
(Caricatura de Mário Henrique Leiria)
Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
(Mário Henrique Leiria- in A Única Real Tradição Viva
Perfecto E. Cuadrado
Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa)

Tornamo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas- agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
(Pintura de "PilantraX")
[Trabalho editado, originalmente, a 28/01/04 no blog Samartaime. O nosso profundo agradecimento pela autorização de re-edição.]

(Egito Gonçalves)
Tudo vai bem, amor! Aqui estamos longe!
Aqui malogra-se a abordagem dos terrores,
ninguém descarna o sonho ou a esperança,
não há fantasmas de espingarda ao ombro,
ninguém agoniza chicoteado pelas sombras...
Aqui não há ditadores nem guilhotinam os oráculos,
ninguém encobre estrelas com areia,
não cortam com navalhas os seios das mulheres,
nem se incendeiam ghetos com corpos de crianças:
é tudo útil, simples, como um campo de trigo
- a Esfinge é um animal de pedra muito gasta.
Os poetas podem passear nas ruas; a paz
não é uma aranha sobre a terra árida.
O sono não se povoa de estátuas de ameaça,
o amor não de faz de coração crispado:
o leito do amor é a simples terra nua.
(Egito Gonçalves- poema extraído da antologia A ARGAMASSA DOS POEMAS)

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
(Sidónio Muralha- poema incluído na antologia A ARGAMASSA DOS POEMAS)

(Manuel Alegre)
Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Seus braços, são como o vento
Ninguém os pode amarrar
Quando chega à minha beira
Todo o meu sangue é um rio
Onde o meu amor aporta
Seu coração- um navio
Meu amor disse que eu tinha
Na boca, um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos, e a liberdade
Meu amor é marinheiro
Quando chega à minha beira
Acende um cravo na boca
E canta desta maneira
Eu vivo, lá longe, longe
Onde moram os navios
Mas um dia, hei-de voltar
Às águas dos nossos rios
Hei-de passar nas cidades
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias
Assim falou, meu amor
Assim falou-me ele um dia
Desde então, eu vivo à espera
Que volte... como dizia!
(Poema de Manuel Alegre, cantado por Amália Rodrigues.
O nosso imenso agradecimento à Valéria Mendez que dele nos deu conhecimento, sempre, com a sua dedicação e carinho ao que é/foi cantado por Amália.)

Canções. Lembraste das nossas canções?
Este espaço de tempo que intercalou a tua ausência, transforma-se num centro de recordações, de palavras que quis contigo partilhar. Os sóis abandonaram a nossa casa mas tenho sempre este lugar, o nosso lugar.
Não vale a pena perguntar se me ouves pois sei que é aqui que a pele do teu corpo me serve de abrigo, o silêncio dos teus beijos a minha cantiga e os caminhos que outrora percorremos são novamente pisados.
It’s all coming back
O murmurar das águas a desdobrarem-se nos meus braços, a guerra de sombras e luzes na aurora relembrada, o desafogo da minha culpa contra o teu peito defensor.
O vazio, o buraco esfarrapado do meu coração, aquele que ressuscitou o amor que julgara perdido, enche-se de amargura, de desencanto e de falsa expectativa. Só tu, ainda por debulhar, nas frescas e alegres manhãs de primavera, quando os débeis raios de luz brincavam nos lençóis e tu de pé, a figura despida de um guerreiro glorioso diante da cidade conquistada.
Desta torre negra consigo pertencer-te,
tal como nos oferecemos no 1ºdia que aprendemos a soletrar a palavra amor.

(Sérgio Godinho)
Aos amores!
A vida que tudo arrasta os amores também
uns dão à costa, exaustos, outros vao mais além
navegadores só solitários dois a dois
heróis sem nome e até por isso heróis
Desde que o John partiu a Rosinha passa mal
vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
ainda em si mora a doce mentira do amor
tomou-lhe o gosto ao provar-lhe o sabor
Os amores são facas de dois gumes
têem de um lado a paixão, do outro os ciúmes
são desencantos que vivem encantados
como velas que ardem por dois lados
Aos amores!
No convento as noviças cantam as madrugadas
e a bela monja escreve cartas arrebatadas
"é por virtude tua que tu és o meu vício
por ti eu lanço os ventos ao precipício"
O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar
sopra na franja, maneira de se pentear
vai à posta restante para ver quem lhe escreveu
foi uma bela monja que nunca conheceu
Aos amores!
(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes
verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes
bicolores transgressores impostores cantadores)
A Marta, quinze anos, vê na televisão
um beijo igual ao que ontem deu junto do vulcão
faz baby-sitting à espera de parecer mulher
quando é que o amor lhe explica o que dela quer?
Depois da dor, como conservar a inocência?
leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência
e parta o vidro em caso de necessidade
deixe o seu coração ir em liberdade
Aos amores!
(Sérgio Godinho- Extraído de POESIA ERÓTICA)

Eu sei que eu tenho um jeito
Meio estúpido de ser
E de dizer coisas que podem magoar e te ofender
Mas cada um tem seu jeito
Todo próprio de amar e de se defender
Você me acusa e só me preocupa
Agrava mais e mais a minha culpa
Eu faço, e desfaço, contrafeito
O meu defeito é te amar de mais
Palavras são palavras
E a gente não percebe o que disse sem querer
E o que deixou pra depois
Mas o importante é perceber
Que a nossa vida em comum
Depende só e unicamente de nós dois
Eu tento achar um jeito de explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar
(Maria Bethânia- SIMPLESMENTE. O MELHOR DE MARIA BETHÂNIA)

(António Manuel Venda)
Catarina, se eu pudesse dar-te apenas mais um presente, seria não deixar que o medo te impedisse de seres feliz. Sim, o medo.
Quero falar-te do teu pai, do jovem escritor que conheci quando tinha a tua idade. O jovem escritor, como lhe chamava a professora de Alemão que organizou este pequeno livro de histórias, o jovem escritor que habitava um mundo de bruma e de sol, de florestas cerradas e de vastas planícies. Na verdade, ele ainda o habita, como se percebe por aquilo que escreve. Várias vezes, ao longo destes anos, me perguntei se o teu pai foi mesmo o grande amor da minha vida. Tenta compreender-me: aquilo que nos ensinam desde criança, a verdade de um grande amor, maior do que tudo, o verdadeiro amor, capaz de tudo vencer. Eu não sei, e possivelmente nunca o soube. Ou nunca acreditei nesse heroismo do amor. O amor verdadeiro? Tantas vezes me perguntei se não seriam verdadeiros todos os amores.
...
O teu pai abria-me os portões altos e dourados do seu mundo de bruma e de sol, de florestas cerradas e de vastas planícies. E levava-me pela mão entre seres por vezes tão estranhos e tão assustadores, muitos deles com marcas indeléveis de obsessão.
...
Eu amava o jovem escritor, o teu pai. Hoje tenho a certeza disso. Há certezas, assim como esta, que podem demorar anos até serem encontradas. Quase duas dezenas de anos, se calhar. Mas o teu pai não esperou por mim na estação dos comboios como tinha prometido. Não estava à minha espera quando regressei de uma viagem ao Norte da Alemanha, da primeira visita à tua avó desde que estava a estudar na Floresta Negra. Apenas um fim-de-semana fora, e o jovem escritor fugiu.
...
Será que me entendes? Compreender-me-ás e perdoar-me-ás se eu te disser que depois de o teu pai abandonar o programa onde estudávamos os dois eu acabei por não o querer procurar? Que escolhi sair daquele mundo fantástico para to poder oferecer verdadeiramente agora, tão fascinante como quando o conheci, o jovem escritor, no interior intocado do seu mundo dos portões dourados? Porque tu, tenho a certeza, saberás entrar nesse mundo e reconhecer cada um dos seres que o habitavam. Talvez até tratá-los pelo nome. Tu saberás como pisar esse chão. Sem medo.
(António Manuel Venda- O MEDO LONGE DE TI)

A casa gira nas mãos dos livros
e abate-se, sobre as estantes, destruindo as lombadas,
em busca dos títulos e dos nomes dos autores,
avançando, no devorar das badanas,
e das promessas aladas dos índices,
da ficha técnica e da sinopse ondulante,
navegando encorpada nas contra-capas.
É o estádio onde compete a biblioteca
com a ansiedade profana do leitor.
As palavras transvestem-se de árbitro
e penalizam a tranquilidade do saber,
atiçando a táctica para o capítulo seguinte,
onde se derrama a trama, o mistério, a voz
que dá sentido ao habitante do texto.
Na revolução das prateleiras e dos cheiros,
a tinta impressa, o papel amarelecido, o couro,
a carneira das perdidas encadernações,
tudo marca a saudade dos velhos sótãos,
o silêncio dos contos, a magia dos poemas,
o mar inesgotável dos infindáveis romances
e a paz, trazida pela leitura, nesses instantes.
(José António Gonçalves
(in "Aventura na Casa dos Livros",
Cadernos Ilha, 10, Ed. Correio da Madeira, 2000)

(Manuel Alegre)
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha .
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
(Manuel Alegre- POEMAS DE AMOR)

(Inês Pedrosa)
Só vivendo sobre a mudança se podia evitar a dor, só contornando a monstruosa perfeição do tempo se podia vencê-lo. Assim pensava, e enganei-me, porque o tempo não é pensável. Concentrei-me em deixar de ser para poder ser tudo, em esquecer para dominar a existência. Eu sou o tempo; sou nada, o nada veloz e imóvel que molda o corpo do tempo. Deixar de ser é ainda acatar as regras implacáveis do ser. Estou esgotado do correr contra a dor, contra a memória, contra a infância, contra o amor e o ódio. Criei uma meta de tranquilidade que se afasta tanto mais quanto mais corro para ele. Não há paz no instante, e eu vivo de instante para instante. Começo a temer que a paz se alimente do sangue da paixão de que abjurei.
(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA)

Daniela
As pessoas à minha volta dizem-me coisas ridículas. Falam para uma pessoa que já não existe. Não conseguem ver que mudei ou então não sabem mais como me falar. Mas tentam e tentam. E são insuportáveis. Olho em frente e não ouço nada. Cansei-me das boas intenções. De quaisquer intenções. Só quero que me deixem em paz. Sossegada. A pensar no que vou fazer. Que caminho escolher para continuar, agora que decidi continuar em vez de ficar parada a olhar. Provavelmente, vou deixar-me levar. Mas quero ignorar toda a vida passada. Desligo o telemóvel. Trato mal os meus amigos. Quero começar tudo de novo, sem referências de espécie alguma. No outro dia, telefonaste-me. Disseste que tinhas encontrado algo meu. Um livro, ou o que é que foi. Respondo que não era meu, que devia ser de outra gaja qualquer. Depois perguntaste como é que eu estava e desliguei-te o telefone na cara. Achas mesmo que quero ter conversinhas contigo? Trocar confidências pelo telefone? Beber café? Não preciso disso, não preciso de nada teu. Risquei-te da minha lista. O mundo é um sítio terrível para habitar. A vida é muito pior do que podia ter imaginado. Ando na rua e apetece-me apenas fazer mal às pessoas. Cortar-lhes a garganta, atropelá-las, atirar-lhes com coisas pesadas à cabeça. Indiscriminadamente. Apenas porque não as suporto mais.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

As portas do mundo não sabem
que lá fora a chuva as procura.
As procura. As procura. Paciente
afasta-se, regressa. A luz
não sabe que há chuva. A chuva
não sabe que há luz. As portas,
as portas do mundo estão fechadas:
fechadas para a chuva,
fechadas para a luz.
(Sandro Penna- NO BRANDO RUMOR DA VIDA)

(Jorge Palma)
Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar
E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não tem chão
E as mãos perdem a razão
Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir
E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão
Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
(Jorge Palma- DÁ-ME LUME. O MELHOR DE JOEGE PALMA)

(Jorge de Sena)
Como paredes através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros,
quem vamos conhecendo nos rodeia,
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.
No espaço dentro mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas
nós somos quem nós somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos uma face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço
uma visão de espelhos transparentes.
Mas o que nos distingue não existe.
(Jorge de Sena- VISÃO PERPÉTUA)
Ultrapasso todos os limites
Quebro todas as barreiras.
Sou mulher bomba, kamikaze, suicida,
Edifício em implosão.
Sou o medo primário e primeiro.
O medo das noites insones de pesadelo
com mãos fantasmas
que emergem do escuro.
E sou revolta e abandono.
E sou sobrevivência e luta
E impotência e solidão.
E esta raiva que me faz pegar na caneta
e fazer dela a espada
com que combato o que sou.
E sou também a tempestade
que sentes quando ruge no teu corpo
E que perde a força
e se torna calma
Quando a tua pele se torna a minha
o meu corpo se torna o teu
e me ensinas a paz que não tens
mas que inventas para mim
(Ana- AO SABOR DAS EMOÇÕES)
[A força que senti ao ler este poema, tornou inevitável a sua edição aqui no Void. Mas a autora merece. Disso, não temos dúvidas.]

(Harold Pinter)
Bar. 1977. Primavera
Meio dia.
Emma está sentada numa mesa de canto. Jerry aproxima-se com as bebidas, uma caneca de cerveja para ele, um copo de vinho para ela.
Senta-se. Sorriem um para o outro, brindam silenciosamente, bebem.
Jerry recosta-se e olha para Emma.
Jerry- Bem...
Emma- Como estás?
Jerry- Bem.
Emma- Estás com bom aspecto.
Jerry- Bom, para falar a verdade não estou lá muito bem.
Emma- Porquê? O que é que tens?
Jerry- Ressaca
Levanta o copo.
À tua!
Bebe.
E tu, como estás?
Emma- Óptima.
Olha à volta, depois de novo para ele.
Tal como nos velhos tempos.
Jerry-Hmm. Já lá vai muito tempo.
Emma- Pois já.
Pausa
Pensei em ti noutro dia.
Jerry- Céus! Porquê?
Ela ri-se.
Porquê?
Emma- Então, às vezes é bom recordar. Não é?
Jerry- Claro.
Pausa.
Como vão as coisas?
Emma- Oh, não estão mal.
Pausa
Sabes há quanto tempo é que nos encontrámos?
Jerry- Bem, fui ao vernissage daquela exposição, quando é que isso foi- ?
Emma- Não, não estou a falar disso.
Jerry- Ah, queres dizer, a sós?
Emma- Sim.
Jerry- Aah...
Emma- Dois anos.
Jerry- Pois, era isso que eu calculava. Mmmm.
Emma- Muito tempo.
Jerry- Sim. É.
...
Jerry- Ouvi dizer que andas a dar-te com o Casey.
Emma- O quê?
Jerry- O Casey. Ouvi dizer... que andas a dar-te com ele.
Emma- Onde é que ouviste isso?
Jerry- Oh... as pessoas falam.
Emma- Meu Deus!
Jerry- O que tem graça é que a única coisa que eu senti foi irritação. Quer dizer, irritação porque antigamente ninguém fazia comentários desses sobre nós. Estive quase para lhes dizer, olhem lá, ela pode tomar um copo de vez em quando com o Casey, que importância é que isso tem; nós os dois tivemos um romance durante sete anos, seus camelos, e ninguém fazia a menor ideia do que é que se passava.
Pausa.
Emma- Não sei. Não sei se as pessoas não sabiam.
Jerry- Não sejas tolas. Nós fomos geniais. Ninguém soube. Quem é que ia a Kilburn naquele tempo. Só tu e eu.
Pausa.
...
Jerry- E o Robert?
Pausa.
Emma- Bem... acho que nos vamos separar.
Jerry- Sim?
Emma- Tivemos uma longa conversa...ontem à noite.
Jerry- Ontem à noite?
Emma- Sabes o que é que eu descobri... ontem à noite? Que ele me traiu durante anos. Teve... outras mulheres, durante anos. ... Tivemos uma longa conversa... Ontem à noite. Estivemos a pé toda a noite.
Pausa.
Jerry- Falaram toda a noite?
Emma- Falámos. Se falámos!
Pausa.
Jerry- Eu não vim à baila, pois não?... Não disseste nada ao Robert a meu respeito ontem à noite, pois não?
Emma- Tive que dizer.
Pausa.
Ele contou-me tudo. Eu contei-lhe tudo. Estivemos a pé... toda a noite. ...
Jerry- Contaste-lhe tudo.
Emma- Tive que contar.
Jerry- Contaste-lhe tudo... sobre nós.
Emma- Tive que contar.
Pausa.
Jerry- Mas ele é o meu melhor amigo. Quer dizer, eu peguei na filha dele ao colo e atirei-a ao ar, e tornei a apanhá-la, na minha cozinha. Ele viu-me fazer isso.
Emma- Não tem importância. Acabou tudo.
Jerry- Acabou? O quê?
Emma- Está tudo acabado.
Ela bebe.
(Harold Pinter- TRAIÇÕES)

Prisioneira
na ratoeira
da realidade incontida,
chora entristecida
a infeliz visão
de sua cega lamentação.
Na hora do fim,
há momentos assim,
as indeléveis histórias
de curtas memórias
que choram o presente
não seu pertencente
Venham rogar as almas neste vazio enlouquecido,
meus sonhos que perduram esquecidos...

