Inicio com este post a edição do conto que dá o título à obra de Manuel Jorge Marmelo.
"O silêncio de um homem só" é, pois, uma estória cuja abordagem se volta para a solidão e para a relação que é estabelecida entre si, a morte e o suicídio (ou entre si e a morte/o suicídio).
Estamos, inequivocamente, perante um trabalho cujo conteúdo comove e interessa bastante, atendendo à forma como a vida ou as vidas são apresentadas, quer na relação dos indivíduos consigo próprios quer na relação destes com os outros e com o meio onde vivem.
Um conto que permite olharmos muito atentamente para aquela que é a sua personagem principal, assim como permite percebermos o quanto por vezes não estamos dela tão distantes, pelos imensos reflexos que imanam sobre nós. Claro, que, sempre podemos falar de uma vertente adaptativa. Mas o fundamental é o sumo e não tanto os gomos que a fruta (específica) possa ter.

Um homem sentado num banco de grossas ripas de madeira atarrachadas num suporte de ferro fundido.
Um banco de madeira numa praça com poucas árvores e quase nenhuma sombra, ao fim de uma manhã de Verão, quente, meio-dia quase e o sol vai alto e queima tudo e faz ressequir os ramos dos dois plátanos que montam guarda ao quadrilátero que, na Primavera, chega a ter florinhas nos canteiros relvados, então verdes, agora cor-de-palha seca; e um lago redondo de águas turvas, com peixes dourados e um repuxo fraco, no meio, lançando ao ar um esguincho cansado e lento.
Uma praça numa vila de casas brancas, impecavelmente caiadas, térreas, comprimidas umas contra as outras como se deste modo pudessem proteger-se do bafo quente e seco do Estio.
Uma vila no meio de uma planície de restolho, pontilhada de oliveiras retorcidas e mirradas, uma ou outra figueira, vacas pretas e magras arranhando a língua no pasto restante. E, depois, um país triste e pequeno desdobrando-se em pequenas ondulações de terrenos férteis mas incultos, primeiro, e logo em serras e vinhedos, bosques e pinhais, cidades envoltas em fumos tóxicos, paradas de famélicos eucaliptos alinhados como exércitos, rastejando a nação até ao mar e fundindo-se à espuma das diminutas ondas cálidas que rebentam na praia em pequenos e inofensivos rolos brancos.
Por cima, um céu azul e fosco.
E, debaixo deste, um homem sentado num banco de ripas vermelhas que parecem mais grossas do que realmente são por força das sucessivas camadas de tinta plástica, que o sol seca e enche de rachas finas, como rugas, que logo esfarelam e reclamam tinta nova.
Não está só, o homem. A uma distância prudente, sob a sombra minguada de um dos plátanos que montam guarda à praça, estão três velhos, olhando o homem e olhando-se entre si, como que procurando em cada um dos outros resposta para o mais paradoxal dos mistérios - que é aquele que decide sobre a vida e sobre a morte. A poucos passos há um carroção parado, os arreios das mulas seguros na mão direita de um quinto homem, velho também - e que, talvez por isso, agarra um cajado na mão livre. As duas bestas estão quietas e mansas, mexem os cascos apenas para manter o equilíbrio sobre o empedrado do chão enquanto sacodem as moscas com revolteios das caudas. Mais atráz jaz, no meio da rua suavemente inclinada, um caixão tosco, rebentado e aberto como uma melancia que se tivesse esborrachado no chão. Não há homem nenhum dentro da caixa fúnebre e desconjuntada; aquele que lá estava é o que agora se senta no banco vermelho da praça, levemente inclinado para a frente, as mãos sobre os joelhos e os olhos vendo para além do chão de poeira que tem adiante.
É um homem só, apesar dos três amigos que se dispuseram a acompanhá-lo na última viagem e que agora o vigiam. Não há nada de novo ou de extraordinário na sua solidão. Mas é nisso que pensa desde que percorreu, com passos lentos, o caminho curto entre o caixão esborrachado e o banco da praça. É essa a certeza que lhe remorde o peito enquanto outras pessoas se vão aproximando, sem ruído, da sombra dos plátanos, detendo-se a uma distância precavida e ficando a olhar o homem sentado; formando, aos poucos, um círculo de corpos parados, como uma muralha de espanto mudo: todos vieram para ver um homem que já estava morto, cujo corpo foi velado e sacramentado, que ia a caminho do cemitério da vila, mas que agora ali está, vivo e sentado, embora quieto, no banco da praça, sendo que ninguém parece ver nisto uma demonstração dos insondáveis desígnios do Senhor, mas antes um truque barato, um floreio atroz das artes do demónio.
(Manuel Jorge Marmelo- "O silêncio de um homem só", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)
Bom Dia Sandra, não conhecia este autor (Manuel Jorge Marmelo) gostei da sua escrita e do tema que aborda, um bom tema de reflexão que nos passa ao lado na maioria das vezes! Sabes que venho aqui sempre ler as excelentes escolhas que fazes para nós, mas na maioria das vezes não consigo aceder aos comentários, e penso que não é só a mim que isso acontece! seria bom um sistema alternativo. Beijinhos
Afixado por: micas em abril 28, 2005 08:37 AM