maio 17, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (3)

Ah, amor, errei ontem à noite! Mas de que serve confessar o arrependimento, se só me arrependo para te distrair e ter-te novamente? Se logo errarei outra vez, e um próximo dia me verás enlouquecida com a tua possível perda. E então não medirei palavras, não controlarei a violência do meu corpo quando ameaçado. A verdade é que a tua perda me ameaça. A tua perda é uma sentença de morte. Morte que não suporto, não permito. Teu dever é amar-me, é continuar na minha cama, na minha vida, na minha memória. Na memória que projeta teus mil retratos tirados ao longo da vida que nos atou com cordas e arame.
Sei que repeles estas confissões que cobram um calendário vencido, sem cais e âncora a que te agarrar. Mas hei de falar enquanto os meus soluços te proclamem. És meu prisioneiro como sou a masmora em que estou mergulhada pela força do bem-querer. Que digo, bem-querer? Ah, amado, eu já te quis na primeira noite! Não tens o direito de esquecer, ainda que não me queiras reproduzindo os arrebatos que talvez hoje já não sintas. Mas eu não sou apenas memória, também sou a dispersão. Pois sempre que relembro as noites sucedidas sem fim, desfaço-as de modo a crer que não existiram. Isto é, não existiram porque foram insuficientes, aqui estou a exigir outras noites que nos regalaremos, logo superada a amargura que nos separa agora.
Tu me beijaste no ouvido, lembras-te? Tua língua me falava sem som, cada palavra em silêncio era o trabalho da tua língua revelando a verdadeira linguagem do homem. Talvez o que eu relate agora só esteja inventariando a minha vida, e não a tua. Não queres mais saber do próprio corpo que se conheceu em mim até o amanhecer. Me proíbes dizer que a vida te chegou porque também a vida chegava em mim. Mas, porque não aceitas que me amas, que me queres perder por despeito, por conta da minha arrogância, só porque proclamo o teu amor sem medir as consequências, porque atraso a tua vida com explicações que te atormentam, porque antes mesmo que me digas o quanto me amas já estou aos teus pés dizendo primeiro que sou quem te ama melhor e mais forte.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em maio 17, 2005 06:57 AM
Comentários

Adorei que tivesses partilhado o aniversário da "Micas" comigo. Um obrigada muito especial. Abraço apertado e um beijinho grande linda. Agora vou-te ler :) Beijos

Afixado por: micas em maio 17, 2005 07:23 AM

Ora, ora, ora... achas que eu, leitora atenta do teu blog, passaria por lá em dia de festa e ficaria calada? Claro que não! :)
Que a leitura, por aqui, te agrade ao máximo.

Beijinhos para ti tb, Micas :)

Afixado por: Sandra em maio 17, 2005 12:26 PM

Querida Sandra, comprei hoje, finalmente, essa pérola, já outro dia tinha ficado hipnotizada mas resisti à tentação. Temporariamente. Belíssima escolha! Beijo grande*

Afixado por: Rita em maio 17, 2005 03:15 PM

Rita:
ainda bem que a tua capacidade de resistência se "quebrou", na medida em que era um desperdício perderes "Intimidades" ;) Há tentações face às quais se deve ceder totalmente, sendo que esta antologia é uma delas. O que é bom é para se consumir.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em maio 17, 2005 05:45 PM

"Intimidades" promete, pelo que aqui vejo. As fotos estão bem escolhidas, acompanham a tonalidade da escrita. Já agora, Sandra, sabes qual o título do conto da Lygua Fagundes Telles incluido neste livro?

Beijo e obrigada*

Afixado por: Andreia em maio 17, 2005 11:53 PM

É a primeira vez que venho aqui e gostei muito do seu blog. Com certeza voltarei mais vezes. bjs...

Afixado por: Carlos em maio 18, 2005 01:02 AM

"(...)que me digas o quanto me amas já estou aos teus pés dizendo primeiro que sou quem te ama melhor e mais forte."

Tenho por hábito ler pelo menos duas vezes cada texto que leio. Uma pelo contudo, a outra pela forma, sonoridade e toda a arte de conjugar as palavras com ou sem sentido. Aqui perdi-me duas vezes.

***azuis :)

Afixado por: AlmaAzul em maio 18, 2005 01:52 AM

Andreia:
o conto de Lygia Fagundes Telles incluído nesta antologia é: "Apenas um saxofone". Um excelente conto para se ir saboreando. Nada é de rompante, tudo vai sendo e sendo... Muito bom. Prova a excelência da autora.

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em maio 18, 2005 07:17 AM

Carlos:
és muito bem vindo. Fico contente com as tuas palavras. Volta sempre.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em maio 18, 2005 07:18 AM

AlmaAzul:
nestes contos podemos perder-nos várias vezes. Estamos perante Erotismo da melhor qualidade. Assim sendo, é legítimo o que sentes. Isso é bom. A Literatura deve ter esse poder: de nos (fazer) evadir.

Beijos azuis para ti tb ;)

Afixado por: Sandra em maio 18, 2005 07:21 AM