(Natália Correia)
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
(Natália Correia- POESIA COMPLETA)

(José Agostinho Baptista)
Eis como em si mesma ela se ergue.
E erguendo-se,
o seu canto caminha pela terra.
Como a trepadeira
as suas mãos enredam-se no crescimento
do dia.
Ela abre a tarde com os dedos, tacteando
a luz.
E à luz chegada
verte-se em sombra e da sombra rouba
um pássaro,
um fruto mortal.
Ela desoculta as suas grutas, afastando
o musgo,
um pouco de ar, a humidade que
acentua o fogo.
Aí está o segredo,
a serpente de ouro onde me prendo,
cego no seu olhar.
(José Agostinho Baptista- PAIXÃO E CINZAS)

(Alexandre O' Neill)
Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.
Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.
*
Ao rosto vulgar dos dias,
A vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.
*
Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.
(Alexandre O´Neill- POESIAS COMPLETAS 1951/1981)

Clarissa
Olho para ti e imagino o amanhã. Olho para mim, para nós, e vejo o futuro. Sim, é isso que quero. Pela primeira vez, consigo ver-me no futuro, gostando da imagem. Quero sair daqui contigo. Quero morar perto do mar e trabalhar pela Internet. Quero acordar e fazer amor contigo de manhã. Quero que sejamos as duas, com crianças a correr na praia. Quero sair dali quando me apetecer. Quero tudo. A minha vida perfeita contigo. Fizeste-me ver. Imaginar a tranquilidade como uma coisa desejável e frutífera. Deixar o transe para a criação. Não acordar de ressaca todos os fins-de-semana. Não perder mais tempo. Começar tudo já. Fazes-me querer viver a minha vida. Acordo e digo-te tudo num repente. Tu olhas para mim e sorris. Isso já é suficiente. ...
Debaixo dos lençóis, recolho a minha alma e o meu corpo e fico simplesmente contigo. Fico contigo. O teu sorriso em busca do meu. Adquiro a tua forma. Tenho forma de ti, minha doce mulher. Tenho forma de paixão e de futuro. Detenho a esperança, porque antecipo a felicidade. Já sou feliz. Sou feliz agora. Ninguém me tirará isso....
Enches-me de luz pura. Dás-me alegria. Entusiasmo-me com as pequenas coisas e torno-me magalómana... Volto a adormecer e a acordar em ti. Desta vez sou eu que sorrio. Tudo se ilumina à tua resposta...
Adormeço para o sofrimento, vedando-lhe a entrada. Acreditando sempre. Nunca desistindo. Esperando mais, e mais, e mais, e mais. Não é ilusão, é só realidade. O mundo ganhou a forma original, a do amor. Por ti e apenas por ti.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

Daniela
Não era suposto isto ter acontecido. Como é que foi acontecer? Como foste capaz? Que tipo de verdade é agora possível? Que tipo de tranquilidade, de amor à vida, de leveza? Foste-me tirar aquilo em que depositava mais esperanças, a existência do amor. Sempre acreditei nele, mesmo quando não o tinha na mão. E tu chegaste e afirmaste essa minha certeza, a certeza que o amor existia e que estava à minha espera. O que me resta agora fazer se tudo se foi? Tudo o que sou, tudo o que fui, tudo o que podia ter sido. O que hei-de agora fazer com os dias que teimam em voltar, cada vez mais fortes, mais longos, mais estéreis? No que hei-de acreditar agora, se perdi a única coisa que me puxava essa certeza? Não me tiraste apenas o teu corpo, a tua presença, a tua voz, tiraste-me a minha identidade. A ordem das coisas. Perco-me. Estou perdida. Faço um esforço, não sei bem porquê, para continuar. E isso torna as coisas ainda mais insuportáveis. Por que não atirar-me de uma vez de uma ponte? Deixar de respirar, de comer, de ser. Algo me puxa e não sei o que é. Já vendi tudo. Perdi aquela coisa que era antes de te conhecer. Não faço ideia para onde foi, o que lhe aconteceu. Era a Meg Ryan em qualquer comédia romântica à espera do amor. Os filmes tornam-se repetitivos e a minha vida já não os acompanha. Parou aqui o meu coração. Parou aqui. E tu, assim como o resto, deixaste de fazer sentido.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

Respira para dentro, respira para fora
E passa-o, está quase a acabar
Nós somos tão criativos, muito mais
Nós estamos muito a cima mas no chão
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo
Se não o tens, estás do outro lado
Quanto mais profundo espetas na veia
Mais profundo são os pensamentos, não existe mais dor
Estou no céu, sou um deus
Estou em todo lado, sinto-me tão ardente
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo
Se não o tens, estás do outro lado
Não sou um viciado (talvez seja mentira)
Está acabado agora, tenho frio, sozinho
Sou só uma pessoa por minha conta
Nada significa algo para mim
(nada significa algo para mim)
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo
Se não o tens, estás do outro lado
Não sou um viciado (talvez seja mentira)
Liberta-me, deixa-me
Observa-me enquanto vou abaixo
Liberta-me, vê-me
Olha para mim, estou a cair e estou a cair
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo, sinto-me…
Não é um vício, é fixe, sinto-me vivo
Se não o tens, estás do outro lado
Não sou um viciado (talvez seja mentira)
Não sou um viciado…
Banda: K's choice
Album: Paradise In Me
Ano: 1996


despidos, como a natureza pretendia
Acompanhem meus passos despidos no lado puro da terra.
a terra fértil e húmida que alimentou as raízes da sobrevivência.
livre

o mar não conhece as profundidades
nenhum azul nem conhece as suas ondas
o mar não é soberbo nem
manso nem amargo
não conhece o sabor do vento nem da espuma
o mar não vê nenhum sol
nem terra nem seixos
O mar não ama o céu
nem a lua
o mar não se conhece
(Eva Christina Zeller- SIGO A ÁGUA)

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)
A professora nua na cama, ainda muito pudor no sorriso, a gratidão nos olhos sem óculos (mais pequenos), uma gratidão contrita nos olhos que descaíam para o meu corpo, para o meu pénis,
esconde o sexo penugento com uma língua de lençol, “Essa penugem grisalha, crespa...faz-me um favor e tapa também as mamas”, penso
eu à janela a fumar um cigarro, o frio da noite a lavar-me do nojo, a livrar-me do nojo, o frio desenjoa-me.
Viro-lhe as costas e sinto-lhe as unhas nas minhas nádegas, a pesarem-me as nádegas, a apertá-las com força, como o fez há bocado.
Há bocado, há coisa de uma hora, ela ao meu lado na cama, finalmente conseguiu pousar a mão na minha perna, na virilha, a mão verde de veias, as unhas tratadas com o mesmo esmero da laca no cabelo, “Foste ao cabeleireiro antes de eu chegar não foi, velha? Foste pôr-te boneca para mim, não foi? Puseste essa saia justa ridícula, essa blusa larga a disfarçar o peito descaído, pintaste-te mais do que é costume. Eu reparei nisso logo que entrei. Julgaste que enlouqueceste de vez e aproveitaste a impunidade da loucura. O baton mais carregado do que o costume. Consigo imaginar-te pôr o baton, os dedos a tremerem: a loucura ainda não te chegou aos dedos, pois não?”
A mão na minha perna, a tremer, fria, “Parece-te que o sangue fugiu para as orelhas não é, velha?”, o sorriso esmorece-lhe, a aliviar a pressão da minha perna, “Estás a arrepender-te. O sangue levou a loucura com ele, não é? Eu sinto-te tremer desde os sapatinhos risíveis até à ponta dos pelos do buço (que a cabeleireira alourou hoje de manhã, com certeza)”. Olho para ela mas só encontro o cocuruto, o seu cabelo arrebicado, “Baixaste a cabeça e agora vais começar a chorar...A mão a fugir boneca? Eu trato-te da saúde, deixa estar”.
Pego-lhe na mão (fria) e coloco-a no volume das minhas calças.
- Pode mexer.
Mas ela não mexe. Paralisou.
“Ah, queres ajuda, hã?”
Passo-lhe uma mão pelas costas, sinto as saliências asquerosas das vértebras, imagino-as esborcinadas, calcárias, parece-me o dorso de um cão esfaimado, africano.
Ela contrai-se:
- Não, Diogo – guincha (carrega demasiado no “i”, detesto quando ela carrega demasiado no “i”, «Diogo»).
- Porquê? – e cinjo-lhe as ancas ossudas com firmeza - Porquê?
“boneca”
Os espasmos cadenciados do choro que sai em ganidos pela garganta, um esgar ranhoso de choro, aquela voz cavernosa de velha.
Sussurra:
- Não, Diogo, não...
Puxo-a para mim. Agarro na mão morta que tem esquecida sobre o meu sexo e começo a acariciá-lo com ela. A professora não reage.
- Porquê, hã? Não me ama?
(Aqui tive de morder os lábios para evitar um ataque de riso)
- Não me ama?
O choro intensifica-se.
Subitamente, enclavinho-lhe as mãos nos ombros, apertando-os:
- Olhe...olhe para mim e diga que não me ama!
Volto a morder os lábios.
Ela a encolher-se.
Abano-a.
- Vá, diga que não me ama!
- Não me peças uma coisas dessas, Diogo...
Agarro-lhe a cabeça com as duas mãos e beijo-a nos lábios. Abro-lhe a boca com a língua. Debruço-me até ela se deitar de costas.
Beijo-a com violência, simulando sofreguidão. Respiro ofegantemente pelo nariz. A minha língua como uma turbina, uma cobra insinuante, a dela começa a ganhar vida.
“Nunca tiveste outro homem em cima de ti, pois não? Nenhuma facada no casamento!”. Afasto-me um pouco e aprecio a imagem: A cara dela é uma careta de rugas, os olhos cerradíssimos, “Nem te atreves a abrir os olhos, não é, boneca?”
os óculos tortos
Se ela olhasse agora, veria o meu sorriso afiado.
Começo a despir a minha camisa
- Diga o que disserem, para mim você é linda, ouviu?
Em resposta a isto ela solta um soluço de choro, que ao tentar reprimir sai-lhe pelo nariz numa bola de ranho.
Atiro a camisa por cima do ombro, pego-lhe nas mãos perdidas pelos lençóis e passo-as pelo meu peito. Depois, com as minhas, envolvo-lhe os seios flácidos sob o soutien forte e começo a agitá-los num arremedo de carícia.
- Para mim é linda.
Ela suspira, afaga-me os peitorais. “Gostas do músculo, não é? Dantes não havia disto.”
- Linda – repito num sussurro – linda.
Debruço-me novamente sobre ela. Beijo-lhe o pescoço e o colo enquanto lhe vou desabotoando a blusa. (pele engelhada e fria, com um perfume jovem, deve ser da filha).
A professora abraça-me, arranhando-me as costas.
Interrompo o trabalho na blusa e puxo-lhe a saia para cima, oiço o tecido protestar um rasgo, deito-me entre as suas pernas.
Agora desabotoo-lhe a blusa e inicio o movimento sexual. Ela responde imediatamente:
“olha-me a velha a excitar-se!”
Rasgo o resto dos botões, livro-me da blusa. Levanto-lhe o torso e tiro o soutien. As mamas, dois repolhos de pele com pomos castanhos aureolados de alguns pêlos grossos.
- Linda.
Lambo-os, abocanho-os, mordo-os, ela geme, pálpebras descidas, só. Suspira. Uma lágrima rola dividindo-se logo num delta de rugas.
Desço para a barriga, titilando com a língua, desço desço desço, até à penugem do umbigo que antecipa o ninho áspero mais abaixo. Detenho-me por ali, desenhando regueiros de saliva enquanto lhe massajo as pernas – a fricção do nylon dos colans.
A barriga palpita em arrepios que lhe endurecem a pele e os pelos. Lubrifico a língua que entretanto se me secou. O seu sexo a chamar-me num movimento ritmado de bacia. As mãos dela surgem a desabotoar a saia e a descer o fecho. “´Tás com uma fomeca. Já te trato da saúde, deixa estar...”
- Diogo, Diogo – a voz fremente, aflautada, suplicante.
moving forward, moving forward
algas podres na vazante
mexilhões expostos
amo-te, ai ai ai
mais tarde tornou-se afoita, sedenta, o sangue espalhado por todo o corpo, os olhos abertos. Se eu lhe perguntasse:
- Que idade tem?
Ela imediatamente:
- Vinte, vinte – entre a malha dos cabelos e os lábios colados à minha barriga.
Ardo o cigarro, ofereço o fumo à misericórdia do frio, do vento, à nesga de céu que entra pela esquadria dos prédios. A professora nua
“Cubra-me as mamas, já agora. Já sei que tem frio, os seus mamilos não têm de mo dizer constantemente”.
na cama
- Vens?
O sorriso apologético
Ouço o ruído do elevador lá fora e principio a vestir-me.
Atiro o cigarro para o abismo eterno da cidade.
- Onde vais? – “Pode acrescentar o ‘meu querido’, que não me importo”.
Não respondo.
- Onde vais, meu querido? – “deve ter-me lido os pensamentos”.
- Vou abrir a porta ao seu marido.
- O quê?
Umas chaves na fechadura.
- Afinal ele traz a chave.
- Mas...
“Tomei a liberdade de lhe fazer um telefonema antes de vir para cá, provavelmente na altura em que você punha base nas rugas”.
Dobro as mangas da camisa e vou a sair do quarto, quando a porta da rua se abre violentamente e entra para o corredor um vulto pequeno, de calva a brilhar rudimentos de chuva, com uma gabardina comprida. Dirige-se a mim. Não lhe distingo as feições, ocultas pela minha sombra. Passo por ele, esparramando-o contra a parede (um quadro cai).
- Saia-me da frente!! – grito.
Fecho a porta atrás de mim. Lá dentro, o homenzinho solta um uivo longo e demente.
“Vai matá-la”.
(André Conde Morais- Inédito)
Clarissa
Inevitavelmente, a pergunta há-de surgir. És feliz? E, então, não há saída. És confrontada com a pergunta sobre a felicidade. Fim de relação, eventualmente. Ou, de outro modo, evitar a todo o custo pensar na resposta. Ou melhor, evitar pensar na pergunta. Porque a resposta não se dá porque se tem medo. Suponho que haja muita gente feliz que tem medo de responder porque tem medo de não ser feliz. E nunca ficam a saber que são realmente felizes. É preciso arriscar a pergunta, há quem diga. Eu prefiro não arriscar e lamento profundamente quando alguém ma faz. Não digas nada. Aquelas frases que começam com "não precisas responder já, mas..." só dão mau resultado! Evita-as a todo o custo. E se alguém tas fizer, finge que é uma bandeira. Nunca leves a sério as declarações de amor e, principalmente, os pedidos de declaração.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

(Imagem de Deusa do Lar)
as leis do mundo de ninguém, alguém.
- vacas
eu gosto de vacas.
- eu também.
- são calmas, não é?
- é.
- deve ser isso.

Olha pra mim
Deixa voar os sonhos
Deixa acalmar a tormenta
Senta-te um pouco aí
Olha pra mim
Fica no meu abrigo
Dorme no meu abraço
E conta comigo
Que eu estarei aqui
Enquanto anoitece
Enquanto escurece
E os brilhos do mundo
Cintilam em nós
Enquanto tu sentes
Que se quebrou tudo
Eu estarei
Sempre que te sentires só
Olha pra mim
Hoje não há batalhas
Hoje não há tristeza
Deixa sair o sol
Olha pra mim
Fica no meu abrigo
Perde-te nos teus sonhos
E conta comigo
(Mafalda Veiga- NA ALMA E NA PELE)
[Continuando com letras (de canções)...esta, que também gosto muitíssimo, dedico a uma irmã, que tive o privilégio de ganhar. Este momento é para ti...]

(Pedro Abrunhosa)
Eu não sei
Que mais posso ser,
Um dia rei,
Outro dia sem comer,
Por vezes forte,
Coragem de leão,
Ás vezes fraco,
Assim é o coração.
Eu não sei,
Que mais te posso dar,
Um dia jóias,
Noutro dia o luar,
Gritos de dor,
Gritos de prazer,
Que um homem também chora
Quando assim tem de ser.
Foram tantas as noites,
Sem dormir.
Tantos quartos de hotel,
Amar e partir.
Promessas perdidas
Escritas no ar,
E logo ali eu sei...
Tudo o que eu te dou,
Tu me dás a mim.
Tudo o que eu sonhei,
Tu serás assim.
Tudo o que eu te dou,
Tu me dás a mim,
Tudo o que eu te dou.
Sentado na poltrona
Beijas-me a pele morena
Fazes aqueles truques
Que aprendeste no cinema.
Mais, peço-te eu,
Já me sinto a viajar.
Pára, recomeça,
Faz-me acreditar.
Não, dizes tu
E o teu olhar mentiu.
Enrolados pelo chão
No abraço que se viu.
É madrugada
Ou é alucinação,
Estrelas de mil cores
Ecstasy ou paixão.
Hmm, esse odor
Traz tanta saudade.
Mata-me de amor
Ou dá-me liberdade.
Deixa-me voar,
Cantar, adormecer.
Tudo o que eu te dou,
Tu me dás a mim.
Tudo o que eu sonhei,
Tu serás assim.
Tudo o que eu te dou,
Tu me dás a mim.
Tudo o que eu te dou.
(Pedro Abrunhosa- PALCO)
[Não resisti em trazer aqui uma das letras (de canções) do Pedro que mais gosto. Dedico-a a quem a melhor quiser aproveitar. Sandra.]
Trago os olhos cansados de não te ver
e encontro os teus olhos cansados de olhar para mim.
O silencio tornou-se demasiado ruidoso,
o teu olhar demasiado frio,
já nem sequer tentas mais sorrir.
Que será nos sinto esmorecer
como prenuncios negros anunciados de um fim?
Quando rejeitas um meu gesto carinhoso;
tudo o que fica por um fio
e tudo o que sei ainda sentir...
Será amar assim tão complicado?
Será que não é para nós?
Quero tanto perceber e não consigo...
porque será que em todo o lado,
juntos estamos sós,
quando só quero mesmo estar... contigo...
João Natal 29/10/2003
[Mais uma vez, uma colaboração que só pode congratular as responsáveis por este blog. A ti, João, o nosso bem haja.]

