maio 29, 2005

PORTAS PARA OUTRO LADO...

Porque hoje é o dia de nos despedirmos do Luís, deixo-vos com mais dois textos da sua autoria. Este primeiro chamou-me de imediato a atenção assim que o li: pelo que é no seu conjunto e por cada particular (metafórico) que o vai enriquecendo e particularizando mais e mais. O impacto foi imediato. Leiam agora vocês:

Numas mãos ensanguentadas, um prazer quente de te ver morrer, de ver como os teus olhos ficam secos e suspensos no último rosto que irás ver, o meu. A tua morte entrelaçada nos meus dedos cheira a medo, mistura-se com o teu perfume a campo e príncipios de carne morta. O aroma delicia-me e abre-me o apetite de te matar uma e outra vez. Despedaçar o teu corpo e espalhá-lo pelos cantos da casa como ambientadores com cheiro a morte e pitadas de saudade. Com o teu sangue salpico as paredes dando lugar a um novo género de pintura, talvez um pós modernismo macabro, uma pintura feita de restos de ti. Amputo as mãos do teu cadáver e faço delas maçanetas para as portas da sala escura que tu detestas, aquela sala de paredes negras de humidade com apenas uma cadeira ao centro e uma mesa com um cinzeiro em repouso. Uma janela para o interior do meu próprio inferno pessoal. A tua carcaça irá servir de espanta espíritos...


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em maio 29, 2005 10:42 AM
Comentários

A primeira vez que li este texto, impressionei-me. Achei nele uma raiva contida, um amor tão grande, que se transformou em algo terrivel... hohe, à luz do sol e, ainda com o cheiro do mar, que enebria os meus sentidos,recordo um filme que vi há anos, japonês... creio que o Império dos Sentidos... nele o desejo é retratado, ao mais alto grau...até à morte...

Lembrei-me...

Um abraço :-)

Afixado por: Menina_marota em maio 29, 2005 06:08 PM