novembro 30, 2003

Luar 2

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VÍBORA

Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.

(Almeida Garrett- FOLHAS CAÍDAS)

Publicado por void em 08:52 PM | Comentários (1) | TrackBack

OS LIMITES DA INFELICIDADE

É horrível meus olhos de repente
Não focam além de mim
Faço gestos no vácuo
Sou como um cego nato
Testemunha da sua única noite

É horrível como de repente fica
Desmedida do tempo a vida
O meu deserto colide com o espaço
Deserto podre lívido deserto
Da minha própria morte que me faz ciúme

Trago no meu corpo vivo as ruínas do amor a minha morta
No seu vestido com manchas de sangue na gola

(Paul Éluard- ÚLTIMOS POEMAS DE AMOR)

Publicado por void em 10:17 AM | Comentários (0) | TrackBack

O MUNDO ACABOU

E o mundo acabou. Inexplicavelmente, ou sem uma explicação que possa ser dita e entendida. O mundo acabou, como num instante em que se fechassem os olhos e não se visse sequer o que se vê com os olhos fechados. (...). O mundo acabou e nem o tempo prosseguiu. Os minutos não passavam porque não existiam, como não existiam os momentos ou os olhares. O infinito era o infinito de não ser nem infinito, nem nada. A morte não existia no meio de todas as coisas mortas. Não existiam os cadáveres. Tinha morrido a memória da morte. (...). O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar.

(José Luís Peixoto- NENHUM OLHAR)

Publicado por void em 10:06 AM | Comentários (3) | TrackBack

novembro 29, 2003

Angel of Sorrow

Embrace me my angel,
who's eyes enlightens my world.
Let me feel your golden hair,
so soft, so beautiful.

Take my hand and follow me
to the realm of silence.
Let the light of all light devour us.

Spread out your wings,
and take me to this paradise.
Spread your wings and let us fly together.
Fly together...

Embrace me my angel

(Arcana- DARK AGE OF REASON)

Publicado por void em 08:21 PM | Comentários (2) | TrackBack

GOLPES E MORTE

Odeio os golpes com a mesma intensidade com que odeio a morte. Golpes e morte são sinónimos. Ambos são amantes do nada. O nada mora nesta casa. A casa está cheia de golpes. A toda a hora. O nada é o único intensamente amado, intensamente querido, intensamente subornado. Fica feliz com cada bater de porta, com cada olhar gélido de morte. Dantes ainda tinha um cantinho no sótão para a esperança, duas ou três palavras alegres que fugiam pelos buracos das fechaduras. Mas as portas foram esquecendo que a madeira arde no fogo e prenderam as chamas de um silêncio tenebroso, atascado na garganta, trespassado por um ferro de impotência. E o silêncio fez-se imperador da casa. Lembro-me que foi então que, sem querer, comecei a odiar. Com cada ódio ia esquecendo palavras como tesouro, amizade, respeito, esperança. E o nada entrou triunfante pelo limiar do absurdo. E a casa era toda sua. Desde então vivo prisioneira e não tenho mais direito que este ódio intenso que atravessa o silêncio, que fulmina a vida, que me corrói a cada golpe, a cada pancada de pânico, a cada iniciação à morte.

(Beatriz Dacosta- Texto publicado na revista PERIFÉRICA, nº 6, Verão de 2003).

Publicado por void em 01:40 PM | Comentários (0) | TrackBack

Luar

Publicado por void em 01:15 AM | Comentários (1) | TrackBack

só neste vazio só meu


Que aconteceu?
Por que correm estas lágrimas em mim?
Sabor amargo e desgostoso da escuridão, desta solidão, somente viva na morte.

Só, Só, Só...

E quando tudo se esvai sei que nada é possível. E quando a Lua abandona as almas perdidas, sei que não há salvação possível!

Sinto-me perdida no vazio que os braços da noite largaram ao desespero.

E só, quebro. E só desfaço, toda a vida que ousou respirar, toda a veia que continuou correndo....

É no vazio que caio.
A espera foi-se.
O tempo partiu.
O passado esqueceu-se.
O futuro não veio...
E esta dor...esta dor não pará.
Esta dor continua... ceifando vidas no limiar da podridão humana.

Algo restou de mim.
Um pedaço de lua caída no embalo de um sonho.
Só lembrada, para as palavras evasivas e as folhas vazias, recordarem a dor de nada sentir, da nada ter...
Porque a vida acaba, mas o choro continua, perseguindo.
Perseguindo-me!!
E não quero voltar a acreditar
Não quero retornar o caminho
Não quero, - NÃO POSSO voltar a amar.

Estou cansada da espera.

É o fim...