Se penetrar é posse
queria penetrar-te.
Não ter o teu corpo,
ou tu o meu.
Mas simplesmente, penetrar-te,
Entrar em ti
Sentir o que tu sentes.
Se entrega é posse
Queria que te entregasses,
Assim como me entrego
Quando me penetras.
E posse, não é mais posse
Mas dádiva, partilha
Porque possuo quando me entrego,
e tu rendes-te penetrando.
(Ana- EROTISMO NA CIDADE)
[Palavras para quê? Obrigada à autora.]

(José Luís Peixoto)
E a última ternura, o último desejo, correram livres pelos seus corpos. E nós, o medo, começámos o nosso trabalho, alastrámos pelos seus corpos, como uma onda a arrastar terra e sol e tempo. Depois das nuvens, nós víamos os seus dois olhares, juntos de novo. Debaixo dos seus pés, a terra entrava e saía de dentro deles. O sol entrava e saía de dentro deles. Os ramos das árvores cresciam na sua direcção. As raízes das árvores estavam enterradas na carne dos seus corpos, bebiam seiva das suas artérias. O tempo sob as pedras, sob os rios, sob o voo grandioso do céu era o mesmo, demorava o mesmo que o tempo sob a pele dos seus corpos. A ternura, o desejo e nós, o medo, estávamos definitivamente soltos. O mundo existia em cada um dos momentos. As palavras estavam dispostas sobre os objectos que nomeavam. Ele e ela, ao olharem-se, atravessados por tudo, poderiam ter dito a palavra amor. Era uma palavra que estava diante dos seus rostos, misturada com os seus olhares. Mas, por isso, era uma palavra que já não poderiam saber porque, a partir desse momento, nós atravessámo-los para sempre. E nem ele, nem ela sabem o significado mais profundo daquilo que os invade. Os homens não sabem o significado daquilo que os invade. A terra sabe. O sol sabe. O tempo sabe. Nós sabemos.
(José Luís Peixoto- ANTÍDOTO)

(Moonspell)
From the soul to its waste
The Common hates his evil twin
Everything invaded
In its simplicity
How did you get inside me?
Still all fascinated
Invaded by everything
In the firts morning light
The touch of death covering skies
Everything invaded
(and) All the fears inspired
How did you get inside me?
Still all celebrated
Invaded by everything
Everything so full
In the lives I have taken with Me
All our moments wasted
All is getting in
Still all violated
Divided by everything
And all the grace disturbed
All existence false
All your dead generations!
I am a son of yours and I am coming back
Everything invaded
In its finality
Tell me will it hurt
When you get outside of me?
Everything is breaking
Why have we ever stopped here?
Everything invaded
I am a son of yours
And I am giving up
Everything invaded
Invaded by everything
(Moonspell- THE ANTIDOTE)

Seria as tuas lágrimas se o sol fosse negro na ausência de luar
Seria as tuas lágrimas se a rosa fosse pobre, a idade a flutuar
Seria as tuas lágrimas se a noite fosse minha, teus sonhos a desejar
Seria as tuas lágrimas se o poente fosse a nascente do teu acordar
Seria as tuas lágrimas se a morte fosse teu presente arrancar
Seria as tuas lágrimas sempre que as quisesses chorar

I took my love, I took it down
I climbed a mountain and I turned around
And I saw my reflection in the snow covered hills
‘Til the landslide brought it down
Oh, mirror in the sky, what is love?
Can the child within my heart rise above?
Can I sail through the changing ocean tides?
Can I handle the seasons of my life?
Well, I’ve been afraid of changing cause I’ve
Built my life around you
But time makes you bolder
Even children get older
And I’m getting older, too
Well, I’ve been afraid of changing cause I’ve
Built my life around you
Time makes you bolder
Even children get older
And I’m getting older, too
I get older, too
I took my love and took it down
I climbed a mountain, I turned around
And if you see my reflection in the snow covered hills
The landslide brought it down
The landslide brought it down
Smashing Pumpkins

Cratera de convulsões sentimentais.
Pequenos cortes de lava incandescente,
fantasmas apaixonados,
histórias para contar.
Não tenho medo
do sol,
floco de amor e ódio a crescer

não quero ser isto que sou.
sinto-me suja.
tira-me deste lugar.
leva-me nos teus sonhos e apaga estes pesadelos.


estou a morrer
e seu olhar desesperado,
na procura de palavras que não lhe consegui dar.
estou a morrer
uma vez, o meu pai disse-me que quando uma pessoa morre um pouco de mundo morre também com ela.
estou a morrer
e os soldados que vão para a guerra, combatendo pela pátria que não é nada mais que palavra.

ajuda-me
Ouvi dizer que o nosso amor acabou.
Pois eu não tive a noção do seu fim!
Pelo que eu já tentei,
Eu não vou vê-lo em mim:
Se eu não tive a noção de ver nascer um homem.
E ao que eu vejo,
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi!
E eu fiquei com tanto para dar!
E agora
Não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva!
E pudesse eu pagar de outra forma!
Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã,
E eu tinha tantos planos pra depois!
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós;
Sem tirar das palavras seu cruel sentido!
Sobre a razão estar cega:
Resta-me apenas uma razão,
Um dia vais ser tu
E um homem como tu;
Como eu não fui;
Um dia vou-te ouvir dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
Sei que um dia vais dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! ora doce!
Pra nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!
Ornatos Violeta

Anomalia.
Que anomalia possuíra seu espírito?
Era diferente.
Sabia-o desde que nascera.
Não consegue deixar de sofrer por essa obstrução de felicidade, esse veneno maligno de tormento que a tornara quem era hoje
um aborto dentro das asas humanas,
um líquido visceral de vómitos hediondos que repugnavam a sociedade.
Era tudo perfeito,
longe de a abarcar na sua graciosidade.
Loucura?
- Tenho frio, diz ela.
Abraço-a como se quisesse curar as chagas da humanidade.
Nas minhas lágrimas, a dor natural de sua vida.
Aperto-a como se sugasse a gélida morbidez de seu vazio.
Não quero que morras nesse julgamento que não é teu.
Dói-me teus pesares que me pesam a alma.

Este blog foi censurado. Por favor dirijam-se às saídas.
Obrigada pela vossa visita.

ouço a música do filme American Beauty, procurando-me no mundo que falavam, na beleza indescritível que existe quando morremos.
o saco de papel.
esqueço-me de saber viver
"Uma vez alguém me disse que a vida é feita de momentos. A vida é feita de dois momentos - o teu nascimento e a tua morte eventual.
À parte do meio é chamado bocado, que tu, provavelmente, lixarás.
Dois momentos. Um pode vir mais cedo de que esperavas.
Talvez venha como uma supresa. Talvez venha como uma salvação."
it's only a paper bag, you know

Às vezes um momento tão vulgar e insignificante contém a beleza incomensurável da idade da vida, o infinito dos dias.
"Qual era o significado?
o significado era a beleza. o significado era a causa e o efeito.
o significado era inevitável. o significado era belo.
- porque não pareceu isto claro antes?
olhos abertos - o significado era a beleza.
olhos abertos para ver a beleza.


Vou guardar as cores que me deixaste
Na nossa caixinha de veludo.
Vou juntar-lhes as folhas secas
Da rosa que pousaste aos meus pés
Na ultima noite de Inverno.
Então misturo as cores e as flores,
Numa noite em que brilhe a lua,
E com as lágrimas que ainda me sobram
(de cada vez que te recordo)
Farei o perfume que me levará
Ao fim dos meus dias.
(Morgatha- Inédito)
[Poema enviado por Morgatha, responsável pelo blog Night Writings. O nosso obrigada.]

(Jon Fosse)
Num canto recuado de um grande cemitério. Fim de Outono. Acabou de chover. Troncos de árvore negros, algumas folhas ainda nas árvores, algumas folhas no chão. Um caminho de saibro. Um banco velho. Um homem avança pelo caminho do saibro... chega uma mulher...
O HOMEM
francamente surpreendido
O quê és tu
A MULHER
embaraçada
Sou
pelos vistos
Olha para baixo, começa a dar pontapés no saibro com a biqueira do sapato
O HOMEM
levanta-se, olha para ela
Tu aqui
Mas é incrível
encontrar-te aqui
agora
É espantoso
Ela continua de pé a olhar para baixo
Que engraçado
Há quanto tempo
A MULHER
baixinho
É verdade
Silêncio longo
O HOMEM
Não sabia que tinhas vindo
à cidade
A MULHER
com um sorriso
Estou só de passagem
...
O HOMEM
quase brincalhão
E se fôssemos para um sítio
onde pudéssemos estar sozinhos
A MULHER
finge ficar surpreendida, sorri
Onde pudéssemos estar sozinhos
Para o meu hotel
talvez
A mim apetecia-me
Olham um para o outro, sorriem. Silêncio. Ela olha para ele de lado
Por que não
O HOMEM
Como é possível eu dizer uma coisa destas

A MULHER
olha para ele contente
Um pouco provocante
Não queres
Silêncio
O HOMEM
Talvez
A MULHER
Não estás a brincar
O HOMEM
brincalhão
Acho que
foi o que sempre quis
A MULHER
Mas por que é que não me disseste
antes
quero eu dizer
O HOMEM
São coisas que não se dizem
A MULHER
Mas queres mesmo
...
O HOMEM
sincero
Senti a tua falta
muitas vezes
eu
...
O HOMEM
Queres que te diga uma coisa
Olha de frente para ela e ela diz que sim com a cabeça
Antes de tu chegares
quando estava a olhar para aquela lápide ali
aquela com a inscrição
qualquer coisa von Obstfelder
nesse momento estava a pensar em ti
É muito estranho
Sentia a tua falta
Com entusiasmo
Não nos vemos
há tanto tempo
e encontramo-nos aqui
num dia escuro de Outono
num cemitério
e ainda por cima no momento em que pensava em ti
e sentia a tua falta
A mulher afasta-se um pouco, pára
Muitas vezes
à noite
quando estou deitado na minha cama
ou no sofá
sinto que estás ao pé de mim
Parece uma loucura
Ainda continuo
já não tanto
talvez
mas de vez em quando
a sentir-te deitada ao meu lado
e eu aperto-te nos meus braços
É verdade
Tenho perguntado a mim próprio muitas vezes
se tu também sentes
que estás deitada ao meu lado
Ela diz que sim com a cabeça
Também

A MULHER
Sinto
Silêncio
O HOMEM
aproxima-se dela
Mas é só imaginação
sonhos
Se nós
olha para ela
tu e eu
se fôssemos viver juntos
então tudo isso desaparecia
tornava-se um sacrifício
e depois de alguns anos
já não queríamos viver juntos
Havíamos de nos separar
nós como todos os outros
As coisas são como são
A MULHER
Talvez
O HOMEM
São
A MULHER
triste
Claro
são
e não são
O HOMEM
Talvez
...
(Jon Fosse- SONHO DE OUTONO)
Deficiente
lembra-me de ta dar
desesperares
sensuais
desfolhar
esclarecidos?
Excitar
conter
sexo
repressivo
viagens
feminino
estremecia
fartamo-nos
sei
espera
possível

olhas-me depois de uma noite de sexo escaldante.
o ódio nos teus olhos. esse desejo carnal de me morder, de me bater.
- bate-me.
eu espero.

(José Luís Peixoto)
tenho aquela que me olha e que olho
e misturamo-nos como brisas e
silêncios e digo tenho aquela que
me vê e ela olha-me e tudo o
que somos é uma partilha uma
mistura e digo diz e aquela que
tenho beija-me num olhar e num
silêncio que não posso dizer.
(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUÍNAS)

(António Gedeão)
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada.
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volra à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
(António Gedeão- poema incluído na antologia A ARGAMASSA DOS POEMAS)

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos- digo,
As mulheres- ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas.
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos- no pescoço das mães- ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
(Daniel Faria- POESIA)

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- POESIA)

(Fernando Pessoa)
Dormir! Adormecer! Sossegar! Ser uma consciência abstracta de respirar sossegadamente, sem mundo, sem astros, sem alma- mar morto de emoção reflectindo numa ausência de estrelas!
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

Ele está sentado.
A cadeira permite-lhe um rigoroso conforto.
A sua posição é o desenho de uma figura delicada
entregue ao abandono.
O seu pensamento constrói o fresco desejo num ímpeto
iluminante. As mãos espessas são altas
brillam entre os opulentos anéis do silêncio.
(Fernando Esteves Pinto- ENSAIO ENTRE PORTAS)

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
(António José Forte- UMA FACA NOS DENTES)

"Um dos dois mente, o escritor ou o livro,
acerca de qual deles escreve o outro.
Qual, ilegível, é Um? Qual é Mistério dividido?
Qual é o espectro? Qual é o corpo?
"Que culpa inconclusa se oculta
na leitura, a do esquecimento ou a da loucura?
Que voz irresoluta aí murmura?
Que mesma voz outramente escuta?
"E que eco ou evidência
fala na impossibilidade de falar?
Será prudente- perguntou ele- confiar
o Verdadeiro a tanta ausência?"
(Manuel António Pina- OS LIVROS)

(Bertolt Brecht)
A boa, que ao seu amor nada nega
E se lhe entrega com antecipação
Saiba: que não é boa vontade não
Mas talento, o que ele deseja na esfrega.
Mesmo se à velocidade do som
Do sou-tua dela à cópula chega
Não é pressa que o botão dele carrega
Quando às bolas seminais dá vazão.
Se é o amor que primeiro atiça o fogo
Precisa ela depois, para Inverno amparado
De ser dona ainda de um traseiro dotado.
De facto, mais que o fervor no olhar
(Também faz falta) um truque há que usar:
Coxas soberbas, em soberbo jogo.
(Bertolt Brecht- extraído de POESIA ERÓTICA)

Sufrimiento mío,
sufrimiento del viento
que llega de repente
a mi alma
a mi mente,
¿Me podrías dejar en paz?
Ese tornado
Lleno de ansiedad
Queriendo matarme,
Lentamente
Déjame vivir
Que me estoy muriendo,
Déjame respirar
Que me estoy ahogando,
Me asilo en tu cobija
Pero tu calor
Se hace frío
Y sin alguna ayuda
Caigo y me rindo,
Ayúdame me enfrío
Ayúdame me muero
(Carolaynee Bracho- extraído de OPUSGAY/CHILE- POESIA LÉSBICA)
Há um desafio no teu corpo
Quando o teu sexo fica assim
Duro, directo, afirmação.
Imobilizo-te então no gesto
Contradigo-te na tua boca
Com caricias rebato argumentos
O meu corpo exige a explicação.
E provo-te em gestos amantes
Quando dentro de mim,te questiono
te esvazio e te desvendo
Que os gestos de amor não são certezas
Mas sim, meu amor, interrogação...
(Ana- EROTISMO NA CIDADE)
[Reprodução do post da autora, resultante de um desafio por nós lançado para dar resposta ao poema "Coito", de Ferreira Gullar, neste blog editado no dia 18.]

