É tão bom sentir o que sinto. Que alguém, e és tu, me quer com o maior cuidado para não se enganar, iludir, mentir a si próprio que não me está a confundir, sem querer, com o que desejava ver, sempre esperou alcançar, sonhou quando era criança num sonho que ficou, quer mostrar aos outros, ao pai em especial, a quem quer que seja, pouco importa. Não, do que tu gostas mais em mim é dos meus pecados, dos meus defeitos físicos, de tudo o que não consigo ser, onde falhei, onde não pára nunca de doer, é isso o que tu queres ver, o que queres ter perto de ti, queres aceitar e cuidar, só isso, e o resto, só se vier com isso, porque é assim que tu amas em mim. Será isso? Será assim? Será possível pela primeira vez? Pode ser, talvez seja disso feito o nosso amor. Pelo menos grande parte, meu querido.
(Pedro Paixão- MUITO, MEU AMOR)
7 da manhã,
o despertador toca freneticamente,
gesticula movimentos,
irrita-me,
acorda-me...
levanto-me penosamente,
como um morto da cova,
num acto mecânico,
automático,
sem vida.
Fico paralisado perante a o reorganizar dormente da consciência....
Tenho que me vestir,
sair,
retornar à chamada realidade,
à brutal repetição do quotidiano,
à vida.
Esfrego a cara,
esbofeteio-me,
meto-me no chuveiro para acordar,
para recuperar um pouco de sanidade.
Saio de casa a correr,
chove.
É um dia igual a tantos dias.
É igual ao de ontem,
igual ao de amanha,
igual ao de sempre...
A caminho do emprego deparo-me com o primeiro vislumbrar da realidade,
filas intermináveis de carros iguais,
com caras iguais,
...olhares vagos
em transe,
alienados de tudo,
perdidos algures entre o sono e o sentido de responsabilidade...
... cegos,
como insectos rastejantes,
formigas...
obrando por um objectivo comum e abstracto
que realmente muitos poucos conhecem,
arrastando-se mecanicamente,
seguindo um trilho químico,
um padrão pré determinado,
um destino,
uma farsa.
Uma grande, gigantesca colmeia,
onde cada qual tem a sua função definida,
pré estabelecida...
e como insectos,
a massa humana deslocava-se,
acéfala,
mentecapta,
totalmente desprovida de vontade,
de pensamento.
Como bonecos de madeira,
fantoches
manobrados por milhões de fios invisíveis,
um fio para cada gesto:
um sorriso,
um aceno,
um simples pestanejar...
...controlado por alguém
por algo...
neste grande pequeno palco
sem plateia...
[Excerto do 2º capítulo de PACTO, livro de poesia fantástica, que se encontra a ser escrito por Nuno Branco. Mais uma vez o nosso agradecimento pela disponibilização deste trabalho.]

And the Earth spins round
While the people fall down
And the world stands still
Not a sound, not a sound
There is love, there is love
To be found
In the worst way, in the worst way
In the worst way
It’s the buzz, it’s the buzz
I wish I was
It’s the buzz, it’s the buzz
It’s the most fuzz
From a little shell
At the bottom of the sea
Was the Earth and the Moon
And the Sun above me
But the world fell down
With some people still around
There is love, there is love
To be found
With the Gods all gone
And the souls making sounds
In the worst way, in the worst way
In the worst way
It’s the buzz, it’s the buzz
I wish I was
It’s the buzz, it’s the buzz
It’s the most fuzz
From a little shell
At the bottom of the sea
Was the Earth and the Moon
And the Sun around me
There is love, there is love
There is love
It’s a buzz, it’s a buzz
I wish I was
It’s a buzz...
Artist: Lisa Germano

Magoas o anjo alado e cristalino com tuas mãos torpes e rijas.
Nada diz.
Nada dizes.
É o silêncio de quem escreve no corpo, as palavras gravadas a sangue.
Aborto que nasce de ódio.
Saberás parar?
Paraste.
A lágrima presa que é de seguida atormentada.
No seu corpo, os sulcos de umas mãos que procuraram satisfação.
Pele ingénua para sempre violada.
Quiseste engolir o mundo, a dor…
vê o que restou.

gritem-me os caminhos, montanha isolada de risos.
corpos.
braços soltos e dolentes que espetam morte nos rostos de gentalha.
a solidão que se perde ao entardecer, ao escurecer das esperanças.
deixaram-me à porta do começo do fim.

Pássaro que se perdeu do ninho.
asa de liberdade partida,
distante.
lágrima de pena caída.

