É tão bom sentir o que sinto. Que alguém, e és tu, me quer com o maior cuidado para não se enganar, iludir, mentir a si próprio que não me está a confundir, sem querer, com o que desejava ver, sempre esperou alcançar, sonhou quando era criança num sonho que ficou, quer mostrar aos outros, ao pai em especial, a quem quer que seja, pouco importa. Não, do que tu gostas mais em mim é dos meus pecados, dos meus defeitos físicos, de tudo o que não consigo ser, onde falhei, onde não pára nunca de doer, é isso o que tu queres ver, o que queres ter perto de ti, queres aceitar e cuidar, só isso, e o resto, só se vier com isso, porque é assim que tu amas em mim. Será isso? Será assim? Será possível pela primeira vez? Pode ser, talvez seja disso feito o nosso amor. Pelo menos grande parte, meu querido.
(Pedro Paixão- MUITO, MEU AMOR)
7 da manhã,
o despertador toca freneticamente,
gesticula movimentos,
irrita-me,
acorda-me...
levanto-me penosamente,
como um morto da cova,
num acto mecânico,
automático,
sem vida.
Fico paralisado perante a o reorganizar dormente da consciência....
Tenho que me vestir,
sair,
retornar à chamada realidade,
à brutal repetição do quotidiano,
à vida.
Esfrego a cara,
esbofeteio-me,
meto-me no chuveiro para acordar,
para recuperar um pouco de sanidade.
Saio de casa a correr,
chove.
É um dia igual a tantos dias.
É igual ao de ontem,
igual ao de amanha,
igual ao de sempre...
A caminho do emprego deparo-me com o primeiro vislumbrar da realidade,
filas intermináveis de carros iguais,
com caras iguais,
...olhares vagos
em transe,
alienados de tudo,
perdidos algures entre o sono e o sentido de responsabilidade...
... cegos,
como insectos rastejantes,
formigas...
obrando por um objectivo comum e abstracto
que realmente muitos poucos conhecem,
arrastando-se mecanicamente,
seguindo um trilho químico,
um padrão pré determinado,
um destino,
uma farsa.
Uma grande, gigantesca colmeia,
onde cada qual tem a sua função definida,
pré estabelecida...
e como insectos,
a massa humana deslocava-se,
acéfala,
mentecapta,
totalmente desprovida de vontade,
de pensamento.
Como bonecos de madeira,
fantoches
manobrados por milhões de fios invisíveis,
um fio para cada gesto:
um sorriso,
um aceno,
um simples pestanejar...
...controlado por alguém
por algo...
neste grande pequeno palco
sem plateia...
[Excerto do 2º capítulo de PACTO, livro de poesia fantástica, que se encontra a ser escrito por Nuno Branco. Mais uma vez o nosso agradecimento pela disponibilização deste trabalho.]

And the Earth spins round
While the people fall down
And the world stands still
Not a sound, not a sound
There is love, there is love
To be found
In the worst way, in the worst way
In the worst way
It’s the buzz, it’s the buzz
I wish I was
It’s the buzz, it’s the buzz
It’s the most fuzz
From a little shell
At the bottom of the sea
Was the Earth and the Moon
And the Sun above me
But the world fell down
With some people still around
There is love, there is love
To be found
With the Gods all gone
And the souls making sounds
In the worst way, in the worst way
In the worst way
It’s the buzz, it’s the buzz
I wish I was
It’s the buzz, it’s the buzz
It’s the most fuzz
From a little shell
At the bottom of the sea
Was the Earth and the Moon
And the Sun around me
There is love, there is love
There is love
It’s a buzz, it’s a buzz
I wish I was
It’s a buzz...
Artist: Lisa Germano

Magoas o anjo alado e cristalino com tuas mãos torpes e rijas.
Nada diz.
Nada dizes.
É o silêncio de quem escreve no corpo, as palavras gravadas a sangue.
Aborto que nasce de ódio.
Saberás parar?
Paraste.
A lágrima presa que é de seguida atormentada.
No seu corpo, os sulcos de umas mãos que procuraram satisfação.
Pele ingénua para sempre violada.
Quiseste engolir o mundo, a dor…
vê o que restou.

gritem-me os caminhos, montanha isolada de risos.
corpos.
braços soltos e dolentes que espetam morte nos rostos de gentalha.
a solidão que se perde ao entardecer, ao escurecer das esperanças.
deixaram-me à porta do começo do fim.

Pássaro que se perdeu do ninho.
asa de liberdade partida,
distante.
lágrima de pena caída.

(Desenho de Lumbricus terrestris)
a podridão que segue pelos trapos de vida,
o meu corpo corroído
leva os sonhos consigo,
deixando-me vazia
que casinha é esta inabitável que guarda as lembranças do abandono?
Vem até mim, veneno de melancolia,
e deixa-me amar-te até à morte.
torna-me tua vida sem destino e agarra-me nas palavras
aquelas que não escreverei mais.
E nas suas presas, é vampiro sedento que renasce das cinzas do passado para o lado obscuro da loucura.

(Pintura de Robin Tichane)
Escrevo apenas e absolutamente
por minha própria causa,
a minha própria causa.
Se quero que me leias?
Sim, quero que leias
nas palavras que escrevo
o sentido oculto
ou explícito
que dás a elas.
Não pretendo escrever poemas.
Desejo que as asas das palavras
toquem o corpo de ideias
que trazes em ti.
Toquem algum lugar
que desconheças ainda.
E mergulhados os olhos
no verso,
sonhes, dances, ames.
Ou mesmo te rebeles,
a revolução civil
da tua intimidade.
E faças do texto ato desobediente,
incivil por sua própria natureza.
Ou obediente apenas o teu desejo.
(Sílvia Chueire- Inédito)
[Um especial agradecimento à autora pela cedência dos "direitos de edição". Para leitura de mais poemas de Sílvia Chueire ver este blog.]

(Pintura de Rafael Perez)
Um suspiro teu
sereia-me fundo
uma revulsão que se ergue com o despertar do instinto
Já não sinto
A linha das tuas costas coleia
num requebro de cio
um fulgor de cobre
o chamamento dos teus cabelos que se estendem ao meu peito
o clangor de uma batalha antiga
funde-se com a ânsia da língua
sulcando cicatrizes húmidas no teu colo
Cravas crecentes de sangue nos meus ombros
o embalo rítmico das tuas ancas
a urgência adâmica de te responder
uma crispação de lábios
vences-me quando te respondo
fui eu quem abriu as tuas coxas?
fui eu, fui eu, fui eu, fui eu
Já não sinto
fujo por elas
fujo
que precipício
dor
ou a que cume ascendo
e me escondi
(André Conde Morais- Inédito)
[Poema enviado pelo autor, dando sequência a "Cosmocópula", de Natália Correia. Versão masculina. O nosso agradecimento pela resposta ao desafio lançado.]

(Natália Correia)
I
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras
II
O corpo é praia e boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
(Natália Correia- extraído de POESIA ERÓTICA)

