
XXX
Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.
O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.
Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição.
XXXI
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me
Porque não me aceito a sério,
Porque só sou essa cousa odiosa, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma...
XLIV
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isso significa,
Mas estaco e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme,
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez.
XLVIII
Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.
Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvores, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.
(Alberto Caeiro- POESIA. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona).
E com mais este conjunto de poemas dou por concluída aquela que é a edição global proposta. Espero que as minhas escolhas vos tenham agradado e estimulado o suficiente para lerem ou relerem Caeiro e... Pessoa. Ambos, num só, portanto. Fiquem bem! :)
É um prazer deixar-me "guiar" por ti aqui... entre palavras e imagens. Entrar aqui faz-me bem à alma.
***azuis
Caeiro/Pessoa traz-me sempre à memória os tempos da minha infância, e recorda-me o poder místico renovador que a Natureza tem sobre mim. Fiquei com saudades (saudáveis) das minhas serras algarvias :)
Beijinhos
em cheio void.
alberto caeiro/fernando pessoa é o livro que está sempre ao lado do computador e de onde várias vezes tiro poemas ou frases para enriquecer os post's.
muito obrigada por mais esta 'voltinha' pelo nosso poeta incontornável
beijos e bom fim de semana
riquita
Esse ser surpreendente (para mim...) que é Pessoa.
Foi bom recordá-lo aqui, eu que o leio tantas vezes...
Abraço :-)
Afixado por: Menina_marota em maio 29, 2005 06:15 PM