(Desenho de Lumbricus terrestris)
a podridão que segue pelos trapos de vida,
o meu corpo corroído
leva os sonhos consigo,
deixando-me vazia
que casinha é esta inabitável que guarda as lembranças do abandono?
Vem até mim, veneno de melancolia,
e deixa-me amar-te até à morte.
torna-me tua vida sem destino e agarra-me nas palavras
aquelas que não escreverei mais.
E nas suas presas, é vampiro sedento que renasce das cinzas do passado para o lado obscuro da loucura.

(Pintura de Robin Tichane)
Escrevo apenas e absolutamente
por minha própria causa,
a minha própria causa.
Se quero que me leias?
Sim, quero que leias
nas palavras que escrevo
o sentido oculto
ou explícito
que dás a elas.
Não pretendo escrever poemas.
Desejo que as asas das palavras
toquem o corpo de ideias
que trazes em ti.
Toquem algum lugar
que desconheças ainda.
E mergulhados os olhos
no verso,
sonhes, dances, ames.
Ou mesmo te rebeles,
a revolução civil
da tua intimidade.
E faças do texto ato desobediente,
incivil por sua própria natureza.
Ou obediente apenas o teu desejo.
(Sílvia Chueire- Inédito)
[Um especial agradecimento à autora pela cedência dos "direitos de edição". Para leitura de mais poemas de Sílvia Chueire ver este blog.]

(Pintura de Rafael Perez)
Um suspiro teu
sereia-me fundo
uma revulsão que se ergue com o despertar do instinto
Já não sinto
A linha das tuas costas coleia
num requebro de cio
um fulgor de cobre
o chamamento dos teus cabelos que se estendem ao meu peito
o clangor de uma batalha antiga
funde-se com a ânsia da língua
sulcando cicatrizes húmidas no teu colo
Cravas crecentes de sangue nos meus ombros
o embalo rítmico das tuas ancas
a urgência adâmica de te responder
uma crispação de lábios
vences-me quando te respondo
fui eu quem abriu as tuas coxas?
fui eu, fui eu, fui eu, fui eu
Já não sinto
fujo por elas
fujo
que precipício
dor
ou a que cume ascendo
e me escondi
(André Conde Morais- Inédito)
[Poema enviado pelo autor, dando sequência a "Cosmocópula", de Natália Correia. Versão masculina. O nosso agradecimento pela resposta ao desafio lançado.]

(Natália Correia)
I
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras
II
O corpo é praia e boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
(Natália Correia- extraído de POESIA ERÓTICA)

(Jacinto Lucas Pires)
O nosso primeiro beijo foi na estação, num dia de Inverno, era como se estivéssemos dentro de um filme antigo. Nesse mesmo dia arranjaste um quarto perto dali, um daqueles quartos sinistros para onde os homens levam as prostitutas, e eu repetia para dentro que não estava a fazer nada de mal, nada de mal, não recebia dinheiro como as outras, nada de mal. Então a tua carne entrou na minha carne. E foi tudo sem palavras, sem promessas, tudo feito apenas de silêncios, beijos mínimos, o coração cego. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro. Atravessavas a minha noite de sombras fundas como se regressasses a casa, a paisagem vazia do meu desejo, o meu corpo de árvores de braços cortados. E, apesar das coisas serem assim, sem cores, muito de passagem, nunca tinha sido feliz daquela maneira. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro. Ao longo de um ano, ou quase, vivemos para aquele quarto, pelo menos eu, ou antes, vivemos aquele quarto, vivi aquele quarto, não sei se era amor aquilo, não sei se foi. Quando dava para inventar uma hora, subíamos a escada, fechávamos a porta, misturávamos os nossos cheiros, as nossas não-vozes, acontecíamos iguais a vultos num espelho, separávamo-nos, "até quando", tínhamos combinado nunca dizer até amanhã. Pois podia não haver amanhã. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro.
(Jacinto Lucas Pires- PARA AVERIGUAR DO SEU GRAU DE PUREZA)
não sei o que esperar
sou prostituta.
queria que fechassem os olhos
que passassem à frente
ignorassem o estúpido vicio da veia insalubre
e vomitassem
não desejo ser ouvido pelo pássaro saltitante.
ignorantes palavras de merda.
não preciso disto
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
não quero estas palavras em mim
Um dia disse:
Se amar é doação completa, então talvez não ame pois eu peço em troca...
Se amor é entrega, então eu não amo, pois me resguardo...
Se amar é apenas carne... Eu não, não amo
mesmo, pois sou "vegetariana"... e lá no fundo
dos meus sonho concebo o amor como algo
tão universal que me parece inatingível, e ao
mesmo tempo tão simples...
Não,
Não posso falar sobre amor porque, como qualquer ser humano, o amor universal, de completa doação, está além de todas as ideias.
Ah, o amor... Este que é pelo homem incompreendido, escondido, mal-falado, corroído e caluniado; Difamado, subtraído, maltratado e confundido; Vendido, alugado, mas que há muito não é amado...
E pergunto:
O que seria este amor se não tivesse sido já pelas mãos humanas um produto industrializado com etiquetas de marca, com um preço pré-definido e qualidade para exportação, mas não para ser usado?
Se o amor fosse achado nos corações e não nas novelas, teria ele de nos dizer frases de efeito ou outras até mais belas?
Teria de lê-las em reclamos luminosos de rua ou as saberia de cor?
A verdade é que o homem muito fala em ser amado e amar, as atitudes apagam o que se diz, e se alguém perguntar o que é, o homem dirá que ama, sem saber explicar o amor.
Mas eu não sei o que é o AMOR.
[Excerto de texto da autoria de Marta, blogger de MARTA-ATACA. A edição completa do mesmo encontra-se no post do dia 28 de Dezembro passado. À autora os nossos agradecimentos, pela autorização da apresentação.]