(Jacinto Lucas Pires)
O nosso primeiro beijo foi na estação, num dia de Inverno, era como se estivéssemos dentro de um filme antigo. Nesse mesmo dia arranjaste um quarto perto dali, um daqueles quartos sinistros para onde os homens levam as prostitutas, e eu repetia para dentro que não estava a fazer nada de mal, nada de mal, não recebia dinheiro como as outras, nada de mal. Então a tua carne entrou na minha carne. E foi tudo sem palavras, sem promessas, tudo feito apenas de silêncios, beijos mínimos, o coração cego. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro. Atravessavas a minha noite de sombras fundas como se regressasses a casa, a paisagem vazia do meu desejo, o meu corpo de árvores de braços cortados. E, apesar das coisas serem assim, sem cores, muito de passagem, nunca tinha sido feliz daquela maneira. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro. Ao longo de um ano, ou quase, vivemos para aquele quarto, pelo menos eu, ou antes, vivemos aquele quarto, vivi aquele quarto, não sei se era amor aquilo, não sei se foi. Quando dava para inventar uma hora, subíamos a escada, fechávamos a porta, misturávamos os nossos cheiros, as nossas não-vozes, acontecíamos iguais a vultos num espelho, separávamo-nos, "até quando", tínhamos combinado nunca dizer até amanhã. Pois podia não haver amanhã. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro.
(Jacinto Lucas Pires- PARA AVERIGUAR DO SEU GRAU DE PUREZA)
não sei o que esperar
sou prostituta.
queria que fechassem os olhos
que passassem à frente
ignorassem o estúpido vicio da veia insalubre
e vomitassem
não desejo ser ouvido pelo pássaro saltitante.
ignorantes palavras de merda.
não preciso disto
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
Um dia disse:
Se amar é doação completa, então talvez não ame pois eu peço em troca...
Se amor é entrega, então eu não amo, pois me resguardo...
Se amar é apenas carne... Eu não, não amo
mesmo, pois sou "vegetariana"... e lá no fundo
dos meus sonho concebo o amor como algo
tão universal que me parece inatingível, e ao
mesmo tempo tão simples...
Não,
Não posso falar sobre amor porque, como qualquer ser humano, o amor universal, de completa doação, está além de todas as ideias.
Ah, o amor... Este que é pelo homem incompreendido, escondido, mal-falado, corroído e caluniado; Difamado, subtraído, maltratado e confundido; Vendido, alugado, mas que há muito não é amado...
E pergunto:
O que seria este amor se não tivesse sido já pelas mãos humanas um produto industrializado com etiquetas de marca, com um preço pré-definido e qualidade para exportação, mas não para ser usado?
Se o amor fosse achado nos corações e não nas novelas, teria ele de nos dizer frases de efeito ou outras até mais belas?
Teria de lê-las em reclamos luminosos de rua ou as saberia de cor?
A verdade é que o homem muito fala em ser amado e amar, as atitudes apagam o que se diz, e se alguém perguntar o que é, o homem dirá que ama, sem saber explicar o amor.
Mas eu não sei o que é o AMOR.
[Excerto de texto da autoria de Marta, blogger de MARTA-ATACA. A edição completa do mesmo encontra-se no post do dia 28 de Dezembro passado. À autora os nossos agradecimentos, pela autorização da apresentação.]

(Pintura de Marion Pinto)
- Tens coisas bonitas- disse ela quando estava sentada no sofá a enrolar um cigarro.
- Isso acontece à medida que vamos envelhecendo.
Mas ela não perguntou que idade é que eu tinha. Abri uma cerveja, enchi dois copos e fui-me sentar à frente dela.
- Também queres enrolar um?- perguntou ela, oferecendo-me o pacote de tabaco.
- Há muito tempo que não faço isso. - Tirei uma mortalha onde coloquei tabaco. As minhas mãos tremiam e ela apercebeu-se disso.
- É teu hábito engatar raparigas na rua?- perguntou ela.
- Podes não acreditar- retorqui sem levantar a cabeça,- mas és a primeira rapariga que alguma vez engatei.
- És casada ou coisa parecida?
Ela fingia mas não era o que sentia. Se aqui alguém estava a ser seduzido, então não era eu. Ainda para cúmulo o tabaco caiu da mortalha para o chão.
- Isso foi já há muito tempo- disse-lhe eu, ao mesmo tempo que apanhava o tabaco do chão. Não queria saber o que ela estava a pensar, ela tinha-me preso e eu não me importava minimamente.
- Nunca foste para a cama com uma rapariga?
- Nunca.
(...)- E tu?
- Claro que sim.
- E com um homem?
- Também.
Não te importa se é homem ou mulher?
- Desde que sejam simpáticos.
(...)
Despi-me no meio de uma grande confusão interior. Cheguei a pensar que faria nas calças com tanta excitação. Quando saí da casa de banho, ela estava ajoelhada em cima da minha cama, nua; na luz vermelha-escura que vinha atrás das cortinas, olhava para mim com o polegar na boca. (...)
Depois ainda ficámos deitadas durante um bocado. Ela era tão macia que eu não conseguia sentir onde é que ela começava. Ela estava deitada de lado e eu junto a ela, apoiando a minha cabeça na mão; com a ponta do dedo médio fui-me aproximando lentamente da carne das nádegas dela, que pareciam as de um rapaz, mas quando podia ver que já estava a premê-las não sentia nada. (...)
(Harry Mulisch- DUAS MULHERES)

A velocidade.
As cores. Todas.
Passam em frente aos meus olhos,
transformando-se numa enorme mancha
disforme e escura.
Corro,
Até à casa de banho.
Entro num daqueles cubículos
Apoio as mãos nas paredes.
Curvo-me.
Vomito,
Como se deitasse para fora as angústias da minha existência (?)
Se ao menos me chovesse
(por) dentro em seguida...
Uma água fria que me lavasse as entranhas.
Estranhas?
(Carlos Veríssimo- TRAJECTÓRIAS)
[Edição de poema autorizada pelo autor, após cedência da colectânea onde se insere: TRAJECTÓRIAS.]
Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem e a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.
(Vergílio Ferreira- PENSAR)

São 6:30.Despeço-me e parto.
Chove interminavelmente e sinto-me cansada. O guarda-chuva trava a chuvada de bater no rosto mas não é essa dor que temo. Afasto-me daqueles que seguem caminho para casa e envolvo-me nos meus atrapalhados pensamentos. Costumo aproveitar a minha pródiga solidão, o silêncio no retorno a casa, mas não desta vez.
Nem triste, nem eufórica.
Vazia.
Um sentimento de vazio apodera-se de meu corpo, da alma, perturbando o ambiente.
Quis ter alguém a meu lado. Alguém na partilha da luta contra a chuva, os rostos ocultos nas sombras, as vozes que retumbam no vazio.
Alguém que atenuasse o silêncio. O silêncio que os gritos de chuva cicatrizam em mim. Um ombro que elevasse na sua mão o guarda-chuva como sua espada, que rasgaria os céus da multidão, dos pesadelos horrendos que alimentam os cantos da cidade, e clamasse vitória. Que me desenraizasse do vazio, tal mão salvadora num abismo.
Alguém que fosse vulto. Que olhasse os gestos de ritmos pelos meus olhos e que ouvisse com os meus ouvidos o que ainda não aprendi a escutar. Alguém que se encontrasse nos meus passos, os passos incertos e vagos de menina perdida.
Alguém que escolhesse as palavras, que não as minhas, e que as falasse (que as gritasse!) ou as silenciasse no silêncio que é pintado pela compreensão e da ausência do real.
A chuva continua a morrer.
Pensei nesse anjo mundo mas não surdo que veria pelos meus olhos a luz que me foi oculta.
Um amigo aparece e acompanha-me a casa.
Não queria tais palavras em mim.
Descobri que caminho no meu trilho de meditações, no silêncio que não desejo ser roubado por ninguém.
O meu silêncio. O silêncio que observa, que esboça e que me ouve.

(Milan Kundera)
[Tomas] Lembrou-se do célebre mito do Banquete de Platão: dantes, em tempos muito recuados, os humanos eram hermafroditas e Deus separou-os em duas metades, que, desde então, erram pelo mundo à procura uma da outra. Amar é desejar essa metade perdida de nós próprios.
Admitamos que assim seja; que cada um de nós tenha algures no mundo um par com o qual constituía em tempos um único corpo.
(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)
tens uma ternura
incompatível
com a ira que aparentas
- feito armadura-
um mundo de maciez
na voz na intenção
a desabrochar
sem que o percebas
(Eugénia Fortes, 30/09/2003)
[Edição de poema efectuada com a autorização da autora, após convite para participar no "Void". A ela os nossos agradecimentos.]

