maio 14, 2005

SÓ SEXO (3)

Saí do consultório e pensei que tinha de te encontrar. Não sabia como. Há pelo menos vinte anos que não tenho o teu telefone. Um dia desisti de ti. Tive medo de deixar de fazer parte do mundo, de continuar sozinha contigo, só sexo. Conheci um homem que seria indigno trair, um homem que me seduziu porque era o oposto de ti. E decidi ser feliz. Sei vagamente onde moras, ou onde moravas, há cerca de cinco anos cruzei-me com a tua mulher numa festa e percebi que ela dizia: "desde o meu divórcio". Claro que podia estar a falar do seu primeiro casamento. Mas como mudou de assunto assim que me viu, pareceu-me que só podia estar a falar de ti. Nunca fomos apresentadas, eu e a tua mulher, ou ex-mulher. Mas eu sei que ela sabe muito de mim. Os olhos da mulher de um homem que nos ama são indiscretos. Também nos olhos dela encontrei o teu amor por mim. Amor não é a palavra exacta. Amor é o que eu sinto pelos meus netos, pelos meus filhos, pelo pai deles, até pelo meu cão. Pobre cão. Se calhar vai deixar de comer quando eu morrer. Vai ficar sentado à porta, esperando por mim até à morte. Os cães não conhecem a morte, por isso podem morrer de amor. Ficam à espera até ao fim, não se deixam consolar.
Tu tens alma de cão vadio, sabes amar sem desconsolo. Se fosses morrer daqui a um mês ou dois, como eu, saberias fazer-te encontrado comigo? Talvez soubesses. Da última vez que te vi - há nove anos, no cinema - aproximei-me para te pedir um cigarro e disse-te, mesmo antes de ti: "Que disparate. Deixaste de fumar há uma semana, bem sei, desculpa". Como é que sabes?" - perguntaste-me, atónito. Sorri, encolhi os ombros, não cheguei a responder-te. Como é que eu sabia? - Ora, como sei tudo de ti. Através dos sonhos. Agora sento-me no café em frente do Ministério, à espera que tu saias e venhas ter comigo. O Ministério mudou de nome, mas de certeza que tu ainda lá trabalhas. Sempre foste um homem de hábitos e nunca cultivaste grandes ambições. Peço uma bica e começo a fazer contas. Oxalá a tua ambição tenha sido pelo menos suficiente para te afastar da pré-reforma. Também não te imagino em casa, a fazer palavras cruzadas o dia inteiro. Do Partido desististe muito antes da moda da renovação.
Cinco e trinta e cinco. Lá vens tu, de pasta na mão, com o mesmo andar sorrateiro, falsamente tímido, de rapaz antigo. Entras no café. Levanto-me. Os teus olhos crescem e iluminam-se para me ver. Acaricias-me o cabelo, e dizes: "Tens outra vez o cabelo muito comprido". Isto é um elogio. Nem tu sabes ainda como me vai ser útil esse teu elogio, nos meses que faltam. Comprarei um cabelo igual para tu veres. Neste, ainda o meu, quero que mexas. Prendo-te a mão ao meu cabelo. Falamos de coisas soltas, bebes uma cerveja, prometes uma vez mais que um dia me ensinarás a gostar de cerveja. Depois pegas na pasta e perguntas se por acaso não quero ir até lá a casa ver umas fotografias dos tempos antigos. Fechas a porta e começas a beijar-me, primeiro os olhos, depois o lóbulo da orelha, depois o pescoço, enquanto os teus dedos me abrem a camisa e me procuram os seios. Beijamo-nos de olhos abertos, como sempre, e é de olhos abertos que procuro cada uma das novidades do teu corpo, os sítios onde a tua pele se dobra, o cheiro agora mais adocicado do teu sexo. Entramos um no outro de olhos abertos, como se mergulhássemos num mar de silêncio e fogo escuro. A meio da noite peço-te que me deixes ficar contigo um mês - "só um mês, prometo. Posso?" Não me respondes, claro. A não ser que os beijos sejam uma resposta, e eu preciso de acreditar que sim. Preciso dessa vida verdadeira que escondi debaixo da tua pele, antes que o cabelo me caia, antes que comecem os enjoos e as dores, antes que o meu corpo seja tomado pelo cheiro miserável da doença. Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só preciso de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo.


(Inês Pedrosa- "Só sexo", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote. Fotografia de Naushér Banaji)


Com este post dou por concluída a edição do conto de Inês Pedrosa. A partir de Segunda-feira um outro será aqui trazido. Mais um, de uma escritora do Brasil. E consigo, o encerrar... ou o ir encerrando de mais este palco de desfile do Erotismo. Do Erotismo, note-se, não estático ou absolutamente definido entre estes e aqueles parâmetros, mas naquela que é/pode ser a sua riqueza/diversidade, como os contos publicados permitiram perceber. E que o último, a sê-lo ainda, contribuirá para sublinhar.

Publicado por void em maio 14, 2005 08:58 AM
Comentários

Gostei imenso deste conto de Inês Pedrosa que nos trouxeste. Leitura agradável e corrida de um texto com passagens de erotismo e sensualidade. Final triste, mas bem urdido. Um beijo e bom fim de semana.

Afixado por: Pink em maio 14, 2005 03:10 PM

Querida Sandra, nem sabes o prazer que me dás com estes pequenos pedaços de prosa poetizada com que nos brindas diariamente. Obrigada, do fundo do coração. Beijo*

Afixado por: Rita em maio 14, 2005 04:02 PM

Delicioso esta série. Ainda bem que nos trouxeste estes textos!
Este "Só Sexo" é excelente, uma história de sexo que vai para além do tempo, em que o amor não é dito e assumido mas é vivido e saboreado!

Afixado por: jotakapa em maio 14, 2005 05:11 PM

Sandra, aí os deixo, para usares e abusares, o dos mails e o do msn (que é igual mas hotmail.com). Beijo graaaaaaaaaaande ;)

Afixado por: Rita em maio 14, 2005 08:46 PM

...confesso que me perdi aqui... nem sei ao certo quanto tempo aqui me demorei.... O que é certo é que me perdi... e adoro perder-me assim.
É inevitável… te “linkar” também :)

Afixado por: AlmaAzul em maio 15, 2005 06:38 AM