outubro 26, 2003

Cold


Outro inverno.
Só, passeio pelas ruas abandonadas de minha infância.
Tudo morre na passagem de meus pés. Tudo é esquecido neste tempo que não existe onde enlouqueço.

- Óh solidão, deixa-me só.

Enlouqueço com os dias. Enlouqueço com o abraço mortal da solidão. Nenhum rosto, nenhum corpo que se apodere da minha vida que é morte, que é nada, que é vazia.

Publicado por void em 01:23 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 14, 2003

O poeta é um fingidor

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


De Fernando Pessoa

Publicado por void em 09:43 AM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 11, 2003

Imcompreensão


Não compreendo estes sentimentos que me devoram. Sou percorrida por algo que grita. Algo que grita trespassando-me dolorosamente:
-Vive!
-Morre!
E já não sei o que fazer....Não sei se hei-de chorar, se hei-de gritar, se hei-de ignorar...é um vazio, uma ignorância e uma ânsia. Sim, ela. Ânsia de algo mais que isto. Algo mais que respirar, que caminhar errante no passado de alguma memória que já cicatrizou. Algo mais que sofrer fastidiosamente na minha solidão, na minha incompreensão.
Não sei se sou, nem sei se cheguei a ser. Estou aqui navegando pelas prostitutas páginas brancas que se entregam às minhas mãos esfomeadas não sabendo como expressar isto que me amaldiçoa...
E desejo tanto fugir! Chorar perdidamente e fugir! Envolver-me, desaparecer. Acreditar que tenho asas para voar. Voar para longe do ar putrefacto em que morro, e abraçar tudo aquilo que nunca foi.
A vida corre nos meus pulsos. Pq me apetece, então, cortá-la?

Publicado por void em 12:35 AM | Comentários (4) | TrackBack