(Pintura de Rosella Mocerino)
Eu tinha ido comprar pão. Era um sábado à tarde, o sol de Fevereiro brilhava palidamente sobre a cidade. Vi-a do outro lado da rua, ao pé da montra de uma joalharia. Fiquei parada. Olhei para as costas dela e para a nuca, e para as barrigas das pernas, metidas numas botas de um vermelho vivo, e ao mesmo tempo interrogava-me porque é que eu estava parada a olhar para ela. Era como se tudo na rua se tivesse deformado e desfocado, como uma determinada espécie de fotografias, enquanto apenas aquela rapariga tinha permanecido bem nítida, no meio da imagem. Não que a vista de trás fosse particularmente bonita: ficava-lhe muito bem o cabelo apanhado de forma solta, mas as costas dela eram um pouco compridas demais, as ancas demasiado estreitas e as pernas não eram tão direitas como geralmente dá gosto ver. Mas tudo se desviava do ideal num sentido de que uma maneira ou de outra se ajustava exactamente a mim. (...)
Atravessei a rua. De repente arfava um pouco. Nunca antes tinha sentido tão claramente a sensação, de um segundo para outro, de que estava a fazer algo que iria alterar a minha vida por completo. Nunca tinha tido nada com uma mulher e naquele momento mal me apercebi do que estava prestes a acontecer. (...)
Fazia frio. Caminhámos ao lado uma da outra através de ruas onde não tínhamos nada para fazer. (...)
Eu tinha estado casada durante sete anos e já há cinco anos que me tinha divorciado. Fazia o meu trabalho no museu e as visitas à minha mãe eram ao mesmo tempo as minhas férias. De vez em quando lá ia para a cama com um homem que tinha conhecido por aí. Na maioria das vezes isso passava-se em minha casa. Eu não tinha interesse nenhum em ter uma relação permanente (...)
- Vamos até minha casa beber qualquer coisa?- perguntei.
- Acho uma ideia óptima.
(Harry Mulisch- DUAS MULHERES)

Eu tinha vinte e poucos anos e, para mim, dizer que o amor se reduz a uma linguagem de pele e o sexo a uma simples terminologia era quase um sacrilégio. Tinha a idade em que o amor, seja lá isso o que vier a ser, é um valor supremo de um horizonte onde só se divisa a felicidade. Dizia a palavra, ou murmurava-a por dentro do coração e era como se tudo se iluminasse na aurora de um futuro inextinguível, de uma beatitude alcançável, ou, pelo menos, de um objectivo estimulante pelo qual valia a pena lutar, antes de tudo, apesar de tudo.
Com o tempo, descobri que esse horizonte, se existe, é eternamente móvel e que, além disso, quando a vista vai fraquejando, a sua perspectiva se torna cada vez mais remota. Mas, nessa altura, eu acreditava na pureza infinita do amor, na sua concreta substância...
(António Mega Ferreira- AMOR)
Intifada pedra sangue
de menino a lutar
Por Allah da liberdade
àguias mortas de pesar
De Ramallah e Jenin
chôro e pranto tão vermelho
sangue em rocha derramado
intifada feito fado
Ai Palestina, Phalestyn
Cola teu espelho quebrado
grita, grita mais além
Palestina, Phalestyn
Terra de Jerusalém
(Letra- Valéria Mendez; Música- Carlos Gonçalves)
[Esta letra de fado foi-nos gentilmente enviada pela fadista Valéria Mendez, a quem agradecemos muitíssimo esta sua colaboração.]

Toco nos teus lábios incandescentes desejando provar-te, carícia perene de te encontrar.
O teu rosto sobre o meu releva-me as quimeras do teu toque desejado.
Somos dois corpos que se encontram, duas almas que se tocam.
E olho-te dentro de mim no sôfrego instante de te agarrar, ter-te como minha.
Respiro esse ar contagiante de silêncio que aqueces nos teus lábios.
Tanto que me deixas…

Perscruta a escuridão das sete noites enquanto o seu manto desliza nas sombras noctívagas que permanecem ocultas. A lua cheia, a luz enigmática de sua deusa, descobre-se nas suas costas de cabedal. Os mortais deparam-se, tal ninhada sem mãe, diante de si. Sente o sangue quente que corre nas veias de um pulsar de vida.
Fecha os olhos e visualiza o mar tumultuoso de corpos insaciáveis. Nas essências nocturnas, o cheiro da eternidade, o apelo de sua alma imortal, a sua maldição.
Num rasgar de trevas, deixa-se cair.
Na sua capa negra, a solidão da imortalidade sorri.
É o desalento de quem caminhará só nas ruínas do mundo.
Empty vessel under the sun wipe the dust
from my face another morning black Sunday
coming down again.. coming down again
Empty vessel empty veins
empty bottle wish for rain that pain again
wash the blood off my face the pulse from my brain
And I feel that pain again
I'm looking over my shoulder cause millions
will whisper I'm killing myself again
Maybe I'm dying faster but nothing ever last I
remember a night from my past when I was
stabbed in the back and its all coming back
And I feel that pain again
I abhor you I condemn you cause this pain
will never end you got away without a
scratch and now you're walking on a lucky
path I have to laugh but you'd better watch
your back
there's pathetic opposition they're the
cause of my condition I'll be coming back
for them I've a solution for this sad
situation nothing left but to kill myself again
Because I'm so empty
(Empty - Anathema)
Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- POESIA)

Imagem de S.U.R.
Nos véus das cabalas, escrevo a noite das estrelas, a que albergo nos braços amplos dos pensamentos.
São cinzentos os sonhos que sonhei para mim.
Nos seus olhos, o guardião do inaudível, as fontes de eternidade, a grandeza do fadário que descobre nas suas velhas mãos, a vida do que está morto, o silêncio de quem grita.
Pequeno rato que encontra o mundo como a imensa solidão dos homens.

Já nada há neste mundo que me conforte,
já arranquei da vida todo o seu prazer,
nada tem para me dar, qu'eu possa querer,
a não ser o sabor da minha própria morte!
Que eu tanto desejo essa viagem,
ando louca de ansiedade à tua espera,
já és uma obcessão, és quimera,
sê deste meu deserto, uma miragem!
Vê bem,... já nada me prende aqui...
pois já há muito tempo que eu parti,
fugi com a minh'alma de mão dada!
Só cá deixei o meu corpo, a envelhecer,
porque insistes em deixá-lo padecer,
já só é carne que quer ser sepultada!
"Roxy"
93.03.25

Alquimias impossíveis de satisfazer percorrem as linhas do destino. Para quem mais, esta paisagem desértica? Sinto-me incapaz de continuar olhando na sede de beber as águas do Nilo.
E tudo se alicerça no que não disse e no que escrevi.
Sonhos batem à minha porta.
Nas águas gélidas do mar revoltoso, não há ilusões que se escrevam. Não há calor que me salve. Nas tuas mãos, sou bolso roto de vida.
Este lugar é como um sino:
ecoa na cruz de um altar quando a cabeça cede
ao instante das súplicas e do martírio.
Aqui me calo.
Contemplo:
no alvorecer do verbo residem as sementes e o lume.
É um intempestivo ofício este de apagar a sede,
a rima que se aparta-
se mutilarem a estrofe, a ascensão da ternura,
desertarei.
Serei quem ora na penumbra dos claustros.
Deslumbram-me os vitrais,
a amarga ciência dos construtores:
serão estas as suas dores,
a sua liturgia?
Como lírios dobram-se os ombros.
Oiço-os como a um rumor de cinzéis, esculpindo na treva,
liricamente.
Serão de lágrimas os frisos que decoram as naves?
Três vezes sobre a água escrevi os seus nomes.
Três vezes, na lentidão dos templos, os amei:
haverá um dia em que os dias não têm fim,
em que pelas frestas se expande qualquer luz?
Este lugar é o último-
como um sino que se fecha para sempre.
De bronze,
doutros metais,
ele percute descuidado e para dentro-
é à garganta profunda que assoma o delírio e o
lamento.
(José Agostinho Baptista- AUTO-RETRATO)

das palavras, esta saída para o vazio.
o pensamento segue a sua rotina até nada continuar mais.
elas esgotar-se-ão.
se o abismo for a morte, esquecidos serão os sonhos?
Mas, antes de mais, parece-me que tenho de olhar para mim frente a frente, como nunca fiz ainda até hoje, para averiguar se alguma coisa pode ainda interessar-me, por uma semana, por um dia, por uma hora. Sim, é curioso, tanto que tenho sofrido e, sempre dominada pelo sentimento, ou mesmo pela paixão, agitando-me, vibrando, nunca espreitei lucidamente para dentro de mim (haverá, aliás, muito quem o faça?). Conheço-me eu porventura bem, para lá do que os outros me julgam, desse meu retrato de catálogo e do que eu própria estabeleci há muito que sou? Mesmo, vendo bem, sempre me recusei, não sei se por pudor se por comodidade ou por preguiça, a mergulhar a lâmpada da consciência na escuridão desordenada dos meus instintos, nos meus raros momentos de delírio...
(Urbano Tavares Rodrigues- CONTOS DA SOLIDÃO)