Aviso-te, velhaca, mais uma vez:
mete-te com os da tua laia, ladra,
que me levaste da mesa os copos
por onde bebia e deixaste na alma
as cadeiras frias. Arrepende-te, Morte,
e devolve-me as veias, os amigos,
as sementes de papoila. Restitui-me o intacto
futuro da minha juventude, a fotografia
onde cabíamos todos e a minha solidão
era uma onda quebrada nas pedras de gelo.
Traz-me de volta o silêncio do Jaime,
o cheiro a serrim, traz-me o Leal e ainda
o Artur, com todas as músicas desse verão,
o nó da fortuna, de '89. Não te esqueças
também do Luís, deixou por contar
o resto da história. Nem do Joel,
o mais desgraçado rapaz,
que me confessou um dia haver morrido
sem nunca ter sido beijado.
Fazes-me isso, e perdoo-te o resto. Mas
se torno a ver-te a menos de quinze passos
dos meus - eu juro que te mato.
(José Manuel Silva- ULISSES JÁ NÃO MORA AQUI & ETC)

(Pintura de Francoise Nielly)
Querido Pedro,
Deus sabe o quanto me custa tomar esta decisão. Tentei várias vezes dizer olhando-te nos olhos, esses olhos que tantas vezes me sugaram a alma, mas nunca fui capaz. Teria sido demasiado doloroso para mim, ver esse azul ficar cinzento e por fim apagar-se. Nunca o conseguiria fazer. Amo-te muito. No entanto esta relação não pode mais continuar, eu quero outra vida para mim. Quero ter filhos, quero pensar que vou poder ter netos. Quero saber que a minha vida não vai acabar na solidão de um qualquer bar de engate. Foste e serás sempre uma pessoa importantíssima na minha vida, porém conservarei apenas recordações. Quero lembrar-me sempre de ti com carinho. Quero ver-te rir, como só tu ris, quero guardar esta imagem de um amor ideal mas que a vida me obriga a rejeitar.
Serás sempre o meu Pedro.
A dor que eu sinto neste momento, possivelmente nunca sarará. Meu querido, peço-te que me perdoes por este afastamento tão repentino. Não posso mais viver neste conflito. Não quero mais sofrer em nome de um amor condenado. Sei que compreenderás isso e que serás mais feliz nos braços de outro homem.
Adeus.
Do teu um dia, João.
...
Os lagos de tristeza transbordaram e lavaram-lhe a cara pintada de toda a raiva que pode existir numa só alma. Saiu porta fora, deixando para trás todos os dedos inquisidores da sociedade. Iria seguir o caminho do seu coração, iria ser feliz, custasse o que custasse. Iria conseguir encontrar-se de novo no corpo e na alma de um outro homem.
(António Pedro- MAÇÃS DE ADÃO)

Tinha-me bastado um beijo e tudo ficava bem. Um simples abraço ou um gosto de ti. Já nem pedia um amo-te, pois conheço bem a tua natureza dúbia e o quanto foges dos compromissos. Em vez disso sorriste, deste-me um beijo na cara e disseste com o ar mais cordial do mundo: “- Obrigado João, és um bom amigo...”
E se me sentia pequenino, ainda mais mirrei, encolhi-me no meu nada, reduzido à insignificância da qual nunca devia ter saído. Olhei vago o horizonte composto por luzes citadinas e carros estacionados. Engoli a voz e as coisas que me apetecia dizer-te. Sufoquei. Disseste divertida que foi melhor assim, que preferias não o ter visto, pois sentias uma atracção terrível por ele, que não conseguias resistir quando ele estava por perto. Contudo passas a vida a resistir-me a mim! Foi melhor eu ter-lhe entregue a tua carta... ainda me interrogo do meu papel nisto tudo...
O confronto era inevitável, adivinhava-se e eu já o ansiava há algum tempo. Nunca pensei foi que me fosse causar tanta mossa. Sempre imaginei, relevar a situação de forma simpática, com a minha habitual descontracção. Não esperava encontrar tantas diferenças, a roupa de marca, o ar dândi e cuidado, algo queque e majestoso dele, o Mercedes Slk estacionado à porta, a pose altiva e segura de quem nada receia no mundo. Mas mais do que isso, a maneira como ficas a falar sobre ele tempo demais sem reparar que me magoas. Senti-me pequenino, senti-me ainda mais o pobre rapaz do campo que sou, perdido na metrópole em confronto com o habitante citadino. Senti-me nu... sozinho... apercebi-me pela primeira vez o quanto o teu mundo é diferente do meu ao ver as diferenças entre mim e ele.
Voltei confuso para o carro onde me esperava o beijo que não me deste, o carinho que não tiveste, o amor que não foi no conforto que precisava. Para saber que não era tão verdade aquilo que tinha sentido... afinal talvez seja... penso agora...
Despediste-te de mim como sempre, esquiva e fugidia e nem reparaste no que ficou para trás. Eu de coração partido, lágrimas nos olhos e cabeça mergulhada no volante. O tiquetaquear do meu relógio de pulso acabou por me lembrar das horas que eram. Horas de ir embora... horas de ir para casa.
João Natal – 18/02/04
[Para o autor, um abraço especial.]

ergue-te ó chuva
nos olhos das manhãs
inquietantes de deus
reflexo indecifrável
esculpido no tempo
estala entre
o imenso consolo
das nossas poderosas emoções
e o pavor que trazemos
aos gritos no crepúsculo
de ti debruçada
sobre os campos
sobre a fome
ergue-te
acende no olhar
a carícia das flores
encantada janela de deuses
voltada às estrelas
de onde caem nenúfares
camélias flores de papel...
sentes-te só
miraculosamente viva
corajosa recordas em silêncio
a piedade que resta
aos espíritos da água
misteriosos como pingos
preciosos cintilantes
na angústia humilde
da transformação
deixai falar a alma
transfigurada adormece a chuva
nos olhos inquietantes de deus
vulto cinzento de sombras
a tua valiosa máscara
esconde no nevoeiro pálido
o martírio a graça o corpo
de quem se despe de vida
ergue-te ó chuva
em gemidos
escavas e beijas as fontes
buscas os olhos de deus
indo sozinho anseia
em teus braços molhados adormecer...
redimido em
cristalinas lágrimas
onde navegaram
ensombrados os meus sonhos
de rir de cruzes de batalhas
és a sombra desenhada
pelas águas tuas
num jardim desfeito
de tanta ilusão incompleto
ergue-te ó chuva!
(Henrique Levy- INTENSIDADES)

(Imagem de Juha M Hämäläinen)
És de pedra, como se tivesses sido sepultada pelo tempo até a morte envelhecer na tua pele, as cicatrizes de um sofrimento indelével que emurcheceram no teu corpo. Conservas o movimento de um presente longínquo e consigo ouvir-te como se o passado retrocedesse a seu presente.
Estranho como eu cresço e tu envelheces. Simplesmente vais lentamente endurecendo, guardando em ti os segredos da memória, a que já não possuo mais em mim.
O espelho partido de teu fado já delineado como um fim doloroso de 7 anos de ausência. Partiste há 7 anos. O espelho partiu há 7 anos. Partiu e levou consigo o teu coração, deixando-me a tua reminiscência perpétua que vai crescendo no vazio que carrego.
As asas partiram-se. O peso de te trazer abateu-me as forças e deixo-me cair.
Tu continuas lá, sentada, como se esperasses ver-me chegar.
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO
ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO ENLOUQUEÇO

Every night
You wrote another line
With a bloody, broken, bottle
And every day
You wish it away
Why don't you pull the pin
On that grenade
You cuddle
I wanted to believe
Bodies swinging from trees
Struggling to stand
With your head in your hands
A stoic last stand
Of a dying man
I wanted to believe
As I watched your world
Crumble in your hands
I wanted to believe
As you raised your glass
To your last stand
And I wanted to believe
You would win
The war in your head
That I did not understand
That I did not understand
Every night
The questions poured out
Of your wounded eyes
Damn dark things
Every day
You used to pray
Listen to the black raven sing
You wanted to believe
As you were falling to your knees
Struggling to stand
With your life in your hand
The sad last stand
Of a broken man
I wanted to believe
As I watched your world
Crumble in your hands
I wanted to believe
As you raised your glass
To your last stand
And I wanted to believe
You would win
The war in your head
That I did not understand
That I did not understand
And the questions pour out
And the questions pour out
I did not understand
I did not understand
I did not understand
I did not understand
The sound of you falling
I did not understand
As the trembling heart of a man
Did not understand
The sound of a trembling heart
By Johnette Napolitano

Loucas são as pessoas que se encontram onde eu já estive.
Pois que guardo os segredos do mundo e pois que trago a fala da morte nos meus lábios de outrem.
- Digam-me então que sou louco
se vi os asquerosos problemas da noite no sorriso do sol!
Pois que chamem à minha palavra, imprudência e pois que venham enterrar a imortal decadência da terra.
Eu sei que faltará pouco para as asas do destino roubarem à humanidade o que nunca lhes pertenceu.

(Maria do Rosário Pedreira)
Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.
Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.
(Maria do Rosário Pedreira- A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS)

(Pintura de Marcelo Oliveira)
Augusto
Os teus olhos fixados nos meus, com a força que reconheço em ti. És uma mulher maravilhosa, penso. Sorrio. E tento ignorar a voz na minha cabeça que me alerta para o que está a acontecer. Seduzo-te cada vez mais. Como se a minha paixão fosse demolidora, forte e teimosa como os teus olhos. Não vislumbras a ameaça pendendo sobre ti. Não reconheces o perigo. Apetece-me alertar-te, mas sei que não é possível. Que inevitavelmente pensarias que estava a proteger-me. Todos nos salvamos mutuamente, não é o que pensas? Mas, olha, não é verdade. Ou, pelo menos, não é verdade para mim. Nada mais se recuperará deste lugar. A minha história contada é um disparate. Já, outras vezes, tentei avisar. Mas nem eu próprio acreditava, sabes? Ainda pensava que iria recuperar a inocência, essa capacidade de amar como se fosse a primeira vez. Mas a primeira vez também foi um equívoco. E, a esse, outros se seguiram. Ponho os pés no chão uma vez por dia e gozo a minha felicidade. Essa felicidade de ser amado e de amar. Dura só um instante e depois volto para aqui. Para este lugar de conformação, de não mudança, de impossibilidade. Tu sabes-me bem, entendes? Não tem nada a ver contigo. Nunca quis magoar ninguém. Talvez seja mais forte do que eu. Mais forte do que a minha vontade de ser feliz. Antes, via filmes com personagens que tinham um final feliz e acreditava num desses para mim. E tive muitos, muitos finais felizes. Mas o filme não acabava ali. Nunca acabou ali, nesse final feliz aguardado. Se estou contigo, deveria acreditar. Mas não acredito. Em nada acredito. Estou apenas a salvaguardar o meu lugar nesta linha encadeada de causas e efeitos incontroláveis e tremendamente banais. Não me queixo do mundo. Da brisa com cheiro a mar, dessas imagens bonitas que colecciono sem qualquer pudor e, ao mesmo tempo, com toda a culpa. Sem pudor, só culpa. Desculpa ter-te feito apaixonares-te por mim. Mas és tão doce, era inevitável. Como não querer estar perto de ti e beijar-te? Dar-te um pouco de luz, um pouco de negro. Um pouco de vida. Desculpa.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

(Ferreira Gullar)
Todos os movimentos
do amor
são nocturnos
mesmo quando praticados
à luz do dia
Vem de ti o sinal
no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
em seu fosso:
na treva, lento,
se desenrola
e desliza
em direcção a teu sorriso
Hipnotiza-te
com seu guizo
envolve-te
em seus anéis
corredios
beija-te
a boca em flor
e por baixo
com seu esporão
te fende te fode
e se fundem
no gozo
depois
desenfia-se de ti
a teu lado
na cama
recupero minha forma usual.
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)

(Al Berto)
dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
(Al-Berto- O MEDO)

(Eugénio de Andrade)
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
(Eugénio de Andrade- OS LUGARES DE LUME)

Hipólito vê televisão com o som muito baixo.
Brinca com um carro de controlo remoto.
O carro zumbe pelo quarto.
O seu olhar fixo alterna entre o carro e a televisão, não obtendo, aparentemente, prazer de nenhum deles.
De um saco ao seu colo tira doces variados que come.
Fedra entra com dois presentes embrulhados.
Pára, por uns momentos, a observá-lo.
Ele não olha para ela.
Fedra entra no quarto.
Pousa os presentes e começa a arrumar o quarto- pega nas meias e na roupa interior e procura um sítio para as pôr. Não há nenhum, por isso poisa-as no chão, num monte arrumado. Pega nos pacotes vazios de aperitivos e nos papéis dos doces e põe-nos no cesto do lixo.
Hipólito não pára de ver televisão.
Fedra liga uma luz mais forte.
Hipólito- Quando é que foi a última vez que deste uma foda?
Fedra- Isso não é pergunta que se faça à tua madrasta.
Hipólito- Então não foi o Teseu. Não me parece que ele a mantenha enxuta também.
Fedra- Gostava que lhe chamasses pai.
Hipólito- Toda a gente quer um caralho régio, eu devia saber.
Fedra- O que é que estás a ver?
Hipólito- Ou uma cona real se preferires.
Fedra (Não reage.)
Hipólito- Notícias. Outra violação. Uma criança assassinada. Guerra não sei onde. O fim de alguns milhares de postos de trabalho. Mas nada disto importa porque se trata de um aniversário régio.
Fedra- Por que é que não te manifestas como toda a gente?
Hipólito- Não me interessa.
Silêncio
Hipólito brinca com o carro.
Hipólito- São para mim? Claro que são para mim foda-se.
Fedra- Trouxeram-nos ao portão. Acho que gostavam de tos ter oferecido em pessoa. Tirado fotografias.
Hipólito- São pobres.
Fedra- Pois, não é encantador?
Hipólito- É revoltante. (Abre um presente.) Mas que caralho vou eu fazer com uma ninharia? O que é isto? (Sacode um presente.) Carta armadilhada. Desfaz-te dessa pechincha, dá-a aos pobres, eu não preciso.
Fedra- É uma amostra da estima deles.
Hipólito- Menos do que no ano passado.
...
Olham um para o outro em silêncio.
Hipólito desvia o olhar.
Funga.
Pega numa meia e examina-a.
Cheira-a.
Fedra- Isso é nojento.
Hipólito- O quê?
Fedra- Assoares o nariz a uma peúga.
Hipólito- Só depois de ter verificado que não limpei a minha esporra a ela antes.
E eu mando-as lavar. Antes de as usar.
Silêncio
Hipólito esmaga o carro contra a parede.
...
Fedra- Só falas comigo sobre sexo.
Hipólito- É o que mais me interessa.
Fedra- Pensei que odiasses.
Hipólito- Odeio pessoas. ...(Assoa o nariz numa meia e atira-a fora.) Sou gordo. Sou nojento. Sou um miserável. Mas faço muito sexo. Logo...?
Fedra (Não reage.)
...
Fedra- Amo-te.
Silêncio.
Hipólito- Porquê?
Fedra- És difícil. Temperamental, cínico, amargo, gordo, decadente, mimado. Passas o dia na cama, vês televisão à noite, arrastas-te pela casa com o sono nos olhos e não tens um pensamento por ninguém. Sofres. Eu adoro-te.
Hipólito- Não é muito lógico.
Fedra- O amor não é lógico.
...
Olham fixamente um para o outro
Fedra- Estou apaixonada por ti.
Hipólito- Porquê?
Fedra- Perturbas-me.
...
Olham os dois fixamente para a televisão.
Finalmente, Fedra chega-se a Hipólito.
Ele não olha para ela.
Desaperta-lhe as calças e faz sexo oral.
Ele olha para o ecrã durante todo o tempo e come os doces.
Quando está quase a vir-se emite um som.
Fedra começa a afastar a cabeça- ele agarra-lhe na cabeça e vem-se na boca dela sem tirar os olhos da televisão.
Liberta a cabeça dela.
Fedra senta-se e olha para a televisão.
Um longo silêncio, perturbado apenas pelo barulho do saco de doces de Hipólito.
Fedra chora. ...

Fedra- Não podes impedir que eu te ame.
Hipólito- Posso.
Fedra- Não. Estás vivo.
Hipólito- Acorda.
Fedra- Tu queimas-me.
Hipólito- Agora que já me tiveste, vai foder outro.
Silêncio.
...
Fedra- És um filho da puta sem coração.
Hipólito- Exactamente.
...Fedra começa a sair.
...Fedra sai.
(Sarah- Kane- O AMOR DE FEDRA)

Foi num dia normal, suave como este. Parece às vezes que foi ontem, apesar dos anos que já passaram por nós. Tu eras o sorriso de Verão, a vida que eu não tinha, o Sol… trazias um capacete debaixo do braço e fazias da scooter o teu corcel azul e cromado de fantasia. Eu era triste, dias de chuva cinzentos, folhas a voar ao vento, um saco de plástico do continente a boiar no mar de Inverno, semblante carregado e expressão séria. Algo me atraiu em ti contudo. Algo me prendeu. Ainda não consegui muito bem perceber o que é, embora me lembre disso sempre que sorris. Ah… é verdade, o teu sorriso desde o primeiro minuto… o teu sorriso sempre…
Disse-te bem cedo o que queria, nunca fui um homem de rodeios. Tu eras tudo o que me faltava ter, e eu não tinha nada. Ainda és…
Disseste-me sem pestanejar que duvidavas de tudo na vida, e que o meu amor não seria diferente, disseste que eu seria passageiro, como o sol do teu sorriso ou a chuva do meu olhar triste. Disseste até que eu não te amava, que era completamente louco e que os loucos não sabem o quanto se podem magoar. Concordei triste à medida que me afastava, e talvez doido fosse quando voltei para trás. Num dia intempestivo, de chuva e humidade abundante, plantei-me na rua debaixo da tua janela, de fato molhado e braços abertos, e os rios de chuva tapavam-me as lágrimas, o vento disfarçava com pó o meu olhar perdido. Abri os meus braços e ali fiquei, indiferente ao tempo, à chuva, ao vento, ao relógio que não parava. A noite veio, os dias passaram, nasceram-me raízes nos pés, liguei-me aquele sítio, passei a fazer parte dele, o meu corpo solidificou e enrijeceu como madeira, nasceram-me folhas nos braços onde pássaros pousavam para repousar do voo. Os meus galhos cresceram até tocar na tua janela, e dei-te flores todos os anos por altura da Primavera. Nunca mais me viste, mas eu estive lá…
João Natal
17/02/04
[Tocou-me particularmente este texto que me fizeste chegar. Obrigada. Não te esqueças que tens sempre um espaço aqui. Para mais trabalhos do autor ver este blog.]

