maio 15, 2005

A CAIXINHA DE SEGREDOS

Vou editar, hoje, dois textos do Luís Coutinho. Hoje, vai ser um Domingo diferente por isso. Estamos a meio do mês. O autor merece um destaque maior. Um trampolim reforçado para o que ainda por ai vem.
Segue-se o primeiro texto:

Numa caixinha pequena, numa caixinha de madeira comprada na loja dos chineses, guardam-se todos os segredos. Os meus, os teus, os de todos, e também os de aqueles que se esqueceram deles por ai…
Espalho todos eles pelo chão do quarto, entre migalhas que se perderam, entre sombras de pó e vejo tudo o que nunca te contei; aquilo que nunca me disseste; aquilo que os outros já não querem, mas que lhes pertence. Os segredos como brinquedos espalhados trocando-se entre si nas roupas dos seus donos, emprestados num sussurro ao ouvido, numa qualquer pedaço de papel amachucado e amarelecido pelo tempo, escondidos como segredos de bolso, desencontrados entre as suas verdades e menos verdades.
Juras de amor que nunca o foram; medos confessados; a raiz da árvore dos sorrisos, areia da praia dos medos; o bilhete de comboio só de ida para um qualquer amor, rasgado em pedacinhos com manchas de lágrima.
Os seus donos? Eles próprios senhores de si a descoberto, por aquilo que deixaram espalhado por qualquer parte desta pequena caixa aberta no chão de pó e migalhas. Em cada segredo o meu nome e o teu com assinaturas de punho ou letras de forma; nomes deles e delas com letras de chuva; as datas dos seus começos, rastos de vento do dia que se perderam; mapas de caminhos entrecruzados procurando um qualquer lugar com respostas para todas as perguntas. Perfume com aroma a vários tempos, com cheiros que se misturam já quase apagados.
Na caixinha, o rosto de todas as mãos, o selo quebrado com nome de partilha e as marcas de vários dias e noites em todos os lugares daqui e dali e qualquer parte.
Os segredos órfãos sem o serem, filhos de mãe e pai incógnitos procurando-se semelhanças e chorando ou rindo por apenas serem o que são e quem são.
Na caixinha aberta todos eles a espalharam-se com as migalhas e o pó do chão.
Tens segredos para troca?


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)

Publicado por void em maio 15, 2005 07:25 AM
Comentários

Todos nós temos segredos. Alguns tão antigos que só nos lembramos deles em sonhos. Como se pertencessem a outras vidas, a outros tempos... Eu dou-lhes o nome de "segredos de estimação", porque são eles que nos vão dando algum alento para viver...os nossos sonhos ;)
Beijinhos

Afixado por: whitesatin em maio 15, 2005 12:30 PM


"Tens segredos para troca?"
Não conhecia o autor e gostei... Mas achei a forma como termina o segundo texto simplesmente brilhante.:)

Afixado por: AlmaAzul em maio 15, 2005 03:32 PM

quando queremos falar e nao sabemos do que acabamos por nos enrolar nas palavras e dar tropeções na lingua e na cabeça.
"(...)Juras de amor que nunca o foram; medos confessados; a raiz da árvore dos sorrisos, areia da praia dos medos; o bilhete de comboio só de ida para um qualquer amor, rasgado em pedacinhos com manchas de lágrima."
Sou mais uma que nao conhecia o autor mas que gostou*

Afixado por: Ana em maio 15, 2005 06:59 PM

Os segredos mais preciosos são aqueles que estão à vista de todos os olhos.Obrigado pelos vossos comentários.

Afixado por: Contador de histórias em maio 17, 2005 02:10 PM

Este texto fez-me lembrar aquela canção : " De quem eu gosto, nem às paredes confesso..." (é mais ou menos assim...

Os meus segredor? Visita os meus blogs... descobre-os lá... estão lá todos... é só ter "dedo" para detective... eheheh

Abraço. Adorei ler-te :-)

Afixado por: Menina_marota em maio 18, 2005 04:23 PM