(Pintura de Marion Pinto)
- Tens coisas bonitas- disse ela quando estava sentada no sofá a enrolar um cigarro.
- Isso acontece à medida que vamos envelhecendo.
Mas ela não perguntou que idade é que eu tinha. Abri uma cerveja, enchi dois copos e fui-me sentar à frente dela.
- Também queres enrolar um?- perguntou ela, oferecendo-me o pacote de tabaco.
- Há muito tempo que não faço isso. - Tirei uma mortalha onde coloquei tabaco. As minhas mãos tremiam e ela apercebeu-se disso.
- É teu hábito engatar raparigas na rua?- perguntou ela.
- Podes não acreditar- retorqui sem levantar a cabeça,- mas és a primeira rapariga que alguma vez engatei.
- És casada ou coisa parecida?
Ela fingia mas não era o que sentia. Se aqui alguém estava a ser seduzido, então não era eu. Ainda para cúmulo o tabaco caiu da mortalha para o chão.
- Isso foi já há muito tempo- disse-lhe eu, ao mesmo tempo que apanhava o tabaco do chão. Não queria saber o que ela estava a pensar, ela tinha-me preso e eu não me importava minimamente.
- Nunca foste para a cama com uma rapariga?
- Nunca.
(...)- E tu?
- Claro que sim.
- E com um homem?
- Também.
Não te importa se é homem ou mulher?
- Desde que sejam simpáticos.
(...)
Despi-me no meio de uma grande confusão interior. Cheguei a pensar que faria nas calças com tanta excitação. Quando saí da casa de banho, ela estava ajoelhada em cima da minha cama, nua; na luz vermelha-escura que vinha atrás das cortinas, olhava para mim com o polegar na boca. (...)
Depois ainda ficámos deitadas durante um bocado. Ela era tão macia que eu não conseguia sentir onde é que ela começava. Ela estava deitada de lado e eu junto a ela, apoiando a minha cabeça na mão; com a ponta do dedo médio fui-me aproximando lentamente da carne das nádegas dela, que pareciam as de um rapaz, mas quando podia ver que já estava a premê-las não sentia nada. (...)
(Harry Mulisch- DUAS MULHERES)

A velocidade.
As cores. Todas.
Passam em frente aos meus olhos,
transformando-se numa enorme mancha
disforme e escura.
Corro,
Até à casa de banho.
Entro num daqueles cubículos
Apoio as mãos nas paredes.
Curvo-me.
Vomito,
Como se deitasse para fora as angústias da minha existência (?)
Se ao menos me chovesse
(por) dentro em seguida...
Uma água fria que me lavasse as entranhas.
Estranhas?
(Carlos Veríssimo- TRAJECTÓRIAS)
[Edição de poema autorizada pelo autor, após cedência da colectânea onde se insere: TRAJECTÓRIAS.]
Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem e a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.
(Vergílio Ferreira- PENSAR)