(Boris Vian)
Há sol na rua
Gosto do sol mas não gosto da rua
Então fico em casa
À espera que o mundo venha
Com as suas torres douradas
E as suas cascatas brancas
Com suas vozes de lágrimas
E as canções das pessoas que são alegres
Ou são pagas para cantar
E à noite chega um momento
Em que a rua se transforma noutra coisa
E desaparece sob a plumagem
Da noite cheia de talvez
E dos sonhos dos que estão mortos
Então saio para a rua
Ela estende-se até à madrugada
Um fumo espraia-se muito perto
E eu ando no meio da água seca .
Da água áspera da noite fresca
O sol voltará em breve
(Boris Vian- CANÇÕES E POEMAS)

(Albano Martins)
Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.
(Albano Martins- ESCRITO A VERMELHO)

(Pintura de Françoise Nielly-Painter)
Sabes que queria fazer agora?
Morder-te
rasgar-te a pele com as unhas,
deixar um sinal indelével em ti,
marcar território.
Para que quando outra te despisse, te amasse
te perguntasse: que é isto?
Tu te calasses.
E eu, cicatriz em ti respondesse
Foi meu, estive cá antes!
(Autora: Ana)
[Poema gentilmente cedido por Ana. A ela o nosso agradecimento.]

(Tribalistas)
Já sei namorar
Já sei beijar de língua
Agora, só me resta sonhar
Já sei onde ir
Já sei onde ficar
Agora, só me falta sair
Não tenho paciência pra televisão
Eu não sou audiência para a solidão
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo o mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo o mundo
E todo mundo é meu também
Já sei namorar
Já sei chutar a bola
Agora, só me falta ganhar
Não tenho juíz
Se você quer a vida em jogo
Eu quero é ser feliz
Não tenho paciência pra televisão
Eu não sou audiência para a solidão
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também
Tô te querendo como ninguém
Tô te querendo como Deus quiser
Tô te querendo como eu te quero
Tô te querendo como se quer
(Tribalistas- TRIBALISTAS)

(Adriana Calcanhoto)
Meu bem qualquer instante
Que eu fico sem te ver
Aumenta a saudade
Que eu sinto de você
Então eu corro demais
Sofro demais
Corro de mais só pra te ver meu bem
E você ainda me pede
Para não correr assim
Meu bem eu não suporto mais
Você longe de mim
Por isso eu corro demais
Sofro demais
Corro demais
Só pra te ver meu bem
Se você está ao meu lado eu só ando devagar
Esqueço até de tudo, não vejo o tempo passar
Mas se chega a hora de pra casa eu te levar
Corro pra depressa outro dia ver chegar
Então eu corro demais
Sofro demais
Corro demais
Só pra te ver meu bem
Se você vivesse sempre ao meu lado
Eu não teria
Motivo pra correr
E devagar eu andaria
Eu não corria demais
Agora corro demais
Corro demais
Só pra te ver meu bem
(Adriana Calcanhoto- PERFIL)

Sei de cor cada lugar teu
atado em mim
a cada lugar meu
tento entender o rumo
que a vida nos faz tomar
tento esquecer a mágoa
guardar só o que é bom de guardar
pensa em mim
protege o que eu te dou
eu penso em ti
e dou-te o que de melhor eu sou
sem ter defesas que me façam falhar
nesse lugar mais dentro
onde só chega quem não tem medo de naufragar
fica em mim que hoje o tempo dói
como se arrancassem tudo o que já foi
e até o que virá
e até o que eu sonhei
diz-me que vais guardar e abraçar
tudo o que eu te dei
mesmo que a vida mude os nossos sentidos
e o mundo nos leve pra longe de nós
e que um dia o tempo pareça perdido
e tudo se desfaça num gesto só
eu vou guardar cada lugar teu
ancorado em cada lugar meu
e hoje apenas isso me faz acreditar
que eu vou chegar contigo
onde só chega quem não tem medo de naufragar
(Mafalda Veiga- TATUAGEM)
[Que estas palavras cheguem ao Porto. Beijo grande. Sandra.]

(Pintura de Esteban Painter)
- Tenho tantas saudades do Rodrigo, Ana, mesmo tantas...
- Saudades porquê, ainda anteontem se foi embora, estiveste três dias inteirinhos com ele! E pelo que se ouvia do lado de lá da casa, não estiveste mal de todo... Conta lá!
- Não, nesse aspecto é a melhor cama que já tive, sei lá, é a liberdade total, não há horas nem regras, outro dia tenho a impressão que nem dormimos, mas não é isso, acho que até devia evitar estar com ele, envenena-me pensar que não o tenho sempre, fico com vontade de o manter colado a mim... Um dia destes queixou-se que quase sufocava, estive não sei quanto tempo abraçado a ele, a apertá-lo e a sentir o meu peso cada vez maior nas costas dele, queria entrar por ele dentro e nunca mais sair, esmagá-lo até sermos um só... Tu não percebes!
- Mas gostava de perceber, já que estamos a falar nisso. O Rodrigo vem ter contigo sempre que o chamas, fins-de-semana, férias, dá para ver que tem uma paixão por ti, das antigas, o que é que queres mais?
- Não sei se tem, às vezes parece-me que só quer aproveitar o bem-bom, estar comigo nestas alturas em que estou mais disponível, com todas as mordomias, já sabes que eu não meço o dinheiro nem nada para estar bem, eu no lugar dele também aproveitava estas escapadelas! ...
Mas o Rodrigo, sabes, é diferente, mexe comigo de uma maneira que não estou habituado, faz-me desconfiado, estou com ele e sinto o cheiro dos outros, juro-te que é verdade, o cheiro de todos com quem ele esteve, misturado com aquele perfume dele, e com o meu cheiro... E nos olhos vejo mais um, sou só mais um... O que é que pensas que anda ele fazer quando não está comigo?
- E depois? Achas que se fosses como ele alguém tinha alguma coisa a dizer? O Rodrigo adora-te, se não está contigo a toda a hora é porque tu lhe dás muita seca, comporta-te, não faças isso, não faças aquilo, olha as pessoas a olhar... E claro que se não está contigo tem que estar com mais alguém, o homem não é de pau e aliás era um desperdício! Mesmo que estivesse contigo, quer dizer, se vocês vivessem juntos, não estavas livre de ele filar o gajo mesmo ao lado, se lhe apetecesse, se fosse a altura certa, o Rodrigo é uma alma livre e parece que é isso mesmo que não consegues engolir!
(António Pedro- MAÇAS DE ADÃO)

(Ana Hatherly)
Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.
O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.
Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.
Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.
Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.
Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.
Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.
(Ana Hatherly- O PAVÃO NEGRO)

(Sam Shepard)
Um quarto mobilado de um motel barato na margem do Deserto Mojave. ...
MAY está sentada na borda da cama, voltada para o público, com os pés no chão, as pernas abertas, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos caídas e cruzadas entre os joelhos, a cabeça inclinada para a frente a olhar fixamente para o chão...
EDDIE está sentado na cadeira superior à mesa, olhando para MAY. Tem botas de cowboy, gastas e sujas de lama, com aplicações prateadas na ponta e no peito do pé, uns jeans muito usados, desbotados, sujos, cheirando a suor de cavalo. Camisa castanha de vaqueiro com botões de mola. ...
EDDIE- (sentado, atira a luva para cima da mesa. Pausa curta)
May, olha. May! Eu não vou para lado nenhum. Vês? Eu estou aqui. Não me fui embora. Olha. (ela não olha) Não sei porque é que não queres olhar para mim. Tu sabes que sou eu. Quem é que haveria de ser? (pausa) Queres um copo de água ou qualquer outra coisa? Hum? (ele levanta-se lentamente, aproxima-se dela, acaricia-lhe a cabeça com suavidade, ela continua quieta) May! Vá lá. Não podes continuar assim. Há quanto tempo estás aí sentada? ...
(depois de uma pausa) Queres que eu me vá embora?
MAY- Não!
EDDIE- Então o que é que tu queres?
MAY- Cheiras mal.
EDDIE- Eu cheiro mal.
MAY- Cheiras.
EDDIE- Estive dias ao volante.
MAY- Os teus dedos cheiram mal.
EDDIE- A cavalo.
MAY- A rata.
EDDIE- Então, May.
MAY- Cheiram mal, cheiram a dinheiro.
EDDIE- Não vamos começar com essas merdas.
MAY- A rata rica. Muito limpa.
EDDIE- Sim, está bem.
MAY- Tu sabes que é verdade.
EDDIE- Vim para ver se estavas bem.
MAY- Eu não preciso de ti!
EDDIE- Está bem (volta-se para sair, pega na luva e na correia) Muito bem.
MAY- Não te vás embora!
EDDIE- Vou-me embora.
(Ele sai pela porta da direita, batendo com ela com toda a força; a porta ressoa.)
MAY- (com um grito de angústia) Não te vás embora! ...
...
EDDIE- Estou a tentar cuidar de ti. Percebes, May?
MAY- Não, não estás. Tu sentes-te é culpado. Culpado e cobarde....
(calmamente, permanecendo no seu canto) Eu vou matá-la, sabes?
EDDIE- A quem?
MAY- A quem...
EDDIE- Não fales assim. ...
MAY- Vou. Vou matá-la a ela de depois mato-te a ti. Metodicamente. Com facas afiadas. Uma para ela e outra para ti. (bate com o cotovelo contra a parede. A parede ressoa) Para que o sangue não se misture. Mas a ela torturo-a primeiro. A ti não. A ti vou esperar que estejas dentro de mim. Talvez no meio de um beijo. Exactamente quando tu julgares que está tudo bem outra vez. Exactamente no momento em que tu tiveres a certeza que me conseguiste dar a volta. É então que tu morres. ...
...
EDDIE- Vou levar-te comigo, May.
...
MAY- Eu não vou voltar para a porcaria daquela roulotte, se é isso que estás a pensar.
EDDIE- Vou pô-la noutro sítio. Comprei um terreno em Wyoming.
MAY- Wyoming? Estás louco? Eu não vou para Wyoming. O que é que há por lá? Homens Malboro?...
...
EDDIE- May, eu desta vez não vou deixar que tu me fujas.
MAY- Para começar, tu nunca me quiseste agarrar. (pausa) Quantas vezes é que tu já me fizeste isto?
...
EDDIE- Eu vou cuidar de ti, May. A sério. Vou ficar ao teu lado, aconteça o que acontecer. Prometo.
MAY- Sai daqui. (Pausa.)
EDDIE- Porque é que tu tinhas de te ir embora e fugir.
MAY- Fugir? Eu?
EDDIE- Sim. Porque é que tu não pudeste ficar quieta. Tu sabias que eu ia voltar para te buscar.
MAY- ... O que é que tu julgas que é estar sentada durante semanas inteiras dentro de uma roulotte de lata a ouvir o vento a soprar através das frinchas? Estar para ali à espera de garrafas de gáz. Ir a pé debaixo de chuva até à lavandaria. Achas que é uma vida fantástica ou qualquer coisa parecida?
EDDIE- (continuando sentado) Comprei-te aquelas revistas todas.
...
(Sam Shepard- LOUCOS POR AMOR)

(Pintura de Robin Tichane)
Benjamim
Essa coisa de estares aqui, parado em cima de qualquer coisa que não sabes bem o que é, porque não és tu nem ninguém. Vou estando, a tentar não olhar para a coisa que sou eu e para as coisas que não sou eu. Acredito que as pessoas ficam com alguém porque o amor, estar numa relação, as possibilita de esquecerem-se de si. A experiência assim mo diz. Nós estamos ali paradinhos, fartos da nossa própria companhia, e zás, ficamos apaixonados. Claro que há paixão, isso não está em causa. O que quero dizer é que o amor nos faz deixar de sermos nós próprios. Ficamos com a forma de outra coisa. Esquecemo-nos que existimos, que estamos aqui, lá, parados, hipnotizados pela força da vida. Quando me apaixonei, ela deixou-me passado algum tempo. E foi insuportável, porque, de facto, eu não me conseguia suportar. Estava demasiado comigo mesmo para ignorar que existia. Não estava distraído e não sabia como me ouvir. Gostava da pessoa que era quando estava com ela, mas não gostava de mim realmente. Provavelmente só podes amar realmente alguém quando tens uma auto-estima muito grande. O que acontece quando acabas tu com alguém é que não gostas da pessoa que és quando estás com ela e assim, entre duas alternativas igualmente más, preferes aquela que não te maça tanto, que não exige tanto de ti. Sim, acho que é isso. Ninguém sabe tomar conta de si. Só dos outros.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

É difícil esquecer quem não queremos perder e perder aqueles que não nos desejam esquecer.
É difícil partir em busca de nós quando somos retalhos de um passado morto.
É difícil voar pelo prazer da escrita quando nos é proibida a palavra.
É difícil sofrer por o sofrimento que não se tem e pensar que amamos sem saber amar.
É difícil sorrir por quem nos faz morrer e chorar pelo corpo por nós violado.
É difícil sentir quando se sabe não ter coração.
É difícil escrever para as paredes loucas do vazio.
É difícil chegar ao fim do dia e ver o sol a adormecer e as lágrimas a correr silenciosamente pelo rosto.
ódio. lágrimas incondicionalmente paridas e dor.
dor, dói.
vómitos de alma ao anoitecer,
lugares esburacados a perecer
MATA-ME
os gritos, as mórbidas esperanças a falecer
chicotadas no corpo magoado a sofrer
não entendem o que não poder viver
nos vestígios de solidão enlouquecida
prisão do sexo amortecido
da liberdade que permanece esquecida
por todos e por ninguém
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

Dia vermelho para quem gosta de preto.
O coração rasgado de perdição, sentimentos esventrados de emoção.
desejo algo mais que a podridão destes dias
a rosa sangrenta a morrer
o desespero corrompido a envelhecer no lugar do vazio
onde a alma costumava amar.

"As pessoas estão habituadas a uma passividade confrangedora quando vão ao teatro".
(Sarah Kane)

(Almada Negreiros)
Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar
(José de Almada Negreiros- POEMAS)

(Fotografia de Stephanie Brinkkotter)
As ondas do amor
Batem e soam como as ondas do mar
O que me acorrenta
É a falta de coragem pra dizer
A lua chega tímida
A olhar pelo canto da montanha
E esbanja um sorriso
Soa ao longe o ressonar de uma canção
Bate em silêncio e retirada
A felicidade tímida e solitária
(Lilia Trajano- Inédito)
[Lilia, obrigada por este teu poema.]

Costumava sentar-me nos baloiços e agitar os pés violentamente erguendo a vista aos céus.
Queria alcançar o azul com a força dos sonhos que me embalavam e por milagrosos momentos conseguia abraçar a beleza do mundo no seu estado mais louco e febril,
a girar, a girar, e a girar…
Tudo parece mais fácil quando não pensamos. Eu não pensava. Subia e agitava meu corpo fogosamente para a frente, voando por segundos quando a cadeira saltava na corda ao máximo esticada. Aí acreditava que podia ser feliz para sempre até que o tempo urgia apelando a realidade.
Agora observo o céu, longe de voar no seu alcance, e passo, por vezes, nos restos esquecidos da infância recordando esses instantes de cega esperança e inocência.
O baloiço está lá. A cadeira foi arrancada e restam as cordas que bailam numa infinidade de sons e risos que o vento traz consigo, como um manto retalhado de lembranças que ganha vida nas tardes mais devaneadas de Verão.
Como uma nascente sem começo, a vida que passou flúi nos rios que se formam e não espera, por ninguém.

Há a cumplicidade de dois corpos que se reconhecem...
Aquele local secreto do teu corpo que só eu sei
O teu colo quente e húmido forma perfeita do meu
As mãos que se adivinham e encontram.
Um bailado dos corpos ao som da tua e da minha respiração.
A tua mão que marca o momento da espera...
e o ficar quietos,calados
os corpos juntos no cansaço depois do amor
(Ana- Inédito)
[Poema enviado por Ana, uma colaboradora do "Void". A ela, o nosso agradecimento.]

