
Imagem de MaxLife
P-a-l-a-v-r-a-§
Não entendo nada do que faço, nada do que penso.
Golpes na visão de tentar ser. Espelhos de ilusões.
Quem me fez nascer?!?
Quem brotou esta alma num caminho perdido? Quem amaldiçoou os "tempos felizes"?
Alguém feche a janela.
Não sei voar.
Bloco de notas

Imagem de Lumbricus terrestris

Imagem de Langust
Quero morrer. Quero morrer.
As horas expiram nos meus braços impotentes, caminhando no ano novo que vem. Desisto de tentar ser feliz. Este ano morrerá comigo.
Adeus mundo.
Caroline Gab

Imagem de Ilya Lipkin (NEUTRAL)
Sou mimo que finge ser triste, rosa maléfica que arrasta solidão, cara sem rosto que perdeu as lágrimas ao vento. Sangue que jorra dos corpos.
Enforca-te comigo nos mantos dos espinhos, num abraço mortal onde nos sufocamos.
Chora e odeia-me.

Desejo saltar a cerca e libertar-me nos campos da saudade.
...esquecer por momentos que sou humana.

Imagem de S.U.R.
O homem é um ataúde de cadáveres com uma excessiva devoção pelos seus erros.
(Olivério Macías Álvarez- UM MUNDO ESTRANHO)
Beno inventou assim tantos rostos, tantas máscaras, como quantas cidades habitou ou atravessou. Instalava-se onde as cidades com seu cheiro a mar lho permitiam, e as pessoas falassem com ele o menos possível. Evitava que as cidades e seus habitantes se habituassem demasiado à sua presença, de dia para dia mais andrógina. Fugia, e sempre continuou a acreditar que a única maneira de continuar vivo e vigilante, é fugir.
Mas nunca fugiu precipitadamente. Cada fuga era preparada com paciência e minúcia. Perdia noites e noites traçando percursos complicados num mapa. Escrevinhava notas numa agenda com os cantos das páginas ratados e sujos. Consultava rotas marítimas, horários de comboios, de barcos e aviões. E quando dava por concluído aquele trabalho de preparação, agarrava na pequena mala em couro azul, com meia dúzia de coisas inúteis dentro, e partia. Partia na direcção contrária à que planeara.
(Al Berto- LUNÁRIO)
Donde sou? Sou do meu tempo, bem o sei, ou bem o quero saber, porque não é fácil assumirmo-nos com o tempo que nos aconteceu. Mas de vez em quando, a um aceno invisível e perceptível apenas no modo de haver uma perturbação no ar, sinto que sou de outro tempo, de outro destino, de outro signo de outra pessoa. Que outro tempo? Não sei. Não deve ser mesmo tempo nenhum. Deve ser apenas localizável onde não esteja bem e me pergunte donde sou. Donde sou?
(Vergílio Ferreira- PENSAR)
A amizade é indispensável ao homem para o bom funcionamento da sua memória. Lembrar-se do passado, trazê-lo sempre consigo, é talvez a condição necessária para conservar, como se costuma dizer, a integridade do eu. Para que o eu não encolha, para que mantenha o seu volume, é preciso regar as recordações como as flores de um vaso, e essa rega exige um contacto regular com testemunhas do passado, isto é, com amigos. Eles são o nosso espelho, a nossa memória; não se exige nada deles, apenas que de vez em quando puxem o lustro a esse espelho para que nos possamos mirar nele.
(...)
A amizade era para mim a prova de que existe qualquer coisa mais forte do que a ideologia, a religião ou a nação.
(Milan Kundera- A IDENTIDADE)

Essa árvore branca tão perto de alcançar.
E no entanto, tantos detritos nesta estrada só por mim sonhada!...
Depois da cinza morta destes dias
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- CORAL)

Listen to City of Angels Soundtrack
Se alguém quiser a música completa, adicione-me ao messenger: vazia_no_vacuo@hotmail.com
O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
(Maria Gabriela Llansol- O JOGO DA LIBERDADE DA ALMA)

Cada um com seu anjo.
Nas ruas da realidade há ferocidade nos olhares.
Quem encontrar esperança, despe-se.
Quem morre nas sarjetas, espera renascer.
Quem olha o mundo de mim?
São tuas asas que escondem os segredos das almas
E no teu peito violado, desprende-se o negrume do dia.

Imagem de Philippe Moroux
São obscuros os cantos da casa.
Na janela as vozes prendem-se nos vidros, chorando a solidão.
Nas mãos, caneta, folha rasgada, folha ensanguentada.
Rasgam-se as asas.
Quisera eu voar.
Nas paredes, sangue e o que os olhos não querem ver... Estou fechada em mim.
Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!...
As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas
Só a triste, coitadinha...
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha ...
Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua...
E fico a chorar com ela!
Florbela Espanca

Medo.
Medo de mim.
Conto os segundos, percorrendo o tempo.
Não há nada que nos faça voltar.
Gritarás.
Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.
(Alberto Caeiro- POESIA)
É natural que os sentimentos se apresentem reciclados.
Não é possível experimentar uma felicidade antiga
ou sentirmo-nos luminosos na construção de outros
tempos.
Agora, observo o mundo como se tivesse uma corda
enrolada no coração, e a memória apagasse
todas as imagens que alimentam
a minha transição humana
(Fernando Esteves Pinto- ENSAIO ENTRE PORTAS)
A moral não me ajuda. Nasci antinomista. Sou dos que foram feitos para as excepções, não para as leis. Mas enquanto vejo que nada há de mal naquilo que se faz, vejo que há qualquer coisa de errado naquilo em que nos tornamos. Ainda bem que o aprendi.
A religião não me ajuda. A fé que outros têm no que é invisível tenho eu naquilo que se pode ver e tocar. Os meus deuses moram em templos feitos pelo homem e o meu credo torna-se perfeito e completo dentro do círculo dos conhecimentos actuais. Credo talvez demasiado completo, pois como muitos daqueles ou todos que colocaram o Céu nesta terra, eu encontrei nela não só a beleza do Céu mas também o horror do Inferno. Quando penso na religião sinto que gostava de fundar uma ordem para os que não podem crer. Designar-se-ia Confraria dos Órfãos. No altar, sem velas, um padre em cujo coração não morava a paz, celebraria com pão profano e com cálise sem vinho. (...)
A razão não me ajuda. Diz-me que as leis que me condenaram estão erradas e são injustas; e o sistema sob o qual tenho sofrido é errado e injusto. Mas, de qualquer forma, tenho de fazer que estas coisas se tornem justas e certas para mim. E, exactamente como na Arte, em que só nos importamos com uma determinada coisa num determinado momento, assim também acontece com a evolução moral do nosso carácter. Tenho de fazer que tudo o que aconteceu se torne num bem para mim. (...) Não há uma única degradação do meu corpo que eu não deva tentar transformar em espiritualização da alma.
(Oscar Wilde- DE PROFUNDIS)
das lágrimas que me desdobram
a pele da face. face
abaixo da abóbada frágil dos
olhos, gasta pela poeira
intensa à superficie do
ar. das lágrimas que já não impedem a erecção
do olhar. modo vertical
de ser, traço que
se desfere entre o meu corpo e
o céu, único ponto onde
seguro me posso fixar
(Valter Hugo Mãe- ESTOU ESCONDIDO NA COR AMARGA DO FIM DA TARDE)
Esta noite sonhei:
Os ursos e as ursas comem meninos grandes. Os ursos comem-se uns aos outros como Deus os comeu. E trancou. Ao dar-lhes a condição de ursos.
Os músculos dos heróis desfazem-se nos pêlos do tapete. Partem-se em gemidos e roçares de tinta e papel. Até não restar mais nada que uma mancha.
E o olhar lânguido dos duendes tatua-se nos vivos. Faz-lhes calor. E impressão. Como se lhes tocassem nas plantas dos pés e fosse a nuca a arrepiar-se.
O homem-aranha e o pinóquio são/porque/têm/amigos/inimigos/diferentes. Guardam insectos crónicos dentro de si a perturbá-los. Microscópicos bichos que lhes conduzem os gestos. Seres que produzem micro-babas cancerígenas (...).
Mas os dois sentem o ferrete da doença até ao dia do esquecimento.
Os anjos não têm caudas. Porque a sua missão é retirar as dos homens de debaixo dos vestidos. Os anjos com caudas não são anjos. Somos nós a cantar mais alto do que a nossa condição permite. O mundo está cheio de anjos com cauda, mesmo que não existem. Mas isso é a ilusão natural dos que nascem aos gritos.
(...)
Esta noite sonhei.
(Possidónio Cachapa- SEGURA-TE AO MEU PEITO EM CHAMAS)
O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo.
(Vergílio Ferreira- PENSAR)
[Este pensamento é para ti, Fernando, que és escritor. É para ti, que escreves sobre o Amor. É para ti, que escreves sobre o Silêncio. É para ti, que escreves o Silêncio no Amor...ou o Amor silêncioso. Sandra]
faz-se tarde
e eu deixei de esperar-te.
todos os portos se fecham sobre mim
e a floresta adensa-se -
nenhuma clareira se abre à passagem dos animais
e do homem antigo.
são 4 horas da manhã de todos os relógios.
(José Agostinho Baptista- DESTE LADO ONDE)

