
Imagem de MaxLife
P-a-l-a-v-r-a-§
Não entendo nada do que faço, nada do que penso.
Golpes na visão de tentar ser. Espelhos de ilusões.
Quem me fez nascer?!?
Quem brotou esta alma num caminho perdido? Quem amaldiçoou os "tempos felizes"?
Alguém feche a janela.
Não sei voar.
Bloco de notas

Imagem de Lumbricus terrestris

Imagem de Langust
Quero morrer. Quero morrer.
As horas expiram nos meus braços impotentes, caminhando no ano novo que vem. Desisto de tentar ser feliz. Este ano morrerá comigo.
Adeus mundo.
Caroline Gab

Imagem de Ilya Lipkin (NEUTRAL)
Sou mimo que finge ser triste, rosa maléfica que arrasta solidão, cara sem rosto que perdeu as lágrimas ao vento. Sangue que jorra dos corpos.
Enforca-te comigo nos mantos dos espinhos, num abraço mortal onde nos sufocamos.
Chora e odeia-me.

Desejo saltar a cerca e libertar-me nos campos da saudade.
...esquecer por momentos que sou humana.

Imagem de S.U.R.
O homem é um ataúde de cadáveres com uma excessiva devoção pelos seus erros.
(Olivério Macías Álvarez- UM MUNDO ESTRANHO)
Beno inventou assim tantos rostos, tantas máscaras, como quantas cidades habitou ou atravessou. Instalava-se onde as cidades com seu cheiro a mar lho permitiam, e as pessoas falassem com ele o menos possível. Evitava que as cidades e seus habitantes se habituassem demasiado à sua presença, de dia para dia mais andrógina. Fugia, e sempre continuou a acreditar que a única maneira de continuar vivo e vigilante, é fugir.
Mas nunca fugiu precipitadamente. Cada fuga era preparada com paciência e minúcia. Perdia noites e noites traçando percursos complicados num mapa. Escrevinhava notas numa agenda com os cantos das páginas ratados e sujos. Consultava rotas marítimas, horários de comboios, de barcos e aviões. E quando dava por concluído aquele trabalho de preparação, agarrava na pequena mala em couro azul, com meia dúzia de coisas inúteis dentro, e partia. Partia na direcção contrária à que planeara.
(Al Berto- LUNÁRIO)
Donde sou? Sou do meu tempo, bem o sei, ou bem o quero saber, porque não é fácil assumirmo-nos com o tempo que nos aconteceu. Mas de vez em quando, a um aceno invisível e perceptível apenas no modo de haver uma perturbação no ar, sinto que sou de outro tempo, de outro destino, de outro signo de outra pessoa. Que outro tempo? Não sei. Não deve ser mesmo tempo nenhum. Deve ser apenas localizável onde não esteja bem e me pergunte donde sou. Donde sou?
(Vergílio Ferreira- PENSAR)
A amizade é indispensável ao homem para o bom funcionamento da sua memória. Lembrar-se do passado, trazê-lo sempre consigo, é talvez a condição necessária para conservar, como se costuma dizer, a integridade do eu. Para que o eu não encolha, para que mantenha o seu volume, é preciso regar as recordações como as flores de um vaso, e essa rega exige um contacto regular com testemunhas do passado, isto é, com amigos. Eles são o nosso espelho, a nossa memória; não se exige nada deles, apenas que de vez em quando puxem o lustro a esse espelho para que nos possamos mirar nele.
(...)
A amizade era para mim a prova de que existe qualquer coisa mais forte do que a ideologia, a religião ou a nação.
(Milan Kundera- A IDENTIDADE)

Essa árvore branca tão perto de alcançar.
E no entanto, tantos detritos nesta estrada só por mim sonhada!...
Depois da cinza morta destes dias
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
(Sophia de Mello Breyner Andresen- CORAL)

Listen to City of Angels Soundtrack
Se alguém quiser a música completa, adicione-me ao messenger: vazia_no_vacuo@hotmail.com
O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
(Maria Gabriela Llansol- O JOGO DA LIBERDADE DA ALMA)

Cada um com seu anjo.
Nas ruas da realidade há ferocidade nos olhares.
Quem encontrar esperança, despe-se.
Quem morre nas sarjetas, espera renascer.
Quem olha o mundo de mim?
São tuas asas que escondem os segredos das almas
E no teu peito violado, desprende-se o negrume do dia.