São 6:30.Despeço-me e parto.
Chove interminavelmente e sinto-me cansada. O guarda-chuva trava a chuvada de bater no rosto mas não é essa dor que temo. Afasto-me daqueles que seguem caminho para casa e envolvo-me nos meus atrapalhados pensamentos. Costumo aproveitar a minha pródiga solidão, o silêncio no retorno a casa, mas não desta vez.
Nem triste, nem eufórica.
Vazia.
Um sentimento de vazio apodera-se de meu corpo, da alma, perturbando o ambiente.
Quis ter alguém a meu lado. Alguém na partilha da luta contra a chuva, os rostos ocultos nas sombras, as vozes que retumbam no vazio.
Alguém que atenuasse o silêncio. O silêncio que os gritos de chuva cicatrizam em mim. Um ombro que elevasse na sua mão o guarda-chuva como sua espada, que rasgaria os céus da multidão, dos pesadelos horrendos que alimentam os cantos da cidade, e clamasse vitória. Que me desenraizasse do vazio, tal mão salvadora num abismo.
Alguém que fosse vulto. Que olhasse os gestos de ritmos pelos meus olhos e que ouvisse com os meus ouvidos o que ainda não aprendi a escutar. Alguém que se encontrasse nos meus passos, os passos incertos e vagos de menina perdida.
Alguém que escolhesse as palavras, que não as minhas, e que as falasse (que as gritasse!) ou as silenciasse no silêncio que é pintado pela compreensão e da ausência do real.
A chuva continua a morrer.
Pensei nesse anjo mundo mas não surdo que veria pelos meus olhos a luz que me foi oculta.
Um amigo aparece e acompanha-me a casa.
Não queria tais palavras em mim.
Descobri que caminho no meu trilho de meditações, no silêncio que não desejo ser roubado por ninguém.
O meu silêncio. O silêncio que observa, que esboça e que me ouve.

(Milan Kundera)
[Tomas] Lembrou-se do célebre mito do Banquete de Platão: dantes, em tempos muito recuados, os humanos eram hermafroditas e Deus separou-os em duas metades, que, desde então, erram pelo mundo à procura uma da outra. Amar é desejar essa metade perdida de nós próprios.
Admitamos que assim seja; que cada um de nós tenha algures no mundo um par com o qual constituía em tempos um único corpo.
(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)
tens uma ternura
incompatível
com a ira que aparentas
- feito armadura-
um mundo de maciez
na voz na intenção
a desabrochar
sem que o percebas
(Eugénia Fortes, 30/09/2003)
[Edição de poema efectuada com a autorização da autora, após convite para participar no "Void". A ela os nossos agradecimentos.]

(Pintura de Rosella Mocerino)
Eu tinha ido comprar pão. Era um sábado à tarde, o sol de Fevereiro brilhava palidamente sobre a cidade. Vi-a do outro lado da rua, ao pé da montra de uma joalharia. Fiquei parada. Olhei para as costas dela e para a nuca, e para as barrigas das pernas, metidas numas botas de um vermelho vivo, e ao mesmo tempo interrogava-me porque é que eu estava parada a olhar para ela. Era como se tudo na rua se tivesse deformado e desfocado, como uma determinada espécie de fotografias, enquanto apenas aquela rapariga tinha permanecido bem nítida, no meio da imagem. Não que a vista de trás fosse particularmente bonita: ficava-lhe muito bem o cabelo apanhado de forma solta, mas as costas dela eram um pouco compridas demais, as ancas demasiado estreitas e as pernas não eram tão direitas como geralmente dá gosto ver. Mas tudo se desviava do ideal num sentido de que uma maneira ou de outra se ajustava exactamente a mim. (...)
Atravessei a rua. De repente arfava um pouco. Nunca antes tinha sentido tão claramente a sensação, de um segundo para outro, de que estava a fazer algo que iria alterar a minha vida por completo. Nunca tinha tido nada com uma mulher e naquele momento mal me apercebi do que estava prestes a acontecer. (...)
Fazia frio. Caminhámos ao lado uma da outra através de ruas onde não tínhamos nada para fazer. (...)
Eu tinha estado casada durante sete anos e já há cinco anos que me tinha divorciado. Fazia o meu trabalho no museu e as visitas à minha mãe eram ao mesmo tempo as minhas férias. De vez em quando lá ia para a cama com um homem que tinha conhecido por aí. Na maioria das vezes isso passava-se em minha casa. Eu não tinha interesse nenhum em ter uma relação permanente (...)
- Vamos até minha casa beber qualquer coisa?- perguntei.
- Acho uma ideia óptima.
(Harry Mulisch- DUAS MULHERES)

