No Sábado passado a minha segunda re-edição foi o excerto de uma obra de Albert Camus. Pois bem, hoje, inicio com ele o dia aqui no Abismo. O mesmo autor, mas uma obra diferente. "A Queda", um trabalho que, incidindo sobre o percurso de vida de um homem nos pode, também, atingir significativamente. Quantos de nós não nos podemos rever nesta ou naquela vertente? Quanto de nós já vivemos semelhanças de existência? Quantos de nós já não pensaram tão parecidamente? Quantos de nós...
Fiquem com o excerto.

Nunca tive necessidade de aprender a viver. Nesse ponto, já tudo eu sabia ao nascer. Há pessoas cujo problema consiste em resguardarem-se dos homens, ou, pelo menos, acomodarem-se a eles. Quanto a mim, a acomodação estava feita. Familiar quando era preciso, silencioso se necessário, capaz de desenvoltura como de gravidade, estava sempre ao nível. Era por isso grande a minha popularidade, e os meus êxitos na sociedade nem se contavam. Tinha boa figura, revelava-me simultaneamente bailarino infatigável e discreto erudito, chegava a amar ao mesmo tempo, o que não é nada fácil, as mulheres e a justiça, dedicava-me aos desportos e às belas-artes, enfim, não digo mais, não vá suspeitar que me envaideço. Mas imagine, peço-lhe, um homem na força da idade, de perfeita saúde, generosamente dotado, hábil nos exercícios do corpo como nos do intelecto, nem pobre nem rico, de sono fácil, e profundamente satisfeito consigo mesmo, sem que o mostrasse, a não ser por uma feliz sociabilidade. (...) O meu acordo com a vida era total, eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões. Particularmente a carne, a matéria, o físico, numa palavra, que desaponta ou desanima tantos homens no amor ou na solidão, dava-me, sem me escravizar, alegrias iguais. Tinha sido feito para ter um corpo. Daí esta harmonia em mim próprio, este autodomínio sem esforço que as pessoas sentiam, e que, segundo confessavam por vezes, as ajudava a viver. Buscavam, pois, a minha companhia. Muitas vezes, por exemplo, julgavam ter-me já encontrado. A vida, os seus seres e os seus dons vinham ao meu encontro; eu aceitava estas homenagens como uma benévola altivez. Na verdade, à força de ser homem, com tanta plenitude e simplicidade, achava-me um pouco super-homem. (...) Não, à força de ser cumulado, sentia-me, hesito em confessá-lo, um eleito.
(Albert Camus- A QUEDA. Fotografia de Vanessa Braun)
Pegando no tema anterior da solidão, depois de ler este excerto não consigo deixar de pensar que este homem é um ser solitário. Considera-se um "eleito" mas acaba por ser vazio, oco. Falta-lhe a intensidade da vida.
Bjinho
Há aspectos ou vertentes nas existências (ou na Existência) que são demasiadamente frágeis e não sustentáveis. Neste caso dá-se a queda. Há, portanto, um inequívoco percurso descendente. Não creio seja possível viver com qualidade (e em qualidade) no básico, no superficial, no desprendimento, num desenraizamento com o que é, de facto, importante e válido quer numa relação eu-eu quer numa relação eu-outros.
Claro que nisto tudo as (parte das) existências supostamente muito interessantes e livres nada mais são do que capas para casos de efectiva e profunda solidão. Escapes... fugas em frente... ilusões.
É um bom livro. Mas gostei mais da "peste".
Afixado por: francisco em maio 2, 2005 08:59 AM