
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA. Edição: Quasi Edições, 2003. Fotografia de Christian Coigny)
Já editei este poema aqui no Abismo há bastante tempo atrás. No entanto, como o considero belíssimo e muito, muito significativo, trouxe-o novamente para junto de vós. Que a re-leitura não seja "desagradável" ou que a primeira leitura seja do máximo agrado.
Uma forma poética de compreendermos a nossa essência. Gostei muito. De facto, é preciso arte para nos equilibrarmos e para nos mantermos assim, coerentes nas nossas limitações e nas nossas capacidades.
Beijinho :)
Conheço pouco de Ferreira Gullar, embora o facto de estar na tua lista de preferências seja sugestivo. Gostei batsante da musicalidade e da maleabilidade deste poema.
Isto não tem nada a ver, mas deixo-te uma sugestão para aqueles "roteiros" de livros que nos costumas deixar: A Pianista, de Elfriede Jelinek.
beijoka*