
III
No dia seguinte procurou-o.
Falou-lhe de Mahler, de Marguerite Duras, de Sylvia Plath, de Anais Nin.
Da loucura feminina.
Da paixão.
De como quando era pequena convivia com os anjos, que lhe apareciam em casa, roçando as paredes, ou perto dos muros, que lambia.
Pedro era médico, céptico, introvertido. Gostava de Mozart, lia Carlos de Oliveira, Alberto Lacerda, Manuel Laranjeira, Camus.
Mónica retornava axaltada a "O Monte dos Vendavais", a "Ariel", a "Orlando", sabendo de cor páginas de "Le Ravissement de Lol. V. Stein". Em certas madrugadas de desespero, revia cenas de "A Dama de Xangai", até desentender a próxima imagem que ali encontrava reflectida, assustada consigo.
Em nada os dois eram parecidos. Quando se entusiasmava a defender uma ideia, uma teoria, uma posição de princípio, ele sorria trocista e ela então teimava em fechá-lo nos seus braços envolventes, nervosos.
Durante semanas foi esse o jogo: Mónica queria levá-lo para a cama, sem palavras, Pedro escapava-lhe, demorando-se, fingindo ignorá-la, distraído da sua sedução, jamais no entanto a perdendo de vista.
Um dia Mónica fez parar o elevador onde iam sozinhos, ao entreabrir a porta entre dois andares. Empurrou-o em seguida para o tapete, montou-o, e quando Pedro tentou beijá-la, esquivou-se; sentiu-o ceder e riu enquanto lhe afagava o pénis erecto, que primeiro acariciou sem pressa debaixo do tecido das calças, tirando-o só depois para fora, escuro e comprido, tal como o imaginara. Ouviu-o arfar debaixo de si quando lhe fez deslizar o sexo entre as cuecas que puxara para o lado, e o meteu um segundo dentro de si, sem ser até ao fundo.
Depois largou-o, e de um salto fechou a grade do elevador, carregou de novo no botão para continuarem a descer, mal tendo tempo de alisar o cabelo e a saia, e ele de se levantar, aturdido, antes de ela correr para a rua e deixá-lo para trás, parado, respiração cortada.
No dia seguinte Pedro telefonou-lhe para dizer que tudo aquilo era loucura, histeria, perigo, que seria melhor não se tornarem a ver. Nunca mais. Mónica não respondeu e desligou. Era quase noite quando o descobriu sentado numa esplanada da Alameda, o jornal dobrado ao lado da chávena de café por beber. Sentou-se à sua frente e ficaram quietos no final da tarde, escuridade que se ia adensando, agreste. Reparou no seu ar abandonado, a cara estreita de malares salientes, os lábios tão negros que pareciam azulados. Descalçou um dos sapatos e procurou com o pé o calor das suas coxas, apercebendo-se logo do seu recuo, tímido, olhar atento a querer sondar se alguém estaria a dar por aquilo que se passava debaixo da mesa: pé ágil, insistente, descendo e subindo entre as suas pernas.
Sem se importar, Mónica continuou a mover o pé, lentamente: para baixo e para cima, doce, a sentir a aspereza do tecido das calças, a erecção enorme, escaldante. Um arrepio percorreu-a, sabendo-se à beira da perda, da queda.
Encolheu-se.
Desceu a perna e, sem dar explicação alguma, levantou-se. Deixando-o a vê-la afastar-se tão lentamente que dir-se-ia quase sonolenta, podendo parar a cada instante.
Cair.
Pedro ficou à espera que ela resvalasse, tombasse como um pássaro atingido por um tiro. Lembrou-se, então, dos anjos de que a ouvira falar, como se fossem da sua companhia, e surpreendeu-se com isso. Afinal, Mónica nunca parecia levantar voo e sim cair. Como naquele momento, antes de dobrar a esquina, andar inseguro, resvalante, em desequilíbrio.

(Alguns fins de tarde, sozinha em casa, Mónica ouvia Purcell: vozes subindo pelas arcadas do sonho, roçando na pedra das catedrais, ressoando pelas escadarias, no claustro do convento, onde Santa Cecília se unia, num transporte, ao êxtase fantasiado.
Mas acabava por voltar sempre e sempre a Mahler, buscando o cume da sua fulgurante sombra, da sua penumbrosa chama, como se bebesse de um poço profundíssimo, onde o desespero se deixava tocar pelo som harmonioso que se oferecia, relutante. Pelo olhar pleno de lucidez, contendo todas as suspeitas. Todos os equívocos.)
(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografias de Vanessa Braun)
Maria Teresa Horta é excelente. Já conhecia mas leio sempre com o mesmo prazer.
p.s. Sandra Ainda não te respondi ao mail, desculpa, o tempo tem andado curtinho, mas vou fazê-lo em breve. Beijinho e um bom dia para ti.