Meus dedos
lentos
percorrendo
a medo
teu corpo
aberto
oferto.
Meus dedos
surpresos
soltando
o calor
o cheiro
de teu corpo
descoberto.
Meus dedos
olhos
trazendo
imagens
mensagens
ao meu corpo
trémulo.
…
Esqueci
teu nome
teu rosto
o quando
e o porquê
Só existes
em meus dedos
(Eugénia Tabosa- extraído de POESIA ERÓTICA)

(Daniel Sampaio)
Que poderia dizer, Diogo*? Que estou aqui, nesta sala de espera, a aguardar uma consulta de Psiquiatria porque tenho um filho gay sempre a falar em suicídio?...
O psiquiatra veio chamar-me à sala...
Sinto que ainda não revelou o verdadeiro motivo da consulta. Por razões que desconheço fala de sintomas, não é difícil chegar à conclusão que se trata de uma síndrome depressiva, mas prevejo que procura mais qualquer coisa, necessita falar de um drama que a destrói a pouco e pouco. Observo os seus olhos, olheiras profundas num risco negro que parece pintado, uma mágoa na expressão que a faz parecer distante. É professora, mas não fala de cansaço nem da indisciplina dos miúdos, pressinto que a relação com o marido não vai bem mas não vou por aí, procuro pontuar com pequenos comentários o seu discurso, que se aprofunda a pouco e pouco.
...
Começo a gostar desta mulher-mãe, necessita de verbalizar os sentimentos de culpa que a destroem a pouco e pouco, no entanto nunca poderei desdramatizar em excesso, porque sem culpabilidade ninguém muda. Só ela poderá (ou não) concluir que a homossexualidade não é uma escolha e que nenhuma mãe a deseja para um filho.
Preocupam-me as ideias de suicídio do rapaz, sobretudo porque acabo de ouvir que não aceita vir à consulta. Não ignoro que as minorias sexuais juvenis têm mais ideias de suicídio que os seus pares heterossexuais e que, nos adolescentes do sexo masculino, existe uma forte associação entre o risco de suicídio e a homossexualidade/bissexualidade.
Ajudo-a a circunscrever um pouco a narrativa, em conjunto construímos o seu genograma. ...
...
Esta mãe, como tantas outras, tem dentro de si o mito da família heterossexual, projecta-se no futuro como avó, vive uma profunda desilusão com o trajecto actual do filho mais velho. Se um dia me quiser falar mais abertamente da homossexualidade do filho, teremos de co-construir a necessária aceitação e integração do rapaz....
Para ti, Diogo, só mais uma coisa: saberei sempre dosear as minhas confidências, nunca desvendarei o secreto íntimo do nosso amor.
(*Nome do filho)
(Daniel Sampaio- VAGABUNDOS DE NÓS)

Só.
Sinto-me mais só que o abismo de corpos contra o qual nado.
Os pensamentos, palavras lutando com palavras, transbordantes imaginações. Recordações. Vivo rodeada de momentos, que de tão largos, partem o coração.
Sempre, sempre na retenção de imagens, de breves instantes de beleza que se transformam em mais palavras.
Palavras.
as estrelas
a casa da avó,
o pontapé violento na bola,
os corredores do carrefour,
as gargalhadas,
o caminho para casa,
a escola,
a casa de banho,
as máscaras,
a televisão,
o esquecimento.
Não quero esquecer-me da vida, das únicas coisas que tocam a alma no seu estado puro e eterno…no entanto nenhuma palavra é gravada no papel, nenhuma história é agarrada para as folhas que lerei perpetuamente, tentando em vão disfarçar a ausência daqueles que partirão.
Lascas de indiferença rasgam aos poucos as luzes de protecção. Os risos que não são meus soam distantes e frios longe de alcançarem esta solidão que envenena o pensamento.
Turbilhão de envolventes melancolias, mágoas de incompreensão e o vazio.
O marasmo dos dias que escurece diante de mim numa perdição de existência.
Deixei de existir. Só ninguém sabe.

(Jorge Palma)
Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
E não me dou a ninguém
Frágil
Sinto-me frágil
Faz-me um sinal qualquer
Se me vires falar demais
Eu às vezes embarco
Em conversas banais
Frágil
Sinto-me frágil
Frágil
Esta noite estou tão frágil
Frágil
Já nem consigo ser ágil
Está a saber-me mal
Este Whisky de malte
Adorava estar "in"
Mas estou-me a sentir "out"
Frágil
Sinto-me frágil
Acompanha-me a casa
Já não aguento mais
Deposita na cama
Os meus restos mortais
Frágil
Sinto-me tão frágil
(Jorge Palma- DÁ-ME LUME. O MELHOR DE JORGE PALMA)
[Dedico esta letra ao Fernando. Sandra]

(António Ramos Rosa)
Este poema é absolutamente desnecessário
pela simples razão de que poderia nunca ser escrito
e ninguém sentiria a sua falta
Esta é a sua liberdade negativa a sua vacuidade dinâmica
e o movimento da sua abolição
a partir do seu vazio inicial
Mas qual é a sua matéria qual o seu horizonte?
Traçará ele uma linha em torno da sua nulidade
e fechar-se-á como uma concha de cabelos ou como um
[útero do nada?
Ou será a possibilidade extrema de uma presença inesperada
que surgiria quando chegasse a essa fronteira branca
que já não separaria o ser do nada e no seu esplendor absoluto
revelaria a integridade do ser antes de todas as imagens
a sua violência inaugural a sua volúvel gestação?
(António Ramos Rosa- DEAMBULAÇÕES OBLÍQUAS)

A noite é como a eternidade
Longe, fria, vazia.
Cruzo as esquinas
Como fantasmas, transpassando cada rua.
Nada faz sentido.
Quando o amor é distante!
Meu coração demasiadamente triste
Chora tua ausência.
A noite acontece do luar
brilhar a espera
de um amor que adormece.
Anoitece enquanto as estrelas tecem
Uma renda de esperança
Para um amor ao longe
Amanhece, cada dia como
Um novo despertar da natureza
Um Bip toca uma mensagem
de um amor que está distante
E me desperta para contemplar
A beleza desse sol irradiante
O silêncio me faz ouvir tua voz
Que ao meu ouvido sopra dizendo...
FAZ TU, FAZ TU.
(Lilia Trajano- Inédito)
[De uma amiga do Brasil que se disponibilizou a colaborar com o "Void". A ela o nosso agradecimento]

Soldado- Tu és um soldado.
Ian- Eu não.
Soldado- E se te ordenarem?
Ian- Não consigo imaginar isso.
Soldado- Imagina.
Ian (Imagina)
Soldado- No cumprimento do dever. Pelo teu país. Gales.
Ian (Imagina mais)
Soldado- Gajas estrangeiras
Ian (Imagina mais. Parece estar enjoado)
Soldado- Fazias?
Ian (Faz que sim com a cabeça)
Soldado- Como?
Ian- Rápido. Parte de trás da cabeça. Pum.
Soldado- É tudo.
Ian- Chega.
Soldado- Achas?
Ian- Acho.
Soldado- Tu nunca mataste ninguém.
Ian- Já foda-se.
Soldado- Não.
Ian- Merda tu não.
Soldado- Não falavas assim. Sabias.
Ian- Sabia o quê?
Soldado- Exactamente. Tu não sabes.
Ian- Sabia o quê merda?
Soldado- Não queiras saber.
Ian- O quê? Foda-se o quê? O que é que eu não sei?
Soldado- Tu pensas.
(Pára e sorri.)
Eu parti o pescoço de uma mulher.
Apunhalei-a entre as pernas, à quinta
facada parti-lhe a espinha.
Ian (Parece enjoado)
Soldado- Não conseguias fazer isto.
Ian- Não.
Soldado- Nunca mataste.
Ian- Dessa maneira não.
Soldado- Dessa/Maneira/Não
Ian- Não sou nenhum torturador.
...
Soldado- Não fazes a mínima ideia.
Ian- De quê?
Soldado- Nunca fodeste um homem antes de o matares?
Ian- Não.
Soldado- Ou depois?
Ian- Claro que não.
Soldado- Porquê?
Ian- Para quê, não sou maricas.
...
Soldado- Que jornalista, é o teu trabalho.
Ian- O quê?
Soldado- Provar o que aconteceu. Eu estou aqui, não tenho escolha. Mas tu. Tu devias estar a dizer às pessoas.
Ian- Ninguém está interessado.
...
Ian- Eu sou do nacional, de Yorkshire. Não cubro as notícias do estrangeiro.
...
Ian- Faço outras coisas. Tiroteios e violações e miúdos aliciados por padres maricas e professores. E não soldados que se fodem uns aos outros por um bocado de terra. Tem de ser...pessoal. (...)
Soldado- (...) (Encosta a espingarda à cara de Ian)
Vira-te, Ian.
Ian- Porquê?
Soldado- Vou foder-te.
Ian- Não.
Soldado- Então mato-te.
Ian- Fixe.
Soldado- Vês. É melhor levar um tiro do que ser fodido e levar um tiro.
Ian- Pois.
Soldado- E tu agora concordas com tudo aquilo que eu disser.
Beija muito delicadamente Ian nos lábios.
Olham fixamente um para o outro.
Soldado- Cheiras como ela. Os mesmos cigarros.
O Soldado vira Ian com uma mão.
Com a outra aponta o revólver à cabeça de Ian.
Puxa para baixo as calças de Ian, desaperta as suas e viola-o
- com os olhos fechados e a cheirar o cabelo de Ian.
O Soldado chora convulsivamente.
O rosto de Ian revela dor mas ele permanece em silêncio.
O Soldado termina, puxa as calças para cima e enfia o revolver no ânus de Ian.
...
Soldado- Nunca tinhas sido fodido por um homem?
Ian (Não responde)
Soldado- Também me pareceu. Não é nada. Já vi milhares de pessoas arrumadas dentro de camiões como porcos a tentar sair da cidade. As mulheres atiravam os bebés para dentro dos camiões à espera que alguém tomasse conta deles. Batiam umas contra as outras até à morte. A parte de dentro das cabeças saía pelos olhos. Vi uma criança com a cara meia desfeita, uma rapariga que fodi com as mãos dentro dela a tentar tirar os meus líquidos de lá, um homem a morrer à fome e a comer a perna da mulher morta. A arma nasceu aqui e não vai morrer. Não faças um drama por causa do teu cu. Não penses que o teu cu galês é diferente de qualquer outro cu que eu tenha fodido. De certeza que não tens mais comida, estou com uma fome do caraças.
...
O Soldado agarra a cabeça de Ian com as mãos.
Põe a boca por cima de um dos olhos de Ian, suga-o, arranca-o com os dentes e come-o.
Faz o mesmo ao outro olho.
...
Escuro.
O som de uma chuva de Outono.
...
O Soldado está deitado ao lado de Ian, o revólver na mão. Deu um tiro nos miolos.

(Sarah Kane- RUINAS)

(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- CORAL)

(Daniel Faria)
Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.
(Daniel Faria - POESIA)

The fury of waters
Revolving still.
Your voices are silences
When they speak through me.
To the crossroads
We are turning our backs
And in each of your wounds
I will plant a seed of belief
In and above Men
The End which is ours
Unclear still,
The thirst growing stronger
And you still won't believe:
Someday we'll come out of your dreams,
And through the eyes you now close
The immense light of the Deep
In and above Men
The fury of Human
Revolting still,
Will we be together?
Finally.
In the crossroad
You gave me your back
And through each of your wounds
You bleed the light over me
Bleeding the skies all over me
(Moonspell- THE ANTIDOTE)

(José Luís Peixoto)
Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança o e desencanto. (...) Dentro e sobre os homens, somos o medo. São as nossas mãos que determinam a fúria das águas, que fazem marchar exércitos, que plantam cardos debaixo da pele. Sabemos que nos conheces. (...). Somos o medo. Conhecemos tantas histórias. (...) Conhecemos a tua história. Vimos-te mesmo quando não nos vias. Vemos-te agora.
(José Luís Peixoto- ANTÍDOTO)

A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
É tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
(Mafalda Veiga- NA ALMA E NA PELE)

(Fernando Esteves Pinto)
A voz da minha mãe: não podes viver toda a vida enfiado no quarto a escrever sem parar coisas que ninguém lerá; não podes ser diferente dos teus amigos que andam lá fora a arrastarem-se pelas ruas e a trabalharem nas obras para organizarem a vida um dia e não terem de pedir contas aos pais; não podes estar horas e horas a olhar para o ar a pensar que caia uma palavra no papel para te fazer feliz; não podes ignorar que o sofrimento é todo meu e todas as tuas quebras e todas as tuas tristezas vão direitinhas a mim; não podes viver no meio do escuro sem vontade de abrir uma janela para saberes como está o dia; não posso pensar que num canto desta casa tu estás a respirar à parte e a construíres uma divisão proibida onde não podemos entrar; não posso sentir medo quando penso que és meu filho; não posso espreitar a tua vida para sempre; não podes fazer sentir-me derrotada quando não oiço a tua voz e quando não compreendo o teu pensamento.
...
A voz da minha mãe: nunca vou compreender aquilo que fazes; olho para as tuas árvores e só vejo tristeza; olho para o teu corpo inclinado sobre uma folha de papel e sinto-me arrepiar de sofrimento; é muito difícil olhar para o teu mundo fechado; eu ando pela casa a fazer o meu serviço e encontro sempre vestígios da tua solidão; as tuas árvores aflitas; as tuas cores negras; nunca vou saber caminhar no meio destas coisas; contaminaste a casa com a tua presença; o primeiro livro representa o início do teu pensamento obscuro; uma mãe a dizer uma coisa destas; a minha ignorância permite-me dizer tudo; a ignorância é um protector eficaz contra o espírito.
Mas olhar para mim próprio significa o fim do mundo, a minha imagem faz parte dum espelho que está irremediavelmente oxidado, por vezes nem consigo ver aquilo que tenho de útil e perco todas as hipóteses de levar uma vida límpida, eu sei que estes pensamentos afundam-me cada vez mais numa ideia de sociedade que me surge como um gueto, a minha solidão é como uma janela estilhaçada e eu tenho essa percepção de coisa aberta e ameaçadora, uma solidão virada para os outros.
(Fernando Esteves Pinto- CONVERSAS TERMINAIS)

Envolvo-me e tenho prazer, fujo da confirmação que acaba de chegar, distancio-me e julgo que foi mais um acidente, um acaso de quem está só carente de amor. Uma semana depois procuro de novo. Um vazio cé dentro faz-me percorrer os lugares do costume e entrego-me uma vez mais. Quero atingir certezas no meu mundo de dúvidas.
Se tenho sexo com homens é porque sou gay. Por que razão não me aceito, por que motivo continuo à procura de algo que não encontro? E, no entanto, cresço a cada momento que passa. Já não sou o menino do jogo de elástico nem do vestido de noiva. Falo contigo, mãe, mas sobretudo converso comigo, dialogo com a parte de mim que durante anos fiz por esquecer. Os charros e o álcool são bons para isso. Põem-me em contacto com uma parte de mim que desconhecia, cá por dentro sinto uma raiva de animal ferido, acordo de manhã com vontade de partir coisas e adormeço cansado por noites de descontrolo e prazeres proibidos. (...)
Nas reuniões do movimento gay que passei a frequentar ouço relatos, bocados de vidas semelhantes à minha, vejo folhetos onde tudo parece simples. ... Um homem mais velho fala em “coming-out”, ri-se quando traduz por “sair do armário”, apetece gritar que é melhor deixar tudo escondido, de nada serve afirmar que a homossexualidade não é uma doença mas uma opção, onde esteve a alternativa no meu caso? Os fantasmas que desde criança me visitam todas as noites, as vozes cá dentro que sussuram “és maricas” desde que o corpo cresceu, as imagens de sexo com homens que preenchem os meus sonhos, tudo o que há tanto tempo me controla, pode ser parte de uma escolha? E, por estranho que pareça, é nestas reuniões de quinta-feira à noite que encontro alguma paz. Finalmente estou entre iguais, é bom ver que não estou só no mundo. Há mais homossexuais do que pensava, se calhar muita gente tem o mesmo problema que eu e apenas disfarça.
Mãe, como sabes tenho vinte e um anos acabados de fazer, passaram mais ou menos três meses depois daquela noite em que te falei do Francisco, tudo está calmo e vejo-te mais feliz. Deixa-me dizer uma coisa: nunca percebi porque criticavas o movimento. Devias ter percebido que me ajudaram a encontrar um caminho, foi naquelas noites de quinta-feira e nalguns fins-de-semana, em reuniões na província, que deixei de me odiar. Sabes, fiz amizade com rapazes angustiados como eu, conheci homens mais velhos de quem me tornei confidente e, acima de tudo, foi lá que conheci quem amo.
(Daniel Sampaio- VAGABUNDOS DE NÓS)
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Rosa que te escondes nas profundezas murchas do Inverno.
Já nasceu a Primavera. que aconteceu ao despertar?
janela de sonhos mutilados, verões de praias vazias e rostos indiferentes.
Perguntas-me, mãe, se sou eu.
palavras que não chegam a lado algum. e as memórias irredutíveis dos sorrisos, o calor abrasador que encolhe os calções.
A janela que se abriu na manhã de Primavera.
o quadro negro das mágoas, ondas que batem no corpo mal lavado, histórias recontadas.
Era aquela tua voz, quando o mundo cantava as estrelas no berço materno da lua.
as páginas do diário. cada um com seu nome, amigo mudo, espelho de lágrimas e corações desenhados onde, agora, pairam as recordações.
quadro negro deixado entre as folhas que de lidas, envelheceram.
envelheci com elas.
só tu não sabes.

