Deixo-vos com mais uma escolha de Diogo Freitas do Amaral. Desta vez só uma: o recordar de um poeta de referência do século XIX. Uma das vozes do Romantismo: Almeida Garrett.

AS MINHAS ASAS
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
- Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
- Veio a ambição, coas grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voando ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi, entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
- Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena, me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
[Almeida Garrett- Porto, 1799-1854]
[Diogo Freitas do Amaral (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol. 3. 2ª ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografia de José Marafona]
Foi óptimo entrar aqui e deparar-me com um dos meus autores preferidos e bem como um dos meus poemas predilectos. Diria: em cheio.
Afixado por: AlmaAzul em junho 1, 2005 05:33 AMGarrett continua em muitos dos seus poemas a dizer o que de mais belo pode dizer-se sobre coisas tão lindas como essa da passagem a fase prosaica da vida e da despedida da idade da inocência.
Bwla escolha!
{ …
venho aqui em silêncio [quase sempre; descalço] e grito … e leio em voz alta … e profundo [realço] que gosto e aqui me sinto © de[mente]
beijos*
… }
Encontrando-me num abismo cruel procurei por acalento e deparei-me com esse abismo mágico que é esse poema encantador.Adorei! Voltarei sempre...
Afixado por: Cibele em junho 26, 2005 04:31 AM