Sim, sou eu. Sou eu esta rosa que cativa olhares na escuridão da beleza.
- Quem eu chamar, por favor, não venha!
Há mentiras e ilusões em tudo o que escrevo. Sou rosa endiabrada que vive de sangue. Sangue, este que bebo de meus espinhos, tão eficazes como gumes assassinos.
E dói demais saber o que sempre serei até a gentil morte amada me ceifar.
Dói demais ver os outros perecer, quando eu, rainha da mágoa, grito-lhes:
- SOLIDÃO
As gotas de orvalhos secam. Num esgar de maldição, as pétalas florescem, platonicamente, enfeitiçando as águas da lua.
Há sangue na lua...
Não quis que fosse assim
[Diz Dorian Gray:]
- Que importa o lapso de tempo na realidade decorrido? Só as pessoas banais é que necessitam de anos para se libertarem duma emoção. Um homem que é senhor de si pode pôr termo a uma mágoa com a mesma facilidade com que inventa um prazer. Eu não quero estar à mercê das minhas emoções. Quero utilizá-las para as gozar, para as dominar.
(Oscar Wilde- O RETRATO DE DORIAN GRAY)
Tornamo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas- agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendermos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Olhava para mim, sonhador, como um cego.
- Tenho uma teoria- explicou.- Defendo que o amor é uma coisa rara, a mais subtil e preciosa essência, difícil de encontrar; e que só aparece a poucos, por acaso, e uma vez por século, se tanto, como outros fenómenos igualmente inexplicáveis, aqueles de elevar-se alguém nos ares ou de um analfabeto citar Cícero em correcto latim. O amor, o verdadeiro, o extraordinário (...).
(Hélia Correia- A FENDA ERÓTICA)
Há dezoito anos, talvez dezanove, fugi. Quase sem dar por isso, dia após dia, fui-me habituando a ter-te apenas na imaginação, às vezes até a ser capaz de sentir o cheiro a flores silvestres da tua presença ou de responder ao teu sorriso dos pequenos traços no rosto. (...) Nunca escrevi sobre ti, por mais forte que fosse a sensação de que estavas perto, mesmo que apenas num lugar da minha imaginação. E se agora o faço, passados todos estes anos, não é porque tenha vencido uma barreira imensa, é pela revelação que acabo de ter. Quero que saibas que nem por um dia esqueci o tempo que passámos juntos, que nem por um dia deixei de arrepender-me de não ter lutado para que esse tempo continuasse, e que nunca hei-de perdoar-me por não ter esperado até que descesse o último passageiro do comboio-ladrão. Naquela manhã, há dezoito ou dezanove anos...
(António Manuel Venda- O MEDO LONGE DE TI)
Nós temos em nós, como um bloco de mármore para o escultor, uma infinidade de modos de ser. E vamo-los sendo na aprendizagem da vida e nos mil acidentes desse aprender. Mas sobretudo nas mil ideias que os outros semeiam em nós para irmos sabendo coisas e ter o gosto desse saber. Porque gostamos de saber sem jamais nos perguntarmos a razão desse gostar. É um gosto que se justifica por si próprio, que está aí como as pedras. Mas porque há-de saber-se a morte, que, aliás, nunca se aprende? E a angústia e a inquietação e os chamados problemas de consciência que, aliás, variam conforme as circunstâncias? Porque é que o saber é bom? Temos orgulho em sabermos, mas ninguém nos ensina a razão desse orgulho, a não ser pelo orgulho, mesmo que o resultado seja a doer. Ser homem, enfrentar o risco, ter mão no que nos rodeia e assim. O ignorante, se soubesse o seu não-saber, podia dar também as suas razões, como as dá o que assume a sua ignorância. Mas o mais difícil de aprender é a morte, que é o que devia ser mais fácil por no-la ensinar o quotidiano. E não apenas pelo seu impossível, mas pelo maior desmentido que ela nos inflige à importância do saber. Mas é para se ser importante que a gente sabe. E na morte não se tem já importância nenhuma. Sabê-la para quê?
(Vergílio Ferreira- PENSAR)

Ela está off-line mas continuo com a sua janela aberta.
Palavras gemem, acorrentadas à espera de serem lidas, mas jamais o serão.
Sei que a perdi para sempre.
Agora, novamente só, agarro-me à solidão.
Novos dias virão.
Só espero que ela perceba...só espero que tente compreender...
...
Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros...talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.
(Diário do último ano de Florbela Espanca)
Imagem de Andreev Alexey
Assim, caminho só. Sei dos espelhos de lua, a atracção lunar das águas.
E sinto-me farta. Farta dos rostos, do mundo, dos sentimentos que não chego a sentir.
Lá fora o silêncio é voz torturante. Não quero ouvir. Não quero ver. Não quero sentir...
Estou farta...Venha-se o fado amargo que me proíbe de cicatrizar. Voltarei aos braços das luas, onde sorridente nasci.
Deixei de sonhar, ingénua, com o coração palpitante nas mãos. Não tenho asas para o perdão e foram raros os dias onde alcancei um sorriso.
- Acabaram as palavras que enlevavam almas...
São vítreos, agora diante das águas cristalinas, meus olhos, que jamais chorarão.
- Calar-me-ei
À lua entrego-me, morrendo ao mundo que não me quis amar, sabendo que fui capaz de matar.
Se te falo é para melhor te ouvir
Se te ouço estou certo de ter compreendido
Se sorris é para melhor me invadir
Alcanço o mundo inteiro se me sorris
Se me uno a ti é para me continuar
Se vivermos tudo será como gostamos
Se eu te deixo recordar-nos-emos
E ao deixar-nos voltaremos a reencontrar-nos.
(Paul Éluard- ÚLTIMOS POEMAS DE AMOR)
- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois no meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo.
(Herberto Helder- OS PASSOS EM VOLTA)

Imagem de Andreev Alexey
A distância da lua é coerente. Nenhum ser deverá desejar alcançar o que somente sabe magoar...
- Não é hora da lua sangrar! Não por ti, meu lobo soturno...
"Há, minha senhora, com respeito ao que sucede neste mundo, três teoria distintas- que tudo é obra do Acaso, que tudo é obra de Deus, e que tudo é obra de várias coisas, combinadas ou entrecruzadas. Pensamos, em geral, em termos da nossa sensibilidade, e por isso tudo nos volve num problema do bem e do mal; há muito que eu mesmo sofro grandes calúnias por causa dessa interpretação. Parece não ter ainda ocorrido a ninguém que as relações entre as coisas- supondo que haja coisas e relações- são complicadas demais para que algum deus ou diabo as explique, ou ambas as expliquem."
(Fernando Pessoa- A HORA DO DIABO)

Imagem de Andreev Alexey
O nosso mundo está distante dos outros.
Falas o que só eu consigo ouvir e ambos sabemos das mentiras.
Há segredos e manchas de sangue. Fendas de profundos abismos onde nos julgamos encontrar. Mas não há salvação nas verdades.
E tu escreves-me. Eu penso-te.
As quimeras de sonhos impossíveis de realmente sentir.
É tudo mentira...é tudo mentira...
- Lobo solitário mata a rosa amaldiçoada.

Estaremos sempre sós. Não há lugar para as mentiras.
quando nasci. esperava que a vida.
me troxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me troxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era a escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.
(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUÍNAS)

Imagem de Anoitecido
(...) em todo o caso havia um só túnel, escuro e solitário; o meu, o túnel em que tinha transcorrido a minha infância, a minha juventude, toda a minha vida. E num desses troços transparentes do muro de pedra eu tinha visto esta rapariga e tinha acreditado ingenuamente que vinha por outro túnel paralelo ao meu, quando na realidade pertencia ao largo mundo, ao mundo sem limites dos que não vivem em túneis. (...) E então, enquanto eu avançava sempre pelo meu corredor, ela vivia lá fora a sua vida normal, a vida agitada dessa gente que vive lá fora, essa vida curiosa e absurda em que há bailes e festas e alegria e frivolidade. E às vezes sucedia que quando eu passava em frente a uma das minhas janelas ela estava esperando-me muda e silenciosa (porquê esperando-me? e porquê muda e silenciosa?); mas às vezes sucedia que ela não chegava a tempo ou se esquecia deste pobre ser encaixado, e então eu, com a cara apertada contra o muro de vidro via-a ao longe a sorrir ou a dançar despreocupadamente ou, o que era pior, não a via de todo e imaginava-a em lugares inacessíveis ou torpes. E então sentia que o meu destino era infinitamente mais solitário do que o tinha imaginado.
(Ernesto Sabato- O TÚNEL)
Não há portas para os territórios familiares da dor, não há como conter a violência dentro de um ninho de uma pertença. Há apenas a dor, cintilando como um clarão no chumbo do céu, chuva de estrelas cadentes sem História nem mártires reconhecíveis. Porque há sempre uma noite mais escura do que a escuridão do mundo. Mesmo para quem, como eu, nunca soube escavar até ao fundo dessa gruta negra, trans-siberiana, húmida, universal, a que chamamos coração.
(Inês Pedrosa- FICA COMIGO ESTA NOITE)
Tudo é apenas impostura: procurar o mínimo de imposturas, ficar na média, ou procurar o seu máximo. No primeiro caso, enganamos o Bem, querendo tornar a sua aquisição muito fácil; o Mal, impondo-lhe condições de combate excessivamente desfavoráveis. No segundo caso: enganamos o Bem, não aspirando a ele nem sequer no plano terrestre. No terceiro caso, enganamos o Bem colocando tanta distância quanta possível entre nós e ele; o Mal, esperando que pela sua suprema acentuação o possamos tornar inofensivo. Desde então, o melhor que poderemos fazer será agarrarmo-nos ao segundo caso; porque enganaremos sempre o bem, mas neste caso particular, não o Mal, pelo menos na aparência.
(Franz Kafka- ANTOLOGIA DE PÁGINAS ÍNTIMAS)