As pedras. As Pedras são tão escuras quanto os meus pensamentos.
Queria eu que elas falassem.
…
Mas não falam.
E eu percorro estas ruas negras ouvindo-me apenas a mim.
[Pensamento enviado por Filipe Barrenho, responsável pelo blog IN ABSENTIA. A ele, o nosso agradecimento.]
Ontem à noite saí à rua,
vesti o meu manto negro de desespero
e calcei-me de nudez.
Voei sobre o chão molhado de lágrimas
que reflectia apenas a escuridão da minha alma,
pairando como um fantasma,
um espirito sem rumo...
O vento frio trespassava-me,
furava-me as vísceras,
gelava-me as lagrimas nos olhos,
deixando-me ainda mais vazio.
Olhei à volta...
O cheiro era fétido e nauseabundo.
por todo lado cadáveres cobriam o chão,
sangue escorria nos passeios,
levando pedaços de cabelo solto.
As ruas estavam pavimentadas de braços, dedos,
pernas, caras, múltiplas partes de corpos mutilados...
E eu voava sem nunca tocar no chão.
Mas tão perto!
Que ainda conseguia sentir o calor de alguns corpos
cujo sangue ainda fervilhava.
As cortinas das janelas
eram agora caras de agonia,
espreitando cá para fora,
escondidas das trevas da noite...
A lua ocultava-se por entre as nuvens de seda preta
e a luz das velas bailava macabra,
um lento tango...
...fatal, violento...
...tingido de sangue
Atrás de mim
nuvens de moscas cobriam tudo
e vermes faziam o chão cintilar
rastejando por entre a matéria orgânica decomposta.
Um relâmpago rasgou o céu em dois
e o trovão soou como o rufar de mil tambores
partindo para guerra.
Começou a chover...
...vidros!!!
Choviam vidros do céu!
Aos pedaços,
milhares de pequenos vidros,
caindo em estrondo!
Estilhaçando-se no chão em pedaços ainda mais pequenos.
O meu manto de trevas protegia-me,
cobria-me o rosto
escondido na sua sombra...
...e eu pairava sobre o chão.
Onde pessoas se contorciam
agonizando em dor,
à medida que os vidros caiam
e lhes cortavam a pele!
Rasgando, arranhando, furando...
Por todo lado o ruído é ensurdecedor...
Gritos, lamentos, choros, e o som de vidro a partir...
Uma sinfonia infernal,
num cenário Dantesco...
...e a musica desta loucura vai diminuindo
até só sobrar o absoluto silencio,
violado pelo som dos projecteis,
a assobiar freneticamente...
...rasgando o ar,
anunciando a sua queda,
como um agoiro de morte.
Já não ouço os gritos,
os choros
os lamentos...
só o vidro a cair...
A chuva pára...
...e o silencio fúnebre envolve-me na sua escuridão.
As trevas acolhem-me nos seus braços
como uma mãe a um filho...
Esta cidade está morta,
dorme na sua campa,
e é tudo minha culpa...
é tudo minha culpa...
minha...
[Excerto, simpaticamente cedido, do 1º capítulo de PACTO, livro de poesia fantástica que Nuno Branco se encontra a escrever. Para conhecimento de outros trabalhos do autor ver o seu blog POETRY CAFÉ, em particular, aqueles que se encontram com o pseudónimo "João Natal"]
O sofrimento pode ter sentido, transformar-nos por dentro. É preciso paciência. Porque o tempo parece nunca mais acabar e somos projectados para um ponto muito longe do convívio entre os humanos. Faz parte do sofrimento deturpar as coisas, vê-las através de lentes tão fortes que facilmente entontecemos, nos desequilibramos, caímos. Temos medo de tudo, de nós mesmos. A simples superficie das coisas nos agride. Somos assaltados por demónios que nos roem a alma. É um tormento em que nos atormentamos. É preciso ter paciência e o mais das vezes não a temos. A violência da vida bate-nos em cheio. Procuramos abrigos e todos cedem e nenhum é suficiente. Recordamos a paz que perdemos como o bem mais precioso, ignoramos o caminho que nos traga de volta a nós próprios. Falta-nos a coragem, mas para ela nem encontramos motivo. O mundo todo é um mal-entendido que aguardamos que se resolva ou estoire e enquanto nada acontece sofremos. Agarramo-nos a coisas que se nos escapam entre os dedos. Só a morte está por todo o lado desperta, cerca-nos, olha-nos com os olhos muito abertos, mete medo. Fechamos os olhos, mordemos os lábios, fugimos para debaixo da cama e não há maneira. O amor é uma coisa tão distante, tão impossível. Vivemos, momento a momento, uma solidão que nos aperta a garganta, faz de nós o que quer. Uma música, uma palavra, uma folha caída e é o suficiente para nos trazer uma irremediável precisão de chorar. E quando choramos não sabemos bem porque o fazemos, é só a tristeza a tomar conta de nós.
(Pedro Paixão- AMOR PORTÁTIL)

E é no sangue que te estendes no chão.
Corpo gélido e calado que se parte na nudez virgem do branco.
No meu olhar, o sangue.
as palavras que expiraram…
Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar-se memória poética e que regista aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua beleza própria. (...) O amor começa como uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com umas das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.
(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)
Momentos Surreais,
Embatem violentamente
no meu corpo distraido.
Tolhido p'la surpresa
não reajo.
Tento apenas manter-me
em equilíbrio
Sobre uma tábua
Que se torna cada vez
(cada vez) Mais estreita.
Será inevitável cair?
NÃO!!
Invisto contra
Algo que não vejo,
com toda a força.
Das dores do primeiro impacto
Ao cansaço do contra ataque.
É inevitável sucumbir
ao desgaste.
Volto a recuar.
Fecho os olhos
e PARO, com a respiração ofegante.
Inspiro fundo.
Avanço.
Passo então
(tranquilo)
pela transparência
do ser etéreo que me consumia.
(Carlos Moura Veríssimo- TRAJECTÓRIAS)
[Este poema faz parte da compilação "Trajectórias", simpaticamente cedida pelo autor. Para um conhecimento mais alargado da sua produção poética, ver o blog,
MO[VI]MENTOS]
De quem é esta morte encenada em caixão? De onde vem esta febre fria que me sela a boca? Luto para fugir desta caixa onde me expoem e me lamentam. Se ao menos soubessem rezar. Pai Nosso, eu não quero já o céu. Aos vivos, incomoda-os o cheiro dos mortos. Por isso o sufocam em flores, incenso, velas, tudo o que possa manter esse cheiro longe do corpo concreto, ainda carne, ainda quente. No lugar do morto, é o medo que enjoa e entontece. O medo que os vivos têm de mim, agora, do futuro que lhes anuncio, vestida para enterrar. Esse medo cria ondas de calor, ondas enevoadas, que a luz das velas, a baba dos sussuros amplia.
Meto-te medo, também a ti? Aqui imóvel, de olhos fechados, olhando-te ainda, para não me olhar a mim, para me afastar do cheiro a medo que é talvez o cheiro derradeiro. (...)
Não me deixes chegar ao céu, meu querido. Eu sempre tive tanto medo de que tu tivesses razão. E se o céu for o desencanto em que crês? E se a nossa amizade mal vivida não couber na perfeição do céu? Deixa-me ser apenas a beleza magoada da tua vida, enquanto a vida for tua.
(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA)
Deixá-los andar,
... deixá-los,
esgravatar no mundo,
... rastejar na vida,
lambendo as chamas do inferno,
e depois,
rezando ao "Céu"... eterno,
como se fossem donos da verdade!
Deixá-los julgar,
... impunemente,
qualquer ser que se atreva,
a ser diferente,
é tão fácil,
criticar o "louco",
enforcar o "demente"
como se fossem
"Deus Nosso Senhor!"
... Deixá-los... ser "gente"!
Deixá-los sonhar,
ó coitadinhos...
que o sonho, é a manta
dos mais pobrezinhos,
dos que andam nesta vida,
... a mendigar.
Roxy, 2000.02.07
[Poema cedido pela autora, a quem muito agradecemos.]