Eu tinha vinte e poucos anos e, para mim, dizer que o amor se reduz a uma linguagem de pele e o sexo a uma simples terminologia era quase um sacrilégio. Tinha a idade em que o amor, seja lá isso o que vier a ser, é um valor supremo de um horizonte onde só se divisa a felicidade. Dizia a palavra, ou murmurava-a por dentro do coração e era como se tudo se iluminasse na aurora de um futuro inextinguível, de uma beatitude alcançável, ou, pelo menos, de um objectivo estimulante pelo qual valia a pena lutar, antes de tudo, apesar de tudo.
Com o tempo, descobri que esse horizonte, se existe, é eternamente móvel e que, além disso, quando a vista vai fraquejando, a sua perspectiva se torna cada vez mais remota. Mas, nessa altura, eu acreditava na pureza infinita do amor, na sua concreta substância...
(António Mega Ferreira- AMOR)
Intifada pedra sangue
de menino a lutar
Por Allah da liberdade
àguias mortas de pesar
De Ramallah e Jenin
chôro e pranto tão vermelho
sangue em rocha derramado
intifada feito fado
Ai Palestina, Phalestyn
Cola teu espelho quebrado
grita, grita mais além
Palestina, Phalestyn
Terra de Jerusalém
(Letra- Valéria Mendez; Música- Carlos Gonçalves)
[Esta letra de fado foi-nos gentilmente enviada pela fadista Valéria Mendez, a quem agradecemos muitíssimo esta sua colaboração.]

Toco nos teus lábios incandescentes desejando provar-te, carícia perene de te encontrar.
O teu rosto sobre o meu releva-me as quimeras do teu toque desejado.
Somos dois corpos que se encontram, duas almas que se tocam.
E olho-te dentro de mim no sôfrego instante de te agarrar, ter-te como minha.
Respiro esse ar contagiante de silêncio que aqueces nos teus lábios.
Tanto que me deixas…

Perscruta a escuridão das sete noites enquanto o seu manto desliza nas sombras noctívagas que permanecem ocultas. A lua cheia, a luz enigmática de sua deusa, descobre-se nas suas costas de cabedal. Os mortais deparam-se, tal ninhada sem mãe, diante de si. Sente o sangue quente que corre nas veias de um pulsar de vida.
Fecha os olhos e visualiza o mar tumultuoso de corpos insaciáveis. Nas essências nocturnas, o cheiro da eternidade, o apelo de sua alma imortal, a sua maldição.
Num rasgar de trevas, deixa-se cair.
Na sua capa negra, a solidão da imortalidade sorri.
É o desalento de quem caminhará só nas ruínas do mundo.
Empty vessel under the sun wipe the dust
from my face another morning black Sunday
coming down again.. coming down again
Empty vessel empty veins
empty bottle wish for rain that pain again
wash the blood off my face the pulse from my brain
And I feel that pain again
I'm looking over my shoulder cause millions
will whisper I'm killing myself again
Maybe I'm dying faster but nothing ever last I
remember a night from my past when I was
stabbed in the back and its all coming back
And I feel that pain again
I abhor you I condemn you cause this pain
will never end you got away without a
scratch and now you're walking on a lucky
path I have to laugh but you'd better watch
your back
there's pathetic opposition they're the
cause of my condition I'll be coming back
for them I've a solution for this sad
situation nothing left but to kill myself again
Because I'm so empty
(Empty - Anathema)
Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- POESIA)

Imagem de S.U.R.
Nos véus das cabalas, escrevo a noite das estrelas, a que albergo nos braços amplos dos pensamentos.
São cinzentos os sonhos que sonhei para mim.
Nos seus olhos, o guardião do inaudível, as fontes de eternidade, a grandeza do fadário que descobre nas suas velhas mãos, a vida do que está morto, o silêncio de quem grita.
Pequeno rato que encontra o mundo como a imensa solidão dos homens.

