Quanto ao segundo texto, eis a minha escolha:

Uma história.
Nem sempre nos conseguimos lembrar daquilo que um dia nos deu um sorriso, e muito menos daquilo que o roubou do nosso rosto. A minha voz está rouca, sinto como um silêncio de ausência, não há vontade de falar. Cerro os dentes e os punhos e procuro o grito, mas fico em silêncio.
Apetece-me um cigarro, mas não adianta procurar nos bolsos do casaco ou nos bolsos das calças. Eu e o tabaco zangámo-nos e cortámos relações. No entanto não o consigo esquecer. Sabia-me bem entupir-me de fumo, sentir o tabaco abrasar-me por dentro, e brincar com o fumo branco, desvanecendo-me junto a ele, perder-me na fumaça como perdido ando em minha cabeça; no que quero; no que ouço; no que quero fazer; no que vejo fugir-me entre os dedos.
Sinto vontade de contar uma histórias sem final feliz; sem princesas nem reis; bruxas ou fadas; sem sonho; sem fantasia nem fábulas, apenas um fundo opaco indefinido, e uma voz rouca e apagada de um locutor de rádio esquecido no meio de sucessivos cigarros e jingles publicitários foleiros.
Uma história sem pés nem cabeça, ausente de nexo, fora das estruturas convencionais e qualquer porra de happy end!
Cerro os dentes e os punhos, fecho os olhos e exorcizo as dores na tua imagem no nosso almoço juntos. O teu sorriso; os teus dedos entrelaçados nos meus, a tua voz... cerro ainda mais os dentes e fecho os punhos ainda com mais força. Estás mais nítida. Procuro agarrar-te e tenho-te em meus braços alguns minutos, algumas horas tão curtas e escassas, que ainda mal te sinto junto a mim, já apenas sinto o teu beijo de despedida, e vejo como o teu carro se afasta em direcção oposta à vontade de ficarmos mais tempo abraçados.
A história baralha-se em si mesma, perde-se no seu sentido oposto e apaga-se num happy end inútil.
(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)
Luís: muito obrigada por teres aceite tomar parte desta iniciativa "recheando" os domingos aqui no Abismo. Os teus textos foram muito enriquecedores pelo que possibilitaram de reflexão e, simultaneamente, de evasão para aqueles que por aqui passaram. Julgo que os comentários que foram deixados provaram isso mesmo. Certamente que o que não foi escrito por muitos que leram os teus trabalhos tem também o seu significado em termos de impacto positivo. Os teus textos não passam despercebidos. O que lhes consegues imprimir de muito próprio tornam-nos uma mais-valia incontornável. Um grande beijinho :)
Para a semana... uma convidada. Uma convidada com um outro estilo. O que vos posso dizer para já? ... Nada. Apareçam e revelem-se ;)
Uma história... será mesmo (?) ou o sentimento diário, a saudade que nos aperta, que nos faz lembrar, que nos faz sentir, que nos cerra os dentes, que nos faz sorrir...
Bem... a mim não me apetece um cigarro... eu não fumo.
Obrigada pela partilha e, um resto de bom domingo a todos
Abraço :-)
Desde já o meu obrigado a todos os que leram os textos que a sandra escolheu para os últimos domingos. Peço desculpa por não ter sido tão assíduo como deveria, mas fiz o que me foi possível, comentando alguns textos e respondendo aos comentários colocados. Deixo.te um abraço e um beijo sandra, e a todos os outros um abraço.
luis
Afixado por: contador de histórias em maio 29, 2005 08:30 PM