha técnica e da sinopse ondulante,
navegando encorpada nas contra-capas.
É o estádio onde compete a biblioteca
com a ansiedade profana do leitor.
As palavras transvestem-se de árbitro
e penalizam a tranquilidade do saber,
atiçando a táctica para o capítulo seguinte,
onde se derrama a trama, o mistério, a voz
que dá sentido ao habitante do texto.
Na revolução das prateleiras e dos cheiros,
a tinta impressa, o papel amarelecido, o couro,
a carneira das perdidas encadernações,
tudo marca a saudade dos velhos sótãos,
o silêncio dos contos, a magia dos poemas,
o mar inesgotável dos infindáveis romances
e a paz, trazida pela leitura, nesses instantes.
(José António Gonçalves
(in "Aventura na Casa dos Livros",
Cadernos Ilha, 10, Ed. Correio da Madeira, 2000)

(Manuel Alegre)
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha .
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
(Manuel Alegre- POEMAS DE AMOR)

(Inês Pedrosa)
Só vivendo sobre a mudança se podia evitar a dor, só contornando a monstruosa perfeição do tempo se podia vencê-lo. Assim pensava, e enganei-me, porque o tempo não é pensável. Concentrei-me em deixar de ser para poder ser tudo, em esquecer para dominar a existência. Eu sou o tempo; sou nada, o nada veloz e imóvel que molda o corpo do tempo. Deixar de ser é ainda acatar as regras implacáveis do ser. Estou esgotado do correr contra a dor, contra a memória, contra a infância, contra o amor e o ódio. Criei uma meta de tranquilidade que se afasta tanto mais quanto mais corro para ele. Não há paz no instante, e eu vivo de instante para instante. Começo a temer que a paz se alimente do sangue da paixão de que abjurei.
(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA)

Daniela
As pessoas à minha volta dizem-me coisas ridículas. Falam para uma pessoa que já não existe. Não conseguem ver que mudei ou então não sabem mais como me falar. Mas tentam e tentam. E são insuportáveis. Olho em frente e não ouço nada. Cansei-me das boas intenções. De quaisquer intenções. Só quero que me deixem em paz. Sossegada. A pensar no que vou fazer. Que caminho escolher para continuar, agora que decidi continuar em vez de ficar parada a olhar. Provavelmente, vou deixar-me levar. Mas quero ignorar toda a vida passada. Desligo o telemóvel. Trato mal os meus amigos. Quero começar tudo de novo, sem referências de espécie alguma. No outro dia, telefonaste-me. Disseste que tinhas encontrado algo meu. Um livro, ou o que é que foi. Respondo que não era meu, que devia ser de outra gaja qualquer. Depois perguntaste como é que eu estava e desliguei-te o telefone na cara. Achas mesmo que quero ter conversinhas contigo? Trocar confidências pelo telefone? Beber café? Não preciso disso, não preciso de nada teu. Risquei-te da minha lista. O mundo é um sítio terrível para habitar. A vida é muito pior do que podia ter imaginado. Ando na rua e apetece-me apenas fazer mal às pessoas. Cortar-lhes a garganta, atropelá-las, atirar-lhes com coisas pesadas à cabeça. Indiscriminadamente. Apenas porque não as suporto mais.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

As portas do mundo não sabem
que lá fora a chuva as procura.
As procura. As procura. Paciente
afasta-se, regressa. A luz
não sabe que há chuva. A chuva
não sabe que há luz. As portas,
as portas do mundo estão fechadas:
fechadas para a chuva,
fechadas para a luz.
(Sandro Penna- NO BRANDO RUMOR DA VIDA)

(Jorge Palma)
Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar
E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não tem chão
E as mãos perdem a razão
Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir
E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão
Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
(Jorge Palma- DÁ-ME LUME. O MELHOR DE JOEGE PALMA)