Imagem de Philippe Moroux
São obscuros os cantos da casa.
Na janela as vozes prendem-se nos vidros, chorando a solidão.
Nas mãos, caneta, folha rasgada, folha ensanguentada.
Rasgam-se as asas.
Quisera eu voar.
Nas paredes, sangue e o que os olhos não querem ver... Estou fechada em mim.
Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!...
As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas
Só a triste, coitadinha...
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha ...
Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua...
E fico a chorar com ela!
Florbela Espanca

Medo.
Medo de mim.
Conto os segundos, percorrendo o tempo.
Não há nada que nos faça voltar.
Gritarás.
Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.
(Alberto Caeiro- POESIA)
É natural que os sentimentos se apresentem reciclados.
Não é possível experimentar uma felicidade antiga
ou sentirmo-nos luminosos na construção de outros
tempos.
Agora, observo o mundo como se tivesse uma corda
enrolada no coração, e a memória apagasse
todas as imagens que alimentam
a minha transição humana
(Fernando Esteves Pinto- ENSAIO ENTRE PORTAS)
A moral não me ajuda. Nasci antinomista. Sou dos que foram feitos para as excepções, não para as leis. Mas enquanto vejo que nada há de mal naquilo que se faz, vejo que há qualquer coisa de errado naquilo em que nos tornamos. Ainda bem que o aprendi.
A religião não me ajuda. A fé que outros têm no que é invisível tenho eu naquilo que se pode ver e tocar. Os meus deuses moram em templos feitos pelo homem e o meu credo torna-se perfeito e completo dentro do círculo dos conhecimentos actuais. Credo talvez demasiado completo, pois como muitos daqueles ou todos que colocaram o Céu nesta terra, eu encontrei nela não só a beleza do Céu mas também o horror do Inferno. Quando penso na religião sinto que gostava de fundar uma ordem para os que não podem crer. Designar-se-ia Confraria dos Órfãos. No altar, sem velas, um padre em cujo coração não morava a paz, celebraria com pão profano e com cálise sem vinho. (...)
A razão não me ajuda. Diz-me que as leis que me condenaram estão erradas e são injustas; e o sistema sob o qual tenho sofrido é errado e injusto. Mas, de qualquer forma, tenho de fazer que estas coisas se tornem justas e certas para mim. E, exactamente como na Arte, em que só nos importamos com uma determinada coisa num determinado momento, assim também acontece com a evolução moral do nosso carácter. Tenho de fazer que tudo o que aconteceu se torne num bem para mim. (...) Não há uma única degradação do meu corpo que eu não deva tentar transformar em espiritualização da alma.
(Oscar Wilde- DE PROFUNDIS)
das lágrimas que me desdobram
a pele da face. face
abaixo da abóbada frágil dos
olhos, gasta pela poeira
intensa à superficie do
ar. das lágrimas que já não impedem a erecção
do olhar. modo vertical
de ser, traço que
se desfere entre o meu corpo e
o céu, único ponto onde
seguro me posso fixar
(Valter Hugo Mãe- ESTOU ESCONDIDO NA COR AMARGA DO FIM DA TARDE)
Esta noite sonhei:
Os ursos e as ursas comem meninos grandes. Os ursos comem-se uns aos outros como Deus os comeu. E trancou. Ao dar-lhes a condição de ursos.
Os músculos dos heróis desfazem-se nos pêlos do tapete. Partem-se em gemidos e roçares de tinta e papel. Até não restar mais nada que uma mancha.
E o olhar lânguido dos duendes tatua-se nos vivos. Faz-lhes calor. E impressão. Como se lhes tocassem nas plantas dos pés e fosse a nuca a arrepiar-se.
O homem-aranha e o pinóquio são/porque/têm/amigos/inimigos/diferentes. Guardam insectos crónicos dentro de si a perturbá-los. Microscópicos bichos que lhes conduzem os gestos. Seres que produzem micro-babas cancerígenas (...).
Mas os dois sentem o ferrete da doença até ao dia do esquecimento.
Os anjos não têm caudas. Porque a sua missão é retirar as dos homens de debaixo dos vestidos. Os anjos com caudas não são anjos. Somos nós a cantar mais alto do que a nossa condição permite. O mundo está cheio de anjos com cauda, mesmo que não existem. Mas isso é a ilusão natural dos que nascem aos gritos.
(...)
Esta noite sonhei.
(Possidónio Cachapa- SEGURA-TE AO MEU PEITO EM CHAMAS)
O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo.
(Vergílio Ferreira- PENSAR)
[Este pensamento é para ti, Fernando, que és escritor. É para ti, que escreves sobre o Amor. É para ti, que escreves sobre o Silêncio. É para ti, que escreves o Silêncio no Amor...ou o Amor silêncioso. Sandra]
faz-se tarde
e eu deixei de esperar-te.
todos os portos se fecham sobre mim
e a floresta adensa-se -
nenhuma clareira se abre à passagem dos animais
e do homem antigo.
são 4 horas da manhã de todos os relógios.
(José Agostinho Baptista- DESTE LADO ONDE)

