maio 16, 2005

O REVÓLVER DA PAIXÃO (1)

A escritora que vai encerrar mais esta iniciativa de divulgação de Literatura Erótica é Nélida Piñon. Nélida, nasceu no Rio de Janeiro e o seu primeiro romance data de 1961. É catedrática da Universidade de Miami desde 1990, tendo sido escritora-visitante da Universidade de Harvard, de Columbia, de Georgetown e Johns Hopkins. Tem colaborado em diversas publicações quer do Brasil quer de outros países. Tem sido igualmente premiada em vários países. Em 1996 tornou-se a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e recebeu já o título de "doctor honoris causa" das Universidades de Poitiers, Santiago de Compostela, Rutgers e Florida Atlantic.
Quanto ao seu contributo para a antologia em destaque, eis o primeiro excerto de "O revólver da paixão":

Eu sei que errei, mas não me deixes agora. Eu protestei contra o que me parecia tua culpa. Tu me olhaste afiando os olhos no meu rosto. Me senti retalhada, diferente das vezes em que me cortaste e não sofri. Bem ao contrário, a carne me sorria, eu deixava que tu me tivesses, porque a carne era a minha alma.
Por favor, compreende o meu ciúme, é ele, voraz e nervoso, que me proíbe liberar o teu corpo para os corpos inimigos. E aconselhas-me a matar-te. Mas matar com cuidado de ourives traçando mil desenhos em tua carne para que mesmo morto deixes o mundo enfeitado com o meu estigma.
Meu Deus, sei que prometi controlar-me. Não te seguir mais. Deixar-te livre para a vida. Mas que vida é esta que tu reclamas onde eu não ocupo a maior porção? Como podes pensar que aguento ver-te tragando vida sem que eu passe pela tua boca, te beije, te lamba, e tu sorrias ligado à terra, porque sou o teu húmus, o teu esperma, eu sou o teu membro, eu sou tu.
Não, não reclames, tu me queres assim mesmo, ainda que selvagem eu te cause medo, ameace a tua liberdade. Ou me querias selvagem só na cama? E no espaço da vida me exijas atada por tuas próprias mãos? Mas eu me rebelo. Ou serás só meu, ou te mato. Não, eu não quero te matar, como haveria de viver sem a tua alegria, o modo como despertas jovem e jubilado. Eu te tomo nos braços, sou tão ansiosa, tão perdida na própria paixão. Tu brincas comigo, dizes que não tomo jeito, mas tu estás povoado de orgulho do mesmo modo como te povôo de lendas. Eu te enfeito com histórias que ninguém, senão eu, li em ti. Tu sabes o poema que farei amanhã, a palavra que perderei no futuro se me escapas agora. Não te autorizo a deixar-me. Ouviste o que eu disse? Não te dou licença de passear pela terra, de ter um futuro em que eu não esteja inteira.
Ah, meu corpo amado, eu te desejo! E te desejo mais do que nos perdermos no leito que vem sendo nosso há dois anos. Uma agonia que recolho com a minha boca e mastigo com os meus dentes. Eu te mastigo, eu te como, eu te rasgo como tu me rasgas, me gritas, me amas. Às vezes, penso que tu me amas fraco, que o teu corpo é menos vigoroso que o meu. O meu se aprimora pelo próprio amor. É o amor que me faz vencer as madrugadas, te cobrar mais amor que já não queres dar, estás exausto, derrubado, fraco, senil. Não, ergue-te, amor, e me cobre toda, te quero me soçobrando, eu sou uma mina africana, há que ir ao fundo, apalpar no escuro a tua riqueza, coçar a tua aflição, sentir medo. Medo das minhas trevas, pavor dos meus pêlos, temor do meu suor e da minha fragrância.


(Nélida Piñon- "O revólver da paixão", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Alex Treacher)

Publicado por void em maio 16, 2005 07:07 AM
Comentários

Continuei a ler e tive que ir reler o outro texto... e ficou o interesse em aduirir o livro... para completar a leitura...

Linkei-te no meus 2 blogs... sei que já te tinha anteriormente linkado, mas na mudança de Template, deve ter-se perdido... por isso se não te importares já te linkei novamente.

Abraço :-)

Afixado por: Menina_marota em maio 18, 2005 03:54 PM