(Jorge de Sena)
Como paredes através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros,
quem vamos conhecendo nos rodeia,
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.
No espaço dentro mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas
nós somos quem nós somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos uma face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço
uma visão de espelhos transparentes.
Mas o que nos distingue não existe.
(Jorge de Sena- VISÃO PERPÉTUA)
Ultrapasso todos os limites
Quebro todas as barreiras.
Sou mulher bomba, kamikaze, suicida,
Edifício em implosão.
Sou o medo primário e primeiro.
O medo das noites insones de pesadelo
com mãos fantasmas
que emergem do escuro.
E sou revolta e abandono.
E sou sobrevivência e luta
E impotência e solidão.
E esta raiva que me faz pegar na caneta
e fazer dela a espada
com que combato o que sou.
E sou também a tempestade
que sentes quando ruge no teu corpo
E que perde a força
e se torna calma
Quando a tua pele se torna a minha
o meu corpo se torna o teu
e me ensinas a paz que não tens
mas que inventas para mim
(Ana- AO SABOR DAS EMOÇÕES)
[A força que senti ao ler este poema, tornou inevitável a sua edição aqui no Void. Mas a autora merece. Disso, não temos dúvidas.]

(Harold Pinter)
Bar. 1977. Primavera
Meio dia.
Emma está sentada numa mesa de canto. Jerry aproxima-se com as bebidas, uma caneca de cerveja para ele, um copo de vinho para ela.
Senta-se. Sorriem um para o outro, brindam silenciosamente, bebem.
Jerry recosta-se e olha para Emma.
Jerry- Bem...
Emma- Como estás?
Jerry- Bem.
Emma- Estás com bom aspecto.
Jerry- Bom, para falar a verdade não estou lá muito bem.
Emma- Porquê? O que é que tens?
Jerry- Ressaca
Levanta o copo.
À tua!
Bebe.
E tu, como estás?
Emma- Óptima.
Olha à volta, depois de novo para ele.
Tal como nos velhos tempos.
Jerry-Hmm. Já lá vai muito tempo.
Emma- Pois já.
Pausa
Pensei em ti noutro dia.
Jerry- Céus! Porquê?
Ela ri-se.
Porquê?
Emma- Então, às vezes é bom recordar. Não é?
Jerry- Claro.
Pausa.
Como vão as coisas?
Emma- Oh, não estão mal.
Pausa
Sabes há quanto tempo é que nos encontrámos?
Jerry- Bem, fui ao vernissage daquela exposição, quando é que isso foi- ?
Emma- Não, não estou a falar disso.
Jerry- Ah, queres dizer, a sós?
Emma- Sim.
Jerry- Aah...
Emma- Dois anos.
Jerry- Pois, era isso que eu calculava. Mmmm.
Emma- Muito tempo.
Jerry- Sim. É.
...
Jerry- Ouvi dizer que andas a dar-te com o Casey.
Emma- O quê?
Jerry- O Casey. Ouvi dizer... que andas a dar-te com ele.
Emma- Onde é que ouviste isso?
Jerry- Oh... as pessoas falam.
Emma- Meu Deus!
Jerry- O que tem graça é que a única coisa que eu senti foi irritação. Quer dizer, irritação porque antigamente ninguém fazia comentários desses sobre nós. Estive quase para lhes dizer, olhem lá, ela pode tomar um copo de vez em quando com o Casey, que importância é que isso tem; nós os dois tivemos um romance durante sete anos, seus camelos, e ninguém fazia a menor ideia do que é que se passava.
Pausa.
Emma- Não sei. Não sei se as pessoas não sabiam.
Jerry- Não sejas tolas. Nós fomos geniais. Ninguém soube. Quem é que ia a Kilburn naquele tempo. Só tu e eu.
Pausa.
...
Jerry- E o Robert?
Pausa.
Emma- Bem... acho que nos vamos separar.
Jerry- Sim?
Emma- Tivemos uma longa conversa...ontem à noite.
Jerry- Ontem à noite?
Emma- Sabes o que é que eu descobri... ontem à noite? Que ele me traiu durante anos. Teve... outras mulheres, durante anos. ... Tivemos uma longa conversa... Ontem à noite. Estivemos a pé toda a noite.
Pausa.
Jerry- Falaram toda a noite?
Emma- Falámos. Se falámos!
Pausa.
Jerry- Eu não vim à baila, pois não?... Não disseste nada ao Robert a meu respeito ontem à noite, pois não?
Emma- Tive que dizer.
Pausa.
Ele contou-me tudo. Eu contei-lhe tudo. Estivemos a pé... toda a noite. ...
Jerry- Contaste-lhe tudo.
Emma- Tive que contar.
Jerry- Contaste-lhe tudo... sobre nós.
Emma- Tive que contar.
Pausa.
Jerry- Mas ele é o meu melhor amigo. Quer dizer, eu peguei na filha dele ao colo e atirei-a ao ar, e tornei a apanhá-la, na minha cozinha. Ele viu-me fazer isso.
Emma- Não tem importância. Acabou tudo.
Jerry- Acabou? O quê?
Emma- Está tudo acabado.
Ela bebe.
(Harold Pinter- TRAIÇÕES)

