Eis que chegados a mais um Domingo. E, por isso, mas não só por isso, mais um texto do Luís Coutinho. Apreciem-no!

Um dia talvez deixe o corpo a dormir mais uns minutos e vá passear o recheio por qualquer lado…
Um banco vazio, sento-me, encho as mãos com coisa nenhuma, passa alguém, depois um outro alguém, um alguém depois do outro e enfim só.
O banco de madeira gasta, sem costas assente na sua rigidez muda de objecto, eu sentado na companhia de um lugar vazio e uma árvore sem pudores, nua a estender-me os seus ramos como braços carentes, querendo abraçar-me, talvez sentar-se ao meu lado, fumando um cigarro pós-coito depois desse abraço.
Uma matilha de ratos com asas, fazem-me o favor de rasgar o silêncio com arrulhos idiotas, decorando o coreto como uma filarmónica em desafinação metódica e precisa. Porque não emigram os pombos e já agora aproveitam para se perder pelo caminho?
No jornal de hoje abundam as notícias de todos os dias, dinheiro mal gasto para saber que ontem estávamos mal, hoje não estamos lá muito bem e se calhar amanhã podemos ter uma sensação de déja vu ao constatar-mos que quinta-feira nada tem de diferente de terça-feira.
Mais um alguém com o mesmo rosto que o alguém anterior, todos vestem a mesma cara e gestos, até a voz parece a mesma independentemente do sexo ou cor, parece que todos fizeram compras na mesma loja de pronto-a-vestir em liquidação total (compre o mesmo que todos usam e oferecemos a oportunidade de ser como todos os demais! Temos tamanhos grandes e pequenos! válido até ao fim do stock).
O banco pouco ou nada conversador, de uma frieza muito própria tolera a minha presença mas o lugar vazio a meu lado não gosta de companhia e responde com evasivas silenciosas às minhas tentativas de diálogo sobre o estado do tempo e da nação; a árvore em pleno cio, começa a tornar-se desinteressante, incómoda; o concerto pombalino é um atentado à moral e bons costumes do sossego. Entediado abandono o jornal "sempre do mesmo" e resolvo ir dar uma vista de olhos às montras das lojas, talvez encontre um fato de um alguém que me fique bem a um preço simpático.

(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografias de Michael McCarthy)
O dia é uma rotina sempre desigual. Por vezes apenas se preenche com o desinteresse e a falta de vontade de continuar a fazer o mesmo de todos os dias. Ou seja ignorar essa mesma rotina.
Afixado por: contador de histórias em maio 11, 2005 09:24 PM