maio 04, 2005

RESISTIR (5)

O pior é a vertigem.
Na vertigem não se frutifica nem se floresce. A característica da vertigem é o medo, o homem adquire um comportamento de autómato, deixa de ser responsável, deixa de ser livre, já nem reconhece os outros.
Encolhe-se-me a alma ao ver a humanidade neste comboio vertiginoso em que nos deslocamos, ignorantes atemorizados sem conhecermos a bandeira desta luta, sem a termos escolhido.
O clima de Buenos Aires mudou. Nas ruas, homens e mulheres apressados avançam sem se olharem, dependentes do cumprimento de horários que põem em perigo a sua humanidade. Já não há lugar para aquelas conversas de café que foram um traço distintivo desta cidade, quando a ferocidade e a violência ainda não a tinham convertido numa megalópole enlouquecida. Quando as mães ainda podiam levar os filhos às praças ou a visitar os mais velhos. Será que se pode florescer a esta velocidade? Uma das metas desta corrida parece ser a produtividade, mas serão estes produtos verdadeiros frutos?

O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autómato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças.
Estamos no caminho mas não a caminhar, estamos num veículo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades satélites que dizem que haverá. E ninguém anda a passo de homem, por acaso algum de nós caminha devagar? Mas a vertigem não está só no exterior, assimilá-mo-la na nossa mente que não pára de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar para fora? Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito.

Na vertigem tudo é temível e desaparece o diálogo entre as pessoas. O que nos dizemos são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo afoga o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo que o vença e que lhes outorgue uma maior liberdade. Mas o grave problema é que nesta civilização doente não há só exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, teme-a. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente sem que um sim ou um não tenha precedido os actos. A maioria da humanidade é empregada de um poder abstracto. Há empregados que ganham mais e outros que ganham menos. Mas quem é o homem livre que toma as decisões? Esta é uma pergunta radical que todos temos de nos fazer até ouvirmos, na alma, a responsabilidade a que somos chamados.

As dificuldades da vida moderna, o desemprego e a sobrepopulação levaram o homem a uma preocupação dramática com o económico. Do mesmo modo que na guerra a vida se debate entre ser soldado ou estar ferido num hospital, nos nossos países, para uma infinidade de pessoas, a vida limita-se a ser trabalhador a tempo inteiro ou ser excluído. É grande a orfandade que se propaga nas cidades; a grande solidão da pessoa original é uma das tragédias da vertigem e da eficiência.
A primeira tragédia que deve ser urgentemente reparada é a desvalorização de si próprio que o homem sente e que constitui o passo prévio à submissão e à massificação. Hoje o homem não se sente um pecador, crê que é uma engrenagem, o que é tragicamente pior. E esta profanação só pode ser curada pelo olhar que cada um dirige aos outros, não para avaliar os méritos da sua realização pessoal, ou para analisar qualquer dos seus actos. É um abraço que nos pode dar o gozo de pertencer a uma obra grande que nos inclua a todos.

Do nosso compromisso perante a orfandade pode surgir outra maneira de viver, em que o fechar-se sobre si mesmo seja um escândalo, em que o homem possa descobrir e criar uma existência diferente. A história é o maior conjunto de aberrações, guerras, perseguições, torturas e injustiças, mas, ao mesmo tempo, ou por isso mesmo, milhões de homens e mulheres sacrificam-se para cuidarem dos mais desventurados. São estes que encarnam a resistência.
Trata-se agora de saber, como disse Camus, se o seu sacrifício é estéril ou fecundo, e esta é uma interrogação que tem de estar presente em cada coração, com a gravidade dos momentos decisivos. Nesta decisão reconheceremos o lugar onde cada um de nós é chamado a opor resistência; então, criar-se-ão espaços de liberdade que podem abrir horizontes até agora inesperados.
É uma ponte que teremos de atravessar, uma passagem. Não podemos ficar parados nem sequer deleitar-nos com a visão do abismo. Neste caminho sem saída que hoje enfrentamos, a recriação do homem e do seu mundo aparece-nos não como uma escolha entre outras mas como um gesto tão inadiável como o nascimento de uma criança quando chegou a sua hora.
É nas próprias crises que os homens encontram a força para as superarem. Assim o demonstraram tantos homens e mulheres que, tendo como único recurso a tenacidade e a coragem, lutaram e venceram as sangrentas tiranias do nosso continente. O ser humano sabe fazer dos obstáculos novos caminhos porque, para a vida, basta o espaço de uma fenda para renascer. Nesta tarefa, o primordial é negarmo-nos a asfixiar o que possamos iluminar de vida. Defender, como o fizeram heroicamente os povos ocupados, a tradição que nos diz o que o homem tem de sagrado. Não permitir que seja desperdiçada a graça dos pequenos momentos de liberdade de que podemos gozar: uma refeição partilhada com as pessoas que amamos, as criaturas a que damos amparo, uma caminhada entre as árvores, a gratidão de um abraço. Actos de coragem como saltar de uma casa em chamas. Estes não são actos racionais, nem é importante que o sejam, salvar-nos-emos pelos afectos.