Prisioneira
na ratoeira
da realidade incontida,
chora entristecida
a infeliz visão
de sua cega lamentação.
Na hora do fim,
há momentos assim,
as indeléveis histórias
de curtas memórias
que choram o presente
não seu pertencente
Venham rogar as almas neste vazio enlouquecido,
meus sonhos que perduram esquecidos...

(Natália Correia)
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
(Natália Correia- POESIA COMPLETA)

(José Agostinho Baptista)
Eis como em si mesma ela se ergue.
E erguendo-se,
o seu canto caminha pela terra.
Como a trepadeira
as suas mãos enredam-se no crescimento
do dia.
Ela abre a tarde com os dedos, tacteando
a luz.
E à luz chegada
verte-se em sombra e da sombra rouba
um pássaro,
um fruto mortal.
Ela desoculta as suas grutas, afastando
o musgo,
um pouco de ar, a humidade que
acentua o fogo.
Aí está o segredo,
a serpente de ouro onde me prendo,
cego no seu olhar.
(José Agostinho Baptista- PAIXÃO E CINZAS)

(Alexandre O' Neill)
Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.
Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.
*
Ao rosto vulgar dos dias,
A vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.
*
Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.
(Alexandre O´Neill- POESIAS COMPLETAS 1951/1981)

Clarissa
Olho para ti e imagino o amanhã. Olho para mim, para nós, e vejo o futuro. Sim, é isso que quero. Pela primeira vez, consigo ver-me no futuro, gostando da imagem. Quero sair daqui contigo. Quero morar perto do mar e trabalhar pela Internet. Quero acordar e fazer amor contigo de manhã. Quero que sejamos as duas, com crianças a correr na praia. Quero sair dali quando me apetecer. Quero tudo. A minha vida perfeita contigo. Fizeste-me ver. Imaginar a tranquilidade como uma coisa desejável e frutífera. Deixar o transe para a criação. Não acordar de ressaca todos os fins-de-semana. Não perder mais tempo. Começar tudo já. Fazes-me querer viver a minha vida. Acordo e digo-te tudo num repente. Tu olhas para mim e sorris. Isso já é suficiente. ...
Debaixo dos lençóis, recolho a minha alma e o meu corpo e fico simplesmente contigo. Fico contigo. O teu sorriso em busca do meu. Adquiro a tua forma. Tenho forma de ti, minha doce mulher. Tenho forma de paixão e de futuro. Detenho a esperança, porque antecipo a felicidade. Já sou feliz. Sou feliz agora. Ninguém me tirará isso....
Enches-me de luz pura. Dás-me alegria. Entusiasmo-me com as pequenas coisas e torno-me magalómana... Volto a adormecer e a acordar em ti. Desta vez sou eu que sorrio. Tudo se ilumina à tua resposta...
Adormeço para o sofrimento, vedando-lhe a entrada. Acreditando sempre. Nunca desistindo. Esperando mais, e mais, e mais, e mais. Não é ilusão, é só realidade. O mundo ganhou a forma original, a do amor. Por ti e apenas por ti.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

