maio 13, 2005

SÓ SEXO (1)

Hoje deixo-vos com Inês Pedrosa. Deixo-vos com a autora de "A instrução dos amantes" (1992), "Nas tuas mãos" (1997), "Fazes-me falta" (2002) e "Fica comigo esta noite" (2003), entre outros trabalhos.
Segue-se "Só sexo", um conto com uma dimensão temporal relativamente alargada (ou mais alargada comparativamente aos contos anteriores). Eis o seu primeiro excerto:

Enquanto os nossos camaradas celebravam nas ruas, nós fabricávamos o amor a partir do zero, no deslumbramento silencioso de um deus que subitamente descobrisse as coisas de que era capaz. Amávamo-nos como se o amor fosse apenas um suplente íntimo dessa revolução que nunca mais chegava. A revolução já tinha chegado, mas nós não sabíamos. Só em Junho de 1974 se lembraram de nós, fechados naquela casa clandestina. Muitas vezes, ao longo da minha vida, desejei que nos tivessem esquecido ali para sempre. Desejo ingrato, infantil. Tive uma vida boa. Consegui ser a advogada que queria ser, cobrar bem aos ricos para defender melhor os pobres. Encontrei um homem que entende o amor como partilha absoluta - nunca senti o peso do trabalho doméstico ou da educação dos filhos. Tive dois filhos que só me trouxeram alegria e serenidade, e tenho já um neto que parece um reclame sobre o brilho da vida. E tive-te, atrás do espelho, todas as manhãs da minha vida. Porque foi sempre para ti que me quis bonita, mesmo nos dias escuros. É em ti que penso, quando escolho a roupa ou escovo o cabelo, todos os dias. Na possibilidade de te encontrar, no acaso de uma esquina. Lisboa é tão grande e tão pequena - porque não havia de te encontrar? Queria ser a mesma, nesse encontro. A mesma, com a luz das rugas que me faltavam no tempo em que nos metíamos por dentro do corpo um do outro como se sozinhos fôssemos apenas pedaços de um corpo mutilado.
Adormeci todas as noites da minha vida nos teus ombros estreitos de adolescente eterno. Nunca foste bonito, mas possuías um não-sei-quê de juventude ancorada que te tornava imediatamente comovente. Usavas e abusavas desse não-sei-quê. Não acreditavas em nada, vivias num aquário de sonhos impossíveis que fazia de ti um anjo negro, abismo de lágrimas congeladas. Eras ardiloso, sorrateiro e impaciente como as crianças; cruzaste-te comigo duas vezes em reuniões de célula e pouco depois fechavam-nos juntos naquela casa clandestina. Nem sob tortura confessarias que tinhas movido os teus cordelinhos para ires viver comigo. Entre o segundo encontro e a nossa definitiva "coincidência no mesmo espaço", como diria a Madalena, perita em justificações espaciais, o teu íntimo amigo António descaíra-se, numa noite de copos. Ralhou-me por causa do meu namorado imberbe e pequeno-burguês e revelou-me que tu me achavas linda e lastimavas que eu nem sequer olhasse para ti. Esta curta e embriagada confissão em diferido mudou a minha vida. Provavelmente encomendaste-a, nunca o cheguei a saber. Quando, há meia dúzia de anos, fui ver o António ao hospital, encontrei-o tão próximo da morte que já não tive coragem de esclarecer os bastidores desta frase minúscula que mudou a minha vida inteira. Não quis que o António percebesse que era ainda para o ouvir falar de ti que precisava dele.
Depois de sairmos de casa, deixaste de me procurar. Creio que te fazias encontrado comigo, mas como eu também me fazia encontrada contigo, nunca cheguei a ter a certeza de que, de facto, me procuravas. Repetir-me-ias muitas e muitas vezes que não eras talhado para a vida conjugal. "Mas nós já vivemos juntos", disse-te eu, uma vez, desesperada. Sorriste, e era um sorriso tão meigo quando sarcástico - ou pelo menos assim me lembro dele: "Só por necessidades imperiosas da revolução". De outra vez disseste-me que, na vida real, eu não aguentaria uma semana contigo. Ou talvez eu tenha inventado que tu me disseste isto. Pouco importa. Posso ter inventado tudo, menos o fulgor perfeito dos nossos corpos juntos. Uma vida inteira não basta para apagar da pele o peso magnífico desse folgor. Só sexo, disseram-me as amigas íntimas, quando eu ainda chorava com elas a saudade do êxtase. Só sexo, fogo e palha, talvez tenham razão. Mas é disso que trata a vida, a minha vida: só sexo. Contigo. O prazer que o meu corpo conhece é o que aprendeu no teu, e foi esse que o meu corpo ensinou aos outros homens, aos vários em que tentou enganar a tua ausência, ao único que soube contornar a tua ausência para permanecer em mim.

Todas as noites me acaricio com os teus dedos, fecho os olhos e sugo os teus dedos sob o contorno dos meus e conduzo-te pelo meu corpo como tu me conduzias. Todas as noites rebolamos da cama para o chão e do chão para cima da cómoda do teu quarto e para a mesa da sala e para as lajes frias da cozinha, todas as noites percorremos abraçados a casa velha onde já não moras, a casa velha que se calhar já se desmoronou sem a nossa ajuda. Todas as noites tu entras em mim por todas as portas, a tua língua silenciosa desperta vertigens desconhecidas nas partes secretas das minhas orelhas e das minhas pernas e dos meus pés. Todas as noites sinto o castanho dos teus olhos grandes dissolvendo-se nos meus com uma felicidade quente, imensa, vejo os teus quadris estreitos de rapaz dançando sobre o redondo do meu ventre, das minhas nádegas, todas as noites os teus dentes mordem o meu pescoço no sítio exacto em que o meu corpo guardava a última fechadura, todas as noites volto a subir a esse monte dos vendavais só nosso. Só sexo, seja.


(Inês Pedrosa- "Só sexo", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Steve Weiss)

Publicado por void em maio 13, 2005 07:04 AM
Comentários

Trarás Hilda Hilst?

"Cartas de um sedutor" é uma obra quase sublime.
Presumo que conheces, claro.
Gosto de Inês Pedrosa.
Gosto de um trabalho compilado por ela sobre poesia.
"Antologia de poesia portuguesa". da Dom Quixote.
Um beijo.

Afixado por: zezinho em maio 14, 2005 01:09 AM

Os momentos intensos são dificeis de apagar da nossa memória. Os bons (como estes) ainda bem que assim é! Apesar da saudade...

Afixado por: jotakapa em maio 14, 2005 01:46 AM