Já nada há neste mundo que me conforte,
já arranquei da vida todo o seu prazer,
nada tem para me dar, qu'eu possa querer,
a não ser o sabor da minha própria morte!
Que eu tanto desejo essa viagem,
ando louca de ansiedade à tua espera,
já és uma obcessão, és quimera,
sê deste meu deserto, uma miragem!
Vê bem,... já nada me prende aqui...
pois já há muito tempo que eu parti,
fugi com a minh'alma de mão dada!
Só cá deixei o meu corpo, a envelhecer,
porque insistes em deixá-lo padecer,
já só é carne que quer ser sepultada!
"Roxy"
93.03.25

Alquimias impossíveis de satisfazer percorrem as linhas do destino. Para quem mais, esta paisagem desértica? Sinto-me incapaz de continuar olhando na sede de beber as águas do Nilo.
E tudo se alicerça no que não disse e no que escrevi.
Sonhos batem à minha porta.
Nas águas gélidas do mar revoltoso, não há ilusões que se escrevam. Não há calor que me salve. Nas tuas mãos, sou bolso roto de vida.
Este lugar é como um sino:
ecoa na cruz de um altar quando a cabeça cede
ao instante das súplicas e do martírio.
Aqui me calo.
Contemplo:
no alvorecer do verbo residem as sementes e o lume.
É um intempestivo ofício este de apagar a sede,
a rima que se aparta-
se mutilarem a estrofe, a ascensão da ternura,
desertarei.
Serei quem ora na penumbra dos claustros.
Deslumbram-me os vitrais,
a amarga ciência dos construtores:
serão estas as suas dores,
a sua liturgia?
Como lírios dobram-se os ombros.
Oiço-os como a um rumor de cinzéis, esculpindo na treva,
liricamente.
Serão de lágrimas os frisos que decoram as naves?
Três vezes sobre a água escrevi os seus nomes.
Três vezes, na lentidão dos templos, os amei:
haverá um dia em que os dias não têm fim,
em que pelas frestas se expande qualquer luz?
Este lugar é o último-
como um sino que se fecha para sempre.
De bronze,
doutros metais,
ele percute descuidado e para dentro-
é à garganta profunda que assoma o delírio e o
lamento.
(José Agostinho Baptista- AUTO-RETRATO)

das palavras, esta saída para o vazio.
o pensamento segue a sua rotina até nada continuar mais.
elas esgotar-se-ão.
se o abismo for a morte, esquecidos serão os sonhos?
Mas, antes de mais, parece-me que tenho de olhar para mim frente a frente, como nunca fiz ainda até hoje, para averiguar se alguma coisa pode ainda interessar-me, por uma semana, por um dia, por uma hora. Sim, é curioso, tanto que tenho sofrido e, sempre dominada pelo sentimento, ou mesmo pela paixão, agitando-me, vibrando, nunca espreitei lucidamente para dentro de mim (haverá, aliás, muito quem o faça?). Conheço-me eu porventura bem, para lá do que os outros me julgam, desse meu retrato de catálogo e do que eu própria estabeleci há muito que sou? Mesmo, vendo bem, sempre me recusei, não sei se por pudor se por comodidade ou por preguiça, a mergulhar a lâmpada da consciência na escuridão desordenada dos meus instintos, nos meus raros momentos de delírio...
(Urbano Tavares Rodrigues- CONTOS DA SOLIDÃO)