Daniela
Não era suposto isto ter acontecido. Como é que foi acontecer? Como foste capaz? Que tipo de verdade é agora possível? Que tipo de tranquilidade, de amor à vida, de leveza? Foste-me tirar aquilo em que depositava mais esperanças, a existência do amor. Sempre acreditei nele, mesmo quando não o tinha na mão. E tu chegaste e afirmaste essa minha certeza, a certeza que o amor existia e que estava à minha espera. O que me resta agora fazer se tudo se foi? Tudo o que sou, tudo o que fui, tudo o que podia ter sido. O que hei-de agora fazer com os dias que teimam em voltar, cada vez mais fortes, mais longos, mais estéreis? No que hei-de acreditar agora, se perdi a única coisa que me puxava essa certeza? Não me tiraste apenas o teu corpo, a tua presença, a tua voz, tiraste-me a minha identidade. A ordem das coisas. Perco-me. Estou perdida. Faço um esforço, não sei bem porquê, para continuar. E isso torna as coisas ainda mais insuportáveis. Por que não atirar-me de uma vez de uma ponte? Deixar de respirar, de comer, de ser. Algo me puxa e não sei o que é. Já vendi tudo. Perdi aquela coisa que era antes de te conhecer. Não faço ideia para onde foi, o que lhe aconteceu. Era a Meg Ryan em qualquer comédia romântica à espera do amor. Os filmes tornam-se repetitivos e a minha vida já não os acompanha. Parou aqui o meu coração. Parou aqui. E tu, assim como o resto, deixaste de fazer sentido.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

Respira para dentro, respira para fora
E passa-o, está quase a acabar
Nós somos tão criativos, muito mais
Nós estamos muito a cima mas no chão
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo
Se não o tens, estás do outro lado
Quanto mais profundo espetas na veia
Mais profundo são os pensamentos, não existe mais dor
Estou no céu, sou um deus
Estou em todo lado, sinto-me tão ardente
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo
Se não o tens, estás do outro lado
Não sou um viciado (talvez seja mentira)
Está acabado agora, tenho frio, sozinho
Sou só uma pessoa por minha conta
Nada significa algo para mim
(nada significa algo para mim)
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo
Se não o tens, estás do outro lado
Não sou um viciado (talvez seja mentira)
Liberta-me, deixa-me
Observa-me enquanto vou abaixo
Liberta-me, vê-me
Olha para mim, estou a cair e estou a cair
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo, sinto-me…
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo
Se não o tens, estás do outro lado
Não sou um viciado (talvez seja mentira)
Não sou um viciado…
Banda: K's choice
Album: Paradise In Me
Ano: 1996


despidos, como a natureza pretendia
Acompanhem meus passos despidos no lado puro da terra.
a terra fértil e húmida que alimentou as raízes da sobrevivência.
livre

o mar não conhece as profundidades
nenhum azul nem conhece as suas ondas
o mar não é soberbo nem
manso nem amargo
não conhece o sabor do vento nem da espuma
o mar não vê nenhum sol
nem terra nem seixos
O mar não ama o céu
nem a lua
o mar não se conhece
(Eva Christina Zeller- SIGO A ÁGUA)