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer- vai por esse campo
de crateras extintas- vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo- deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração- ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna- o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira- não esqueças o ouro
o marfim- os sessenta comprimidos letais
ao pequeno almoço
(Al Berto- HORTO DE INCÊNDIO)

Quarto de dormir num banal apartamento de série. Ao centro, uma cama de casal; um pouco ao lado, um guarda-fatos com espelho; junto à cama, mesinhas com candeeiros; em cima de uma delas está o telefone. Na cama, um HOMEM e uma MULHER.
MULHER- Estou muito em baixo (prestes a chorar)...
HOMEM- Oh, não, isso não! O que se passa, hã? O que é isto? Um ataque de sentimento, umas recordações que te atormentam?... Porque é que te dá para chorar sem motivo nenhum?
MULHER- Não sei, sinto-me tão mal, tão enjoada, como um cinzeiro sujo.
HOMEM- Cinzeiro sujo...
MULHER- Não sei, é que, realmente, depois de tanto tempo de abstinência, parece que vai ser tudo muito especial com um determinado homem, ou com um homem em geral... a espera, as fantasias que temos, mas, um segundo depois de acabar, toma conta de nós um vazio tão grande... ainda por cima, isto tudo em geral, no conjunto. (...)
HOMEM- És uma psicopata. Como é que o teu marido vive contigo?
MULHER- Por hábito!
HOMEM- Por hábito... ele vive por hábito, e tu? Tens ataques de histeria também por hábito ou preparaste este circo de propósito para mim?
MULHER- Para ti, para ti... já passa. E para ti, como é que foi?
HOMEM- Foi bom, posso repetir.
MULHER- Que horror, procura outra palavra, arranja outra palavra qualquer, estás a matar-me! (...)
MULHER (vira-se para o HOMEM, apertando-se muito contra ele, e, de repente, deita-se em cima dele- fá-lo de modo tão impulsivo e, ao mesmo tempo, coquete, que se torna claro que o seu estado de ânimo mudou bruscamente).
Amarra-me, queres?
HOMEM- Amarro...mas como? Não tenho cinto... com o cinto do teu marido?
MULHER- Ele não usa...Ah, sim, com uns collants!
HOMEM- Collants?
MULHER- Sim, procura uns no guarda-fatos, e faz de conta que eu desmaiava (rola em cima do HOMEM e empurra-o com os pés- o HOMEM cai no chão), e fico aqui desmaiada, e enquanto eu estiver inconsciente tu amarras-me, e então eu recupero imediatamente os sentidos, mas já será tarde, e então tu possuis-me toda, e eu, indefesa, submeto-me a ti! (...)
MULHER- Estou toda dormente...
HOMEM- É dos collants? Desato? (...)
MULHER- Tu, afinal, ainda és pior do que eu. Eu sentia-me em baixo, pura e simplesmente, e queria estragar a tua boa disposição, pegar-te a minha infecção... mas tu és cá um bicho... tu, ao fim e ao cabo, estás em fase terminal... Desata-me.
HOMEM- De repente, deu-me a fome.
MULHER- Essa agora...desamarra-me.
HOMEM- Estou com fome e tenho de comer, é fatal; depois da segunda eu, pessoalmente, já não me sinto tão mal porque ao menos vem-me o apetite...
MULHER- Que horror... Quanto mais tempo estou contigo, a ouvir isso tudo, mais gosto do meu marido; não tarda, apaixono-me por ele outra vez.
HOMEM- Estou a salvar o vosso casamento.
MULHER- Desamarra-me. (...) Estás a pensar fazer o quê depois de comeres?
HOMEM- Dormir.
MULHER- E eu?
HOMEM- O que quiseres, só que não te desamarro ainda. Durmo um bocado, descanso e volto a fazer amor contigo.
MULHER- Que coisa requintadíssima que ti inventaste, é demais!
HOMEM- Não gostas?
MULHER- Não! (...) Não me digas que vais mesmo dormir?
HOMEM- Vou tentar...
MULHER (histérica) Desata-me, desata-me!
HOMEM- Queres que te meta uma mordaça na boca?
MULHER (assustada) Não.
HOMEM- Então caladinha...
MULHER- Está bem
HOMEM- Vês- já estás a gostar...
MULHER (silva como uma cobra) Não durmas muito- estou a ficar com as mãos dormentes. (...)
O Homem salta da cama, vai ao guarda-fatos, tira da gaveta uma peça de roupa qualquer; volta para a cama, amarrota o trapo, mete-o na boca da MULHER; a MULHER estrebucha, tenta gemer qualquer coisa, o HOMEM atafulha-lhe ainda mais a boca com o pano.
(Irmãos Presniakov- TERRORISMO)

(Pintura de Richard Powers)
Visões do mundo
como invenções.
Por entre ideias loucas
Despoletam-se os sentidos
em compassos vibrantes.
Transições do nosso recheio
Como passagens
a uma nova dimensão.
Mutismos?
Ser, mais do que agora,
AGORA.
Caminhar a olhar só em frente,
impede-nos de experimentar
Outros olhares.
(Carlos Veríssimo- TRAJECTÓRIAS)
[Mais uma vez, o nosso agradecimento ao autor, pelo disponibilizar da colectânea.]

É a tua defesa. Eu sei quando divides a casa.
Sinto essa divisão que tem início nas minhas palavras.
Às vezes parte de ti, das tuas palavras, mas eu esqueço
isso. Quando fechas uma porta atrás de ti, está a arrumar-me no teu esquecimento. Só tomamos
consciência que as portas existem nas nossas vidas,
nos nossos dias, quando perdemos a intimidade
um pelo outro.
As coisas existem para que o nosso comportamento crie
todas as utilidades possíveis.
É nesse breve desequilíbrio dos nossos silêncios
que as portas reúnem todas as nossas forças.
Penso nesse momento interior que é estares num lugar e
eu noutro e haver uma porta que encerra os nossos
pensamentos.
(Fernando Esteves Pinto- ENSAIO ENTRE PORTAS)

(Pintura de Rafael Perez)
Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.
Sou mais pequeno que um insecto.
Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.
Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!
Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.
Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!
(Pablo Neruda- extraído de POESIA ERÓTICA)

(Pintura de Rafael Perez)
No começo você foi mais quente.
Entrava batendo a porta
correndo - me entregava as flores
murchas que o trem secou.
Rondava o prato de leite,
bichano, terno, barbudo,
olhava o mundo por mim.
No começo você foi mais gente.
Andava a rua comigo,
o braço apoiado - e eu
podia ainda beijar
teu rosto e saber por que.
No começo você foi eterno.
Parecia feito em sal.
Eu levava os lábios sôfregos
e ungia o teu corpo todo.
Você não se desprendia,
vibrava em mim,
vivia em mim
trepava.
No começo foi somente amor.
(Paulo Augusto- extraído de POESIA TEMÁTICA GLS)

(Pintura de Philip Osborne)
(Composição simples de pernas e braços
Seu rosto pálido em minha janela )
É em sua fragilidade que avanço minhas vontades
E tenho-o como presa
Encarcerado animal – em extinção –
Sua voz rouca brinca em remoinhos
Entre eu e você – aproxima-se o desejo –
Nossos lábios em sons selados
Cola almas perdidas em devaneios
Não há mistério entre uma mão e todos os dedos
Seu olhar, ainda furtivo,
Brinca em sua face de homem-menino
Cubro-o como se cobre a noite em delicado nevoeiro
Protejo-o dos fantasmas de seus pesadelos
Entrego meus gritos ao eco e rastejo
Minha carne assim, abençoada…
(Sérgio Godoy- extraído de POESIA TEMÁTICA GLS)

(Desenho de Roland)
Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo.
(Safo- extraído de POESIA ERÓTICA)
Escreves para esquecer os sorrisos que não te pertencem.
E eu, teclado invertido que só escreve de si, não sei escrever-te como tu também não o consegues.
Ilusões…sempre as busquei, como saber-se olhar no espelho e reinventar.
Morte sim. Porque não a escrita manchada? Careço de ar, do ritmo caloroso que acolhe o teu corpo, das asas que não receias partir.
Cada palavra, um vidro que se parte, um envelhecimento precoce e uma fuga à realidade.
Desculpa-me se não serei rosto escritor de jovem encantador. Há vidros espalhados pelo chão e nas minhas mãos, as ligas ensanguentadas que escondes e finges não ver. Enoja-te essa morbidez do anjo caído, o despertar de escuridão no dia de sol.
Persegues-me nessas ruas que não são minhas, nos traços de giz nas paredes e vês-me, o rosto mutilado que se ama no espelho.
Não se ama quem não gosta da mesma canção.
Se a canção é minha ou tua, não desejo saber. Quebras as águas geladas dos mares turvados em que me afogo. Na sordidez da alma, a inocência que não te pertence, o esquecimento difícil de esquecer, a adolescência novamente tua.
Não há como retornar nem como amar.
Tudo, espelhos partidos,
eu, eu, eu, eu.
……………………
As janelas estão fechadas. Prisão asfixiante da mente narcisista que se rasga pelas palavras injustamente escritas.
Sinto o mundo da maneira mais pesarosa de existir, um lago de corpos apodrecidos e esquecidos de nascer.
Ofereces-me um corpo que não é meu…todos pretendem a vida, a felicidade de aprender a amar e não sinto a mesma vida que passa por ti, os mesmos desejos de respirar, de abraçar o ser.
Não é nesse corpo de complacência e reconhecimento que viverei, não por o desejar, mas por o sentir. São meus olhos de vidente que desfilam pelos outros felizes, chorando por saber o que o cruel fado gritará.
No amor, pedra dura de lamentações, mágoas e mentiras repetidas, GRITADAS, constantemente ouvidas e violadas.
Não sou a vitima.
Sombra que me come e tu longe de a partilhar.
Alma que se persegue na escuridão, devorando-se no teclado de SOLIDÃO egoísta.
- Deixa-me odiar-me, assim, como me odeio!
Queria que fosses, levasses as promessas rivais da minha escrita e que partisses.
Tudo o que sinto, tudo o que vejo, na alma que se rói dentro da minha, é a opressão da vida, as sombras nefastas da morte, sempre acompanhando os pensamentos, a loucura das respostas.
Os segundos martirizam-me e acobardo-me a não terminar com o que nunca pôde existir.
Não entendes.
Eu não entendo.
É um vírus maléfico sem cura possível que se entranha na vida, à procura do sofrimento.
Por isso não me peças para sorrir, não digas a palavra amigo. Dói ouvir-te, sentir-te onde não poderias estar. Dói saber que o viajante de meus passos sem trilho é o corvo imortal, ânsia e espera pelo fim.
Apetece-me chorar.
Tantas vezes as que chorei, as que gritei ao desamor do corpo e, agora, antevejo a hora de silenciar, tão próxima de chegar…e ainda assim tão distante de alcançar.
Há coisas que não mudam e eu, por mais que me enleve nas maresias das utopias, não saberei sorrir, assim, como todos sorriem ao mundo.
Quanto mais escrevo,
mais a insanidade cresce em mim.

(Pintura de Chris Morgan)
- Senta-te, vou fazer chá para aquecer...- disse Beno, dirigindo-se para a cozinha.
- Beno!
- Sim.
- Vives aqui sozinho?
O rapaz sentara-se na cama e descalçara as botas.
- Porquê?- perguntou Beno, espreitando à porta do quarto.
- Agrada-me este quarto, fico aqui para viver contigo.
Beno voltara à cozinha, deitara água a ferver no bule e esperava que o chá abrisse. Quando regressou ao quarto, o rapaz estava nu, estendido sobre a cama. Pacientemente, atulhava com erva o pequeno cachimbo de barro.
Beberam o chá a escaldar e fumaram. O quarto balouçava como um navio, e Beno pôs-se a olhar com minúcia e desejo para o rapaz nu. A pele branca, o cabelo caído para os olhos, escondendo-lhe as pálpebras sonolentas, quase fechadas. Os lábios húmidos de saliva, entrabertos, num início de sorriso. O sexo em repouso, as mãos sobre o peito, as pernas. Outra vez o sexo, os pêlos, os braços e os ombros, a curva do pescoço, os cabelos, o rosto, os olhos fechados, a pele, a pele... Beno não se cansava de olhar. (...)
Beno estava sentado na cama. Por fim, o rapaz apoiou os joelhos nas suas costas e passou-lhe os braços à roda dos ombros. Sentiu todo o seu corpo encostado ao do rapaz, e a sua respiração, e um beijo, no pescoço.
Lentamente, Beno desprendeu-se e, dobrando-se para trás, deitou a cabeça no peito do rapaz. Ouvia-lhe o bater do coração, fechou os olhos e deixou-se ficar, sem se mexer, naquela posição, paralisado e vazio. E, durante um tempo que ele não soube, afastou de si o mundo e todo o pensamento.
A madrugada roçou a janela, clara e fria, misteriosamente branca. Continuava a nevar.
Beno despiu-se. O rapaz puxou-o para si. Beijaram-se e amaram-se sem descanço amanhã adiante.
A neve parara de cair, e tudo era silêncio e lassidão, quando desceram à íntima cumplicidade do sono.
(Al Berto- LUNÁRIO)

(Marguerite Duras)
Ela diz: ama-me? Não respondo. Não posso. Ela diz: se eu não fosse a Duras, nunca teria olhado para mim. Não respondo. Não posso. Ela diz: não é a mim que você ama, é a Duras, é aquilo que escrevo. Diz-me: você vai escrever eu não gosto da Marguerite. Dá-me uma caneta, uma folha de papel e diz: vá escreva, assim fica despachado. Não posso. Não escrevo o que ela me pede para escrever, o que ela não quer ler. Ela diz: Yann, se eu não tivesse escrito nenhum livro, será que gostaria de mim. Baixo os olhos. Não respondo. Não posso. Ela diz: mas quem é você, não o conheço, não sei quem é, o que faz aqui comigo. Talvez seja pelo dinheiro. Aviso-o, não terá nada, não tenho nada para dar-lhe. Conheço os escroques, sabe, a mim não me engana.
Silêncio.
Ela diz: claro que tinha que acontecer a mim, um tipo assim, calado, que não diz nada, um tipo que não sabe nada de nada, ignorante de tudo. Claro que tinha de me acontecer, não tenho sorte nenhuma, mas você não vai ficar aqui, vai voltar para de onde veio, estou farta, você não tem nada que estar aqui, não o conheço, não sei quem é.

(Marguerite Duras)
Esta cena repete-se várias vezes. Ela não me suporta. Não se suporta. Põe-me na rua. Ameaça-me, você não tem nada aqui, é tudo meu, tudo, está a ouvir, o dinheiro é meu e não lhe dou nada, nem um centavo, você é um zero à esquerda, um falhado de primeira. Ela não percebe por que insisto, por que permaneço, ali, com ela, sozinho com ela, e ela sozinha comigo. Por vezes é insuportável, ela quer partir tudo, destruir tudo, destruir-me a mim, bater-me, insultar-me, deixar-me morto, matar-me. (...)
Ela diz: é o próprio princípio da sua existência que eu não suporto. Você é intolerável.
(Yann Andréa- AQUELE AMOR)

(Anais Nin)
Encontro-me com Henry no escuro e cavernoso Viking. Não recebeu o meu bilhete. Trouxe-me outra carta de amor. Quase grita:
- Agora estás com um véu. Sê verdadeira! As tuas palavras, os teus textos, o outro dia. Foste verdadeira.
Eu nego-o. Então ele diz humildemente:
- Ah, já sabia, já sabia que eu era demasiado presumido para aspirar ter-te. Sou um camponês, Anais. Só as prostitutas podem apreciar-me.
Isto provoca as palavras que ele quer ouvir. Febrilmente, discutimos. Recordamos o começo: começámos com o espírito.
- Começámos? Mas começámos mesmo?- diz Henry, a tremer. E de repente inclina-se e engole-me num beijo interminável. Não quero que o beijo termine. Ele diz:
- Vem ao meu quarto.
Como é sufocante o véu que me rodeia, que Henry se debate para rasgar, o meu medo da realidade. Caminhamos para o seu quarto, e eu não sinto o chão, mas sinto o seu corpo contra o meu. Ele diz:
- Olha para a carpete das escadas, está gasta.- E eu não vejo, apenas sinto a ascensão. O meu bilhete está nas suas mãos.
- Lê-o- digo eu ao fundo das escadas-. e deixar-te-ei.
Mas eu sigo-o. O seu quarto, não vejo. Quando me toma nos seus braços, o meu corpo derrete-se. A ternura das suas mãos, a inesperada penetração, até ao âmago do meu ser, mas sem violência. Que estranha e suave força.

