Inicio esta 2ª série de edições de poemas da colecção "Os poemas da minha vida", lançada pelo jornal "Público", com um conjunto de escolhas feitas por Diogo Freitas do Amaral, actual Ministro dos Negócios Estrangeiros. Do prefácio a esta edição (que é já a 2ª), extraio as seguintes palavras:
"Interpretando à letra o mote desta colecção- "os poemas da minha vida"-, não tive qualquer preocupação em seleccionar os melhores poemas, ou os mais representativos, ou os mais louvados pelos especialistas, antes me norteou o propósito, puramente subjectivo, de escolher simplesmente as poesias de que mais gosto. Quer dizer: as que me fazem pensar, as que me fazem sentir, as que me fazem vibrar."
Pois bem, vamos então familiarizar-nos com algumas destas escolhas. Para já, e para um primeiro post, os poemas...

SE
Se és capaz de manter o sangue-frio
enquanto outros à tua volta o estão perdendo
e deitando-se as culpas;
Se és capaz de fiar-te em ti próprio
quando todos duvidam de ti
- e no entanto perdoares que duvidem;
Se és capaz de esperar sem cansar a esperança,
e de não caluniar os que te caluniam,
e de não pagar ódio por ódio
- tudo isto sem dar-te ares de modelo dos bons;
Se és capaz de sonhar
sem que o sonho te domine,
e de pensar, sem reduzir o pensamento a vício;
Se és capaz de afrontar o Triunfo e o Desastre
sem fazer distinção entre estes dois impostores;
Se és capaz de sofrer que o ideal que sonhaste
o transformem canalhas em ratoeiras de tolos;
ou de ver destruído o ideal da vida inteira
e construí-lo outra vez com ferramentas gastas;
Se és capaz de fazer do que tens um montinho
e de tudo arriscar numa carta ou num dado,
e perder, e começar de novo o teu caminho,
sem que te oiça um suspiro quem seguir a teu lado;
Se és capaz de apelar para músculo e nervo
e fazê-los servir, se já quase não servem,
aguentando-te assim quando nada em ti resta,
a não ser a Vontade, que te diz: aguenta!
Se és capaz de aproximar-te do povo e ficar digno,
ou de passear com reis conservando-te humilde;
Se não pode abalar-te o amigo ou inimigo;
se todos contam contigo e não erram as contas;
se és capaz de preencher o minuto que foge
com sessenta segundos de tarefa acertada;
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
será teu tudo o que nela existe,
e não receies que to tomem...
Mas (ainda melhor que tudo isto)
se assim fores, serás um homem!
[Rudyard Kipling- Bombaim, Índia, 1865-1936]

PORQUE
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
[Sophia de Mello Breyner Andresen- Porto, 1919-2004]
[Diogo Freitas do Amaral (comp.)- OS POEMAS DA MINHA VIDA. Vol.. 3. 2ª Ed. Lisboa: Público, 2005 (Col. "Os poemas da minha vida"). Fotografias de Carlos Morales-Mengotti]
Confesso que não gosto muito do Kipling, e que, principalmente, acho uma bajulação do Público aos políticos e figuras públicas a publicação desta colecção. Que me interessam os poemas da vida do Mário Soares, do Freitas ou de qualquer outro político? Parece-me mais uma atitude de subserviência do jornalismo ao poder político, que em Portugal está sempre a ocorrer, ou mesmo uma operação de charme para tornar determinadas pessoas simpáticas aos nossos olhos.
Sandra, é apenas a minha opinião, o que não quer dizer que não aprecie o teu trabalho (pelo contrário). Beijoka grande*
Karin:
este blog é um espaço de liberdade. Neste sentido a opinião que aqui deixaste, porque apresentada de forma correcta, é absolutamente aceite, sem qualquer tipo de problemas. Pessoalmente, tenho uma opinião diferente da tua.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em maio 30, 2005 08:18 PMPessoalmente, prefero os "poemas" da tua vida.
É por eles que vou passando por cá.
Talvez partilhe da opinião acima, daí a minha "revolta" :)
Afixado por: carlos em maio 31, 2005 11:52 AMContinuas impecavel, na tua forma de conduzir esse blog. Eu pessoalmente acredito que a liberdade é o que nos permite expressar e agir de acordo com o que sentimos, gosto de passar por cá, mesmo estando ausente de ti, gosto de sentir essa presença que foi onde te conheci. Isso é demogracia, um abraço da Poeta Trajano
Afixado por: em maio 31, 2005 06:16 PMContinuas impecavel, na tua forma de conduzir esse blog. Eu pessoalmente acredito que a liberdade é o que nos permite expressar e agir de acordo com o que sentimos, gosto de passar por cá, mesmo estando ausente de ti, gosto de sentir essa presença que foi onde te conheci. Isso é demogracia, um abraço da Poeta Trajano
Afixado por: em maio 31, 2005 06:16 PMCarlos:
volta sempre que te apetecer por aquilo que este blog é na sua totalidade. Estão cá poemas e textos que aprecio particularmente por uma ou outra razão. É uma questão de conjunto não de particulares. Volta por isto. É o que conta.
Um grande beijinho :)
Afixado por: Sandra em maio 31, 2005 08:58 PMLilia:
gostei muito deste teu regresso. Eu disse-te: a ausência não é inevitável. Não tem que ser. Seria bom que voltasses ou fosses voltando. Tu sabes a minha opinião.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em maio 31, 2005 09:01 PM