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novembro 28, 2003

O INSTANTE DA MORTE...E O SEU SABOREAR

Recordo-me de um jovem- de um homem ainda jovem- impedido de morrer pela própria morte- e talvez por erro da injustiça. (...)
Sei- sabê-lo-ei- que aquele que os Alemães já tinham na mira, não esperando sequer a ordem final, experimentou um sentimento de extraordinária beleza, uma espécie de beatude (nada, porém, que se parecesse com felicidade)- alegria soberana? O encontro da morte e da morte?
No seu lugar, não tentarei analisar este sentimento de leveza. De repente, ele era talvez invencível. Morto- imortal. Talvez o êxtase. Ou antes o sentimento de compaixão pela humanidade sofredora, a felicidade de não ser imortal nem eterno. Doravante ficou ligado à morte, por uma amizade sub-reptícia. (...)
Era isto a guerra: a vida para uns, para outros, a crueldade do assassinato.
Permanecia todavia, como no momento em que o fuzilamento estava iminente, o sentimento de leveza que não conseguirei traduzir: liberto da vida? o infinito que se abre? Nem felicidade, nem infelicidade. Nem a ausência de temor e talvez já o passo/não passo para-além. Sei, imagino que este sentimento inanalisável mudou o que lhe restava da existência. Como se a morte fora dele não pudesse doravante senão embater contra a morte nele. "Estou vivo. Não, estás morto." (...)
Que importa. Apenas permanece o sentimento de leveza que é a própria morte ou, para o dizer mais precisamente, o instante da minha morte doravante sempre iminente.

(Maurice Blanchot- O INSTANTE DA MINHA MORTE)

Publicado por void em 08:32 PM | Comentários (1) | TrackBack

ESTADO DE ESTAR SOZINHO

estou sozinho de olhos abertos para a escuridão. estou sozinho.
estou sozinho e nunca aprendi a estar sozinho.
estou sozinho
sinto falta de palavras. estou sozinho.
estou sozinho.
sinto falta de uns olhos onde possa imaginar.
estou sozinho.
sinto falta de mim em mim. estou sozinho.
estou sozinho.
estou sozinho.

(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUÍNAS)


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novembro 27, 2003

NOITE

é só o que a noite vem
buscar, o oco das mãos
de onde retiro o dia

(Valter Hugo Mãe- ESTOU ESCONDIDO NA COR AMARGA DO FIM DA TARDE)

Publicado por void em 08:32 PM | Comentários (4) | TrackBack

TEMPO...E NADA DE MIM

Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em cousa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.

(Alberto Caeiro- POESIA)

Publicado por void em 08:26 PM | Comentários (0) | TrackBack

O DIABO: "APRESENTO-ME"

Desde o princípio do mundo que me insultam e me caluniam. Os mesmos poetas- por natureza meus amigos- que me defendem, não me têm defendido bem. (...). As Igrejas abominam-me. Os crentes tremem do meu nome. Mas tenho, quer queiram quer não, um papel no mundo. Nem sou o revoltado contra Deus, nem o espírito que nega. Sou o Deus da Imaginação, perdido porque não crio. (...). Sou o Espírito que cria sem criar, cuja voz é um fumo, e cuja alma é um erro. Deus criou-me para que eu o imitasse de noite. Ele é o Sol, eu sou a Lua. Minha luz paira sobre tudo quanto é fútil ou findo, fogo-fátuo, margens de rio, pântanos e sombras. (...)

(Fernando Pessoa- A HORA DO DIABO)

Publicado por void em 03:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 25, 2003

NOITE DE SAUDADE

A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a bênção do luar...
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!...Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

(Florbela Espanca- LIVRO DE MÁGOAS)

Publicado por void em 06:36 PM | Comentários (0) | TrackBack

SOMOS MORTE

Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.
Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num sentido verdadeiro.
Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. (...). O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.
Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias e filosofias.

(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

Publicado por void em 05:51 PM | Comentários (4) | TrackBack

novembro 22, 2003

NIN

Nine Inch Nails---The Perfect Drug

"i got my head but my head is unravelling
cant keep control can't keep track of where it's travelling
i got my heart but my heart's no good
you're the only one that's understood

i come along but i dont know where you're taking me
i shouldn't go but you're wrenching dragging shaking me
turn off the sun pull the stars from the sky
the more i give to you the more i die

and i want you

you are the perfect drug
the perfect drug
the perfect drug
the perfect drug

you make me hard when i'm all soft inside
i see the truth when i'm all stupid-eyed
the arrow goes straight through my heart
without you everything just falls apart

my blood just wants to say hello to you
my fear is warm to get inside of you
my soul is so afraid to realize
how every little bit is left of me

and i want you

you are the perfect drug
the perfect drug
the perfect drug
the perfect drug

take me with you

without you everything just falls apart

it's not as much fun to pick up the pieces"

take me with you

without you everything just falls apart
it's not as much fun to pick up the pieces...