O mundo nada pode contra um homem que canta na miséria.


(Ernesto Sabato- RESISTIR. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Misha Gordin)


Mais uma vez Ernesto Sabato está/esteve neste blog. Mais uma vez tive um tremendo gosto em editar posts com excertos de obras suas. "Resistir" é uma obra especial que me suscitou grande interesse. Trazê-la aqui foi muito estimulante, reforçado aliás, pelos comentários que possibilitou, mas também pelo número de visitas feitas ao Abismo durante os dias da sua apresentação. Ora isto significa algo. Julgo que é esse algo que deve ser preservado atendendo, em particular, ao que objectivei/desejei na introdução do post de arranque das edições. Mais uma vez vos agradeço a todos. Fiquem bem!

Publicado por void em maio 4, 2005 06:44 AM
Comentários

Um bocadinho extenso.. não?

Afixado por: francisco em maio 4, 2005 08:35 AM

Perante o conteúdo, Francisco, creio que a extensão é o menos relevante. Este post não destoa dos anteriores e quem vem aqui ao Abismo sabe com o que se pode deparar: adere ou não, gosta ou não, participa ou não.
Assim sendo... Mas repara: lê-se melhor um bom texto extenso ou um conjunto de excertos do que um texto pequeno, sem sentido, mal escrito e sem substância.

Beijokinhas, Melga ;)

Afixado por: Sandra em maio 4, 2005 09:29 AM

Eu ando devagar. No meio da multidão, eu sou aquela que "empata" o fluxo de autómatos. Qualquer dia prendem-me. LOL
Beijinho ;)

Afixado por: whitesatin em maio 4, 2005 02:10 PM

Whitesatin:
ou prendem-te ou és esmagada. E assim pode ser porque a pressa e a vertigem são, de facto, enormes. Engolem... Sufocam... A tua (ou a resistência de alguns) pode não ser "eterna", porque os limites existem (os físicos e os psicológicos). Seja como for, julgo que o que deve ser sublinhado é a mensagem de Sabato no sentido do resistir ser algo de efectivo e muito necessário. E isso pode não ser difícil se se começar por valorizar (mais) coisas entendidas como "pequenas" ou que passam demasiadamente despercebidas.
Claro que existem níveis de (para a) resistência, de (para a) luta, de vontade de (para) mudar. Se encararmos, contudo, que cada um de nós pode começar a mudar ou reforçar a mudança, em si e nos espaços onde está, algo avança ou pode avançar. Desistir é que não. Desistir em absoluto será o suicídio.

Obrigada pela tua participação. Mais uma ;)

Afixado por: Sandra em maio 4, 2005 03:31 PM

Pela parte que me toca saí a ganhar.
Ainda não sei bem como, descobri este espaço.
Ganhei não apenas porque li algo "com substância" como sublinhou a Sandra, mas ganhei também a possibilidade de "conhecer" alguém que tem motivações fortes e se atreve a resistir.
Não é fácil. Mas é revigorante, reconfortante, mas é sobretudo um passo importante para nos afirmarmos como seres humanos.
Sandra, o meu muito obrigado pelos momentos que tens proporcionado.
Um beijo

Afixado por: zezinho em maio 4, 2005 09:25 PM

zezinho:
muito, mas muito obrigada. Acredita que as tuas palavras também (me) são importantes neste/para este meu caminho de resistência.

Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em maio 5, 2005 07:01 AM