Imagem de Mentally Affected People
Vultos assombram a escuridão do quarto.
O cheiro a putrefacção ainda não se alastrou.
A luz não chega às sombras.
Há monstros à solta no silêncio.
Ninguém perceberá porque parti.
O vazio da morte persegue as recordações que teimam em nascer.
A cadeira que caiu não se levantará.
A vida desistiu das lágrimas no preciso momento em que não viu o sol nascer.
O sol se pusera há muito no seu pequeno mundo.
Não voltarei a ver o amanhecer.
Há maldições no quarto do adeus.
Não retornarei.
Se eu souber que devo sofrer perpetuamente, poderei acabar com a minha vida.
(Séneca)
Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela.
Sabe, apenas, que por instantes uma incandescência terrível cresce dentro de si, ergue-se, nomeia as coisas e o mundo, apaga sombras, revela os ossos muito antigos das palavras... de resto, mais nada.
É no escuro das casas que se debruça para o papel e escreve, como se fosse o último homem a fazê-lo.
O deserto alastra em seu redor. Está só, tudo esqueceu.
A pouco e pouco o seu olhar reiventa um rosto, devassa um coração- a noite põe-se a pulsar, sangra- e a precária escrita ensina-lhe como alcançar o defintivo silêncio.
Apenas deseja que o momento em que parar o coração- e num movimento derradeiro se confundir ao estrume da terra- tudo se apague: manuscritos, livros impressos, fotografias, bilhete de identidade, registo de nascimento, etc.
E da sua passagem nada reste, absolutamente nada. Nem mesmo a impressão digital sobre o rosto que o acaso da paixão o fez tocar.
(Al Berto- O ANJO MUDO)
Toda a vida que se cumpre esgota a comunicabilidade onde quer que se anuncie. Assim, a hora da sua verdade não é uma hora de comício, mas de solidão final. A máscara que nos defende não tanto contra os outros como contra nós próprios (...), essa máscara que é comédia, ainda quando de tragédia, é bem vã nos instantes derradeiros de qualquer situação, porque então os olhos que nos vêem não nos vêem de fora mas de dentro. Ah, estar só é terrível. E difícil: a própria solidão do espírito inventa a memória da fraternidade corpórea, relembra a presença dos outros, as opiniões dos outros, o seu olhar que nos fita e nos espera do lado de lá da provação. Por isso me ocorre muitas vezes que para um homem saber que voz última lhe fala, deveria ao menos ver-se flagrantemente à hora de uma morte abandonada, numa ilha deserta perdida.
(Vergílio Ferreira- CARTA AO FUTURO)
Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.
Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.
(José Agostinho Baptista- AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE)
Pedra a pedra edifiquei o desastre.
Todos os caminhos são o caminho de uma lágrima.
Deste musgo
faço a tua fria túnica rasgada e, se quiseres, é assim
o resto da terra.
(José Agostinho Baptista- PAIXÃO E CINZAS)
Sim, poucos seres tem havido mais naturais do que eu. O meu acordo com a vida era total, eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões. Particularmente a carne, a matéria, o físico, numa palavra, que desaponta ou desanima tantos homens no amor ou na solidão, dava-me, sem me escrevizar, alegrias iguais. Tinha sido feito para ter um corpo. Daí esta harmonia em mim próprio, este autodomínio sem esforço que as pessoas sentiam, e que, segundo confessavam por vezes, as ajudava a viver. Buscavam, pois, a minha companhia. (...) Na verdade, à força de ser homem, com tanta plenitude e simplicidade, achava-me um pouco super-homem.
(Albert Camus- A QUEDA)

(Fernando Esteves Pinto)
As palavras formam sucessivas camadas que me encobrem perante os outros, sinto-me sufocar pela minha própria verbalidade, encho-me de pudor com facilidade, quando falo com alguém sinto os lábios incharem como se as palavras proferidas por mim tivessem fermento, é uma sensação monstruosa, a frontalidade provoca-me um aquecimento paralizante, tenho a certeza de que não me importaria de viver num mundo sem palavras e que também não houvesse ninguém que as pronunciasse.
- O que andas a escrever?- quis saber a rapariga, jogando o corpo para as costas da cadeira.
Depois de alguma confusão ou atordoamento, o rapaz estendeu o corpo sobre a mesa e disse:
- Uma série de coisas que me fazem sentir mal.
- E porque as escreves?
- Porque se não as escrevesse, também me sentiria mal.
- Não sei como te ajudar.
- Só eu posso resolver o meu problema.
- Mas se a escrita te põe nesse estado, por que não desistes?
- Desistir de escrever ou desistir de viver?
(Fernando Esteves Pinto- CONVERSAS TERMINAIS)
Esqueci-me nestes últimos dias de escrever muitas coisas acerca de mim próprio, meio por preguiça (durmo muito e profundamente de dia, tenho durante o sono um peso maior) meio por medo de trair o meu conhecimento de mim próprio. Este receio é justificado, um conhecimento de nós só poderia ser definitivamente fixado por notas se tal pudesse fazer-se com a maior integridade, até nas menores consequências, ao mesmo tempo que com a mais inteira veracidade. Isso não se faz de modo algum- e sou em todo o caso incapaz- então, o que se anotou substitui, intencionalmente e com toda a força do que é fixado, o sentimento puramente geral, tanto e tão bem que o sentimento justo desaparece, enquanto se reconhece demasiado tarde a não-valia do que se anotou.
(Franz Kafka- ANTOLOGIA DE PÁGINAS ÍNTIMAS)
Da sombra de um sopro nascidos,
Erramos pelo mundo abandonados
E andamos no eterno perdidos,
Sem sabermos a que Deus consagrados.
Pobres néscios à porta, ao relento,
Pedintes sem nada de seu,
Quais cegos escutando o silêncio
Em que o nosso rumor se perdeu.
Somos os viandantes sem norte,
Nuvens, e o vento a dissipá-las,
Flores estremecendo com o frio da morte,
À espera que venham cortá-las.
(Georg Trakl- OUTONO TRANSFIGURADO)
E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que não me lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que não me recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância- irmãos siameses que não estão pegados.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Nunca busquei viver a minha vida.
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma.
Só quis ver como se fosse apenas olhos.
(Alberto Caeiro- POESIA)

Imagem de Lauren K. Cannon
A Natural Disaster
its been a long cold winter without you
i've been crying on the inside over you
you just slipped through my fingers as life turned away
its been a long cold winter since that day
and its hard to find
hard to find
hard to find the strength now but i try
and I don't want to
don't want to
don't want to speak now
of what's gone by
Cos no matter what i say
no matter what i do
i cant change what happened
No matter what i say
no matter what i do
i cant change what happened
You just slipped through my fingers
and i feel so ashamed
You just slipped through my fingers
and i have paid
Cos no matter what i say
no matter what i do
i cant change what happened
No matter what i say
no matter what i do
i cant change what happened
no no I can't change
just slipped through my fingers
and i feel so ashamed
You just slipped through my fingers
and i have paid.
Natural Disaster - Anathema

Imagem de Lauren K.Cannon
- Entranhas-te em mim, esse sangue assassino que não me deixa respirar...
A Lua sangra além, onde a morte se uniu à terra, do mesmo modo que dois corpos se violam. Há dor e perdição no vento. Há sangue em todo o lado. Sinto que tudo se foi...
- São estas as minhas mãos! O meu pecado não existe nas terras santas dos homens. Se alguma vez te amei, foi no tempo de luar, quando as estrelas eram desejos alcançavéis, no nosso berço invencível!...Como desejaria agora, poder ver com a ingenuidade com que olhei o sol nascer!
Uma lágrima sulca um rosto que está mutilado, dentro de si. O silêncio arranca as vozes da vida. Não resta esperança na noite e os vales enegrecidos transportam o peso do ódio. Há raiva e tristeza nas lembranças.
Sinto a dor em toda a parte...
- Amo-te, aqui, óh minha mártir Lua, adoecida quando todos se ceifam uns aos outros! Os meus olhos são tuas feridas ensanguentadas e o meu sangue é o dos punhais enfurecidos, que lutaram por ti, minha alma, minha amante!....
Estou a sofrer. Abraça-me na morte, amiga do esquecimento, e incorpora este sangue no teu. São lágrimas que nos unem, e a destruição da mão humana, que nos abafa! São mil facas que se penetram no meu que é teu coração, e a sordidez da culpa assombra-me sendo só tu a que a podes descansar!...
Lividez no negrume hórrido dos campos de batalha. Corpos esventrados parecem ainda gritar na petrificação das horas. Há sombras que caminham no descobrir da morte. Jamais voltarei a sonhar. O amor é impenetrável nas terras do ódio. A solidão da noite será novamente perscrutada e profanada nos mantos de luz que a Lua cria, sem vontade de nascer. Há demasiada amargura no vento.
- Perdoar-me-ás minha Lua?