Sim, sou eu. Sou eu esta rosa que cativa olhares na escuridão da beleza.
- Quem eu chamar, por favor, não venha!
Há mentiras e ilusões em tudo o que escrevo. Sou rosa endiabrada que vive de sangue. Sangue, este que bebo de meus espinhos, tão eficazes como gumes assassinos.
E dói demais saber o que sempre serei até a gentil morte amada me ceifar.
Dói demais ver os outros perecer, quando eu, rainha da mágoa, grito-lhes:
- SOLIDÃO
As gotas de orvalhos secam. Num esgar de maldição, as pétalas florescem, platonicamente, enfeitiçando as águas da lua.
Há sangue na lua...
Não quis que fosse assim
[Diz Dorian Gray:]
- Que importa o lapso de tempo na realidade decorrido? Só as pessoas banais é que necessitam de anos para se libertarem duma emoção. Um homem que é senhor de si pode pôr termo a uma mágoa com a mesma facilidade com que inventa um prazer. Eu não quero estar à mercê das minhas emoções. Quero utilizá-las para as gozar, para as dominar.
(Oscar Wilde- O RETRATO DE DORIAN GRAY)
Tornamo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas- agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendermos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)
Olhava para mim, sonhador, como um cego.
- Tenho uma teoria- explicou.- Defendo que o amor é uma coisa rara, a mais subtil e preciosa essência, difícil de encontrar; e que só aparece a poucos, por acaso, e uma vez por século, se tanto, como outros fenómenos igualmente inexplicáveis, aqueles de elevar-se alguém nos ares ou de um analfabeto citar Cícero em correcto latim. O amor, o verdadeiro, o extraordinário (...).
(Hélia Correia- A FENDA ERÓTICA)
Há dezoito anos, talvez dezanove, fugi. Quase sem dar por isso, dia após dia, fui-me habituando a ter-te apenas na imaginação, às vezes até a ser capaz de sentir o cheiro a flores silvestres da tua presença ou de responder ao teu sorriso dos pequenos traços no rosto. (...) Nunca escrevi sobre ti, por mais forte que fosse a sensação de que estavas perto, mesmo que apenas num lugar da minha imaginação. E se agora o faço, passados todos estes anos, não é porque tenha vencido uma barreira imensa, é pela revelação que acabo de ter. Quero que saibas que nem por um dia esqueci o tempo que passámos juntos, que nem por um dia deixei de arrepender-me de não ter lutado para que esse tempo continuasse, e que nunca hei-de perdoar-me por não ter esperado até que descesse o último passageiro do comboio-ladrão. Naquela manhã, há dezoito ou dezanove anos...
(António Manuel Venda- O MEDO LONGE DE TI)
Nós temos em nós, como um bloco de mármore para o escultor, uma infinidade de modos de ser. E vamo-los sendo na aprendizagem da vida e nos mil acidentes desse aprender. Mas sobretudo nas mil ideias que os outros semeiam em nós para irmos sabendo coisas e ter o gosto desse saber. Porque gostamos de saber sem jamais nos perguntarmos a razão desse gostar. É um gosto que se justifica por si próprio, que está aí como as pedras. Mas porque há-de saber-se a morte, que, aliás, nunca se aprende? E a angústia e a inquietação e os chamados problemas de consciência que, aliás, variam conforme as circunstâncias? Porque é que o saber é bom? Temos orgulho em sabermos, mas ninguém nos ensina a razão desse orgulho, a não ser pelo orgulho, mesmo que o resultado seja a doer. Ser homem, enfrentar o risco, ter mão no que nos rodeia e assim. O ignorante, se soubesse o seu não-saber, podia dar também as suas razões, como as dá o que assume a sua ignorância. Mas o mais difícil de aprender é a morte, que é o que devia ser mais fácil por no-la ensinar o quotidiano. E não apenas pelo seu impossível, mas pelo maior desmentido que ela nos inflige à importância do saber. Mas é para se ser importante que a gente sabe. E na morte não se tem já importância nenhuma. Sabê-la para quê?
(Vergílio Ferreira- PENSAR)

