maio 03, 2005

RESISTIR (4)

Assistimos a uma quebra total da cultura ocidental. O mundo range e ameaça derrocar, esse mundo que, para maior ironia, é o resultado da vontade do homem, do seu prometeico desejo de dominação.
Guerras que unem a tradicional ferocidade à inumana mecanização, ditaduras totalitárias, alienação do homem, destruição catastrófica da natureza, neurose colectiva e histeria generalizada, abriram-nos por fim os olhos para nos revelar o tipo de monstro que tínhamos gerado e criado orgulhosamente.
Aquela ciência que ia dar solução a todos os problemas físicos e metafísicos do homem contribuiu para facilitar a concentração dos estados gigantescos, para multiplicar a destruição e a morte com os seus cogumelos atómicos e as suas nuvens apocalípticas.

Hora a hora o poder do mundo está a concentrar-se e a globalizar-se. Vinte ou trinta empresas, como um selvagem animal totalitário, têm-no nas garras. Continentes na miséria ao lado de altos níveis tecnológicos, possibilidades de vida espantosas a par de milhões de homens desempregados, sem lar, sem assistência médica, sem educação. A massificação causou estragos, já é difícil encontrar originalidade nas pessoas e realiza-se um processo idêntico em todos os povos, é a chamada globalização. Que horror! Será que não percebemos que a perda das características nos vai tornando aptos para a clonagem? Por tomarem decisões que tornem a sua vida mais humana, as pessoas temem perder o trabalho, ser expulsas, passar a pertencer a essas multidões que correm angustiadas em busca de um emprego que lhes impeça de cair na miséria, que as salve. A total assimetria no acesso aos bens produzidos socialmente está a acabar com a classe média e o sofrimento de milhões de seres humanos que vivem na miséria está permanentemente diante dos olhos de todos os homens, por maior que seja o esforço que façamos para fechar as pálpebras. Em breve já não poderemos desfrutar de estudos ou de concertos, porque serão mais prementes as interrogações que a vida nos imporá em relação aos nossos valores supremos. Pela responsabilidade de sermos homens.

Quantas vezes aconselhei aqueles que me pedem ajuda, na sua angústia e no seu desalento, que se dedicassem à arte e se deixassem invadir pelas forças invisíveis que operam em nós. Todas as crianças são artistas que cantam, bailam, pintam, contam histórias e constroem castelos. Os grandes artistas são pessoas estranhas que conseguiram preservar no fundo da sua alma a sagrada candura da infância e dos homens que chamamos primitivos, e por isso provocam o riso dos estúpidos. A capacidade criativa está presente em todos os homens, em diferentes graus, não necessariamente como uma actividade superior ou exclusiva. Quanto nos podem ensinar os povos antigos onde todos, para além das desditas ou dos infortúnios, se reuniam para cantar e dançar! A arte é um dom que cura a alma dos fracassos e dos dissabores. Anima-nos a cumprir a utopia a que fomos destinados.
A arte de cada tempo condensa uma visão do mundo, a visão do mundo que têm os homens dessa época e, em particular, o conceito da realidade. Neste novo milénio sob o grande supermercado da arte, como os rebentos que germinam após um longo inverno, percebem-se, aqui e acolá, os testemunhos de outra maneira de olhar. Nomeadamente no cinema, em filmes de muito baixo orçamento que nos chegam de pequenos países, não contaminados pela globalização, expressa-se o desejo de um mundo humano que se perdeu, mas ao qual não renunciámos. São filmes que nos trazem o alívio ao vermos que a vida simples, humana, ainda está viva. O homem é feito não só de morte, mas também de ânsias de vida; não só de solidão, mas também de comunhão e de amor.


(Ernesto Sabato- RESISTIR. Edição: Dom Quixote, 2005. Fotografia de Misha Gordin)

Publicado por void em maio 3, 2005 06:50 PM
Comentários

Um excelente texto a chamar a atenção para o abismo em que nos estamos a lançar alegremente.
Gostei de ter recebido noticias tuas.
Quererás ponderar a hipótese de escrever umas crónicas de opinião para o meu jornal?
Um beijo

Afixado por: zezinho em maio 3, 2005 07:59 PM

Ás vezes, demasiadas vezes, penso que a melhor coisa a fazer é fugir deste mundo. Abstrair-me, isolar-me, para não ser manipulada nem contaminada pela loucura que paira no ar.
Mas depois apercebo-me de que, se fugir estarei a aceitar a derrota. E essa derrota implica que me transforme numa louca como todos os outros que desistiram. É esse inconformismo que me mantém lúcida e sempre alerta para tudo o que de errado se passa à minha volta. É sempre muito motivador saber que não sou a única a pensar assim. Estes textos são uma inspiração para todos os que se preocupam com o estado da humanidade.
Mais uma vez te agradeço Sandra, pela partilha destes textos :)
Beijo grande

Afixado por: whitesatin em maio 3, 2005 09:39 PM

Sandra, passa no MUITA LETRA. deixo-te lá um desafio :)

beijoka*

Afixado por: Andreia C. Faria em maio 3, 2005 10:36 PM

zezinho:
em privado, já respondi à tua proposta ;)
Mais uma vez: obrigada pelas palavras. Síntese de pensamento (de conteúdo) absolutamente realista.

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em maio 4, 2005 09:33 AM

whitesatin:
os teus comentários têm sido importantes contributos complementares aos excertos editados. Revejo-me e identifico-me plenamente com todos eles. Mas isto tu sabes. Tenho gostado, particularmente, do cunho pessoal que lhes imprimes, muito para além da "mera" análise distanciada.

Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em maio 4, 2005 09:36 AM

Andreia:
já fui ao teu canto e, a propósito do desafio, deixei comentário.

Beijoka

Afixado por: Sandra em maio 4, 2005 09:37 AM

Jorge, meu queridooooo:
é sempre muito bom saber-te de volta. A tua presença é importante e estimulante. Enfim, blá, blá, blá. Eheheh..

Beijinho

Afixado por: Sandra em maio 4, 2005 09:39 AM