Para segunda re-edição um pensamento de uma das personagens constantes na obra "Eu barra tu barra mim", de Ana Vicente. Abordagem: o Amor, no geral. Mas também o desamor, o esfriamento emocional. A presença do acreditar limitado ou do não acreditar. O dar-se, mas simultaneamente, o resguardar-se. O consciente e o não consciente. Ser a dois ou ser, simplesmente, um mais um. Ou o ser a dois equivocado. A complexidade que envolve o Amor. O Amor?

Augusto
Os teus olhos fixados nos meus, com a força que reconheço em ti. És uma mulher maravilhosa, penso. Sorrio. E tento ignorar a voz na minha cabeça que me alerta para o que está a acontecer. Seduzo-te cada vez mais. Como se a minha paixão fosse demolidora, forte e teimosa como os teus olhos. Não vislumbras a ameaça pendendo sobre ti. Não reconheces o perigo. Apetece-me alertar-te, mas sei que não é possível. Que inevitavelmente pensarias que estava a proteger-me. Todos nos salvamos mutuamente, não é o que pensas? Mas, olha, não é verdade. Ou, pelo menos, não é verdade para mim. Nada mais se recuperará deste lugar. A minha história contada é um disparate. Já, outras vezes, tentei avisar. Mas nem eu próprio acreditava, sabes? Ainda pensava que iria recuperar a inocência, essa capacidade de amar como se fosse a primeira vez. Mas a primeira vez também foi um equívoco. E, a esse, outros se seguiram. Ponho os pés no chão uma vez por dia e gozo a minha felicidade. Essa felicidade de ser amado e de amar. Dura só um instante e depois volto para aqui. Para este lugar de conformação, de não mudança, de impossibilidade. Tu sabes-me bem, entendes? Não tem nada a ver contigo. Nunca quis magoar ninguém. Talvez seja mais forte do que eu. Mais forte do que a minha vontade de ser feliz. Antes, via filmes com personagens que tinham um final feliz e acreditava num desses para mim. E tive muitos, muitos finais felizes. Mas o filme não acabava ali. Nunca acabou ali, nesse final feliz aguardado. Se estou contigo, deveria acreditar. Mas não acredito. Em nada acredito. Estou apenas a salvaguardar o meu lugar nesta linha encadeada de causas e efeitos incontroláveis e tremendamente banais. Não me queixo do mundo. Da brisa com cheiro a mar, dessas imagens bonitas que colecciono sem qualquer pudor e, ao mesmo tempo, com toda a culpa. Sem pudor, só culpa. Desculpa ter-te feito apaixonares-te por mim. Mas és tão doce, era inevitável. Como não querer estar perto de ti e beijar-te? Dar-te um pouco de luz, um pouco de negro. Um pouco de vida. Desculpa.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)
E quando a capacidade de amar nos parece fugir por entre os dedos?*
Afixado por: Ana em maio 7, 2005 01:41 PMTexto belíssimo que adorei ler - talvez porque me diz muito ... Sonhadora e romântica inveterada, eu! Um beijo e bom Domingo.
Afixado por: Pink em maio 7, 2005 11:44 PM