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)
A professora nua na cama, ainda muito pudor no sorriso, a gratidão nos olhos sem óculos (mais pequenos), uma gratidão contrita nos olhos que descaíam para o meu corpo, para o meu pénis,
esconde o sexo penugento com uma língua de lençol, “Essa penugem grisalha, crespa...faz-me um favor e tapa também as mamas”, penso
eu à janela a fumar um cigarro, o frio da noite a lavar-me do nojo, a livrar-me do nojo, o frio desenjoa-me.
Viro-lhe as costas e sinto-lhe as unhas nas minhas nádegas, a pesarem-me as nádegas, a apertá-las com força, como o fez há bocado.
Há bocado, há coisa de uma hora, ela ao meu lado na cama, finalmente conseguiu pousar a mão na minha perna, na virilha, a mão verde de veias, as unhas tratadas com o mesmo esmero da laca no cabelo, “Foste ao cabeleireiro antes de eu chegar não foi, velha? Foste pôr-te boneca para mim, não foi? Puseste essa saia justa ridícula, essa blusa larga a disfarçar o peito descaído, pintaste-te mais do que é costume. Eu reparei nisso logo que entrei. Julgaste que enlouqueceste de vez e aproveitaste a impunidade da loucura. O baton mais carregado do que o costume. Consigo imaginar-te pôr o baton, os dedos a tremerem: a loucura ainda não te chegou aos dedos, pois não?”
A mão na minha perna, a tremer, fria, “Parece-te que o sangue fugiu para as orelhas não é, velha?”, o sorriso esmorece-lhe, a aliviar a pressão da minha perna, “Estás a arrepender-te. O sangue levou a loucura com ele, não é? Eu sinto-te tremer desde os sapatinhos risíveis até à ponta dos pelos do buço (que a cabeleireira alourou hoje de manhã, com certeza)”. Olho para ela mas só encontro o cocuruto, o seu cabelo arrebicado, “Baixaste a cabeça e agora vais começar a chorar...A mão a fugir boneca? Eu trato-te da saúde, deixa estar”.
Pego-lhe na mão (fria) e coloco-a no volume das minhas calças.
- Pode mexer.
Mas ela não mexe. Paralisou.
“Ah, queres ajuda, hã?”
Passo-lhe uma mão pelas costas, sinto as saliências asquerosas das vértebras, imagino-as esborcinadas, calcárias, parece-me o dorso de um cão esfaimado, africano.
Ela contrai-se:
- Não, Diogo – guincha (carrega demasiado no “i”, detesto quando ela carrega demasiado no “i”, «Diogo»).
- Porquê? – e cinjo-lhe as ancas ossudas com firmeza - Porquê?
“boneca”
Os espasmos cadenciados do choro que sai em ganidos pela garganta, um esgar ranhoso de choro, aquela voz cavernosa de velha.
Sussurra:
- Não, Diogo, não...
Puxo-a para mim. Agarro na mão morta que tem esquecida sobre o meu sexo e começo a acariciá-lo com ela. A professora não reage.
- Porquê, hã? Não me ama?
(Aqui tive de morder os lábios para evitar um ataque de riso)
- Não me ama?
O choro intensifica-se.
Subitamente, enclavinho-lhe as mãos nos ombros, apertando-os:
- Olhe...olhe para mim e diga que não me ama!
Volto a morder os lábios.
Ela a encolher-se.
Abano-a.
- Vá, diga que não me ama!
- Não me peças uma coisas dessas, Diogo...
Agarro-lhe a cabeça com as duas mãos e beijo-a nos lábios. Abro-lhe a boca com a língua. Debruço-me até ela se deitar de costas.
Beijo-a com violência, simulando sofreguidão. Respiro ofegantemente pelo nariz. A minha língua como uma turbina, uma cobra insinuante, a dela começa a ganhar vida.
“Nunca tiveste outro homem em cima de ti, pois não? Nenhuma facada no casamento!”. Afasto-me um pouco e aprecio a imagem: A cara dela é uma careta de rugas, os olhos cerradíssimos, “Nem te atreves a abrir os olhos, não é, boneca?”
os óculos tortos
Se ela olhasse agora, veria o meu sorriso afiado.
Começo a despir a minha camisa
- Diga o que disserem, para mim você é linda, ouviu?
Em resposta a isto ela solta um soluço de choro, que ao tentar reprimir sai-lhe pelo nariz numa bola de ranho.
Atiro a camisa por cima do ombro, pego-lhe nas mãos perdidas pelos lençóis e passo-as pelo meu peito. Depois, com as minhas, envolvo-lhe os seios flácidos sob o soutien forte e começo a agitá-los num arremedo de carícia.
- Para mim é linda.