Ela está off-line mas continuo com a sua janela aberta.
Palavras gemem, acorrentadas à espera de serem lidas, mas jamais o serão.
Sei que a perdi para sempre.
Agora, novamente só, agarro-me à solidão.
Novos dias virão.
Só espero que ela perceba...só espero que tente compreender...
...
Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros...talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.
(Diário do último ano de Florbela Espanca)
Imagem de Andreev Alexey
Assim, caminho só. Sei dos espelhos de lua, a atracção lunar das águas.
E sinto-me farta. Farta dos rostos, do mundo, dos sentimentos que não chego a sentir.
Lá fora o silêncio é voz torturante. Não quero ouvir. Não quero ver. Não quero sentir...
Estou farta...Venha-se o fado amargo que me proíbe de cicatrizar. Voltarei aos braços das luas, onde sorridente nasci.
Deixei de sonhar, ingénua, com o coração palpitante nas mãos. Não tenho asas para o perdão e foram raros os dias onde alcancei um sorriso.
- Acabaram as palavras que enlevavam almas...
São vítreos, agora diante das águas cristalinas, meus olhos, que jamais chorarão.
- Calar-me-ei
À lua entrego-me, morrendo ao mundo que não me quis amar, sabendo que fui capaz de matar.
Se te falo é para melhor te ouvir
Se te ouço estou certo de ter compreendido
Se sorris é para melhor me invadir
Alcanço o mundo inteiro se me sorris
Se me uno a ti é para me continuar
Se vivermos tudo será como gostamos
Se eu te deixo recordar-nos-emos
E ao deixar-nos voltaremos a reencontrar-nos.
(Paul Éluard- ÚLTIMOS POEMAS DE AMOR)
- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois no meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo.
(Herberto Helder- OS PASSOS EM VOLTA)

Imagem de Andreev Alexey
A distância da lua é coerente. Nenhum ser deverá desejar alcançar o que somente sabe magoar...
- Não é hora da lua sangrar! Não por ti, meu lobo soturno...
"Há, minha senhora, com respeito ao que sucede neste mundo, três teoria distintas- que tudo é obra do Acaso, que tudo é obra de Deus, e que tudo é obra de várias coisas, combinadas ou entrecruzadas. Pensamos, em geral, em termos da nossa sensibilidade, e por isso tudo nos volve num problema do bem e do mal; há muito que eu mesmo sofro grandes calúnias por causa dessa interpretação. Parece não ter ainda ocorrido a ninguém que as relações entre as coisas- supondo que haja coisas e relações- são complicadas demais para que algum deus ou diabo as explique, ou ambas as expliquem."
(Fernando Pessoa- A HORA DO DIABO)

Imagem de Andreev Alexey
O nosso mundo está distante dos outros.
Falas o que só eu consigo ouvir e ambos sabemos das mentiras.
Há segredos e manchas de sangue. Fendas de profundos abismos onde nos julgamos encontrar. Mas não há salvação nas verdades.
E tu escreves-me. Eu penso-te.
As quimeras de sonhos impossíveis de realmente sentir.
É tudo mentira...é tudo mentira...
- Lobo solitário mata a rosa amaldiçoada.