Imagem de Luis Royo
(...) sucede frequentemente que as tragédias reais da vida ocorrem dum modo tão inartístico, que nos magoam pela sua crua violência, pela sua absoluta incoerência, pela sua absurda falta de significação, pela sua completa carência de estilo. Afectam-nos precisamente como nos afecta a vulgaridade. Dão-nos uma impressão de força bruta apenas, e nós revoltamo-nos contra isso. Às vezes. porém, surge nas nossas vidas uma tragédia com elementos artísticos de beleza. Se esses elementos de beleza são reais, põem simplesmente em jogo o nosso sentimento de efeito dramático. De súbito descobrimos que já não somos actores, mas sim espectadores da peça. Ou, melhor, somos uma coisa e outra.
(Oscar Wilde- O RETRATO DE DORIAN GRAY)
Na minha dor nada se move
Estou à espera ninguém virá
Nem de noite nem de dia
Nem jamais do que fui eu próprio
Meus olhos separaram-se dos teus e perdem
A confiança perdem o brilho que tinham
Minha boca separou-se da tua boca
De prazer e do sentido
Do amor e do sentido da vida
Estas mãos separaram-se das tuas e não seguram
Nada
Os meus pés separaram-se dos teus
Não andarão mais não há mais caminho
Deixaram de sentir o peso e o repouso que lhes dava
É-me dado ver a minha vida
Esvair-se com a tua
A tua que por ser poder
Me faz julgar infinita a minha
E o porvir minha única esperança é minha tumba
Semelhante à tua cercada por um mundo sem calor
Estava tão próximo de ti que junto dos outros sinto frio.
(Paul Éluard- ÚLTIMOS POEMAS DE AMOR)
Doce futuro, esse olho zarolho sou eu,
Esse ventre aberto e esses nervos em franja
Sou eu, presa dos vermes e dos corvos,
Filho do nada como se é filho de rei.
Em breve vou perder minha aparência:
Eu estou na terra em vez de estar sobre ela,
O meu coração desperdiçado voa com a poeira,
Só tenho sentido por total inexistência.
(Paul Éluard- ÚLTIMOS POEMAS DE AMOR)
Da vaidade não digo nada: creio que ninguém está privado deste notável motor do Progresso Humano. Fazem-me rir esses senhores que acenam com a modéstia de Einstein ou de gente dessa resposta: é fácil ser modesto quando se é célebre; quero dizer, parecer modesto. Mesmo quando se pensa que aquele não existe de uma maneira geral, descobre-se logo na sua forma mais subtil: a vaidade da modéstia. Quantas vezes tropeçamos com essa classe de indivíduos! (...) A vaidade encontra-se nos lugares mais inesperados: ao lado da bondade, da abnegação, da generosidade.
(Ernesto Sabato- O TÚNEL)
Uma noite, chegou à sua alma o desejo de moldar uma imagem d' O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento. E lançou-se ao mundo para procurar bronze.
Mas todo o bronze da Terra tinha desaparecido; em parte nenhuma deste mundo existia metal desse que pudesse ser encontrado. A não ser o que cobria a imagem d' O Lamento Que Dura Para Sempre.
Na verdade tinha ele mesmo, com as suas próprias mãos, criado e deposto esta imagem no túmulo da única coisa que alguma vez amara na vida. Na sepultura daquilo que antes de morrer ele mais amara, colocou ele esta imagem do seu criar, para que pudesse serviu como um sinal do amor do homem que não morrerá nunca, e um símbolo do lamento do homem que durará para sempre. E em todo o mundo não havia outro bronze excepto o bronze desta imagem.
Ele pegou na imagem que tinha esculpido e colocou-a numa grande fornalha, entregando-a ao fogo.
E a partir do bronze da imagem d'O Lamento Que Dura Para Sempre criou uma imagem d'O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento.
(Oscar Wilde- POEMAS EM PROSA)

Imagem de Caspar David Friedrich
Somos meros cadáveres,
À espera de sermos levados,
Pelo contentor do lixo...
Como vagabundo sem casa,
Como lixo sem saco,
Poluíndo cada vez mais e mais e mais...
Agora,
ele já não sonha,
as pálpebras estremecem,
é noite outra vez,
o coração fecha todos os portos, todas as
portas,
e, no reverso de cada página,
somam-se cicatrizes, escombros,
muitos navios sem leme, sem âncora,
naufragados,
sem os espelhos que um dia, nos mares
entre o norte e o sul,
o viram contemplar, na inquietação das
vagas,
um rosto aflito que já nada dizia.
(José Agostinho Baptista- ANJOS CAÍDOS)
Estou só.
Levo à boca as minhas mãos, as mesmas
que levaram à tua boca o pão antigo,
o trigo das mães.
Tenho os lábios secos, sem beijos,
sem frutos, sem nada.
E os nossos corpos já não se unem como
outrora,
junto às estações,
quando chegavam os comboios tristes.
(José Agostinho Baptista- ANJOS CAÍDOS)
Nunca me disseste o que não escutei.
Porque se quebra o gelo? Não ouso descobrir-te no quebrar do silêncio.
Quero-te além, no silêncio envolvente que um dia nos pariu.
- Ouves-me?
Não te encontro no meu olhar.
Há vozes que nos assustam. Cores desfocantes.
Fujo-te. Foges-me.
Deixamos de sentir e em breve, deixaremos de respirar.
Sei que não esquecerás.
Eu não esquecerei.
O olhar contém as palavras que outrora esqueci de ler.
É tarde demais...

Imagem de Lukasz Banach
a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e não para chorar.
(José Luís Peixoto- A CASA, A ESCURIDÃO)
não me arrependo das horas que perdi a esperar-te
quando ainda havia a esperança. a esperança que
havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que
não me arrependo.
um instante na memória de chegares é mais valioso
do que jardins. do que montanhas. do que anos de
tempo.
arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer
que devagar passam os dias. os dias passam devagar,
esquecendo-se de sorrir ao sol e de ficar onde me
arrependo.
(José Luís Peixoto- A CASA, A ESCURIDÃO)
não imaginas, ninguém imagina, como o meu peito
ficou vazio depois de partires. o teu sorriso existia
ainda dentro de mim, mas já não eras tu. era a tua
imagem.
não penso para onde foste porque o meu peito, sem
ti, fica atravessado por lâminas. tenho um silêncio
dentro. toco os sítios onde estiveram as tuas mãos.
sinto o que sentiste.
fico acordado de noite, com a esperança secreta de
que possas regressar.
(José Luís Peixoto- A CASA, A ESCURIDÃO)
o teu rosto transformou-se na noite interminável
que atravessa cada tarde, cada tarde, cada tarde
interminável.
o rio de fumo que levava o teu nome para as
estrelas desapareceu dentro de dentro de dentro
da minha tristeza.
e o teu rosto era tudo o que tinha. e o teu nome era
tudo o que tinha. tu eras tudo. tudo, e tudo é agora
mais do que tudo.
(José Luís Peixoto- A CASA, A ESCURIDÃO)


Imagens de Scott Radke
Rostos sorridentes, de uma ingénua cúmplice felicidade, olham-me daqui.
Não me lembro de quando fui assim. Dói-me de esperar.


São mais estes rostos que se reflectem nos espelhos que parti.
Olham-me contando os anos de solidão.
Recordo o anseio escondido no olhar que revela além dos segredos mais inaudíveis.
Sei-o. Fui eu quem matou. Fui eu quem se matou.

Imagem de Scott Radke

Foto de Flamma Aeterna
Gritos matam na loucura de não te ter
Hoje, ontem, amanhã grita sou, fui serei
Alma de medo que voa ao anoitecer
Sempre no recordar de estrelas que amei
Raios e trovões!
- Deixem-me sorrir sem chorar
Deuses e benções!
- Deixem-me amar sem matar
Os meus olhos envelheceram, cicatrizaram
Estão secos, meu Deus!, como charneca sem flor!
São virgens os meus dedos que em nada tocaram
E desta solidão pungente não há amor.
Óh rosas negras!
- Enlevem-me sem sangrias
Óh vozes presas!
- Cantem-me sem mais gritarias
Caminho na morte dos vales amortecidos,
Ao encontro de mim onde não te encontrei.
Saboreando o vento ao amor esquecido,
Morro e nada nascerá dos sonhos que plantei.

