
Por favor, jura que voltarás, empenha a tua honra que serás meu e de mais ninguém. Se me negas o pedido, eu me vingo, abro minhas pernas para o teu inimigo, convidarei o desafeto a comer minhas carnes com garfo e faca e que divulgues entre amigos, e perto da tua consciência, o sabor de sal da minha pele e como o meu suor arrasta ainda o teu cheiro.
Não me julgues louca, julga-me apenas capaz de lutar pela tua volta. Empenho toda a terra nesta disputa, empenho o meu futuro, e o teu também. O que eu fizer, hás de fazer junto. Tenho ódio em mim bastante para nós dois, e se tenho amor bastante para nós dois, não quero que seja assim. O meu amor que é tanto e sufoca-me exige o teu para nutrir-se do próprio exagero. Eu te amarei até ao fim da minha vida. E a minha vida, amor, será curta se não voltares. Será tão curta que terás medo. Pois nunca saberás se me mato, se te mato, se aniquilo nós dois na mesma rodada de bebida.
E não adianta fugir, em algum lugar eu te alcanço. De nada serve ir para São Paulo. Simular uma ida a Petrópolis, enquanto te refugias na Bahia. Meus cães perdigueiros sempre te encontraram. Terminavas rindo mesmo com o coração cheio de pedregulhos e galhos ariscos. Me dizias: a tua loucura é a semente mais saudável do teu corpo. Ríamos juntos e riremos muito ainda, eu te prometo.
Escreve-me logo, mesmo que não estejas em casa ao chegar esta carta. Escreve-me de onde estiveres, porque onde quer que estejas a minha falta deve doer-te a ponto de já estares vindo ao meu encontro, ou de tomares da caneta e escreveres as palavras certas. Se não quiseres pensar muito, diz como da outra vez, tenho tuas palavras em fogo no meu coração: eu te amei com o fervor das grandes estações humanas, eu te amei com a contorção da morte, amei com o medo de perder-te, mas permite-me agora amar-te com o impulso da vida selvagem, desregrada, sem outro modelo que o do próprio amor.
O bilhete guardei grudado ao peito durante muito tempo. Tu protestavas, que ridículo, desfaz-te dele, ao menos esconde-lo em lugar que não padeça deste teu calor de loba faminta. Mas eu sou a tua loba, eu disse rindo para que não me levasses a sério. De nada servia enganar-te. Sempre temeste a minha fome. Uma fome que me levava a dar-te dentadas, a deslizar pelo teu corpo quente quando estavas morto, sem arrebato, e eu ainda te queria agonizante. Bastou-me, porém, suspeitar que me traías com um olhar destinado a outra, para arrancar do seio o bilhete e comê-lo à tua frente, diante dos teus amigos, só para te humilhar.
Tu trataste de distrair a todos. Pediste-me, por favor, não lutemos numa arena que não é nossa. Só aceito combate no quarto que consagrou o nosso amor. As palavras foram ao coração. Tu és sempre covarde quando me vês destemida. Me subornas para que eu me apazigue. E lances a corda com que te resgates dos vendavais, salvar-te para o destino da paixão.
(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)
Mas que loucura é esta que arrebata os corações e destrói a razão do ser?
Este "Revólver da paixão" é potentíssimo. Estas emoções sempre no limiar da loucura. Quanta ansiedade, quanto desespero...! Até me falta o ar :)
Beijo grande
Um texto intenso! Adorei!
Finalmente, consigo entrar novamente aqui!! Vou ler tudo o que está para trás, mas tenho muita dificuldade em entrar. Vou tentar comentar nos outros.
Um Jinho e obrigada pela partilha :-)
Afixado por: Menina_marota em maio 18, 2005 03:39 PMOk! devido a este blog já comprei alguns livros... muito bons por sinal... obrigada pela transmissão do bom gosto e da qualidade...
vou mesmo continuar por aqui...mas se continua assim não há curiosidade nem bolso que resista!!!(just kidding)
obrigada pelas dicas
Afixado por: Sophia em maio 18, 2005 06:51 PMWhitesatin:
sem qualquer dúvida que o conto é muito forte. E por o ser foi propositadamente escolhido para encerrar este bloco de edições. A minha ideia foi apresentar-vos textos onde o conceito de "Erotismo" se desenvolvesse de forma diferente, no âmbito global daqueles que são os aspectos a que esse conceito são inerentes. Julgo que as diferenças são perceptíveis. Julgo, também, que as ideias norteadoras estão presentes.
É esta riqueza/diversidade que não nos permite ter uma atitude passiva face a estes textos. Assim sendo compreendo muito bem o teu comentário.
Beijo grande :)
Afixado por: Sandra em maio 18, 2005 08:12 PMMenina_marota:
ter-te por aqui é sempre um prazer. Ok, vai lá pôr as leituras e comentários em dia. Relativamente a estes, acredita que os leio com muita atenção.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em maio 18, 2005 08:15 PMSophia:
não me fales em bolso, não me fales... Eheheh...
Seja como for sinto-me contente por, de alguma forma, te influenciar em termos de compras. É bom saber que o trabalho que desenvolvo aqui tem reflexos tão diferentes, donde aquisições de obras, são um deles.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em maio 18, 2005 08:18 PM