Escondidos de quem somos, na vergonha de ser quem somos, acabamos descomunalmente decompostos.
Tu és assim. Eu sou assim.
Somos todos assim e foi assim que o quisemos.
sufocas.
no teu corpo, o silêncio da vida. quero arrancar esse sofrimento.
Nunca senti a intensidade da solidão em nenhuma palavra. Nem o tempo da minha própria existência quando escrevo num abandono de ser a matéria luminosa no interior do meu pensamento.
[Texto da autoria de Fernando Esteves Pinto, enviado em contexto de troca de produções com uma das bloggers do Void. Texto correspondente no ESCRITA IBÉRICA- "Ilusões"]
QUANDO A MADRUGADA entrou eu estendi o meu peito nu sôbre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que fôste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente fôste a serenidade.
(Vinicius de Moraes- O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO E OUTROS POEMAS)
Será isto o desespero? Esta vontade de fugir de todos e chorar a sós, sem nada esperar já, nem esse vago consolo que as lágrimas trazem quando, para lá das lágrimas, a alma molhada tem um cheiro a renovo?...
Esta vontade permanente de adormecer, sem o conseguir? Este olhar fixo e triste que denuncia a minha desatenção ao que os outros dizem? A raiva que às vezes me domina, vontade de quebrar, destruir, desde o bocal irritante, mudo, deste telefone maldito, aos copos de vidro azul que vou levando aos lábios, sem beber, à pequena que se aproxima furtivamente, se me vê quase a arrancar os cabelos ou a rasgar a face com as unhas, diante do espelho, e que diz: "Quer alguma coisa, minha senhora?" E que parece implorar o favor de fazer por mim o que quer que seja que o meu capricho, ou a minha angústia, lhe dite?...
Sim, deve ser isto o desespero.
(Urbano Tavares Rodrigues- CONTOS DA SOLIDÃO)
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar
(Daniel Faria- POESIA)

I'm so tired of being here
Suppressed by all my childish fears
And if you have to leave
I wish that you would just leave
'Cause your presence still lingers here
And it won't leave me alone
These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase
When you cried I'd wipe away all of your tears
When you'd scream I'd fight away all of your fears
I held your hand through all of these years
But you still have
All of me
You used to captivate me
By your resonating light
Now I'm bound by the life you left behind
Your face it haunts
My once pleasant dreams
Your voice it chased away
All the sanity in me
These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase
When you cried I'd wipe away all of your tears
When you'd scream I'd fight away all of your fears
I held your hand through all of these years
But you still have
All of me
I've tried so hard to tell myself that you're gone
But though you're still with me
I've been alone all along
When you cried I'd wipe away all of your tears
When you'd scream I'd fight away all of your fears
I held your hand through all of these years
But you still have
All of me
My Immortal - Evanescence


Na loucura dos sãos, vasculho a sanidade dos mais fracos. São meus dedos, essas carnes mortas e vazias, que tocam no pergaminho da vida, mórbidos sonhos de desesperança.
Encontrei-me onde mais julguei morrer e ninguém soube aquecer, ninguém soube abraçar, a podridão desta alma jamais capaz de amar.
Olho-te, agora, das utopias dos loucos, quimeras evasivas, e reencontro o teu olhar.
Aprendi a amar a demência de não saber quem sou.
É natural que quem quer "elevar-se" sempre mais, um dia, acabe por ter vertigens. O que são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor. (...)
Poderia dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra.
(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)
É pena
que as lágrimas
se enxuguem
e a dor se desvaneça,
que a penumbra serena
da indiferença
apareça,
é pena
que toda a emoção
tempestuosa
vá deixando em nós
uma brandura,
é pena
que nos tornemos
receptivos
à frialdade
da própria sepultura,
é pena
que a loucura
arrefeça
e o amor se perca,
sem se ter,
é pena
aceitar de ombros caídos
aquilo,
que não devia acontecer!
(Autor não identificado)
(Poema enviado por Roxy. A ela o nosso obrigada.)

Foto de Lóránt Dementer
São gélidas as gotas de orvalho, a geada de costumes ausente de imperfeições.
No caminho, ela.
Espectadores circundantes afirmam poder ver um vulto, algo pálido e entenebrecido que julgam poder transparecer.
Aquando da realidade ninguém cede os sonhos ao descomunal sorriso que é laivo de dor. Troncos grossos e ameaçadores tocam de leve o rosto que foi de alguém.
Nada a parará. Ninguém na sua crosta uniforme de um glacial âmago a fará voltar atrás. Um perene Inverno espera por a agarrar.
No longo caminho ela e eu.

Roída. Roída pelas palavras, pela escrita de papel viciado.
Não quero voltar a ler nem a reclamar os desejos da vida.
Passam passos pelas minhas pegadas, pernas que acreditam poder partilhar.
E no silêncio da não resposta, grito.
Surdos são os que não vêem a opressão da alma, do invólucro intestinal da ânsia de algo que não o é.
No silêncio da incompreensão peco contra o amor platónico dos crentes. Na minha mão a faca. Nas sombras ocultas da luz, o silêncio.
Não sabem de nada.
- A minha disposição face ao mundo resulta de uma espécie de registo de onde parto endemicamente fragilizado. É como quando escrevo, escrevo sempre zangado com tudo e com todos, escrevo esmagado por tudo o que surge da minha compreensão, não consigo fugir do esmagamento que a escrita provoca na minha consciência, sinto-me na obrigação de procurar as minhas próprias pegadas e ajustar meticulosamente a forma dos meus passos sobre a vida.
(Fernando Esteves Pinto- CONVERSAS TERMINAIS)
[Um desafio para que se pronunciem todos aqueles que passam por este blog e que escrevem. Inclusive, obviamente, o próprio Fernando.]
Cada dia é mais evidente que partimos,
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudade nem terror que baste.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- CORAL)
Dei as palavras ao vento,
O vento virou furacão.
E trouxe-me a solidão,
Da minha falta de alento.
Vou pedir adiamento,
Duma rápida decisão,
Não é nesta ocasião,
Tempo de rebatimento.
Vou travar o sentimento,
Seja amor, seja paixão.
E calar o atendimento,
Deste louco coração.
(Poema enviado por João Norte. Ao autor, o nosso agradecimento.)
De repente a cama vazia. A sensação de não pertencer mais aqui. Os corpos habituam-se aos corpos. Quando se separam é sempre por um corte, um rasgão. Fica uma ferida. É preciso ter cuidado, prestar atenção. As mulheres são seres alados que voam para longe. Os graves homens não. De repente, à luz da noite, a cama é um deserto.
Chamemos as coisas pelos nomes. O amor que transportamos vai-se gastando por onde passamos. Não nasce do vento. O que levamos deste amor para aquele é muito pouco, não chega para nada. É preciso ter a vontade e a energia e a concentração para começar tudo outra vez. Não somos donos de nada. O que mais importa é o que só passa e nem se deixa tocar com os dedos. É preciso ter cuidado. De repente, à luz da noite, uma só aflição.
(Pedro Paixão- AMOR PORTÁTIL)
O horror da morte é pior que a própria morte, e por isso tantos combates, excedidos e alucinados, se precipitam para fora das trincheiras e abrigos e correm para as linhas inimigas, ao encontro dela.
Mas que sabemos nós, leigos ou peritos, de tudo isso? das mil tendências obscuras que em nós se enredam? Os pareceres das maiores autoridades estão divididos. Procurar responder a essas perguntas é o mesmo que tentar explicar o que é o sonho, e por que razões sonhamos; o que é a criação estética, e com que fim criamos; ou o que é o amor, e porque é que não nos limitamos a satisfazer os impulsos biológicos de conservação da espécie, e de há milénios nos lançarmos em tantos êxtases, delírios e tragédias de paixão. Quantas descobertas maravilhosas se têm realizado nestes domínios, sem que, no entanto, se tenha chegado a uma conclusão universalmente aceite, e, o que é mais, terapeuticamente sempre produtiva. Quanto ignoramos ainda de nós mesmos!
(José Rodrigues Miguéis- UM HOMEM SORRI À MORTE- COM MEIA CARA-)

é no silêncio que grito. grito mudo de vagabundo indiferente.
grito de alma incandescente.
quem assassinou as falas da vida?
cantas e da tua voz, um pássaro engaiolado teceu o silêncio.
- ALGUÉM???