Imagem de Max Klinger
JOCASTA: Que pode um homem temer, se está sujeito à lei do acaso e em nada lhe é possível uma presciência clara?
(Sófocles- Rei Édipo)

Imagem de tinweapon
Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido sonhas com
[prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um templo novo se estender!
(Charles Baudelaire- extraído de CARUS ARA)
[Personagens: TIRÉSIAS- xamã cego; JOCASTA- fantasma da rainha de Tebas]
Tirésias, o velho xamã cego, é visitado por Jocasta, que recusa a dar-se por morta. Jocasta esconde o vergão negro de enforcada com um lenço longo cruzado no pescoço. (...)
TIRÉSIAS: O que vieste aqui fazer, Jocasta? Não é este o lugar dos mortos.
JOCASTA: Depressa soubeste quem eu era! Não esperava isso de um cego como tu.
TIRÉSIAS: A cegueira é a máscara dos sábios. Fecham-se os olhos do rosto, mas agora até as minhas mãos conseguem ver no escuro. (Percorre-a, à distância, com as mãos.) Cada falange é uma pupila de peixe dos abismos.
JOCASTA: Velho xamã dos bosques, ensina-me a viver a morte, já que à vida fiquei presa.
TIRÉSIAS: Não sou sofista nem abri escola para os fantasmas de Tebas. Terás de procurar outro pedagogo, ou então descobrir por ti mesma o caminho. Ninguém a não ser tu te pode guiar na sombra do Hades.
JOCASTA: Mas eu não estou morta! Eu não morri, Tirésias! Porque insistes em falar comigo como se eu fosse um espectro que amedronta os viandantes?
TIRÉSIAS: Nada é mais penoso que ver um morto sem corpo a fingir-se vivo. Não há teatro mais patético no cosmos. Poupa-me ao teu número dramático! O meu retiro na ravina não é sítio para palcos de Dioniso. És apenas o reflexo vazio do que morreu, o eco visível do que foste. Mudaste de morada, Jocasta. Deverás partir sem demora para as margens do Letes. Caronte é paciente mas tem muitos passageiros.
Antes de partires, queria saber como vieste dar comigo, neste lugar ermo que escolhi para me proteger da inveja dos deuses e do ruído dos mortais.
JOCASTA: Foi a tua filha Manto a indicar-me o caminho. Ao contrário de ti, ela apiedou-se do meu infortúnio. Encontrou-me na fonte de Afrodite, a chorar sobre as águas.
TIRÉSIAS: A minha filha herdou-me o dom da vidência, mas é uma jovem crédula. Não reconhece ainda as artimanhas dos humanos acabados de morrer, quando recusam deixar este mundo. Tu escondeste a cicatriz da corda com o lenço que trazes ao pescoço e ela acreditou nas tuas ficções.
JOCASTA: És cruel, Tirésias. Não achas que já tive dor bastante nesta vida?
TIRÉSIAS: A dor ensina melhor do que o prazer, porque temos vontade de sair dela. Já o prazer é uma prisão de veludo que nos consome, e devora-nos vivos como a esfinge que o teu filho derrotou, pra se casar contigo.
(...)
JOCASTA: Roguei-lhe a tua ajuda, Tirésias. As desgraças do meu lar exigem que eu perceba os nós desta tragédia. Só o conhecimento nos salva, meu amigo. Foi isto que tu sempre ensinaste aos helenos. Não me vais dizer que a velhice te fez mudar de ideias...
TIRÉSIAS: Mas há conhecimentos que a fraqueza dos mortais é incapaz de suportar. Nesse caso é preferível o véu da ignorância.
(ROSA, Armando Nascimento- UM ÉDIPO)

Excertos de Diário de Pesadelos
A Memória da Sanguinolência
O meu dom era este, entrar na mente dos seres humanos como um verme entra num cadáver, e exercer sobre a primeira o mesmo efeito destrutivo e corruptor que o último exerce sobre um corpo morto. Ela perguntava a si mesma, com ansiedade dolorosa, onde estava o seu noivo. "Onde está o meu noivo?", ecoava na sua mente lisa e pequenina, enquanto os seus olhos inquietos se demoravam a passear por entre os rostos dos presentes, desviando-se, de seguida, esperançosos, até à porta. Entrei nela nesse instante.
Entre os seus olhos e a tela do mundo, uma cortina vermelho-sangue a ondular levemente com o vento. Sorri-lhe o meu sorriso de anjo mau, irresistível, e ela permanecia imóvel, incrédula e paralisada. "Pergunta antes quem é o teu noivo...", ciciei eu ao seu ouvido. Surpreendida, sem compreender, via-a olhar para todos os lados, tentando perceber quem estava a falar com ela. Levou as mãos aos olhos, esfregou-as na cara, voltou a abrir os olhos. Ninguém reparou. Daí a momentos seria tarde demais.
Trecho do capítulo "Desfloramento"

Uma espécie de céu,
Um pedaço de mar,
Uma mão que doeu,
Um dia devagar.
Um Domingo perfeito,
Uma toalha no chão,
Um caminho cansado,
Um traço de avião.
Uma sombra sozinha,
Uma luz inquieta,
Um desvio na rua,
Uma voz de poeta.
Uma garrafa vazia,
Um cinzeiro apagado,
Um Hotel numa esquina,
Um sono acordado.
Um secreto adeus,
Um café a fechar,
Um aviso na porta,
Um bilhete no ar.
Uma praça aberta,
Uma rua perdida,
Uma noite encantada
Para o resto da vida.
Pedes-me um momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.
Uma estrada infinita,
Um anúncio discreto,
Uma curva fechada,
Um poema deserto.
Uma cidade distante,
Um vestido molhado,
Uma chuva divina,
Um desejo apertado.
Uma noite esquecida,
Uma praia qualquer,
Um suspiro escondido
Numa pele de mulher.
Um encontro em segredo,
Uma duna ancorada,
Dois corpos despidos,
Abraçados no nada.
Uma estrela cadente,
Um olhar que se afasta,
Um choro escondido
Quando um beijo não basta.
Um semáforo aberto,
Um adeus para sempre,
Uma ferida que dói,
Não por fora, por dentro.
Pedes-me um momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento..................
Momento de Pedro Abrunhosa
A morte é que está morta.
Ela é aquela Princesa Adormecida
no seu claro jazigo de cristal.
Aquela a quem, um dia- enfim- despertarás...
E o que esperavas ser teu suspiro final
é o teu primeiro beijo nupcial!
- Mas como é que eu te receava tanto
(no teu encantamento lhe dirás)
e como podes ser assim- tão bela?!
Nas tantas buscas, em que me perdi,
vejo que cada amor tinha um pouco de ti...
E ela, sorrindo, compassiva e calma:
- E tu, por que é que me chamavas Morte?
Eu sou, apenas tua Alma...
(Mário Quintana- extraído de CARUS ARA)
Senhor, não me repreendais com o Vosso desdém,
nem me castigueis com o Vosso furor!
As Vossas setas penetraram em mim, pesou sobre
mim a Vossa mão.
Nada há de são na minha carne, perante o Vosso
furor, nada há de intacto nos meus ossos por causa do meu pecado.
De facto, os meus pecados elevaram-se acima da minha cabeça, como pesada carga oprimem-me em demasia.
As minhas chagas são fétidas e purulentas, por causa da minha loucura.
Estou encurvado e extremamente abatido; caminho
todo o dia na tristeza.
As minhas entranhas ardem em febre; não há parte
alguma sã na minha carne.
Estou enfraquecido e grandemente alquebrado; grito
alto, de tal maneira se agita em mim o meu coração.
Senhor, diante de Vós estão todos os meus suspiros
e o meu gemido não Te é oculto.
(Salmos, 38, 1-10)

