maio 18, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (5)

Sei, sim, que te assusto, insinuas que faço da cama o princípio e o fim da vida, e que o teu corpo é o evangelho sobre o qual se constroem as palavras habitadas em mim pela primeira vez. Se é assim, toma-me como sou. Transige com a minha volúpia. Aceita viver com uma mulher perdida no pecado de amar. Ah, hás de dizer, até tu falas em pecado? Sim, falo, cometo, vivo, devoro, e quero. E que tens tu com isso? Pecado é a tua boca, o teu sexo, o teu peito, os teus pêlos, a testa franzida quando vais gritar de gozo. O que querias, que jamais tivesse exergado o teu rosto quando me amas, só porque, perdida de amor, devia estar ocupada com o próprio prazer?
Ingênuo, tolo, amante amado, que se perde em mim com a mesma inconsequência com que já se perdeu em outras. É tão fácil assim o teu prazer, e o compras assim tão leviano só porque ele te vem farto, sem outro sacrifício que a perda de certa energia? Te odeio e te condeno ao inferno. Não te quero mais ver, não me venhas mais à porta, ajoelhado e trazendo migalhas de pão entre os dedos.
E devolve-me os bilhetes que te enviei quando o meu corpo esvaiava-se pela tua ausência. Só não me devolvas, por favor, o amor que me tens ainda. Porque sei que me amas. Amas mais que sabes. E se não sabes, aqui estou para te recordar. Nunca mais hás de ser de outra mulher. Não ousarás ocupar-te com outra a ponto de não levantares da mesa a minha entrada, dá-me o braço e juntos sairmos logo que eu emita os meus sinais.
Lembras-te do que disse um dia? Hás de ser meu até não saberes mais amar, até que, envelhecido, teu corpo já não responda à memória do nosso amor, pois ainda assim sigo ao teu lado te amando, te fazendo recordar com minúcias o arrebato que ambos provamos, o sal jogado sobre os nossos corpos para exalarem aquela essência que nos volatizava mas também nos prendia à terra para vivermos com a carne um ritual iluminado, nossas peles cobertas de folhas, musgos e aranhas.
Ah, amado, volta depressa, antes que outras cartas te persigam, e fique a vida difícil para nós! Ou será que para gente da nossa raça a vida é sempre agreste, arcaica, perplexa, diante das premências do próprio amor? Amar é um dos rostos da nossa gente, tu me disseste e eu acreditei. Amar, sim, tem o gosto da maré, o tempo da maré, amar é estar onde a maré ainda não se encontra enquanto cumpre a sua agonia repartida entre as diferentes regiões do oceano.
Volta, porque te espero. E se voltares, que fiques sempre comigo. Não prometo comportar-me a ponto de que vivas o amor com suavidade. Não sou amena, mas estou viva, viva para enlaçar, ir tão fundo no teu corpo para que fechando os olhos suspiremos de modo a que não me ouças, de modo a que também eu, com a minha veracidade, não possa com um só golpe invadir o teu enigma. Amanhã te escreverei, de novo capítulo ante o meu amor.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)


E eis que dou por encerrado mais este período de Literatura Erótica. Com este excerto final do conto (muito intenso) de Nélida Piñon, assim é. Pessoalmente julgo que foi um bom conto para a conclusão deste bloco de edições. Quando o li pensei-o de imediato para este tipo de colocação. Espero que tenha sido do vosso agrado e que o percurso feito (iniciado com Maria Teresa Horta e concluído com Nélida Piñon) tenha sido suficientemente significativo para vos... atrair. Beijinhos para todos :)

Publicado por void em maio 18, 2005 07:51 PM
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