Talvez o mundo seja um "abismo negro de sonhos esquecidos" que os outros tentam em vão pintar.
O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher).
Amar alguém por compaixão é de facto não amar essa pessoa.
(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)
(...) talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros.
(José Luís Peixoto- NENHUM OLHAR)
(...) talvez os homens existam e sejam, e talvez para isso não haja qualquer explicação; talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram, e talvez seja isso que os explique.
(José Luís Peixoto- NENHUM OLHAR)
Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.
(Bernardo Soares- O LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Sara senta-se nos degraus das casas destruídas
Sara é o nome do deserto
É o nome da videira estéril
É o nome à espera de ter filhos
Sara está velha de estar
Sozinha. Está sentada e desfaz
A bainha dos seus vestidos
(Daniel Faria- POESIA)

Às vezes uma vontade enorme de olhar o mundo de olhos vítreos e sem entendimento.
Deixar a vida partir sem a seguir.
Não há respostas para nada.

dark tales
Sinto-me tão a mais. Não sentes como me sinto? Quase a enlouquecer. Cheio de medo de amar, tanto medo, mete tanto medo o amor. E depois, imagina tu, o que pode acontecer. Não acontecer nada. É demasiado perigoso, imprevisível, impossível de controlar, deve ser morto logo que apareça, como uma criança antes de o ser. A vida é sempre a mesma e diferente. A náusea, sabes o que é? Se quiseres podes ir ao dicionário. Mas não vais saber. Já te disse, não vale a pena dizer outra vez. Amo-te muito. Não te quero ver. Para fazer o quê? Não me lixes, merda. Acaba com isto que eu não aguento mais. Abraça-me e cala-me com a tua boca sobre a minha. Já, que eu não aguento mais.
(Pedro Paixão- MUITO, MEU AMOR)
Como sabes eu vivo de relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso. De qualquer modo, a morte espreita sobre todos os prazeres dessa cronologia a que nos agarramos para escapar ao tempo. O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu- íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. (...)
Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que uma sucessão de faltas que nos animam. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora de jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem o silêncio se transtornem. Cair em ti, cada vez mais longe da mísera ficção de mim.
(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA)
E tudo se resumiu à evidência do pó.
Uma lenda, um ofício, uma teia de
apertadas mágoas que nunca mais
deixará passar a luz.
A tua luz, sol, lua ou juvenil chama dos
campos livres,
apagou-se violentamente.
Nos aquários da noite caiu uma estrela.
O mundo caiu sobre os teus ombros.
(José Agostinho Baptista- AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE)
AMO-TE TANTO, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.
(Vinicius de Moraes- O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO E OUTROS POEMAS)
Os cânones da boa sociedade são, ou deveriam ser, os mesmos que da arte. A forma é-lhe absolutamente essencial. Deveria ter a dignidade duma cerimónia, bem como a sua irrealidade, e deveria combinar o carácter insincero duma peça romântica com o engenho e a beleza que tornam essas peças deliciosas para nós. A insinceridade é assim uma coisa terrível? Penso que não. É simplesmente um método pelo qual nós podemos multiplicar as nossas personalidades.
Era essa, de certo modo, a opinião de Dorian Gray. Admirava-se da superficialidade da psicologia daqueles que concebem o Eu no homem como uma coisa simples, permanente, duma só essência, e em que se pode confiar. Para ele, pelo contrário, o homem era um ser com miríades de vidas e miríades de sensações, uma criatura complexamente multiforme, que trazia dentro de si estranhos legados de pensamento e paixão, cuja própria carne estava infeccionada das monstruosas doenças dos mortos.
(Oscar Wilde- O RETRATO DE DORIAN GRAY)

Imagem de Chad Michael
Roída no vácuo da alma, perscruto o negrume da vida alcançando sempre o que não consigo compreender. A opressão de não saber o que sentir.
Na distância das respostas, o oco de um coração retalhado.
Ao silêncio dos culpados, vagueio na escuridão de mim.
Os cabelos gastos de tanto puxar apunhalam-me as costas rígidas que, de nunca tocadas, curvam-se à servidão dolente do Tempo.
As cicatrizes indeléveis permanecem cegas no ventre das alegrias, do mundo, enquanto nos destroços do que sobrou, encalho algures, longe de me achar.
Não sei chorar.
... Apodreço sob a máscara que tão pacientemente inventei e usei para fazer frente ao mundo. E a máscara, sem que eu desse por isso, colou-se-me à cara, ensanguentou-se, já não conseguia arrancá-la. Passou a ser o meu verdadeiro rosto, e o meu rosto, tanto tempo escondido debaixo dela, passou a ser a máscara... não aguentava mais Beno...
... Nenhum espelho me reconheceria, e o meu corpo- tantas vezes possuído, maltratado, e também sofregamente amado- está agora em repouso, não precisa mais da sua imagem andrógina para viver, nem precisa de espelhos, tudo é escuro aqui, e ninguém lhe tocará mais...
(...) ... Não me abandones ainda, porque um morto, sabes, precisa de ternura, mesmo que seja a coisa menos cintilante que há... porque o tempo e o esquecimento dos vivos corrói-o até aos ossos, muito mais depressa que os vermes, e fica sem graça, e não há espelho que se atreva a reflectir tamanha melancolia...
(Al Berto- LUNÁRIO)
A minha vida
Um mendigo à chuva
A mão estendida. O corpo
Dobrado sobre os joelhos
Pedaço da terra
Volteando sob a luz
Uma criança semeando
Flores
E aves e pássaros
Comendo sementes
E na morte. O regresso
Das flores em mim
(Daniel Faria- POESIA)
Preciso de um Deus que me atenda, que me escute, que saiba que sofro e que me veja sofrer. Preciso de um Deus que me salve ou que me condene. Preciso de um Deus que me ampare. Preciso de uma inteligência superior à minha e em comunicação com a minha.
(Raul Brandão- DEUS/CÉU E INFERNO)

grito.
não sou ouvida.
a minha alma é muda. nas minhas lágrimas, pedaços de uma felicidade já destruída
esquecida.
a imensidão voraz do vazio. esqueci-me de mim.
as cinzas de um corpo não meu
as palavras não lidas
e as asas partidas
roubaram-me os sonhos
impiedoso abismo negro
d. esquecida
E que venha Deus,
venha um profeta,
a este mundo cheio de mágoa,
secar-me os olhos,
rasos de água,
acalmar-me a vida inquieta!
Que venham à terra,
dar vida ao mito,
que tragam milagres,
tragam profecias,
que venha o inferno,
venham heresias,
que só eu sei o que sinto,
... não acredito!
Que venha o abismo,
venha o castigo,
que m'importa ... se eu não consigo,
andar a sorrir pela vida fora!
Não creiam que minto,
que é exagero,
que eu já não suporto este desespero,
benvinda seja a morte nesta hora!
"Roxy"
88.11.02
(daqui enviamos um abraço especial à autora que, gentilmente, nos disponibilizou este seu poema)
De repente do riso fêz-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fêz-se espuma
E das mãos espalmadas fêz-se o espanto.
De repente da calma fêz-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fêz-se o pressentimento
E do momento imóvel fêz-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fêz-se de triste o que se fêz amante
E de sozinho o que se fêz contente.
Fêz-se do amigo próximo o distante
Fêz-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais de repente.
(Vinicius de Morais- O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO E OUTROS POEMAS)
(...) o amor, enquanto exaltação de dois indivíduos, o amor como fidelidade, apego apaixonado a uma só pessoa, isso não existe. E se existe, é apenas como autopunição, cegueira voluntária, fuga para um convento.
(Milan Kundera- A IDENTIDADE)
Sonhei com uma enorme estrada
Onde só tu passavas
O pássaro caiado pelo orvalho
Despertava mal ouvia os teus primeiros passos
Na floresta verde e molhada
O amanhecer abria a boca abria os olhos
Toda a folhagem se alumiava
Eras tu a começar o dia
Nada iria correr mal
Aquele dia brilhava como tantos outros
Eu dormia eu era recém-nascido da véspera
Tu tinhas-te levantado mais cedo
Para matinal me concederes
Uma infância perpétua
(Paul Éluard- ÚLTIMOS POEMAS DE AMOR)
Sou gémeo de mim e tudo
O que sou é
Distância.
Estou sentado sobre os meus joelhos
Separado.
Aquilo que une
É um rumor.
Não descanso. Sou urgência
De outro sítio. E pudesse valer-me
Longe
Dos homens como se neles
Adormecesse.
(Daniel Faria- POESIA)
A morte ofereceu-te a verdadeira sensação e fugiste do homem que é um animal estranho e flutua no seu movimento de dormir para fora, no seu movimento de dormir para dentro. Quando o homem acordar será apenas para anunciar o seu sonho e quando sonhar conhecerá o fruto da sua inconstância.
(Olivério Macías Álvarez- UM MUNDO ESTRANHO)