Imagem de Zdislaw Beksinski
- Dai-me luz, através destes anos negros que me esperam!
Não venho preparada para a guerra....
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
?Em que espelho ficou perdida a minha face?
(Cecília Meireles- extraído de CARUS ARA)
A música da Morte, a nebulosa,
Estranha, imensa música sombria,
Passa a tremer pela minh' alma e fria
Gela, fica a tremer, maravilhosa...
Onda nervosa e atroz, onda nervosa,
Letes sinistro e torvo da agonia,
Recresce a lancinante sinfonia
Sobe, uma volúpia dolorosa ...
Sobe, recresce, tumultuando e amarga,
Tremenda, absurda, imponderada e larga,
De pavores e trevas alucina...
E alucinando e em trevas delirando,
Como um ópio letal, vertiginando,
Os meus nervos, letárgicos, fascino...
(Cruz e Sousa- extraído de CARUS ARA)
A dor, deserto imenso
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento,
Todo o meu ser supremo,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento
(Camilo Pessanha- extraído de CARUS ARA)
não consigo dormir, nunca mais.
ando de um lado para o outro. canso o corpo,
enquanto a língua segrega uma saliva exterminadora.
lá fora, dentro da noite, os chacais, as hienas cercam
a casa. mas o pior é este chacal que me esfarrapa as vísceras, esta hiena que me devora o sonho.
pela janela vejo a linha crepuscular da duna.
um novo corpo liberta-se do meu e caminha fora de
mim- vejo-o afastar-se em direcção aos nevoeiros das
cidades.
sei, nesse instante, que nenhum abraço chega para
atenuar a dor da separação.
afastados, tudo o que nos resta é começar a imitar a
vida um do outro.
o que dissemos perdeu o sabor e o sentido.
harrar, aden, lisboa, este silêncio... capaz de ordenar
e desordenar o mundo. o canto sublime das miragens.
mas vai chegar o inverno, e a tristeza dos dias começa a zumbir à roda da cabeça.
abri a janela.
avisto uma nesga de céu limpo.
lembro-me de quando trocava um sorriso por um
verso, ou por um insulto.
imitávamos assim a felicidade.
o sol fulmina a memória. limpa-a da crueldade do
passado.
a vida, aqui, reduz-se a efémeros passos, surdas gargalhadas, ideias que se evaporam lentamente.
enfim, o mundo não é assim tão grande...
e a vida, afinal, é como as orquídeas- reproduz-se com dificuldade.
mas estou cansado.
os olhos fecham-se-me com o peso das paixões desfeitas.
imagens, imagens que se colam ao interior das pálpebras- imagens de neve e de miséria, de cidades obsessivas, de fome e de violência, de sangue, de aquedutos, de esperma, de barcos, de comboios, de gritos... talvez... talvez uma voz.
o desejo de um sol impiedoso, sobretudo enquanto dormia.
e embarquei num cargueiro, desertei um java, pensei mesmo construir uma casa.
mas não foi possível.
ainda vejo aquelas árvores cobertas de ossos luminosos, e a duna incendiada, o deserto onde posso continuar a
reconstruir o universo.
escavo no coração um poço de sal, para dar de beber
ao viajante que fui.
deixo o vento arrastar consigo a infindável caravana
de ilusões.
e digo: que tudo se afogue na gordura das manhãs,
que tudo silencie... e uma língua de fogo atinja os livros
que não escreverei.
(Al Berto- HORTO DE INCÊNDIO)

Merda!
Se sei contar os dias desde que estou assim?
Não, não sei...
- Fale-me de si.
- ... Não há nada a dizer.
- Que aconteceu a noite passada?
- Um acidente...só isso
- Cortou os dois pulsos. Não vej...
- NÃO TEM NADA A VER COM ISSO!
- Acalme-se. Prometeu-me que ia acalmar e conversar.
- Não vamos CONVERSAR! NÃO QUERO CONVERSAR!!!
- Sente-se. Como já lhe disse, vai ter que tentar permanecer aqui e tentar conversar. Agora, sem violência e sem exaltação, está bem?
- ...
- Que aconteceu nessa noite?
- Cheguei a casa, comi e depois cortei-me.
- Tem consciência de que se queria matar?
- Sim.
- Porque o fez?
- Porque me apeteceu...
- Que aconteceu para tentar o suicídio? Já estou informado que os seus pais estão divorciados. Seu namorad...
- EU SEI O QUE ELE FEZ! NÃO FOI POR ELE QUE...
- Que se tentou suicídar? Então diga-me, por quem ou o quê?
- Por nada...Estava cansada da vida...Mais nada.
- De onde vem esse cansaço?
- De mim.
- Vem de si?
- Sim.
- Não quer falar sobre isso?
- Não.
- Porque é que se sente cansada?
- Não sei.. A vida cansa-me.
- Sente-se só?
- Não...Não sei. Um vazio...talvez...
- Fale-me desse vazio.
- Não há palavras que o possam descrever. Mesmo que tente, não compreenderá.
Para a próxima serei bem sucedida.
Aconselho a reformar-se.
- Vai tentar o suici...
PIIIII
- Acabou a sessão, senhor doutor.
- Mas...
- Tenho de ir.
- Vemo-nos amanhã, certo?
- Sim.... Amanhã.
quantas vezes apostaste a tua vida?
apostei a minha vida mil vezes.
perdeste tudo?
sim, perdi sempre tudo.
(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUINAS)
Sobrevivo
assim
casa vazia
em vasto mundo
E tu mais dócil
em teu fiel
e paciente inferno
de enormes estrelas
Sono de morte
sou voo raso
adagio breve
salmo e nostalgia
Aqui nascemos
e voltamos
mortos
na memória
doce espiral
de tão
escasso fulgor
(Ana Marques Gastão- NOCTURNOS. CANÇÕES COM PALAVRAS)
não faço qualquer ruído ao ler estas
palavras. busco o silêncio agora, enquanto
o espectro da morte ilumina o meu caminho
e não tenho para fazer algo que lhe
seja mais parecido. colaboro. já o sol
se esgota na minha cabeça e os
dias não são mais que a intermitência
com que abro e fecho os olhos
(Valter Hugo Mãe- ESTOU ESCONDIDO NA COR AMARGA DO FIM DA TARDE)
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda muito mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte,
E segui o caminho para onde o vento me soprava na costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e assim espero que possa ser sempre
Vou onde o vento me leva e não me deixo pensar
(Alberto Caeiro- POESIA)
Vidro.
Vidro descobre.
Vidro vê.
Vidro desmascara.
Vidro sufoca.
Vidro que agarro.
Vidro que corta.
Vidro que corta.
Vidro que mata.
Vidro que amo.
Vidro que fecho nos pulsos.

Por que me falas agora,
se apenas ouves um ranger de dentes e
já não reconheces a claridade dos meus
sinos?
Por que me tocas agora se a tua pele é
uma região de ossos queimados,
uma encosta de pedras negras onde já
não corre a água,
por que me acenas de longe,
com os lenços brancos que deixei no cais,
ao lado dos gladíolos assassinados pelo
furor das guerras santas,
por que assinalas nas minhas rugas
todas as constelações
se as estrelas já não iluminam os teus ombros,
por que te deitas aqui,
junto aos cadáveres da minha dor?
(José Agostinho Baptista- ANJOS CAÍDOS)
Ao lado dos mortos que me chamam de
muito perto,
na clareira do bosque,
deito-me sem querer, sem saber,
e, encostando o rosto à erva,
digo em voz baixa o meu nome,
a minha morada,
levanto uma palavra, uma prece, uma
lápide,
e parto.
(José Agostinho Baptista- ANJOS CAÍDOS)
O que apodrece nos pântanos não é apenas o
trevo nem o nenúfar,
nem os cabelos da criança morta,
as suas unhas roxas,
as pálpebras descidas,
o que apodrece acima de tudo é o crucifixo das
horas perdidas,
o rosário da mãe que contempla, junto aos
marinheiros do tempo,
o mesmo veleiro que nos dias de ouro e
mocidade,
trazia as iluminadas asas de todos os anjos.
(José Agostinho Baptista- ANJOS CAÍDOS)

