maio 27, 2005

O GUARDADOR DE REBANHOS (4)

XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...


XXIV

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.


XXVI

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


(Alberto Caeiro- POESIA. Edição: Assírio & Alvim, 2001 (Obras de Fernando Pessoa/18). Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em maio 27, 2005 10:03 AM
Comentários

Ler Caeiro devia ser como apanhar um raio de sol, ou bátega de água, ou mergulhar numa onda, ou cheirar uma flor colhida do bosque.
Ler Caeiro é reaprender a olhar para aquilo é belo e simples.
Felicito-te pelo bom gosto de gostares de Caeiro.
Um beijo.

Afixado por: manuel em maio 27, 2005 10:44 AM

Ler Cairo é olhar simplesmente. :)
***azuis

Afixado por: AlmaAzul em maio 27, 2005 08:27 PM

Acho que não preciso comentar. Bastará dizer que tem sido para mim um deleite vir aqui , apreciar as fotos e deixar-me levar pelas palavras de Caeiro que tens seleccionado. Momentos belos esses! Um beijo e bom fim de semana.

Afixado por: Pink em maio 27, 2005 09:34 PM