As pedras. As Pedras são tão escuras quanto os meus pensamentos.
Queria eu que elas falassem.
…
Mas não falam.
E eu percorro estas ruas negras ouvindo-me apenas a mim.
[Pensamento enviado por Filipe Barrenho, responsável pelo blog IN ABSENTIA. A ele, o nosso agradecimento.]
Ontem à noite saí à rua,
vesti o meu manto negro de desespero
e calcei-me de nudez.
Voei sobre o chão molhado de lágrimas
que reflectia apenas a escuridão da minha alma,
pairando como um fantasma,
um espirito sem rumo...
O vento frio trespassava-me,
furava-me as vísceras,
gelava-me as lagrimas nos olhos,
deixando-me ainda mais vazio.
Olhei à volta...
O cheiro era fétido e nauseabundo.
por todo lado cadáveres cobriam o chão,
sangue escorria nos passeios,
levando pedaços de cabelo solto.
As ruas estavam pavimentadas de braços, dedos,
pernas, caras, múltiplas partes de corpos mutilados...
E eu voava sem nunca tocar no chão.
Mas tão perto!
Que ainda conseguia sentir o calor de alguns corpos
cujo sangue ainda fervilhava.
As cortinas das janelas
eram agora caras de agonia,
espreitando cá para fora,
escondidas das trevas da noite...
A lua ocultava-se por entre as nuvens de seda preta
e a luz das velas bailava macabra,
um lento tango...
...fatal, violento...
...tingido de sangue
Atrás de mim
nuvens de moscas cobriam tudo
e vermes faziam o chão cintilar
rastejando por entre a matéria orgânica decomposta.
Um relâmpago rasgou o céu em dois
e o trovão soou como o rufar de mil tambores
partindo para guerra.
Começou a chover...
...vidros!!!
Choviam vidros do céu!
Aos pedaços,
milhares de pequenos vidros,
caindo em estrondo!
Estilhaçando-se no chão em pedaços ainda mais pequenos.
O meu manto de trevas protegia-me,
cobria-me o rosto
escondido na sua sombra...
...e eu pairava sobre o chão.
Onde pessoas se contorciam
agonizando em dor,
à medida que os vidros caiam
e lhes cortavam a pele!
Rasgando, arranhando, furando...
Por todo lado o ruído é ensurdecedor...
Gritos, lamentos, choros, e o som de vidro a partir...
Uma sinfonia infernal,
num cenário Dantesco...
...e a musica desta loucura vai diminuindo
até só sobrar o absoluto silencio,
violado pelo som dos projecteis,
a assobiar freneticamente...
...rasgando o ar,
anunciando a sua queda,
como um agoiro de morte.
Já não ouço os gritos,
os choros
os lamentos...
só o vidro a cair...
A chuva pára...
...e o silencio fúnebre envolve-me na sua escuridão.
As trevas acolhem-me nos seus braços
como uma mãe a um filho...
Esta cidade está morta,
dorme na sua campa,
e é tudo minha culpa...
é tudo minha culpa...
minha...
[Excerto, simpaticamente cedido, do 1º capítulo de PACTO, livro de poesia fantástica que Nuno Branco se encontra a escrever. Para conhecimento de outros trabalhos do autor ver o seu blog POETRY CAFÉ, em particular, aqueles que se encontram com o pseudónimo "João Natal"]
O sofrimento pode ter sentido, transformar-nos por dentro. É preciso paciência. Porque o tempo parece nunca mais acabar e somos projectados para um ponto muito longe do convívio entre os humanos. Faz parte do sofrimento deturpar as coisas, vê-las através de lentes tão fortes que facilmente entontecemos, nos desequilibramos, caímos. Temos medo de tudo, de nós mesmos. A simples superficie das coisas nos agride. Somos assaltados por demónios que nos roem a alma. É um tormento em que nos atormentamos. É preciso ter paciência e o mais das vezes não a temos. A violência da vida bate-nos em cheio. Procuramos abrigos e todos cedem e nenhum é suficiente. Recordamos a paz que perdemos como o bem mais precioso, ignoramos o caminho que nos traga de volta a nós próprios. Falta-nos a coragem, mas para ela nem encontramos motivo. O mundo todo é um mal-entendido que aguardamos que se resolva ou estoire e enquanto nada acontece sofremos. Agarramo-nos a coisas que se nos escapam entre os dedos. Só a morte está por todo o lado desperta, cerca-nos, olha-nos com os olhos muito abertos, mete medo. Fechamos os olhos, mordemos os lábios, fugimos para debaixo da cama e não há maneira. O amor é uma coisa tão distante, tão impossível. Vivemos, momento a momento, uma solidão que nos aperta a garganta, faz de nós o que quer. Uma música, uma palavra, uma folha caída e é o suficiente para nos trazer uma irremediável precisão de chorar. E quando choramos não sabemos bem porque o fazemos, é só a tristeza a tomar conta de nós.
(Pedro Paixão- AMOR PORTÁTIL)

