maio 09, 2005

MÓNICA (2)

II

Fora Mónica que conquistara Pedro, que o levara para a cama; que o desejara logo, mal o descobrira junto da janela, a olhar o crepúsculo de uma primavera tardia e ventosa, em casa de uns amigos comuns perto da Fonte Luminosa.
Fascinara-a a cor escura da sua pele, o olhar enlanguescido, fugidio, a extrema magreza do corpo alto, a tremura acentuada das mãos longas, o cabelo sedoso, caído sobre a testa.
Primeiro desejou impaciente tocar-lhe o peito, depois imaginou-lhe as nádegas ásperas, os ossos salientes das ancas, o sexo grande. E o seu corpo enrijeceu: os bicos dos seios, a língua, o clítoris, um sumo grosso a formar-se já no interior da vagina. E uma curtíssima vertigem fê-la vacilar um tudo nada, acabando por se encostar no vão da janela onde os dois permaneceram imóveis, sentindo apenas a aproximação um do outro.
Os fluídos um do outro.
Mónica avançou os dedos até ao seu braço apoiado no peitoril estreito e procurou-lhe o calor debaixo da camisa branca que ele usava, indo através do punho lasso sob o qual a mão trepou depois sem custo, vistoriando, a tomar conhecimento da sua temperatura. E ficaram a olhar-se, enquanto o ar parecia tornar-se pastoso e espesso, num tempo que entretanto tinha parado. Viu-o estremecer e afastar-se, esquivo, admirado; como se fugisse, como se não quisesse continuar a ser tocado, tomado, à vista de todos.
Inclinou-se então para a frente, prendendo-o por instantes, puxando-o para si, e curvando-se passou-lhe os lábios pelas pálpebras: uma e depois a outra. Sentindo-lhe pela primeira vez o cheiro a madeira ainda verde e a goivo, tendo no seu crivo um travo mesclado, matizado pela canela.
Sabia que isso a iria enlouquecer.
Pressentindo a vertigem que se aproximava, apoiou-se ao parapeito de mármore, muito pálida, encobertos os dois pelo cortinado espesso, pesado, corrido até meio.

(Mahler. Mónica tentava isolar-se, quando ouvia Mahler: o rosto escondido pelos punhos cerrados, a testa apoiada nas palmas das mãos. Quase gemia, mas ainda calava a suspeita daquilo que no seu coração se acoitava. Mahler.
Os arcanjos sobrevoavam, perto: escutava-lhes o ruído impreciso das asas, a misturar-se, breve, leve, cumprindo destinos. O de Mahler e o seu próprio, ligados apenas por instantes.)


(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Vanessa Braun)

Publicado por void em maio 9, 2005 08:05 PM
Comentários

Tou a adorar. Realmente é um conto erótico e e belissimo. obrigada pela "dica" :)

beijoca*

Afixado por: Andreia C. Faria em maio 9, 2005 08:36 PM

Descobri este cantinho delicioso onde, desde logo, me identifiquei com 1001 obras das que aqui se mencionam. Curioso que ainda hoje estive com esta na mão, no meu lugar de culto da cultura, a fnac, claro está, mas não o cheguei a trazer comigo, felizmente conseguiste fazer-me sentir culpada a ponto de o acrescentar na próxima lista de compras!*

Afixado por: Rita em maio 9, 2005 08:42 PM

Querida Sandra, obrigada por tão gentis palavras no meu espaço, ainda bem que gostaste, é sempre bom sabermos que agradamos com o que somos e fazemos aos outros. Perdoa a minha falha, mas confesso que em termos de links, sou um zero à esquerda e ainda não consegui descobri a fórmula mágica para os aprender a fazer, quem sabe tenho a sorte de que alguém perito na matéria me ajude nesse campo ;) Até breve! Beijinhos*

Afixado por: Rita em maio 9, 2005 11:34 PM

sempre imbativel. um beijo.

Afixado por: TCA em maio 10, 2005 01:02 AM

Andreia:
sim, é um belo texto bem ao estilo de Maria Teresa Horta. Aliás, todos os contos da obra são muito interessantes e ricos, naquela que é/pode ser a abordagem e entendimento do Erotismo.
Dica dada/recomendação mais do que sublinhada.

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em maio 10, 2005 07:13 AM

:))

Beijinho Rita e volta sempre.

Afixado por: Sandra em maio 10, 2005 07:14 AM

TCA:
sim, meu querido... eu esqueço-me de intervalar. Fazer o quê? ;) Mas vale a pena, não?

Beijokas

Afixado por: Sandra em maio 10, 2005 07:15 AM

Vale a pena, vale Sandra. Os textos lêem-se de uma acentada :D E sabem muito bem ;)
Beijinhos

Afixado por: whitesatin em maio 10, 2005 10:52 AM