Imagem de David Ho
Há vozes que gemem dentro de mim. Faces, rostos de alguém que carrego nas recordações agonizantes, e mortalmente sufocantes.
O vazio. Ele sim, espera-me no espelho...esta grande indiferença de mais um rosto soturno no mundo...
Não há alturas para temer o medo. Arrasto-me para as profundezas de um abismo inacabável e desconheço o fim, como desconheço o principio.
Ser feliz por momentos é algo de que não se deve ter vergonha. Momentos que o fim torna ridículos. A felicidade, como o amor, é um sentimento ridículo. Mas a felicidade, como o amor, só é ridícula quando vista de fora. A felicidade, como o amor, só é ridícula antes ou depois de si própria. A felicidade são momentos que, no seu presente fugaz, são mais fortes do que todas as sombras, todos os lugares frios, todos os arrependimentos. Ser feliz em palavras que, durante essa respiração breve, mudam de sentido. E nem a forma do mundo é igual: o sangue tem a forma de luz, as pedras têm a forma de nuvens, os olhos têm a forma de rios, as mãos têm a forma de árvores, os lábios têm a forma de céu, ou de oceano visto da praia, ou de estrela a brilhar com toda a sua força infantil e a iluminar a noite como um coração pequeno de ave ou de criança. Momentos que o fim torna ridículos. Momentos que fazem viver, esperando por um dia, depois de todas as desilusões, depois de todos os arrependimentos e fracassos, em que se possam viver de novo, para de novo chegar ao fim e de novo a esperança e de novo o fim. Não se deve ter vergolha de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ter sido feliz por momentos.
(José Luís Peixoto- UMA CASA NA ESCURIDÃO)
O amor é o amor- e depois?
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar,
Num leito
há todo o espaço para amar!
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos- somos um? somos dois?-
espírito e calor!
O amor é o amor- e depois?
(Alexandre O'Neill- POESIAS COMPLETAS 1951/1981)
Vida que às costas me levas
porque não dás um corpo às tuas trevas?
Porque não dás um som àquela voz
que quer rasgar o teu silêncio em nós?
Porque não dás à pálpebra que pede
aquele olhar que em ti se perde?
Porque não dás vestidos à nudez
que só tu vês?
(Natália Correia- POESIA COMPLETA)
era assim:
queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?
quanto me
queres?
quanto me
desejas?
ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres
(Ana Hatherly- UM CALCULADOR DE IMPROBABILIDADES)
Senhor, Deus do meu socorro, clamo a Vós dia e
noite.
Chegue até Vós a minha oração, inclinai os Vossos
ouvidos à minha súplica.
A minha alma está saturada de males, e a minha vida
quase toca o sepulcro.
Já estou no rol daqueles que baixam à tumba, sou
como um homem sem amparo.
Estou deitado entre os mortos, igual aos que jazem
no sepulcro, dos quais já não Vos lembrais, uma vez separados da Vossa mão.
Lançaste-me no poço mais profundo, nas trevas, nos
abismos
(Salmos, 88, 2-7)
Um rosto é um lugar de palavras.
Um rosto apagado, fechado sobre si mesmo,
é ainda um lugar de palavras.
Digo isto como se eu tivesse aberto o meu próprio/rosto e lesse a escrita dos meus pensamentos.
A escrita dos outros no meu pensamento.
Ao observar um rosto, tive muitas vezes a sensação
de abrir as palavras do silêncio.
Na escrita e no rosto, todo o ser se abre para os outros,
mesmo em silêncio.
(Bela Mandil- NA ESCRITA E NO ROSTO)
Corpo decomposto deslizando pelo quarto podre;
Sombras no papel amarelo das paredes; em espelhos escuros sobe em
abóbada
A tristeza de marfim das nossas mãos.
Pérolas castanhas escorrem por entre os dedos sem vida.
No silêncio
Abrem-se os olhos azuis de papoila de um anjo.
Azul é também o entardecer;
A hora da nossa agonia, a sombra de Azrael
Que escurece um jardinzinho castanho.
(Georg Trakl- OUTONO TRANSFIGURADO)
Há uma luz que o vento apagou.
Há uma taberna no campo, de onde à tarde sai um bêbado.
Há um vinhedo queimado e negro com covas cheias de aranhas.
Há uma sala que caiaram a leite.
Morreu o louco. Há uma ilha no mar do sul
Para receber o deus do sol. Rufam os tambores.
Os homens executam danças guerreiras.
As mulheres dão às ancas cingidas de trepadeiras e flores de fogo,
Quando o mar canta. Oh, o nosso paraíso perdido.
As ninfas deixaram as florestas douradas.
Enterra-se o forasteiro. Depois começa a cair uma chuva cintilante,
Aparece o filho de Pã sob a forma de um trabalhador da terra
Que passa o meio-dia a dormir no asfalto em brasa.
Há rapariguinhas num pátio, com vestidinhos cheios de uma pobreza que
trespassa o coração!
Há quartos cheios de acordes e sonatas.
Há sombras que se abraçam frente a um espelho cego.
Às janelas do hospital aquecem-se os convalescentes.
Um paquete entra o canal trazendo sangrentas epidemias.
A estranha irmã volta a aparecer nos maus sonhos de alguém.
Brinca tranquila nas avelaneiras com as estrelas dele.
O estudante, talvez um sósia, olha-a longamente da janela.
Atrás dele está o seu irmão morto, ou então desce a velha escada de caracol.
No escuro dos castanheiros empalidece a figura do jovem noviço.
O jardim está imerso no entardecer. No claustro esvoaçam os morcegos.
Os filhos do porteiro deixam de brincar e buscam o oiro do céu.
Acordes finais de um quarteto. A pequena cega atravessa a alamada a tremer,
E mais tarde a sua sombra vai tacteando muros frios, envolta em contos de
fadas e lendas de santos.
Há um barco vazio que ao cair da noite vai descendo o canal negro.
Na obscuridade do velho asilo há ruínas humanas em decadência.
Os órfãos mortos jazem junto aos muros do jardim.
De quartos cinzentos saem anjos com asas sujas de excrementos.
Gotejam-lhes vermes das asas amareladas.
A praça da igreja está sombria e mergulhada no silêncio, como nos dias da
infância.
Sobre solas de prata deslizam vidas passadas
E as sombras dos condenados descem às águas soluçantes.
No túmulo, o mago branco brinca com as suas serpentes.
Em silêncio, abrem-se sobre o Calvário os olhos dourados de Deus.
(Georg Trakl- OUTONO TRANSFIGURADO)
É tudo negro, aqui, dentro de mim.
Caminho distante, inerte, nos sonhos de outrem. Não sei do mundo, de ninguém. Da janela do meu quarto, o cinzento pinta-se vagaroso, crescendo a cada momento, apagando as cores.
Esqueço-me das faces sorridentes da vida.
A morte acompanha-me, distorcendo os dias. Como sombra e vasta luz de negro, reina dentro de mim, o desejo de tudo chegar ao fim...

Imagem de Theodor Kittelsen
Continuo na tortura de quem já viu demais.
Arrepios. Folhas que esvoaçam nos horrores da mágoa.
Prendi-me onde não consegui chegar.
Beijei-me e disse adeus.
Agora nada fica.

Imagem de Lucien Levy-Dhurmer

"...Eu odeio os felizes, sabes? Odeio-os do fundo da minha alma, tenho por eles o desprezo e o horror que se tem por um réptil que dorme sossegadamente. Eu não sou feliz mas nem ao menos sei dizer porquê. Nasci num berço de rendas rodeada de afectos, cresci despreocupada e feliz, rindo de tudo, contente com a vida que não conhecia, e de repente, amiga, ao alvorecer dos meus 16 anos, compreendi muita coisa que até ali não tinha compreendido e parece-me que desde esse instante cá dentro se fez noite.
Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo o que eu tinha dantes e que nem eu sei dizer-te o que era...
É a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes."
Excerto de uma carta - Florbela Espanca
Um dia li num livro: "Viajar cura a melancolia".
Creio que, na altura, acreditei no que lia. Estava doente, tinha quinze anos. Não me lembro da doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me causara, então o que acabara de ler.
Os anos passaram- como se apagam as estrelas cadentes- e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.
A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite... Avancei sempre, sem destino certo.
Tudo começou a seguir àquela doença.
Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti. Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas, apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa e mais que pude. Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha; vi crepúsculos e noites sobre um rio, amei a existência.
Dormia onde calhava: no meio das dunas, enroscado no tojo, como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo, em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...
E quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.
(Al Berto- O ANJO MUDO)
O primeiro dever na vida é ser tão artificial quanto possível. Em que consiste o segundo dever...ainda ninguém descobriu.
(Oscar Wilde- POEMAS EM PROSA)

Imagem de Jeff Lowe
Passa dos tempos em que ninguém choraria.
Rosas negras se espalharam pelo vento.
Alguém roubou o sol.
Sangraram as virgens os dogmas de cristo
Palavras fornicaram o silêncio...
E ninguém sobrou à escuta da vida, que no vazio não vive.
Amanheceu.
Olhares sonolentos erguem-se e a vidinha estúpida retoma o dia.
Alguém chora no lugar da noite adormecida.
Alguém que viu o sol não nascer, e o sangrento grito no violar da noite ouviu.
Alguém e ninguém...
Rosas negras espalhar-se-ão nos cemitérios e alguém chorará.