(Henry Miller)
Ele, também, grita:
- É tão irreal, tão rápido.
E vejo outro Henry, ou talvez o mesmo Henry que caminhou naquele dia para dentro da minha casa. Conversamos como eu desejava que conversássemos, tão facilmente, tão sinceramente. Deito-me na sua cama tapada com o seu casaco. Ele observa-me.
- Esperavas... mais brutalidade?
As suas montanhas de palavras, de anotações, de citações estão divididas. Estou surpreendida. Não conhecia este homem. Não estávamos apaixonados pela escrita um do outro. Mas por que é que estamos apaixonados agora? Não consigo suportar o retrato do rosto de June sobre a lareira. Mesmo na fotografia, é fantástico, ela possui-nos aos dois.
(Anais Nin- HENRY & JUNE)

Estou triste
Sinto que não há esperança no futuro e que as coisas
não podem melhorar
Estou farta e insatisfeita com tudo
Sou um fracasso completo como pessoa
Sou culpada, estou a ser castigada
Gostava de me matar
Sabia chorar mas agora estou para além das lágrimas
Perdi o interesse nas outras pessoas
Não consigo tomar decisões
Não consigo comer
Não consigo dormir
Não consigo pensar
Não consigo ultrapassar a minha solidão, o meu medo,
o meu desgosto
Sou gorda
Não consigo escrever
Não consigo amar
O meu irmão a morrer, o meu amante a morrer, estou/a matá-los aos dois
Invisto na direcção da minha morte
Estou aterrorizada com a medicação
Não consigo fazer amor
Não consigo foder
Não consigo estar sozinha
Não consigo estar com os outros
As minhas ancas são grandes demais
Não gosto dos meus órgãos genitais
Às 4:48
quando o desespero me visitar
enforco-me
ao som da respiração do meu amante
Não quero morrer
Fiquei tão deprimida com a consciência da minha
mortalidade que decidi suicidar-me
Não quero viver
Tenho ciúmes do meu amante adormecido e cobiço a/sua inconsciência induzida
Quando acordar vai invejar a minha noite acordada de/pensamentos e discursos fluentes pela medicação
Resignei-me a morrer este ano
Alguns vão chamar a isto auto-compaixão
(terão a sorte de não saber a verdade)
Alguns vão conhecer a verdade simples da dor
Isto está a tornar-se a minha normalidade.
(Sarah Kane- 4:48 PSICOSE)

Que homens virão falar-me ao ouvido,
agora,
que nesta gruta do outro lado dos
montes,
ninguém me vê,
ninguém me ouve,
quando nos braços embalo as crianças sonâmbulas do mundo e as
ervas malignas se enredam no muro e nos
meus cabelos,
que homens virão com a espada e a cruz,
com a palavra do Senhor,
para assassinar a melancolia dos filhos,
que poema silencioso e profundo escreverei
nas águas do lago,
que neve descerá das montanhas do medo
para o interminável dia dos solitários?
(José Agostinho Baptista- ANJOS CAÍDOS)

no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo
Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu
soluçando
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)

A nuvem anuncia a secura das casas.
Um homem desloca-se devagar,
atravessa uma plantação de café em
silêncio, como as aves da noite. A sua fome
é igual à dos pássaros que reflectem no espelho
uma máscara de dor. Quando o homem desperta
dessa travessia apenas encontra um rolo de tabaco
velho e um machado quebrado em cima de uma mesa. E não volta nunca mais a esse lugar.
Quando a chuva chega, o sol adormece
como se fosse uma tesoura fechada
dentro de uma gaveta. Mas todos os
animais que habitam os rios saltam
por cima das grades marcadas pelos
riscos do céu. A água cai de rompante
e foge pelos intervalos do lodo, cortada
pela terra, pelos caminhos brancos.
E das mãos do homem nascem lâminas
que rasgam o espelho para não ver.
É nesse silêncio das máscaras que
a cidade se levanta e o homem devora
as construções. Está cego porque quer, e mudo.
Dentro dele as sombras fabricam um veneno
de cobra. O pássaro está ferido. Ao atravessar
o túnel levanta uma zona de bolor e é como
se adormecesse dentro de um vaso.
Então, nesse corpo de mármore,
nesse corpo silencioso, a chuva cai
e estilhaça as mãos que escondem o vidro.
O pássaro e o homem encontram-se na noite
no mesmo caminho de cabras e ambos se
dirigem a uma forca. Sempre que um fala
o outro canta, mas os sons desfazem-se numa
cratera e ninguém sabe qual deles é humano.
A cidade morreu. Atravessou um túnel e morreu.
Apenas ficou a memória das ruas colada nesse
espelho que habita no interior da sombra, com
pinças e desenhos dourados. Os barcos atravessam
glaciares, os aviões afundam-se na terra. Tudo se
passa num segundo dentro de relógios magnéticos,
numa terceira morte. O pássaro cai, o homem
levanta-se, mas é o espelho que anda como uma
larva, alimentando-se do sangue dos quartos.
As árvores secaram. Um uivo colorido
atravessa uma alameda. É o rasto de uma águia
que destrói os carros e cospe para as pedras.
Alguém corre debaixo de arcadas de madeira mas
os seus pés tornam-se pesados quando tocam no
cimento. A águia volta depois com um manto
vermelho sobre as asas e engole os restos de carne.
(Jaime Rocha- DO EXTERMÍNIO)

Hoje,
...é um bom dia
para morrer...!
Desejo silêncio,
escuridão,
preciso ouvir-me,
sentir-me longe deste mundo
fervilhante e gélido,
ansiedade,
intolerância,
a paciência falta
a angústia cala,
a revolta
que tenho para dizer...
Sonho o túmulo,
o cheiro da terra molhada
pl'a chuva,
no meu corpo exausto,
saturado da luta
...pelo nada,
onde me revejo
e não suporto
o vazio,
que tudo me deixa,
na mente torturada
pela impotência,
que sinto na obrigação
de viver!
"Roxy"
22.01.01
[Obrigada pela tua colaboração já habitual, Roxy.]

A noite afasta-se lá fora e no entanto ainda aqui me tem acordado. Sozinho, deitado, penso em ti. Sonho ainda, acordado.
O mundo desperta lá fora e a luz aos poucos invade-me o quarto. Penso em ti que não sabes que és amado. Penso em mim que aqui me tenho acordado, cansado. Cansado de mim. O que quero eu de ti? Quero sentir-te, poder tocar-te. Ser dono de um corpo que não é meu. Eis o que eu quero. Aqui está, posto em palavras. Queria tocar-te. Tocar-te para além dos limites do mundo e saber-te. Saber-te todo.
O que me impede? Impede-me tudo. Palavras, pessoas. Os putos que havia no liceu, estúpidos. Pais amorfos. Os teus ouvidos surdos...
E este meu querer. Este meu desejo de saber, de devorar o mundo. Este meu querer que vai para além de tudo.
Porque eu poderia tocar-te, mas ainda assim não seria na consciência. E nem talvez sabendo quem és saberia eu quem sou nem onde, como e de que vivem todas as pessoas.
Que sei eu do mundo para além de mim?
Quando desvias o olhar, não sei para onde olhas, tal como quem me vê não me vê a mim.
Onde estás quando não estás aqui e onde estou eu quando não estou em mim?
(Daniel J. Skramesto- OLHOS DE CÃO)

Um homem e uma mulher, em silêncio, até que...
Stu- Pronto.
Pausa.
Queres que seja eu a fazer a pergunta óbvia?
Pausa.
Abby- A decisão não é só minha
Ele olha para ela, desconfiado.
Stu- Não, tu é que dizes sempre que é.
Abby- Que a decisão é minha?
Stu- Que a decisão é da mulher. E é: é o teu corpo e é a tua decisão e se tu dizes que não, então é não, e assim sabemos que isso não está em jogo.
Ela irrita-se com a formalidade do termo.
Eu sei que dito assim parece frio mas estou a tentar ser lógico.
Pausa.
Abby- É isso que tu queres?
Stu- Não, eu só -
Abby- Então está posto de parte.
Pausa.
Stu- Pronto.
Pausa.
Não é uma coisa que consideres.
Abby- É isso que tu queres?
Stu- Isto não é acerca do que eu quero- é acerca do que tu queres.
Abby- O que eu quero depende do que tu queres.
Stu- Eu não sei o que é que quero.
Em resposta à expressão dela:
O que é que foi?
Abby- Então isso já é uma resposta, não é?
Stu- Como é que pode ser uma resposta?
Tu sabes o que é que queres? Porque se sabes o que é que queres então diz-me e começamos a partir daí.
Pausa.
Sabes o que é que queres?
Pausa.
Abby- Não.
Stu- Estás a ver! Então nenhum de nós sabe o que é que quer. Portanto se conseguimos perceber o que é que nós não queremos- então o resto será...
Abby- O que nós queremos.
Stu- (acena com a cabeça) O que nós queremos.
Pausa.
Abby- Então o que é que nós não queremos?
Pausa.
O que é que tu não queres?
Stu- Isto não é acerca do que eu não quero, isto é acerca do que tu não queres.
Abby- O que eu não quero depende do que tu não queres.
Stu- Eu não sei o que é que eu não quero.
A estupidez disto não lhes passa ao lado.
Muito bem, olha- há uma coisa que eu tenho de te perguntar. Eu não quero fazer esta pergunta mas- tenho de a fazer, está bem?
Pausa.
Está bem?
Pausa. Um pequeno aceno com a cabeça.
Tens a certeza que é meu?

Abby- Vai-te mas é foder.
Ela sai do quarto.
Ela enterra a cara nas mãos.
Pausa.
Ela volta a entrar.
Abby- De quem é que ele pode ser se não for teu?!
Por que raio de merda é que eu havia de estar a falar contigo sobre ele se ele não fosse teu?!
Stu- Não é uma pergunta despropositada...
Abby- Vai-te foder!
Eu não fui a única a ter feito merda - !
Stu- Não estou a dizer que foste-
Abby- Andaste por aí a foder tanto como eu - !
Stu- Eu sei! Não é essa/a questão - !
Abby- Mas sou eu quem tem que se sentir como uma merda - !
Stu- Eu não estou a tentar fazer-te sentir como uma merda -
Abby- Então porque é que me perguntas uma coisa dessas, se não é para me fazeres sentir como uma merda?
Stu- Mas não estou-
Abby- Porque é assim que isso me faz sentir! Como uma merda!
Stu- Ouve- eu não estou a dizer que não o tenha feito - fiz-
Abby- Então porque é que me perguntas uma coisa dessas?
Stu- Porque tu estás grávida.
Abby- Ah bom, peço desculpa por ter um útero.
Eu também não estou propriamente apaixonada por ele, mas tenho de viver com ele, foda-se!
Stu- Isto é de doidos. Um de nós está completamente doido.
Abby- Tu!
Stu- Sim. Talvez. Já não sei. A sério que não sei.
Pausa.

(Anthony Neilson- CICATRIZES)

Sons de vida envolvente.
Fogos de ritmos, êxtases de sentimentos que fogem pelo nosso corpo à procura de sentido.
Lágrimas e sorrisos que não podemos controlar, estados de alma que brotam e vomitam, dançando pela música.
Palavras proibidas quando a sonância exorciza o corpo e electrocuta os medos. Quando podemos voar sem temer cair,
nas asas da força,
quimeras que choram possíveis.
Corpos que ganham alma no teatro escravizado.
Queiram ouvir e escutarão o sentido ou a dor da existência

O Carlos conhecio-o no Frágil em 92. Amigo de um amigo de um amigo. Já nem me lembro quem é que nos apresentou um ao outro. Só sei que às tantas estávamos a falar do Pasolini, do Morte em Veneza, do Visconti...
Tinha lido Thomas Mann, veja lá! E Proust. E Wilde... Gide, também, e Genet.
Viemos aqui para casa. Pusemos Mahler e depois adormecemos abraçados, sem sequer um beijo, veja lá, aqui mesmo, neste sofa.
Quando acordámos de manhã estava esquisito. Não quis tomar o pequeno-almoço. Não falava.
Perguntei-lhe se me deixava o telefone. Respondeu que não, que era melhor não, que era casado. E saiu daqui de casa sem dizer adeus.
Voltei ao Frágil na semana a seguir. Não estava propriamente à procura dele mas dei por mim a procurá-lo na pista e no bar. Apareceu. A primeira coisa que me disse foi, ainda bem que vieste, queria pedir-te desculpa.
Quis ir para a minha casa para conversar. Eu disse que não. Então ao menos saímos daqui, está bem?
Acabámos no Miradouro de São Pedro, a olhar para o castelo. Descemos ao jardim lá em baixo que estava deserto. Encostou-me ao muro, a hera a espetar-se-me nas costas e beijou-me quase com desespero.
E a tua mulher?- perguntei.
Eu não a amo.
E a mim?
Esteve calado muito tempo, olhou para o castelo e depois para mim.
A ti talvez consiga.
(Daniel J. Skramesto- OLHOS DE CÃO)

Onde estamos agora que não nos vemos,
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?
Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor como uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na tua breve eternidade?
Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?
(Manuel António Pina- OS LIVROS)

Vida traiçoeira de palavras. O vicio sádico da morte, a liberdade do insano.
Já nada importa.
Os fios condenadores que se apegam às trevas de teu coração, roubam-te o sangue conspurcado.
- Quem usurpou a tua inocência?
- Quem ousou acorrentar-te à morte?
Teus olhos recordam-me as marés ensanguentadas dos corpos fúnebres que seguem para o fim.
Nas tuas asas, as esperanças quebradas de sonhos madrugadores.
Não creio conseguir ver-te alguma vez sorrir.
Abandonar-te-ei ao silêncio.
O silêncio apaziguador de em mais nada pensar.

(Milan Kundera)
Os homens que têm a mania das mulheres dividem-se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que eles próprios têm da mulher como ela lhes aparece em sonhos o que é algo de subjectivo e sempre igual. Aos outros, move-os os desejo de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objectivo.
A obsessão dos primeiros é uma obsessão lírica; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque, como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra. Como a desilusão que os faz andar de mulher em mulher dá, ao mesmo tempo, uma espécie de desculpa melodramática à sua inconstância, não poucos corações sensíveis acham comovente a sua perseverante poligamia.
A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projecta nas mulheres um ideal subjectivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo. E esta impossibilidade de desilusão encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do femeeiro épico não tem remissão (porque não é resgatada pela desilusão). (...) Na sua caça ao conhecimento, os femeeiros épicos (...) afastam-se cada vez mais da beleza feminina convencional (de que depressa se cansam) e acabam infalivelmente como coleccionadores de curiosidades.
(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)

[A perversão da ideia/imagem/foto de Dominique Lefort. O outro lado do "Espelhar" (post de 01/02)]

Fiz uma canção para dar-te;
porém tu já estavas morrendo.
A Morte é um poderoso vento.
E é um suspiro tão tímido a Arte...
É um suspiro tímido e breve
como o da respiração diária.
Choro da pomba. E a Morte é uma águia
cujo grito ninguém descreve.
Vim cantar-te a canção do mundo,
mas estás de ouvidos fechados
para os meus lábios inexatos
- atento a um canto mais profundo.
E estou como alguém que chegasse
ao centro do mar, comparando
aquele universo de pranto
com a lágrima da sua face.
E agora fecho grandes portas
sobre a canção que chegou tarde.
E sofro sem saber de que arte
se ocupam as pessoas mortas.
Por isso é tão desesperada
a pequena, humana cantiga.
Talvez dure mais que a vida.
Mas à Morte não diz mais nada.
(Cecília Meireles- extraído de CARUS ARA)

(Fotografia de Dominique Lefort)
Membro a pino
é sol aquecedor.
Teu corpo de vale húmido
entre montes de Vénus
Criador.
Calor e cio
despertam nossos corpos.
A boca é polvo que suga
lenta, de cada poro sedenta,
cada membro, cada fenda
a nossa língua lenta
e vagorosa,
percorre o corpo saborosa
num despertar carnívoro de sensações.
Abro as tuas coxas lisas e sedosas,
nas entranhas viciosas
penetro,
despertando em nós duplas explosões,
deixo dentro de ti
o meu próprio arquétipo.
(João Norte- Inédito)
[Poema enviado pelo autor, em resposta ao desafio lançado para apresentar a versão masculina de "Cosmocópula", de Natália Correia (poema editado a 29/01). Ao João Norte, o nosso agradecimento.]
Sempre vivi em teoria, assustada com os buracos negros entre fulgurações- muito mais do que tu. Assim nos encontramos agora- eu, filha de um Deus desleixado, tu, fervoroso praticante das distâncias impensáveis. Não sei pensar sem ti. Deslizo pelas esponjas paredes da morte e capto a revelação da tua orfandade- não sabes amar sem mim.
Nós éramos um do outro. Coincidimos e rejeitámos a coincidência, com a petulância típica dos pobres, confinados à prisão do seu sofrimento. Nós éramos um do outro e não o descobrimos, preferimos respeitar os protocolos da nossa era, dar prioridade à voz obrigatória do corpo. Nós éramos um do outro de outra maneira- de uma maneira escura, espessa, transcendente. O que podíamos nós, escravos da Inteligência Suprema, escutar de transcendente? Como podíamos nós, ilustres servos da História, alcançar a luz trémula do pequeno milagre que nos era dado?
(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA)
Sem nenhuma revolta
contra a vida
espero que ela se vá embora
e me deixe em paz,
mais gosto eu da morte
e da maneira como ela me entende
e alimenta as minhas mimalhices
de como reaviva em cada sepultura
a doçura das minhas traquinices.
A morte afeiçoa-nos a tudo, até à vida!
À mocidade perdida,
a uma paixão esquecida,
a todas as coisas que se perdem,
sem querer,
e de que a gente se lembra
nas vésperas de morrer!
(Roxy)
[Mais uma vez, os nossos agradecimentos à autora.]

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem Vambora
Que o que você demora
É o tempo que leva
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque o meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite Veloz
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas.
(Adriana Calcanhoto- PERFIL)

(Imagem de Frédérc Karikese)
Estou agora entre o perfil da vertigem e o tumultuoso
sonho que abre o caminho, num amplo cristal de artérias
circulares, onde breve é a revelação de uma luz peninsular
e subtil o nascimento de algumas palavras.
(Bela Mandil- NA ESCRITA E NO ROSTO)

1
Deixo a cabeça poisar
Sobre o ombro da água.
Estou perto do fim
E não vejo a morte.
2
Caio sobre os teus passos
E a sede na voz já não me espanta
Já não me fere um pulso de revolta.
3
Cumpro a vocação de não poder.
(Daniel Faria- POESIA)

Altura de seguir caminho pelas maravilhas concedidas.
Os céus enlevam-se nos rastos de limpidez, puridade.
Descanso a vista cansada e adormeço.

(Imagem de chad michael ward)
Viva'lma pergaminho é roída
pelos gritos do vazio dolente
enquanto dá o corpo ao carente
vício da escrita enlouquecida
Rosa menina desistiu da vida
violando os amores da mente
esquecendo a lembrança presente
do Nilo, sua face renascida
Busca-me, ó caminhante perdido,
no trilho, o sangue da solidão
quisera eu que não tivesses lido.
Vem e entregar-te-ei a visão
de meu abismo entenebrecido,
triste impressão de devastação...

(Ferreira Gullar)
Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas
quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?
(Ferreira Gullar- extraído de POESIA ERÓTICA)