E é no sangue que te estendes no chão.
Corpo gélido e calado que se parte na nudez virgem do branco.
No meu olhar, o sangue.
as palavras que expiraram…
Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar-se memória poética e que regista aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua beleza própria. (...) O amor começa como uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com umas das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.
(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)
Momentos Surreais,
Embatem violentamente
no meu corpo distraido.
Tolhido p'la surpresa
não reajo.
Tento apenas manter-me
em equilíbrio
Sobre uma tábua
Que se torna cada vez
(cada vez) Mais estreita.
Será inevitável cair?
NÃO!!
Invisto contra
Algo que não vejo,
com toda a força.
Das dores do primeiro impacto
Ao cansaço do contra ataque.
É inevitável sucumbir
ao desgaste.
Volto a recuar.
Fecho os olhos
e PARO, com a respiração ofegante.
Inspiro fundo.
Avanço.
Passo então
(tranquilo)
pela transparência
do ser etéreo que me consumia.
(Carlos Moura Veríssimo- TRAJECTÓRIAS)
[Este poema faz parte da compilação "Trajectórias", simpaticamente cedida pelo autor. Para um conhecimento mais alargado da sua produção poética, ver o blog,
MO[VI]MENTOS]
De quem é esta morte encenada em caixão? De onde vem esta febre fria que me sela a boca? Luto para fugir desta caixa onde me expoem e me lamentam. Se ao menos soubessem rezar. Pai Nosso, eu não quero já o céu. Aos vivos, incomoda-os o cheiro dos mortos. Por isso o sufocam em flores, incenso, velas, tudo o que possa manter esse cheiro longe do corpo concreto, ainda carne, ainda quente. No lugar do morto, é o medo que enjoa e entontece. O medo que os vivos têm de mim, agora, do futuro que lhes anuncio, vestida para enterrar. Esse medo cria ondas de calor, ondas enevoadas, que a luz das velas, a baba dos sussuros amplia.
Meto-te medo, também a ti? Aqui imóvel, de olhos fechados, olhando-te ainda, para não me olhar a mim, para me afastar do cheiro a medo que é talvez o cheiro derradeiro. (...)
Não me deixes chegar ao céu, meu querido. Eu sempre tive tanto medo de que tu tivesses razão. E se o céu for o desencanto em que crês? E se a nossa amizade mal vivida não couber na perfeição do céu? Deixa-me ser apenas a beleza magoada da tua vida, enquanto a vida for tua.
(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA)
Deixá-los andar,
... deixá-los,
esgravatar no mundo,
... rastejar na vida,
lambendo as chamas do inferno,
e depois,
rezando ao "Céu"... eterno,
como se fossem donos da verdade!
Deixá-los julgar,
... impunemente,
qualquer ser que se atreva,
a ser diferente,
é tão fácil,
criticar o "louco",
enforcar o "demente"
como se fossem
"Deus Nosso Senhor!"
... Deixá-los... ser "gente"!
Deixá-los sonhar,
ó coitadinhos...
que o sonho, é a manta
dos mais pobrezinhos,
dos que andam nesta vida,
... a mendigar.
Roxy, 2000.02.07
[Poema cedido pela autora, a quem muito agradecemos.]

Escondidos de quem somos, na vergonha de ser quem somos, acabamos descomunalmente decompostos.
Tu és assim. Eu sou assim.
Somos todos assim e foi assim que o quisemos.
sufocas.
no teu corpo, o silêncio da vida. quero arrancar esse sofrimento.
Nunca senti a intensidade da solidão em nenhuma palavra. Nem o tempo da minha própria existência quando escrevo num abandono de ser a matéria luminosa no interior do meu pensamento.
[Texto da autoria de Fernando Esteves Pinto, enviado em contexto de troca de produções com uma das bloggers do Void. Texto correspondente no ESCRITA IBÉRICA- "Ilusões"]
QUANDO A MADRUGADA entrou eu estendi o meu peito nu sôbre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que fôste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente fôste a serenidade.
(Vinicius de Moraes- O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO E OUTROS POEMAS)
Será isto o desespero? Esta vontade de fugir de todos e chorar a sós, sem nada esperar já, nem esse vago consolo que as lágrimas trazem quando, para lá das lágrimas, a alma molhada tem um cheiro a renovo?...
Esta vontade permanente de adormecer, sem o conseguir? Este olhar fixo e triste que denuncia a minha desatenção ao que os outros dizem? A raiva que às vezes me domina, vontade de quebrar, destruir, desde o bocal irritante, mudo, deste telefone maldito, aos copos de vidro azul que vou levando aos lábios, sem beber, à pequena que se aproxima furtivamente, se me vê quase a arrancar os cabelos ou a rasgar a face com as unhas, diante do espelho, e que diz: "Quer alguma coisa, minha senhora?" E que parece implorar o favor de fazer por mim o que quer que seja que o meu capricho, ou a minha angústia, lhe dite?...
Sim, deve ser isto o desespero.
(Urbano Tavares Rodrigues- CONTOS DA SOLIDÃO)
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar
(Daniel Faria- POESIA)

I'm so tired of being here
Suppressed by all my childish fears
And if you have to leave
I wish that you would just leave
'Cause your presence still lingers here
And it won't leave me alone
These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase
When you cried I'd wipe away all of your tears
When you'd scream I'd fight away all of your fears
I held your hand through all of these years
But you still have
All of me
You used to captivate me
By your resonating light
Now I'm bound by the life you left behind
Your face it haunts
My once pleasant dreams
Your voice it chased away
All the sanity in me
These wounds won't seem to heal
This pain is