Estaremos sempre sós. Não há lugar para as mentiras.
quando nasci. esperava que a vida.
me troxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me troxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era a escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.
(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUÍNAS)

Imagem de Anoitecido
(...) em todo o caso havia um só túnel, escuro e solitário; o meu, o túnel em que tinha transcorrido a minha infância, a minha juventude, toda a minha vida. E num desses troços transparentes do muro de pedra eu tinha visto esta rapariga e tinha acreditado ingenuamente que vinha por outro túnel paralelo ao meu, quando na realidade pertencia ao largo mundo, ao mundo sem limites dos que não vivem em túneis. (...) E então, enquanto eu avançava sempre pelo meu corredor, ela vivia lá fora a sua vida normal, a vida agitada dessa gente que vive lá fora, essa vida curiosa e absurda em que há bailes e festas e alegria e frivolidade. E às vezes sucedia que quando eu passava em frente a uma das minhas janelas ela estava esperando-me muda e silenciosa (porquê esperando-me? e porquê muda e silenciosa?); mas às vezes sucedia que ela não chegava a tempo ou se esquecia deste pobre ser encaixado, e então eu, com a cara apertada contra o muro de vidro via-a ao longe a sorrir ou a dançar despreocupadamente ou, o que era pior, não a via de todo e imaginava-a em lugares inacessíveis ou torpes. E então sentia que o meu destino era infinitamente mais solitário do que o tinha imaginado.
(Ernesto Sabato- O TÚNEL)
Não há portas para os territórios familiares da dor, não há como conter a violência dentro de um ninho de uma pertença. Há apenas a dor, cintilando como um clarão no chumbo do céu, chuva de estrelas cadentes sem História nem mártires reconhecíveis. Porque há sempre uma noite mais escura do que a escuridão do mundo. Mesmo para quem, como eu, nunca soube escavar até ao fundo dessa gruta negra, trans-siberiana, húmida, universal, a que chamamos coração.
(Inês Pedrosa- FICA COMIGO ESTA NOITE)
Tudo é apenas impostura: procurar o mínimo de imposturas, ficar na média, ou procurar o seu máximo. No primeiro caso, enganamos o Bem, querendo tornar a sua aquisição muito fácil; o Mal, impondo-lhe condições de combate excessivamente desfavoráveis. No segundo caso: enganamos o Bem, não aspirando a ele nem sequer no plano terrestre. No terceiro caso, enganamos o Bem colocando tanta distância quanta possível entre nós e ele; o Mal, esperando que pela sua suprema acentuação o possamos tornar inofensivo. Desde então, o melhor que poderemos fazer será agarrarmo-nos ao segundo caso; porque enganaremos sempre o bem, mas neste caso particular, não o Mal, pelo menos na aparência.
(Franz Kafka- ANTOLOGIA DE PÁGINAS ÍNTIMAS)