Ela suspira, afaga-me os peitorais. “Gostas do músculo, não é? Dantes não havia disto.”
- Linda – repito num sussurro – linda.
Debruço-me novamente sobre ela. Beijo-lhe o pescoço e o colo enquanto lhe vou desabotoando a blusa. (pele engelhada e fria, com um perfume jovem, deve ser da filha).
A professora abraça-me, arranhando-me as costas.
Interrompo o trabalho na blusa e puxo-lhe a saia para cima, oiço o tecido protestar um rasgo, deito-me entre as suas pernas.
Agora desabotoo-lhe a blusa e inicio o movimento sexual. Ela responde imediatamente:
“olha-me a velha a excitar-se!”
Rasgo o resto dos botões, livro-me da blusa. Levanto-lhe o torso e tiro o soutien. As mamas, dois repolhos de pele com pomos castanhos aureolados de alguns pêlos grossos.
- Linda.
Lambo-os, abocanho-os, mordo-os, ela geme, pálpebras descidas, só. Suspira. Uma lágrima rola dividindo-se logo num delta de rugas.
Desço para a barriga, titilando com a língua, desço desço desço, até à penugem do umbigo que antecipa o ninho áspero mais abaixo. Detenho-me por ali, desenhando regueiros de saliva enquanto lhe massajo as pernas – a fricção do nylon dos colans.
A barriga palpita em arrepios que lhe endurecem a pele e os pelos. Lubrifico a língua que entretanto se me secou. O seu sexo a chamar-me num movimento ritmado de bacia. As mãos dela surgem a desabotoar a saia e a descer o fecho. “´Tás com uma fomeca. Já te trato da saúde, deixa estar...”
- Diogo, Diogo – a voz fremente, aflautada, suplicante.
moving forward, moving forward
algas podres na vazante
mexilhões expostos
amo-te, ai ai ai
mais tarde tornou-se afoita, sedenta, o sangue espalhado por todo o corpo, os olhos abertos. Se eu lhe perguntasse:
- Que idade tem?
Ela imediatamente:
- Vinte, vinte – entre a malha dos cabelos e os lábios colados à minha barriga.
Ardo o cigarro, ofereço o fumo à misericórdia do frio, do vento, à nesga de céu que entra pela esquadria dos prédios. A professora nua
“Cubra-me as mamas, já agora. Já sei que tem frio, os seus mamilos não têm de mo dizer constantemente”.
na cama
- Vens?
O sorriso apologético
Ouço o ruído do elevador lá fora e principio a vestir-me.
Atiro o cigarro para o abismo eterno da cidade.
- Onde vais? – “Pode acrescentar o ‘meu querido’, que não me importo”.
Não respondo.
- Onde vais, meu querido? – “deve ter-me lido os pensamentos”.
- Vou abrir a porta ao seu marido.
- O quê?
Umas chaves na fechadura.
- Afinal ele traz a chave.
- Mas...
“Tomei a liberdade de lhe fazer um telefonema antes de vir para cá, provavelmente na altura em que você punha base nas rugas”.
Dobro as mangas da camisa e vou a sair do quarto, quando a porta da rua se abre violentamente e entra para o corredor um vulto pequeno, de calva a brilhar rudimentos de chuva, com uma gabardina comprida. Dirige-se a mim. Não lhe distingo as feições, ocultas pela minha sombra. Passo por ele, esparramando-o contra a parede (um quadro cai).
- Saia-me da frente!! – grito.
Fecho a porta atrás de mim. Lá dentro, o homenzinho solta um uivo longo e demente.
“Vai matá-la”.
(André Conde Morais- Inédito)
Clarissa
Inevitavelmente, a pergunta há-de surgir. És feliz? E, então, não há saída. És confrontada com a pergunta sobre a felicidade. Fim de relação, eventualmente. Ou, de outro modo, evitar a todo o custo pensar na resposta. Ou melhor, evitar pensar na pergunta. Porque a resposta não se dá porque se tem medo. Suponho que haja muita gente feliz que tem medo de responder porque tem medo de não ser feliz. E nunca ficam a saber que são realmente felizes. É preciso arriscar a pergunta, há quem diga. Eu prefiro não arriscar e lamento profundamente quando alguém ma faz. Não digas nada. Aquelas frases que começam com "não precisas responder já, mas..." só dão mau resultado! Evita-as a todo o custo. E se alguém tas fizer, finge que é uma bandeira. Nunca leves a sério as declarações de amor e, principalmente, os pedidos de declaração.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

