
IV
Procurou Pedro à porta do hospital onde sabia que ele trabalhava. E isso fê-la recordar as batas brancas, o microscópio, o sangue, as pequenas lamelas rectangulares, e os frascos de boca larga com rolha de cortiça que chegara a encontrar no frigorífico, frascos onde pedaços de órgãos de pessoas nadavam em formol, à espera que a madrasta os dissecasse, os analisasse. Memória antiga que a nauseou, mas evitando o súbito vómito que se formara na garganta endurecida, a revolver-lhe o estômago.
Afastou-se, espavorida, daquele sítio que recordava, revendo-se criança com tanta precisão que se admirou. Sentia medo só com a ideia de encontrar o pai ou até algum dos seus assistentes, das suas preparadoras de que ainda sabia o nome. - "Na realidade não quero esquecer nada, nem ninguém!" -, pensou. E forçou-se a regressar, ficando à espera que Pedro saísse à hora que lhe havia dito: a bata branca enrolada debaixo do braço, a maleta escura e pesada pendendo da mão direita.
Chamou-o e viu-o fitá-la, furtivo, desagradado de a encontrar ali. Certa de que se dependesse dele a arrancava da sua vida, querendo-a no entanto perto. Desejo ambíguo mas evidente na pressa com que a empurrou para dentro do carro dizendo: - "Vamos!" Voz afogada de ansiedade ao perguntar: "Hoje podes?" Mónica podia sempre, estava sempre disponível para o desejo de ambos, mas respondeu tocando-lhe ao de leve no ombro ossudo que lhe apetecia beijar, descendo a língua até ao lóbulo da orelha, bebendo-lhe o cheiro a suor, aí intenso. E enquanto se encaminhavam para a pensão, mexeu-lhe ao acaso, somente com a ponta dos dedos, demorando-se-lhe nos joelhos, ao longo das costas, na barriga côncava. Na brandura morna da nuca.
Uma das coisas que mais a excitava em Pedro era ser todo liso, escuro e macio, sem um pêlo; apenas o púbis denso formava uma espécie de bosque a entranhar-se, a perder-se fértil e negro entre as coxas alongadas. Gostava de esfregar nele os lábios, molhando-o com saliva, enquanto se debruçava mansamente ouvindo-o gritar baixo, rouco, de olhos fechados, as pestanas compridas e densas a acentuarem as suas fundas olheiras acetinadas.

(Quando ouvia Mahler, revia a indiferença, o afastamento, um soberano desamor a saber a vazio, um total deserto, com um acidulado travo a goivo. Quando ouvia Mahler, encolhida no isolamento de uma sala, na última cadeira da última fila, sem nunca olhar a orquestra, era o que a atingia: o abandono. Esse hábito, esse vício do nada absoluto, a esconder a plenitude.)
(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Vanessa Braun)
Triste fim de quem ama impulsivamente...
...o abandono é a maior das crueldades.
:/
Sou assim inquieto,
irrequieto, indócil,
romântico, atrapalhado,
simples tal qual criança.
Sou um aprendiz da vida,
do amor e da esperança.
Saudade é dever de casa...
Sou qual garoto precoce,
com pressa em ser gente grande;
sou qual adulto, crescido,
desejando ser criança.
Sou poeta, amante, amado,
sou mais que eu, simplesmente;
sou tantas vidas a um tempo,
dentro e fora de mim,
que me divido em mais eus.
Sou pequenino, sozinho,
mas sou grande,
muito grande,
com alguém
a me esperar...
Só para deixar um beijinho... Tudo de bom...