imagem de lórant demeter
as vozes de infíndas assombrações a gritarem dentro da minha.
que loucura desperta nas raízes da sanidade?
o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,
deslocando todo o peso do sangue sobre a metade
mais gasta do meu corpo, esmagar o coração.
(Carlos de Oliveira- TRABALHO POÉTICO)
Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha.
O meu coração esvazia-se sem querer, como um balde roto. Pensar? Sentir? Como tudo cansa se é uma coisa definida!
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Como os ponteiros de um relógio ou um barco à distância, a vida imobiliza-se-nos para sempre em cada instante em que estamos. Mas no instante seguinte reparamos que ainda estamos imobilizados mas já noutro sítio.
(Vergílio Ferreira- PENSAR)
- Tudo mudou quando te conheci. Não porque os meus pequenos trabalhos se tenham tornado mais apaixonantes, mas porque transformo tudo o que se passa à minha volta em matéria das nossas conversas.
- Poderíamos falar de outras coisas!
- Dois seres que se amam, sós, isolados do mundo, é muito bonito. Mas de que é que haviam de alimentar os seus encontros a sós? Por muito desprezível que o mundo seja, precisam dele para poderem falar um com o outro.
- Podiam ficar calados.
- Como aqueles dois ali na mesa ao lado?- riu Jean-Marc.- Ah, não, nenhum amor sobrevive ao mutismo.
(Milan Kundera- A IDENTIDADE)
Nos silenciosos vales do norte
nascem as inesperadas rosas do amor,
com as suas pétalas mágicas,
e às vezes,
ternos espinhos no coração de um homem,
na sua eterna solidão.
São rosas do sol e das chuvas,
iluminando a noite desse homem,
a sua respiração,
as suas mãos que estremecem à volta da
flor.
E elas vão e vêm, caladas,
repartindo a ternura e a cor,
a oculta ternura,
a discreta cor no coração do homem,
na sua eterna solidão.
(José Agostinho Baptista- ANJOS CAÍDOS)

Fotografia de Rui Gouveia
Caminha, minha velha, na tua última caminhada de vida.
Há um novo horizonte à tua espera, nas faces do renascimento, nos rostos do futuro.
Caminha os teus últimos passos de vida ao encontro de um berço nos braços da morte.
Caminha, caminha e não tenhas medo, pois não vais só.

Conturbadas asas agitam a época que perdura no sonho de um apaziguador.
Que sonha tal inocente criatura?
Existe um espaço dentro de cada vida, onde o tempo é desconhecido de realidade. Memórias de previsões de um futuro próximo que marcará o passado, deslizam dando continuidade ao presente sabendo que o mundo espera
para despertar.
os dias estão cheios de cartas e de recomendações, de
amigos que partem para sempre, ou adoecem, de recados e
de intrigas, de contas intermináveis, de ouro, de corpos, de
fortuna e de infortúnios.
de morte, e de cães feridos a uivar à porta da desolação.
uma espécie de miséria e de orgulho, escorrem no
fundo de mim. e talvez seja a mistura venenosa da miséria
com o orgulho que me há-de perder...
não tenho mais nada a dizer. os poemas morreram.
fugir tornou-se uma obsessão, ou então é a melhor
maneira de encenar o desespero.
bebi águas inquinadas.
vi o corpo suspenso no rebordo dos poços, o coração
batendo descontrolado.
mas a morte, quando se aproxima, é uma coisa simples... vem comer à mão a cinza melodiosa dos dias.
por isso sei que, ao anoitecer, posso perguntar:
quantas áfricas murcharam na boca do amor?
quantas feras despedaçadas foram comidas ao entardecer?
quantos homens conseguiram apaziguar o relâmpago
da paixão?
quantos desejos ficaram abandonados na escuridão
intacta dos quartos?
a qual dos demónios me vender?
que besta suja será preciso adorar?
em que sangue contaminado mergulharei a língua?
que fogo estranho é este? que devora a beleza interior das coisas...
que mentira me poderá salvar?
uma golada de veneno e eis que se acende o talento.
o rumor precioso das sílabas. o choro e o riso.
o brilho gelado das imagens.
então, ergo o cachimbo e fumo um tempo futuro,
ajeito o cinturão onde guardo o ouro- e vou pelo engano
das palavras.
descubro a febre, a ânsia do eterno viajante.
abro as mãos, solto as borboletas e os pássaros- que
dizem ser a alma dos mortos
um espelho onde não me reconheço. mas o pior é
que nunca acreditei no que me disseram, e parti o espelho.
o azar nunca mais me largou, e também não posso
dizer que os negócios me tenham corrido bem.
foi maldição, dizem.
paciência. mas não há maldição sem desejo- e eu
não páro de desejar, sôfrego... capaz de arriscar a vida e a
razão.
ou de matar.
(Al Berto- HORTO DE INCÊNDIO)
o barco avança sem destino.
as noites, os dias. o barco avança sem destino.
o oceano é infinito.
(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUÍNAS)
Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Será pouco, mesmo que tenha de dar para toda a vida de um homem?
(Fiódor Dostoiévski- NOITES BRANCAS)
O amor tem as mãos abertas.
Para construir a ebriedade do desejo, as substâncias
vigilantes e luminosas. A sede do fogo que atravessa
o sangue.
O amor é a unidade brilhante.
Que se desprende das árvores, das pedras e do ar.
E se apoia na matéria ardente.
E na consciência respira como uma folhagem breve.
(Bela Mandil- NA ESCRITA E NO ROSTO)
[Este poema é propositadamente editado na sequência da frase extraída do livro de Maria Gabriela Llansol, e que apresentámos em post anterior. Que os comentários sejam, desta forma, uma sequência.]
o amor é a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior.
(Maria Gabriela Llansol- O JOGO DA LIBERDADE DA ALMA)
A edificação dos homens é-te estranha, mas fora dela saberás reconhecer aqueles que pela primeira vez chegaram à tua mesa para comer e beber e sentir a nostalgia do futuro. Esta é finalmente a entrada num mundo estranho, a fuga da imagem, o pedestal onde se levanta o punho da espada, a espera concedida, o misterioso e arrastado beijo. Este é o cataclismo, as percussões dos que se sabem condenados sem saber por que razão morrerão, o retumbar de um coração perante o segredo.
(Olivério Macías Álvarez- UM MUNDO ESTRANHO)
Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só preciso de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo.
(Inês Pedrosa- FICA COMIGO ESTA NOITE)

