maio 16, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (2)

Vamos, covarde, volta depressa. Não quero mais perder o espectáculo desse amor que diariamente me derruba, porque é desse jeito que mastigo da tua comida. E se agora te escrevo, é para que me escutes, e não penses livre. Porque onde venhas a estar, irei atrás. Meu corpo identifica o teu cheiro acre-doce pela manhã. Quantas vezes te lavei o sexo e tu te deixaste acariciar como se fosse meu dever rejuvenescer-te a cada dia, quem melhor que as minhas sagradas mãos conhecem o teu segredo, as palpitações da tua carne, o modo firme e cego como que te ergues e vens a mim. Não te creias livre, a vida não é tua. A tua vida é minha porque me perdi em ti, em cada palavra que disseste e me conquistaste.
De nada serve que me poupes agora verdades cruas, só porque me pensas incapaz de abrigá-las. Se queres proclamar que não me amas mais, eu ouvirei. Ouvirei aos gritos, de tal modo gritarei que cada palavra destinada a mim crerás dita por mim a ti. Te sentirás perdido, abandonado, sem o meu amor. Experimentarás na própria carne a perda do amor único, único porque é único no único instante em que se está vivendo. E te jogarás sobre o leito, e nu, explêndido, me atrairás dizendo não quereres novamente ser meu, acaso sobreviverás sem o gozo que é a única viagem atlântica que se vive e nos naufraga? Esquecido, porém, de que tu, sim, és o barco carecendo das águas, e que sou a água em que mergulharás sem rota, sem mapa, pois não há mapa para o amor, amor.
Não sabes então que me amas, amas muito mais que podes saber? Amas mesmo sem o socorro da tua consciência. E, se não me amas com a paixão do meu amor, te ensinarei novamente a amar-me. Não te peço tempo, dias, horas. Sou mulher das longas estações. Serei verão quando exigires calor. Não, não rias. Não venhas cobrar-me teorias feministas. Tenho-as prontas para a vida, recém-começo a dominar um vocabulário que antes era só de tua lavra. E que mais pode oferecer-me uma ideologia senão o direito de perder-me no desvario a cobrar o amor que sei meu.
Por favor, cede-me o teu tempo. Cede-me o teu corpo novamente. No leito, ou na natureza crua. Ou no bar em que estiveres agora. Onde eu chegando logo faríamos amor com o meu olhar de espinho. Amor se faz na esquina com a multidão dispersa em torno. Eu não te amo só com o ímpeto da carne. Também te quero com a minha boca distante, falando, te enunciando, pronunciando o teu nome. Teu nome é meu ato de amor. Teu nome é o espasmo de que padece o meu sexo.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em maio 16, 2005 08:25 PM
Comentários

Gostei. Mais autora para a lista.:)
Neste texto gostei principalmente da personagem me fazer pensar no meio das suas contradições. Mas o amor é muitas vezes isso mesmo. Ou não será amor. (?)
"Amor se faz na esquina com a multidão dispersa em torno."
"Também te quero com a minha boca distante, falando, te enunciando, pronunciando o teu nome. Teu nome é meu ato de amor."

Afixado por: AlmaAzul em maio 17, 2005 04:43 AM

Estamos perante um texto com uma intensidade muito grande e onde a personagem feminina se afirma de forma absolutamente fascinante. É uma personagem extremamente "quente" e que vive as suas emoções/seus sentimentos ao máximo, dentro daquela que é a sua personalidade. Muito mais ausente, mas com um papel determinante, a personagem masculina condiciona, condiciona e condiciona.
O Amor numa das suas vertentes, sem dúvida. Poder-se-á falar em obsessão ou, "tão só", em extrema dedicação?

Beijinho, AlmaAzul e obrigada pela tua participação :)

Afixado por: Sandra em maio 17, 2005 12:31 PM