(Imagem de Deusa do Lar)
as leis do mundo de ninguém, alguém.
- vacas
eu gosto de vacas.
- eu também.
- são calmas, não é?
- é.
- deve ser isso.

Olha pra mim
Deixa voar os sonhos
Deixa acalmar a tormenta
Senta-te um pouco aí
Olha pra mim
Fica no meu abrigo
Dorme no meu abraço
E conta comigo
Que eu estarei aqui
Enquanto anoitece
Enquanto escurece
E os brilhos do mundo
Cintilam em nós
Enquanto tu sentes
Que se quebrou tudo
Eu estarei
Sempre que te sentires só
Olha pra mim
Hoje não há batalhas
Hoje não há tristeza
Deixa sair o sol
Olha pra mim
Fica no meu abrigo
Perde-te nos teus sonhos
E conta comigo
(Mafalda Veiga- NA ALMA E NA PELE)
[Continuando com letras (de canções)...esta, que também gosto muitíssimo, dedico a uma irmã, que tive o privilégio de ganhar. Este momento é para ti...]

(Pedro Abrunhosa)
Eu não sei
Que mais posso ser,
Um dia rei,
Outro dia sem comer,
Por vezes forte,
Coragem de leão,
Ás vezes fraco,
Assim é o coração.
Eu não sei,
Que mais te posso dar,
Um dia jóias,
Noutro dia o luar,
Gritos de dor,
Gritos de prazer,
Que um homem também chora
Quando assim tem de ser.
Foram tantas as noites,
Sem dormir.
Tantos quartos de hotel,
Amar e partir.
Promessas perdidas
Escritas no ar,
E logo ali eu sei...
Tudo o que eu te dou,
Tu me dás a mim.
Tudo o que eu sonhei,
Tu serás assim.
Tudo o que eu te dou,
Tu me dás a mim,
Tudo o que eu te dou.
Sentado na poltrona
Beijas-me a pele morena
Fazes aqueles truques
Que aprendeste no cinema.
Mais, peço-te eu,
Já me sinto a viajar.
Pára, recomeça,
Faz-me acreditar.
Não, dizes tu
E o teu olhar mentiu.
Enrolados pelo chão
No abraço que se viu.
É madrugada
Ou é alucinação,
Estrelas de mil cores
Ecstasy ou paixão.
Hmm, esse odor
Traz tanta saudade.
Mata-me de amor
Ou dá-me liberdade.
Deixa-me voar,
Cantar, adormecer.
Tudo o que eu te dou,
Tu me dás a mim.
Tudo o que eu sonhei,
Tu serás assim.
Tudo o que eu te dou,
Tu me dás a mim.
Tudo o que eu te dou.
(Pedro Abrunhosa- PALCO)
[Não resisti em trazer aqui uma das letras (de canções) do Pedro que mais gosto. Dedico-a a quem a melhor quiser aproveitar. Sandra.]
Trago os olhos cansados de não te ver
e encontro os teus olhos cansados de olhar para mim.
O silencio tornou-se demasiado ruidoso,
o teu olhar demasiado frio,
já nem sequer tentas mais sorrir.
Que será nos sinto esmorecer
como prenuncios negros anunciados de um fim?
Quando rejeitas um meu gesto carinhoso;
tudo o que fica por um fio
e tudo o que sei ainda sentir...
Será amar assim tão complicado?
Será que não é para nós?
Quero tanto perceber e não consigo...
porque será que em todo o lado,
juntos estamos sós,
quando só quero mesmo estar... contigo...
João Natal 29/10/2003
[Mais uma vez, uma colaboração que só pode congratular as responsáveis por este blog. A ti, João, o nosso bem haja.]