Imagem de António Martins
Velhos braços estendem-se pelo rio.
Rio Lima, disseram.
Arcada de estrelas pendentes, no lugar do céu, os segundos de cada raiz, folha estelar de vida.
Murmuram. Conseguem ouvir?
Está tão longe de nós, o poder de amar... talvez tão próximo de qualquer ser ávido de sonhar.
Sentíamos enfim uma destruição de nós, do corpo, da alma, o universo inteiro como um punho, distorcidos flagelados, um raio de cima a baixo, fulminados revoluteados, um estertor de agonia. E de súbito o vazio, a aniquilação interna do nosso ser, destruída a nossa essência, uma vida inteira esquecida consumida resvalada a um silêncio de um mundo que findou. E longo tempo esperámos que o universo se recompusesse e nos reconhecêssemos enfim na nossa verdade de existir.
(Vergílio Ferreira- CARTAS A SANDRA)
Sei que estou só e gelo entre as folhagens
Nenhuma gruta me pode proteger
Como um laço deslaça-se o meu ser
E nos meus olhos morrem as paisagens.
Desligo da minha alma a melodia
Que inventei no ar. Tombo das imagens
Como um pássaro morto das folhagens
Tombando se desfaz na terra fria.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- CORAL)
São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literalmente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

(Al Berto, pouco depois de regressar a Portugal, ao fim de sete anos em Bruxelas, onde vai estudar pintura na École Nationale Supérieure d'Architecture et des Arts Visuels, e onde acaba por começar a trilhar o seu percurso poético.)
Al Berto, LUNÁRIO
Nunca consegui misturar-me nos outros corpos, estão demasiado vivos, doem-me quando lhes toco. Observo-os, uso-os, e no entanto mantêm-se tão distantes. Se calhar envelheci mais depressa ao tocá-los. A dor vai sulcando o rosto e comprimindo o coração, não sei... talvez seja apenas o receio da noite com os seus desmedidos poços de cinza. (...) No fundo estou-me nas tintas para isto tudo. Tornei-me ladrão. Roubo-lhes um beijo, uma erecção, um gemido de esperma, uma carícia... roubou-lhes tudo o que posso e estou-me nas tintas... é isso mesmo, estou-me nas tintas para o que pensam. Nada tenho a perder, a sedução é uma das artes do ladrão, raramento me deixo roubar. Mas que te importa tudo isto, Beno? Sossega, sossega porque o mundo está sujo de indiferença.

(A mais conhecida e, talvez, a grande fotografia de Al Berto. Da autoria de Paulo Nozolino, fez a capa da primeira edição d' O Medo. Al Berto dramático, numa composição caravaggiana.)
"Todos os meus livros tiveram um carácter de urgência", disse Al Berto ao jornal Expresso um mês antes de falecer. "Aterrador foi ter-me apercebido o que havia neste livro de premonitório (Horto de Incêndio). A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque. A eternidade é uma permanência da força que está dentro de nós."
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais àquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétra.
(Carlos Drummond de Andrade- Extraído de CARUS ARA)

A floresta escreve nas folhas o vento, as lágrimas despidas ao relento.
Corpos nus da terra, amam além numa outra era, onde os deuses mergulham nos rios de sol, enlevando-se às marés de um girassol.
São estas as árvores que me pertencem, à voluptuosidade das sombras, o abraçar de corpos curados de doenças no raiar de uma nova virgindade ainda por explorar, ainda por amar.
- Quantas palavras escutei eu na solidão da procura, nas vozes de anjos mudos?
Quanto me ensinaram estes vales de ressurreição e tanto ainda por aprender, tanto ainda por ver!
Desde o toque, o êxtase em uníssono de dois corpos, duas almas que tornam a nascer na descoberta dos sonhos outrora esquecidos até à sordidez insatisfatória de cabeças cegas que escondem a alma, num capuz negro ausente de estrelas.
Que aconteceu ao mundo, privado de sonhar?

Foto de Victor Schrager
Amar-se a si próprio é o princípio de um romance para a vida inteira.
(Oscar Wilde- POEMAS EM PROSA)
Senhor doutor, a vida é uma colecção de angústias, quando me sinto em harmonia com o que me rodeia, posso atribuir isso à minha capacidade de fingimento, fingir é uma forma de encaixar a realidade sem sentirmos grandes prejuízos emocionais imediatos, às vezes estou a olhar para alguém e dá-me vontade de chorar e gritar, não o faço por respeito à pessoa que está na minha frente, respeito pela incompreensão que ela poderá ter de mim, as nossas verdades nunca poderão constituir um universo válido e compreensível para os outros, o meu mundo será sempre uma falsa cópia do universo de quem me contempla.
(Fernando Esteves Pinto- CONVERSAS TERMINAIS)
O diabólico toma algumas vezes o aspecto do Bem ou incorpora-se até inteiramente nele. Se continua escondido aos meus olhos, sucumbo naturalmente, porque esse Bem é mais sedutor do que o verdadeiro Bem. Mas se não me continuasse escondido? Se, transformado em presa de uma montaria de diabos fosse então empurrado para o Bem, se, objecto de nojo, me vise então batido, picado, empurrado para o Bem por pontas de alfinetes sobre o meu corpo? Se então as visíveis garras do Bem procurassem agarrar-me? Recuo um passo e molemente e tristemente regresso ao Mal que, atrás de mim durante esse tempo, esperava que me decidisse.
(Franz Kafka- ANTOLOGIA DE PÁGINAS ÍNTIMAS)
Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que não é nada comigo.
Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no amor como em casa.
(António Manuel Pina- AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE)
As trevas apagaram-me sem nada dizer,
Tornei-me sombra morta em pleno dia-
Saí então da casa do prazer
Para a noite me engolir.
Com o coração cheio de silêncio vi
Como ele é insensível ao tédio do dia-
E te oferece um sorriso de espinhos a ti,
Noite- até ao fim!
(Georg Trakl- OUTONO TRANSFIGURADO)

Imagem de Vladimir
...e no seu manto arrasta a morte, devolvendo à noite, a extinção das estrelas e o quebrar da lua. Seu olhar cego estende-se às almas pútridas do medo, roubando-lhes as memórias de brisa, o último olhar de terra. Na hora do pecado, corpos oferecem-se famintos de dor corroendo os caminhos de esperança.
(...)
O sangue cai-lhe das mãos. A chuva, que por mais lágrimas santas chorasse, não poderia purificar a excomunhão bastarda da alma que ocupara seu corpo.

~way out? de Андрей Штауб
Quando os céus parecem desabar ao sol, a lua bate à porta que fora parede e é-nos descoberto um novo caminho. Só temos de procurar onde os nossos olhos julgam nada encontrar.

- Toca-me na alma
nos lugares de mim, encontro outros lugares onde os sorrisos são choros e as mentiras, verdades.
há um lugar onde chove.
e cada lágrima é solta no vento da alma.
estrelas rasgadas do coração pululam nos céus cadentes
voltei a sonhar
É de noite que ele dança, fulgurante
e ébrio, como uma espada de sangue
no deserto. A cidade esvazia-se nas casas,
inventa uma árvore morta, um sonho circular
que se escoa num novelo, entre os dedos.
E quando a noite finda e os homens ressuscitam,
ele transporta uma tábua dentro do peito
como um vírus roendo o seu próprio ninho.
(Jaime Rocha- DO EXTERMÍNIO)
Onde estás, meu coração,
que já não te vejo aqui,
neste quarto escuro onde conto as horas,
nestas ruas sem saída,
onde bebo perdidamente?
Onde estão
as pérolas falsas do esquecimento,
onde guardaste o tesouro das minhas
madrugadas sem chuva,
que faço aqui
nesta praça vazia de crianças e cães,
onde estás meu coração,
que já não bates às nove portas fechadas,
às sete janelas da mágoa,
para que te quero então,
se não ocultas entre o musgo e as
serpentes, a exaltada voz do amor?
(José Agostinho Baptista- ANJOS CAÍDOS)
Um mundo estranho expande-se à frente dos teus olhos, e no poço reconheces uma a uma as correntes que trazem todas as tuas batalhas paraplégicas. A luz extingue-se suavemente e não chegarás a casa, estarão à tua espera com os dedos consternados e o olhar na direcção do desespero e da frase do aflito. Este é o vale, não há outro para lá das colinas e apesar de tudo sentes a melancolia da morte.
(Olivério Macías Álvarez- UM MUNDO ESTRANHO)