maio 15, 2005

FALA-SE DE QUÊ?

Quanto ao segundo texto do Luís... eis a minha escolha para hoje:

Fala-se do quê?
Às vezes quando se procura contar uma história fala-se do quê? Falamos de nós, falamos de outros, falamos de algo que conhecemos, algo que nos toca, algo que vimos, algo que por nós passou, algo que nos tocou.
Por vezes limitamo-nos a falar e a falar como se falássemos apenas por falar, apenas porque nada mais há a fazer do que perder-nos em monólogos, em blá blá blá que apenas nós entendemos, já que estamos a falar apenas connosco.
Para-se um pouco a coisa, respira-se fundo e começa algo a roer cá dentro, um bichano qualquer que se vai transformando em ideias, e começa a botar discurso por si mesmo. E furiosamente transforma-se um teclado em artefacto de guerra. Bombardeiam-se palavras em rajadas, sendo nós por vezes os únicos feridos das nossas próprias palavras....
Pausa para tabaquear o assunto. Inspira-se lentamente o fumo, e expira-se mais lentamente ainda, fazendo circulos por onde atiramos as frases, as nossas histórias, onde contamos o que somos, quem somos, o que queremos, o que querem daquilo que pensam que somos.
Soltam-se os dias onde somos personagens, actores principais ou de circunstância, por vezes apenas fantasia, por vezes apenas aquela coisa que nos toca ao de leve e nós nem sabemos bem o que é, mas que não conseguimos esquecer que é importante, que faz falta.
Do que falamos então? Fala-se tanto e por vezes nem se diz nada, apenas se fala, joga-se conversa fora, gasta-se latim ( viva a frase cliché!) Falamos de tudo, nós fazemos parte de algo e esse algo tranforma-nos também em histórias. E o que somos nós então? Somos algo do qual alguém um dia falou, somos parte de uma história, somos e fazemos partes do real, do que não é real , e do que se transforma aos poucos em real e irreal.
Somos a nossa própria história por vezes na boca de outros...


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em maio 15, 2005 07:44 AM
Comentários

Uma "estoria" é muito mais do que uma história...

só se escreve um estoria quando não a conseguimos guardar cá dentro

Afixado por: Avô Kimera em maio 15, 2005 11:43 AM

revejo-me nas palavras do luís. o processo de escrever é o que ele acaba de descrever, pelo menos para mim. mas, antes de mais, o texto tá muito bem escrito, é um prazer lê-lo.

beijoka**

Afixado por: andreia c. faria em maio 15, 2005 07:39 PM

As estórias fazem-se dde pedaços que o nosso corpo não mostra. Obrigado pelos vossos comentários

Afixado por: contador de histórias em maio 17, 2005 02:08 PM

Sorri ao 2º. parágrafo do texto e, continuei a sorrir, até ao final, porque eu estou ali "retratada"! Falo ou antes, escrevo de tudo aquilo que sinto. Não consigo escrever, sem ser de sentimentos. Especialmente meus, porque dos outros... já é difícil entender-me, quanto mais entender os sentimentos dos outros...

Gostei especialmente, deste último parágrafo:

"E o que somos nós então? Somos algo do qual alguém um dia falou, somos parte de uma história, somos e fazemos partes do real, do que não é real , e do que se transforma aos poucos em real e irreal.
Somos a nossa própria história por vezes na boca de outros..."

Ou talvez, na nossa própria boca...

Um abraço ;-)

Afixado por: Menina_marota em maio 18, 2005 04:00 PM