Dou hoje início, e até Quarta-feira, à edição do conto "Mónica", da autoria de Maria Teresa Horta, constante em INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Uma obra cuja 1ª edição saiu para o mercado no passado mês de Março e que reúne dez contos eróticos de escritoras portuguesas e brasileiras, a saber: Ana Miranda (Brasil), Branca Maria de Paula (Brasil), Guiomar de Grammont (Brasil), Inês Pedrosa (Portugal), Lídia Jorge (Portugal), Lygia Fagundes Telles (Brasil), Maria Teresa Horta(Portugal), Nélida Piñon (Brasil), Rita Ferro (Portugal) e Teolinda Gersão (Portugal).
Começando a edição com Maria Teresa Horta, outros contos se seguirão até final da próxima semana. Duas semanas, portanto, de Erotismo com propostas de escritoras do lado de cá e do lado de lá do Atlântico.
Espero que as minhas escolhas sejam/venham a ser do vosso agrado. É evidente que o que eu aqui apresento/apresentarei não se substitui à leitura de toda a antologia, por isso que tudo seja entendido, também, como um despertar para a aquisição da mesma.
Segue então o primeiro conto seleccionado.

I
Mónica gostava que ele lhe metesse as mãos entre as pernas enquanto ainda estava vestida: os dedos a afastarem a seda das meias, a tentarem alargar o cinto de ligas, a deslizarem na pele macia das coxas, a insinuarem-se já pelo caminho dos pêlos até à humidade quente dos lábios grossos, salientes e largos da vagina, onde sentia pulsar um perturbante coração afastado.
Ou uma boca cheia de sede.
Deixava que as pernas subissem, os pés roçando os ombros, mas primeiro como se hesitassem, numa espécie de abraço em torno do pescoço; depois, desciam de novo até aos ombros, abertas. Oferecendo-se, enquanto Pedro começava a lamber-lhe, ao de leve, as virilhas com o seu cheiro a fruto; um pequeno suor salgado a insinuar-se por dentro da saliva, dissolvendo-se na língua. E o sussuro, o gemido, eram tão baixos que ninguém saberia determinar de qual dos dois partiam.
Assim, vestidos.
Desde o princípio, como gostava, logo depois de chegarem ao quarto da pensão pobre por onde ele a arrastava, ambos de respiração suspensa, subindo depressa os degraus da escada nauseabunda, penumbrosa, madeira lascada, gasta pelo tempo. Pedro, excitado, parava a meio para se esfregar nela, e Mónica quase gritava de gozo, prazer que isso despertava nela, curvada sobre o intenso cheiro almiscarado que o pescoço dele guardava, odor a cortar-lhe a respiração, entontecida e sôfrega.
"Não me quero vir já..." murmurava ele a morder-lhe os pulsos febris, breves, algemados pelos seus dedos à parede esburacada. E continuavam subindo a escada, sem fôlego, até ao último andar, patamar onde aparecia uma mulher gorda e pintada, que nas primeiras vezes lhe perguntou a idade - "por causa da polícia...", explicou; mas que nos meses seguintes se limitava a conduzi-los, sem palavras, até ao quarto que lhes alugava, quase vazio. Uma cama, uma cadeira, um candeeiro e um espelho chegavam-lhes durante as horas que ali passavam, nas quais só queriam beber-se, devorar-se um ao outro, misturando os sucos, o cuspo, o prazer, partilhando a posse.
Às vezes Mónica gritava.
Pedro punha-lhe então sobre a boca a palma da mão, que ela mordia, e explodia dentro dela, o corpo muito magro erguendo-se, febril, enquanto a via continuar ainda e ainda revolvendo-se, os dedos excitando-os dentro de si, enquanto se ia masturbando ao mesmo tempo.
(Escutava Mahler quando anoitecia.
Enovelada, curvada sobre si mesma, o crepúsculo a misturar-se com o mágico lado interior das sinfonias.
Algumas tardes chorava.
Em surdina.
E tudo o resto apagava-se à rua roda: só ela e os anjos de armadura negra.)
(Maria Teresa Horta- "Mónica", in INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Vanessa Braun)
MAria Teresa Horta é provavelmente um dos maiores vultos da cultura portuguesa contemporânea.
Conheço por me ter sido enviada sob a forma de sugestão o trabalho a que te referes.
Excelente este teu blog.
Beijo
Zezinho:
Maria Teresa Horta é uma das minhas escritoras/poetisas de referência. A sua abordagem do Erotismo é absolutamente fantástica e este conto é mais uma prova inequívoca disso. Depois, claro, a perspectiva que parte da Mulher... muito, muito interessante.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em maio 10, 2005 07:18 AM