maio 11, 2005

MÓNICA (5)

V

Mordeu-o no pescoço a primeira vez que o teve, que o possuiu, como uma vampira delicada e viciosa. Adorou ouvi-lo gemer quando o sangue dele se misturou à sua saliva e o engoliu, com uma sede de rubi.
Uma noite olhou para o espelho onde os corpos de ambos se misturavam, como se não lhes pertencessem e deparou com as asas abertas nas suas próprias costas: pernas translúcidas, de um tom nacarado de pérola; asas subidas sobre os ombros, com um ligeiríssimo brilho, semeadas de secretos diamantes, meio encobertos por uma penugem discreta e dourada. Não parou de se mover em cima dele, quase voando no orgasmo veloz que se construía solto, no centro obscuro do gozo, rasgando resistências, iludindo medos, recusas de fusionamentos destruidores.
Aniquilamento último.
Depois, tombou exausta, como se desmaiasse, cega e sem ouvir, olhos de azul-cobalto, abertos no incêndio que apenas ela distinguia. Assustado, Pedro conseguiu segurá-la antes de Mónica resvalar para o chão, mas de imediato sentiu-lhe de novo os lábios insistentes, a procurá-lo, amordaçando-lhe as perguntas, calando-lhe as dúvidas, derrotando as suspeitas inquietantes.
Fora assim desde o primeiro dia: o total atropelamento das emoções e dos sentidos, o esquecimento dos sentimentos, mas igualmente o fim do terrível fantasma da impotência que até a conhecer tanto o humilhava. - "Vem!", ouviu-a pedir. - "Vem outra vez!" E mais outra e outra vez, numa voragem raivosa.

Os lençóis enrodilhados ficavam no chão quando saíam para o corredor sujo e escuro a cheirar a gordura fria, entranhada, de cozinha mal lavada. Mas os dois sentiam somente o odor a orgasmo que levavam na pele, enquanto a contragosto desciam as escadas, tropeçando na boca um do outro.


(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Vanessa Braun)


E com mais esta parte do Conto apresento a sua conclusão. A sua parte final. O clímax. A explosão dos corpos após o acumular de cargas e cargas e cargas de energia. O fim dos jogos. O explícito e brutalmente sentido. E isto é/foi hoje. Com Maria Teresa Horta, a primeira escritora escolhida e editada. Amanhã há mais. Amanhã o Erotismo continua. E amanhã será a vez de uma escritora brasileira. Aguardem. Garanto-vos desde já: o que por ai vem vai ser igualmente muito forte. Aguardem...


Publicado por void em maio 11, 2005 07:00 AM
Comentários

Fico ansioso e sedento de mais...


beijos

Afixado por: contador de historias em maio 11, 2005 09:17 PM

Cá estarei. Beijinho Sandra

Afixado por: micas em maio 12, 2005 12:31 AM

Gostas pouco gostas (isto sou eu a pensar, nada de malícias!) :-))

Afixado por: JG em maio 12, 2005 02:26 AM

Contador de histórias:
vais ter mais... muito mais. Hoje dou-te já essa prova.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em maio 12, 2005 01:01 PM

Micas:
sabes que conto sempre contigo mesmo tendo em conta o teu tempo muito "apertado".

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em maio 12, 2005 01:03 PM

JG:
pois gosto! Pois gosto! Gosto muito de Literatura Erótica de qualidade e esta obra reúne contos muito bons.
Quanto a Maria Teresa Horta em particular: adoro a sua escrita. Adorei este seu conto e adoro a sua poesia, que já aqui no Abismo editei.

E claro... nada de malícias ;)

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em maio 12, 2005 01:05 PM