
Luís Maria, diz quem o conheceu em vida, isto é, na vida antes da sua primeira morte, era um homem magro e nodoso como uma oliveira jovem, porém moreno e enrugado como todo o homem afeito a trabalhar sob aquele sol, varando azeitonas ou colhendo trigo, consertando cercas ou escorando vides. Não havia quem não lhe falasse e a ele recorresse sempre que fossem precisas duas mãos e força de homem para que algum trabalho aparecesse feito. Era honesto e respeitado como tal, bom, embora calado e pouco dado a conversas fiadas, característica que se acentuara há já uns anos, desde que se finara a tia Lurdes, sua mulher e única companheira de muitos anos, devotada e estéril, pequenina e mirrada, cerzideira como não havia outra na vila, não porque fossem extraordinários os seus dotes, mas, simplesmente, porque não havia mais quem praticasse a arte de abrir casas para botões e remendar calças velhas e gastas, coser bainhas ou substituir bolsos rotos. Ficava horas nisto, sentada numa minúscula cadeirinha de madeira pintada, com um assento de vime, curvando-se sobre os joelhos e afadigando-se com as agulhas e linhas. Apenas interrompia esta prática para tratar do jantar - que seria também o almoço de Luís Maria no dia seguinte, aquecido e acondicionado numa marmita velha e enegrecida - , pelo que ali mesmo morreu, dobrada e sentada na diminuta cadeira sem que o corpo tombasse sequer no chão. Enterraram-na num esquife que parecia última morada de criança pequena, apenas um pouco mais alto, para que lá coubessem os joelhos dobrados da mulher, que arrefeceu na posição de trabalho e não houve já quem fosse capaz de lhe esticar as canelas.
Luís Maria, que até aí fora reservado e pacato, tornou-se sombrio e foi-se sumindo aos poucos, falando cada vez menos, o essencial apenas para contratar a jorna e para manter o velho hábito de jogar cinco partidas de dominó ao fim da tarde - pretexto, afinal, para beber ginjas e estar um pedaço com os compadres. Se lhe cobravam o silêncio, dizia apenas que
- Mais vale estar calado do que dizer apenas asneiras para passar o tempo. O tempo passa para quem vive e acaba para quem morre. Não tem que saber. Não se pode fazê-lo passar mais depressa.
- Alguma coisa se há-de dizer, compadre! De outro modo, parecemos girassóis.
- Essa é boa, Ti Alberto! Muito boa. Girassóis que jogam dominó!
- E bebem ginjas!, completou o ti Mário. Por falar nisso: mais quatro? Mais quatro!
E com isto soltava-se a língua aos outros três velhos. Luís Maria, porém, já havia dito tudo o tinha para dizer e limitava-se a casar as peças do dominó quando chegava a sua vez e a olhar pela porta da taberna como se esperasse por alguma coisa ou por alguém, embora soubesse que não esperava ninguém nem coisa nenhuma e, por isso, não alimentava o mais ténue traço de ansiedade de cada vez que voltava os olhos para aquele pedaço luminoso do mundo que invadia a fresca obscuridade do estabelecimento.
Terminada a terceira ginja ou a quinta partida de dominó, conforme o que sucedesse primeiro, o velho levantava-se do banco corrido de madeira, enfiava na cabeça o chapéu de feltro preto e regressava a casa sem pressas, caminhando como se o tempo não existisse. Antes de sair, o hábito impunha que apenas dissesse
- Então até amanhã
sem mais explicações ou comentários, que o convívio prolongado entre os homens tem, ao menos, a vantagem de passar a dispensar explicações ou formalidades desnecessárias.
(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)
Sei que dói, esse silêncio, Sandra.
Eu sou um homem só.
Um beijo
Zezinho:
em primeiro lugar agradeço a tua visita e comentário. Quanto à solidão: sim, é uma realidade imensa. Maior do que às vezes possamos pensar. Julgo, contudo, que devemos acreditar que não tem que ser algo definitivo. Poderá ser, tão só, uma questão de tempo. E acredita que, por vezes, vale realmente a pena a espera.
Beijinho.
Afixado por: Sandra em abril 29, 2005 09:05 AM