Publicado por void em 09:09 PM | Comentários (3) | TrackBack

novembro 21, 2003

Velha, do outro lado

Lágrimas soltas no vento e acorrentadas nestes arpões de masoquismo humano e perverso. Sofrer, percorrer em vão caminhos já percorridos. As minhas mãos são velhas, do outro lado da janela, de quem já tocou de mais. Os meus olhos sangram, lá do outro lado, antevendo a morte.
- já vi demais!...
Estou velha de mais para sorrir, para apanhar estes fragmentos de asa partida, que me rodeiam, soturnas, esperando forças, que não chegam mais.
Sinto-me podre. Como se os meus pés estivessem rasgados no tempo...E ainda assim, respiro sofregamente, tentando ver além do que já vi. Tentando encontrar algo que nunca na vida encontrei.
Estou cansada.
Perdi-me há mto, nos segundos, na espera. Agora tudo foge devagarinho e resto eu.

Ashes to ashes, we all fall down

Publicado por void em 09:33 PM | Comentários (2) | TrackBack

novembro 16, 2003

Desculpa-me

E, não consigo....Desculpa se falhei. Desculpa se me deixei cair. Desculpa se não estive aí. Desculpa se sou assim. Desculpa eu chorar. Desculpa todos os passos que ousei dar em direcção a ti. Desculpa todas as vezes que me cortei. Desculpa este sangue que corre nos meus pulsos rasgados. Desculpa se parto. Desculpa. Desculpa-me...

Publicado por void em 12:23 AM | Comentários (9) | TrackBack

novembro 09, 2003

Estive estou e estarei só...

Lágrimas surdas e indolentes sussurram no crepitar de um corpo.
Estive, estou e estarei só
Além dos segundos que morrem, nada é diferente em mim.
Tudo se perdeu incapaz de amar.

E eu,
morro aqui.
De volta às páginas soltas despeço-me.
Perdi-me na procura daquilo que sempre encontrei: O Vazio.

Publicado por void em 07:34 PM | Comentários (5) | TrackBack

silêncio imortal

Caminhos percorridos onde nada encontro.
Padrões desconhecidos.
Gritos surdos no meu vazio.

Palavras vazias.
Silêncio.
Silêncio...
Perder-me-ei neste silêncio.
E afogo, e sufoco, e grito.
Mas nenhum som abraça alguém, em nenhum lugar.
Seria recolhida dos destroços humanos nalgum desejo de respirar?
-Leva-me. Leva-me....

Publicado por void em 07:33 PM | Comentários (5) | TrackBack

novembro 02, 2003

Estás aí?...


Corvos alimentam as almas que partiram...as almas que ficaram...
Estou só

Estou só...
-Estás aí?

Estou só...


Almas que arrastam vozes doloridas...

Publicado por void em 03:08 PM | Comentários (3) | TrackBack

MANIA DE SER EU


Tenho a mania de que entendo
A ti e a todos,
A mim ninguém o faz.
Tenho a mania de ser estranho, ter medo.
Ser dois e não ser o que é suposto
(... de me esconder, de não ser capaz).

Tenho a mania de me envolver em ilusões.
De as criar, de não conseguir afastá-las.
De me meter em situações
Tão estranhas que me custa explicá-las.

Outra mania que tenho, é a de ser ingênuo,
A de acreditar...
Tenho a mania de confiar, de ser cego!
De dormir quando devo acordar.

Tenho a mania de ficar quieto,
De sentir dor e gritar só p'ra dentro,
De chorar por versos o que me dói no peito...
De ser sozinho e me arrastar em pensamentos.

Tenho a mania de cumprimentar as pessoas na rua,
De engolir sapos e pensar: "a seguir vai ser diferente!”
O "a seguir" não existe, é uma verdade dura...
Por mania, insisto nesse "erro" constantemente.

Tenho a mania de pensar que sou normal
E acreditar que sim!
Aquela velha mania de que tudo corre bem no final
Não afasta a incerteza que vive em mim.

Apaixono-me facilmente...
É uma mania que não compreendo.
Ser vulnerável, ouvir a serpente...
São muitas as feridas, mas nunca aprendo.

"Será que sou importante p'ra ti como és p'ra mim?"
Ponho me às vezes a pensar...
"Será que deixava de existir se não dissesses que sim?"
Insegurança, uma das minhas maiores manias se calhar...

Sinto uma solidão que muitas vezes nem existe,
São fantasmas que me atormentam.
Tento não escutar, mas meu medo persiste;
Surgem então as lágrimas que me alimentam.
...Às vezes é tudo que tenho, tudo que é meu!
Às vezes dói-me imenso esta mania de ser eu.

edwin "eDDy" filipe
14/15102003

Publicado por void em 12:12 AM | Comentários (4) | TrackBack