Se penetrar é posse
queria penetrar-te.
Não ter o teu corpo,
ou tu o meu.
Mas simplesmente, penetrar-te,
Entrar em ti
Sentir o que tu sentes.
Se entrega é posse
Queria que te entregasses,
Assim como me entrego
Quando me penetras.
E posse, não é mais posse
Mas dádiva, partilha
Porque possuo quando me entrego,
e tu rendes-te penetrando.
(Ana- EROTISMO NA CIDADE)
[Palavras para quê? Obrigada à autora.]

(José Luís Peixoto)
E a última ternura, o último desejo, correram livres pelos seus corpos. E nós, o medo, começámos o nosso trabalho, alastrámos pelos seus corpos, como uma onda a arrastar terra e sol e tempo. Depois das nuvens, nós víamos os seus dois olhares, juntos de novo. Debaixo dos seus pés, a terra entrava e saía de dentro deles. O sol entrava e saía de dentro deles. Os ramos das árvores cresciam na sua direcção. As raízes das árvores estavam enterradas na carne dos seus corpos, bebiam seiva das suas artérias. O tempo sob as pedras, sob os rios, sob o voo grandioso do céu era o mesmo, demorava o mesmo que o tempo sob a pele dos seus corpos. A ternura, o desejo e nós, o medo, estávamos definitivamente soltos. O mundo existia em cada um dos momentos. As palavras estavam dispostas sobre os objectos que nomeavam. Ele e ela, ao olharem-se, atravessados por tudo, poderiam ter dito a palavra amor. Era uma palavra que estava diante dos seus rostos, misturada com os seus olhares. Mas, por isso, era uma palavra que já não poderiam saber porque, a partir desse momento, nós atravessámo-los para sempre. E nem ele, nem ela sabem o significado mais profundo daquilo que os invade. Os homens não sabem o significado daquilo que os invade. A terra sabe. O sol sabe. O tempo sabe. Nós sabemos.
(José Luís Peixoto- ANTÍDOTO)

(Moonspell)
From the soul to its waste
The Common hates his evil twin
Everything invaded
In its simplicity
How did you get inside me?
Still all fascinated
Invaded by everything
In the firts morning light
The touch of death covering skies
Everything invaded
(and) All the fears inspired
How did you get inside me?
Still all celebrated
Invaded by everything
Everything so full
In the lives I have taken with Me
All our moments wasted
All is getting in
Still all violated
Divided by everything
And all the grace disturbed
All existence false
All your dead generations!
I am a son of yours and I am coming back
Everything invaded
In its finality
Tell me will it hurt
When you get outside of me?
Everything is breaking
Why have we ever stopped here?
Everything invaded
I am a son of yours
And I am giving up
Everything invaded
Invaded by everything
(Moonspell- THE ANTIDOTE)

Seria as tuas lágrimas se o sol fosse negro na ausência de luar
Seria as tuas lágrimas se a rosa fosse pobre, a idade a flutuar
Seria as tuas lágrimas se a noite fosse minha, teus sonhos a desejar
Seria as tuas lágrimas se o poente fosse a nascente do teu acordar
Seria as tuas lágrimas se a morte fosse teu presente arrancar
Seria as tuas lágrimas sempre que as quisesses chorar

I took my love, I took it down
I climbed a mountain and I turned around
And I saw my reflection in the snow covered hills
‘Til the landslide brought it down
Oh, mirror in the sky, what is love?
Can the child within my heart rise above?
Can I sail through the changing ocean tides?
Can I handle the seasons of my life?
Well, I’ve been afraid of changing cause I’ve
Built my life around you
But time makes you bolder
Even children get older
And I’m getting older, too
Well, I’ve been afraid of changing cause I’ve
Built my life around you
Time makes you bolder
Even children get older
And I’m getting older, too
I get older, too
I took my love and took it down
I climbed a mountain, I turned around
And if you see my reflection in the snow covered hills
The landslide brought it down
The landslide brought it down
Smashing Pumpkins