Imagem de Mentally Affected People
Vultos assombram a escuridão do quarto.
O cheiro a putrefacção ainda não se alastrou.
A luz não chega às sombras.
Há monstros à solta no silêncio.
Ninguém perceberá porque parti.
O vazio da morte persegue as recordações que teimam em nascer.
A cadeira que caiu não se levantará.
A vida desistiu das lágrimas no preciso momento em que não viu o sol nascer.
O sol se pusera há muito no seu pequeno mundo.
Não voltarei a ver o amanhecer.
Há maldições no quarto do adeus.
Não retornarei.
Se eu souber que devo sofrer perpetuamente, poderei acabar com a minha vida.
(Séneca)
Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela.
Sabe, apenas, que por instantes uma incandescência terrível cresce dentro de si, ergue-se, nomeia as coisas e o mundo, apaga sombras, revela os ossos muito antigos das palavras... de resto, mais nada.
É no escuro das casas que se debruça para o papel e escreve, como se fosse o último homem a fazê-lo.
O deserto alastra em seu redor. Está só, tudo esqueceu.
A pouco e pouco o seu olhar reiventa um rosto, devassa um coração- a noite põe-se a pulsar, sangra- e a precária escrita ensina-lhe como alcançar o defintivo silêncio.
Apenas deseja que o momento em que parar o coração- e num movimento derradeiro se confundir ao estrume da terra- tudo se apague: manuscritos, livros impressos, fotografias, bilhete de identidade, registo de nascimento, etc.
E da sua passagem nada reste, absolutamente nada. Nem mesmo a impressão digital sobre o rosto que o acaso da paixão o fez tocar.
(Al Berto- O ANJO MUDO)
Toda a vida que se cumpre esgota a comunicabilidade onde quer que se anuncie. Assim, a hora da sua verdade não é uma hora de comício, mas de solidão final. A máscara que nos defende não tanto contra os outros como contra nós próprios (...), essa máscara que é comédia, ainda quando de tragédia, é bem vã nos instantes derradeiros de qualquer situação, porque então os olhos que nos vêem não nos vêem de fora mas de dentro. Ah, estar só é terrível. E difícil: a própria solidão do espírito inventa a memória da fraternidade corpórea, relembra a presença dos outros, as opiniões dos outros, o seu olhar que nos fita e nos espera do lado de lá da provação. Por isso me ocorre muitas vezes que para um homem saber que voz última lhe fala, deveria ao menos ver-se flagrantemente à hora de uma morte abandonada, numa ilha deserta perdida.
(Vergílio Ferreira- CARTA AO FUTURO)
Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.
Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.
(José Agostinho Baptista- AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE)
Pedra a pedra edifiquei o desastre.
Todos os caminhos são o caminho de uma lágrima.
Deste musgo
faço a tua fria túnica rasgada e, se quiseres, é assim
o resto da terra.
(José Agostinho Baptista- PAIXÃO E CINZAS)
Sim, poucos seres tem havido mais naturais do que eu. O meu acordo com a vida era total, eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões. Particularmente a carne, a matéria, o físico, numa palavra, que desaponta ou desanima tantos homens no amor ou na solidão, dava-me, sem me escrevizar, alegrias iguais. Tinha sido feito para ter um corpo. Daí esta harmonia em mim próprio, este autodomínio sem esforço que as pessoas sentiam, e que, segundo confessavam por vezes, as ajudava a viver. Buscavam, pois, a minha companhia. (...) Na verdade, à força de ser homem, com tanta plenitude e simplicidade, achava-me um pouco super-homem.
(Albert Camus- A QUEDA)

(Fernando Esteves Pinto)
As palavras formam sucessivas camadas que me encobrem perante os outros, sinto-me sufocar pela minha própria verbalidade, encho-me de pudor com facilidade, quando falo com alguém sinto os lábios incharem como se as palavras proferidas por mim tivessem fermento, é uma sensação monstruosa, a frontalidade provoca-me um aquecimento paralizante, tenho a certeza de que não me importaria de viver num mundo sem palavras e que também não houvesse ninguém que as pronunciasse.
- O que andas a escrever?- quis saber a rapariga, jogando o corpo para as costas da cadeira.
Depois de alguma confusão ou atordoamento, o rapaz estendeu o corpo sobre a mesa e disse:
- Uma série de coisas que me fazem sentir mal.
- E porque as escreves?
- Porque se não as escrevesse, também me sentiria mal.
- Não sei como te ajudar.
- Só eu posso resolver o meu problema.
- Mas se a escrita te põe nesse estado, por que não desistes?
- Desistir de escrever ou desistir de viver?
(Fernando Esteves Pinto- CONVERSAS TERMINAIS)
Esqueci-me nestes últimos dias de escrever muitas coisas acerca de mim próprio, meio por preguiça (durmo muito e profundamente de dia, tenho durante o sono um peso maior) meio por medo de trair o meu conhecimento de mim próprio. Este receio é justificado, um conhecimento de nós só poderia ser definitivamente fixado por notas se tal pudesse fazer-se com a maior integridade, até nas menores consequências, ao mesmo tempo que com a mais inteira veracidade. Isso não se faz de modo algum- e sou em todo o caso incapaz- então, o que se anotou substitui, intencionalmente e com toda a força do que é fixado, o sentimento puramente geral, tanto e tão bem que o sentimento justo desaparece, enquanto se reconhece demasiado tarde a não-valia do que se anotou.
(Franz Kafka- ANTOLOGIA DE PÁGINAS ÍNTIMAS)