abril 29, 2005

O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ (3)

Luís Maria abandonava a mesa porque tinha chegado a sua hora e os outros três homens ficavam porque a deles era mais comprida, não havendo necessidade de irem para outra parte quando podiam perfeitamente continuar onde estavam e a fazerem o que lhes apetecia. E permanecia tacitamente acordado que assim devia ser, não lembrando a ninguém desafiar aquele que saía a ficar mais um pouco ou a beber mais um copo, nem aos que ainda jogavam a levantarem-se para acompanhar os passos do parceiro. Resumindo: não se faziam perguntas, quanto mais não fosse porque não se esperavam respostas. E talvez porque assim fosse, a ninguém ocorreu a proximidade da tragédia na tarde abafada em que, terminada a quinta partida de dominó e bebida a terceira rodada de ginjinhas, Luís Maria se manteve sentado no banco duro da taberna, desfazendo com o dedo médio os círculos líquidos desenhados no tampo da mesa pelas bases dos pequenos copos. A jogatina foi-se prolongando enquanto o sol, lá fora, empalidecia e o dia refrescava, pediram-se mais umas e outras ginjas, mas tudo isto sucedeu, porém, como se sempre assim tivesse sido.
Quando, enfim, chegou a hora de os homens regressarem às casas onde mulheres e jantas respectivas os aguardavam, Luís Maria ergueu-se também, pagou as ginjas e saudou com um gesto do chapéu na cabeça aqueles que ficavam, seguindo depois os três demais com o seu passo lento e abatido. Não o fez, todavia, por muito tempo, pois logo, e sem aviso, o seu corpo magro e ossudo tombou desamparado no chão, ali se quedando sem vida, porém com os olhos muito abertos de quem, no último instante, estivesse tentando ver tudo o que antes lhe escapara.
Não tendo familiares e conhecidos na vila, o corpo do velho foi depositado no hospital e ali enfiado à pressa num caixão de pinho ordinário, sem ninguém que o velasse, à excepção dos três parceiros do dominó, que nessa noite nem jantar haviam de ir, valendo-lhes à fraqueza do estômago duas garrafas de vinho e um prato de pastéis de bacalhau que um deles foi buscar à taberna enquanto os dois outros ficavam a tratar das formalidades do óbito. Quando a nova manhã despertou, luminosa e ameaçando já o calor que havia de se pôr, os três homens continuavam de roda da caixota mal amanhada, de pé e com os olhos vermelhos, segurando nas mãos os velhos chapéus de feltro negro, apenas abandonando o velório depois de o padre ter aparecido para lançar no ar os derradeiros sacramentos e encomendar apressadamente a alma de Luís Maria. E foram ainda os três que, com a ajuda do carroceiro chamado para transportar o féretro ao cemitério, carregaram o corpo de Luís Maria até ao carro, acompanhando depois a pé o trote das mulas pelo empedrado da vila.
Fosse pelo calor impiedoso do fim da manhã ou porque a notícia da morte não chegara a comocionar ninguém, não houve mais quem se incorporasse ao desfile, quase parecendo que o homem que seguia deitado no caixão já há muito estava morto na memória da gente do povoado. Quando muito, uma ou outra mulher assomaram às janelas para mirar o cortejo com as mãos postas em pala diante dos olhos, que àquela hora o sol batia nas pedras e no branco das casas de um modo que parecia capaz de cegar quem desafiasse a sua inclemente luminosidade. Se a quem olhava de longe pareceu espantoso que a passagem da carroça não fosse deixando um rastro de apodrecimento, por ser certo que, àquela hora e sob aquela brasa, Luís Maria havia já de estar sendo devorado pelos vermes que o seu corpo abrigasse, a surpresa deu lugar ao assombro quando, ao percorrer o pequeno declive da estrada que leva aos limites da vila e, imediatamente antes, ao cemitério municipal, o esquife escorregou da carroça e se partiu todo ao cair do chão, deixando o homem magro e morto estendido no pavimento. E logo a surpresa cedeu passo à paralisia do terror, pois Luís Maria, acordado pelo tombo, ergueu-se do chão, sacudiu as calças com as mãos, olhou em volta como que para perceber que raio estava fazendo deitado no meio da estrada e logo se foi sentar, caminhando devagar, no banco de ripas vermelhas do jardim que marginava a via pelo lado nascente.


(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em abril 29, 2005 05:40 PM
Comentários

tens uma sensibilidade extraordinária para escolher textos e conjugá-los com as imagens. Acho que já to disse mas repito.

beijo*

Afixado por: andreia c. faria em abril 29, 2005 06:24 PM