Estagnação dos dias, do tempo.
Restam as recordações.
A inércia da vida, à procura do passado, constantemente procurado, sorvido, cicatrizado e vivido no sangue, sempre putrefacto.
Pútridas horas em que morro, só e relembrada nas agoniantes recordações.
Silêncio...
A partir do instante em que o homem submete Deus ao julgamento moral, mata-o dentro de si próprio. Mas qual é então o fundamento da moral? Nega-se Deus em nome da justiça, mas a ideia de justiça compreender-se-á sem a ideia de Deus? Não cairemos assim no absurdo? É o absurso que Nietzsche encara de frente. Para melhor o ultrapassar, leva-o ao extremo: a moral é o último rosto de Deus que se deve destruir antes de se proceder a uma reconstrução. Deus deixa então de existir e já não pode garantir o nosso ser; o homem deve, portanto, decidir-se a agir para ser.
(Albert Camus- O HOMEM REVOLTADO)
o teu rosto à minha espera. o teu rosto
a sorrir para os meus olhos. existe um
trovão de céu sobre a montanha
as tuas mãos são finas e claras. vês-me
sorrir. brisas incendeiam o mundo.
respiro a luz sobre as folhas da olaia.
entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos.
este dia será sempre hoje na memória.
hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas.
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.
(José Luís Peixoto- A CASA, A ESCURIDÃO)
Caiu neve. Depois da meia-noite, ébrio de vinho purpúreo, deixas o espaço sombrio dos homens, a chama vermelha do seu lume. Oh, a escuridão!
Geada negra. A terra está dura, o ar tem um sabor amargo. As tuas estrelas juntam-se e formam sinais malignos.
Com passos empedernidos caminhas ao longo da linha férrea, de olhos redondos, como um soldado que ataca uma trincheira negra. Avante!
Neve amarga e lua!
Um lobo vermelho a ser estrangulado por um anjo. As tuas pernas tilintam, a andar, como gelo azul, e um sorriso cheio de tristeza e arrogância empederniu-te o rosto, e a fronte empalidece com a volúpia da geada;
ou inclina-se em silêncio sobre o sono de um guarda que se deixou cair na sua cabana de madeira.
Geada e fumo. Uma camisa branca de estrelas queima os ombros que a vestem e os abutres de Deus dilaceram o teu coração de metal.
Oh, a colina de pedra! O silêncio derrete, e esquecido jaz na neve argêntea o frio corpo.
Negro é o sono. O ouvido segue longamente os atalhos das estrelas no gelo.
Ao despertar tocavam os sinos na aldeia. Da porta do levante nascia, argânteo, o dia rosado.
(Georg Trakl- OUTONO TRANSFIGURADO)
Medo da morte?
Acordarei de outra maneira,
Talvez corpo, talvez continuidade, talvez renovado,
Mas acordarei.
Se até os átomos não dormem, por que hei-de ser eu só a dormir?
(Alberto Caeiro- POESIA)
- Oh, Nástenka, Nástenka! Tem de saber que me pôs em paz comigo próprio para muito tempo! Tem de saber que agora não vou pensar tão mal de mim como pensei algumas vezes no passado! Tem de saber que talvez já não volte a afligir-me por ter cometido um crime e um pecado na minha vida, sim, porque esta minha vida é crime e pecado! E não pense que exagerei ao contar-lhe a minha vida, por amor de Deus não o pense, Nástenka, porque é verdade que às vezes tenho momentos de uma amargura insuportável, insuportável... Nesses momentos ponho-me a imaginar que nunca serei capaz de começar a ter uma vida verdadeira, porque são momentos em que perco o tacto e o olfacto do verdadeiro, do real; porque chego a amaldiçoar-me a mim próprio; porque depois das minhas noites fantásticas, vêm os horríveis minutos de desembriagamento! Entretanto, ouço como muralha e gira no turbilhão da vida a multidão humana, ouço, vejo como vivem as pessoas- vivem na realidade; vejo que para elas a vida não é proibida, que a vida delas não se vai desvanecer como um sonho, como uma visão, que a vida delas é eternamente renovada, sempre jovem , e nenhuma hora da vida delas se parece com outra hora; ao passo que é tristonha e monótona até à vulgaridade a tímida fantasia, escrava da sombra, escrava da ideia, escrava de uma qualquer nuvem tapando subitamente o sol e apertando de mágoas o coração verdadeiramente peterburguense, que dá tanto valor ao seu sol... E, na mágoa, que fantasia poderá haver? Sinto que finalmente se cansa, se extingue numa eterna tensão esta fantasia inextingível, porque nós amadurecemos, ultrapassamos os nossos velhos ideais: os ideais desmoronam-se, reduzidos a destroços, a pó; ora, se não houver outra vida, será preciso construí-la desses destroços. A alma já quer e já pede outra coisa!
(Fiódor Dostoiévski- NOITES BRANCAS)

Ryan Wilson, Niles McKinley High School "Loneliness"
Hey you.. rotting in your alcoholic shell
Banging on the walls of your intoxicated mind
Do you ever wonder why you were left alone
As your heart grew colder and finally turned to stone
Anathema - Forgotten Hopes - Judgement

How I needed you
How I grieve now you're gone
In my dreams I see you
I awake so alone

I know you didn't want to leave
Your heart yearned to stay
But the strength I always loved in you
Finally gave way
Somehow I knew you would leave me this way
Somehow I knew you could never.. never stay
And in the early morning light
After a silent peaceful night
You took my heart away
And I grieve
In my dreams I can see you
I can tell you how I feel
In my dreams I can hold you
And it feels so real
I still feel the pain
I still feel your love
I still feel the pain
I still feel your love
And somehow I knew you could never, never stay
And somehow I knew you would leave me
And in the early morning light
After a peaceful night
You took my heart away
I wished, I wished you could have stayed
Anathema - One Last Goodbye - Judgement

Photographed by Sammy Cheung
façam-no feliz e não
o culpem de nada, digam-lhe
a verdade, que esta
dura morte é ainda o
resto da minha alegria
peçam-lhe que venha tão
depressa, digam-lhe que
não durmo e que estarei
no telhado entristecida a
desbotar ao sol
incomodando os pássaros
cada vez menos
porque quando foi
fiquei vazia da
alma aos pés, parada
sob as chuvas como
um ralo
tão em descuido caiu
seu nome em meu coração
como pedra boca adentro
o silêncio morrendo
tragam-mo ainda que ao
longe, esse amor meu, dou
alvíssaras de fantasma, subirei
à tona dos sorrisos como flecha
do vosso cupido, tragam-mo
por favor ainda que ao
longe, a ver-me o vazio dos
olhos onde só ele pode caber
(...)
não é sobre a solidão,
pouco me importa quem me
desviou palavra, é sobre
a tua ausência no lugar
íngreme da minha pele, por isso
cairei implume telhado abaixo
debulhada no coração
agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande amor
agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu e eu
era por ti adentro eternamente
lentamente
como só lentamente se deve morrer de amor
abençoo-te para sempre
e é assim que morro, corajosa
a escrever um livro de
amor sem chorar
(Valter Hugo Mãe- O RESTO DA MINHA ALEGRIA)

Imagem de David Ho
Que violência se apoderou de meu corpo, nas trevas do ódio?
Que estranho Mal me violou nos sórdidos mantos de sangue?!?
...
...Em que me tornei?
Dorian Gray subiu para o estrado, com o ar de um mártir grego, e, olhando para Lord Henry, para quem se sentia já fortemente atraído, mostrou-lhe um leve assomo de enfado. Lord Henry era tão diferente de Basil. Faziam um contraste delicioso. E que bela voz a sua! Passados alguns instantes disse-lhe:
- É verdade ser assim tão má a sua influência, Lord Henry?
- Influência boa é coisa que não existe, Sr. Gray. Toda a influência é imoral, imoral sob o ponto de vista científico.
- Porquê?
- Porque exercer influência sobre um homem qualquer é dar-lhe a nossa própria alma. Ele não pensa com o seu próprio pensamento, nem arde com as suas paixões naturais. As suas virtudes não são para ele reais. Os seus pecados, se é que há pecados, são emprestados. Torna-se eco da música alheia, actor dum papel que não foi escrito por ele. O objectivo da vida é o desenvolvimento da própria personalidade. Realizar perfeitamente a nossa natureza- eis para o que nós estamos neste mundo- Hoje todos têm medo de si próprios. Todos esqueceram o mais alto de todos os deveres, o dever que cada um de nós tem para consigo mesmo. São caritativos é claro. Dão de comer a quem tem fome e vestem os mendigos. As suas almas, porém, andam famintas e nuas. A coragem abandonou a nossa raça. Talvez até, na verdade, nós nunca a tivéssemos. O terror da sociedade, que é a base da moral, e o terror de Deus, que é o segredo da Religião, são as duas únicas coisas que nos governam.
(Oscar Wilde- O RETRATO DE DORIAN GRAY)
(...) nem o diabo sabe o que a gente há-de recordar, nem porquê. Na realidade, sempre pensei que não há memória colectiva, o que talvez seja uma forma de defesa da espécie humana. A frase "todo o tempo passado foi melhor" não indica que antes sucederam menos coisas más, mas sim que- felizmente- as pessoas as lançam no esquecimento.
(Ernesto Sabato- O TÚNEL)
As religiões morrem quando se prova serem verdadeiras. A Ciência é o registo das religiões mortas.
(Oscar Wilde- POEMAS EM PROSA)

Imagem de David Ho
Através dos anos, vagarosos entristecedores, vejo que nada muda naquilo que restou de mim. Abraço o rosto indolente de uma alma que foi minha, em tempos, e eu dela. E não encontro deus, que o faça sorrir novamente, que o torne quente como era, quando nos amávamos imortais ao mundo...
Sinto as esperanças ceder no limiar das forças...
-Como estou cansada. Como estou gélida!
Faltas-me nos dias, para acreditar que um dia voltarás. Faltas-me nas noites, para ao luar, poder acreditar, e sei que não voltarás.
-Sei que não voltarás...
"They have taken the bridge and the second hall. We have barred the gates but cannot hold them for long. The ground shakes. Drums, drums in the deep. We cannot get out. A shadow moves in the dark. We cannot get out. They are coming."
(O Senhor dos Anéis)
O que tenho sobretudo é cansaço, e aquele desassossego que é gémeo do cansaço quando este não tem outra razão de ser senão o estar sendo. Tenho um receio íntimo dos gestos a esboçar, uma timidez intelectual das palavras a dizer. Tudo me parece antecipadamente fruste.
O insuportável tédio de todas estas caras, alvares de inteligência ou de falta dela, grotescas até à náusea de felizes ou infelizes, horrorosas porque existem, maré separada de coisas vivas que me são alheias...
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Várias vezes, no decurso da minha vida opressa por circunstâncias, me tem sucedido, quando quero libertar-me de qualquer grupo delas, ver-me subitamente cercado por outras da mesma ordem, como se houvesse definidamente uma inimizade contra mim na teia incerta das coisas. Arranco do pescoço uma mão que me sufoca. Vejo que na mão, com que a essa arranquei, me veio preso um laço que me caiu no pescoço com o gesto de libertação. Afasto, com cuidado o laço, e é com as próprias mãos que me quase estrangulo.
(Bernardo Soares- O LIVRO DO DESASSOSSEGO)