
Caros colegas:
Este ser híbrido que faço por ser - biólogo e escritor - me tem trazido pouco rendimento em termos de currículo académico e científico (sou hoje, por desejo assumido, uma verdadeira desautoridade científica). Essa condição, porém me tem trazido outras gratificações. O ser de um continente que ainda escuta (África está disponível para conversar até com os mortos) me trouxe um estar mais atento a essas outras coisas que parecem estar para além da ciência. Não temos que acreditar nessas "outras coisas". Temos apenas que estar disponíveis.
E faço aqui, em família, uma confissão: me entristece o quanto fomos deixando de escutar. Deixámos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos. E deixámos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficámos surdos pelo excesso de palavras, ficámos autistas pelo excesso de informação. A natureza converteu-se em retórica, num emblema, num anúncio de televisão. Falamos dela, não a vivemos. A natureza, ela própria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana é não ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas. Falei dos pecados da Biologia. Mas eu não trocaria esta janela por nenhuma outra. A Biologia ensinou-me coisas fundamentais. Uma delas foi a humildade. Esta nossa ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com ela entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras mas em vidas.
A Biologia me alimentou a escrita literária como se fosse um desses velhos contadores não de histórias mas de sabedorias. E reconheci lições que já nos tinham sido passadas quando ainda não tínhamos sido dados à luz. No redondo do ventre materno, já ali aprendíamos o ritmo e os ciclos do tempo. Essa foi a nossa primeira lição de música. O coração - esse que a literatura elegeu como sede das paixões -, o coração é o primeiro órgão a formar-se em morfogénese. Ao vigésimo segundo dia da nossa existência esse músculo começa a bater. É o primeiro som que não escutamos - nós já escutávamos um outro coração, esse coração maior cuja presença reinventaremos durante toda a nossa existência -, mas é o primeiro som que produzimos. Antes da noção da Luz, o nosso corpo aprende a ideia do Tempo. Com vinte e dois dias, aprendemos que essa dança a que chamamos Vida se fará ao compasso de um tambor feito da nossa própria carne.
(Mia Couto- PENSATEMPOS. Edição: Editorial Caminho, 2005. Fotografia de Alberto Monteiro)
Olá!
Agora estou em wwwlimite.blogspot.com
Aquele abração do
Semog
Adorei ler este texto e fiquei com vontade de ler todo o resto ... Interessantíssimo e muito bem escrito. Um beijo.
Afixado por: Pink em maio 28, 2005 11:08 PMTudo o que o Mia couto escreve é bom.
Este texto é um bom exemplo disso.
Beijo***
BOM,MUITO BOM
Afixado por: carlos silva em junho 26, 2005 09:27 AM