maio 07, 2005

A MINHA VIDA

Como primeira re-edição de hoje o excerto de um texto de Pedro Paixão. A obra: "A noiva judia". Relativamente à abordagem feita: uma opção de e para a vida que, tenho a certeza, não é só muito própria do personagem masculino em questão, mas de muitas mais pessoas. Se tal opção, em termos reais, será a melhor ou a pior, caberá a cada um avaliar, mas... consideremos, já agora, a possibilidade da "avaliação cómoda" e não só da "avaliação real". Sim, porque não? Mas claro que é importante compararmos ambas e adaptá-las ao maior número de especificidades existenciais naquela que é a positividade maior ou menor de resultados.

Quase gosto da vida que tenho. Não foi fácil habituar-me a mim. Tive de me desfazer das coisas mais preciosas, entre elas de ti. Sim, meu amor, tive de escolher um caminho mais fácil. O dinheiro também tem a sua poesia. E tenho tido sorte.
Deixei para trás a obrigação de mudar o mundo. Já cometi corrupções. Só ainda sinto dificuldades em mentir, mas também aqui vejo melhoras. Trata-se só de deformar ligeiramente o que vai acontecendo, não de inventar tudo de novo. Tenho mais alguns anos diante de mim e depois quero acabar de repente. Não sei se valeu a pena mas também não me pergunto se valeu a pena. Há muitas coisas assim.
Não é desistir, é só dar demasiada importância a coisas que não a têm. A vida é uma delas. Ganha um valor particular quando deixamos de a encarar como o centro de tudo. É só por acaso que gostamos das flores e do mar. E, claro, que é um bom acaso. Mas mais do que isso não.
Quase gosto da vida que tenho. Quando a quis toda não gostava de mim. Agora há dias em que aceito que o tempo passe por mim e me leve para onde só ele sabe.
...
Vivo sozinho. Passam pessoas, mas nunca ficam por muito tempo. A partir de certa altura intrometem-se tédios por entre as frases e não sabemos continuar. Não insisto. Há muitas pessoas. Não vale ter medo. Há muito que o amor mostrou ser um fracasso. No dia seguinte, no escritório, esperam-me problemas por resolver e decisões que valem dinheiro. Não posso sofrer.
Claro que por vezes me sinto triste como toda a gente. Mas é uma tristeza doce, como um descanso. E como não espero nada, não faço nada. De uma maneira ou de outra também acabarei por adormecer esta noite.


(Pedro Paixão- A NOIVA JUDIA. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


Publicado por void em maio 7, 2005 08:36 AM
Comentários

Sou fã de Pedro Paixão, nada a fazer. Gosto da abordagem que faz do quotidiano e do aparentemente despojado modo como constrói as pesonagens. O discurso de primeira pessoa facilita o intimismo - no caso da Noiva Judia, torna-se fácil anuir ou antagonizar com a personagem; ficar-se indiferente é atitude impossível.

(ps- tem sido difícil seguir as publicações, pq me custa ler vermelho sobre preto e a minha impressora tem estado kaput :((, mas este blog continua a ser uma referência. Parabéns!)

Kiss'ugs

Afixado por: MJM em maio 7, 2005 06:00 PM